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Desde a fundação da Federação e da Frota estelar que os humanos tentam se estabelecer como uma espécie forte na galáxia a despeito de outros seres que os olham com desprezo, curiosidade, indiferença ou como uma ameaça à paz nas estrelas.
Talvez os humanos tenham sido a espécie que se espalhou pelas estrelas mais rápido do que qualquer outra. Duzentos anos bastaram para que vários sistemas solares fossem colonizados e para alguns irmãos cósmicos eles passaram a serem vistos como uma praga incontrolável.
Foi inevitável ocorrer encontros com outras espécies que acabaram em guerras sangrentas e a atuação da Frota Estelar foi determinante para impor seus limites.
Houve também alianças com outros mundos para que partilhassem de conhecimentos e promovessem uma benéfica cooperação. Se não fosse a diplomacia, os humanos, hoje, poderiam ser uma espécie em extinção.
A Federação, composta inicialmente por raças humanóides, não poderia manter-se unida sem o seu braço militar: a Frota Estelar. Esta por sua vez não poderia manter a fama de ser onipresente sem a ajuda de naves contratadas para um cem número de serviços já que naves da própria Frota eram de número reduzido nos séculos XXII e XXIII; portanto não podendo ocupar todos os quadrantes desejados do espaço.
Estes contratos eram muito disputados, pois além de possibilitar um enriquecimento rápido, dava também prestígio e fama.
A história que lerão conta às aventuras de uma dessas naves que ajudaram a manter a Federação inteira por vários anos e sem a coragem destes anônimos heróis, os humanos teriam de desistir do sonho de viver entre as estrelas.
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo I.
Jerry Walsh estava com fome. Viagens estelares eram bastante cansativas e desconfortáveis. Principalmente nas classes econômicas e são piores quando se viaja como clandestino em uma nave cargueiro. Com o corpo moído foi assim que Jerry desembarcou na estação espacial K-7 para atender a seu estômago e poder esticar um pouco as pernas depois de vinte horas dentro de um container.
Pediu ao barman uma torta de espinafre com frango ao curry. Era um total de 314 calorias. A refeição possuía um bom valor nutricional para atender às suas necessidades. Continha proteínas, ferro, cálcio e betacaroteno. Para beber... Um suco de Kiwi cairia bem. Jerry não se dava bem com álcool. Ele o fazia fazer coisas que não gostaria de fazer e ele sempre se arrependia depois.
- No cardápio para humanos só temos purê de batata marciana com frango desidratado da Terra ou omelete rigeliano. Para beber temos vinho vindo diretamente da adega dos frades de Io, cerveja romulana, conhaque sauriano ou, se preferir, água...RECICLADA! – disse o barman acabando com todas as pretensões de Jerry.
O jeito foi ficar com o frango com purê e a cerveja, apesar de não combinarem muito. Quanto ao álcool... Bem talvez desta vez fosse diferente. Segundos depois a comida apareceu no sintetizador, pegou a sua bandeja e se dirigiu para uma mesa onde não havia ninguém sentado para poder comer em paz. Uma coisa que Jerry odiava era ser perturbado enquanto comia, e numa estação espacial o que não faltava eram chatos.
Aquela estação estava próxima a zona neutra estabelecida entre a Federação e o Império Klingon sendo comum à presença de representantes de ambas facções, apesar de não gostarem da presença uns dos outros. Vez por outra sempre acontece um quebra-quebra entre oficiais de uma nave estelar da Federação e a de um cruzador Klingon, mas isto parecia ser o charme do local, um espaço para aliviar as tensões sem ter que declarar uma guerra real.
K-7 era muito importante para muitos povos, pois representava o último posto de abastecimento para muitas rotas comerciais, sendo até preservada por facções em guerra. Era um grande entreposto. Um local de livre comércio, apolítico, onde se podia se comprar de tudo e vender para todos. Um verdadeiro paraíso vagando entre as estrelas. É claro que a comida deixava a desejar, mas qual paraíso não tem sua serpente?
Enquanto tentava se desfazer do gosto ruim da comida com alguns goles de cerveja romulana, Walsh observa um animado jogo de pôquer se desenrolando em uma mesa próxima. Passou então a acompanhar o jogo.
Eram cinco participantes. Dois humanos. Um jovem negro, careca, com próteses biônicas no olho e ouvido esquerdo. O outro, mais velho, de cabelos e bigode grisalhos, com um uniforme de capitão da Frota Estelar. Os outros três eram: um telarita, um vulcano e um andoriano. Algo raro de se ver numa mesma mesa.
- Ah,Ah! Ganhei mais uma vez! – gritou o jovem negro recolhendo as suas fichas.
- Não é possível! – reclamou o telarita segurando a mão do jovem. – É a quarta rodada seguida! O que será que você tem neste olho eletrônico? Uma visão de raio-x, talvez? – insinua o telarita.
- Senhor, isto me ofende! – diz o rapaz ao se livrar da pata do humanóide suíno.
Os dois seres estavam prestes a se confrontar quando o humano mais velho se levanta e tenta acalma-los.
- Senhores...Não há motivo para brigas.
- Como não? Este humano esteve trapaceando a noite toda! – reclama também o andoriano. A coisa parecia que ia ficar feia. Foi quando Walsh resolveu se meter onde não devia.
- Olá senhores! Se me permitem intervir, acho que tenho a solução para este caso.
- Quem é você? – pergunta o telarita.
- Walsh. Jerry Walsh. Sou um viajante em busca de emoções. Acho que temos bastante adrenalina nesta mesa, não? E aí, posso propor uma solução?
- E qual seria, humano? – argüi o andoriano.
O vulcano observa tudo sem fazer nenhum comentário. O que era de se esperar no comportamento ditado pela lógica.
- Bom... Se acusam o parceiro de vocês de trapacear por causa de um olho biônico... Então deixe-o jogar mais uma partida com o olho desativado. Se perder de vocês terão provado sua teoria e ele deverá devolver o que ganhou; caso contrário ele continua no jogo. O que acham? – Walsh sorri esperando a aprovação de todos.
Mas o que aconteceu em seguida foi que o jovem negro quase teve um ataque e partiu para cima dele.
- Ei, que negócio é esse de devolver tudo? Eu nem te conheço e você chega aqui querendo me ferrar. Seu...
- Calma, Greg. O rapaz tem razão! – diz o seu companheiro mais velho segurando-o e fazendo-o prestar atenção em um outro andoriano no balcão do bar que estava coçando seu disruptor na cintura. Diante das circunstâncias o rapaz cede.
- Está certo...- um clic e o olho se apaga. Todos voltam a se sentar. Walsh continua a tomar a sua cerveja e a assistir o jogo com certa curiosidade.
As cartas são distribuídas e os jogadores começam a apostar. O andoriano troca duas cartas. O mesmo faz o humano de bigodes. O jovem biônico troca apenas uma e o telarita três.
Mais apostas. O andoriano é o primeiro a desistir. O telarita aumenta a aposta. Todos acompanham, menos o vulcano. Era a coisa mais lógica a fazer mediante as cartas que tinha em mãos, e blefar, é claro, não era de sua natureza.
Greg, o rapaz do olho biônico, sobe a aposta. O telarita acompanha e agora era a vez do humano de bigodes desistir.
- Pago para ver! – diz o telarita.
Greg mostra as suas cartas: um full-hand. Três reis e dois ases. O telarita emite uma risada misturada com um grunhido. Para Walsh parecia ser o guincho de um porco-do-mato. O telarita mostra as suas cartas:
- Eu tenho uma seqüência! Dez,valete, dama, rei e ás de paus! Ganhei! Griiinch...Ganhei! Você está fora, humano! Deixe na mesa o que ganhou antes!
O andoriano que estava no bar se aproxima segurando a arma no cinto e isto intimida o rapaz que, furioso, larga as fichas e se retira para afogar as mágoas.
- Bem, senhores...Creio que abriu uma vaga na mesa. Posso me juntar a vocês? – pergunta Walsh.
Como ninguém se opôs, Walsh se senta, estala os dedos e com um certo cinismo pergunta:
- Alguém pode me emprestar algum?
- Mas que safado! Como quer jogar se não tem créditos nos bolsos?- protesta o andoriano.
- Isto é um abuso! – reclama o telarita.
- Eu empresto! – surpreende a todos o vulcano que depois de muito tempo abrira a boca.
- Grato, senhor vulcano, o senhor não se arrependerá.
- Espero que não. Chamo-me Sontak. O andoriano é Shevar, o telarita é Targ e ao seu lado está o capitão Vallis. O rapaz que parece ter salvo a vida chama-se Greg.
- Bom, já que estamos apresentados, vamos começar. Estou com um pressentimento que esta noite vai ser boa!
De fato. Duas horas depois e algumas canecas a mais, a sorte parecia sorrir para Walsh. Ele havia limpado o andoriano, o telarita e o vulcano, que havia sido o primeiro a se retirar do jogo, demonstrando uma grande prudência.
Só havia sobrado o velho e ele. As cartas foram distribuídas uma vez mais e ambos trocaram apenas uma carta. Duas rodadas depois, Walsh aumentou a aposta de tal forma que o velho capitão não tinha como cobrir. Contudo ele era um osso duro de roer e não queria desistir, então fez uma proposta.
- Não me resta mais nenhuma ficha... Quero apostar a minha nave, aceita?
Greg, ao escutar tal proposta, tenta se manifestar e é detido por Sontak, o vulcano. Ele queria ver no que aquilo iria dar.
-Sua nave? Pensei que ela pertencesse a Frota Estelar...
- Não. A nave é minha. Uso este uniforme por força de um contrato mercante de arrendamento.
- Mas se eu ganhar terei que ficar com o seu contrato também... – pondera Walsh.
- Sim, mas eles pagam bem. Além do mais você parece ser do tipo que gosta de aventura e garanto que encontrará várias a bordo de um cargueiro espacial.
Walsh olha em volta e uma pequena multidão. Na verdade era uma dúzia de pessoas, acompanhavam o jogo e aguardavam ansiosos pela sua resposta. Ele não iria desapontar o seu público.
- Aceito! – Walsh apertou a mão do capitão Vallis em meio uma ovação entusiasmada dos que estavam ao redor.
- BARMAN! – gritou Vallis. – Um pad, por favor. Vou redigir um contrato. – em dois minutos o documento foi feito, porém só seria assinado depois que mostrarem as cartas. O barman ficou de juiz.
- Agora que fiz minha aposta é a sua vez, garoto. Mostre as suas cartas.
Um momento de hesitação e apreensão foi sentido pelo público. Jerry abaixa a mão lentamente e revela o seu jogo: Dois pares. Um de valete e outro de dez. Um jogo fraco. Walsh começou a suar mais forte. O velho sorri e abaixa sua mão: um par de damas. Somente um par de damas!
Um grande OOOOHHH é ouvido. O velho cumprimenta Walsh.
- Parabéns, meu jovem. Você é o novo proprietário de um cargueiro espacial. Agora o capitão Jordan Vallis é o mais novo pobretão da galáxia!
Walsh aperta a mão do seu infeliz parceiro ainda um pouco atordoado com sua maré de sorte. O que ele faria com um cargueiro? Nunca tinha pilotado uma nave. Não sabia nada de comando mal sabia reconhecer as constelações.
