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INFORMAÇÕES    
Autor: Marcos Chiara.
Título: Imperius Rex Dei Est.
Publicação: 20/09/2006.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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OUTRAS OBRAS DO AUTOR
Bom Dia Federação.
Expansão.
Federação a Frete.
Frente de Batalha I.
Frente de Batalha II.
O Exílio.
O Vento que Bate na Janela.
Uma Questão de Tempo.
JORNADA NAS ESTRELAS      
Imperius Rex Dei Est.
Por: Marcos De Chiara.

Imagem do episódio Brad and Circuses.

Baseado no episódio "Bread and Circuses" roterizado para a televisão por Gene Roddenberry e Gene L. Coon a partir da história original de John Kneubel; que foi ao ar na rede NBC norte-americana originalmente em 15 de março de 1968.

Data Estelar 4055.5
Diário do Capitão:

"Conforme ordenado estamos partindo da base estelar 8 em direção ao sistema solar 892. Nossa missão: Avaliar as conseqüências do contato feito com uma civilização em desenvolvimento naquele sistema com oficiais da Federação e julgar se houve ou não a quebra da primeira diretriz. Os relatórios da missão de resgate da SS Beagle falam que não houve sobreviventes mas, o serviço de inteligência da Frota desconfia da veracidade deles simplesmente porque está assinado por James Kirk. Espero que eles estejam errados."

A nave estelar Aries NCC-602, uma nave batedora da classe Hermes, cruza a galáxia em dobra espacial seis, limite máximo de segurança permitido para tal nave que conta apenas com uma unidade propulsora. Apesar de que, em caso de emergência, possa alcançar dobra espacial oito. Sua tripulação é nova, a maioria são cadetes recém formados mas em seu comando contam com a experiência do Comodoro Solano e do Capitão Joshua B. Goldman.

As ordens do comando da Frota, enviadas pelo Comodoro Fitzpatrick, foram do tipo prioridade um, altamente confidencial. Não houve tempo de embarcar toda a tripulação e apenas dezesseis oficiais de comando e uma tripulação de cento e quinze pessoas subiram à bordo. A Aries pode comportar duas centenas de pessoas prontas para dar suas vidas em prol da unidade da Federação. "Mas que diabos está acontecendo?"- pergunta o primeiro-oficial, comandante Jacob Bergman.

A feição do comandante era a mesma de um marido traído quando entra na sala de reunião. Presentes estão apenas o capitão, o comodoro e a médica-chefe, a tenente-comandante Marta Andrews. Esta era uma mulher de baixa estatura, loura de cabelos lisos e curtos, com cerca de quarenta anos mas com uma dedicação sobrenatural ao seu trabalho. Sua forte determinação e sua capacidade de liderança em momentos de crise a fizeram a melhor escolha pelo capitão para o posto em sua nave.

O capitão já não era mais um garoto. Na verdade não esperava assumir o comando de uma nave estelar. Até duas semanas atrás ele era apenas um instrutor na Academia e se contentava com isso. Talvez este seu comodismo fosse uma conseqüência de traumas sofridos em missões no espaço profundo das quais não gostava de recordar. Seus ralos cabelos brancos não ocultavam os seus cinqüenta e dois anos e, sua experiência em comandar jovens cadetes em uma missão científica, seria um desafio interessante. Muitos dos seus atuais comandados já foram seus alunos e eles teriam a oportunidade de ver o professor em ação.

Já o comodoro Henriques Solano já estava com seu pedido de baixa na mesa do Almirante Nogura quando este, pessoalmente o requisitou para uma última missão. E ninguém recusava um pedido de Nogura. Todo soldado sempre quer lutar uma última batalha e a missão era para enfrentar um império. Na verdade um fac-símile do império Romano, só que um pouco mais modernizado. Aquela inusitada situação mexeu com seus interesses pessoais e ele aceitou de bom grado a missão. Apesar de se sentir um pouco velho, rejuvenesceu alguns anos em poucas horas quando teve que planejar os detalhes da missão; o que demonstrou que a idade não é aquela que você aparenta e sim aquela que você quer aparentar.

"Acalme-se, comandante e sente-se."- ordena o comodoro.

"Desculpe-me, senhor mas é que eu não gosto de inventar desculpas para meus comandados. Todos estão me perguntando porque saímos às pressas da base estelar e eu também não sei porque. Isto me faz sentir inseguro e a insegurança pode exalar pelos poros e ser percebida."

"E isto não faz bem a um oficial de comando, não é mesmo?" - diz provocativamente o comodoro.

"Acho que o senhor percebeu bem aonde eu queria chegar." - contradiz o comandante.

"Senhores, - intervém o capitão antes que surgisse algum ato de insubordinação antes mesmo da missão começar - vamos logo discutir a nossa missão. Acredito que todos compartilhamos da ansiedade do comandante, então não percamos tempo".

O capitão Joshua não condenava de todo a arrogância de seu primeiro-oficial.

Na verdade quando tinha a idade dele era até mais impetuoso. No futuro sabia que a Aries estaria sob seu comando e teria que lapidá-lo para assumir a cadeira principal da ponte de comando. A ficha de Bergman também era impecável. Servira antes nos cruzadores Exeter e Lexington tendo travado batalhas com os Klingons algumas vezes. Como oficial de segurança salvara a vida de seus capitães inúmeras vezes. Sua personalidade era uma mistura de impetuosidade e prudência que o fazia uma figura imprevisível. Isto bem trabalhado poderia deixar de ser um defeito e tornar-se uma qualidade, mas só o tempo demonstraria isso.

"O capitão está certo! - continua o comodoro - A nossa missão é garantir os propósitos e princípios da Federação conforme estabelecidos no artigo primeiro".

"Então estamos nos dirigindo para um planeta habitável? Missão de pesquisa, diplomática ou de resgate?" - interrompe mais uma vez o comandante.

"O seu primeiro-oficial sempre foi assim tão impulsivo?" - pergunta o comodoro olhando para o capitão com cara de quem está prestes a perder a paciência.

"Jack" - fala o capitão em tom suave de súplica pedindo ao seu segundo em comando que se comporte melhor.

"Tudo bem. Desculpe mais uma vez, senhor. Para o comando da Frota indicar um oficial tão graduado para uma missão deve ser porque é muito importante que obtenhamos sucesso. Então vou ficar calado e ...."

"Ora, cale-se!" - fala a doutora com autoridade - continue, por favor, comodoro."

Jacob engole o ar e, por alguns segundos, parece não poder mais respirar.

Apesar de sua patente ser maior que a da médica-chefe ele de repente se sentiu recebendo uma bronca de sua mãe. Em respeito à memória de sua mãe e, tão somente por isso, o comandante se calou.

O comodoro e o capitão não conseguiram disfarçar um pequeno sorriso com a situação.

"Como eu ia dizendo... Precisamos ter o máximo de cautela nesta missão.

Houve um contato da população do quarto planeta do sistema solar 892 com oficiais da Enterprise que estavam em missão de resgate e parece que tiveram que sair às pressas de lá, pois estavam em vias de serem massacrados".

"Bom, Jim Kirk não é um homem de muitos amigos."- acrescenta o capitão.

"Então é isto? Uma operação de rescaldo? James Kirk coloca fogo no universo e nós temos que correr para apagá-lo? Ë nisto que tudo se resume? Será que já se esqueceram o caso de Beta III, ou de Eminiar VII ou de Gamma Trianguli VI?" - se exalta mais uma vez o comandante Jacob.

"Jack, o que Kirk fez nesses casos foi para proteger as culturas desses planetas para que pudessem evoluir naturalmente. O conselho da Frota já julgou seus atos e não o condenou." - intervém o capitão Goldman em defesa do colega de patente.

"Parece que o senhor nutre uma antipatia pelo capitão da Enterprise, posso perguntar o por quê?" - indaga, curioso, o comodoro.

"Não é nada pessoal, senhor. Ë que o capitão Kirk, às vezes, se julga o

Salomão do universo, mas sempre deixa a sujeira debaixo do tapete para que nós limpemos depois."

"Ninguém disse que o trabalho de um oficial da Frota tinha que ser limpo.

Às vezes, meu rapaz, é melhor não saber como as salsichas são feitas".

"Como, senhor? Não entendi."

"Deixe para lá, meu jovem. Um dia, se você chegar a ser um capitão de uma nave estelar, compreenderá o que disse e será mais tolerante com as ações de capitães como Jim Kirk".

"Devo presumir que, sendo uma missão secreta, nada do que foi dito aqui poderá ser discutido fora desta sala?" - pergunta a doutora já sabendo qual será a resposta.

"Afirmativo Dra. Andrews. No momento oportuno alguns oficiais, previamente selecionados, serão informados dos detalhes da missão. Enquanto isso, estamos apenas em missão de pesquisa neste quadrante. Somente observando as estrelas e fazendo relatórios. Meu dever aqui na Aries é de ser de apoio logístico. O comando da nave é do capitão Goldman mas, durante a missão a última palavra é minha. Estamos entendidos?"- disse enfaticamente olhando para o comandante Jacob.

"Sim, senhor." - responderam, quase em coro, os demais presentes.

O intercom soa chamando o capitão, era o tenente Tagushi, chefe da engenharia.

"Capitão, estamos a uma hora do destino e o nosso motor está começando a ferver."

"Muito bem, Tagushi, reduzir para impulso, Goldman desliga."

"Bom, com a licença dos cavalheiros e da senhora, irei descansar um pouco na minha cabine. Na minha idade qualquer reserva de energia é preciosa".

O comodoro Solano parecia muito mais velho por fora do que por dentro.

Apesar do seu cabelo já todo branco e seu físico um pouco fora de forma , mas a sua mente era a de um garoto de vinte anos. Quando ele saiu o ar de formalidade se dissipou, todos se levantaram e o comandante Jacob pode tagarelar novamente.

"Capitão, afinal de contas, o que temos que realmente fazer neste planeta?" "Conquistar Roma!" - dizendo isso o capitão deixa a sala de reuniões e atrás dele dois oficiais intrigados.

***

A morte de Flavius Maximus e a fuga dos bárbaros provocaram uma onda de revoltas e insurreições em várias províncias. A guarda pretoriana esteve muito ocupada nas últimas semanas.

O procônsul Claudius Marcus estava muito preocupado. Pela primeira vez seu governo foi questionado. Pela primeira vez ele foi derrotado.

Precisava urgentemente de uma grande vitória. Precisava da cabeça de Septimus. Seu antigo adversário político no senado que se converteu aos "Filhos do Sol", e que, agora, era um dos principais líderes da revolta contra Roma.

Os estrangeiros, amigos de seu antigo primeiro-cidadão Merricus, baixaram a audiência dos jogos e com ela a sua própria popularidade.

Consultar um oráculo era algo que precisava fazer urgentemente. Estava na hora dos Deuses fazerem alguma coisa.

Foi até o templo de Júpiter onde o sacerdote-mor se encontrava. Seu nome era Gaius Orsino.

"Senhor, eu não o esperava... eu..." - balbuciou Gaius quando o procônsul o surpreendeu ao entrar com uma escolta.

"Gaius... Meu bom e velho amigo. Preciso de sua visão uma vez mais."

Meu senhor, é tarde. Eu já ia me recolher e... GASP!"- engasga o sacerdote com o aperto que leva no pescoço impedindo-o de terminar a frase.

"Nunca é tarde para o seu futuro imperador, compreendeu?"

Gaius concorda com um balançar de cabeça. Claudius o solta e ele sente o ar circular novamente pelos seus pulmões..

"COF... COF... Então... o que deseja, meu senhor?"

"Preciso de sua ajuda. Preciso de uma mensagem dos deuses para me orientar."- diz Claudius Marcus num tom mais cordial, quase de súplica.

"Muito bem. Irei preparar-me."- dizendo isto Gaius bate palmas e um par de escravos, um pouco sonolentos, correm para servi-lo.

"Preparem os incensos e os óleos. Rápido!"

Gaius nunca havia visto o procônsul tão desconsolado, O que será que aquele homem tão poderoso temia? Seria interessante descobrir.

Quando Gaius estava prestes a começar seu transe, o procônsul o adverte.

"Espero que tenhais uma boa visão. Para seu próprio bem".

O vidente, apesar da ameaça, tenta se concentrar. Toma três goles de uma bebida de composição secreta, respira fundo os diferentes aromas de incensos espalhados pelo altar e, alguns minutos depois, começa a tremer e a murmurar palavras sem sentido.

O procônsul se aproxima para ouvi-lo melhor. Gaius se vira bruscamente.

Claudius Marcus se assusta. O sacerdote tem os olhos revirados e está babando. Porém o que ele fala começa a fazer sentido.

"Homens do céu.... Estrelas... Muitas estrelas... Mercúrio trará a nova mensagem... Uma nova ordem virá.... Fogo no céu... Júpiter será traído e cairá... O Sol tem que ser apagado... Marte liderará os exércitos no campo de batalha... As colunas ruirão... Os louros de César serão tomados por outro..." - Gaius, com a respiração ofegante solta um grito e tomba para trás. Só não vai ao chão, pois é amparado por seus escravos. Era o fim da visão.

Por alguns momentos o silêncio é total no templo.

Claudius tenta entender o que foi dito. Levanta-se da pequena cadeira onde estava e se dirige para a saída, ainda preocupado com o que acabara de ouvir.

Atrás dele, o sacerdote recobra a consciência e , ainda com uma voz muito fraca, pergunta:

"A visão lhe agradou, meu senhor? "

O procônsul, sem olhar para trás, e sem diminuir seus passos, responde:

"Sim, foi excelente!"

Gaius Orsino se sente aliviado e se deixa cair novamente nos braços de seus servos.

Ao passar pelos seus guardas Claudius Marcus dá a seguinte ordem:

"Furem os olhos dele!"

Ao entrar em seu carro, que o esperava do lado de fora do templo, o procônsul Claudius Marcus ainda pode ouvir os gritos de dor do sacerdote e isto lhe deu muito prazer.

***

"Aproximando do quarto planeta, capitão." - informa o navegador.

"Muito bem, alferes..." - o capitão Joshua esquece o nome do navegador por um momento. Como a tripulação é nova, ainda não se familiarizou com todos. Principalmente com o seu navegador, um andoriano que tinha pele azul e duas antenas na cabeça.

"Meu nome é Shres, senhor."- completa o navegador, um pouco constrangido.

"Pois bem, Shres. Força de impulso e mantenha órbita padrão" - virando-se para o oficial de comunicações ordena - "Procure captar transmissões de rádio e televisão. Segundo os relatórios da Enterprise, esta é uma civilização tecnológica aparentando o século vinte da Terra e deve ter um sistema de comunicação deste tipo."

O alferes Francisco Akwe era um índio da tribo Xavante da floresta Amazônica cujo sonho era conhecer as estrelas de perto. Seu cabelo bem negro e sua pele morena não chamavam mais atenção do que os seus brincos pontiagudos de madeira atravessando os lóbulos de suas orelhas. Seu pai queria que fosse o novo pajé da tribo, mas ele preferiu estudar no mundo do homem branco onde ampliaria seus horizontes e o faria chegar próximo de seu sonho. O melhor caminho foi se alistar na Frota Estelar.

Acabou por se especializar em engenharia eletrônica e comunicação interestelar. Era a primeira vez que embarcava em uma missão, como muitos de seus colegas, e não queria desapontar seu capitão. Respondeu à ordem quase de imediato.

"Estou captando transmissões de várias localidades. Estão acontecendo pequenos conflitos e o governo local está reprimindo severamente. Há registros de vários mortos e feridos."

"Existe algo que possa colocar no visual?" - pergunta o capitão virando sua poltrona para frente.

"Um momento, senhor... Aí vai!"

Na tela da ponte surge uma multidão tentando invadir uma construção imponente que se parecia com um palácio. Os manifestantes são afastados a golpes de espadas e sob fogo das metralhadoras.

A tripulação fica chocada. Não parecia que a missão ia ser muito pacífica.

"Oficial de ciências?" - chama o capitão.

"Tenente Naim el-Jamal, senhor. Ë uma honra estar sob seu comando." - apresenta-se o rapaz que era um muçulmano da Tunísia e talvez era um dos poucos oficiais da Frota a portar um grosso bigode devido às suas convicções religiosas.

"Obrigado. Verifique qual a maior província e o total da população. Produza um mapa da área para orientar o grupo de descida. Marque um ponto de descida próximo às montanhas onde os rebeldes, chamados de "Filhos do Sol", têm seu esconderijo, conforme os dados da Enterprise. Transfira todas as informações para a sala de reuniões."

"Sim, senhor."- o jovem começa a digitar em seu painel com um fervor quase religioso. Mais um querendo demonstrar eficiência total, pensa o capitão.

"Comodoro Solano, Dra.Andrews, comandante Bergman e Tenente Caio Marino. Sala de reuniões em cinco minutos."

O capitão Joshua Goldman levanta-se para deixar a ponte e de repente lhe ocorre que alguém deve assumir o comando na sua ausência da ponte. Na ordem hierárquica de comando as opções seriam Bergman e a Dra. Mas ambos estariam na reunião. A outra escolha seria o tenente Tagushi mas este estava avaliando o desempenho da nave após ter sido submetida ao stress de dobra seis por muito tempo. Então, quase ao acaso, ele olha ao redor e escolhe.

"Senhor Jamal, a ponte é sua."

"Eu... senhor?"- responde assustado e surpreso o oficial de ciências.

"Sim, alguma dúvida quanto à sua capacidade?" - diz o capitão mexendo com os brios do jovem oficial.

"Não, senhor. Me preparei muito para esta possibilidade na academia."

"Só tenha em mente que você não está num simulador virtual e sim no universo real e tudo sairá bem." - dizendo isso o capitão lhe dá um tapinha nas costas e caminha até ao turbo elevador para deixar a ponte.

O tenente Jamal senta-se na cadeira de comando como se fosse uma cadeira elétrica e seus colegas ficam olhando-o com espanto. Quando Jamal percebe que o estão encarando ele os encara de volta demonstrando a autoridade de seu posto e , todos, constrangidos, voltam aos seus afazeres.

***

A estratégia tinha que ser bem elaborada. Havia vários riscos para o grupo de descida a serem considerados. Não contavam encontrar um planeta a beira de uma guerra civil. O comodoro Solano teve que reavaliar vários itens de seu plano e agora era hora de pô-lo em prática.

"Senhores - toma a palavra o comodoro - a nossa situação é bem delicada.

Precisamos sumir ou destruir as evidências físicas da passagem de Kirk e seus oficiais pelo planeta. Precisamos confirmar a presença de sobreviventes da nave mercante SS Beagle que estava neste sistema fazendo mapeamento estelar, a pedido da Frota, e foi dada como desaparecida a seis anos. Se estiverem vivos teremos que resgatá-los, mesmo contra as suas vontades. Não podemos interferir na cultura desta civilização que é um simulacro da Roma antiga da Terra , com uma religião politeísta que está subjugando o surgimento de uma nova corrente filosófica e religiosa chamada de 'adoradores do Sol'."

"Filhos do Sol, senhor."- corrige o comandante sem ser insolente.

"Obrigado."- agradece o comodoro como quem estivesse decretando uma trégua.

"Como uma Roma antiga surgiu aqui com tantas similaridades com a Roma da Terra, a milhares de anos-luz de distância?"- indaga ponderadamente o comandante Bergman.

"Para responder a essas perguntas que envolvam a evolução de culturas interplanetárias é que contamos com a presença do Tenente Marino. Por favor, tenente, esclareça-nos"- diz o comodoro passando a palavra.

O tenente Caio Marino era italiano e um xenosociólogo com muitos trabalhos publicados sobre mundos paralelos.

"Uma das coisas que mais intrigam os exobiologistas é a presença de humanóides com culturas similares a da Terra, porém, com períodos de desenvolvimento fora dos parâmetros.

Existem três correntes de pensamento que atualmente tentam explicar tal fenômeno.

A primeira delas se refere ao êxodo da era Zefram Cochcrane. Com a propagação do uso da dobra espacial, vários grupos viram a possibilidade de deixar o caos social da Terra e procurar outros planetas para viverem em paz. Muitas naves partiram com o sonho de criar sua cultura ideal e depois perderam o contato com o planeta-mãe, a maioria propositadamente. Haviam aqueles que tentaram reproduzir, como uma cultura única e planetária, o paraíso bíblico, um mundo só de criminosos ou a glória do Império Romano."

"Interessante..." - interrompe o capitão a explanação - "Quer dizer que vários mundos que a Federação visita são na verdade dominados por descendentes de humanos da Terra vindos do êxodo de Cochrane?"

"É uma teoria" - continua o tenente Marino - "Dada às semelhanças morfológicas e fisiológicas".

"E as outras duas outras teorias?" - indaga com curiosidade a Dra. Andrews.

"Bom, doutora, a segunda nos diz que em planetas de classe M as formas de vida se desenvolvem de forma semelhante como que seguindo uma receita de bolo. Uma vez que os componentes químicos são os mesmos e o meio ambiente também, a possibilidade de surgir formar de vida semelhantes superam a marca de 75%."

"Isto explicaria a biologia mas não o desenvolvimento cultural, estou certo?" - comenta o capitão.

"Está correto. Alguns colegas preferem acreditar num inconsciente coletivo cósmico que levaria a evolução cultural por caminhos semelhantes, não importando em qual quadrante do universo a civilização esteja; desde que seja humanóide com padrões cerebrais parecidos."

"Mas isto é uma grande bobagem" - exclama o comandante.

"Talvez não. Já ouvi falar de uma tal teoria de Hodgkin de mundos paralelos" - acrescenta o capitão.

"Isto mesmo. Esta obra é a base dos meus estudos." - confirma Marino.

"Bom, então pode se supor que, neste caso, possa , quem sabe, ter havido uma contaminação externa? Uma cultura primitiva sendo manipulada por outra mais avançada?" - acrescenta ao hall de perguntas sem respostas o comodoro Solano tentando encadear seus pensamentos.

"Isto também é provável, comodoro. A Terra é um exemplo disso. Hoje sabemos que civilizações mais avançadas visitaram nosso planeta no passado e chegaram a governar várias extensões territoriais. Mas isto gerou muitos conflitos e elas voltaram para as estrelas. A própria mitologia Greco-Romana nos conta várias destas histórias." - o tenente Marino estava gostando da conferência. Seu trabalho era demais delicado e pouco reconhecido, pois autorizações para estudar culturas humanóides não eram freqüentemente autorizadas pela Frota ou pela Federação. Esta estava sendo uma oportunidade única que não queria desperdiçar. Foi uma grande sorte estar na Aries quando esta partiu num tipo de missão que lhe servia como uma luva.

"A terceira teoria - continua- é a mais fantástica!"

"Existe uma mais fantástica?"- exclama o comandante com ar de deboche. A Dra. Andrews o olha com ar de reprovação e ele treme. Não sabia como ela fazia isso com ele. Mas ele se calou. Por que ela tinha que se parecer tanto com sua mãe?

"A terceira teoria fala de seres que chamamos de semeadores. Esta raça, da qual não temos ainda uma comprovação de sua existência, tem como objetivo observar culturas de diferentes planetas e espalhá-las para povoar o universo. Muitos seres são abduzidos e transplantados para outro planeta onde podem continuar sua evolução".

Isto explicaria o porque da Roma lá de baixo ter tanto tempo de evolução quanto teria na Terra se Roma não tivesse sido dividida por Constantino no ano 330dC, o que abriu espaços para as invasões bárbaras."

"Isto é realmente surpreendente, tenente."- exclama a doutora."Mas em qual das teorias se encaixa a nossa Roma?"

"Bom, doutora, esta é a questão. Não sabemos. Se pudermos descer e pesquisar em suas bibliotecas poderemos ter uma nova perspectiva para esta situação incomum."

"Não sei se teremos tempo para isso" - diz o comodoro dissipando as esperanças do jovem pesquisador e lembrando que a prioridade da missão é de limpar todos os vestígios da presença da Federação até quando esta julgar o momento propício para um primeiro contato oficial.- "Temos que montar uma equipe para descer e evitar ao máximo o contato com os habitantes. Temos que investigar as cavernas para recuperar os uniformes que Kirk deixou lá. Uma outra equipe deverá ir à cidade devidamente disfarçada como cidadãos comuns e descobrir se há algum sobrevivente da Beagle e resgatá-los ou, como o tenente Marino deve preferir, abduzi-los, por bem ou por mal."

"Senhor, com todo o respeito. Devo insistir na possibilidade de também colher algumas informações sobre a cultura deste povo. É uma oportunidade única para um cientista da minha área. É como morrer de sede perto de una fontana."

"O comodoro irá considerar o pedido... - diz o capitão sorrindo para seu velho conhecido como quem diz 'Ora dê uma chance ao rapaz'.

"Bom... como o capitão disse, irei considerar o pe...".

O comodoro é interrompido no meio da frase pelo soar do painel de alerta que começa a piscar numa cor bem chamativa: o amarelo. Alguma coisa estava errada. O capitão Goldman toca no intercom da mesa,

"Jamal, o que está havendo aí em cima?"

"Capitão, ao completar-mos a órbita visualizamos quatro naves coletando destroços da Beagle que ainda estão vagando no espaço".

"Alguma identificação?"

"Parecem piratas Elasianos". Finalmente alguém estava recolhendo o lixo, pensou Goldman.

***

O senado estava agitado. Desde a morte do primeiro-cidadão nas mãos dos bárbaros o procônsul Claudius Marcus acumulou muito poder e isto a república não podia permitir. O cônsul Otavius estava em viagem de negócios e não voltaria para Roma em menos de cinco dias, e hoje era o dia previsto para a indicação do nome de Claudius para o posto de cônsul. Alguns senadores estavam achando que seria melhor reverem este referendo e esperar pela volta de Otavius, mas outros achavam que Claudius era um homem de confiança e até mesmo seus adversários políticos o admiravam pelo pulso firme com que conduzia os assuntos de segurança de estado.

Um grupo de senadores estava reunido comentando a situação política enquanto o procônsul não chegava. Entre eles estava Lucius Tiburcio que era contra o anúncio do nome de Claudius na ausência do cônsul Otavius.

"É um absurdo! Não vejo o porque de tanta pressa" - desabafa Lucius. Pompeu, o mais velho e respeitável senador romano, pondera.

"Roma está sem comando. O atentado à Merricus deu aos bárbaros mais ânimo para liderar revoltas em todas as províncias. Com a nomeação de Claudius reafirmamos a ordem na república. Além do mais ele é muito influente no exército. Várias legiões o apoiam."

"Então estamos sendo coagidos. Não podemos permitir isso!" - argumenta Lucius ainda indignado.

Aproximando-se dos dois, Cassius Oliva sussurra - "Cuidado com os ânimos, colegas. Há muitos entre nós que são simpáticos ao procônsul. Não queremos deixar nossas mulheres viúvas, não é mesmo?"

O senador Cassius era um homem de meia idade, baixinho e também comedido em suas atitudes. Tinha uma paranóia que todos estão conspirando a todo o momento para matarem uns aos outros. Para alguns, sua paranóia era sinônimo de realidade.

À seis anos e meio o cônsul Julius Crato fora envenenado por um escravo que provavelmente tinha sido pago por alguém. Porém não viveu para gastar a paga. Foi justiçado por Claudius Marcus que era amigo do cônsul e seu questor. Por seu gesto fora eleito pretor e depois governador de Cartago.Muitos ainda acham que o próprio Claudius arquitetou a morte do amigo.

Sua transferência para Roma foi muito rápida. Ele veio de Cartago acompanhado de Merricus. Após uma audiência com Otavius, Merricus foi nomeado primeiro-cidadão. Ele deu aos romanos muitos conhecimentos.

Principalmente na área de engenharia mecânica e eletrônica.. Novos motores foram criados. Potentes e econômicos. Por algum tempo Merricus era chamado de o sábio.

Com Claudius eleito procônsul de Roma, Merricus passou a ser seu braço direito e ficou responsável pelo lazer do povo. O pão e o circo eram necessários para desviar a atenção do povo dos assuntos políticos que interessava em esconder. A responsabilidade pela audiência dos jogos era um grande cargo, ele foi nomeado edi.

Então um lado de Merricus que ninguém conhecia aflorou. Os jogos ficaram mais sangrentos. Muitos cidadãos, a maioria desafetos de Claudius, eram mortos na arena com requintes de crueldade. Merricus passou a ser chamado de mais um nome: Carniceiro. E passou a ser temido tanto quanto o próprio procônsul.

Agora, sem sua incômoda presença, Claudius Marcus via-se em uma posição em que poderia até desafiar o senado e a república.

Isto Lucius Tiburcio estava disposto a evitar a todo custo.

"Lembram-se do exemplo de Septimus? " - adverte Cassius . Sua voz faz com que Lucius desperte de suas lembranças. Tal comentário lembra a todos o quão desagradável seria se opor ao procônsul.

"Septimus era um fanático religioso. Isto foi sua ruína" - comenta Pompeu.

"Ele era um nobre, mas depois da morte de sua esposa ficou muito esquisito."- diz Lucius com pesar. Septimus e sua família eram muito queridos por ele. Só de pensar que o mesmo poderia acontecer consigo o aterrorizava.

Trombetas ecoaram no salão. Primeiro entraram a guarda pretoriana e, em seguida, o procônsul com seu segurança pessoal, o comandante Adriano.

Claudius se dirigiu a tribuna. Ignorando os protocolos e fez um pronunciamento.

"Senhores senadores, peço vossa atenção. Devido à instabilidade do regime vejo-me na obrigação de declarar Lei Marcial. Todas as deliberações do senado estão suspensas."

Os gritos de protestos e as vaias não foram o suficiente para calar o procônsul.

"Aguardaremos o retorno do nobre cônsul Otavius para tomar novas deliberações. Obrigado pela a atenção."- quando ia se retirando lembrou-se de algo e retornou ao microfone.

"Ah, já ia me esquecendo. Hoje seria o dia de minha nomeação à cônsul. Como sei que a maioria têm o meu nome em consenso - neste momento os guardas apontam para os senadores. Nenhum deles se opõe à nomeação. - agradeço o voto de confiança e estejam certos que honrarei o título. Obrigado." - e com todo o seu sarcasmo abandona o salão do senado deixando todos atônitos. Um golpe estava se desenhando. Otavius precisava ser prevenido.

Cassius, o cauteloso, deixou seus colegas discutindo a ultrajante ocasião e dirigiu-se ao Ministério da Informação. No meio do caminho notou estar sendo seguido. Ainda não era o momento. Mudou de direção. De repente a casa de banhos Coríntios pareceu ser um melhor destino. Afinal, não era chamado de cauteloso por nada.

***

O capitão, o 1°oficial, e o comodoro entraram curiosos na ponte de comando.

O oficial de ciências cede a cadeira e o capitão Joshua já senta ditando ordens.

"Entre em contato com eles e diga que estão violando as leis da Federação. Ponha no visual.". O tenente Akwe atendeu imediatamente. As naves tinham ligadas a elas alguns homens presos por cabos que carregavam cestos para o interior. Tudo era considerado reciclável pelos elasianos. Da menor chapa de metal até pertences pessoais. E tudo era negociável.

"Estão entrando em nova formação, senhor. Uma das naves está se posicionando para ataque." - avisa o tenente Jamal.

"Passar para alerta vermelho. Armar escudos. Deixar bancos phasers preparados"

O piloto e artilheiro alferes Benson estava suando apesar da temperatura da cabine de comando estar agradável e estabilizada em 21° Celsius. Era a primeira vez em que servia numa situação de combate real e é nesses momentos em que se descobre de que os homens, ou andorianos são feitos e se as horas gastas nos simuladores foram bem assimiladas.

Toda aquela situação era um grande desafio para aquela jovem tripulação. O capitão Goldman sabia disso e iria exigir o máximo de todos. O sucesso da missão e suas próprias vidas dependiam da eficiência de cada um. Não demorou muito para que todas as naves piratas entrarem em formação de ataque.

A Aries era uma nave pequena se comparada com os cruzadores da Federação como a Enterprise. Na verdade não era uma nave para grandes batalhas.

Normalmente fazia missões de reconhecimento e pesquisas científicas. Enfrentar quatro naves ao mesmo tempo seria realmente um grande desafio.

Por sorte as naves elasianas não eram tão amedrontadoras. Possuíam phasers que demoravam a recarregar pois a grande vantagem de suas naves era a sua velocidade. As naves eram menores que a Aries e seu poder de fogo, isoladamente, também. Os elasianos geralmente preferiam fugir a ter que entrar em combate, só o faziam em último caso. Ao fugirem garantiriam um outro dia de saques bem sucedidos.

Mas outra coisa que incomodavam o capitão Goldman era que os piratas elasianos eram conhecidos também pela imprevisibilidade de seus atos. Um rato acuado é sempre mais agressivo.

O alferes Akwe informa ao capitão que não há resposta aos apelos da Federação.

Se as quatros naves atacassem em conjunto poderiam causar sérios danos à nave e prejudicar a missão em andamento.

Era hora de negociar.

"Ponha-me no áudio, alferes."- ordena Goldman vendo o sinal positivo de seu oficial de comunicações e começa o seu discurso:

"Aqui é o capitão Joshua Goldman da USS Aries. Vocês estão recolhendo material que pertence à Federação dos planetas unidos. Isto viola vários códigos interplanetários, mas também sei que isto não os incomoda, não é?

Quero falar com o comandante desta operação. Gostaria de negociar".

O comandante Bergman lança um olhar de surpreso para o seu capitão e este devolve um olhar do tipo 'Acalme-se, eu sei o que estou fazendo'.

O tenente Akwe, eufórico, diz que recebeu uma resposta ao apelo do capitão.

"Ponha na tela, tenente."- pede o capitão com um sorriso de satisfação.

O comodoro Solano acompanha a transação com grande curiosidade. Seria a primeira vez na história que a Frota Estelar negociaria com piratas.

Na tela apareceu um homem corpulento de meia idade com uma barba loura e grisalha, vestido com uma jaqueta de couro marrom e uma touca de mesmo material. Tinha o olho direito um pouco esbugalhado e o esquerdo fechado.

Talvez fruto de algum ferimento no passado.

"Aqui é o capitão Tibor. Não reconhecemos o direito da Federação neste quadrante e estes destroços são apenas lixo".

"Este lixo, capitão, são restos da nave SS Beagle que foi destruída à seis anos. Ela era uma nave contratada pela Federação para fazer mapeamento desta área, portanto seus destroços pertencem à Federação."

"Esta área não é de domínio da Federação. Estamos em espaço neutro.

Portanto, meu caro capitão, achado não é roubado. Você disse que queria negociar e fiquei curioso. O que um capitão da temida Federação tem a oferecer?"

O capitão Goldman Tinha que pensar rápido. O comodoro e seu primeiro-oficial estavam ansiosos com o desfecho da conversa.

"Eu tenho uma proposta. Deixarei que partam com o que já recolheram desde que partam desta área imediatamente."

"Deixará, capitão? Ora, é tão generoso de sua parte quando nós o superamos em poder de fogo. Você não tem nada a nos oferecer." - diz Tibor assumindo uma atitude mais ameaçadora- "Nós é que ordenamos que parta. Dou-lhe um minuto, ou então sua grande Federação terá mais destroços com o que se preocupar."

Os gritos de euforia na ponte da nave elasiana puderam ser ouvidos antes da tela apagar. Ponto para eles. Goldman tinha que virar o placar.

"É , capitão, ele o deixou em maus lençóis, e agora?" - pergunta o comodoro com um certo sarcasmo.

Vendo a angústia tomar conta do comandante Bergman, o capitão pede sua palavra.

"Alguma sugestão, comandante?"

"Senhor, como oficial tático devo informar que as nossas chances de vencê-los em batalha é de 43,9%. Antes que possamos contra-atacar, no caso de sofrermos um ataque combinado os escudos irão enfraquecer deixando-nos vulneráveis. Um segundo ataque deles e poderão danificar nosso propulsor e manobrar a nave ficará impossível. Um terceiro ataque, teria, como alvo provável, a engenharia e a nave estaria mortalmente ferida. Seríamos um alvo fácil. Na quarta investida seria o golpe de misericórdia e então nos tornaríamos mais um capítulo na história de batalhas da Frota a serem inseridos no Kobaishi-Maru.

"Cheque-mate em quatro movimentos" - conclui pesarosamente o capitão. Exercer o comando de uma nave estelar requer treinamento árduo, inteligência, sagacidade e criatividade, na maioria das vezes. Era hora de pô-la em prática.

"Tenente Jamal, já lançou sondas?" - pergunta Goldman.

"Não, senhor. Quer dizer... Já em..."

"... em exercícios virtuais."- completa o capitão - "Qual foi sua média, filho?"

"Foi nove ponto oito, senhor."

"Muito bom. Escute a minha idéia e para o nosso bem é melhor executá-la bem rápido."

O jovem oficial escuta atenciosamente e todos na ponte ficam intrigados como o plano de Goldman poderia ser executado. Tudo dependia de uma certa sincronia.

Os phasers estavam travados para uma rajada de amplo alcance. Mesmo se as naves elasianas tentassem fugir, uma ou duas seriam atingidas seriamente dando chance para a Aries se posicionar melhor. Os alferes Shres e Benson estavam tensos, mas prontos.

O oficial de comunicações Akwe teria que monitorar as naves inimigas verificando o quanto elas sondam a Aries e bloquear a ação de seus sensores.

Enquanto isso o tenente Jamal e o comandante Bergman preparariam o lançamento de uma sonda que irá transmitir, propositadamente, comunicações de um cruzador Klingon simulando a presença de uma nave do setor.

Os Klingons não faziam acordos para obterem o que queriam. Os elasianos sabiam disso e não arriscariam seus traseiros.

Para isso tudo dar certo era preciso ganhar mais tempo.

***

O pronunciamento do procônsul sobre a lei marcial foi transmitido somente para Roma através da TV Imperial. As fronteiras da cidade foram bloqueadas.

As estações de rádio foram ocupadas e transmitiam apenas óperas. A população, atônita, não saia de casa. Tudo parecia estar calmo. Mas esta calmaria era uma farsa e o senador Lucius sabia disso.

Em sua adega havia uma passagem secreta, muito pouco usada, que dava para uma pequena sala onde víveres eram guardados caso fosse necessário "sumir" por uns tempos.

Nesta mesma sala havia um rádio que podia transmitir informações importantes para o cônsul Otavius. Em alguns minutos tudo estaria dito. Dois dias a mais e o futuro império de Claudius Marcus seria o mais breve da história, tendo acabado antes de ter começado. Ao sair da sala secreta pegou seu melhor vinho e subiu para fazer sua ceia. Sabia que ainda era muito cedo para comemorar, mas nunca era tarde para se apreciar um bom vinho.

***

No palácio o novo cônsul traçava novos planos para o seu futuro império como uma aranha tecia sua teia para capturar uma nova refeição.

A tecnologia dos bárbaros do espaço seria muito útil nestes tempos de crise.

Possuía três armas de raio de fazer inveja à Júpiter. É claro que todas estavam seguras em um cofre cuja a localização só ele conhecia. Estavam sob a base de uma estátua de mármore da deusa Vesta a protetora dos lares e do fogo sagrado. O simbolismo era grande. Nada como uma deusa do fogo para guardar um grande fogo. Outro simbolismo era de que a estátua lembrava também sua origem. Sendo ela quem controlava os espíritos do fogo que alimentavam as chamas de todas as lareiras e fornos da nação romana; era também reverenciada pelos confeiteiros e padeiros tal como o seu pai. Embora ele não estivesse mais vivo para ver aonde o seu filho chegara com certeza ele estaria orgulhoso onde quer que estivesse.

O cuidado em esconder tais objetos era porque em Roma não se podia confiar em ninguém, até Merricus o havia traído. Se ele queria ter alguma vantagem na disputa de poder com Otavius devia guardar alguns trunfos. Nem mesmo em

Drusilla, sua concubina, confiava mais. Agora menos ainda depois que a torturou para saber da sua participação na fuga dos estranhos. Temia que ela estivesse com ódio e rancor. Isto seria um bom motivo para ela o trair ou fazer coisa pior.

Ao entrar em seu quarto pode ver Drusilla debaixo dos lençóis, com sua tez alva e seus longos cabelos dourados. Ela parecia tão... tão frágil. As marcas de açoite em suas costas eram uma boa demonstração disso.

Claudius sentou-se na cama e começou acariciar suas feridas e então ela acordou. A princípio, assustada, mas depois que viu a face de seu senhor ficou aterrorizada.

"Calma, querida. Não vou fazer-lhe nenhum mal."

"Por favor, meu senhor.... eu não sei de nada .... eu juro!"

"Calma. Não há o que temer. O pior já passou. Me perdoe Drusilla mas eu precisava saber se você havia ajudado Merricus a me trair."

"Eu já disse. Não fiz nada. Só o que me foi ordenado. Eu... Eu entreti o estranho e pus o pó do sono em sua bebida. O senhor não queria que ele me tivesse e eu o obedeci. Foi isso o que aconteceu. Esta é a verdade."

"Tudo bem, meu amor. Isto é passado agora. Venha, me acompanhe. Quero mostrar-lhe uma coisa."

Os dois levantam-se da cama e Claudius conduz sua escrava favorita até um baú de onde tira um belo colar de ouro com pedras preciosas incrustadas.

Drusilla esquece um pouco as dores de seus ferimentos e se deslumbra com o presente.

"Um dia ainda a farei imperatriz"- promete o cônsul demonstrando certa verdade em suas palavras.

"Oh, meu senhor. É lindo." - os olhos de Drusilla se enchem de lágrimas e ela começa seus agradecimentos beijando o seu senhor. Seus lábios eram doces e este momento de felicidade era tudo o que Claudius precisava antes da guerra começar.

***

"Tenente Akwe, abra os canais de comunicação"

"Sim, senhor."

Toda a diplomacia e noções de estratégia aprendida em longos anos de Frota Estelar teriam que ser úteis neste momento. Ser instrutor na Academia era uma coisa muito diferente do que enfrentar situações inusitadas no espaço profundo. Nem todos os programas do Kobaishi-Maru poderiam prever um conflito como aquele. Os piratas elasianos eram também famosos pela sua vaidade e este seria o calcanhar de Aquiles que Goldman queria atingir.

"Capitão Tibor, aqui é o capitão Goldman. Estávamos em uma missão de pesquisa e temos uma equipe no planeta. Preciso de mais tempo para trazê-los à bordo."

Fez-se silêncio na ponte. O alferes Akwe não recebia nenhuma resposta. Restavam menos de vinte segundos do prazo estipulado pelo pirata. Parecia que uma batalha espacial seria a única saída para a situação. De repente uma luz piscou no painel de comunicações. O alferes fez sinal de positivo e o capitão pediu que a tela principal fosse acionada. "Aqui é Tibor. Vejo que se rendeu aos meus termos. A federação prefere evitar uma batalha e nós ficamos tristes com isso. Principalmente porque a sucata de uma nave da Frota Estelar valeria uma fortuna no mercado negro. Mas compreendo a sua posição. Encare isso como uma cortesia de capitão para capitão. Tem mais dois minutos para usar seus transportadores. Depois disso não poderei segurar mais os meus homens. Afinal de contas temos uma reputação a zelar, compreende?"

"Perfeitamente. Ficamos gratos com sua... generosidade. Goldman desliga." A tela se apagou e Goldman tocou no intercom do braço de sua cadeira para saber do progresso de seu plano.

"Comandante, como estão indo?" "Estaremos prontos para lançar a sonda em três minutos." - responde Bergman do deck da engenharia.

"Faça em menos de dois." Jamal arregala os olhos e balança a cabeça negativamente para o comandante. Este tenta se desculpar com seu capitão.

"Mas, capitão... Nós não poderemos calcular a órbita precisamente."

"Em três minutos nós não estaremos aqui para nos preocupar com órbitas precisas."

Jamal ergue a cabeça esperando que uma oração `a Alá os salve.

"Entendido, senhor." - Bergman começa a trabalhar mais depressa e esperando não cometer nenhum erro que possa se tornar fatal para todos.

A contagem regressiva continuava. O comodoro agora expressava uma grande preocupação. Se a artimanha de Goldman não desse certo toda a missão estaria perdida. Sua aposentadoria definitiva acabaria por ocorrer, é claro que não da forma como havia pensado, com honrarias, medalhas e alguns créditos a mais em sua pensão. Isto sem falar das vidas de 131 pessoas à bordo que seriam abreviadas sem antes terem vivenciado tudo o que o universo podia oferecer-lhes. Eles eram jovens demais e não mereciam um fim como aquele. Em meio às suas lamentações a voz do tenente Jamal foi ouvida no intercom.

"Estamos prontos, capitão."

Goldman fez sinal para o alferes Akwe e o bloqueio dos sensores dos piratas foi iniciado. A sonda foi lançada pela popa para o lado oculto do planeta. O capitão levantou-se e olhou o cronômetro no painel de navegação.

Tinham menos de trinta segundos.

A sonda se posicionou e começa a emitir as transmissões em Klingonês.

Menos vinte e cinco.

O bloqueio é encerrado. O próximo movimento era dos piratas.

Menos vinte.

As naves começam a se mover. A princípio parecem assumir posição de ataque.

Menos quinze.

Goldman pede que o alferes Benson fique preparado para apertar o botão dos phasers.

Menos dez.

As naves elasianas passam pela Aries à toda velocidade indo para algum ponto desconhecido na galáxia.

Menos cinco segundos e a contagem é interrompida. Todos na ponte começam a respirar normalmente. Menos o alferes Shres que ficou todo o tempo sereno.

Os andorianos eram um povo guerreiro e a morte não os assustava.

Goldman volta a se sentar na cadeira e é cumprimentado pelo comodoro.

"Se eu perdesse minha pensão iria assombrá-lo por toda eternidade."

"Então somos homens de sorte".

Instantes depois o comandante e o oficial de ciências saem do turbo elevador ainda sem saberem o que acontecia.

"E então?" - pergunta Bergman.

"Parece que engoliram a isca" - responde Goldman.

O andoriano estava intrigado com a facilidade com que as naves piratas fugiram e não se conteve em fazer uma pergunta para o capitão.

"Senhor, se me permite perguntar. O que dizia a transmissão da sonda?"

"Se me permite, capitão..." - o tenente Jamal se adianta.

"Vá em frente."

"Bom, simulamos a transmissão de um cruzador Klingon que dizia algo como:

'Ora, Ora. Que belos alvos temos ali para nossos artilheiros praticarem'."

Todos começam a rir. Principalmente da interpretação do tenente. Mas o andoriano fica sem entender o humor dos humanos e seu companheiro, o piloto Benson, tenta explicar a situação sem muito sucesso. O alferes Shres começava aprender que sua estadia naquela nave iria ser muito instrutiva.

Ele só não sabia como.

"Bom, senhores, temos uma missão a cumprir. Tenente Jamal nos acompanhe - Goldman aperta o intercom - Tenente Tagushi assuma a ponte." A missão estava novamente em andamento.

***

As prisões estavam lotadas. Várias pessoas foram presas nas últimas quarenta e oito horas por violarem a lei marcial e outras por motivos que ninguém sabia.

No palácio do governo existia uma carceragem especial destinada a presos ilustres. Doze deles pertenciam ao grupo de Merricus. Alguns tiveram permissão para construírem famílias e serem proprietários de terras e imóveis. Isto tudo agora eram apenas recordações. O governo confiscara todos os seus direitos. Principalmente o de liberdade.

Enquanto alguns tentavam acalmar suas mulheres e filhos. Outros bradavam ofensas à Claudius e seu maravilhoso governo.

O barulho de portões de ferro sendo abertos e de passadas barulhentas e pesadas foram ouvidas pelos prisioneiros. No meio do corredor se postou o homem forte de Claudius após à morte de Merricus, cercado por uma dúzia de soldados, o comandante Adriano. O líder de todo o exército da província bem como da polícia. Sua presença naquele momento não era um bom sinal.

"Ouçam bem. O novo cônsul Claudius Marcus decretou vossa prisão para garantir a vossa segurança. Não toleraremos insubordinação de bárbaros no berço de nossa civilização. A punição será a morte. Sem nenhuma distinção."

A voz grave de Adriano quase os ensurdecia. O coração disparado quase impedia o ex-tenente Richard Ross de expressar sua indignação.

"Estamos o dia inteiro aqui e não podemos nem falar com os nossos advogados. Peça ao cônsul para nos ouvir pessoalmente. Somos cidadãos leais e não merecemos este tratamento. Nossos impostos estão em dia!" - tenta uma apelação.

O comandante se aproxima da grade para olhar dentro dos olhos de Ross. Seu olhar era como um facho de phaser.

"Eu sou os ouvidos e os olhos do cônsul agora. Contentem-se por termos poupado suas vidas. Muitos não tiveram a mesma sorte. O destino de vocês ainda não foi decretado. Não queiram antecipar o pior."- dizendo isto Adriano se retirou.

Os prisioneiros voltaram a resmungar e a chorar. Alguns rezaram para que alguém os ajudassem ou para algum milagre acontecer.

O cônsul Claudius Marcus estava apreensivo. Ele caminhou pelo salão de um lado para outro um sem número de vezes. Todo o seu plano tinha detalhes meticulosamente planejados, mas ainda havia muitas variáveis.

Mesmo antes da chegada de Merricus sua escalada pelo poder já havia começado. Com os bárbaros do espaço e sua tecnologia avançada contava em acelerar o processo. A relutância deles em ajudá-lo foi muito grande. Até a própria nave eles destruíram para que não a possuísse. Tinha planos para ela. Poderia, mais tarde, expandir seu império pelas estrelas. Poderia se tornar um verdadeiro Deus. Por outro lado era uma porta permanentemente aberta para uma fuga e de tempos em tempos a nave acabaria por precisar de manutenção, correção de órbita e outras coisas mais. No final sua destruição serviu aos seus propósitos de qualquer maneira.

Alguns só foram convencidos em ajudá-lo porque não tinham mais como voltarem para casa ou se comunicarem para pedirem para alguém resgatá-los. Merricus, de todos, foi o que se tornou mais cooperativo e também o mais fácil de se corromper. Um pouco de poder e prazer modificam muito o caráter de um homem.

Foi até um busto no canto da sala e apertou um botão secreto em sua base. Uma parede atrás se moveu e revelou uma sala secreta. A herança de Merricus estava lá.

Nem toda tecnologia espacial lhe foi proporcionada. Lá dentro ele havia guardado uma dezena de comunicadores e rifles lasers capturados da Beagle e outros instrumentos dos quais desconhecia o uso. Seus cientistas não conseguiram reproduzi-los ou criar algo semelhante, mas continuavam tentando, em sigilo, naturalmente.

Como uma nave mercante a Beagle não possuía uma equipe científica especializada à bordo. Eram cartógrafos, engenheiros de manutenção e alguns ex-soldados. Havia um médico e dois enfermeiros mas morreram na arena se recusando a serem colaboracionistas.

Um ou outro engenheiro colaborou com a república melhorando o sistema de comunicações. O pouco que sabiam fez evoluir a tecnologia do planeta em cem anos. O grande avanço estava para acontecer. O lançamento do primeiro satélite. Com ele se iniciaria a era da telecomunicação global. Apesar de informação ser a sua especialidade, Claudius Marcus queria, no momento, a desinformação. O satélite ainda era segredo de estado nem Otavius ou o senado sabia de sua existência. Mais um trunfo.

Queria adiar, a todo custo, um confronto com Otavius mas sabia que isto era inevitável. Para tal momento contava com Adriano e seu exército, só se as coisas ficassem realmente difíceis de controlar. Fechou a sala e se sentou no sofá.

Com seus pensamentos indo e vindo procurando as melhores estratégias, o novo cônsul não percebera a entrada de seu comandante.

"Perdão, senhor"- desculpa-se Adriano mais para chamar a atenção do seu distraído superior.

"Oh, Adriano. Estou feliz em ver-te meu futuro general. Quais as novidades?"- Claudius o abraça e o traz para sentar-se junto a si. Adriano sorri quando lembra da palavra " general" .

"Aprisionei aquelas pessoas da lista que me deu. Elas querem falar-te. Mas respondi que eu seria seu interlocutor."

"Fez bem. Um encontro com eles neste momento só seria, no mínimo, fatigante. Tenho outras responsabilidades. Mas dê ordens de tratá-los bem. Nada de luxo. Duas refeições por dia e água à vontade. Separe as crianças. Assim eles serão mais cooperativos" - Claudius fazia gestos demonstrando estar cansado de controlar as turbas desordeiras.

Drusilla entra na sala com uma cesta de pão e queijos pondo-a na mesa e , em seguida, começa a servir vinho enquanto a conversa prossegue. Adriano a segue com o olhar.

"Notícias de Otavius?" - pergunta o cônsul interrompendo os olhares de Adriano.

"Recebemos uma mensagem de rádio que nos avisa que em menos de dois dias estará de volta à Roma, vindo de Licínia."

"Então devemos nos preparar. Nada poderá impedir o surgimento do novo império. Uma nova ordem mundial."

"Ave, Claudius!"- brada Adriano erguendo sua taça. Claudius retribui o brinde e sorri pensando nas formas como poderia, no futuro, de se livrar também de Adriano, assim que consolidasse seu império.

***

Na sala de transporte estava toda a equipe de descida. Eram nove ao todo. O capitão, o número um, conhecido também como o comandante Bergman, o comodoro, que além de estrategista era especialista em história militar antiga; o que incluía conhecimentos específicos sobre o império romano; o oficial de ciências e o oficial médico; componentes padrões dos grupos de descida. Além deles havia o xenosociólogo, e muito agradecido pela oportunidade, o tenente Marino e mais três oficiais de segurança.

Quando o transporte foi acionado todos sabiam o que fazer na superfície do planeta. Iriam se dividir em dois times. Um iria para as montanhas procurar o líder dos filhos do sol, Septimus. Este grupo era composto pelo capitão, a doutora e dois oficiais de segurança, todos com trajes de homens livres e pobres, produzidos pelo computador baseado nas informações visuais recebidas.

O outro time trajando vestes de homens livres mas um pouco mais abastados, era composto pelo comodoro, o comandante, o oficial de ciências, o tenente Marino e um segurança, que iriam para a cidade em busca de pistas sobre a passagem de Kirk e seu grupo naquele planeta. O primeiro lugar a ser visitado seria a biblioteca pública para conhecer melhor a cultura e as leis, além de ter acesso aos mapas da cidade e do império. Depois teriam que ir a sede da emissora de tv e a do jornal da cidade para recolherem e destruírem as notícias que por ventura tenham sido veiculadas dizendo algo a respeito dos estranhos bárbaros e por fim , o passo mais perigoso da missão, ir até ao palácio de governo e verificar se eles possuíam alguma informação sobre os possíveis sobreviventes da Beagle.

O primeiro grupo se materializa no alto de uma colina. Ë dia claro, o sol está forte e o ar quente causa uma brusca mudança de temperatura no corpo do grupo. O suor é uma conseqüência que advém com o esforço de descer a colina. O capitão olha insistentemente para o céu como se estivesse procurando algo. Isto incomoda a doutora que, percebendo a preocupação de seu superior, não consegue deixar de fazer-lhe uma pergunta.

"Preocupado com a Aries?"

"Não, estou preocupado com os rapazes lá em cima."

"Acha que eles não darão conta? O Tenente Tagushi é um bom oficial. Ele já serviu na Eagle por dois anos."

"Eu sei. A Eagle é um cruzador pesado e a Aries é uma nave exploradora, bem menor. Eu costumo ler a ficha de meus oficiais. Ele não estaria sentado na minha cadeira se não fosse competente."

"Minha cadeira? Então é isso? O velho ciúme do capitão com sua nave."

"Ciumento? Eu? Não. É que a maioria nunca se viu em uma missão de verdade antes e..."

"Capitão... Eles precisam de um ritual de passagem. As 'crianças' já estão crescidas. Já foram treinadas pela academia e agora farão o seu melhor para provarem seu valor, para a federação e para o seu capitão."

"É, talvez você esteja certa. Não me lembro de ter lido sobre as suas qualidades de psicóloga."

"Não é bem isso. É que eu já fui casada e tenho o péssimo hábito de analisar os homens com quem convivo."

Ambos sorriem e se apoiam um no outro tentando se equilibrar na íngreme descida.

O barulho indefectível do tricorder sondando a área não deixa de ser ouvido e momentos depois um dos guardas de segurança exclama:

"Senhor, emissões térmicas a uns quinhentos metros vindas da base daquela colina à frente. Detecto seis...não...onze figuras humanóides."