O barman recolhe as fichas e troca por créditos. Entrega a Walsh o documento de posse devidamente assinado.
- Venha meu jovem. Creio que ainda me sobrou algum para pagar uma bebida. – convidou Vallis.
- Ora, que isso... Deixe por minha conta. Uma rodada para todo mundo! – Walsh era um esbanjador.
- Calma meu jovem...Não comece a esbanjar. Venha. Quero apresentar melhor a sua tripulação.
Aproximando-se do bar, Walsh vê o vulcano e o jovem negro conversando.
- Gregório Kanem Iorubá, nigeriano e o melhor piloto da galáxia. Entende tudo de navegação também. É um ótimo tripulante. Pode confiar a sua vida a ele. – elogia Vallis.
- É um prazer. Sua intervenção salvou a minha vida. Não achei que aquele telarita estúpido iria desconfiar do meu truque. – disse num sussurro e rindo.
- Não foi nada. – diz Walsh com modéstia.
- Este você também já conhece. Sontak é o melhor batedor e comerciante que já conheci. Conhece bem a arte de negociar. Seria um excelente diplomata. Ele sabe usar a palavra na hora certa.
- O vulcano e o rapaz estavam juntos com você? Ora, ora...Que esperteza! - Walsh cumprimenta Vallis com um cutucão na barriga.
Sontak cumprimenta Walsh e aproveitando a ocasião vai logo fazendo uma proposta de negócio:
- A propósito... Como emprestei créditos para a sua empreitada devo lembrar que está em débito comigo.
- É claro! Quanto devo? – Walsh já ia revirar sua bolsa quando Sontak complementa as suas intenções.
- Na verdade gostaria que aceitasse como parte de um investimento que queria fazer a muito tempo.
- Que investimento? – Walsh não estava entendendo aonde o vulcano queria chegar.
- Proponho sociedade nos negócios com o cargueiro. Na verdade o capitão Vallis está sem trabalhar a vários meses. Apesar do contrato que tem com a Federação ainda valer por mais um ano, só recebemos quando prestamos algum serviço. O capitão tinha esperanças neste jogo para resolver nossa situação financeira. Entendo que foi um ato ilógico e desesperado, típico de humanos. Contudo as chances pareciam boas. Três contra dois. Todavia, quando se trata de jogos com cartas, existem muitas variáveis que não pude prever.
Walsh estava começando a achar que estava embarcando em uma nave rumo a um buraco negro; ou, como se dizia antigamente, em uma canoa furada.
- Péra aí! – Walsh mudou de semblante. Vallis e Greg quase engasgaram com suas bebidas. Jerry estava se sentindo traído. O pior desta história é que ele foi traído pela sua própria ambição. – Você está me dizendo que herdei uma nave cheia de dívidas com a tripulação? Quanto isto vai me custar? – Jerry toma os copos de Vallis e Greg que ficam encabulados com aquela situação.
Sontak, com toda a calma, procura esclarecer melhor a situação:
- Precisamente. Pelo meus cálculos você obteve na mesa de jogos dois mil e duzentos e cinqüenta créditos. Com os cinqüenta créditos iniciais que eu emprestei mais as dívidas somadas com a tripulação resta para você... – Sontak fez uma pausa e concluiu – Cinqüenta créditos!
- Eu vou querer os meus quatrocentos créditos agora, se não se importa. – cobra Greg.
Walsh estava paralisado. Ele não sabia se chorava, gritava ou se ria de seu azarado destino. Vallis aproveitou a ocasião para sair a francesa.
- Desculpa garoto, mas parece que, afinal de contas, eu consegui resolver o meu problema e o da tripulação. Agora devo me despedir. Vou poder me aposentar e curtir umas férias que não tiro a quinze anos. Os andorianos estão indo para Argelius II e aceitaram me dar uma carona. Vida longa e próspera, Sontak. Oxalá o proteja Greg. – o antigo capitão retira a sua blusa de capitão, entrega a Walsh e em seguida dá-lhe um tapinha de consolo nas costas e parte para uma nova etapa em sua vida.
- Estou falido! O que vou fazer agora? – Walsh mal conseguia falar.
- Vamos para a nave. Creio que o resto da tripulação está ansiosa para saber do resultado de nossa empreitada. Eles ficarão muito contentes em ter um novo capitão e melhor... Saber que irão receber após todo este tempo. – sugeriu Greg abraçando Walsh e conduzindo-o, ainda atônito até a ala de atracação. Walsh paga a sua conta, pega a sua mochila e segue, sem muita opção, seus novos companheiros.
- Sontak para a Aurion...Estamos indo a bordo com um novo capitão. – diz o vulcano através de um comunicador.
COMO ASSIM UM NOVO CAPITÃO? – responde uma voz incrédula.
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo II.
A SS Aurion, ECS 405 era uma banheira velha, como se diz na gíria espacial. O modelo básico era de uma nave da Classe Moskva de 2180 com algumas pequenas alterações e atualizações. Devia estar vagando pelo espaço a pelo menos oitenta e sete anos, quando a vida útil recomendada, de uma nave construída pela Frota Estelar, era de cinqüenta anos. Ela possuía alguns remendos e arranhões no casco. Suas naceles, todas as quatro, eram de um cruzador do tipo Constitution. Tinha 161 metros de comprimento e uns 68 de altura. A parte habitável se resumia na seção disco com oito conveses e sete seções. Seus propulsores atingiam, em velocidade cruzeiro, no máximo 3.6 warp; mas poderiam atingir, de acordo com o manual, 4.8 warp. Quanto ao armamento era uma piada. Oito torres laser, um canhão dianteiro laser do tipo Stinger e capacidade de armazenamento de até 22 torpedos de fusão.
O melhor dela era a área de carga atada abaixo da nave. Um grande container, removível, de uns 200 metros de comprimento com 50 metros de raio. Podia caber bastante coisa o que era bom para os negócios. Contudo, o pouco que Walsh viu pela escotilha da estação não o agradou. Na verdade estava começando a entrar em depressão. Infelizmente o pior ainda não havia acontecido. Ao atravessar a comporta que unia a nave à estação, Walsh deu de cara com a pessoa mais antipática que conhecera em toda a sua curta existência no universo: Karen Zorian, a engenheira-chefe da nave.
- Este é o novo capitão, unh? Muito bem. Pague o que me deve e depois conversamos sobre a renovação do meu contrato. Mas vou logo avisando. Meu preço subiu.
Ela era uma morena de cabelos curtos despenteados e espetados. Usava um macacão preto e tinha um forte aperto de mão. Walsh sorriu um pouco desconcertado tentando fechar a mão novamente após o cumprimento, mas tinha a sensação que quebrara todos os dedos.
- O prazer... Uh... É todo meu. Quanto te devo?
- Quatrocentos créditos. Cem créditos por mês em que estamos parados.
Walsh retira umas plaquinhas metálicas douradas de uma sacola e paga a dívida.
- Jordan era um canalha, mas pelo menos arranjou um jeito de nos pagar. No fim acabou sendo um homem honrado.- comentou a engenheira.
- Não gostava de seu capitão? – perguntou Walsh.
- Ninguém gostava e quem disser o contrário está mentindo. Ele era capaz de vender a própria mãe para os klingons se isso fosse lhe render algum lucro. Fui sua imediato por seis anos. Cheguei a arriscar a minha vida por ele, e qual foi o meu reconhecimento? Todo este tempo escutei promessas vãs de enriquecimento rápido e uma aposentadoria que valeria a pena. E o que aconteceu? – Walsh balançou a cabeça negativamente. Ela parecia furiosa e ele não queria interromper o seu discurso. – Eu ainda estou aqui com calos nas mãos e com um bando de fracassados vagando pelo espaço.
- Deixe de lamúrias, Zorian. Vamos levar o patrão para conhecer o resto do pessoal. – diz Greg.
- Deixe de ser puxa-saco negão. Se quiser a minha patente ela é sua. Quanto ao que restou da tripulação estão todos no refeitório comendo o que sobrou na dispensa. Por falar em comida...Trouxe o café que pedi?
Greg bate com a mão na testa. Sabia que tinha esquecido alguma coisa. Zorian fica furiosa e deixa o recinto resmungando algo ininteligível.
Os três então se dirigem até o refeitório da nave. Ao abrir das portas Walsh observa os dois membros restantes da tripulação.
- Esta é todo o resto da tripulação? – Walsh estava desapontado. Sentados em volta de uma mesa estavam um rapaz franzino de cabelos lisos, compridos e ralos que lhe cobriam o rosto; e uma jovem mulher mulata, de físico atlético, com cabelos pretos compridos e volumosos.
- Éramos cinqüenta. Só os mais resistentes e crédulos ficaram. – falou a jovem.
- Senhores, este é o nosso novo capitão, senhor Jerry Walsh. – apresentou Sontak.
- Novo capitão? O que houve com Vallis? – perguntou a moça.
- Ele perdeu a nave num jogo de pôquer, ok? – esclareceu Greg.
- Ele o quê? – a garota parecia não acreditar. O rapaz ao seu lado continuava a comer sua ração e acompanhava tudo sem esboçar nenhuma reação.
- A jovem indignada é a nossa oficial de segurança, senhorita Brenda Kovack. Ela é seu número dois. – continuou Sontak com as apresentações.
- Número dois? – Walsh demonstrava sua total ignorância quanto à hierarquia dentro de uma nave espacial.
- Ele quer dizer que no caso da comandante Zorian ou o senhor não puderem assumir o comando, eu assumo a ponte. – explica a jovem.
- Ah, saquei! – diz Walsh sem muita convicção de ter realmente entendido.
- O rapaz mudo é nosso oficial de comunicações e expert em eletrônica, Maurice Savon. – Sontak apresentou o jovem que estava cutucando uma placa de circuito com uma chave de fenda. Ele respondeu a apresentação com um leve aceno de cabeça e continuou seus afazeres como se nada de extraordinário estivesse acontecendo.
- Ele é mudo? – perguntou Walsh discretamente a Greg.
- Não na verdade. Ele não gosta de falar muito.
Neste momento Zorian reaparece na porta do refeitório e faz uma pergunta:
- Bom, capitão, quais são as suas ordens?
Walsh não sabia o que responder. Ao olhar aquela tripulação só conseguia pensar que gostaria de voltar para a estação e beber até acordar daquele pesadelo.
Sontak resolve mostrar serviço livrando seu novo sócio de um constrangimento.
- O capitão Walsh está para fechar mais um contrato com a Federação.
- Eu estou? – Walsh estava intrigado. Greg o cutucou para que ele ficasse na sua e deixasse o vulcano falar.
- Os salários serão pagos. A partir desta data estelar sou o novo tesoureiro e novo sócio da Aurion, minoritário, é verdade. Mas eu é que serei responsável pela escolha dos contratos devido as minhas qualidades óbvias de discernimento sobre as probabilidades de maior obtenção de lucros.
- O lobo no meio das ovelhas. – comenta Zorian rindo.
- Eu escutei isto, Zorian.
- Como se fosse impossível. – respondeu Zorian fazendo uma referência lógica a grande capacidade auditiva de um vulcano.
Nem Greg nem Kovack gostaram do que ouviram e começaram a discutir com Sontak. Até que Zorian resumiu a situação.