"Deve ser o esconderijo de Septimus. Os dados da Enterprise estavam corretos. Lembrem-se, viemos de outra província em busca de novas áreas de mineração de ouro para comprarmos a liberdade de alguns companheiros."

"De que província, senhor? "- pergunta um dos homens.

"Da Gália. Conseguimos carona em um caminhão e estamos andando a dois dias."

"História convincente."- diz a doutora se espantando com os detalhes que só agora eram revelados.

"Assim espero."- diz o capitão com ares de esperança.

***

Não muito longe dali em uma viela sem movimento surge o segundo time.

O tenente Jamal começa a sondar a área para poderem prosseguir mais à vontade. Logo encontram a avenida principal e são recebidos por uma fumaça negra do escapamento de um caminhão. Jamal se põe logo a analisar o ocorrido.

"Sem dúvida era um veículo provido de um motor que funciona com combustível fóssil baseado em hidrocarbonetos."

"É e sem filtro no escapamento" - completa o comandante tentando limpar a fuligem de sua roupa.- "Guarde o tricorder na sacola. Não podemos chamar a atenção. Vamos perguntar a alguém a localização da biblioteca".

As ruas principais eram bem largas e movimentadas com muitos caminhões e carros contrastando com carroças movidas a cavalos que trafegavam em faixas exclusivas.

Uma senhora passava com algumas sacolas e foi abordada por um Bergman sorridente e respeitoso.

"Por favor, minha senhora. Poderia me informar onde fica a biblioteca" ?

"Qual delas meu jovem" ?

Bergman fica confuso e olha para seus companheiros procurando uma resposta mas eles dão de ombros.

"A mais próxima."- responde à senhora.

"Tem uma bem ali na próxima rua nos banhos Corintos."

"Muito obrigado."- agradece o comandante mas não consegue entender como em uma casa de banhos poderiam encontrar as informações que queria. O tenente Marino explica:

"É um fato que na nossa Roma antiga as casas de banho eram um complexo de prédios onde além dos banhos frios e quentes, os romanos podiam praticar esportes, fazer compras em diversas lojas e até freqüentar bibliotecas. Era uma mistura de clubes de veraneio com shopping centers típicos do século vinte. Uma das casas de banho das mais famosas era de Caracala que possuía até um estádio para corrida de bigas."

"Muito instrutivo tenente." - diz o comandante com um ar enfadonho. A esta hora ele preferia estar patrulhando a zona neutra ou algum outro lugar onde as verdadeiras batalhas pudessem ocorrer e não ter que ficar ouvindo aulas de história antiga.- "Mas temos que nos apressar. Temos um horário a cumprir."

Então todos se misturam na multidão caminhando na direção da casa de banhos sem saberem que a república estava sob ataque e que a segurança de todos era algo muito frágil.

***

Claudius não teve um sono tranqüilo nem mesmo o corpo quente de Drusilla pôde acalmá-lo. Enquanto se revirava na cama em busca de um sonho bom, sons de alguém batendo à porta o trazia para a realidade. Os travesseiros não conseguiam abafar os ruídos. Então a única atitude possível foi atender a porta.

O cônsul levantou-se demonstrando irritação. Vestiu seu robe e caminhou na direção da porta gritando:

"Já vai! Já vai! Quem é?"

"Comandante Adriano, senhor. Trago notícias urgentes."

Abriu a porta. O chefe da guarda pretoriana estava pálido. Parecia ter visto um fantasma.

"Senhor...- fez uma pausa para buscar fôlego - O cônsul Otavius está aqui!"

"Mas já? Quando?"

"Esta manhã."

"Onde ele está?"

"Aqui."- responde imediatamente o cônsul Otavius ao se postar defronte de seu par na liderança da grande nação romana.

Claudius Marcus engole a saliva tentando abrir caminho para as palavras que não saem de sua boca. Tenta balbuciar algo, mas a única coisa que consegue fazer é espantar com gestos os guardas que estavam à porta. Otavius, sem ser convidado, adentra o quarto e fica esperando que seu colega faça o mesmo.

Claudius fecha a porta ajeita o laço do robe pela segunda vez e corre para fechar o mosquiteiro da cama tentando, em vão, ocultar a presença de Drusilla.

"Sempre em boa companhia, não?"- comenta Otavius.

"É... claro... senhor. Mas o que o traz ao meu quarto tão cedo assim?"

"Cedo? Não usas mais relógio? Já são mais de dez da manhã."

"Não havia percebido."- Claudius abre as cortinas e a claridade ofusca-lhe os olhos. Drusilla geme na cama também incomodada pela luz da manhã.

"Temos muitos assuntos pendentes a tratar e não podia esperar."

"Nós apenas o aguardávamos para o final da semana. Algo deu errado na viagem de negócios? Os pesqueiros de Cartago requisitaram redução de impostos? Os vinhedos da Gália tiveram alguma praga? Ou ..."

"Cale-se, Claudius." - ordenou Otavius e assumindo uma postura mais séria e grave. Se sentou e continuou a falar - "Não foram os negócios que adiaram minha viagem mas sim o clima de guerra civil instaurado na capital. Que história é essa de decretar lei marcial? Por que o senado foi fechado? Como você foi nomeado cônsul na minha ausência?"

"Mas como...?"

"Como soube? Não interessa. Sente-se e vamos ouvir a sua história."

Drusilla acordou com o falatório. Se espreguiçou soltando um grande bocejo.

Abriu o cortinado e deu de cara com Claudius e Otavius olhando para ela. Sua face logo enrubesceu. Pegou suas vestes, que estavam jogadas no chão, e saiu por uma porta que dava para um quarto contíguo; sem olhar para trás.

Sem a inoportuna presença da escrava e com a certeza que não existiam escutas no quarto, afinal Claudius não iria espionar a si próprio, Otavius continuava a esperar, com certa ansiedade, as explicações do novo cônsul da República.

Claudius se sentou. Buscou uma pequena jarra de cristal com água lavou o rosto com as mãos e bebeu o restante do líquido num só gole. Respirou fundo e vendo que não poderia mais adiar o inadiável, começou a falar.

"Otavius. Você não sabe o que passei nestas últimas semanas. Surgiram mais homens do espaço. Mortais com poderes de Deuses. Mais poderosos que Merricus e seus homens. Tentei convertê-los. Os aprisionei, mas não foram cooperativos. Tive que colocá-los nos jogos. Mas Merricus nos traiu e tive que matá-lo.

" Merricus morto ? " - Otavius fica surpreso.

" Para uma crise não se instalar pus a culpa em bárbaros desconhecidos. A única saída possível para controlar toda a situação e procurá-los sem chamar muita atenção foi decretar a lei marcial." - completa Claudius a explicação.

"Você disse mais homens do espaço? Onde eles estão?"

"Fugiram. Desapareceram diante de nossos olhos."

"Desapareceram? Quantos viram isso?"

"Poucos, só a minha guarda pessoal. Eles sabem ficar calados, pois sabem que não serei benevolente com linguarudos".

"E para onde foram? Onde estão?"

"Não sei. Estou a dias procurando-os, mas não posso dar um alerta geral com retratos falados. Eles não devem ficar conhecidos. Quanto menos o povo souber, melhor. Merricus conhecia um deles. Talvez seus homens também o conhecessem e pudessem dar-lhe abrigo. Aprisionei todos os remanescentes da Beagle e revistei suas propriedades. Não há sinal daqueles homens. Havia um até com uma orelhas pontudas, parecia um sátiro, sabe?"

"Suas histórias são incríveis Marcus. Mas se tudo o que diz é verdade estamos num momento muito delicado. Como a população aceitará o fato que os deuses favoreceram outro povo com mais sabedoria e poder do que o glorioso povo romano?"

Ambos ficam pensativos. Claudius vê, nas feições de seu adversário, que não há reprovação quanto aos seus atos. O volume de problemas que apresentara parecia ter confundido e apavorado Otavius, o que o colocava nas suas mãos.

***

"Como fechado?" - pergunta irritado o comodoro que aguardava no início do escadario onde os outros aguardavam sentados a volta do comandante Bergman.

O comandante dá de ombros pois parecia que o grupo estava sem sorte, mesmo assim tenta explicar o que o porteiro já havia dito que, devido a uma lei marcial decretada na véspera, não poderia haver nenhum agrupamento com mais de dez pessoas em nenhum lugar da cidade.

"Então temos que refazer nossos planos"- pensa rapidamente o comodoro- "Eu, o tenente Jamal e o tenente Yuchenko vamos procurar a estação de tv. Você e o tenente Marino irão procurar uma biblioteca ou os arquivos de um jornal.

Eles devem ter algo parecido com uma páginas amarelas em algum lugar público. Nos encontraremos em duas horas na frente daquele obelisco."- diz apontando para o enorme monumento de pedra situado em uma praça com a grama muito bem cortada.

O pessoal do segundo time se dividiu e Bergman ficou pensando se o capitão estava tendo uma melhor sorte.

O capitão preferiu chamar a atenção de Septimus. Montou uma barraca com os equipamentos que os seguranças carregaram em suas mochilas e preparou uma fogueira para fazer um chá com ervas aromáticas. Enquanto os quatro deliciavam o chá notavam que estavam sendo vigiados. O tenente Baudelaire e o alferes Rodrigues ameaçaram pegar os seus phasers, mas o capitão os proibiu com um gesto discreto.

Aos poucos os filhos do sol foram se aproximando até que ouviram uma voz grave.

"Não se mexam, estranhos. Mãos acima da cabeça."

Sob a mira de, no mínimo, cinco espingardas, o capitão e seus companheiros cumpriram as ordens de imediato.

" Este era o seu plano ?" - pergunta a doutora para o capitão.

" Bom nós os atraímos, não ? " - diz o capitão sem muita segurança.

Foram conduzidos em fila indiana até uma caverna aonde encontraram Septimus. Este perguntou:

"Salve, estranhos. Quem são vocês? O que fazem aqui?"

"Somos pessoas comuns, senhor." - começou Goldman com a história já decorada - "Viemos da Gália em busca de novas oportunidades. Soubemos que em um rio aqui perto havia ouro ..."- na verdade foram os sensores da Aries que indicaram um pequeno veio para corroborar sua história.

"Ouro? Mas que história louca! Devem ser espiões como os outros que levaram

Flavius para a morte!" - um rapaz moreno alto e forte interrompe a boa história do capitão.

As armas continuavam mirando os quatro até que Septimus deu a ordem para as abaixarem.

"A vida nos é muito preciosa. Não lutamos contra Roma para nos tornar igual à ela. Abaixem as armas e a desconfiança em seus corações. Usem a cabeça para pensar, não para odiar. O ódio nubla os pensamentos. Vejam suas vestes.

Não são como os outros." - Septimus desfaz a expressão de irritação e sorri convidando a todos para sentar em volta de uma fogueira já apagada.

"Obrigado pelo voto de confiança"- agradece o capitão Goldman.

"Todos aqueles que o Sol toca recebem calor e alguns, as vezes, recebem calor demais." - brinca Septimus , utilizando metáforas, com seu seguidor de atitudes intempestivas. Algo nele lembrava o comandante Bergman. O capitão pensa como seria engraçado se os dois se encontrassem.

"É sua esposa? "- pergunta Septimus apontando para a Dra. Andrews. Esta sorri, mas compreende o engano. Não seria comum naquela sociedade uma mulher viajar desacompa-nhada de um marido ou pai ou algum protetor. Goldman desfaz o embaraço.

"Não, ela é uma amiga. Nós nos reunimos para conseguir dinheiro para comprar a liberdade de alguns companheiros".

"Vocês são contra a escravidão?" - pergunta Septimus com especial interesse.

"Nós acreditamos que na igualdade entre os homens e que a liberdade deve ser um direito de todos".

As idéias iluministas de Goldman ecoam na caverna e encontram simpatia aos ouvidos de todos.

"Nós ainda não nos apresentamos. Eu sou Septimus. Nosso amigo desconfiado aqui é Julius. Estes são Caio, Juno, Minerva, Titus, Glauco, Lucília e seu pequeno filho Espartacus."

"Espartacus ?!"- exclama o capitão.

"Você o conhece?" - pergunta Septimus espantado com a reação de Goldman.

Como ele poderia explicar que o Espartacus que conhece é um herói da história de sua Terra ? Um gladiador líder da revolta dos escravos contra Roma em 73 a.C. que conseguiu derrotar dois exércitos do invencível império romano.

"Não, é que é um nome forte para um garoto!"

"Sim, ele só tem quatro anos, mas é bem esperto para sua idade."- comenta Septimus.

"Bom eu sou Vindix e meus amigos são Almacurcix, Bondelarix e Rodrix" - os nomes falsos faziam parte do plano de caracterizarem pessoas da Gália. Foram inventados naquele instante e não soaram muito bem nos ouvidos dos recém batizados.- "Mas por que estão vivendo em cavernas?"- fala dissimuladamente Goldman - "São escravos fugidos?"

"Alguns sim outros não. Na verdade, meu bom amigo, nós, além de compartilhar das suas idéias de um mundo sem escravos, também temos uma outra aspiração. A que todos somos filhos do Sol."

"Ah, sim. Já ouvi falar de sua seita."- diz a Dra. Andrews tentando participar da conversa mesmo sabendo que apesar daqueles homens estarem lutando pela liberdade, a submissão feminina ainda era algo muito apreciado.

Seu comentário foi ignorado.

"Roma os tem perseguido, pois eles são politeístas e vocês pregam uma unidade religiosa, um Deus único" - comenta Bondelarix.

"Vejo que é bem informado, meu amigo. Como sabe o Sol que está no alto e com sua luz nos banha sem distinção procura dentro de nós o seu reflexo para que juntos nos tornemos uma única luz. Pura, forte, consciente da integração com a natureza. Não podemos deixar a luz para de brilhar. Sabemos que haverá noites, mas Roma quer nos condenar às trevas eternas."

A eloquência de Septimus era devido à anos de discussões no senado onde a oratória era tudo. Naquela época ele se importava apenas com a república.

Agora ele está mais preocupado com o povo e a irmandade do Sol.

Enquanto conversavam eram servidos com frutas, vinho, queijo e pão. O grupo aceitou diplomaticamente a oferta, mas sabiam que não podiam prolongar sua permanência na caverna. Já haviam conquistado a confiança dos renegados, ou estavam próximos disto, então mais tarde poderiam fazer perguntas sobre a passagem de Kirk e saber do paradeiro dos uniformes e equipamentos sem levantarem muitas suspeitas.

"Amigo Septimus, agradecemos sua hospitalidade, mas temos que ir."

"Que pena, não temos muitas visitas ultimamente. A não ser um ou outro mensageiro."

"Não creio que seus amigos queiram visitas por aqui. Eles prejudicam muito o turismo com aquelas armas."- diz Vindix ironicamente.

"Oh, você tem razão. Eles só se preocupam com a segurança do grupo. Temos que fazer patrulhas constantes para evitar que a guarda pretoriana ou a polícia nos encontre. Muitos de nós já foram capturados e nunca mais voltaram."

"Como o tal de Flavius?"- pergunta Bondelarix.

"Sim, como ele."- responde Septimus com tristeza.

"Bom, nós tomaremos cuidado.- aperta a mão de Septimus - Seu segredo está bem guardado conosco."

"Vão em paz, e que o Sol ilumine os vossos passos."

Goldman, Andrews, Baudelaire e Rodrigues, que ainda segurava um pedaço de queijo na mão enquanto tentava mastigar e engolir outro, saíram da caverna em direção ao acampamento certos que começaram bem a missão.

Contudo , no interior da caverna, um diálogo cauteloso é travado.

"Julius? " - chama Septimus.

"Sim, senhor."

"Vige-os, mas com cuidado para não ser visto."

"Assim será feito."

***

"Diário do Capitão, Data Estelar 4056.5 , Tenente Tagushi reportando interinamente.

Os grupos de descida já estão no planeta a quatro horas e ainda não se comunicaram. Poderia ficar mais preocupado se não fossem os transponder que implantamos neles como nova norma de segurança. Esses chips subcutâneos nos dão a localização e os sinais vitais de cada um a todo o momento e o que posso dizer é que, de acordo com eles, estão todos bem. Porém o grupo do comandante Bergman se separou e não sabemos o por quê. Devido ao sigilo da missão nós não podemos nos comunicar com eles, somente eles podem nos contatar e ficou acertado que o fariam de hora em hora. Para que existiam regras se elas não eram cumpridas? Droga!" - o tenente percebe que ficou com os ânimos alterados quando o pessoal da ponte o olha assustados.

"Ops! Computador apague a última frase. Estou começando a ficar um pouco nervoso nesta cadeira. Preferia estar polindo cristais de dilithium na engenharia."

A preocupação do tenente Tagushi não era em vão. O comandante Bergman não havia conseguido um momento para se comunicar sem ser visto por alguém do planeta. Além do mais, na biblioteca central, era um local de silêncio.

"Conseguiu alguma coisa?"- perguntou Bergman ao xenosociólogo em meio a leitura de jornais velhos.

"É più fantástico, comandante! - exclamou o italiano tão alto que Bergman quase ficou quase surdo do ouvido direito. A bibliotecária pediu por silêncio e alguns leitores, que estavam nas mesas ao lado, fizeram muxoxos de descontentamento e em seguida voltaram a ler os seus livros.

"Você... poderia... por favor... falar mais baixo." - ordenou pausadamente Bergman com medo que alguém tenha ouvido a palavra 'comandante'.

"Desculpe, co... senhor"- diz o tenente escolhendo melhor as palavras e falando num tom mais baixo revelou - "Esta sociedade é incrível. Tem tantas similaridades com a nossa Roma e ao mesmo tempo tantas discrepâncias. Ela se divide em castas sociais. Temos os escravos na parte mais baixa da pirâmide , seguidos dos artesões e artistas, depois temos os donos de propriedade, comerciantes e profissionais liberais. Mais acima temos os militares, políticos e professores, e no topo temos os administradores ou cônsules, como eles são chamados."

"Sim , mas já conseguiu o mapa da cidade? Temos que encontrar com o comodoro e já estamos dez minutos atrasados isto sem contar que ainda não falamos com a Aries."

"Sim, senhor, mas é que poderíamos aprender tanto e..."

"Não temos tempo, tenen...Marino. Temos que ir. Não achei nada de interessante nestes jornais."

"Sim, senhor." - desconsolado o tenente pega um livro e o esconde debaixo do casaco. Ao passarem pela porta soa um alarme e os seguranças da biblioteca os detém. Ao serem revistados o livro é encontrado e a bibliotecária, uma senhora esguia usando óculos fica furiosa. O tenente tenta ser simpático:

"Era só um empréstimo. Eu ia devolver, eu juro!"

"Cale a boca, Marino."- ordena o comandante que também queria se juntar à bibliotecária e esfolar o italiano falador vivo.

Parados sob o sol de meio dia, perto do obelisco, o comodoro estava impaciente.

"Eles já deviam ter chegado. Deve ter acontecido alguma coisa."

"Senhor, se me permite uma observação, já devíamos nos comunicar com a Aries a horas." - lembra o tenente Jamal.

"Está certo. Seja discreto."

O comodoro e o oficial de segurança fazem uma parede humana para que Jamal contate a nave sem ser visto.

"Tenente Jamal para Aries. Condição verde!"

"Graças a Deus. Onde estiveram? Quase me mataram do coração!"

"Estamos bem, mas nos perdemos do comandante e do tenente Marino"

"Nós sabemos. Os sensores indicam que eles estão a leste de vocês, cerca de uns dois quilômetros."

"Ok. Passe os dados para mim que os localizarei com o tricorder. Jamal desliga"

"Ok. Se conseguirem falar com o capitão lembre-o que também está atrasado."

Jamal aproxima o comunicador do tricorder e através de um raio infravermelho os dados são transferidos.

"Não podemos ir atrás deles agora. Já encontramos a sede da TV Imperial.

Temos que pegar as fitas."- diz o comodoro desapontando o oficial de ciências..

"Mas, comodoro, eles podem estar em perigo!" - tenta argumentar Jamal.

"Eles conhecem o perigo, tenente. Faz parte de ser um oficial da Frota. Nós temos uma missão a cumprir e iremos fazê-la, fui claro?"

Com aqueles argumentos o tenente Jamal não podia se opor, principalmente porque partiam de um oficial superior. Só lhe restou em dizer : "Sim, senhor."

Os três então partiram para a emissora de tv sem saber que seus colegas estavam passando por eles em um caminhão a caminho da prisão central.

***

Os senadores foram chamados com urgência. O plenário estava cheio. Cassius, reconheceu, no meio do tumulto e apesar de sua baixa estatura, os senadores Lucius e Pompeu. Acenou efusivamente até ser visto pelos dois. Aproximou-se tão rápido quanto pode através da dezena de togas brancas.

"Senhores, ouviram a última?"- chega animado para contar uma novidade.

"Não, mas tenho a impressão que irá nos contar, não?" - diz com ironia Lucius.

"O motivo pelo qual fomos chamados é Otavius. Ele está na cidade."

Lucius tenta demonstrar surpresa." É mesmo? Por essa Claudius não esperava!"

"E isto coloca as coisas sob novas perspectivas."- comenta Pompeu.

As trombetas soaram. A guarda pretoriana entrou e depois seguiram o comandante Adriano e os cônsules Claudius e Otavius.

Otavius foi até o microfone e começou seu discursso sem mais delongas.

"Senadores de Roma. Vocês nos tem dado a luz para seguirmos sem que tenhamos medo das trevas. A escuridão que toma conta de Roma hoje é uma provação dos deuses que devemos abraça-la com a alegria dos amantes. Porém não devemos deixar que o torpor do prazer nos tire o senso da razão. O controle é nosso. Men sana in corpore sano. Não podemos nos esquecer disso. Poucas são as terras em nosso mundo que ainda não se renderam a nossa gloriosa república. Algumas foram anexadas através das guerras mas evoluímos. Já estamos em paz à 400 anos. Nossa batalha agora é outra.

Devemos convencer a todos que somos um só povo, que temos uma só história, uma só cultura e um único caminho a seguir. Nosso ideal deverá ser um só. Um ideal planetário. Liderado por nós, o povo romano.

Mas, alguns bárbaros e descrentes ainda ousam desafiar essa nova era. Eles estão cegos pela luz de um sol que os faz errar pelo deserto da sandice.

Estes virarão pó antes mesmo do sol encerrar seu ciclo completo. Em dois dias estaremos inaugurando uma nova tecnologia que levará a palavra de Roma para todos os lares quase que simultaneamente. Sabemos que a palavra pode ser mais forte que a espada. A informação, devidamente controlada, e bem disseminada fará com que, em um ano, consigamos um progresso de um século."

Otavius dá uma pausa em seu discurso e faz um sinal para que alguns soldados tragam um carrinho com um grande objeto coberto por um pano vermelho.

Os senadores estavam perplexos. Esperavam que Otavius destituísse Claudius ou que pelo menos o desautorizasse, que acabasse com a lei marcial e trouxesse maior tranqüilidade para a população. O que Lucius Tiburcio e seus colegas estavam testemunhando era uma nova política propelida por uma nova tecnologia que era desconhecida por todos e que inauguraria uma nova era. Um novo tipo de dominação que subjugaria os povos não mais pela força das armas e sim através do controle das mentes.

Esta nova tecnologia era que o cônsul Otavius estava anunciando agora com grande orgulho.

"Eis, senhores, o satélite de comunicações Mercúrio Um! Ele levará a palavra dos deuses a todos os povos. O fogo do conhecimento, controlado por nós, iluminará a todos no planeta e então falaremos um só idioma, teremos o nosso ideal globalizado que glorificará a todos nós, a toda Roma. Todo poder a Roma!"

Otavius esperou aplausos, mas apenas vislumbrava os olhares perdidos em perplexidade dos senadores. Claudius então começou a bater palmas e foi seguido por Adriano e depois um a um dos senadores também começaram a aplaudir.

Lucius foi o último. A cada aplauso que dava seu coração parava de bater. Fora traído. Sua última esperança se desvaneceu. De alguma forma Otavius sucumbiu à influência de Claudius Marcus. O que será que ele teria oferecido? Mais poder? Algo que Claudius sem dúvida não dividiria por muito tempo. Estava aterrorizado e o futuro flamejante que por ora era demonstrado não demoraria por consumir a todos.

***

"Goldman para Aries. Condição Verde." A voz do capitão era música para os ouvidos do tenente Tagushi.

"Senhor, não faz idéia como é bom ouvi-lo"

"A missão está indo bem. Só agora é que tivemos privacidade para uma comunicação segura. O primeiro contato foi feito."

"Fico ... bastante contente com isso, senhor." - a hesitação na voz do tenente fez o capitão duvidar se tudo ia realmente bem.

"Algum problema, tenente?"

"Problema, senhor?" - tenta não ter que explicar o que o dever mandava fazê-lo.

"Como está o outro grupo de descida?"

"Bom... Não sei como posso explicar para o senhor... é que..."

"Vamos tenente, o que se passa?"

"O comandante e o tenente Marino se desgarraram dos outros. Mas não se preocupe. Estamos monitorando-os e suas funções vitais são satisfatórias."

"Droga!"- o som da voz praguejante quase estourou os tímpanos do alferes Akwe. A raiva do capitão chamou a atenção de seus oficiais que estavam acabando de montar as barracas próximo ao rio. A Dra. Andrews se aproximou para saber o que acontecia.

"Algum problema, capitão?"- pergunta a doutora.

"Bergman está tendo problemas. Temos que contar com a experiência do comodoro, daqui não podemos fazer nada."- acionando o comunicador mais uma vez procurou dar novas instruções.

"Tenente Tagushi, precisamos arrumar ouro o mais rápido possível. Poderia nos dar uma posição mais exata de sua localização? Também precisamos de uma bomba de sucção, mas dê instruções ao computador para não fazê-la muito moderna."

"A farei mais velha que a minha bisavó, senhor."

"Temo que não seja o suficiente."

"Como, senhor?"

"Nada. Execute."

O alferes Akwe foi até o posto de ciências acatando o sinal do tenente Tagushi buscando a informação solicitada.

"O ouro está apenas a vinte metros da sua posição, capitão."- informa o oficial de comunicações.

"Mandaremos a bomba em cinco minutos." - completa o tenente a informação.

"Entendido. Entrarei em contato assim que puder. Goldman desliga."

"Então, capitão, é hora de garimpar?" - pergunta a doutora com certo entusiasmo.

"A senhora parece estar muito animada para esta tarefa. Isto não é um acampamento de férias."

"Eu sei, mas é que isto me traz recordações muito queridas."

"Recordações?"

A bomba de sucção se materializa e Goldman faz sinal para que os seguranças a peguem.

"É que meu segundo marido - continua a doutora - tinha uma empresa mineradora e ..."

"Segundo?"- se surpreende Goldman.

"Pensei que tivesse lido meu registro."

"Bom, eram muitos para me atualizar e não tive tempo o suficiente.

Limitei-me apenas a uma leitura superficial e me concentrei na parte técnica, não na pessoal."

"Sei... Bom, como ia dizendo, meu segundo marido possuía uma mineradora espacial que atuava nos cinturões de asteróides entre Vênus e Mercúrio. Uma vez ele me levou para acompanhar a prospecção de diamantes. Foi muito instrutivo. Ele até me deu um anel com o meu primeiro pedaço de diamante bruto que cavei."

"Então posso contar com sua experiência nesta empreitada?"

"Oh, capitão, não conte com isso. Aqui nós temos apenas pás e peneiras. Nos asteróides tínhamos lasers e britadeiras sônicas."

"Então teremos que encarnar os espíritos dos velhos pioneiros do oeste americano e nos molharmos um pouco."

"Encarnar espíritos? Seu rabino iria recomendar-lhe um exorcismo".

O capitão e a doutora foram para dentro do rio e começaram a garimpar assim que a bomba começou a funcionar. O tenente Baudelaire e o alferes Rodrigues ficaram no acampamento acabando de arrumar o material do grupo sem notarem a presença de um confuso Julius que vira algo surgir do ar e ouvira toda a conversa. Apressou-se em voltar para as cavernas e informar a Septimus que, ao que tudo indicava, aquelas pessoas não eram pessoas comuns. Elas bem que poderiam ser enviadas dos Deuses e então a crença de Septimus e seus amigos estava errada. Ele precisaria esclarecer toda aquela situação e bem rápido, pois sua cabeça estava começando a doer.