- Quer dizer que saímos das mãos do sovina do Vallis para trabalhar para um fedelho que não sabe diferenciar um cristal de dilithium de um torrão de açúcar, e um vulcano com alma de ferengi? Que ótimo!
- Ei, olha o respeito! – agora quem se sentia ofendido era Walsh. Ele não era um fedelho. Ele tinha já vinte e cinco anos!
Sontak se vira, se aproxima da engenheira e a encara lançando-lhe um olhar ferino.
- Se pretende continuar nesta nave terá que seguir as nossas ordens. Caso contrário pegue as suas coisas e desembarque.
- É o que eu devia fazer. Só que você sabe que eu não tenho para onde ir. Não tenho família e minha ficha não é muito limpa para ser aceita pela Frota Estelar. O que será de mim? Estou com vocês há cinco anos e ninguém conhece esta nave tão bem quanto eu. Cada remendo, cada nova placa de circuito desta nave foi feito por mim. Na verdade se eu sair vocês explodem no espaço em uma semana. Acho que vocês precisam de mim tanto quanto eu preciso de vocês.
- Temos um acordo? – pergunta Sontak.
- Parece que sim, por seiscentos créditos.- responde Zorian.
- Quatrocentos.
- Quinhentos e cinqüenta.
- Quatrocentos.
- Quinhentos e nenhum crédito a menos.
- Quatrocentos e cinqüenta.
- Feito! – conseguir que o vulcano lhe desse aumento era um feito notável.
- Agora peça desculpas ao capitão. – pede Sontak.
- O quê? - Zorian estava achando que o vulcano estava abusando da sua autoridade.
- Não é necessário... – Walsh estava com receio da reação da engenheira.
Brenda olhou para ela e cerrou os olhos como quem diz: Vai, pede desculpas, não custa nada... Zorian se sentia humilhada e Sontak só agia assim com ela porque sabia que ela precisava mais de um lar do que de um emprego. A engenheira engoliu o orgulho e estendeu a mão para Walsh; que deu um pulo para trás pensando que seria agredido.
- Sontak está certo. Eu me excedi. Peço desculpas, SENHOR!
Jerry Walsh não conhecia nada de seu novo ofício, mas ele sabia que possuía carisma e um bom discurso. Resolveu tomar a palavra pra si antes que o tomassem por um completo idiota.
- Olha aqui, pessoal. O destino me deu uma boa mão e aqui estou. Realmente não entendo nada da arte de comandar, ou sobre pilotagem e navegação, ou até mesmo sobre comércio interplanetário. Mas o que me motivou a viajar pelo espaço foi querer viver aventuras e aprender com elas. Posso ser jovem, mas não sou um completo estúpido. Tenho capacidade de aprender e estou certo que aprenderei muito com vocês. Será um grande desafio ser seu capitão e espero deixá-los orgulhosos, com o tempo, com meu desempenho. Senhores...É uma honra fazer parte desta tripulação que ajuda na unificação da Federação através de um trabalho anônimo, porém de extrema coragem.
Walsh foi ouvido com atenção por todos e chamou a atenção do estranho rapaz francês que levantou e veio cumprimenta-lo.
- Bem vindo a bordo, capitão.
Todos se espantaram com a atitude do rapaz e Walsh teve a certeza que, depois daquele gesto, ele não demoraria em ganhar a confiança de todos.
Brenda lhe serviu um café e o convidou para se sentar. Ela perguntou como foi que ele conseguiu a nave e Walsh assessorado por Greg passaram a contar os detalhes da aventura. Enquanto isto Zorian e Sontak foram conversar mais afastados.
- Você sabe que isso não tem como dar certo.
- Você já ouviu falar do IDIC?
- Lá vem você com aquelas baboseiras de filosofia vulcana...
- Ele tem grande potencial, Zorian. Dê uma chance ao rapaz.
- Só espero estarmos todos vivos quando você perceber que tudo isto foi um erro.
- Isto não acontecerá. Eu jamais erro em um julgamento de caráter.
- Foi à mesma coisa que ouvi quando conhecemos Vallis.
Sontak ergue a sobrancelha expressando assombro com a memória da engenheira e engole em seco esperando não estar errado de novo.
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo III.
Se passou uma semana desde que Walsh se tornou dono de um cargueiro ganho num jogo de pôquer. Durante este tempo ficou se familiarizando com a nave e a sua ínfima tripulação, que não lhe dava muita atenção. Com a exceção de Greg que parecia ser o único que ia com a sua cara e estava sempre de bom humor. Chegava até a lhe desafiar para algumas partidas de holo-games. Kovack estava sempre se exercitando no ginásio já que não tinha como exercer a sua função. Savon estava sempre andando de um lado para o outro parecendo estar fazendo algo muito importante, carregando peças de maquinário que aparentemente não serviam para coisa alguma. Jerry não tinha a mínima idéia no que o francês se ocupava. Zorian estava sempre realizando alguma manutenção e parecia a única que realmente trabalhava o que a deixava muito irritada toda vez que passava por ele. Já seu sócio, o vulcano Sontak, ficava debruçado no console de comunicações tentando fazer contato com empresas e governos filiados à Federação para conseguir os contratos de trabalho para tirar todos daquele tédio. Infelizmente até aquele momento ele não havia obtido sucesso.
No refeitório Zorian tentava obter uma bebida no sintetizador que havia quebrado mais uma vez. Aquilo foi à gota d'água. Ela ficava mais mal humorada se não conseguisse tomar o seu café.
- Droga! – bravejou após dar uma porrada na máquina. - Não tenho mais peça para consertar esta porcaria. Precisamos de créditos para deixar esta nave funcional. O que será que aquele demônio de orelhas pontudas está fazendo lá em cima? O que diz o seu capitão? Ele não estava preste a conseguir um contrato? Já estamos a uma semana esperando!
- Calma Zorian. Eu creio que ele e Walsh estão fazendo o melhor possível. – respondeu Greg que estava sentado à mesa lhe fazendo companhia.
- Nós poderíamos ir para outros sistemas em busca de trabalho. A Federação não exige exclusividade. Estamos mofando aqui.
- A estação K-7 é um entreposto importante no quadrante onde várias naves de vários sistemas acabam passando por aqui. Sontak e Walsh acabaram conseguindo algum trabalho para a gente.
- Walsh,Walsh,Walsh! Você leva muita fé neste cara. Ele é só um garoto que come, dorme e sonha com as mulheres de Mudd. Quanto a Sontak ele não tem sentimentos. Ele é vulcano, lembra? Ele está pouco se lixando para nós!
- Sei que, como vulcano, ele deve estar com as orelhas bem abertas às boas oportunidades.
- Você é muito otimista, Greg. Por mim já teria pegado minhas coisas e tentado voltar para Europa para arrumar algum trabalho. Ou quem sabe na estação Júpiter...
- Você já teve a sua chance e não foi embora. Ademais o que você faria naquela lua inóspita? Pelo que me lembro você não tinha enjoado daquela paisagem?
- Você sabe...Eu cresci lá. Talvez voltasse para matar as saudades. Meus pais trabalharam lá como engenheiros por toda vida até acontecer o acidente. Apesar de tudo eu tenho boas recordações de lá. – toda vez que Zorian mencionava seus pais era num tom melancólico algo que ela não demonstrava para qualquer um.
O bip do intercom soou. Era Sontak.
Zorian, peça ao capitão que venha até a estação. Tenho boas notícias.
Zorian levantou para responder: - Por que você não o chama também pelo o intercom?
Já o fiz. Ele não respondeu. De acordo com os sensores da nave seu metabolismo está muito baixo. Creio que esteja dormindo.
- Tudo bem. Eu vou pegar o moleque. Zorian desliga.
- Parece que terá que adiar seus sonhos de tirar umas férias. – brinca Greg com a engenheira.
- Já estou de férias há quatro meses. Só espero que as notícias sejam boas mesmo ou então aquele vulcano vai se ver comigo.
Walsh estava sonhando que era um mercador de Orion e era alimentado por uma mulher de pele azul e outra de cor verde com uvas na boca quando é acordado com um tapa na perna.
- O que foi? Qual é a emergência? Estamos sendo atacados? – pergunta apavorado.
- Sontak nos espera na estação. Acho que ele conseguiu trabalho para nós.
- Ótimo! Agora me deixe dormir... – Walsh mal tem tempo de agarrar novamente seu travesseiro. Sua imediato o puxa da cama com violência e quando ele se dá por si, já estava andando em direção a comporta de atracação. Sontak os aguardava do outro lado.
- Capitão Walsh, que bom vê-lo tão bem disposto.
- Se você não fosse vulcano diria que está curtindo com a minha cara. Eu não acordo antes das nove da manhã e muito menos sem tomar uma boa dose de café brasileiro extra forte. A propósito, que horas são?
- Quatro da manhã, de acordo com o fuso horário local. – informa Sontak.
- O quê?!- Walsh não acredita nos seus ouvidos.
- Muito bem, vulcano, o que tem para nós? – pergunta Zorian sem rodeios.
- São três contratos. Um deles é informal. Custo dois mil créditos. Pagamento: dez mil créditos. Lucro estimado de ... – antes que Sontak termine a frase, Walsh desperta e completa em voz alta:
- Oito mil créditos!
- Na verdade sete mil e setecentos deduzindo a minha comissão.
- Comissão? Que negócio é esse de comissão? Você não falou nada de comissão...
- Está no nosso contrato que assinou.
- Eu assinei? Droga era aquelas letrinhas pequenas, não eram? É claro! Eu devia ter prestado atenção. Afinal como conseguiu estes contratos?
- Com muita paciência e sabedoria na hora de negociar.
- E o que é afinal? – pergunta Zorian impacientemente.
- Um contrato com a Federação para retirar maquinário de Cestus III. Uma colônia que foi destruída por estar em espaço pertencente a uma raça reptiliana chamada Gorn. A Federação está negociando um tratado. Enquanto isso devemos recuperar o que sobrou de uma estação de pesquisa e transportá-lo para uma nova colônia.
- Este parece coisa quente. Não terá nenhum perigo? – Walsh estava receoso.
- Conversei com o embaixador Dupont, o responsável diplomático, e ele me garantiu a segurança através do espaço Gorn com uma escolta do cruzador espacial mais próximo daquele setor: a USS Hood.
- Se a Frota Estelar pode enviar um cruzador por que ele não faz o serviço?- indaga Zorian.
- Parece-me que a Hood tem outra missão e não poderia executar as duas tarefas em tempo hábil. Ela está refazendo o seu curso para nos dar uma pequena acessória e depois estaremos por nossa conta.
- Parece que, se acontecer o pior, um cargueiro é mais descartável do que um cruzador. – comenta Zorian.
- Sua suposição não é toda infundada. Fiz uma pequena pesquisa e verifiquei que, no momento, a Frota Estelar conta, na ativa, com nove cruzadores, 20 destróieres, quinze fragatas e 15 cargueiros dispersos pelo quadrante alfa. Inexplicavelmente nenhuma dessas naves está disponível. – explica Sontak.
- Parece que nos querem como cobaia. Não gosto nada disso. – Walsh ainda não estava convencido.
- Bom se a Frota Estelar garante escolta pela maior parte do percurso na ida e volta... – Zorian parecia conformada. - E quanto aos outros contratos?