***

"Vamos andando." - disse o guarda empurrando o comandante Bergman e o tenente Marino pelos corredores da prisão.

A cela foi aberta e foram jogados para dentro onde já havia outras cincos pessoas.

"Ei, já estamos com superlotação aqui." - reclama um dos presos

"Desculpe, senhor. Se não fosse tão egoísta com a minha pesquisa..."

"Agora não adianta se desculpar. Temos que arranjar um meio de sair daqui.

Eles ficaram com nossas sacolas e quando virem o que tem dentro é que realmente estaremos encrencados."

"Olha só, os menininhos estão preocupados. Vai ver a mamãe não sabe que os filhinhos foram em cana!" - um homem barbudo e com um cheiro não muito agradável dá um tapa nas costas de Bergman. Este tenta se controlar.

"Ih, olha só. Ele não ficou com medo não! Ele é valentão! Será que vai me bater? Ui, estou com medo."- continua a provocar o barbudo.

"Comandante eu..."- o tenente Marino tenta esboçar alguma reação.

"Não se deixe provocar. É isto que ele quer. Ignore-o."- ordena o comandante mas seu colega de cela implicante não lhe deixa em paz.

"Ei ! Eu não gosto que cochichem na minha frente. Ô, grandão, - dá outro tapa nas costas do comandante - estou falando com você!" .

Bergman se vira e encara o barbudo. Este se sente intimidado por uns instantes, mas sentiu-se confiante ao ser estimulado pelos outros companheiros de cela.

"Qual é, grã-fino? Vai encarar?"

"Meu senhor, não estou querendo confusão. Já estou com problemas demais para me preocupar e agradeceria se não nos importunasse." - dito isto Bergman dá-lhe as costas.

Marino vibra com as palavras de seu superior, mas ele tinha muito que aprender sobre o comportamento daquele povo.

"Ele está com problemas, ouviram isso? Ora, eu acho que você acabou de arrumar mais um!"- o barbudo se lança na direção de Bergman que sai da frente no momento exato, fazendo com que o homem bata com a cabeça nas grades.

Todos no corredor estavam agora gritando:

"Briga!Briga!Briga!Briga!"

Marino tenta se proteger. O barbudo, ainda um pouco tonto, se volta para

Bergman e, furioso, se lança num novo ataque.

Bergman deixa ele passar novamente por ele e na passagem dá-lhe uma cotovelada nas costas. O barbudo ao se virar recebe um golpe com a base do punho da mão direita no nariz e um chute nas costelas com a perna esquerda.

Com a falta de ar e o nariz entupido de sangue, o barbudo implicante se curva e, então, recebe o golpe final: uma cotovelada na base do crânio que o põe a nocaute.

Os outros quatro homens que torciam pelo barbudo se amontoaram no fundo da cela com medo de serem os próximos.

Os guardas chegam um pouco atrasados para impedir a luta e observam o homem caído no chão da cela de cara numa poça de sangue que se formava.

"Acho melhor vocês o levarem para uma enfermaria ou ele vai se afogar no próprio sangue." - tenta explicar Bergman a gravidade nos ferimentos de seu oponente.

Dois guardas ficam de fora apontando as metralhadoras enquanto um terceiro entra na cela para retirar o preso ferido. O comandante e o tenente se afastam com as mãos sobre a cabeça.

Após levarem o barbudo ninguém na cela mexeu mais com os dois.

"Isso foi ignorar?"- pergunta o tenente Marino ironicamente. Bergman não responde, mas se sentia mais aliviado ao extravasar sua raiva por estar atrapalhando a missão. Cedo ou tarde o capitão ou o comodoro teria que se comprometerem em resgatá-los e tal pensamento não o agradava.

O tenente Jamal, utilizando o tricorder, sondou a área e verificou quantas pessoas haviam no prédio da rede de tv bem como quais as melhores rotas de fuga que poderiam utilizar.

O comodoro sabia que a única maneira pacífica de entrarem era de se passarem por repórteres. Ficaram observando a rotina da portaria e viram que as pessoas que entravam portavam uma espécie de distintivo.

Quando um repórter se dirigiu até o estacionamento e o tenente Yuchenko, oficial de segurança, o nocauteia sem ser visto e rouba-lhe o distintivo de repórter.

"Nós já temos um meio de entrar. Você dirá que estará levando o senador Homero, que sou eu, e seu assistente, que será Jamal, para uma entrevista no estúdio para um debate sobre a lei marcial."

"Sim, senhor." - confirma o alferes a compreensão do plano.

Os três se dirigem para a entrada e logo são barrados por dois seguranças. Yuchenko mostra o distintivo e eles deixam passar, mas na vez de seus colegas estes não tem a mesma sorte.

"Ah, este é o senador Homero e seu assistente o senhor... - Yuchenko hesita.

"Vesúvius." - improvisa Jamal.

"Isto mesmo. Estou levando-os para uma gravação. Uma entrevista sobre a lei marcial para o telejornal da noite."

"Vão para qual estúdio?"

E agora? O tenente pensa rápido numa nova fala de um roteiro não escrito e não decorado.

"Qual está vazio no momento?"

"O oito. O cinco está em obras. Estão trocando o cenário. O seis e sete estão ocupados neste momento com a gravação de uma ópera e do um ao cinco estão reservados para os jogos."- informa com toda a cortesia o segurança.

"Oito? Ok, já estamos indo."

Parecia que o plano estava dando certo. Estavam se dirigindo para o hall dos elevadores quando o segurança chamou-os novamente. Estava tudo indo bem demais, se lamentou Yuchenko.

"Senhor? Por favor, esqueceu os crachás de seus convidados."

"Ah, é claro. Como pude esquecer?" - comentou o alferes com um sorriso nervoso.

Todos estavam suando frio, inclusive o comodoro. Parecia que a muito tempo não passava por emoções fortes. A sensação de perigo liberava muita adrenalina.

No hall dos elevadores havia uma placa na parede indicando o que existia em cada andar. Viram que a seção de arquivos se encontrava no quinto e quando o elevador chegou apertaram o botão de seus destinos. Os deuses pareciam estar do lado deles.

***

"Tem certeza?" - perguntou Septimus pela terceira vez.

"Eu vi e ouvi. Não estava tendo nenhuma alucinação. O homem mais velho, o tal de Víndix , falava em um rádio sem fio e a mulher falou em estar fazendo mineração nas estrelas perto dos deuses. Ela mencionou Vênus e Mercúrio! Um aparelho surgiu do nada e os outros homens o pegaram ".

"Isto é tudo muito estranho. Se eles são espiões da república, a essa hora estaríamos presos ou mortos." - diz Septimus sem conseguir entender as intenções dos estranhos.

"Mas e se eles não forem espiões da república e sim dos deuses? - pergunta Julius.

"Não seja tolo, rapaz. Os deuses não existem. Somente o Sol é que alimenta nossa existência e guia os nossos passos."- alerta Septimus para o erro de julgamento de seu amigo.

"Mas então quem são eles?"- pergunta Julius novamente.

"Não sei. Amanhã iremos até o acampamento deles e tentaremos descobrir.

Agora vamos dormir. Já tivemos um dia bastante agitado. Descanse, meu amigo." - dito isso Septimus encerra a conversa.

Julius, apesar de não se conformar com a situação, se afasta e procura algumas peles para deitar.

Lucília, a jovem mãe do menino Espartacus, ouvira toda a conversa e pensou:

'Se aquelas pessoas são mesmo do espaço, esta poderia ser a única esperança para ela e seu filho!'

Assim que escureceu e quando todos já estavam dormindo, ela saiu sorrateiramente em direção do acampamento perto do rio.

O capitão e a doutora estavam sentados em volta da fogueira vestindo casacos por causa do frio. O tenente Baudelaire estava descansando na barraca, pois o próximo turno seria o dele, enquanto o alferes Rodrigues fazia a ronda.

"A senhora devia estar dormindo. Seu turno só começa daqui a duas horas."

"Estou sem sono. A minha companhia o incomoda, capitão?"

"Não, absolutamente. É uma questão de praticidade. Quando for o seu turno estará cansada e não ficará alerta o suficiente."

"Por acaso esqueceu-se que sou médica? Estou acostumada a ficar longas horas sem dormir. Isto até me incomoda um pouco, mas acho que fiquei condicionada.

Além do mais nunca consigo dormir a primeira noite em um lugar estranho."

Um ronco alto foi ouvido. Ambos se assustaram e até o alferes Rodrigues correu para ver o que era. Era somente o tenente Baudelaire seguindo a risca as suas ordens depois de um dia cansativo. Houve um momento de desconcentração com todos segurando o riso por causa do colega oficial.

"Ele parece que não está bem condicionado."- comenta o capitão.

"Quando voltarmos para a nave vou pedir um exame médico completo para acabar com este ronco."

"Por falar na nave, lembro-me de mandar o Tenente Tagushi de polir os sensores. Estou com calos nas mãos e sem nenhum ouro para coroar nossos esforços."

"Ora, capitão. Não culpe o rapaz pelos sensores da nave. Foi nossa incompetência que nos fez não encontrar o ouro."

"É... possível." - diz o capitão tentando disfarçar o constrangimento pela doutora estar mais uma vez certa em seus comentários.

De repente o vento parara de soprar. O barulho de um pequeno galho quebrando foi ouvido. Havia alguém mais no acampamento.

Goldman pegou o seu phaser, do tipo um, modelo escolhido para a missão por ser pequeno e fácil de esconder.

Se aproximando da luz da fogueira duas figuras são iluminadas. Um era o alferes Rodrigues a outra uma mulher. Era Lucília, a mãe do pequeno Espartacus.

"Por favor, não atire. Vim em paz e estou sozinha." - diz a mulher com medo.

O capitão rapidamente guarda o phaser e se aproxima da visita inesperada. O alferes a segurava pelo braço e o capitão faz um sinal para que solte a moça.

"Desculpe, não queria assustá-la" - diz Goldman tentando acalmar a moça.

"O senhor precisa me ajudar. Eu e meu filho não podemos mais ficar aqui.

Corremos muito perigo. O senhor precisa nos levar embora...." - Lucília começa a chorar. Estava desesperada.

A Dra. e o capitão se entreolham e ficam sem entender do que a mulher estava falando.

"Calma. Não chore. Sente-se aqui." - fala a doutora tentando consolar a jovem mãe.

"Você é Lucília, não? A mãe do menino Espartacus, não é? Alguém está perseguindo vocês? Vocês foram atacados? Onde estão os outros de seu grupo?

" - Goldman começa o interrogatório para tentar entender o que estava acontecendo.

"Eles estão dormindo. Estão todos bem, mas não sei por quanto tempo."

"Por que você diz que posso ajudá-la? Por que quer ir embora daqui? " - o capitão continua a questionar.

"Não posso mais viver aqui arriscando a minha vida e a do meu filho. Vivendo fugindo, passando fome e frio. Meu filho merece uma vida melhor. Ele é um de vocês".

"Um de nós?" - pergunta a doutora.

"Vocês não vieram do espaço? Lá de cima onde moram os deuses?" - responde

Lucília apontando para as estrelas. Goldman e a doutora ficam surpresos como seus disfarces foram tão facilmente descobertos.

"Quem lhe disse que somos do espaço? Nós somos da Gália..." - o capitão tenta convencer a mulher do contrário.

"Julius nos contou. Ele esteve vigiando vocês o dia todo." - o capitão olha para o alferes com desaprovação. O jovem abaixa a cabeça envergonhado por sua falha. A jovem continua a falar - " Viu quando você falava em um rádio sem fio com os deuses. Viu quando surgiu um aparelho dos céus. Você apontou para mim, ainda a pouco, uma arma de raios, não foi? - diz a mulher tentando convencer Goldman das suas convicções.

O capitão suspira . A Dra. Marta balança a cabeça negativamente. Não adiantava mais esconder nada.

"Veja o lado bom da coisa, capitão. Amanhã não teremos que garimpar de novo." - brinca a doutora.

Goldman tenta levar o comentário na esportiva e faz uma última tentativa para dissuadir a jovem..

"Escute Lucília, nós não podemos ajudá-la. Estamos aqui para encontrar uns amigos perdidos e ..."

"Eu sei. O pessoal da Beagle!" - diz Lucília surpreendendo a todos e demonstrando que saber mais do que devia.

"Como você sabe da Beagle? - pergunta o capitão com curiosidade.

"Meu marido era um de vocês. William B. Harrison. Ele pilotava a nave. Mas ele se desentendeu com Merricus e agora está morto. Não quero que meu filho tenha o mesmo destino ou que, ao crescer, busque vingança. A minha esperança é que vocês possam me levar daqui para as estrelas. Eu ia pedir isso aos outros que vieram, mas não tive oportunidade."

"É, capitão. Isto é um caso de asilo. Tecnicamente temos que ajudá-la".

"Tecnicamente, Almacurcix - enfatiza bem o nome de fantasia não querendo se dar por vencido - nós temos uma missão a cumprir e não podemos..." - Lucília interrompe a conversa se dirigindo à doutora.

"Por favor, senhora fale com o seu capitão. Ele é seu capitão, não é? Por favor, peça a ele!"

Goldman dá um sorriso meio sem graça, pega a doutora pelo braço, pede licença a Lucília e se afasta para uma breve conferência particular.

"Doutora - murmura Goldman - você está pondo em risco a nossa missão. Não podemos nos comprometer em dar asilo. Ela não fazia parte da tripulação da Beagle. Não a encoraje!"

"Primeiro... Quem acabou com o nosso disfarce foi o senhor quando apontou o phaser para aquela mulher..." - se defende a doutora.

"Foi um ato instintivo." - se justifica Goldman.

"Em segundo lugar ela tem um filho de um navegador espacial que estava a serviço da Federação. Tecnicamente nós somos responsáveis pela sua tutela" - os argumentos da Dra. Andrews eram irrefutáveis. Goldman olhou para Lucília, sentada a beira da fogueira, com o olhar fixo e os olhos cheios de lágrimas na espera que sua súplica fosse atendida.

O capitão caminha em sua direção, agacha e toma-lhe a mão fazendo uma promessa.

"Nós a ajudaremos no que for possível se você também nos ajudar."

"Oh, senhor capitão, eu serei eternamente grata" - diz a jovem abraçando-o entusiasticamente.- "Farei tudo o que pedir. Meu filho e eu seremos seus eternos devedores." - olha para a doutora agradecendo-a também e a mesma devolve com um 'OK' discreto sem que seu superior veja.

Goldman fica sem jeito com a reação da mulher e a doutora solta um sorriso de satisfação. O barulho das vozes acaba por acordar o tenente Baudelaire que sai da barraca para ver o que estava acontecendo.

"Já é o meu turno, capitão?" - o tenente, ainda sonolento, se espanta ao ver o capitão agachado e abraçado com uma estranha.

A doutora não se contém e solta uma gargalhada e é seguida por Goldman que não tinha mais nada a esconder.

***

"Claudius, você é um gênio!" - não cansava de elogiar o cônsul Otavius.

Sozinhos no salão de conferência estavam brindando à nova ordem mundial que nasceria em breve.

"Merricus era um homem sensacional. Como você extraiu tanto dele em tão pouco tempo? " - pergunta Otavius.

"Com um pouco de persuasão" - responde Claudius debochadamente.

"Pena que, no final, ele se virou contra nós. Será que todos os alienígenas são assim tão pouco confiáveis ? "

"Ele estava sob muita pressão, é até compreensível. Além do mais, rever um velho amigo o abalou um pouco. Trouxe-lhe ... escrúpulos ao seu caráter."- explica Claudius.

"Mas a tecnologia que ele nos legou é impressionante. Lembro-me quando eu os trouxe de Cartago. A princípio tive apenas curiosidade. Afinal ele era de outro planeta. Como deixar de me interessar? - Otavius se levanta e vai até o sofá onde Claudius, deitado, sorvia um vinho tinto.- "Mas você soube exatamente o que ele representava não é, Claudius?"

O novo cônsul se levanta e vai até a mesa onde a garrafa de vinho estava para poder completar sua taça que estava quase vazia.

"O satélite será nosso trunfo para podermos, não só melhorar nossas comunicações, como também observar melhor nossos territórios. Com uma nova câmera de visão telescópica que cobrirá mais da metade do planeta. Ele é apenas o primeiro. Nos próximos dez anos lançaremos outros e poderemos voltar nossos olhos para o espaço." - Claudius ergue a taça como que brindando a sua própria genialidade. Otavius se deixava levar pelas imagens de um futuro de controle total que Claudius lhe oferecia, mas de repente ocorreu-lhe que poderiam ter problemas.

"Você acha que há a possibilidade que estes alienígenas voltem? Podiam eles estar planejando uma invasão? Poderiam nos dominar?"

"Pelo que sei eles bem que poderiam. A qualquer momento, se quisessem.

Devido a semelhança física conosco, eles bem que poderiam estar entre nós e não saberíamos. O que me intriga é por que não o fizeram ainda." - Claudius, na verdade, conhecia o código da Primeira Diretriz da Federação cósmica e sabia que eles não voltariam tão cedo. Ele contava com isso para a sua ascensão ao trono. Algo que sempre sonhou desde criança. Mas, o prazer de ver o olhar de medo, confusão e paranóia de Otavius , era algo sem igual. O seu colega estava sendo manipulado mais fácil do que se pensava, eliminá-lo era só uma questão de tempo e oportunidade.

Na cela o tenente Marino parecia muito tranqüilo quanto a sua situação e não parava de falar sobre o que tinha lido na biblioteca para não se esquecer.

"O senhor sabia que nesta sociedade existe alguns contra-sensos? Por exemplo: desenvolveram carros, ônibus, caminhões e trens, mas não bicicletas e motos. Os escravos tem assistência social e seguro de saúde extensivo aos seus familiares. As mulheres não podem trabalhar fora nem votar ou exercer cargos públicos e só podem freqüentar escolas até o nível básico , mas podem ser comerciantes desde que sejam as únicas herdeiras do negócio. Quanto ao sistema de comunicações eles possuem TV e rádio que são de pequeno alcance, mas poucos podem tê-los, e não desenvolveram o telefone ou o telégrafo."

Enquanto Marino falava, Bergman andava de um lado para o outro, sem lhe dar atenção, tentando analisar a constituição das grades e ver se existia algum ponto fraco, mas acabou desistindo quando viu que não havia chances de saírem dali.

Barulho de grades sendo abertas e passos no corredor foram ouvidos. Alguns guardas vieram e se postaram, com as armas engatilhadas e prontas para atirar, na frente da cela.

"Vocês dois. Afastem-se das grades. O comandante Adriano quer vê-los. Não queiram antecipar o que os espera." - adverte o guarda.

Não seria muito esperto tentar uma fuga com todas aquelas armas prontas para disparar. Foram conduzidos por dois corredores e dois lances acima de escada.

Entraram em uma sala bem iluminada onde existia uma mesa e duas cadeiras. A porta foi fechada rapidamente atrás deles. Não havia mais ninguém na sala.

Bergman pode notar que havia um espelho na parede oposta.

Uma luz se acendeu do outro lado do espelho revelando uma sala contígua. O comandante Adriano apareceu, sorriu e começou o interrogatório:

"Boa noite, senhores. Espero que tenham apreciado nossa hospitalidade. Não vou tomar muito o tempo de vocês" - diz o comandante sarcasticamente.

"Parece que não temos outro compromisso, portanto , somos todos ouvidos." - responde Bergman com ironia.

"Senso de humor... eu gosto disso.- sorri o inquisidor ameaçadoramente - Poderiam explicar o que estão fazendo na cidade sem documentos? De onde vieram? Quem são vocês?"

"Estamos de passagem."- Bergman tenta ser cauteloso com as palavras.

"Passagem? Qual a sua origem e destino?"

"Nossa origem? Longe, muito longe."- Bergman olha para o tenente Marino que, com gestos com a cabeça, concorda com tudo o que é dito.

"Isto é muito vago... senhor?"

"Eu sou Jacob e este é o senhor Caio."

"Você sempre responde por ele? Nota-se que existe um certo respeito dele para com você. Eu diria até que existe uma certa hierarquia. Meus instintos não mentem. Poderia ser até uma hierarquia militar. Estou certo?"

Bergman não responde, muito menos o tenente.

"Estou certo, não é? Seu silêncio também pode me dizer muitas coisas. Sabe, o senhor não é o único que sabe fazer joguinhos, senhor Jacob. Sou bem treinado e muito bom no que faço."

"Por que nos mantêm presos? Só por causa de um livro? Não temos direito a um advogado? - argumenta Bergman.

"Ah, o senhor conhece leis? Então deveria saber que somente cidadãos romanos têm esse direito. Como os senhores não têm documentos que comprovem suas identidades ou local de origem devo presumir que sejam bárbaros. E bárbaros não têm direito a nada!" - o militar romano começa a aumentar o tom de voz demonstrando impaciência.

"O que quer de nós? Não temos nada para lhe oferecer!" - o tenente Marino não consegue se segurar e enfrenta o militar romano sabendo que estaria seguro enquanto ele estivesse do outro lado da parede.

"Oh! Ele fala! Ótimo! Estamos fazendo progressos. Vejam bem, eu normalmente não faço interrogatórios. Eu deixo isso para os novatos. Apesar de vocês estarem vestindo roupas finas isto seria de pouca valia aqui dentro. Mas o que me fez interessar por vocês não foi seus belos rostinhos e sim o que vocês carregavam"- dizendo isso Adriano espalha o conteúdo das mochilas em uma mesa e começa a pegar os estranhos instrumentos e a argüir sobre eles.

Primeiro pegou o livro roubado da biblioteca que continha informações sobre a cultura romana, em seguida pegou o tricorder, depois o comunicador e por último um phaser. Isto provoca uma reação de preocupação em Bergman.

"Talvez o nosso amigo possa explicar o que são essas coisas. Seriam ferramentas ou armas?"

Seus disfarces estavam prestes a serem comprometidos. Era preciso abortar a missão e saírem dali o mais rápido possível. O problema é que não havia uma maneira de fazer nem uma coisa nem outra.

***

Do outro lado da cidade o comodoro e seus companheiros já haviam conseguido entrar na sala de arquivos. Yuchenko vigiava a porta enquanto o comodoro e Jamal procuravam por fitas comprometedoras. Por fim algo foi encontrado.

"Está aqui! Acho que encontrei. Veja a etiqueta :'A volta de Flavius Maximus'. Este era o gladiador que ajudou o capitão Kirk em sua missão. Tem que ser esta!" - exclama eufórico o oficial de ciências.

"Muito bem, tenente. Procure por cópias e vamos sair daqui rápido."- ordena o Comodoro.

O tenente Yuchenko alerta que alguém se aproximava. Ele entra na sala e apaga a luz. Todos procuram um lugar para se esconder.

Um funcionário da rede de TV entra na sala e acende a luz. Caminha até a mesa de edição sem notar o tenente Yuchenko às suas costas, atrás da porta, ou o comodoro atrás de uma mesa ou o oficial de ciência atrás dos arquivos.

O jovem oficial russo tenta atacar o visitante indesejado de surpresa, mas sua sacola prende em um cabideiro fazendo-o cair e estragando o seu plano. O funcionário se volta assustado, mas não percebe quando Jamal sai de trás dos arquivos e o alveja com o phaser antes que notasse oque estava ocorrendo.

"Muito bem, Jamal" - cumprimento o Comodoro, que vendo a expressão desconsolada do oficial de segurança, tentou, rapidamente, de levantar-lhe o moral.

"Parabéns, tenente. Foi uma boa iniciativa. Não se preocupe, acidentes acontecem." - diz Solano ajudando o rapaz a se levantar.

"O barulho vai atrair pessoas para cá. Já temos oque viemos buscar. Vamos sair, rápido." - diz Jamal apressando seus companheiros. O comodoro pega o seu comunicador e entra em contato com a Aries pedindo para subirem à bordo.

Em segundos somem num flashes de luzes. Imediatamente depois entra um outro funcionário e vê seu colega caído no chão.

"Fulvius, o que houve com você? Está bebendo de novo durante o expediente?

Você não toma jeito!"

O confuso Fulvius é ajudado a se levantar e não entende como foi parar no chão e nem o que havia acontecido. Sua memória estava falha e só percebia uma estranha fraqueza e uma grande dor de cabeça. Mas avaliou o gosto que tinha em sua boca procurando atestar sua sobriedade, percebeu que sua ressaca, infelizmente, nada tinha a ver com algum produto de origem alcoólica.

***

Lucília conseguira retornar à caverna sem que percebessem sua ausência. Ela agora teria que cumprir uma missão que garantiria passagens para longe daquele local de sofrimento e incertezas.

Amanheceu e Espartacus logo a procurou para saciar sua fome.. Aos poucos todos foram acordando. Septimus foi um dos primeiros. Caminhou até uma tina de água para lavar o rosto e depois chamou Julius e mais dois homens para irem até o acampamento de Víndix.

A jovem mãe viu a oportunidade perfeita para executar a sua missão. Foi até o fundo da caverna e vasculhou alguns cestos até encontrar o que procurava.

Uma manta de peles envolvia os uniformes da Federação. Ela então os pegou e saiu às pressas levando Espartacus pela mão prometendo-lhe um belo pic-nic na floresta.

Finalmente os dados dos sensores foram confirmados. O trabalho estava sendo recompensado. Já haviam conseguido cerca de 200 gramas de ouro, o suficiente para corroborar a história inventada e ganhar a confiança de Septimus.

Alertados no dia anterior por Lucília procuraram esconder todo o equipamento de alta tecnologia e quando Septimus e seu grupo chegou estavam bem tranqüilos.

"Olá amigos! Que o Sol ilumine o seu dia!"- saúda Septimus.

"Olá, senhor Septimus. A que devemos a visita? " - Goldman já desconfiava da missão de espionagem mas estavam prontos para serem postos à prova.

"Viemos conferir vosso progresso."

"Espere um instante. Deixe-me sair da água." - Rodrigues e Baudelaire continuaram a garimpar. A doutora havia preparado café e veio oferecer a

Septimus e Julius, que recusaram. Isto demonstrava que estavam tensos, apesar de tentarem disfarçar bem suas desconfianças.

Goldman tomou uma caneca para si e a doutora ficou com a outra.

O forte Julius estava impaciente e cochichou no ouvido de Septimus, mas este meneou com a cabeça e mandou-o aguardar fazendo um sinal com a mão. Todos foram andando até às barracas e sentaram-se nas cadeiras que encontraram : pedras e troncos caídos. Julius, porém, ficou de pé.

Septimus foi logo direto ao assunto:

"Estive pensando, senhor Vindíx, se poderíamos nos associar nesta sua empreitada. Pois a sua causa é também defendida por nós."

"Não estou bem certo, senhor Septimus. Pelo que sei vocês vivem reclusos, fugindo das autoridades e não possuem nenhum recurso. Como poderiam nos ajudar?" - Goldman começava o seu jogo.

"Nossos recursos são modestos, é bem verdade, mas não deve subestimá-los.

Nós temos amigos que por sua vez tem amigos em quase toda a república.

Muitos deles em posições de destaque na sociedade que poderão usar de suas influências para nos fazer alguns favores."

"Em troca de ..." - diz Vindíx estimulando a conversa.

"Em troca do seu ouro, naturalmente. Podemos ajudá-lo na extração e ajudar a libertar todos os escravos de seu povo, desta nação."

Julius interrompe a conversa furioso com o curso que ela estava tomando.

"Povo? Que povo? Não sabemos quem eles são na realidade. Eles bem que podem ser espiões se utilizando de uma nova tática para nos pegar. Mas isto não vai acontecer ouviu? Vocês não vão nos capturar!" - Julius encarou Goldman que ficou sereno esperando o grandão se acalmar. Julius não sabia no que pensar. Seriam eles amigos ou inimigos. Por que se aproximariam do esconderijo para depois se afastarem? Talvez não quisessem gerar suspeitas.

Utilizaram rádios portáteis, do tipo que nunca se vira antes, para reportarem suas posições para uma patrulha próxima. Poderiam estar no meio de uma armadilha naquele instante. Mas por que utilizariam tecnologia avançada e trabalhariam com ferramentas simples? Tudo isto só o levava a pensar em trapaça. Qual era o objetivo disto tudo? Por que os soldados não apareciam? O que estava faltando?

Septimus se levanta demonstrando pesar com o rompante de seu jovem seguidor.

Caminha até ele e o afasta de Goldman.

"Perdoe-me, senhor Víndix. Não viemos até aqui para acusá-lo de nada. Acho que estamos passando dos limites e é melhor irmos embora."

"Espere. Talvez você possa nos ajudar. Preciso ir até Roma e necessito de um guia."

"Talvez Julius possa demonstrar um pouco do seu amor fraternal e se desculpar pelo seu comportamento se oferecendo para tal tarefa."

"Ora, Septimus, você realmente não espera que eu..." - Julius tenta retrucar.

"Eu não espero por nada. Mas como você pode esperar por ajuda se não estiver disposto a ajudar?"

Goldman viu que o argumento do velho mestre amansou o grandalhão e seus disfarces durariam mais um pouco.

"Está bem, eu concordo" - finalmente o grandão se rendeu.

"Bom já que estamos nos entendendo vamos nos sentar e beber um pouco de café juntos, pois está uma manhã fria e não há nada melhor para começar uma amizade do que bebermos juntos. O que me dizem?" - era a vez da doutora intervir. Ela possuía a qualidade de deixar as pessoas em cheque. Ela sempre observava o melhor momento para agir e então... zás! Vendo que ninguém havia discordado foi buscar a garrafa térmica e mais canecas.

Ao voltar para servir o café Septimus , gentilmente perguntou:

"O que é isto?" - disse apontando para a garrafa.

"Ora é uma garrafa térmica." - responde despretensiosamente a doutora.

"Garrafa o quê?" - perguntou Julius.

"Ora vai dizer que vocês nunca... viram... uma... " - antes de terminar a frase olhou para o rosto de Goldman que estava ficando pálido. Ela ainda tentou se justificar com seu superior.

"Mas como eu poderia saber que eles não..." - a doutora estava realmente embaraçada. Ao olhar novamente para o capitão vê que apesar dele estar olhando também na sua direção seu olhar estava fixo para algo que estava atrás dela. Então todos olham para a mesma direção e vêem Lucília sendo segura por dois dos filhos do Sol. Ela estava segurando uma manta como se fosse um embrulho que deixava aparecer uma das mangas dos uniformes da Frota.

Septimus se aproximou dela, tocou no uniforme e imediatamente entendeu toda a situação.

"É, senhor Víndix, creio que para obter confiança é preciso primeiro haver confiança. O que me diz?"

E não tendo mais o que dizer ele responde: "Eu concordo".

***

As horas de interrogatório pareciam intermináveis. Todos estavam muito cansados.

O comandante Adriano estava curioso com o phaser. Olhava-o bem de perto, mas como não tinha um cabo ou cano não parecia uma arma. Não entendia a finalidade daquele aparelho. Para que serviam seus botões? O emissor de raio estava voltado para seu rosto e Bergman se viu na obrigação de adverti-lo.

"Se eu fosse você não mexeria nisso."

"Ah é? Por que não?"

"Porque..."- antes de Bergman continuar o tenente Marino o interrompeu vendo que aquela era uma boa oportunidade de tentarem uma fuga.

"Não, signore. O senhor não pode dizer à ele. É um segredo nosso. Não podemos confiar num homem que nos mantém prisioneiros."

"O que é isso, tenen... senhor Caio? Eu só ia dizer que..."

"Qual é o segredo?" - diz Adriano ordenando que lhe dessem uma resposta favorável.

"Ah, não podemos dizer. Como revelar um dos nossos mais poderosos segredos sem nenhuma garantia?"- continua Marino instigando a curiosidade do soldado romano.

"Marino, o que deu em você? Está maluco, homem?" - Bergman não havia entendido as intenções de seu comandado.

"Vocês não estão em posição de barganhar. Diga o que eu quero saber ou..."

- ameaça Adriano.

"Ou o quê? Irá nos matar? Torturar talvez? Saiba que jamais revelaremos nada. Somos treinados para resistir a qualquer tortura que você possa inventar."

"Marino..."- Bergman começava a ficar preocupado. Não sabia qual seria a reação do comandante romano diante de tal provocação.

"Muito bem o que você quer?" - diz Adriano caindo no jogo de Marino.

"Que tal a minha liberdade? O que acha é um preço justo?"

"Ei, não esqueça de mim." - lembra Bergman que ficava a parte daquela conversa maluca.

"Depende. Você ainda não me mostrou nada. Diga-me para que serve essas máquinas e então poderemos fazer um acordo. Vamos diga!" - Adriano estava cada vez mais ansioso em descobrir os segredos da Frota Estelar.

"Marino, muito cuidado com o que vai dizer."

"Calma, senhor. Parece que tenho tudo sob controle. - voltando-se para o romano continua - Senhor, esta máquina que está segurando lhe dará a força de dez homens . Será quase invencível com ela. O que um militar poderia desejar? Uma grande arma. Um grande poder." - Marino esperava que a estupidez de Adriano fosse tão grande quanto a sua vaidade.

"Como eu a faço funcionar?" - aquelas eram as palavras mágicas que Marino esperava serem pronunciadas.

"Você aponta para você e aperta o botão no alto e ... puf! Estará tão forte quanto um Hércules." - Marino pisca para Bergman que só então começa a entender o plano.

Adriano começa a seguir as instruções. Bergman e Marino se aproximam do vidro mas o chefe da guarda pretoriana abaixa o phaser e faz mais uma pergunta. Os oficiais da Frota tentam não demonstrar muito interesse pelo desfecho da situação, e disfarçando, se afastam do espelho duplo.

"Espere. Me respondam uma coisa. Se este aparelho nos faz tão forte assim como você diz, como nós os capturamos tão fácil?"

Marino dá um tapa em seu próprio rosto e tenta inventar uma resposta convincente.

" É que vocês nos pegaram desprevenidos e não tivemos tempo de usá-la." - e sorri nervosamente.

"Ah, bom.!"- exclama Adriano parecendo concordar com a resposta. Pega novamente o phaser e aponta mais uma vez para seu rosto.

O tenente e o comandante Bergman prendem a respiração. O dedo do militar romano começa a pressionar o gatilho e seu nocaute parecia inevitável. O phaser estava em posição de tonteio e não o faria nenhum mal, a não ser uma pequena dor de cabeça depois de acordar.

Subitamente Adriano solta um berro.

"Loucos! Vocês estão loucos!Vocês acham que eu ia realmente cair nessa?

Seus imbecis! Eu já estou farto de vocês! Vou arranjar uma cobaia melhor!" -

Adriano sai de sua sala. A luz se apaga e os dois voltam a ver apenas seus reflexos preocupados no espelho. Bergman estava a beira de um colapso nervoso, mas antes iria quebrar o pescoço do tenente. Assustadoramente

Marino começou a sorrir. Estaria ele realmente demonstrando sinais de debilidade?

"De que está rindo? Seu plano foi por água abaixo." - Bergman tentava entender o sorriso do pequeno e bonhachão italiano. O sorriso poderia ser sinal de nervoso. Talvez ele estivesse em choque.

Antes que o tenente Marino pudesse explicar seu comportamento a porta da sala onde estavam se abriu.

Um furioso Adriano entrou jogando os objetos capturados no chão e ainda portando o phaser na mão.

"Vocês vão me dizer agora quem são, da onde vieram e o que são esses objetos ou então vou usar vocês como cobaias."

"Se nós estivermos certos o senhor não teme por sua vida?"- provoca Marino.

Um guarda aparece atrás de Adriano portando uma sub-metralhadora.

"Eu vou me arriscar." - responde o romano com segurança.

Marino fica impassível. Bergman sabe do perigo em revelar segredos sobre tecnologia avançada para povos primitivos. Seu senso de dever o faz ficar de boca fechada.

"Ah, não vão falar, não é? Então vocês não me deixam outra escolha."-

Adriano aponta para Bergman que, fora uma gota de suor que começa a escorrer por sua testa, não esboça nenhuma reação. Já Marino, por sua vez, fecha os olhos torcendo para que seus desejos sejam atendidos.

O facho de phaser atinge Bergman em cheio que tomba imediatamente. Marino se agacha para verificar a condição de seu comandante.'Está desacordado. Que bom!'- pensa o tenente. Adriano fica surpreso e eufórico com o seu primeiro tiro com uma arma de raio.

"Você viu? - diz para o guarda atrás dele - Eu tenho um poder tão grande quanto Júpiter! Eu serei invencível!" - o comandante romano ergue os braços em júbilo e não percebe que a sala em sua volta havia desaparecido.

Enquanto isso , no palácio do governo, o senador Lucius esperava sentado para poder falar com o cônsul Otavius. Até agora ele não conseguia entender como Claudius Marcus podia manter o projeto Mercúrio em segredo do senado e que Otavius pudesse estar conivente com tudo aquilo. Se assim o fosse, seu cargo não teria mais função e o mundo caminharia para uma nova realidade que ele não estava preparado.

"O senhor já pode entrar." - avisou a secretária.

Lucius entra no escritório do cônsul que o recebe com um grande abraço.

"Meu grande amigo. A que devo sua visita?"

"Senhor, o que me traz aqui não é uma visita de cortesia. Tenho que lhe falar seriamente sobre meus receios quanto à condução da política do Estado."

"O que foi Lucius? Nunca o havia visto tão preocupado."

"Eu direi o que está havendo já que, pelo que estou percebendo, você não sabe. Um cônsul auto-proclamado, um projeto de milhões de sestércios esvaziando os cofres públicos não são assuntos preocupantes para você?"

"Já conversei com Claudius, está tudo esclarecido." - Otavius tenta esfriar os ânimos.

"Só vós conseguis ver com clareza dentro deste nevoeiro em que nos encontramos. Que esclarecimentos foram esses? Por que não somos informados?

Por que devemos portar archotes pelo interior de uma caverna sombria? A censura chegou também ao senado? Nós representamos o povo não os caprichos de um homem com manias de grandeza."

"Vejo que você tem reservas quanto a pessoa do cônsul Claudius..."

"Otavius... Ele é um cônsul armatus agora. Ele controla todo o exército da república. Controla toda nossa marinha, e em breve controlará o ar e as nossas mentes. Quanto tempo ele levará para começar a achar que você é dispensável? Já parou para pensar nisso?"

O cônsul togatus sabia que seu poder político estava em desvantagem e as preocupações de Lucius começaram a incomodá-lo. Mesmo podendo haver lucros na associação com Claudius, mais cedo ou mais tarde um tentaria se livrar do outro. Claudius estava subindo depressa demais, estava tendo poder demais e aparentemente Otavius não tinha como pará-lo. Em breve seu prestígio valeria muito pouco e poderia ser descartado como Merricus o foi. Lucius revelou uma visão aterradora do futuro que talvez o melhor píton não poderia. Estava de mãos atadas e não gostava daquela sensação. Teria que articular uma contra-ofensiva e ser o mais cauteloso possível. Para isso tinha a pessoa certa para agir sem levantar suspeitas.

"Lucius, você está certo. Fico honrado com sua visita e seus conselhos - discretamente caminha até sua mesa e rabisca uma nota e a coloca no bolso do senador.- Espero contar sempre com seu apoio. Roma precisa de senadores preocupados com o bem estar do povo." - e apressa a saída do senador de seu escritório.

O senador fica sem entender porque fora praticamente expulso do gabinete do cônsul mas quando lê o bilhete tudo se esclarece:

"Entre em contato com Cassius. Encontro em Coríntos ao meio dia."

Lucius sorri e apressa o passo, talvez ainda houvesse tempo de parar a sede de poder de Claudius Marcus.

Em algum outro ponto do palácio o novo cônsul retira os fones de ouvido e coloca o gravador para rodar novamente um trecho da gravação feita.

"...Quanto tempo ele levará para começar a achar que você é dispensável? Já parou para pensar nisso?"

O gravador é desligado. Claudius percebe que se tivesse um inimigo como o senador Lucius ele precisaria tomar muito cuidado. Talvez uma visita o fizesse pensar de forma diferente.

***

O capitão Goldman preferiu uma conversa franca, porém reservada com Septimus. Já que o disfarce não funcionou, o único caminho era falar a verdade para obter a colaboração dos nativos. Afinal a primeira diretriz havia sido quebrada a seis anos atrás e menino Espartacus era uma prova incontestável disso. Felizmente o líder deles era alguém letrado, culto, com uma boa inteligência; ou seja, alguém possível de dialogar. Mas Goldman não se iludia quanto a necessidade de barganhar pelo sucesso de sua missão.

"Espero que o senhor compreenda a nossa situação. Pertencemos a uma Federação que congrega várias raças do espaço e temos como regra mais sagrada a não interferência em civilizações em desenvolvimento para não descaracterizar sua cultura e desenvolvimento social. A seis anos uma de nossas naves se perdeu e seus ocupantes vieram até seu planeta. Fizeram contato com um homem chamado Claudius Marcus. Ele, habilmente, os capturou e os obrigou a fornecerem conhecimento e tecnologia para seu proveito próprio.

Isto serviu como propaganda política de seu governo mas tornou a sua civilização mais poderosa do que era. Eu comando uma missão que tenta consertar isso. Outros vieram antes de mim, mas não obtiveram sucesso. Nós não podemos permitir que esta contaminação continue. Merricus, como o senhor deve ter conhecido, era o capitão desta nave perdida e contribuiu bastante para que este grande erro fosse cometido. Infelizmente ele foi julgado por isso da pior maneira, pelo que sei."

"Exatamente. Nos culpam pela sua morte." - comenta o ancião.

"Por isso precisamos de sua ajuda. Nós temos que apagar todos os resquícios de contato com a nossa cultura para que vocês possam ter uma evolução natural. Com o devido tempo vocês alcançarão as estrelas e também , eventualmente, farão parte da nossa federação, mas no momento propício."

Septimus ouviu toda a explicação sem mudar de expressão. Ficou pensativo por alguns segundos e depois falou:

"Sempre desconfiei do edi Merricus. Sabia que seu prestígio junto ao pro-consul era grande. Só não sabia que a fonte deste prestígio era algo que em mil anos não poderia sonhar. Tivemos tantos avanços científicos nos últimos anos. Os jornais não paravam de publicar artigos sobre as grandes conquistas científicas. Eu me perguntava como havíamos produzido mentes tão brilhantes em tão pouco tempo?"

O líder dos rebeldes estava visivelmente chocado com a revelação tanto que começou a ter tonturas e se apoiou no ombro de Goldman.

Julius correu para ajudar o seu mestre a se sentar. Enquanto tenta tomar ar. A doutora oferece um pouco de água.

"Ainda bem que sou médica e não uma simples garimpeira. O que disse a ele capitão? Preciso saber para poder receitar o calmante adequado."

"Disse a verdade"

"A verdade? Quer dizer... toda?"

"Sim, toda"

"É, acho que um copo d'água não fará muito efeito. Talvez um brandy seria a melhor opção. Se eu tivesse uma dose..."- a doutora enfia a mão em seu casaco e retira um pequeno frasco metálico.

"Senhor Septimus, o senhor sofre de algum problema do coração?" - pergunta a doutora.

"Até agora, não."- responde o velho demonstrando bom humor.

"Então eu recomendo um gole disso aqui. Esquenta um pouco no início, mas depois anestesia." - diz a doutora dando um tapinha confiante no ombro de seu paciente.

"Doutora, o que está fazendo? Isto não faz parte do kit médico padrão" - diz Goldman tentando corrigir a postura da tenente-comandante.

"Faz parte do meu kit médico. Afinal de contas, como dizia meu terceiro marido, 'Não devemos ir a um acampamento sem levar algo que nos esquente por dentro'"

"Terceiro?" - o capitão declara seu total espanto enquanto Septimus engasga com a bebida e Julius fica preocupado com a condição de seu mestre.

"Calma grandão. Não estamos envenenando o seu líder. Isto é apenas um efeito colateral." - diz a doutora tentando apaziguar os ânimos do musculoso rapaz.

"Cola... o quê?" - pergunta Julius tentando entender o que se passava.

A dra. Marta Andrews olha o rapaz de cima a baixo com certa volúpia , mas logo desvia o seu olhar demonstrando um grande desapontamento. "Como podem tantos músculos funcionarem com um cérebro tão pequeno?" Era o axioma do belo-burro.

Lucília aproveita o momento de distração de todos solta-se de seus captores e se aproxima correndo do capitão.

"Senhor me desculpe. Eu não teria vindo aqui tão cedo mas é que..."- antes de terminar a frase a emoção toma conta e lágrimas e soluções começam a brotar em sua face.

"Calma, senhora. Não precisa se desculpar. Eu compreendo seu anseio em partir e...."- Goldman também não consegue terminar o que queria dizer sendo interrompido por uma Lucília desesperada.

"Não é isso, senhor. Ë meu filho, Espartacus. Ele se perdeu de mim na floresta e não pude encontrá-lo. Temo que possa acontecer algo a ele. Por favor, me ajude. Não quero perdê-lo." - e pôs-se a chorar novamente, agora agarrada no ombro do capitão.

Bom, dizem que os problemas sempre vêm aos pares. Enquanto Goldman tentava se conformar elaborava um plano de ação.

"Calma Lucília. Escuta. Pode me dizer exatamente onde vocês se desencontraram?"

Ela balança a cabeça afirmativamente.

"Ótimo. Rodrigues, Baudelaire. Peguem seus instrumentos. Temos um resgate a fazer."

Quando o capitão tenta dar o primeiro passo, mas a mão pesada de Julius bate contra o seu peito com a suavidade de uma pata de cavalo.

Goldman fica avaliando a possibilidade de seu Krav-magá não estar muito enferrujado, mas Septimus se levanta e resolve o problema de intolerância mais uma vez, sem a necessidade do uso da violência.

"Deixe-os ir. Vá com eles. É a segurança de um dos nossos que está em jogo. Primeiro cuidar, depois julgar."

Um não muito conformado Julius aceita o argumento de seu líder e acompanha Goldman e os outros mata adentro.

A Dra. Marta fica para trás assim como Septimus.

"O que era aquela bebida que me deu? É muito diferente dos vinhos que estava acostumado a beber."

"É uma receita caseira. Mas não posso revelar. É contra as regras, sabe?"

"Você parece não siga-las a risca, não é mesmo?"

"Bom, é que eu gosto de um pouco de emoção às vezes. A adrenalina me mantám jovem. Mas a bebida ajudou, não?"

"Minha filha, sua medicação foi maravilhosa!"

A dra. Andrews sentiu orgulho de si quando a muito tempo não sabia o que era este sentimento. Talvez um dos motivos de se enganjar na frota fosse este: Resgatar seu orgulho. Ou então aquele velho simpático fazia lembrar seu pai. Isto lhe trazia boas recordações de um tempo que não se podia reviver. Na verdade aqueles sentimentos se misturavam. Talvez ela estivesse nervosa com toda aquela agitação ou então o sol a tocara e a modificara de certa forma. Já ouvira falar que quando se está na presença de uma pessoa iluminada todas as almas se revelam e se purificam. Um sentimento de gratidão tomou conta de seu corpo e , ao tocar a mão daquele homem, sentindo a aspereza dela, o seu olhar tranquilo, tinha certeza de estar vivendo um momento especial.

***

Ao abrir os olhos a primeira imagem que o comandante Bergman vê é o grande rosto enrrugado do Comodoro Solano. Deitado na cama da enfermaria o comandante sentia-se um pouco grogue. Ao tentar se levantar sua cabeça pareceu explodir, então deitou-se novamente.

"Que diabos aconteceu?" - pergunta o comandante.

"Estamos a salvo senhor. Noi abbiamo ritornato a Aries" - a voz do tenente Marino era inconfundível pois irritava os ouvidos.

"Mas como?" - Bergman não se lembrava de como o resgate se deu. O tenente

Tagushi, que estava também ao lado da cama, apressa-se em explicar o ocorrido.

"Os implantes que colocamos nas roupas nos informavam a posição e as condições vitais de vocês. Poderíamos tê-los trazidos à bordo a qualquer momento mas teríamos que ter certeza do momento certo. O senhor sabe, não é ? A primeira diretriz...."

"Tá homem eu sei bem o que é a primeira diretriz. Diga como viemos parar aqui."

"Certo. Quando sua função vital caiu subitamente nós ampliamos o feixe de transporte e transportamos tudo que estava na sala. Estes procedimentos estavam de acordo com os planos de segurança que o senhor mesmo havia traçado."

"Eu sabia que mio plano daria certo." - se vangloria Marino a espera de congratula-ções ou talvez uma medalha.

"Seu desgraçado! Você me usou como cobaia! Eu podia ter morrido! "- Bergman tenta alcançar o pescoço do tenente italiano e é contido pelo comodoro e por uma forte dor de cabeça, um dos efeitos colaterais provocado pelo feixe de tonteio do phaser.

"Calma, comandante. Ele salvou sua vida e a missão. Ele merece uma medalha." - o comodoro tenta botar panos quentes na situação. Marino, que se protegia atrás de Tagushi, gostou da solidariedade do comodoro. Bergman, já sentado, tenta se acalmar. Afinal de contas o comodoro tinha razão.

"Mas, oque aconteceu com os guardas que estavam conosco?"- perguntou o comandante com curiosidade.

"Bom, eles ficaram em estado de choque ao chegar. Recuperamos nosso material e os transportamos de volta. É claro que eles vão ficar um pouco confusos, mas não acredito que reportarão um fato como esse sem passarem por malucos." - explicou o engenheiro-chefe. Tagushi estava tranquilo pelo resgate da maior parte do grupo de descida. Só faltavam quatro e , de acordo com os últimos dados dos transponder, todos pareciam bem .

"E o capitão ? Já voltou ?" - Bergman apoia no ombro do comodoro e fica de pé.

"Nós os estamos monitorando. Se o senhor desejar podemos transferir os dados para a tela daqui da enfermaria." - responde Tagushi.

"Não. Eu vou para a ponte."

"O senhor tem certeza?" - pergunta Tagushi preocupadamente. Uma enfermeira aparece para ajudar.

"O senhor devia ficar repousando um pouco mais." - diz ela.

"Eu já me sinto melhor mas acredito que você tenha algo para fazer-me ficar melhor ainda." - diz o comandante deixando escapar certa malícia em suas palavras.

A enfermeira sorri e se aproxima para aplicar-lhe uma hipospray no braço.

"O que foi isso?" - pergunta o comandante à enfermeira.

"É um estimulante, comandante. Isso irá ajudá-lo a cumprir todas as suas funções com eficiência."

"Espero que sim." - diz Bergman tentando ser sedutor enquanto a enfermeira morena dá meia volta e sai da sala.

Em seguida o engenheiro e o tenente Marino também decidem voltar aos seus postos. Bergman segura no braço do italiano o impedindo de sair. Este abaixa a cabeça a espera de um cascudo. O comodoro faz menção de desapartar uma briga que não chega a ocorrer. O que acontece é algo inesperado.

"Olha, tenente, desculpe minha atitude. Ë que não gosto de ser surpreendido. Você foi muito astuto. Agora, da próxima vez que decidir em transformar minha cabeça em spagheti con porpetoni, me avise antes, capice ?"

"Capisco. Quero dizer... entendido, senhor."

Os dois oficiais apertaram as mãos e seguiram juntos para o turboelevador

seguidos pelo comodoro e pelo engenheiro que estavam perplexos com a cena que viram.

Na ponte, Bergman assumiu o comando e ao se sentar notou que estava sem o uniforme. Isto o fez se sentir um certo desconforto. Pediu ao tenente Jamal para por na tela principal os sinais do grupo de descida restante.

Podiam ser vistos os quatro sinais, mas eles estavam muito separados uns dos outros. Isto seria um bom ou mau sinal?

"Pode identificar cada sinal?" - pergunta Bergman ao oficial de ciências.

"Sim, senhor. Prefere cores, nomes ou símbolos de patente?"- Bergman fica surpreso com a sofisticação do programa.

"Ora, qualquer coisa. Ok, cores. Ponha na tela, rápido."

Na tela da ponte viram surgir um ponto amarelo que representava o capitão, um azul que representava a doutora, e dois pontos vermelhos que representavam os guardas de segurança. Os pontos amarelo e vermelhos estavam se movendo caoticamente em direção oeste e o azul permanecia imóvel.

"Sinais vitais ?"

"Estão bons. Níveis de adrenalina subindo um pouco no capitão e nos guardas." - informa o tenente Jamal.

Devem estar em perigo, pensa Bergman. "Estão sozinhos? Identifique outros sinais de vida na área."

O oficial de ciências dedilha no seu painel e confirma a presença de mais cinco pessoas na área São colocados na tela como pontos brancos. Alguns desses pontos estavam se movendo junto com o pessoal da Aries. Bergman sabia que algo estava errado. Olha para o comodoro ao seu lado esperando algum conselho, mas o velho oficial observava a tela com um olhar muito compenetrado. Como oficial tático e responsável pela segurança de seu capitão a exclusividade da melhor medida a ser tomada era dele. Apertou o botão do intercom no braço da cadeira.

"Sala de transportes... Preparar para subir grupo de descida ao meu sinal."

"Entendido" - responde o técnico.

" Tenente Jamal, coloque na tela, simultaneamente, os sinais vitais do grupo. Qualquer alteração brusca e os traremos de volta."

Todos na ponte acompanhavam os movimentos dos pontos na tela como se fosse a decisão de um importante jogo. Só não sabiam que esse jogo era chamado de sobrevivência.

***

No planeta abaixo Goldman e os outros se embrenhavam na floresta cada vez mais gritando o nome de Espartacus. Pararam ao ouvirem um rugido e um choro.

Ambos pareciam vir de uma caverna. Quando Goldman chegou ao local da origem dos sons já encontrou o alferes Rodrigues de prontidão com o phaser em punho.

O capitão fez sinal para que ele entrasse e fosse cauteloso. Seguiu logo atrás de seu segurança. No interior da caverna puderam ver um grande felino cercando o pequenino Espartacus.

"Não se mexa, garoto. Fique onde está. Não chore." - tenta Goldman acalmar o menino apavorado.

O animal estava muito agitado. Goldman temia pela vida da criança então, viu um pedaço de um galho no chão e atraiu a atenção da fera com ele.

Rodrigues andou na direção oposta tentando contornar o animal e pegar o garoto. Quando estava se aproximando, Julius e Lucília entraram na caverna.

A mãe, quando viu a situação em que o filho se encontrava, soltou um berro de pavor que assustou o animal e o alertou da presença do alferes que estava já bem próximo do menino.

A fera fez menção de recuar, mas em seguida pulou e atacou o alferes abocanhando-lhe o braço direito com o qual, em vão, tentava se proteger, mas que estalou numa fratura exposta.

Julius correu para agarrar o garoto enquanto Goldman tentava fazer mira no animal que estava estraçalhando o corajoso e jovem alferes.

Finalmente a mira pode ser feita e a fera foi atingida. O capitão se aproximou para socorrer o segurança, mas de repente a caverna deu lugar à sala de transportes. A única coisa que pode dizer, sem titubear, foi:

"Levem-no à enfermaria, depressa!"

Ao olhar para o lado o capitão não notou a poça de sangue que se formou no assoalho do transporte quando o alferes foi socorrido, mas sim o grande felino atordoado. Uma preocupação a mais.

Julius, Lucília, com o filho no colo, o Tenente Baudelaire, a Dra. Marta e Septimus estavam olhando para ele como se estivessem esperando uma explicação para aquela súbita mudança de cenário. Não restava muita coisa a dizer a não ser....

"Senhores, bem vindos à minha nave. Bem vindos à Aries."

Apesar de Julius e Septimus estarem espantados; Lucília sentia-se feliz e, depois de muito tempo, segura.

***

A casa de banhos Coríntos estava fechada, mas o dono devia alguns favores ao senador Cassius. Algo a respeito de uma redução de impostos, portanto não se negou a abri-la para aquele encontro importante. O senador Lucius foi o segundo a chegar.

"Você tem certeza de que não foi seguido?" - pergunta Cassius olhando sobre os ombros do amigo.

"Como se tem certeza disso? Só posso dizer que não vi ninguém me seguindo".

"Isto não é suficiente, mas não temos outra escolha, entre".

Os dois senadores caminharam até o salão de banhos quentes. Tiraram as suas roupas e se enrolaram em toalhas. Andaram até um grande salão onde existiam piscinas de todos os tipos. Preferiram as banheiras individuais e então se deitaram lado a lado. A água quente era extremamente relaxante e por alguns segundos eles se esqueceram completamente os motivos que os levaram até ali.