- Carregamento de bebida. Conhaque sauriano para Janus e cerveja romulana para a base estelar 375.
- Mas cerveja romulana não é ilegal? – pergunta Walsh com certa ingenuidade.
- Eu disse que um deles era informal. – diz Sontak se utilizando de eufemismos.
- Alguns engradados o próprio capitão da Hood irá adquirir. O lucro será satisfatório. Eu prometo. Só preciso de suas assinaturas nestes contratos. – Sontak oferece os pads e as canetas eletrônicas.
- Bom se o meu sócio assim diz...Pra mim está ótimo! – Walsh bateu nas costas do vulcano, que nunca foi chegado a intimidade e evitava a todo custo o contato físico. Principalmente com seres diferentes da sua espécie.
- Agora, pelo amor de Deus...Aproveitemos que estamos na estação e sintetize uma xícara de café pra mim, imediato.
Zorian fulmina Walsh com um olhar e volta para a nave.
- Acho que terei eu mesmo que fazê-lo. Ela sempre foi durona assim?
- Zorian é uma boa moça. Evite provocá-la. Demora para alguém ganhar seu respeito.
- Alguém já conseguiu?
- Creio ter ouvido que gostas de desafios...
Walsh sorri. Ela seria um desafio e tanto.
- Bom agora o senhor deve vestir o uniforme.
- Uniforme? Que uniforme?
- Quando sob contrato da Federação o senhor deve vestir o uniforme de capitão da Frota Estelar. A tripulação não é obrigada, mas todos nós devemos respeitar os regulamentos, normas e tratados da Federação.
- Mais essa agora... Como é que eu vou saber desses regulamentos e normas?
- Eu posso assessorá-lo nesta parte também. Conheço bastante estes assuntos. Eu já cursei alguns anos de diplomacia em vulcano e...
- Está bem, Sontak. Fico-lhe agradecido. Como será que a Zorian ficaria de uniforme?
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo IV.
Diário de bordo, data estelar...
- Qual é a data mesmo? – pergunta Walsh demonstrando, mais uma vez, sua total incompetência sentado na cadeira de comando.
- Três, um, quatro, dois, ponto Três; senhor. – informa Zorian com uma certa má vontade.
- Obrigado, imediato. – Walsh sorri. Ele gostava de ver a imediato nervosa. Insistiu em testar a paciência dela com novas perguntas.
- Mas como é que eu sei que data é essa?
- Existe uma tecla em seu pad para converter uma data planetária para uma data estelar. O programa tem pelo menos calendários de cento e cinqüenta planetas da Federação ou alinhados. – explica Zorian pacientemente.
- E esta tecla seria ...?
A pouca paciência de Zorian se esgotara. Ela sai de seu posto e vai até a cadeira de comando e aperta o botão que Walsh estava procurando, em seguida volta ao seu console.
- Ah! Nove de outubro de 2267! Legal! Assim fica mais fácil de se entender. Por que não gravamos o registro com o calendário da Terra?
- Por que ele não é o padrão usado pela Federação. A data Estelar pode ser usada por vários mundos. É uma questão de padronização. Uma vez que um diário é recuperado ele pode ser facilmente identificado como pertencente à Federação e transcrito rapidamente.– explica Greg dessa vez.
- Bom...Que seja... Lá vai...Silêncio na sala... :
- Diário de bordo; data estelar 3142.3
Estamos rumando para o sistema estelar Cestus. Um setor do espaço reclamado pela Confederação Gorn. Uma colônia da Federação foi atacada mês passado por violar, sem ter conhecimento, o território deste povo sendo totalmente obliterada. A USS Enterprise socorreu as vítimas da colônia e travou uma pequena batalha com a nave agressora. De acordo com os relatórios da Frota Estelar, algo surpreendente ocorreu. Uma outra raça formada de entidades extra-corpóreas, de imenso poder, denominada Metrons que interferiram no conflito forçando as duas partes a chegarem em um acordo. Agora, prestes a assinarem um tratado de não agressão e um de cooperação mútua; fomos chamados para auxiliar na relocação oficial da colônia para um planeta em outro sistema, ainda a ser confirmado.
Greg , Zorian e Savon ficaram olhando para Walsh surpresos com o bom relato que acabaram de ouvir. Greg teve que fazer um comentário.
- Homem...Você realmente sabe usar as palavras.
- Parece que fez seu dever de casa. – comenta Zorian.
- Está surpresa por eu ter lido os relatórios? Era o meu dever não? Além do mais com tanto tempo livre e a tão pouca literatura que vocês tem a bordo, eu tinha que ler alguma coisa.
- Eu retirei os arquivos literários do computador. Estava ocupando um espaço precioso de memória nos bancos de dados. Se algum tripulante gosta de ler ele que traga seus próprios hiper-textos ou e-books. Além do mais, com tanto trabalho a bordo de um cargueiro um tripulante não terá tempo de ficar lendo. É trabalhar, comer e dormir.
- Ocupando espaço na memória? Qual o modelo do computador a bordo? Um Pentium oito? Ora que isso, Zorian...Os textos não ocupariam nem um Terabyte...Você deve ter algum problema com romances ou aventuras. Os seus manuais técnicos você não apagou, não é? Aposto que não!
- O espaço não é local para se ficar pensando em romances ou aventuras. Aqui tudo é uma questão de sobrevivência. Além do mais isto não foi idéia minha. Foi de Sontak. Ele achou que aumentaria a eficiência da tripulação se ela se concentrasse em outras coisas.
- Quer dizer que vocês ficam meses no espaço sem nenhuma diversão?
-Temos jogos sim. Xadrez tridimensional, gamão rigeliano, um ginásio para exercícios; mas somente a tenente Kovack usa de vez em quando. E é claro, alguns holo-games infantis que o senhor Iorubá se recusou a deletar como o senhor mesmo já pôde verificar.
- Não quero ser um capitão de uma tripulação triste. A alegria é essencial para um melhor desempenho em uma empresa. Não me surpreendo que isto tenha partido de Sontak, afinal ele é vulcano e abomina emoções. Vou ter que discutir com ele a esse respeito.
- Boa sorte. – incentiva Greg não acreditando muito em que seu capitão obtivesse sucesso.
- Quanto aos novos tripulantes? Quantos Sontak conseguiu contratar em K-7?
- Não muitos. Não pudemos dar muitas garantias e as pessoas que passam por K-7 não são a fina flor do universo, como o senhor sabe. Apenas dez.
- DEZ! Como vamos manter toda esta nave funcionando com apenas...- Walsh faz uma pequena conta mental – DEZESSEIS PESSOAS!
- Quatorze, se excetuarmos o senhor e Sontak.
- Como assim? Quer dizer que eu não faço nada? Eu fiz o diário... – Walsh se sentia desprestigiado.
- Não estou desdenhando sua IMENSA capacidade na capitania da nave. A nave é grande, mas para as seções vitais é o suficiente para darmos conta. O senhor e nosso amigo vulcano só serão úteis quando chegarmos ao planeta. Lidar com as pessoas será o negócio de vocês. Eu estou escalando seis tripulantes para a engenharia que, junto comigo, trabalharão no monitoramento dos motores, do núcleo de dobra, dos refrigeradores e do suporte de vida. Vamos trabalhar em 3 turnos de oito horas e em dupla. Outros dois irão para a cozinha; por que Deus sabe o quanto precisamos de alguém que faça uma comida sem ser proteína ressequenciada; e os dois restantes para a ponte no lugar de Greg. É claro que muitas funções ficarão no automático e teremos que acumular algumas funções, mas creio que conseguiremos. Afinal de contas no último mês éramos apenas seis.
- UAU! Vai ser puxado. A Frota recomenda trinta e sete oficiais para uma tripulação de 161 pessoas em uma nave da Classe Moskva. Eu li isto em algum lugar...
- Não pense que aqui nos guiamos sempre pelos manuais e regulamentos da Frota. A vida num cargueiro, capitão, é dura. Quando tivermos mais contratos aumentaremos o efetivo. Por enquanto vamos ter que nos virar com o que temos. Aqui tem toda a escala de serviço, inclusive a sua. Eu ia apresentar logo mais, mas já que tocou no assunto.
- Hummm...- murmura Walsh lendo a prancheta eletrônica que lhe foi fornecida. – Ei! De acordo com a escala eu deixo o meu turno em dez minutos. Qual o horário previsto de chegada em Cestus III?
- Estaremos lá em duas horas e vinte e três minutos, capitão. – informa Greg.
- É, pelo menos dará para tirar uma soneca. Alguma coisa lá fora, senhor Savon?
- Desculpe, senhor...
- O capitão quer saber se os sensores captam alguma coisa ou se há alguma comunicação enviada. – Zorian tentava esclarecer a situação ao seu colega que estava meio aéreo.
-Ah, oui,oui. Un moment... – faz umas caretas como se estivesse ouvindo algo e depois responde a pergunta – Não. Não capto nada. Sem mensagens também.
- Muito bem então. Vou para o meu alojamento. Creio que devo passar o comando, certo?
- É o protocolo. – concorda Zorian.
- O comando é seu, comandante Zorian. Este negócio de ser capitão me dá uma fome...Acho que vou passar antes na cozinha para ver como os novos cozinheiros estão se saindo. Espero que pelo menos eles saibam fazer um sanduíche. Há tempos que não como um. Até logo pessoal e bom trabalho. – Walsh segue para a porta que leva ao corredor anexo onde está o turbo elevador. Quando ele sai, seus colegas ficam a especular sobre o destino do capitão.
- Quanto tempo você acha que ainda agüenta? – perguntou Greg aos demais.
- Um, talvez dois meses mais. Por enquanto ele está achando isto tudo uma farra. Um parque de diversões particular. Quero ver quando tiver que tomar decisões de vida e morte. – responde Zorian.
- Eu acho que ele fica por seis meses. Ele me parece ter fibra. Ele é muito jovem mas tem um olhar ambicioso como se o universo lhe devesse alguma coisa. E você, Maurice?
- Moi? Eu penso que ele pode ser melhor do que Vallis. Acho que ele vencerá as dificuldades que encontrar.
- Quer apostar nisto, mon ami? – desafia Zorian.
- Eu posso parecer meio maluco, mas não sou doido. Meus créditos terão um destino melhor. Estou guardando para montar meu estúdio musical na Terra.
- Música? Qualquer computador faz música. Quem é que iria dar valor ao seu trabalho?
- Aí é que está a questão. Tenho um projeto de voltar as raízes. Usar instrumentos e músicos de verdade. Acabar com a estagnação cultural. Não teremos mais que importar músicas de outros mundos. Será uma novidade.
Zorian não queria ser desmancha prazeres dos sonhos de seu pequeno amigo. Resolveu passar o desafio para outro.
- E quanto a você, Greg? Quanto apostaria?
- Deixa-me ver... Uma caixa de cerveja romulana?
- Feito. Nada de comentar com Sontak. Ele odiaria saber que estamos negociando com a sua mercadoria.
No caminho para o seu alojamento, mastigando um grande sanduíche, Walsh escuta alguns grunhidos vindos de um alojamento. Resolve se aproximar e escutar na porta, mas ela se abre e ele cai aos pés de Brenda Kovack, a oficial de segurança mais gostosa que ele já viu na vida.