Um minuto depois chegava Otavius.

"Senhores... Não é preciso levantarem-se" - O cônsul retirou suas roupas e deitou-se em uma banheira paralela aos dois. "Aahh, isto é muito bom....

Bom, senhores, chamei-os aqui para que tenhamos uma conversa que poderá mudar o destino de nossa nação. O senador Cassius já serviu em um departamento de segurança do estado. De acordo com sua ficha era um dos nossos melhores espiões e , espero, que ainda o seja. Quanto a você, Lucius, já esteve no exército e ajudou a manter a paz nas questões de disputas de fronteiras. Sua diplomacia é vital para o que tenho em mente."

"Senhor, sabe que lhe somos fiéis e que a república deve sofrer sérias mudanças. O povo clama por isso."

"Eu sei, Cassius. Nestas semanas que estive longe de Roma, pude perceber, em cada cidade que visitei, que há uma tensão no ar. Um descontentamento que parece não ter uma origem certa. Várias camadas sociais se manifestam contra alguns atos da república. A repressão aumenta mais o descontentamento. A censura não cala mais a voz da razão. Qual a solução?"

"Senhor, a solução parece-me bastante óbvia : temos que ouvi-la do nosso povo. Temos que dar-lhes voz. Uma maior participação nas decisões sobre suas vidas."

"Mas eles tem o senado que os representa" - argumenta Otavius.

"Ora, você e eu sabemos muito bem que os aristocratas que fazem parte do senado só estão lá para cuidar de seus próprios interesses. A escravidão é uma indecência que nós não conseguimos mais esconder através de beneces do estado como uma assistência social que paga mais pensão para viúvas do que cuida do escravo. Isto quando ele tem permissão do dono para casar. A maioria serve aos jogos e morrem na arena num espetáculo repugnante. Podemos aumentar nossa força de trabalho com as mulheres que estão cansadas de cuidar de casa e de crianças birrentas. Para que o povo possa ter uma maior representatividade eles deverão escolher seus representantes..."

"Eleições diretas para o senado? É isto que está dizendo homem?"

"Exatamente , senhor. Creio que não devemos parar por aí. A divisão de poderes deve ser bem clara e elegeríamos um único governante para o mais alto posto. Não para ele ser um ditador ou um tirano ou um imperador. Caso seu governo não agradasse o senado se reuniria e o destituiria e elegeríamos um outro. Isto minimizaria os anseios pelo poder. Imagine um governante eleito por toda uma nação. Alguém que sempre presidisse a vontade popular. Um presidente !"

"Presidente? Eleições populares? Participação feminina na força de trabalho? De onde tirou essas idéias? Sua videira deve conter algum alucinógeno ou então os vapores dos banhos estão a cozinhar-lhe os miolos." - rebate o cônsul a idéias vanguardistas do iminente senador.

Lucius percebe que talvez tenha falado demais. O cônsul não estava preparado para mudanças tão radicais. Tais mudanças podiam representar também uma ameaça à sua posição e o que ele queria para o momento era um meio de se livrar de Claudius Marcus e agradar ao povo ao mesmo tempo. Cassius fica pensativo e arrisca um comentário:

"O que o nobre senador parece propor é uma revolução em todo o sistema. Uma nova ordem mundial. Não há em todo o mundo algo similar com o que você propõe. Mas acredito que o povo vá encontrar muita simpatia com suas idéias.

Isto iluminará o período de trevas pelo qual estamos passando. Fiat lux."

"A luz não é para se ver e sim sentir." - filosofa Lucius.

" Sentir a luz ? Interessante...." - agora era a vez de Otavius ficar pensativo. Ele mergulha na banheira e fica submerso por algum tempo. Quando retorna, mais relaxado, resolve expor o seu plano.

"Preciso de apoio político, militar e dos cidadãos para por as reformas em prática. Talvez nada tão radical quanto Lucius prevê, mas o suficiente para agradar a todos. Porém Claudius é um grande adversário e não creio que concordará com todos os aspectos de meu plano, se é que me entendem."

"Poderei suprí-lo com informações do departamento de inteligência sem que Claudius saiba. Ainda tenho amigos lá que me devem alguns favores."

"Ótimo. Assim poderei saber o que ele sabe, o que nos igualaria num confronto. Quanto à você, Lucius, preciso que fale com o maior número possível de senadores para obter maioria nas votações das reformas quando eu as apresentar."

"Desde que as mesmas não mexam em suas posições sociais eu creio que posso conseguir o maior número de aliados. Mas e quanto ao exército? Eles apoiam integralmente o cônsul Claudius."

"Esta é a parte que dará mais trabalho mas deixe isso comigo. Nos encontraremos em 48 horas em minha casa de campo na colina Palatino." - dizendo isso Otavius se levanta, pega suas roupas e caminha até o vestiário.

Os senadores não o acompanharam. Ficaram cada qual pensando em seus objetivos. Aquele era um momento de transição. Ao longo da história conhecida todos eles foram marcados por profundas dores, grandes perdas.

Eles estavam decidindo o destino de uma nação. Talvez do planeta inteiro. Vidas estavam em suas mãos. Era algo muito sério a ser considerado. Teriam este direito? Até mesmo Júpiter desafiou Cronus, seu pai, para formar um novo panteão. Mas teriam eles os poderes de deuses? A única arma que teriam era informação. Novos métodos de guerrear eram criados, mas tudo se resumia em informação. Se eles obtivessem um volume de informações maior que Claudius teriam uma chance. O poder da informação é que levará a luz para o povo. Pelo menos era nisso que tinham que acreditar. O conhecimento terá que ser partilhado. Será isso que Septimus busca ? Será esse o seu Sol ? Lucius resolveu que já havia se banhado o suficiente e saiu da banheira. Quando olhou para trás não mais pode ver seu colega. Ele havia sumido. Este ato de desaparecimento era algo que havia aprendido, possivelmente, quando era espião.

O velho senador foi dirigindo até à sua casa para elaborar um manifesto a ser entregue aos demais senadores. Ele não nota, ao sair, que o comandante Adriano estava atrás de uma das pilastras da casa de banhos e que ele caminhou, calmamente, na direção do dono do estabelecimento que o esperava no portão para entregar-lhe uma fita e receber a recompensa prometida em sestércios de ouro.

***

O senador entrou apressado em casa e foi logo na direção de seu escritório, mas quando passou pelo corredor ouviu um barulho de garrafas quebrando. O som parecia vir de sua adega no porão.

Desceu as escadas com uma vassoura na mão. Talvez um rato intrometido estivesse fazendo derramar suas preciosas safras de vinho. Uma luz vinha do fundo de um lugar que nem ratos descobririam. A sala secreta estava aberta.

Lá dentro o cônsul Claudius e dois guardas estavam destruindo tudo. Lucius estava certo. Havia realmente um rato intrometido em sua casa..

Quando Claudius o viu lançou um sorriso na sua direção. O senador teve a impressão de seu coração ter parado.

"Oh, senador. Que prazer em vê-lo. Desculpe a bagunça, mas é que eu não estava conseguindo trabalhar com uma dúvida me remoendo. Quem teria avisado

Otavius para ele abreviar sua viagem ? Bem, pensei, só poderia ser alguém que tivesse um rádio. Mas então percebi que nenhum cidadão tem permissão de ter um rádio em casa e todas as mensagens das casas de radiofonia são registradas e censuradas. Isto estava me incomodando..."

O cônsul chutou alguns cacos de vidro que estavam sobre o assoalho, caminhou na direção do senador e retirou a vassoura de suas mãos. Lucius ficou imóvel.

"Quem então poderia mandar tal mensagem ? Só se fosse alguém que tivesse prestígio, regalias e não gostasse de minha pessoa! Bom, daí você vê que eu fiquei na mesma pois a lista era grande." - Claudius sorri e põe o braço sobre os ombros de Lucius e começa a caminhar com ele sobre o vinho derramado.

"Mas, para que serve um departamento de espionagem ? Aí a lista ficou pequena e era só manter os olhos e ouvidos abertos e ..." - Claudius retira do paletó um pequeno gravador, aperta um botão e revela uma voz familiar:

"Nós representamos o povo não os caprichos de um homem com manias de grandeza."

"Reconhece isso , senador ? "- Claudius agora estava apertando o pescoço de Lucius e esfregando o gravador em seu rosto.

"Você não conseguirá nos deter..." - diz Lucius desafiadoramente e com a voz sufocada.

"Não ? Você acredita mesmo nisso ? Não me ameace velho !" - Claudius mudou seu semblante irônico para uma feição de completa fúria - "Tenho gravações, bilhetes , provas suficientes que poderão ser montadas para acusá-los de traição e mandar executá-los imediatamente. Portanto vocês são os bandidos agora e eu o mocinho. Assim será quando a imprensa divulgar essas notícias para o povo. Não creio que, depois disso, terei mais oposição. Não agora que estou próximo da minha meta!" - Claudius faz um sinal para que os guardas removam o senador.

"Meta ? E qual seria ela, Claudius ? Ser imperador ? Dominar o mundo ? " - esbraveja o senador enquanto é levado à força escada acima.

"Não, meu caro Lucius. Eu serei um Deus!"

***

Todos estavam na sala de reuniões, exceto a Dra. Andrews, que estava tentando salvar a vida do alferes Rodrigues. O mais calado era Julius. Sua mente obtusa não conseguia absorver toda aquela nova situação. Lucília tentava conter a curiosidade de Espartacus que perguntava, sem parar, o que era cada novo objeto que via. Septimus aguardava seu destino nas palavras do capitão.

Os oficiais que formaram a equipe de descida estavam tentando traçar novos planos. O capitão Goldman, já uniformizado, dá início à reunião. "Senhores... temos que reavaliar a nossa missão. A primeira coisa a decidir é sobre o asilo à sra. Lucília e ao seu filho. Enviamos o pedido à Frota Estelar que, dentre em pouco, dará seu parecer, mas precisamos de uma declaração formal para os arquivos. Sra. Lucília, por que quer sair de seu planeta natal?"

"Como eu já disse, eu e meu filho estamos constantemente ameaçados de morte. Vivemos escondidos em cavernas, nos alimentando mal e sob tensão dia após dia. Se meu marido estivesse vivo acredito que me levaria embora na primeira chance que tivesse. Eu não desejo que o mestre Septimus me considere uma ingrata ou que não simpatizo por sua causa. Agradeço o que ele e os outros fizeram por mim ,mas será apenas uma questão de tempo para que as forças de Roma nos encontre e nos prenda. Eu não quero isso para mim nem para meu filho."

O argumento de Lucília era bastante forte e suas palavras eram verdadeiras, principalmente no que dizia a rebelião que não estava surtindo muito efeito, a morte de Flavius Maximus que era o ídolo dos rebeldes, afetou profundamente as convicções de todos. Septimus resolveu se pronunciar:

"Não posso considerar a cidadã Lucília uma ingrata. Ela procura a mesma coisa que todos nós: a liberdade e a paz. Não me oponho ao seu desejo. Não posso impedir que as pessoas tomem seus destinos em suas próprias mãos. É contra isso que venho lutando. Estamos numa encruzilhada ou enfrentamos Roma ou nos rendemos. Eu desejo voltar e acabar com aquilo que eu comecei.

Marcharemos até Roma e enfrentaremos o nosso destino."

O antigo senador parecia determinado em se tornar um mártir para servir a sua causa. Goldman sabia que não podia interferir diretamente, mas poderia por bom senso no rumo da conversa.

"Gostaria de acreditar que o senhor e seus seguidores teriam alguma chance, mas não posso permitir que se matem sem darem uma real contribuição ao seu povo."

Julius se levanta da mesa e encara o capitão.

"O senhor não conhece o nosso povo. Eles nos prantearão, mas depois se erguerão e derrubarão o governo e ..."

"E teremos uma nação banhada em sangue e mais lágrimas. É isto que realmente querem para o futuro de seu povo? O seu povo é muito parecido com o meu em um passado não muito distante. A morte de vocês só servirá para causar caos e destruição. A morte de milhares de inocentes que acontecerá não parece com o que vocês defendem em sua causa".

Existe uma tensão no ar por algum momento. Após um minuto de silêncio todos reavaliam suas posições. Tudo era um jogo de xadrez, só que as peças tinham vida própria. O comodoro Solano se pronuncia tentando controlar a situação.

"Senhores, não podemos nos alongar em debates de plenário, temos objetivos a serem cumpridos. Objetivo número um: Temos uma missão por termianar e devemos prosseguir com os nossos planos preliminares. Número dois: A sra.

Lucília e o filho ficam na nave até o pedido de asilo ser aceito. Número três: Devolvemos o sr. Septimus, Julius e o tigre ao planeta de origem e deixemos que cada um siga o seu caminho. Como oficial de maior patente e observador desta missão não admitirei que nos desviemos do que nos foi confiado pelo comando da Frota. Não estamos autorizados a intervir em uma guerra particular. Isto violaria a primeira diretriz."

Bergman assentiu com a cabeça. Não importaria a ordem das coisas, mas era assim que elas tinham que ser.

"Bom, parece que esta reunião está encerrada e ..." - Goldman é interrompido pelo soar do intercom.- "Goldman falando, prossiga"

"Senhor, estamos captando algumas transmissões do planeta que podem interessá-los." - o alferes Akwe parecia ansioso em colaborar.

"Em aúdio ou vídeo?"

"Em vídeo, senhor. É da televisão local."

"Transfira para cá. Ponha na tela principal." Todos olharam para a parede onde começa a ser exibido a programação especial da TV Imperial onde mostrava o senador Lucius e o cônsul Otavius acorrentados e sendo conduzidos à prisão por traição ao governo. O senador Cassius também era acusado, mas não havia sido capturado ainda. Após essas imagens surge o rosto de Claudius

Marcus declarando estado de emergência e se aclamando o único governante.

"Cidadãos Romanos. Este ato de traição contra a nossa nação foi o último.

Estamos empenhados em banir a rebeldia e a corrupção de nossa terra. A partir de agora estou dissolvendo o senado e assumindo todas as funções que um líder deve ter. Todos os direitos civis serão revogados até que todos os inimigos de Roma sejam destruídos. A partir de hoje, eu, Claudius Marcus, serei seu César e que a glória de nosso passado possa iluminar o nosso futuro!"

Pôde-se ouvir, ao final do discurso gritos de 'Ave César'!

O capitão Joshua Goldman sentiu um calafrio na espinha. A cena parecia um discurso de um outro líder lunático que havia visto em um holo-vídeo de história da Terra do século XX. Já Septimus e Julius estavam atônitos com a transmissão e Bergman começava a se desesperar, pois agora estavam sem nenhuma margem de segurança para completarem a missão.

"É, senhores, as coisas se complicaram. Parece que não podemos seguir em nossa missão sem nos envolverrmos. O que sugere, comodoro?"

"Bom, capitão. Todo o líder do perfil deste aí tem um ponto fraco que é ser autoconfiante demais. Ele deve ter um sonho megalomaníaco qualquer a ser realizado para que possa se eternizar através dele. Os faraós tiveram as pirâmides; Alexandre, a Pérsia; Júlio César, Cleópatra; Napoleão e Hitler, a Europa; e Khan, todo o planeta. Todos quiseram dominar o mundo conhecido de seus tempos e falharam. Temos apenas que descobrir qual é o seu sonho e destruí-lo. Com ele fora do caminho Roma estará sem governo e a situação poderá ficar pior do que está. A não ser que nós equilibremos as coisas e assumamos o governo, provisóriamente. Mas isto é apenas uma hipótese. Uma hipótese muito séria a ser considerada."

"O senhor comodoro está certo." - intervém Septimus - "Vocês precisarão de nós para isso. Vocês procuram mais gente de sua espécie e nossos líderes estão na prisão. Lá será um bom lugar para começarmos."

"Suas informações serão úteis. A partir de agora nossas ações poderão violar as ordens da Frota Estelar. Ninguém estará obrigado a participar desta empreitada e nada será mencionado em suas fichas. Aqueles que quiserem se manifestar que o façam agora." - após a fala do capitão houve um silêncio profundo na sala.

"Muito bem. Bergman, Yuchenko e Baudelaire retornarão ao planeta com Julius e reunirão quantos homens puderam. Daremos armas que os deixem equivalentes às tropas de Roma. Quando estiverem prontos as mandaremos para os pontos chaves. O ataque será de surpresa e deve ser resolvido rápido."

"Estou pronto para lutar" - diz Julius orgulhosamente. Bergman então o conduz para o corredor em direção à sala de transportes.

"Tenente Jamal, processe as informações sobre armamentos deste planeta e mande o computador fazer as cópias que o comandante precisar."

"Sim, senhor." - o tenente saiu também da sala para executar a ordem recebida.

O comodoro Solano se levantou e chamou Goldman no canto para uma conversa particular.

"Você tem certeza que quer fazer isso? Como observador desta missão e seu superior sabe que posso parar toda esta operação agora. Você está pondo em risco sua carreira, já parou para pensar nisso?"

"Henry... Eu entrei para à Frota porque sabia que poderia lutar pela paz e pela preservação dos direitos civis, do direito à vida de qualquer ser inteligente. Não posso assistir o que acontece lá embaixo impassível em minha cadeira de capitão porque algumas regras de diplomacia me impedem de agir."

"Você está falando da primeira diretriz. Nossa lei mais sagrada. A lei de não interferência."

"Se você pudesse impedir um assassinato de um ser de um outro mundo você não impediria por causa da primeira diretriz? Eu falo do direito à liberdade, à vida. Você me conhece a mais de vinte anos. Sabe que meu povo quase desapareceu da face da Terra por causa de lunáticos como ele. Não posso deixar isso se repetir. Seja qual for o mundo ou povo. Você teve sua oportunidade de se manifestar, por que não o fez ?"

"Talvez porque eu seja seu amigo. Talvez porque eu queria escutar seus motivos. E talvez porque eu confie em você e no seu julgamento. Eu estou com você Josh. Mas advirto que devemos pesar bem as consequências de nossos atos. Estaremos entrando num possível cenário de guerra e não houve uma, até agora, que não houvesse baixas."

"Agradeço a confiança. Espero que continue a realizar o excelente trabalho que vem realizando. Se não nos expulsarem terá mais uma medalha na sua coleção."

Ambos sorriem e apertam as mãos com firmeza. Goldman se dirige para Lucília que ainda estava sentada, visivelmente cansada e tentando entender os últimos eventos.

"Vamos, vou acompanhá-la e ao seu filho a uma cabine onde poderá descansar."

"Muito obrigada capitão. Gostaria de poder ajudar também no que for preciso."

"Claro. Depois que tiver acomodado seu filho, poderá se reunir a Septimus e ao comodoro, se quiser. Qualquer informação nos será útil."

"Será um prazer colaborar, capitão. O senhor tem sido tão bom para mim." - e o abraça causando um certo embaraço. Uma ordenança, que estava no corredor pegou o menino pela mão e todos seguiram para ala dos alojamentos.

Na sala ficaram apenas Septimus, o comodoro Solano e o tenente Marino, trocando informações para a ofensiva contra Roma. Ë claro que se a Aries resolvesse usar todos os seus recursos, aquela civilização seria reduzida à ruínas em menos de um dia. Tudo teria que ser feito para que ambos objetivos fossem alcançados: acabar com a opressão e resgatar os sobreviventes da Beagle.

Goldman aproveitou a oportunidade para também descansar um pouco em seu aposento. As últimas horas foram realmente fatigantes. Muitos anos de serviço burocrático o tinham enferrujado. Já estava velho demais para se envolver em aventuras pelo espaço. Não via a hora de voltar para Terra, para seu apartamento em São Francisco e tomar um bom chá de maçã. Pelo menos um dos desejos ele podia realizar. Pediu ao sintetizador de comida a bebida. Um segundo depois, como um desejo atendido pelo gênio da lâmpada, lá estava o líquido aromatizado em uma xícara. Bebeu o chá vagarosamente enquanto pensava nas palavras de Solano. Sentou-se na cama e tentou massagear o pescoço em vão e por fim deitou-se. O sono não demorou a vir, mas em meio a um turbilhão de imagens que tentavam se formar em sua mente. Uma sempre aparecia como a de um fantasma querendo lhe assombrar. Era o rosto da Dra. Andrews.

***

"Data Estelar 4058.2- diário particular do capitão: Estamos no quarto dia de nossa missão e não sabemos se o que estaremos prestes a fazer é o mais certo. Um capitão da Frota deve usar seu melhor julgamento para completar sua missão da melhor maneira possível sem infringir nenhum regulamento da Federação ou qualquer outro tratado intergaláctico, o que é quase impossível. Agora entendo porque criticam tanto James Kirk . Sentar em uma cadeira na ponte de comando de uma nave estelar não era para qualquer um. Nem sempre temos a melhor saída para uma situação; as vezes temos sorte de ter alguma saída.

Quando Kirk visitou este planeta ele sabia que para cumprir sua missão deveria se envolver mais e por em risco seus homens e sua carreira. Decidiu deixar entregue a sua própria sorte. Consideram-no negligente, mas eu começo a achá-lo inteligente; mais do que eu, que procuro sempre seguir as regras e agora estou prestes a quebrar quase todas. Não encontro outra saída. Será que há realmente alguma ?"

Goldman termina seu diário e acende seu Hanuka, um presente de sua mãe quando de sua formatura na academia, ele simboliza a luz que guiará seus passos servindo de um farol para voltar para casa com segurança. Há muito não o acendia e nem pensava em religião. Seu desapontamento com Deus em relação com os fatos dolorosos de sua vida o impediam de vivenciar sua religiosidade. Mas a atual missão o levara para o meio de uma guerra religiosa, uma verdadeira intifada, e ele se questionava sobre a inconsistência filosófica daquele momento. Seu próprio planeta sofreu muito com guerras religiosas, o povo do qual fazia parte sobreviveu à várias delas.

Após uma prece tirou seu uniforme e tomou uma ducha. Em seguida vestiu o uniforme cinza de tropa de assalto e seguiu para a ponte de comando a fim de analizar, mais uma vez, a tática da batalha que estava por vir. Ao sair do turboelevador vê Bergman sentado em sua cadeira, já vestido para ocasião, discutindo algum detalhe com o Tenente Tagushi. A Dra. Andrews também estava lá. Eram sete horas da manhã. Quanto mais cedo começassem, melhor. Bergman o vê e cede o lugar.

"Espero que tenha descansado, capitão. Teremos momentos muito agitados pela frente."

"Obrigado pela preocupação, número um. Já recuperei as forças. Dra. Andrews... espero que leve seu kit médico particular."

"Não saio sem ele, senhor."

Bergman fica curioso com a conversa de seus colegas, mas não arrisca nenhuma pergunta.

"A propósito, Dra., como vai o alferes Rodrigues?"

"Quase o perdemos, capitão. Ele perdeu muito sangue e seu braço ficou muito mutilado para que pudéssemos reconstituí-lo. Conseguimos eliminar qualquer foco de infecção e uma cirurgia para implante de um braço cibernético está marcada para daqui à duas horas."

"Ele é um rapaz valente e vai superar isso. Constará nos registros uma comenda por bravura. A sra. prefere ficar e supervisionar a cirurgia?"

"Senhor, tenho uma equipe muito eficiente que não precisa de minha presença para executarem bem suas tarefas. Alguma objeção à minha presença no grupo de descida ?

Goldman poderia dizer sim. Poderia dizer que ela era uma médica muito boa para se arriscar em uma batalha ou que sua presença causava uma inexplicável insegurança no primeiro-oficial ou que ele queria protegê-la como um namorado protegeria sua amada.

"Não, claro que não, desde que esteja pronta na sala de transportes em dez minutos."

"Estarei lá."- a Dra. dá às costas e deixa a ponte.

"O que tem para mim, número um ?"

"Bom, senor, temos boas chances de sucesso. Nossos homens estarão com coletes de neo-flex que suportam o mais grosso calibre deles. Usaremos capacetes também além de phasers tipo dois. Conseguimos a planta do palácio e da prisão central. Existem duas alas separadas para presos especiais e mais quatro para presos comuns onde eu e o tenente Marino ficamos detidos. O complexo não é muito grande. Parece que a criminalidade está em baixa ou os presos não ficam muito tempo em celas."

"Então nos concentraremos nestas duas alas."

"Foi o que pensei. A primeira sondagem mostra segurança reforçada... Uns oito homens. Podemos dominar a situação em três minutos. Se encontrarmos alguém da Beagle poderemos trazê-los em segurança rapidamente antes que os reforços deles cheguem."

"Algum sistema de vigilância eletrônica ?"

"Nenhuma detectada. Eles devem usar turnos de vigilância. Deveremos estar longe quando eles derem conta do que aconteceu."

"Parece muito bom. E quanto aos Filhos do Sol ? "

"Bom... esta é a parte difícil. A maioria se recusou a pegar em armas. Só os recém-convertidos é que aceitaram; dentre eles estão ex-gladiadores. Isto nos deixa com uma dúzia de homens."

"O poderoso exército de Brancaleone." - comenta o capitão em tom jocoso.

"Perdão, senhor, eu não entendi."

"É um filme realizado no século XX por um cineasta italiano chamado ... Mario Monicelli. Falava da época dos caveleiros andantes, das cruzadas e da tolice das guerras."

"Não sabia que o senhor gostava de filmes antigos."

"Este eu vi na filmateca da Universidade de Telaviv em um antigo aparelho de DVD recuperado do século XXI. Neste filme um pequeno exército de homens sem preparo tenta enfrentar um exército experiente."

"Ah, entendi ! Mas eles não tinham o apoio da Frota Estelar , não é ?"

"É claro que não, imediato. Qual o seu plano para eles ?"

"Julius comandará estes homens, que estarão com sub-metralhadoras e uniforme do exército romano, seguindo então para a segunda frente de batalha."

"Segunda ? Acho que está arriscando muito. Ninguém faz uma guerra em duas frentes. Napoleão e Hitler tentaram e foram derrotados."

"Mas eles não tinham a tecnologia, as nossas fontes de reserva e o elemento surpresa."

"Que segunda frente é essa?" - o imediato se dirige a um painel para demonstrar seu plano. Goldman o acompanhou curioso.

"Durante à noite conseguimos sondar uma área no equador do planeta que nos deixou muito surpresos. Sr. Akwe passe a imagem que gravamos. O senhor verá que uma imagem..."

" ... é mais poderosa do que mil palavras. Eu conheço a expressão, comandante, prossiga." - completa Goldman impaciente com o prolixismo.

Surge na tela a imagem do planeta catalogado como 892-IV; mostrando todo o equador. Uma maior magnificação da imagem e se vê uma grande área desmatada, com relevo modificado; o que denotava a ação do homem, mas sem muita definição. Uma nova aproximação e um grande complexo de prédios, estradas e torres aparecem. O que chama a atenção é um grande foguete pronto para ser disparado. Aquele só podia ser o grande sonho de Claudius Marcus a que o comodoro se referia.

"Eles poderiam construir isto ?" - indaga o capitão já prevendo a resposta.

"Não com o atual conhecimento tecnológico. A construção de foguetes levaria anos. Eles nem usam balões. Segundo suas crenças, o céu é sagrado e voar é uma proibição dos deuses." - explica Bergman.

"Então o novo imperador irá se expor à ira dos deuses?"

"Talvez ele queira criar um novo panteão." - intervém Akwe.

O capitão estava contente com as novas informações. Pelo menos o tranquilizava quanto à quebra da primeira diretriz.

"Está claro então que eles tiveram ajuda externa e para concluir tal obra existiria ainda algum tripulante da Beagle lá embaixo."

"Não necessariamente, capitão."- se intromete na conversa o oficial de ciências.

"Explique." - solicita Goldman em um tom grave. O que será que ele queria dizer com isso ?

"Os romanos são um povo muito inteligente. Podem ter conseguido as informações necessárias, eliminando os informantes e depois seguiram sozinhos no projeto".

"Sua hipótese é válida, mas acredito, sem fundamento. Claudius não deixaria uma fonte dessa secar. Ele parece deslumbrado demais pela nossa tecnologia a ponto de ter dado um golpe militar por conta disso. Ele não faria isso sem ter um trunfo. Alguém da Beagle. Alguém muito esperto para continuar vivendo em troca de liberar informações aos poucos. Creio que isso era feito pelo capitão Merrick e agora ele foi substituído por outro." - rebate Goldman conjecturando um novo cenário.