- Posso ajudar em algo, capitão?
Walsh olha para cima e vê aquela linda mulata de quase dois metros de altura numa malha apertada e pingando suor. Se ela podia ajudar? – pensou ele. Claro! Oh, se podia!
Ela lhe estendeu a mão para ajuda-lo a levantar. É claro que ele não recusou.
- É que eu estava passando e ouvi... – Walsh, constrangido, tenta explicar a sua presença.
- Oh, sei... Eu estava treinando, sabe? Artes marciais. Um pouco de karatê, Kung Fu, Jiu jitsu, Krav Maga ... Essas coisas.
- Pensei que ... Você luta tudo isto? – Walsh estava espantando com o quanto aquela mulher podia ser perigosa.
- Claro. Sou bem graduada em várias técnicas. Inclusive algumas alienígenas. Sei até fazer o toque vulcano. Na verdade só luto em último caso. Nunca saio da nave sem meu phaser.
- Inteligente. Um phaser certamente é mais eficaz do que a mão ou um pé.
- Nem sempre.
- Nem sempre?
- Às vezes algum tipo de radiação inabilita os phasers então só me resta as técnicas que pratico. Gostaria de aprender alguma delas?
Era o segundo convite em menos de cinco minutos. Será que ela sabia do seu desespero? Procurou não olhar para os seios dela que pareciam querer sair do decote de sua apertada blusa de malha. Após alguns segundos hipnotizado com aquela beleza com cobertura de chocolate, respondeu:
- Eu? Não. Talvez uma outra hora. Um outro dia. Eu... Eu vou para minha cabine. A gente se vê por aí. – Walsh sai tropeçando e se xingando, mentalmente, por não ter sido mais ousado.
Kovack dá de ombros e volta ao seu treinamento solitário.
Uma hora depois Walsh pula da cama com o alarme de emergência da nave penetrando o seu cérebro. Ligou o intercom para falar com a cabine de comando.
- Ei, o que está havendo?
- Estamos cercados. Venha depressa. – disse a imediato com certo desespero em sua voz.
Walsh pegou a sua blusa do uniforme. Saiu de sua cabine se vestindo e, com a cabeça coberta, acabou esbarrando em Sontak no corredor que vinha no sentido contrário.
- Oh, desculpe por isso, sócio. O que será que está havendo?
- Naves Gorns. Estão impedindo a nossa aproximação do planeta.
- Ué, eles não sabem que viemos aqui para ajudá-los a resolver a tal disputa?
- Ao que tudo indica a Federação esqueceu de comunicar- lhes tal fato.
- Legal! A gente vai virar tiro ao alvo de lagartos. Cadê a nossa escolta?
- Talvez se formos até o comando possamos nos informar melhor.
Sontak orienta o seu capitão o sentido correto para chegarem a ponte. Walsh sabia que a lógica do vulcano era infalível e realmente ficar no corredor conversando não traria nenhuma luz ao problema que estavam enfrentando. Rumaram para o tubo elevador.
Na cabine de comando de comando a tripulação estava discutindo. Sontak assumiu a cadeira de navegador ao lado de Greg. Kovack estava no posto tático em um uniforme negro, justo e desconcertante...
- Capitão! Três naves Gorns estão bloqueando nossa passagem. Elas se mexem se nos movemos. – informa Greg despertando o capitão de seu transe hipno-sexual.
- O quê? – pergunta o capitão.
- Eles deram tiros de alerta. Erguemos nossos escudos, mas se eles resolverem realmente nos atacar estamos fritos. – diz Zorian atualizando os informes.
- Hummm... – Walsh se senta e aparenta uma calma incomum. – Alguma notícia da Hood?
- Não, senhor, mas estou chamando qualquer nave no quadrante para nos auxiliar – informa Savon em tom dramático.
- Hummm... Os lagartos entraram em contato conosco?
- Não senhor. Mantendo canais abertos, contudo eles não respondem às nossas mensagens de saudação. – responde o oficial de comunicações.
- Hummm.... – murmura Walsh. Aqueles resmungos já estavam irritando a imediato Karen Zorian.
- Capitão! Tome alguma atitude! – Zorian não conseguiu se conter.
- Calma! Não me pressione! Eu... Eu não sei o que fazer, tá legal? Satisfeita? Ou você acha que eu enfrentava naves estelares com lagartos querendo me tostar todos os dias? Essas coisas não são assim não, minha filha!
Sontak percebeu que era um bom momento de intervir.
- Creio que o que o capitão quer dizer é que estamos em uma situação delicada e que não devemos tomar nenhuma medida precipitada.
Walsh aponta com a mão espalmada para o vulcano como querendo dizer para a sua imediato: Viu? Tá vendo como ele me compreende?
Kovack resolveu se manifestar:
- Se me permitem... Acho que eles não irão nos fazer mal se não avançarmos de nossa posição. Caso contrário já teríamos avarias em nosso casco.
- Ok, ok! Vamos ficar quietos. São escamas demais para enfrentarmos. Vamos aguardar a chegada da Hood. Enfrentar estes lagartos não é nossa função.
Walsh cruza os braços e fica a olhar para a tela exibindo as naves ameaçadoras.
Zorian e os demais ficam atordoados com a solução do capitão. Realmente ser comandado por Jerry Walsh estava sendo era uma surpresa a cada momento.
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo V.
Já haviam passado duas horas. Walsh estava comendo um sanduíche e tomando um suco. Sua calma contrastava com a ansiedade de sua imediato, que estava sentada na estação de engenharia roendo as unhas. Como é que ele pode comer numa hora dessas? – se perguntava.
O silêncio foi quebrado através de um sotaque francês.
- Capitain... Consegui contato com a Hood.
- Um instante... – Walsh esconde o sanduíche, apóia o copo no chão e limpa a boca o melhor que pode. – Ponha na tela.
Aqui é o tenente comandante Eckhart. Sou o primeiro oficial da USS Hood. Qual a natureza do seu pedido de socorro?
- Aqui é o capitão Jerry Walsh, do cargueiro SS Aurion. Fomos contratados para auxiliar a Frota na relocação da colônia em Cestus III. Quanto à natureza de nosso pedido... VOCÊ É CEGO OU IMBECIL? Estamos cercados por naves gorns e vocês deveriam estar aqui para nos dar proteção! Cadê o seu capitão? – Walsh perde a compostura. Sontak balança a cabeça lamentando o comportamento de seu capitão. A primeira impressão é a que fica. Ele só esperava que tal atitude não prejudicasse os futuros contratos.
Err... O capitão está em sua cabine se recuperando de uma gripe rigeliana.Desculpe-me, capitão Walsh. Já estamos em contato com as naves gorns e enviando a senha pré-estabelecida para nos darem acesso ao seu espaço. Aguarde um pouco.Eckhart desliga.
- Senha ? Por que ninguém falou nada sobre uma senha? – pergunta Walsh para si mesmo e olha para Sontak esperando uma resposta. O vulcano balança a cabeça negativamente se eximindo de culpa por não saber de algo tão essencial para o sucesso da missão.
- Acho que o senhor embaraçou o comandante...-comenta Greg.
- Deve ter sido o respeito ao uniforme. Afinal, tecnicamente, sou seu superior.
-Mais ou menos.Você é um capitão mercante, não militar.Contudo tem o mesmo respeito.- esclarece Sontak agradando Walsh.
- Capitão...As naves gorns estão se afastando. – informa Kovack de seu posto observando os sensores.
- Nada como ter amigos influentes e com a SENHA correta. – diz Walsh olhando com reprovação para Sontak que se limita apenas em erguer a sobrancelha direita.
- Senhor Ioruba...Retome o curso para Cestus III e estabeleça uma órbita padrão.
- Ei, cap... Me chame de Greg,ta legal? – solicita o navegador.
- Tá bom. Mas não me chame de CAP. Vamos manter o respeito. – Zorian olha para Walsh com espanto. O cargo já estava subindo a cabeça. O capitão continua a dar ordens. – Savon...Agradeça ao comandante Eckhart pela colaboração e diga que espero o pronto restabelecimento de seu capitão.
- Oui.Sim senhor, mon capitain.Mensagem enviada.
Walsh suspira e sorri para Zorian que ainda o estava encarando com uma expressão emburrada.
- Seu sutiã está apertado ou o quê? – Walsh não se contém em provocá-la.
- Você adora dar ordens, não é?
- Você não?Não é isso que um capitão tem que fazer?
- A diferença entre nós é que eu não sinto prazer nisso. As ordens devem ser dadas e pronto.
- O que está realmente te incomodando ? Desde que aceitamos essa missão é que você está com essa cara.
- Só acho que esse contrato é arriscado demais e não devemos relaxar na nossa segurança. Como o senhor já deve ter notado a nossa nave não é preparada para entrar em zonas de conflito.
- Minha cara imediato. Creio que a nossa colega aqui atrás de uniforme negro, por sinal muito elegante, não deixará de fazer bem o seu serviço; já que a segurança é o seu departamento. O Greg, pelo que sei, é um piloto experiente e poderá nos tirar rápido de qualquer zona de conflito. Além do mais temos uma nave da Federação nos escoltando. Isso sem levar em conta os tais Metrons, o povo adiantado e guardião deste setor, que possivelmente estão nos monitorando e não deixarão o acordo ser quebrado.
- Você é muito despreocupado.
- E você se preocupa demais. Que tal tomarmos um drink no refeitório para relaxar? – Walsh testou mais uma vez a dureza de Zorian.
Ela o encara e repara que os demais na ponte estavam olhando para ela esperando a sua resposta. Sontak já tinha visto, no passado, que tais investidas sempre acabavam com o engraçadinho com o olho roxo.
- Acho que vou para a engenharia calibrar os motores e verificar o trabalho dos novos tripulantes. – Zorian já ia saindo da cabine de comando quando de repente dá meia volta e se dirige novamente ao capitão. Greg chegou a cerrar os olhos para não ver seu capitão apanhar. Em vez disso Zorian apenas diz:
- A propósito.Eu não uso sutiã! – em seguida ela sai enfurecida.
- UAU! –Walsh sorri não pela satisfação de ter sobrevivido à sua provocação, mas por imaginar que Zorian realmente não usava nada por baixo de seu uniforme.Ele havia mexido com ela e o fato de ter sobrevivido era um bom sinal.
Sontak estava com a sua sobrancelha direita ainda erguida demonstrando perplexidade com o que havia presenciado.
- O que acha Sontak? Será que ela ficou abalada com o meu charme?
- Creio que o senhor não deve se arriscar tanto sem um bom motivo.
- Acho que ela tem aquela pose toda para esconder sua fragilidade.Eu sei. Eu conheço as mulheres.
- O senhor não conhece Zorian como nós. Não brinque com os sentimentos dela. – comenta Kovack tentando ser solidária à amiga.
Walsh ficou quieto e parou de sorrir. Percebeu que aquela tripulação, apesar de não demonstrarem uma grande amizade entre si, eram mais unidos do que pensava.
- Longe de mim fazer tal coisa, gracinha. Digo,tenente. Eu só estava tentando ser sociável. – virou-se para Greg no intuito de mudar de assunto rápido. – Quanto tempo falta para chegarmos?
- Entraremos em órbita em dez minutos, senhor.
- Ainda estamos sendo acompanhados, sr. Savon?
- Por quem?
- Pelos lagartos homem!
- Ah...Vamos ver...Oui. Eles ainda não nos largaram.
- O importante é a Hood não nos deixar na mão. Qual o próximo passo, Sontak? Vamos precisar de novas senhas?
- Creio que não. Deveremos descer, fazer um inventário e arrumar tudo para o transporte. Não devemos demorar muito.Não sobrou muita coisa por lá.
- Então temos que montar um grupo de descida. Como é uma área onde a nossa segurança pode estar ameaçada Kovack irá conosco. Greg avise a Zorian para tomar conta da nave. Isto é...Assumir o comando.
O grupo segue para a sala de transporte no deck dois.
- O que será que eles comem? – pergunta Savon sem muito sentido.
- O quê? De que você está falando, homem? – Greg não entendia o motivo da pergunta.
- O que será que esses lagartos comem? – Savon repete a pergunta.
- Sei lá! Você tem cada pergunta...Ratos, talvez.
Savon se encolhe na sua cadeira, retira seu camundongo de estimação do seu casaco e começa acariciá-lo como que prometendo protege-lo de uma grande ameaça.
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo VI.
Três formas se materializam no que fora a praça principal da colônia. As ruínas em volta demonstravam que os colonos não tiveram muita chance quando os gorns atacaram. Para recepcionar o pessoal da Aurion lá estavam o observador da Federação e o já conhecido comandante Gustaf Eckhart.
- Prazer em conhecê-lo pessoalmente, capitão Walsh. - diz o comandante Eckhart, apertando-lhe a mão. - Quero apresentar-lhe o observador da Federação : o embaixador Patrick Dupont.
Um homem magro, calvo e de cabelos grisalhos, vestindo uma túnica acinzentada com listas pretas em diagonais, como se fossem uma faixa de campeão de algum concurso, se aproximou.
- Prazer. O senhor não é muito jovem para ser capitão? - observou o embaixador.
Walsh parecia que iria ouvir muito este tipo de comentário. Então inventou uma desculpa.
- O senhor, acha? Não se deixe enganar pelas aparências. Viajar no espaço rejuvenesce a gente, sabia? É aquela velha teoria de Einstein sobre viajar mais rápido do que a velocidade da luz. Veja...Se você tem um irmão gêmeo em um planeta e um deles viaja para o espaço o irmão que fica envelhece e o que viajou não. Aí quando o irmão que viajou mais rápido que a luz volta, o tempo praticamente não passou para ele, mas já o seu irmão...
Eckhart e Dupont estavam como que hipnotizados enquanto Walsh falava.
Percebendo que aquele papo era tão produtivo quanto tentar fazer um Klingon tomar banho, Sontak pigarreou para indicar que já era hora de Walsh se calar.
- Err... Bom é isso aí. Onde estão as coisas que devemos levar?
- Oh, sim...- Dupont sai do transe - Nos acompanhe até a sala do controlador de Cestus III. Não repare a bagunça. Tivemos que improvisar um escritório desde... Desde o incidente.
Os diplomatas tinham a mania de minimizar os acontecimentos catastróficos.
Principalmente na frente dos inimigos. Na verdade o incidente foi a destruição total de um pequeno posto científico da Federação que pretendia implantar uma colônia bem próximo da fronteira com o império Klingon; só não contava que a Hegemonia Gorn iria achar ruim de invadirem seu espaço. Os gorns eram uma das muitas espécies reptilianas de aspecto humanóide, pois tinham andar bípede. Walsh tentou ser diplomata também.
- Pode deixar, embaixador. Não iremos reparar - disse tentando ser simpático, mas ao mesmo tempo olha para Sontak e faz uma careta como que dizendo: O que tem este cara? Ele é louco? Como não reparar em toda esta destruição ao redor?
O grupo de dirigiu por entre algumas ruínas e chegaram a uma estrutura preservada , pelo menos em 50%. Entraram por um pórtico e lá dentro, em uma grande sala, estava um enorme lagarto sentado a uma mesa ladeado de dois soldados escamosos.
- Erssss...urssss...syassasss... - o controlador sibilou.
- O que foi que ele falou? - perguntou Walsh.
- O senhor não está com o tradutor universal? - perguntou Eckhart surpreso por um capitão não ter um equipamento padrão nestes casos.
Walsh olhoupara os seus companheiros e tanto Kovack quanto Sontak balançaram a cabeça negativamente. Se ele fosse depender deles...
- Não se preocupem eu usarei o meu.- se prontificou Eckhart tentando apagar a má impressão que causara anteriormente. Retirou o aparelho de seu cinto e o aproximou, com cuidado, perto dos gorns que ainda estava repetindo os mesmos grunidos.
- Ersss ursssssyassass!
- Isto foi uma pergunta ou um pedido? - Walsh ficou intrigado.
- Eles não são muito amistosos.Creio que foi uma ordem. - interpreta Dupont.
- O senhor é muito perspicaz - elogiou Walsh com certa ironia.
- ...rrrsss....
- Este é Gulnar da Hegemonia Gorn. Ele, como sabem, é o controlador de Cestus III. Como vê, ele tem pressa para liberar o planeta de nossa presença. - Dupont procurava ser polido e em hipótese alguma dar motivos para que os lagartos avançassem em cima dele.
- O que ele quer dizer com tempo esgotando? - perguntou Walsh.
- Bom... o controlador tem ordens de destruir o pouco que sobrou se não retirarmos todo o material em duas horas.
- Ah...Bem, então é melhor nos apressar. - Walsh dá meia volta e esbarra no comandante da Hood.
- Tomei a liberdade de mandar meu pessoal ir adiantando o serviço. Fiz mal? - informou Eckhat.
Mal? - pensou Walsh. Era ótimo que outros fizessem o trabalho pesado.Principalmente porque eles talvez não conseguissem realizar a tarefa a tempo.
- De jeito algum, comandante.Muito bem.Foi elogia-lo ao seu capitão! - Walsh cumprimenta o comandante que estava com um grande sorriso estampado no rosto. - Onde estão as tralhas? Digo...o material que será embarcado?
- Posso levá-los até lá.Não é muito longe. - Eckhart estava feliz em ser útil. Afinal ele foi treinado para servir.
Walsh olhou novamente para os olhos de íris fendida de Gulnar e viu através deles que ali estava um desafio. Walsh adorava desafios. Naquele momento o seu medo pelos lagartos sumiu e, uma grande coragem tomou conta de seu corpo. A coragem de quem toma atitudes idiotas e se arrependem depois. Mas, essa era a vida de Walsh até aqui e lê não via diferença nenhuma em se arriscar mais uma vez.
- Sontak...Tenente Kovack....Acompanhem o comandante. Eu vou tentar bater um papo com o nosso amigo controlador.
O vulcano ficou apreensivo.
- O senhor tem certeza de que quer fazer isso?
- Pode ir tranqüilo, sócio. Prometo que não vou começar nenhuma guerra. Só quero conhecê-lo melhor. Qualquer coisa o senhor Dupont aqui me auxiliará. Pode ir.
- Tenha cautela....Principalmente com as palavras que usar. - aconselha Sontak.
- Vai, vai. - Walsh praticamente empurra o vulcano para fora da sala. Se aproxima depois de Dupont, não sem antes pega o tradutor com Eckhart, e senta-se na frente do controlador. Seu gesto intempestivo assustou os guarda-costas de Gulnar que chegaram a apontar as armas para Walsh. Gulnar, com um gesto, apontando para o alto, gruniu e os soldados recuaram.
Fazia muito calor mas os Gorns não suavam. Provavelmente não tinham glândulas sudoríparas. Eles mantinham a boca sempre aberta mostrando vários e grandes dentes pontiagudos. Eram mesmo de assustar. Contudo Walsh já havia visto muitas coisas aterradoras pelo universo. Procurou não demonstrar que coisas novas e aterradoras ainda o amedrontavam. Tentou iniciar um diálogo:
- Senhor Gulnar. Espero que aprecie a nossa cooperação. Infelizmente eu acho que vocês estarão perdendo uma excelente oportunidade comercial expulsando a Federação de seu sistema.
- Federação fraca... Gorn forte.
- Bom que eu saiba foi um capitão nosso que derrotou o seu.
Dupont temou pela própria vida ao ouvir aquele comentário. Mas as palavras já haviam sido ditas. - Ele era....errrss fraco.
- Talvez.Talvez o nosso capitão tenha tido sorte. Isto não importa agora. O que importa é que vocês ficaram com uma visão errada a nosso respeito. Não pretendíamos invadir seu sistema. Não sabíamos de sua existência. Estamos apenas começando a conhecer esta região. A Federação é composta de vários mundos.Vários seres, e não somente humanóides assim fraquinhos como eu. Os Gorns poderiam lucrar muito ao compartilhar suprimentos e tecnologia.
- Gorn inteligente.... Gorn ter vários planetas.... Gorn poderoso...
- É, pode ser que o grande império Gorn seja grande e poderoso. Eu respeito isto. Mas a nossa Federação é maior.
- Senhor Walsh, acho que o controlador não está gostando da conversa. - disse o embaixador com um certo tremor na voz.
- Humanos...Fracos....O que vocês podem ensinar?
- Viu, nós estamos apenas conversando. Calma, senhor Dupont. Eles são um pouco lentos, mas acho que vou conseguir me fazer entender...
- Capitão Walsh eu só quero evitar uma situação... Desagradável. Ele não gosta muito de conversar.Acredite.Eu já tentei.
Walsh faz um sinal para que o controlador o aguarde. Passa o braço esquerdo em torno do ombro direito do observador da Federação e caminha com ele para o lado oposto da sala. Tinha que tirar ele do caminho para poder tentar expor seu ponto de vista ao Gorn.
- Senhor Dupont... Me diga, com toda a franqueza. Qual foi o progresso que o senhor fez como diplomata até agora? Vai realmente deixar que tudo aquilo que os colonos e os cientistas construíram nestes anos todos sejam deixados para trás?
-Não é o que eu desejo que irá fazer a diferença. A frota e principalmente a Federação, acham que o melhor, neste caso, é abandonar o planeta. Talvez num futuro próximo...
- Futuro? Homem...Tudo o que importa é o presente. Ninguém vive o futuro. E os tais Metrons de que ouvi falar? Já tentou argumentar com eles?
- Nunca os vi ou mesmo falei com eles. Pelo que sei eles já disseram tudo o que havia para ser dito e só aparecerão para falar conosco se desejarem. Nos consideram espécies inferiores.
- Não podemos condená-los, podemos? É, temos uma negociação difícil por aqui.
- Capitão Walsh creio que o senhor esteja extrapolando sua autoridade aqui.
Não existe uma negociação em andamento. A Federação já decidiu pela relocação e é isso que faremos. Estamos felizes em deixar o planeta e os Gorns ficarão felizes em nos ver fora daqui. Devo lembra-lo que a sua missão é apenas pegar todo o maquinário e levar até o sistema Quatal e só. - O embaixador mudou de semblante. Deixou de ser cordial.Na verdade ele parecia ficar mais nervoso a medida que o tempo passava.