"Quanto a ajuda externa isso ficou evidente. A nossa pesquisa demonstrou que nos últimos cinco anos grandes conquistas tecnológicas foram obtidas e isto foi o carro chefe da política do cônsul Claudius. Os armamentos evoluíram de espingardas e revólveres para armas automáticas extremamente eficientes. O fato de equipararmos as coisas pode ser interpretado como uma necessidade de equilibrar as forças no planeta minimizando a interferência externa." - Bergman procurava dar justificativas para a possível quebra da primeira diretriz.

"Senhor ?" - chama a atenção do capitão o alferes Akwe.

"Sim, alferes ?"

"Recebo mais transmissões da TV deles. Hoje às dezesseis horas o foguete será lançado dando início a um programa espacial. Parece que lançarão um satélite de comunicações chamado de Mercúrio Um".

"Este é o alvo dos Filhos do Sol ?" - pergunta Goldman para o imediato.

"Sim. Eles acham que ao sabotarem o foguete a credibilidade do cônsul ruirá."

Seria um grande feito para um pequeno grupo de rebeldes, mas Goldman não poderia abandoná-los neste momento. Sentia-se responsável pelas proporções que os eventos tomaram.

"Temos que dar apoio logístico à eles. Não conseguirão êxito contra um exército bem treinado. Apesar de sermos uma tripulação de uma nave científica temos que estar prontos para este tipo de conflito também. Já que nos comprometemos agora vamos até o fim. Vai ser um bom treinamento para os cadetes."

"Destaquei dez homens para ajudar Julius e Septimus. Inclui no grupo os tenentes Yuchenko, Baudelaire e Jamal. Eles poderão sabotar o foguete sem causar um grande desastre minimizando também possíveis baixas para o outro lado."

"Muito bem, número Um. Você, eu, o comodoro e a Dra. Andrews vamos para a prisão central. Tenente Tagushi... A cadeira é sua de novo. Se tudo der errado quero que saia de órbita e peça ajuda à Frota. Nada de tentativas de resgate. Somos poucos contra uma civilização extremamente ardilosa e impiedosa, fui claro ?"

"Cristalino como água, senhor." - responde o engenheiro-chefe já se preparando para mais horas de angústia sentado naquela cadeira.

"Capitão, devo comunicá-lo sobre o grande perigo que envolve a missão e que não há necessidade que se arrisque lá embaixo." - diz Bergman quando o capitão se dirigia para o turbo elevador.

"Comunicação anotada, mas eu irei assim mesmo. Sei que terei um bom guarda-costas." - Bergman sorri. Sabia que seu capitão agiria assim. Mas os protocolos de segurança o levaram a agir como agiu. Ele respeitava a audácia de seu capitão que demonstrava, muita para um homem de sua idade.

Deixaram a ponte seguindo para a sala de transportes. Ao chegarem Goldman se surpreende ao ver Lucília com um uniforme da Aries.

"O que ela faz aqui ? " - pergunta demonstrando uma irritação. Bergman se apressa a dar uma explicação mas é interrompido pelo comodoro antes mesmo de abrir a boca..

"Ela pode reconhecer alguns tripulantes da Beagle. Apesar de termos os registros na nave mercante antes de sua última viagem suas fisionomias podem ter mudado um pouco nestes últimos anos. Principalmente quando se vive como prisioneiros e em condições precárias."

"Eu não posso permitir que ela arrisque sua vida. Pense no seu filho, senhora, ele depende de você."

"Eu já me decidi, capitão. É o mínimo que eu posso fazer pelo meu povo e pelo seu. Quanto ao futuro de meu filho, eu creio que ele está em boas mãos.

Se algo me acontecer gostaria que ele pensasse em sua mãe como uma pessoa determinada em buscar uma vida melhor a todo custo."

"A senhora é muito corajosa." - elogia Goldman, sabendo que não conseguiria dissuadir aquela mulher de grande fibra.

A dra. Andrews se aproximou trazendo informações que tranquilizaram o capitão quanto à segurança de toda a equipe descida.

"Coloquei transponder em todos, mesmo nos nativos. Quando os sinais vitais caírem a um ponto crítico eles serão transportados de volta para cá; direto para a enfermaria. Caso precisem de uma saída rápida em situações difíceis , eles contarão ainda com hiposprays para aplicarem em si para baixarem seus metabolismos e forçarem o transporte. Não se preocupe."

"Se não tivesse confiança em minha equipe, em quem mais teria ? " - sorri Goldman para a doutora. Seguiu para a plataforma de transporte com o resto do grupo. Aos poucos todos foram transportados. Ao todo eram trinta. Vinte delas se juntariam aos doze dos Filhos do Sol que esperavam nos pontos de encontro; o restante era parte da equipe alfa do capitão.

A batalha entre os novos deuses estava tendo início.

***

O engenheiro espacial Richard Ross estava completamente sem esperanças.

Quando aceitou o convite do capitão Merrick para trabalhar na navegação comercial, estava certo de que seria melhor do que ficar prestando serviços em docas espaciais. Era um serviço permanente e com um bom salário e perspectivas de uma aposentadoria breve para curtir, ainda jovem, dos prazeres do universo.

Mas agora com a maioria de seus companheiros mortos ou exilados à força em um planeta longe dos domínios da Federação, estava fadado a morrer na prisão de velhice ou em eterna escravidão.

É claro que foi seduzido, à princípio, pela fama e poder que teria em um planeta atrasado tecnologicamente. Seus conhecimentos o fizeram parecer um engenheiro tão famoso quanto Montgomery Scott, o engenheiro-chefe da Enterprise. Mas não só de ilusões se vive. Aos poucos percebeu que estava sendo usado e quando seus companheiros começaram a ser mortos por se recusarem a colaborar, ele preferiu ficar vivo e cooperar.

Sua maior façanha foi liderar o projeto espacial. Anos de esforço e dedicação estariam subindo aos céus naquele dia, no lançamento do primeiro satélite. Ele ensinou vários técnicos e cientistas que aprenderam rapidamente. Agora, no momento de triunfo, eles o descartavam. Não podia aceitar o fato de ser excluído.

Durante todo o tempo desde que percebeu que ficaria preso no planeta se apegou à idéia de que, um dia, uma missão de resgate viria. Quando destruiu a Beagle junto com Merrick e Harrison enviou uma bóia sinalizadora com um sinal de socorro.

Soube a pouco tempo que em uma luta na televisão, um bárbaro de orelhas pontudas lutara na volta de Flavius Maximus. Infelizmente não pôde ver o programa para certificar-se de que o tal bárbaro era um vulcano. Caso fosse só poderia significar uma coisa: que a Enterprise viera para resgatá-los. Ela era a única nave da Federação com um oficial vulcano. Seu capitão, o destemido James Kirk, enfrentaria a tirania de Roma sem dar muita bola para as diretrizes da Federação.

O fato de ainda estar prisioneiro mostrara o quanto estava se iludindo. Teria que continuar a submeter-se à novas humilhações para que sua vida fosse poupada. Era só o que podia fazer. Sentou-se num canto da cela, baixou a cabeça, abraçou os joelhos e começou a rezar para um deus qua a muito não escutava suas preces.

Tiros começaram a ser ouvidos e em seguida gritos. Os prisioneiros se agitaram em suas celas e se amontoavam perto das grades para tentarem ver o que acontecia.

Ross só se interessou pela confusão quando um barulho familiar que há muito não ouvia se repetiu várias vezes : o barulho de phasers.

Um soldado republicano se postou em frente a cela do engenheiro e quando estava prestes a metralhar à todos paralizou-se ao ser atingido por uma luz verde e caiu.

O capitão Goldman, Bergman e Lucília apareceram logo a seguir. O engenheiro espacial reconheceu a velha amiga, apesar de seus trajes.

"Lucília !!"- exclama Ross demonstrando seu contentamento.

"Richard ? É você ? O que faz aqui ?"

"Fomos todos presos. Parece que Claudius não confia mais em nós."

"Então alguma coisa temos em comum." - ao invés de alegria de rever um amigo a jovem demonstra desprezo.

"Ele era da Beagle ?" - pergunta o capitão.

"Sim - responde Lucília meio a contragosto e depois complementa - creio que todos nesta cela e ao lado são de lá."

"Ela está certa. Só restaram poucos de nós." - confirma Ross.

"Comandante abra estes duas celas."

"Certo, capitão."- responde Bergman se aproximando e ajustando o seu phaser.

"Onde estão o resto do nosso pessoal? - pergunta mais uma vez ao número um.

"Estão nos dando cobertura."

"Algum sinal dos líderes deles que foram presos ?"

"Não, senhor." - confirma Bergman.

"Leve-os imediatamente para a Aries. Quanto tempo temos ?"

"Mais um minuto e vinte segundos, capitão."- responde Bergman com a precisão de que se espera de um oficial tático.

"Esperem, não me levem. Existem algumas crianças nossas que foram separadas de nós e preciso avisar sobre algo antes." - grita Ross se separando dos demais.

"Quem é o senhor ?" - pergunta Goldman.

"Sou Richard Ross. Eu era o engenheiro-chefe da Beagle. Não posso ir agora tenho que ir até uma base ...."

"É sobre o lançamento do satélite ?"- pergunta o capitão já tendo certeza da resposta.

"Como sabem ? Ah, sei... os sensores da nave ! É, claro !"

"Sua informação não nos é muito útil, como vê. Quanto às crianças cuidaremos disso também. Junte-se aos outros."

Bergman tenta segurá-lo pelo braço, mas Ross se solta.

"Você não compreende. Não haverá nenhum lançamento sem mim !" - grita o engenheiro como se estivesse possuído.

"O senhor foi preso e esquecido nesta cela por dois dias, pelo menos. Não creio que precisem mais do senhor." - responde com firmeza o capitão à fúria descontrolada de seu resgatado.

"Não é bem de mim que precisam. Eles precisam disso!" - Rosss mostra uma chave presa em seu cordão.

"Uma chave ?" - fala Bergman intrigado ao ver uma placa de circuito.

"Não confie nele, capitão."- pede Lucília.

"Por quê ?"- pergunta Goldman.

"Por quê? Porque uma vez meu marido confiou nele e em Merricus e morreu..."- A jovem estava com lágrimas nos olhos ao recordar o passado.

"Capitão, nossa margem de segurança está quase no fim !"- alerta o número um.

Mais tiros. Mais barulhos de phasers.

A doutora aparece no fim do corredor apoiando o comodoro que estava com o joelho direito atingido.

"Comodoro ? O senhor..." - Goldman tenta ajudar o amigo e saber se estava bem.

"Eu aguento. Não são umas balinhas de aço que vão me derrubar."

"Temos mais três feridos lá atrás, mas, já estão se transportando.

Resgatamos algumas crianças. Não sei quanto tempo os outros irão resistir,. Aqueles soldados romanos são um osso duro de roer. Já existe uma pilha deles dormindo lá atrás." - informa a doutora.

"Eles são bons; vão dar conta. - Goldman sorri confiante para a Dra. - vamos nos apressar - pega o comunicador - Goldman para Aries travar feixe de transporte nestas coordenadas. Transporte a todos... agora !"

Os outros prisioneiros reclamam por terem sido deixados para trás porém não são ouvidos. Apenas presenciam um espetáculo de luzes e cores do efeito do teletransporte. Eles ficam atônitos e não entendem bem o que acontecia.

Alguns segundos depois mais soldados romanos chegaram apenas para constatarem o óbvio : alguns prisioneiros e o grupo invasor haviam desaparecido como por encanto. Quando o comandante Adriano ficasse sabendo disso cabeças iam rolar, literalmente.

***

O momento de triunfo estava próximo. Em poucas horas o novo império romano nasceria. Claudius adentrou a torre de controle já com novos trajes. A exuberância de sua toga dourada coberta pôr um manto vermelho chamou a atenção de todos. Perto da mesa de controles Adriano discutia com um técnico. Algo parecia não andar bem.

"O que há, comandante?"

"Senhor? Ah, sim. Este técnico está me dizendo que o lançamento terá que ser adiado."

"Como assim, adiado? Impossível! Já foi anunciado na TV e jornal. A imprensa está lá fora. Já existe uma multidão na estrada vindo pra cá ver o lançamento. Este evento coroará minha divinização. Como pode dizer agora que o lançamento será adiado, seu verme ? - Claudius se aproxima do técnico e o segura pelo pescoço com as duas mãos. O técnico se apressa em esclarecer a situação antes de ter seu pescoço quebrado.

"O foguete já foi acionado... mas está faltando...uma das chaves para dar a partida. "

"Então use-a " - ordena o cônsul.

"Não posso...senhor. Eu tenho uma, o comandante Adriano tem outra, mas a terceira chave está com o chefe da missão Ross."

"Onde ele está?"- Claudius estava perdendo a paciência.

"Preso com os demais, senhor."- esclarece Adriano.

"Então use uma cópia." - o técnico já estava começando a ficar sem ar.

"Não podemos. O senhor mesmo havia ordenado, pôr medida de segurança, que não deveriam haver cópias."

Claudius lembra-se de suas ordens e solta o pescoço do técnico que se senta e tenta buscar ar para seus pulmões. Vira-se para Adriano e pergunta pausadamente:

"Por que ele foi preso?"

"Porque o senhor mandou. Foram suas ordens de prender todos os..."

"Tudo eu ! Tudo eu! Eu sou sempre o culpado de tudo ? Será que sempre tenho que fazer as coisas sozinho? Estou cercado de idiotas! - Claudius explode em fúria. - Digam-me : eu tenho alguma culpa ?"

O técnico e o comandante limitam-se a balançar a cabeça negativamente. Claudius mexe o pescoço procurando relaxar. Pega um lenço que carregava na mão e enxuga o suor da testa. Chama Adriano com um leve sinal do dedo indicador. O comandante se aproxima temorosamente.

"Vá até à prisão e traga-o aqui, rápido." - diz bem baixinho.

"Sim, senhor." - Adriano faz uma saudação e sai apressadamente da sala de controles.

Um minuto depois o comandante reaparece na porta.

"Já? Não pensei que fosse tão eficiente..."

Num instante Claudius percebe que não foi sua eficiência que o fez retornar tão rápido e sim uma arma apontada para suas costas pelo ex-gladiador Julius. Mais dez homens adentram a sala e rendem a todos.

"O que significa esta invasão? Vocês têm consciência de que estão arriscando suas vidas tomando tal atitude? Tenho centenas de soldados cercando este complexo. Vocês não sairão daqui vivos!" - Claudius estava visivelmente nervoso. Não contava com esta surpresa e nem da que entrava na sala em seguida.

"Calma cônsul. Não queremos arriscar a vida de ninguém, nem mesmo a sua." - diz Septimus.

"Você aqui? Como ousa? Cansou da vida nas montanhas? De ser pastor de ovelhas desgarradas?"

"Você não me ofende Claudius, mas sim a nação que o acolheu tão bem. Seus ardis o colocaram aí onde estás, mas a justiça e a razão estão do meu lado."

Enquanto o cônsul e o ex-senador discutem, o tenente Jamal tenta deter a contagem regressiva. Percebe que o automático só será desarmado com três códigos distintos. Tentava usar seu tricorder para decifrá-los, mas precisava compatibilizar seu sistema de computação àquele tão primitivo. Não sabia quanto tempo poderia levar.

"Estamos aqui com um só propósito. Por fim a sua tirania e devolver à Roma a paz e prosperidade que ela merece." - continua Septimus na tentativa de convencer Claudius que seus sonhos de poder acabaram.

"Prosperidade? Paz? Eu dei isto à Roma e muito mais! Roma nunca foi tão poderosa como agora . Nos últimos seis anos avançamos um século. Nada nem ninguém poderá mudar isso!"

"Sim, você deu uma falsa esperança em troca de mortes e torturas de pessoas que precisavam sobreviver longe de seus lares. Pessoas que não eram daqui e estavam sozinhas, desamparadas e desesperadas. Você as corrompeu e as submeteu às suas vontades não aos desejos do povo."

"De quem estás falando?" - diz Claudius tentando demonstrar ignorância sobre o assunto.

"Vós sabeis muito bem. Dos homens das estrelas."- diz Julius encurtando a conversa.

"Homens das estrelas? Do que vocês estão falando?"- o cônsul não desejava confirmar nada e se incriminar à toa na frente de testemunhas.

Julius faz menção de puxar o gatilho, mas Septimus o detém. O comandante Adriano aproveita a distração dos demais e aperta um botão de alarme de segurança perto da parede próxima. Julius, num impulso, atira nele. O comandante cai todo ensangüentado sem conseguir reagir.

O tenente Baudelaire se aproxima e verifica as condições de Adriano.

"Ele está morto!"- declara com precisão.

Septimus fica furioso. Não queria derramamento de sangue. Isto era contra os seus princípios. Claudius tenta se aproveitar do estado emocional de seu adversário.

"Está vendo Septimus. É nisto que tudo se resume : sacrifícios. Morte de inocentes. Como sua mulher e filho. Todos são números agora. Baixas necessárias numa guerra secreta onde somente Roma triunfará. Somos apenas seus peões." - Claudius queria ver se Septimus tinha estômago para seus comentários. O velho e aposentado senador se põe defronte seu inimigo e com os dentes cerrados, demonstrando quase não controlar sua raiva fala :

"Não ouse macular a memória daqueles que já se foram. Julius abaixe essa arma. Abaixem as armas todos vocês." - a lembrança da morte de sua mulher e filho quando foram torturados para confessarem sua suposta traição à Roma devido às suas convicções religiosas voltaram-lhe `a mente. Nunca havia se perdoado por isso.

Jamal estava quase completando a compatibilidade dos sistemas quando ouviu a ordem de Septimus e parou. Yuchenko , Baudelaire e os outros oficiais da Aries ficaram esperando uma nova ordem. O tenente Jamal, que estava liderando-os, não confirmou a ordem, então todos mantiveram os phasers em punho.

Claudius começa a se afastar sorrateiramente e puxa um phaser debaixo de sua toga e dispara na direção de Septimus. O tenente Yuchenko, que percebera a manobra, se posta na frente do ancião e recebe o disparo mortal. Em milésimos de segundos o tenente era apenas história. O tenente Jamal aproxima-se por trás de Claudius e o nocauteia .

O barulho do alarme continuava a soar e da torre podia se ver uma grande movimentação de soldados indo para lá. De repente três figuras se materializam na sala. Eram o capitão, o comandante Bergman e o engenheiro Richard Ross.

"O que aconteceu aqui?"- o capitão pede explicações à Jamal.

"Senhor, perdemos Yuchenko. O tal cônsul tinha um phaser e ..." - o oficial de ciências estava procurando não demonstrar estar abalado com a perda de um de seus comandados.

Goldman toca em seu ombro e abaixa a cabeça demonstrando pesar pelo ocorrido.

Ross correu para o painel e tentou abortar a missão. Pegou a chave de Claudius , que ainda estava inconsciente, e com a ajuda do técnico e de Jamal, virou as chaves simultaneamente, mas nada aconteceu. Os especialistas não entendem o que falhou, mas algumas fagulhas vindas de um dos computadores próximo ao corpo de Adriano podiam dar alguma pista. O tenente Baudelaire vai verificar e nota que algumas balas atingiram um painel que estava em curto.

"Pode consertar?"- pergunta Goldman ao engenheiro.

"Não sei. Levamos mais de dois anos para montar isto tudo aqui. Eles não tem fábricas para componentes como esses. Isto aqui é quase uma obra de artesanato..." - responde Ross sem explicar a gravidade da situação.

"Você pode consertar ou não?"- refaz a pergunta Bergman demonstrando pouca paciência.

"Eu não sei. Mas posso tentar."- Ross chama dois técnicos para ajudá-lo e começam a abrir a máquina e mexer em fios e placas de circuito.

"Quanto tempo falta para o lançamento?" - pergunta Goldman à Jamal.

"De acordo com os instrumentos, cerca de uma hora."

"Haveria outra maneira de parar o lançamento?"- pergunta Bergman ao oficial de ciências.

"Sem haver muito barulho, senhor?" - pergunta o tenente desejando que o comandante fosse mais específico.

"Sim." - responde Bergman.

"Poderíamos causar um grande blackout, mas precisaríamos da Aries para isso." - responde Jamal.

"Não adiantaria."- se intromete Ross na conversa. " Previmos este tipo de contratempo. Montamos uma central de força separada do resto dos sistemas com geradores automáticos que se ligarão no caso de uma emergência. Não se trata de lançar ou não lançar o foguete. A sequência de lançamento já foi iniciada. Ou abortamos daqui ou teremos que ir até ao foguete e usar os controles manuais na plataforma de lançamento ; caso contrário, se não conseguirmos dar os comandos corretos, o foguete explodirá levando todo o complexo junto."

Então vamos mandar uma equipe até lá enquanto vocês trabalham." - diz Goldman com determinação.

"Senhor, como passaremos pelos guardas? Estamos cercados." - lembra o tenente Jamal ao seu capitão.

"Tenente... o senhor está tão estressado com a situação para esquecer que temos o teletransporte?" - diz Goldman sem querer ferir o orgulho de seu oficial.

Jamal sorri desconcertadamente como para demonstrar sua estupidez. Como ele poderia se esquecer disso?

O capitão Goldman pegou o comunicador e contatou o tenente Tagushi.

"Aries, preciso de um pequeno favor."

"Ao seu dispor, capitão."- responde Tagushi.

"Estamos meio...ilhados na torre de comando e precisamos ir até a plataforma de lançamento num ponto em segurança para que possamos desativar o foguete é possível?"

"Vou providenciar as coordenadas. Quantos vão passear?"

A escolha mais lógica era : o engenheiro Ross e Jamal que poderiam resolver o problema mais rápido.

"Dois. O tenente Jamal e seu colega engenheiro."

"Certo, senhor. Peçam que fiquem em posição." Goldman chama Ross para perto de si e o posiciona ao lado de Jamal.

"Seus rapazes podem consertar isso sem sua supervisão por alguns minutos?" - pergunta Goldman ao engenheiro.

"Creio que sim, por quê?"

"Vou mandar você e o tenente para a torre de lançamento."

"Tudo bem. Só vou pegar uma maleta de ferramentas." - dizendo isso o engenheiro se afasta para retornar rapidamente a posição de transporte. Goldman aciona o comunicador mais uma vez.

"Eles estão prontos! Quando você quiser!"

"Ah... capitão..."- Goldman notava que havia algo de errado pela fala hesitante de seu engenheiro-chefe.

"O que foi?"- pergunta Goldman temendo ouvir algo não agradável.

"Detectamos uma forte onda eletromagnética na área. Parece que uma tempestade está se formando. Não é recomendável um transporte nestas condições. Certamente suas moléculas seriam espalhadas."

"Droga!"- exclama Goldman.

"Parece que voltamos à estaca zero."- comenta Bergman sob o olhar de desalento de seu capitão.

***

Encurralados. Presos. Acuados.

Todas estas palavras serviam para retratar a situação em que se encontrava o capitão da Aries e seus homens.

O objetivo principal da missão foi alcançado. Os uniformes de Kirk e seu grupo de descida foram recuperados. As imagens em filme deles foram apagadas. De acordo com as declarações de Septimus não houve fotos em jornais, pois ele os tinha lido durante aquele período; jornais estes que ele conseguia através de mensageiros para que se mantivesse informado sobre o que se passava na cidade de Roma. Tal fato fora confirmado por Bergman quando de sua passagem pela biblioteca. Os últimos remanescentes da Beagle foram levados à bordo com seus respectivos familiares e com a captura do cônsul Claudius, os equipamentos de alta tecnologia, que poderiam estar guardados, poderiam ser recuperados após um pequeno interrogatório.

Para que a missão se coroasse de sucesso teriam que apenas sobreviver a um cerco de uma centena de homens determinados em tirar-lhes a vida.

"Eles estão se posicionando. Acho que vão invadir a torre." - informa o tenente Baudelaire que estava de vigia.

O capitão Goldman sabia que tinha que traçar um novo plano de ação. Teria que proteger os técnicos e sair do prédio sem serem vistos. Como fazer isto sem o transporte ? Precisava de mais informações.

"Sr. Ross existe alguma saída de emergência? "

"Sim, temos um elevador que vai até um corredor subterrâneo que liga até uma saída a um quilômetro daqui."

"Ótimo. Eu irei com vocês pelo corredor e ... "- o comandante Bergman faz menção de discordar do plano mas Goldman, percebendo eu excesso de zelo, completa a frase impedindo-o de começar uma discussão sobre a segurança do capitão.

" ... e com mais quatro seguranças para nos darem cobertura. Bergman, você e os outros fiquem aqui e agüentem o quanto puderem. Usem phasers apenas em tonteio."

O comandante acaba concordando, afinal de contas ele sempre queria estar em batalha e aquela era a sua oportunidade.

O comunicador do capitão começou a bipar.

"Sim Tagushi, o que é ?"

"Senhor, quando estava realizando os cálculos para o transporte nossos sensores captaram algo muito estranho na plataforma de lançamento e acho que gostaria de saber."

"O que foi ? "

"Temos a leitura de duas pessoas dentro do foguete. Não é estranho para um lançador de satélites ? "

"Realmente é bem...incomum." - Finalmente se esclarecia o sumiço dos líderes. Eles seriam sacrificados durante o lançamento do foguete. Eram um show a parte da coroação de Claudius. O futuro imperador era um homem realmente muito vingativo e com uma mórbida criatividade. Goldman percebeu que teriam que se apressar, pois tinham que libertá-los e ao mesmo tempo parar o foguete senão todos morreriam. Quando algo está ruim parece que poderia ficar pior. Lei de Murphy.

"Já estamos indo para lá. Avise-nos quando o tempo estiver bom. Goldman desliga."

O grupo corre para o elevador torcendo para que o tempo seja suficiente.

Após a saída do capitão o tenente Jamal nota que o imperador Claudius havia sumido. Com toda aquela confusão ele deve ter aproveitado um momento de distração e escapou. O comandante Bergman deu um chute em uma cadeira de raiva.

"Baudelaire e Jonhson procurem-no. Ele deve ter descido pelas escadas, mas cuidado, se não encontrá-lo voltem para cá."

"Sim, senhor."- respondem os homens e correr para cumprirem a ordem.

Claudius só se lembrava de ter corrido daquela maneira quando, ainda menino, teve que fugir de um touro bravo na fazenda de Julius Crato.

Alcançou o portão de entrada e quase foi alvejado por sua própria guarda.

"Idiotas! Cessar fogo! Não reconhecem seu imperador?"

"Desculpe, senhor, é que pensamos que..."

Claudius se aproxima do sargento e lhe desfere um forte tapa no lado direito do rosto.

"Não pense, aja! Se eu não escapasse poderia estar morto agora. Talvez vocês precisem ter mais treinamento. Conheço os leões certos para isso!"

Neste exato momento Baudelaire e Jonhson alcançam o hall de entrada, mas percebem que era tarde demais quando encaram o pelotão romano a frente deles e dão meia volta.

O imperador, que estava de costas, percebe, pela surpresa do sargento que havia alguém à suas costas, então toma-lhe a metralhadora se vira e abre fogo.

Os oficiais da Aries são atingidos em cheio e caem ao chão, aparentemente sem vida.

Claudius e alguns soldados se aproximam para constatarem a morte de seus inimigos quando presenciam algo, que para muitos, ficaria na lembrança como uma experiência mística. Os dois homens vão desaparecendo lentamente em meio a luzes cintilantes até só restarem algumas gotas de sangue no chão.

Primeiro o silêncio total mediante a perplexidade da visão de tal cena ,mas segundos depois os soldados batem em retirada apavorados com medo de serem alvo da ira dos deuses.

"Voltem, seus imbecis! Isto não é obra dos deuses. Eles Não são deuses.

Eles sangram! Deuses não sangram!" - Claudius tenta convencê-los com a mão manchada de sangue estendida para o alto.

De fato, depois de tal argumento, alguns percebem que havia lógica em suas palavras. Deuses não podiam ser atingidos por armas e muito menos sangrar.

Não conseguiam entender quem seriam aqueles homens, mas talvez pudessem dar conta deles. Eles acabam voltando, pelo menos a maioria.