- Muito bem, me desculpe. Não queria ferir sua autoridade. Vou me reunir ao meu pessoal. Com licença. - faz uma reverência aos Gorns e sai da sala. Lá fora encontrou Sontak, com seu PAD em punho conferindo a mercadoria.
- É, meu amigo vulcano...Meu instinto me diz que temos que fazer algo aqui mais do que embarcar caixotes. Acredito que é isso que os Metrons esperam de nós.
- Instinto?Intrigante...Por que você acha isso dos Metrons?
- Acompanhe meu raciocínio.
- Isto, mesmo para um vulcano como eu, é um pouco difícil as vezes.
- Vou tomar isso como um elogio.Bom...Veja...No encontro que eles tiveram com a Enterprise, de acordo com um relatório que li...- Sontak ergue a sobrancelha surpreso com a atitude de seu capitão.
- O que foi? Surpreso porque eu li um relatório?Queria me preparar para a missão.
- Digamos que eu achei...inusitado.
- Você e Zorian não acreditam mesmo em minha capacidade, não é mesmo?
- Um vulcano nunca mente.Não.Contudo acredito que com a experiência o senhor poderá desenvolver excelentes habilidades.
- Sabe, Sontak às vezes você me deixa confuso. Uma hora avacalha comigo e no outro me elogia. Parece até que você está me adulando só por eu ser o acionista majoritário da Aurion.
- Adular?
- É...Puxar o saco... Tentar agradar com motivos escusos.
- Não, capitão. Me desculpe se foi essa a impressão que dei. Eu apenas disse...
- A verdade.Sei.Vulcanos nunca mentem e blá,blá,blá. Tá bom. Deixa para lá.
Como eu ia dizendo...O capitão Kirk demonstrou o valor da raça humana no confronto com os Gorns poupando a vida do capitão deles. Agora essa mesma raça valorosa e orgulhosa sai de fininho com o rabo entre as pernas. Não creio que tenha sido a melhor saída.
- O que o senhor sugere?
- Dividir o planeta.Dividir o conhecimento.Compartilhar nossas culturas.
Todos sairiam ganhando.
- Você percebe que no curso dessa ação poderá nos levar ao prejuízo. Caso você tenha sucesso em convencer as duas partes será o fim de nosso contrato e dos nossos créditos. Isto seria muito ilógico!
Walsh pensa por alguns momentos. Dá um tapinha nas costas de Sontak, que odeia quando ele faz isso, mas como todo vulcano, procura não demonstrar sua irritação, e fala:
- Sabe que você tem razão? Vamos supervisionar o empacotamento dessas coisas e dar logo o fora daqui. Este calor está me matando. Você não tá com calor?
- A temperatura ambiente é de apenas trinta e nove graus Celsius. Já suportei temperaturas maiores em Vulcano. O nosso verão é bem quente. Fique sabendo que o senhor tomou uma sábia decisão, senhor.
Sontak respira aliviado. Aquele humano devia controlar melhor o seu lado altruísta ou arruinaria com os negócios.
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo VII.
Cestus III era apenas um posto científico. Quinhentos e vinte pessoas habitavam o posto quando os Gorns atacaram. Quinhentas e doze morreram. Oito sobreviveram e destes, dois ficarão inválidos por um longo tempo. Outros dois resolveram nunca mais fazer parte de uma equipe de pioneiros, porém quatro gostariam de continuar o trabalho em memória aos colegas e amigos perdidos. Entre eles se encontrava o tenente Harold, único oficial da frota estelar sobrevivente do ataque. Ele estava junto com o pessoal da Hood e a tenente Kovack fazendo o inventário dos equipamentos.
Sontak e Walsh se aproximaram do grupo sem deixar de notar os soldados reptóides que os cercavam. Eles observavam a evolução dos trabalhos, armados, porém impassíveis.
- Esses caras não se mexem. Parecem uns crocodilos da margem do Nilo que vi certa vez em um holo-documentário. - comenta Walsh.
- Isto é apenas uma intimidação psicológica. Eles nada podem fazer contra nós.
- Como você pode ter certeza disso? As armas deles parecem bem eficientes para mim. - retruca o capitão da Aurion.
O vulcano retira o phaser de sua cintura e aponta para um dos soldados lagartos. Ele atira antes de Walsh esboçar qualquer reação.
O que aconteceu a seguir foi muito estranho, mas parecia confirmar a teoria de Sontak. O raio saído da arma não completa sua trajetória e pára no ar. No momento seguinte o facho do phaser e o próprio desaparecem.
- Viu? - disse Sontak triunfante.
- UAU! - exclamou Walsh. - Foram os tais Metrons? Eles são mesmos poderosos! Imagine só! O raio simplesmente... PUF! - Walsh estava espantando com a cena mágica que presenciara.
- Eles não deixarão que qualquer ato de violência se concretize. Isto está no acordo firmado com as duas civilizações.
- Rapaz...Já pensou se esses seres quisessem dominar o universo?
- Creio que seus objetivos vão além de nossa compreensão.
Kovack se aproxima com o tenente Harold deles.
- O que foi isso? - perguntou a tenente sobre o incidente.
- Foi apenas Sontak demonstrando seu ponto de vista. - responde Walsh. -
Como estamos indo?
- Praticamente empacotamos tudo o que foi possível. - informou Kovack. -
Quero apresentar-lhe o tenente Harold. Ele foi o único sobrevivente da frota estelar neste posto avançado.
- Muito prazer.- fala o tenente apertando a mão de Walsh mas não tendo a mesma sorte com Sontak que nunca apertava a mão de ninguém. Harold recolhe a mão, meio sem graça.
Walsh tenta amenizar o constrangimento e faz o que ele sabe fazer de melhor: jogar conversa fora.
- Bom...Tenente... Deve ter sido duro para o senhor voltar aqui e reviver aquele dia terrível.
- Realmente, senhor, não foi fácil. Mas eu devia honrar a memória dos que se foram. Só agora é que conseguimos fazer um enterro decente para aqueles que pereceram. Pelo menos isto os Gorns concordaram. Os restos mortais deles repousaram aqui em Cestus III. Foi uma perda muito grande para a Federação. Perdi bons amigos naquele dia. - a tristeza e o abatimento do tenente eram visíveis.
- Senhor...- interrompeu Kovack. - Creio não ser mais necessária por aqui. Peço permissão para voltar para a nave. Zorian pediu-me para ajudá-la na arrumação da carga a bordo. O senhor sabe...A tripulação está reduzida...Ah, já ia me esquecendo. O comandante Eckart quer falar com o senhor antes de partirmos.
- Eu também vou subir e recomendo que o senhor faça o mesmo, capitão. - sugeriu Sontak.
- Podem ir. Eu irei logo em seguida. Vou só falar com o homem e já vou. Sontak estranhou o comportamento de Walsh. Ele estava com uma cara, digamos, demonstrando pouca sinceridade. Walsh percebeu que o vulcano tinha percebido suas segundas intenções.
- Pode ir, sócio. O tenente Harold aqui tomará conta de mim. Não se preocupe.
- Se é assim que deseja...- disse Sontak conformado mas sem deixar de demonstrar sua preocupação. Acionou seu comunicador e ordenou:
- Aurion...Dois para subir.
A atlética oficial de segurança e o vulcano desapareceram lentamente frente aos olhos de Walsh.
O tenente Harold então acompanhou o capitão até o outro lado do complexo destruído. Pularam alguns destroços e encontraram Eckart conversando com Dupont.
- Bom, capitão, soube que já terminaram com o trabalho. Foram mais rápido do que pensei. Parabéns.
- Foi um trabalho de equipe. Não teríamos conseguido sem a ajuda de seu pessoal. - disse Walsh rasgando um pouco de seda.
- Pedi para chamar o senhor porque o controlador Gorn deseja falar com o senhor. Parece que você o impressionou. - disse o comissário Dupont.
- O lagartão quer falar comigo? - Walsh estava intrigado, contudo não desperdiçaria a nova oportunidade de expressar seu ponto de vista sobre a relocação da colônia. - Então vamos lá ver o que ele quer.
- Os quatro humanos entram na sala do contrololador Gulnar. O grande reptóide se levanta com certa dificuldade e anda,cambaleante na direção de Walsh. O jovem capitão se assusta. Será que ele estava com fome? Seria a hora do jantar? Seria ele o prato principal?
Gulnar o encara faz um ruído exalando todo o seu mau hálito. Walsh fecha os olhos e prende a respiração. O gorn o circunda e volta a encará-lo. Por fim faz uma pergunta.
- O que podemos aprenderrrsss...?
A pergunta tinha ficado sem resposta da última vez. Podiam acusar os Gorns de serem lentos, mas jamais de não terem uma boa memória.
Talvez o Gorn não tenha gostado de ter sido interrompido durante uma conversa ou então estava abrindo um espaço para o diálogo. Walsh resolveu não perder a oportunidade.
- O que vocês podem aprender? - Walsh sorriu e olhou para seus três companheiros enquanto pensava em alguma coisa. - Vocês conhecem xadrez tridimensional?
Todos ficaram surpresos com a pergunta de Walsh. Provavelmente até o próprio pois dissera a primeira coisa que veio-lhe a cabeça. Os Gorns ficaram intrigados e começaram a grunir uns para os outros. Parecia que Gulnar perguntava aos seus subalternos o que seria este tal de xadrez e os dois guardas que o acompanhavam balançaram a cabeça negativamente. Gulnar estava frustrado. Como a frustração leva a irritação, Walsh resolveu tomar uma atitude. Pegou seu comunicador, com cuidado para que seu movimento não fosse considerado como algo agressivo e solicitou a Zorian que transportasse um tabuleiro de xadrez tridimensional para a sala do controlador.
- Você quer o quê? - Zorian estranhou o pedido.
- Apenas faça o que eu mandei. Depois eu explico. - disse Walsh de dentes cerrados e demonstrando um falso sorriso para os presentes. Por que ela sempre tinha que questionar as suas ordens?
Apesar do pedido incomum a ordem foi cumprida. O tabuleiro se materializou sobre a mesa do controlador. Walsh o convidou para sentar e nos minutos que se seguiram teve toda a paciência do universo em explicar as regras do jogo.
Apesar dos Gorns serem muito lentos mentalmente o jogo teve início meia hora depois.
Walsh corrigia as jogadas erradas de Gulnar que, educadamente, aceitava ser repreeendido. Atônitos, Harold, Eckart e Dupont acompanhavam o jogo. Depois de uma hora o comunicador de Walsh bipou.
- Por que você está demorando? Já devíamos ter partido. - era a voz de Sontak.
- Um momento, Sontak. Não posso falar com você agora. É a minha vez de jogar.Ligo para você mais tarde. - Walsh desliga a comunicação e volta a se concentrar no jogo.
Na nave o vulcano ficou intrigado, bem como todos na ponte. O que aquele humano estaria aprontando? Ele era realmente imprevisível. Isto não era nada bom para os negócios. Nada bom.
- Eu vou descer. - disse quase desesperado.
- Não. Acho melhor aguardar. O capitão está acompanhado do comissário da Federação e os Metrons devem estar monitorando os seus atos. O que pode dar errado? - disse Zorian.
Sontak pegou sua prancheta e começou a refazer seus cálculos. Tudo indicava que a conclusão daquela missão não seria satisfatória para o caixa da nave.
Episódio I - Uma Boa Mão - Capítulo VIII.
Já haviam se passado cinco horas desde que todo o material da colônia fora embarcado. Na ponte da SS Aurion todos estavam entediados. Savon pelo menos se distraia com seu mascote. Desta vez foi Zorian que sugeriu que transportassem Walsh à força.
- Creio que agora não seja conveniente. Não podemos trazê-lo e interromper o relacionamento que ele desenvolveu com o controlador. Poderíamos gerar uma crise diplomática. - explica Sontak.
- Mas temos que cumprir os nossos contratos. E ele fica...brincando lá embaixo. Já transportei um sem número de jogos. Até os programas idiotas do Greg. - diz Zorian desabafando.
- Ei! Olha como fala dos meus jogos.Eles são métodos de treinamento avançado de destreza e perspicácia. - retruca Greg.
Zorian faz uma careta para o piloto.
- O que você chama de simples brincadeira é na verdade um contato cultural com uma nova raça. - comenta Sontak.
- Eu não agüento mais ficar aqui. Vou descer. Quero ver isto de perto. - disso Zorian aflita.
- Eu vou com você. - disse Sontak. Na verdade ele estava esperando que alguém tomasse esta atitude. Ele não queria demonstrar a sua preocupação quanto aos ganhos futuros.
Assim que eles deixam a ponte Greg lança um desafio aos colegas.
- Aposto que eles voltam em meia hora. Sem Walsh.
- Apostado.Pra mim eles ficam mais tempo e voltam com o capitão. - disse Savon que continuou a brincar com seu camundongo.
Kovack balança a cabeça desaprovando a atitude dos colegas. Eles sempre apostavam quando sob uma situação crítica. Como os homens podiam ser tão idiotas?
Na superfície, Walsh estava jogando a sua segunda partida de pôquer. Rodeado por Gorns curiosos que ficavam rosnando o tempo todo.
- Vamos lá...Aposto mais três pedrinhas. É a sua vez, Eckart. - o primeiro oficial da Hood e o comissário Dupont também estavam participando do jogo.
- Eu estou fora! - disse Eckart decepcionado com o seu jogo.
Dupont olhou para o Gorn que bufou ao ser encarado. Temendo estar com uma mão melhor que a do seu inimigo resolveu desistir também.
Walsh, que a esta altura já estava até fumando um charuto, esperava pela aposta do controlador. O reptóide apostou seis pedrinhas e grunhiu.
Walsh entendeu que ele estava pagando para ver e resolveu não cobrir a aposta. Não era o momento de ser ganancioso.Mostrou as suas cartas. O Gorn fez o mesmo em seguida. Ele tinha dois pares contra uma trinca de Walsh.
- Parabéns, Gulnar. Você ganhou!
O Gorn recolheu as pedrinhas da mesa em meio a grunhidos de felicidades e cumprimentos de seus asseclas.
Walsh sabia que para terem boas relações com os Gorns tinha que deixá-los satisfeitos. Curiosamente os Gorns não conheciam jogos de entretenimento, apenas jogos de guerra. Diversão.Era isso que os humanos podiam ensinar. Os Gorns não descansavam, não relaxavam e tais sensações , descobertas agora, eram realmente agradáveis.
Zorian e Sontak entraram na sala do controlador. Não entenderam ao verem todos se divertindo.
- Mas o que você pensa que está fazendo? -pergunta ela furiosa.
- O que você pensa que está fazendo, CAPITÃO? - repete Walsh enfatizando que Zorian se esquecera de mencionar o seu posto. Afinal a hierarquia era para ser respeitada. Principalmente na frente de estranhos.
Ademais ele adorava provocá-la.
- O SENHOR não sabe que temos que partir? A Frota...
- A Frota e a Federação devem muito ao seu capitão. - diz o comissário Dupont entusiasmado.
- Devem? - perguntam Sontak e Zorian.
- Vocês não vêem o que ele fez aqui? Ele conseguiu se relacionar com eles! O que eu e minhas regras de diplomacia não conseguimos. Seu capitão começou aqui um novo futuro para as nossas raças!
- Ele fez o que? - Zorian estava confusa.
- O que o senhor Dupont quer dizer é que os Gorns querem nos conhecer melhor. Eles querem que nós os ensinemos a se divertirem. Na verdade o controlador Gulnar pretende não só deixar que a Federação continue com suas pesquisas científicas bem como instalar aqui um centro de... - Eckart é interrompido por Walsh que lhe completa a frase.
- DIVERSÃO! Eles não sabem se divertir e eu ensinei a eles. E adivinhe só...Eles gostaram!
Neste momento Gulnar abraça Walsh quase o esmagando.
- Viram só como ele está... Ai... Contente?
- Você está me dizendo que resolveu uma delicada questão diplomática com esses jogos estúpidos? - Zorian custava acreditar no desfecho da missão.
- Exatamente. Ele concordará com a permanência da Federação neste setor se mantivermos aqui uma estação de recreação. Em contrapartida eles reconstruirão a colônia. Não é o máximo? - Walsh estava felicíssimo e dava baforadas de seu charuto.
- Vou entrar em contato com a Federação para dar as boas novas. - diz Dupont se ausentando apressadamente.
- Eu voltarei para a minha nave. O capitão Preston espera meu relatório.
Ele não vai acreditar nisso. Vocês devem desembarcar todo o material de sua nave. O contrato, devido as novas circunstâncias, está cancelado. - Eckart após dizer a frase que Sontak mais temia, também se ausenta.
O vulcano, desapontado, retira a sua prancheta de sua túnica e volta a fazer cálculos, deduzindo, é claro, os lucros daquela missão.
Zorian, atordoada, não sabia se cumprimentava Walsh ou quebrava o seu pescoço.
- Olha...Sei que vocês ficaram desapontados e antes que vocês me xinguem...
- Vulcanos não xingam. - esclarece Sontak.
- Eu sim, mas neste caso acho que dar uns sopapos resolve. - diz Zorian esclarecendo o seu ponto de vista.
- Tá. Mas espera eu dizer uma coisa. O controlador aqui foi com a minha cara e me garantiu em dar uma pequena comissão nos lucros do futuro centro recreativo. Calma que ainda não terminei. O comandante Eckart, sensível ao nosso problema, nos prometeu dar prioridade para futuros contratos com a Federação. Fato que terá aval do comissário Dupont. Nada mal para quem arranja amizades influentes, não?
Sontak começou a refazer os cálculos quase demonstrando um sorriso no canto da boca. Zorian, por sua vez, ainda anestesiada pelos acontecimentos, pegou seu comunicador e falou:
- Aurion... Três para subir.
Haviam se passado dez minutos desde que partiram da nave.
Episódio I - Uma Boa Mão - Epílogo.
A missão acabou não sendo um fracasso total. De quebra o capitão Preston, da Hood, ainda comprou uma caixa de cerveja romulana para comemorarem o acordo com a Hegemonia Gorn e acabar de curar a sua gripe rigeliana, que de acordo com Walsh, a bebida era um santo remédio nesses casos.
Não houve um lucro aceitável pelos padrões de Sontak, mas a promessa de prioridade em novos contratos poderiam compensar o que receberiam com o transporte do maquinário de Cestus III.
O vulcano estava sozinho com sua inseparável prancheta no refeitório quando Walsh adentrou o recinto:
- E aí, senhor vulcano? Gostou como lidei com a minha primeira missão?
- Apesar de minhas advertências você seguiu a sua consciência. Isto foi bom para você mas péssimo para os negócios. Espero que as recomendações do capitão Preston e do Senhor Dupont realmente nos garantam bons contratos.
- Eu não tenho dúvida disso. Lembra da nossa comissão no centro recreativo?
Eu falei com o capitão Preston, antes da Hood sair de órbita, que ficaria feliz em dividir com ele nossos futuros lucros.
- Você fez o que? Isto é...
- Suborno? Não! Digamos que é uma garantia de uma boa aposentadoria. - Walsh sorri cinicamente.
- Seus métodos são ilógicos e bastante ardilosos.
- Ora, Sontak, eu sou apenas humano.
O alarme de segurança soou.
Capitão Walsh. Dirija-se para a ponte imediatamente. - era a voz de Kovack no intercom e ela parecia estar preocupada.
Walsh correu para o elevador mais próximo acompanhado por Sontak. Na ponte Kovack se apressava em colocar o capitão ao par da situação:
- Estamos sendo seguidos por uma nave desconhecida. Os sensores ainda não conseguiram identificá-la com o que temos em nossos bancos de dados.
- Freqüências abertas. Mensagem de saudação padrão, Savon. - ordena Walsh.
- Oui, capitain. Eles não respondem, senhor.
- Quem são eles? O que eles querem? - se pergunta Greg no leme.
Sontak se aproxima da tela e pede a Kovack uma maior ampliação. Era uma pequena nave comprida. Sontak não fica surpreso.
- Tente contatá-los mais uma vez. Diga quem somos e que gostaríamos de nos explicar. - pede Sontak ao Oficial de comunicações francês.
- Nos explicar? Mas quem precisa se... - Walsh não entendia a atitude do vulcano.
Savon espera que Walsh dê a ordem e ele, com um gesto, confirma a solicitação do vulcano.
- Eles estão nos saudando, capitain.
- Ponha na tela.
Um rosto reptiliano aparece. Não era um Gorn. Eram feições mais esguias, sem escamas.
- Saurianos? São saurianos não são? O que eles querem? - pergunta Walsh.
- Vamos ouvi-los,senhor. - sugeriu Sontak.
Nave da Federação. Estão atrasados no pagamento da mercadoria. O que nos tem a dizer?
- Do que eles estão falando, Sontak?
O vulcano, um pouco desconcertado, revela parte do acordo feito anteriormente.
- Nós deveríamos pagá-los pelo carregamento de conhaque após setenta e duas horas terrestres. Eles são muito pontuais com os negócios. Estamos atrasados sete horas. Como não nos encontraram nas coordenadas combinadas vieram a nossa procura. Eu esperava que, com os créditos da venda de cerveja romulana e do transporte do maquinário de Cestus III pudéssemos pagá-los.
- Você não me disse nada sobre isso! - reclamou Walsh.
- O senhor também não me consultou ao dividir os lucros da colônia de recreação com o capitão Preston.
- Colônia de recreação? - perguntou Greg sem entender sobre o que eles discutiam.
- Além do mais o senhor assinou os contratos.
Walsh lembrou que não tinha lido os contratos. Tinha que ser mais cuidadoso futuramente.
- Tá, bom. Você está certo. E agora? O que faremos?
- Não temos créditos suficientes para saldar a nossa dívida. Face a quebra do último contrato.
- Droga. Eu sei , não precisa ficar me lembrando disto.
Walsh fica pensativo. Afinal ele era o capitão e sua tripulação estava esperando que resolvesse a situação.
- Os saurianos são reptóides, não?
- Isto é uma verdade. - confirma Sontak.
- Savon...Abra um canal. Aqui é o capitão Jerry Walsh da SS Aurion. Por acaso vocês já jogaram pôquer?
Todos ficaram surpresos com a pergunta de Walsh, mas não mais que o capitão sauriano visto na tela com seus olhos amarelos esbugalhados.
Final do Episódio I.
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