"Isso, ótimo! Muito bem! Agora... Quero que chamem mais homens e invadam esta torre. Procure o chefe da missão, o engenheiro Ross e capturem-no vivo, entenderam? O resto, se não colaborarem, podem atirar para matar, entendido?"

"Sim, senhor." - responde o sargento.

O Imperador segue até um jipe e ordena que o conduza de volta ao palácio real. Precisava alcançar a sua sala de tesouros o quanto antes.

A tempestade estava sobre a base de lançamento O serviço de meteorologia não era o forte daquele povo. O Lançamento teria que ser adiado de qualquer forma e foi uma boa desculpa para que a TV Imperial justificasse a falta de comunicação com os responsáveis pela missão. Como os repórteres estavam longe não puderam ver a movimentação do exército, a ação dos filhos do sol; nem quando Goldman, Ross e Jamal saem por um respiradouro próximos a estação elétrica. Dois oficiais de segurança da Federação avançam e atiram nos guarda que estavam de vigia . Um outro grupo avança até a plataforma de lançamento. Goldman dá as últimas ordens.

"Vocês dois desativem a estação. Usem de todos os meios." Os dois guardas acenam com a cabeça e correm para o interior da estação, mas com cautela, poderia existir mais guardas por lá.

O barulho dos propulsores dos foguetes era ensurdecedor e havia muita névoa causada pêlos gases de resfriamento, mesmo assim prosseguiram com a missão.

Um tiro passou de raspão pela cabeça do capitão e ele, instintivamente, jogou-se ao chão. Os oficiais de segurança da nave atiraram juntos e paralisaram dois atiradores ao que parecia haviam mais deles a despeito das balas que zuniam próximas demais. O grupo se dispersou procurando o lugar seguro mais próximo.

"Temos que chegar até o elevador."- grita Ross desesperado temendo não ser ouvido.

O capitão Goldman faz sinal para que os guardas dêem cobertura aos três. O tiroteio se intensifica. Balas versus phasers. Ambos mortais.

Uma explosão, providencial, tira a atenção dos soldados. Era a estação que ia pelos ares. Aproveitaram a chance e correram para o elevador enquanto o inimigo ficava contemplando, assustado, a imensa bola de fogo que subia aos céus. As luzes da base se apagam dando-lhes uma ótima cobertura. Mas será que o elevador funcionaria ainda ?

Na torre de controle as coisas estavam ficando ruins. O exército resolveu invadir e estavam prestes a derrubar a barricada que foi colocada na porta.

Através da vidraça começaram a lançar granadas de gás lacrimogêneo. Bergman manda que todos desçam para o corredor de fuga que a esta altura estava iluminado apenas com luzes de emergência. Não parecia haver mais tempo para concertar os controles, tinham que sair da base o mais rápido possível. Mal desceram pelas escadas a porta foi arrombada. Alguns filhos do sol tentam detê-los e são alvejados e mortos. Usar os phasers, em tonteio, foi a única saída para se defenderem. Os primeiros soldados caíram, mas os que vieram atrás continuavam sua marcha. Um soldado resolveu lançar uma granada e Bergman só teve tempo de tentar fugir do alcance da explosão. Nos segundos que se seguiram a entrada do túnel veio a baixo e tudo era fumaça e dor.

A explosão foi ouvida pelos oficiais da Aries que estavam guardando a saída do túnel após terem destruído a estação de força. Muita fumaça saiu pelo respiradouro. Quando a poeira abaixou nada pode ser ouvido então resolveram descer para ver o que acontecera. Encontraram dois técnicos tontos e confusos tentando respirar em meio a muita poeira e um muro de pedras e ferros retorcidos. Perceberam que não havia o que fazer. Se seus colegas morressem ou ficassem inconscientes por mais de dois minutos iriam ser transportados para a Aries isso se a nave conseguisse vencer a interferência magnética da tempestade. Caso contrário só restava à eles fazerem uma prece.

A chuva continuava a cair, sem piedade. O elevador, como era de se esperar estava desligado.

"E agora?"- pergunta Jamal para Ross.

"Já esperava por isso. Coloquei uma bateria embaixo dele prevendo algum imprevisto. Me dê um minuto." - Ross se agachou e começou a mexer em um painel.

A plataforma do elevador sacudiu e começaram a subir. Ross lançou um sorriso de triunfo para todos, mas pouco notaram pois as balas voltaram a voar em suas direções. Estavam com sorte até agora e os soldados tinham péssima pontaria. Teriam que retirar o cônsul Otavius e o senador Lucius do foguete o mais rápido possível.

As explosões foram ao ar ao vivo pela TV e a população sabia que, definitivamente, havia alguma coisa a mais do que uma tempestade. O repórter tentava contornar a situação dizendo que um raio havia caído mesmo quando ninguém tinha visto tal fato. Alguns populares, mesmo com a chuva, não deixaram o local de observação reservado a eles. Os poucos que ficaram começaram a serem mandados embora por soldados com a desculpa que o lançamento havia sido adiado. É claro que tudo aquilo era para desviar a atenção do público antes que pudessem entender o que realmente estava acontecendo. Além disso, havia um outro grande acontecimento para presenciar na cidade: a coroação de Claudius Marcus.

O futuro imperador subiu as escadarias do palácio com a fúria dos deuses correndo em suas veias. Foi empurrando a todos que via pelo caminho até chegar aos seus aposentos gritando:

" Drusilla ! Drusilla ! Venha rápido!"

A escrava demorou um pouco para aparecer e quando o fez não parecia tão serviçal.

"Por que demorou? Não fique aí parada! Preciso me trocar para a coroação! Venha me ajude aqui!"

Claudius esticou seus braços para trás para que o seu manto fosse retirado, mas a escrava não obedeceu. Ele então se virou e ficou espantando com o que aconteceu.

"O que deu em você mulher? Não escutou o que disse? Venha até aqui ou..."

"Ou o quê?" - respondeu finalmente Druscila enfrentando pela primeira vez o seu mestre.

"Drusilla o que houve? Por que o atrevimento?"- Claudius começou a notar que havia algo muito estranho acontecendo.

Drusilla jogou o colar que havia ganho nos pés de Claudius.

"Mas o que é isso?"

"ISSO?! Ë o mais precioso colar de "prata dourada" com os mais finos cristais coloridos que você me deu, lembra-se? Eu estive na casa de Lino Aureus, o ourives. Ele me disse que esta "jóia" enganaria até um bom ladrão, ainda mais uma escrava!"

"Ora, querida. Isto não é hora para isso. Eu..."

"Eu o amava. Você dizia que eu era especial que um dia seria imperatriz! Você será coroado e eu estou aqui ainda limpando seus sapatos, cuidando de suas roupas, preparando o seu banho..."- a jovem estava completamente descontrolada.

Claudius a segura pelos braços procurando acalmá-la, mas o choro apenas se intensifica. Ela se debate e depois tenta agredi-lo com socos. Ele a joga no chão.

"Estais louca mulher? Está querendo me dar ordens? Dizer o que fazer e quando fazer? Eu posso ter qualquer mulher quando eu quiser! Qualquer uma poderá ser imperatriz quando o momento certo chegar. Não será você que decidirá isso; entendeu?" - Claudius vocifera na direção da jovem.

Druscila tenta conter os soluços e limpa as lágrimas que ainda caem sem controle e responde.

Perfeitamente..." - o tom de sua voz havia mudado e ele não estava gostando nada disso. Um "clic" foi ouvido e a parede da sala secreta se ergueu. Do seu interior saiu uma figura armada com um rifle laser vestido em um uniforme todo negro. Era o senador Cassius.

"VOCÊ? Mas como?" - Claudius estava perplexo.

"Você ficaria surpreso com o que é capaz de fazer uma mulher traída." - responde o senador sentindo que a sua vitória particular não poderia ter desfecho melhor.

***

USS Áries alguns minutos antes...

O chefe de transporte estava tendo dificuldades na reintegração de matéria dos tripulantes que foram transportados automaticamente pelo sinal dos transponders.

A dra. Andrews foi chamada às pressas com sua equipe até a sala de transporte. O tenente Tagushi chegou quase ao mesmo tempo e foi auxiliar o chefe de transporte.

Um show de luzes partia da plataforma de transporte. Imagens confusas se formavam.

"Temos muita interferência no sinal."- comenta o chefe.

"Tente isolar. Engenharia nos dê mais força. - pede Tagushi pelo intercom.

A dra. Andrews e sua equipe ficam torcendo para que tudo dê certo.

"Reforce os sinais. Separe-os. Forma Um para o canal A e forma Dois passe para o canal B"- ordena Tagushi.

Um corpo começa a se formar. Era Baudelaire. Johnson não teve a mesma sorte. Apenas sua mão esquerda ficou intacta, mas o resto do corpo era um conjunto de carne e roupas fumegantes.

"Engenharia! Cortar a força para os transportes."- ordena Tagushi com medo que aquele show de horrores se repita.

A dra se aproxima e constata que o tenente estava com duas costelas quebras devido a duas perfurações de balas e mais outras três perfurações que atingiram a perna e a nádega esquerda, mesmo assim iria sobreviver. Os médicos o levaram rapidamente para a enfermaria. Alguns técnicos também se apressaram em limpar a plataforma de transportes.

O chefe de transporte e o engenheiro-chefe estavam transtornados. A dra. Ficou e pôs-se a consolá-los.

"Vocês não tiveram culpa. Vocês fizeram tudo o que puderam."

"Mas não foi o suficiente. Um jovem perdeu a vida porque não consegui força suficiente..."

"Ei, sr. Tagushi, não se martirize. Eu escutei pelo intercom quando o capitão se comunicou conosco. Há uma tempestade lá embaixo. O homem nunca conseguiu vencer a natureza. Dibrá-la, evitá-la, fugir dela mas vencer ?

Nunca. Por isso não se culpe. Vocês salvaram uma vida também.

O chefe de transporte compreende que aquelas não eram meras palavras; dá um tapa nos ombros de seu colega e agradece a doutora com um sorriso não escondendo uma lágrima que escorre pela face direita.

Hiroshi Kalmus Tagushi não esperava que aquela missão o colocasse frente a tantos desafios inclusive de testar os limites de sua resistência emocional.

Quando a dra. se aproxima e o abraça ele quase se esquece que era um oficial treinado e que não deveria demonstrar fraquezas. Ele então afasta a doutora e diz:

"Obrigado pelas palavras doutora , mas temos que salvar mais vidas lá embaixo."

"O grupo de descida está em perigo?"

"Sim, e não podemos transportá-los. Não nessas condições. Desativei a conexão automática com os transponders. Não podemos nos arriscar a perder mais vidas. Pelo último relatório temos um grupo inconsciente, aparentemente presos em um soterramento e mais cinco homens em um tiroteio feio."

"Não podemos mandar uma nave auxiliar/"

"De acordo com nossa atual órbita demoraria muito. Quase uma duas horas para chegar ao ponto exato isto sem considerarmos o choque cultural quanto a aterrissagem de uma nave alienígena provocaria."

"Não há uma brecha nesta tempestade? Poderíamos arriscar um transporte?"

"Estas brechas são inconstantes e imprevisíveis. Somente um louco desceria lá nestas condições..."

A doutora sorri.

"Não, não senhora. Não posso permitir. - Tagushi percebe pela expressão do rosto da médica e traduz seu pensamento - A senhora já viu o que pode acontecer. Se eu a transportar no meio de uma parede? Não, Não. Não posso arriscar."

"Me arranje uma britadeira sônica e algumas máscaras de oxigênio e me avise quando estiver pronto. Vou me preparar também."- disto isto a doutora deixa a sala de transportes para pegar seu kit médico.

O engenheiro-chefe tenta argumentar, mas ela já havia saído. Olha para o chefe de transporte esperando algum apoio, mas ele dá de ombros.

Mesmo ele estando no lugar do capitão no comando da nave a dra. ainda era sua superiora na hierarquia, só restava-lhe obedecer.

Gemidos e tosses foram as primeiras coisas que Bergman ouviu ao voltar à consciência. O ar abafado demonstrou que ele não havia sido transportado.

"Porcaria esse negócio de transponder"- pensou. Quando tentou se mover sentiu uma forte dor nas pernas. Estava preso da cintura para baixo sob os escombros. Não escutava muito bem. Provavelmente havia perfurado o tímpano.

Quando passou a mão nos ouvidos e sentiu o filete de sangue que escorria teve certeza disso. Tentou olhar em sua volta para encontrar alguém vivo, mas seu ângulo de visão estava limitado. Começou a gritar.

"Ei, alguém está acordado? Alguém está me ouvindo"

"Eu estou...cóf, cóf, cóf."- era Julius. Ele estava livre e bastante machucado. Tinha um ferimento na cabeça e sangue escorrendo pelo olho esquerdo que lhe turvava a visão.Provavelmente tinha cortado o supercilho.

Septimus estava ao seu lado, caído, ainda inconsciente, como muitos outros.

"Quem está aí? Não estou escutando bem."- grita Bergman sem saber qual o tom de voz que usava.

Julius aparece na sua frente. "Sou eu. Pode mover a perna?"

Bergman diz que não e Julius tenta remover as pedras sem causar muitas dores, algo quase impossível. Ele então começa a procurar algo para fazer um apoio. Um cano partido foi achado e dele fez uma alavanca. Sua força era descomunal. Como um ex-gladiador tinha a saúde perfeita e músculos muito bem trabalhados, só que estas qualidades estavam a favor da vida e não da morte como esporte.

Logo se juntaram a eles três pessoas. Um técnico, um segurança da Aries e um dos membros dos filhos do sol que, num esforço em conjunto conseguiram liberar Bergman dos escombros.

Infelizmente suas pernas estavam quebradas, mas, felizmente, pelas dores que sentia não havia ficado paralítico em ambos diagnósticos ele sabia que não iria muito longe. Tendo consciência da sua situação tratou logo de saber dos demais.

"Como estão todos ?"

"Temos dois mortos, senhor. Um técnico e um filho do sol. Dois outros técnicos conseguiram passar antes do teto desabar. Os restantes estão feridos, mas sem gravidade. A passagem está bloqueada nos dois sentidos. Temos pouco espaço e pouco ar também. Não conseguimos nos comunicar com a nave e, ao que tudo indica, o transporte não está operacional." - informa todos os detalhes o alferes Ekberg.

"Muito bem. Escute alferes... Reúna todos que possam trabalhar e comecem a cavar. Não sei se os guardas romanos tentarão o mesmo para resgatar corpos como troféus e não vamos dar esta chance à eles, entendido?"

"Sim senhor"- o alferes escolheu os menos feridos e executou a ordem.

Na plataforma, Goldman, Ross e Jamal tentavam se proteger dos tiros dos soldados que ficaram no solo. Até que, um mais inteligente, resolveu atirar no painel de controle abaixo do elevador onde ficava o gerador que o movimentava. O tranco fez com que todos fossem ao chão.

"E agora?" - pergunta Ross quando se vê a meio caminho de seu objetivo.

" Teremos que escalar." - responde Goldman com objetividade.

"Talvez não tenhamos tempo, capitão. De acordo com os meus cálculos o motor do foguete irá superaquecer explodir em vinte nove minutos, quarenta e seis segundos e..."

- explica Jamal com certa prudência.

"Temos que conseguir. Vamos nos livrar primeiro de nossos agressores."- acionou o comunicador e deu ordens para os dois oficiais de segurança que ficaram embaixo."- Alferes Silva e Jackson, ao meu sinal acertem na base da viga que está à esquerda de vocês. Agora!"

Goldman reforçou com seu phaser o feixe e em segundos a viga caiu sobre os soldados. Matando uns, ferindo outros e , principalmente, fazendo o restante recuar.

" Jackson e Silva, continuem nos dando cobertura. Jamal, a que distância estamos deles?"

"Uns vinte metros acima de nós, capitão. Estão presos no segundo estágio do foguete."

"Então vamos à nossa escalada."

Começaram a subir pelas vigas metálicas escorregadias e perigosas. Em um dado momento o próprio capitão quase despencou para o vazio, mas foi salvo pelo reflexo de seu oficial de ciências.

Quando chegaram próximos ao local , ainda havia um vão de cerca de cinco metros entre eles e o foguete. Precisavam de uma rampa para chegarem aos prisioneiros. O capitão olhou para os lados e não encontrou nada que pudesse ajudá-lo; a chuva e a névoa atrapalhava muito a sua visão. Então Jamal teve uma idéia.

" Senhor, podemos cortar uma viga da torre sem afetar a estrutura e depois a soldaremos para formar uma ponte."

"Boa idéia. Coloque seu phaser em potência máxima. Nós dois faremos isso rápido."

Em menos de cinco minutos a ponte estava improvisada. Restava ainda cortar o casco do foguete e salvar os líderes romanos. Ross indicou a Jamal o local mais adequado para o corte e começaram a fazê-lo. A chapa cortada caiu como um papelão. Lá dentro podia se ver o vulto de dois homens sentados, com as mãos amarradas para trás. Goldman pediu ao tenente para gravar a cena com o tricorder. Jamal os sondou e notou que o senador Lucius inspirava cuidados.

Estava prestes a entrar em coma, já o cônsul Otavius pôde ser reanimado.

Assim que abriu os olhos perguntou:

"Quem são vocês? Onde estamos?"

"Tudo ao seu tempo, excelência. Agora nos ajude a tirá-lo daqui. Não temos muito tempo."

Otavius foi erguido pelo capitão enquanto o senador era carregado por Jamal e Ross. Goldman perguntou se houve o corte de energia da estação por que o foguete não havia sido desligado. Ross tentou explicar.

" A estação era para alimentar a energia dos injetores de combustível e da torre retrátil. Para desligar os foguetes só podemos fazer por rádio. A transmissão da central de controles estava danificada. Teremos que chegar na cabine no topo do foguete."

" Não teremos tempo. Temos que sair daqui rápido e rezar para estar fora do raio da explosão."

Ross hesita um pouco, mas dá razão `as palavras do capitão. Era uma pena que tantos anos de trabalho fossem pelos ares. Mas era melhor que fosse o satélite e não ele.

Voltaram a plataforma . Ainda tinham um problema a resolver. Como iriam descer e ficar longe da explosão iminente a tempo?

No palácio Claudius Marcus estava presenciando um pesadelo. Tudo aquilo que sonhara, planos arquitetados durante anos estava se desvanecendo. Era como tentar segurar água nas mãos. Por mais que quisesse ela escorria pelos dedos.

O senador Cassius não parecia representar uma ameaça e nunca Claudius cogitou em tentar algo contra ele até ser tarde demais. Ele havia sido um eficiente agente secreto do departamento de segurança do estado e foi introduzido por Julius Crato para vigiar os senadores de oposição e conseguiu cumprir sua missão sem ninguém desconfiar Mas o encontro na casa de banhos com Lucius e Otavius podia incriminá-lo. Mas ele sendo um agente tão bom como não evitou as escutas?

O cônsul estava confuso, mas em breve ouviria a verdade de próprio Cassius que tratou de esclarecer seu plano.

"O senhor deve se estar perguntando como escapei de seus guardas e vim parar aqui. Não é? Isto é muito simples. Com os idiotas que o rodeiam, entrar no palácio sem ser notado até que não foi a coisa mais difícil do mundo. Difícil mesmo foi seguir os seus passos e me adiantar à eles. Sabia que planejava um golpe de estado desde a morte de Julius Crato. Aliás foi o próprio que me advertiu quanto a sua pessoa e havia pedido que o vigiasse desde aquela época. Deixei que pensasse que estava controlando a situação para que você pudesse eliminar todos que ficassem em meu caminho sem eu ter que sujar as mãos. Surpreso? Ora, nobre Claudius; quando você observa os caminhos do poder muito de perto e vê que é muito fácil chegar lá por que não tomá-lo para si?

Sabe, fez um ótimo trabalho com Lucius e Otavius. Achei criativo tê-los prendido no foguete que em breve dará um grande espetáculo iluminando Roma com o fogo de sua explosão."

Claudius procura se sentar enquanto pensa numa maneira de escapar durante a tagarelice de seu inimigo. Quanto mais ele falasse mais tempo teria para elaborar sua fuga. Talvez usasse Druscila como refém mas precisaria de uma arma. Cassius continuava a falar:

"Os filhos do sol levam a culpa de tudo, você é encontrado morto e alguém terá que surgir para governar o nosso povo. É claro que não poderei ser incriminado por nada pois o dono da casa de banhos, depois de uma gorda propina, dirá que nunca me viu lá e a fita gravada com a nossa conversa...-

Cassius retira a fita gravada do bolso, joga-a no chão e a incinera com um tiro de laser - ... não existe mais! É claro que me certifiquei se havia cópias e sei que ela era única!"

Claudius tenta reverter a situação.

" Escute Cassius. Podemos dividir o poder de Roma. A riqueza que adquiri e a tecnologia alienígena é muita um homem só. Vamos dividi-las, o que acha ?

" - o cônsul parecia demonstrar estar desesperado para fazer tal proposta.

" Esta tecnologia é realmente interessante. Já sabia que você possuía um poder oculto só não esperava algo assim. Um arsenal de por inveja 'a Marte.

Pena que a fonte tenha secado. Alguns homens do espaço vieram resgatar aqueles que aqui caíram e agora, pelo que sei, estão destruindo a sua grande obra: a base de lançamento do satélite. Isto até parece vingança dos deuses.

Você não pensa assim ? " - Cassius andava pelo aposento enquanto falava e se descuidou por uma fração de segundos quando deu 'as costas para seu inimigo.

Foi o tempo suficiente para que Claudius retirasse uma adaga que trazia na sua cintura e a fincasse em suas costas.

Cassius, o cauteloso, caiu de joelhos agonizando por ter pecado em não manter sua maior virtude.

Drusilla solta um grito de horror e tenta fugir, mas é bloqueada por

Claudius com a adaga em punho e ainda pingando sangue da lâmina.

" Aonde pensa que vai, traidora ? "

" Não me mate, senhor. Pelos Deuses, eu imploro!" - a jovem se ajoelha segurando em suas pernas. Sabia que só a benevolência de Claudius poderia salvá-la.

Claudius segura seus cabelos loiros e começa afaga-los tentando tranqüiliza-la. Ela começa a parar de chorar em meio a alguns soluços.

Ele ajoelha, segura sua cabeça ternamente e a beija ardentemente. Drusilla se acalma, corresponde ao afeto e relaxa nos braços de seu amado.

De repente ouve-se um estalido. Drusilla cai para o lado com o pescoço quebrado. Uma morte rápida, indolor e limpa.

O cônsul a abraça novamente e começa a chorar. Algo que não fazia desde a morte de seu pai.

***

O esforço de todos fora recompensado quando perceberam a vibração vinda do outro lado das rochas. Um buraco apareceu junto com um zunido, e depois ele ficou maior. Em pouco tempo todas as pedras foram removidas.

A dra. Andrews apareceu ladeada pelos dois seguranças que destruíram a estação. Rapidamente ela usou o scanner médico e verificou a condição de todos.

Devido ao soterramento aquele grupo precisava de cuidados médicos rápido.

Especialmente Bergman e Septimus.

" Dra. Que bom vê-la!" - Bergman tinha vergonha em admitir que nunca na vida ficou tão feliz em ver alguém.

" Calma comandante, não se mexa. O senhor está com fraturas graves."

" Grande conclusão! Descobriu isso sozinha ou foi com o seu aparelhinho ?

Você acha que eu já não sei disto ?"

" Não seja ranzinza ou não darei o remedinho para dor... - ameaça a doutora face rabugice do comandante. Ela o tratava como criança e ele não sabia o que fazer naquela situação. Uma coisa era certa. Ele odiava ser tratado assim. Tinha que engolir o seu orgulho.

" Não, me dê alguma coisa ..."

A doutora ao invés de acatar o pedido olha para cima esperando que ele diga mais alguma coisa. Uma palavrinha mágica talvez.

" O que está esperando? - Bergman custa admitir a entrar no jogo então suas dores o força a dizer - Tá bom... Por favor ?"

Era triste vê-lo se humilhar daquele jeito mas ela não resistia a implicância. Aplicou a hipospray e em seguida colocou um estimulador neural eletrônico em sua testa e na de Septimus para controla r os níveis de endorfina.

" Você é sádica sabia ?" - comentou Bergman em meio a uma tosse.

" Eu sei. Meu primeiro marido me dizia a mesma coisa." - diz ela sorrindo.

Enquanto o estimulador neural de Bergman o fazia ficar um pouco anestesiado o de Septimus o estava fazendo acordar. O ancião resmunga algo, abre os olhos e um pouco desorientado pergunta, ao mesmo tempo em que procurava ficar sentado :

" Espero que tenha trazido aquele remédio com a senhora, doutora."

" Está bem aqui." - ela retira a pequena garrafa metálica de sua cintura, abre a tampa e ajuda a Septimus a beber o precioso líquido. O velho se engasga mas agradece o presente. Bergman, lutando para não dormir, pergunta curioso:

" Como chegou aqui ? Pensei que a tempestade havia prejudicado o teletransporte " .

" Eu tive que arriscar. O senhor Tagushi conseguiu achar uma brecha e aqui estou eu."

" Você é definitivamente maluca ! " - comenta o número um.

" Eu sei " - confirma a doutora.

" Foi algum marido seu que te disse isso também ? " - diz Bergman.

" Não. Eu já sabia desde o momento em que me alistei na Frota. " - os dois começam a rir.

A doutora sabia que não poderiam ficar ali muito tempo. As condições de seus pacientes eram estáveis mas poderiam piorar sem um tratamento adequado.

"Escute, comandante. Vou ter que deixa-lo aqui até encontrar algo para improvisar uma maca. Deixarei os dois seguranças para protegê-lo e uma nova hipospray para baixar suas funções vitais, pois a sua está danificada. Bom ela só será útil se o transporte puder funcionar novamente em segurança.

Levarei aqueles que podem andar para fora imediatamente." - ao concluir viu que o comandante já estava dormindo. Fez um carinho em sua testa e se virou para Julius ao fazer uma pergunta:

" Vocês têm como sair daqui ? "

"Temos um caminhão nos esperando a leste daqui".

"Ótimo! Leve seu pessoal para lá. Leve também os técnicos." - ordena a doutora.

"A senhora não vem?" - pergunta intrigado o ex-gladiador.

"Não. Cada um de nós tem uma missão. Você deve seguir seu destino e nós o nosso. Talvez ainda nos vejamos no futuro". - diz a doutora. Julius agradece com um aperto de mão forte e ajuda a todos a sair do túnel.

A doutora ordenou que os três oficiais de segurança restantes a seguissem. Deveriam ajudar o capitão. Antes de sair do túnel pegou a britadeira sônica. Talvez ela ainda lhe fosse útil.

Quando saíram viram que o capitão e os outros estavam encurralados. Estava chovendo bastante agora e a ver com clareza era bastante difícil. Colocou então a britadeira em sobrecarga e a lançou na direção de um grupo de soldados que estavam atirando em seus amigos na plataforma.

A explosão que iria ocorrer em segundos daria a impressão aos soldados romanos que estariam sob ataque de armamento pesado fazendo com que os sobreviventes fugissem. Para garantir o seu plano a Dra. Andrews mandou que os oficiais de segurança se separassem e atirassem de direções diferentes.

Ela esperava que com isso pensassem que estavam e maior número. Oito...Sete... Seis... Começaram a atirar. Quatro... Três... Dois... Um e BOOOOM!!!

O plano funcionou perfeitamente. As aulas de tática e combate da academia não estavam enferrujadas. Os soldados inimigos ficaram atordoados e começaram a correr com rios voando por suas cabeças no meio daquela chuva..

Um deles até gritou por clemência aos deuses.

Esta confusão deu tempo para que Goldman avistasse um cabo de aço que estava preso a plataforma e que ia até ao chão. Tirou seu cinto e ofereceu a Ross para usa-lo como polia para descer. Jamal copiou a idéia e tanto ele como Ross levariam de carona os representantes do governo romano. Restava saber como Goldman desceria.

" Mas e o senhor ? Não há nada aqui em cima que sirva como catraca para descer. " - se preocupa o tenente.

" Vá. Isto é uma ordem. Salve-os. Eu me viro. Vá! Não temos muito tempo" .

Muito a contra gosto, o oficial de ciências cumpriu as ordens, mas não antes de apertar a mão de seu capitão como se estivesse agradecendo o seu sacrifício. Poderia ser a última vez que se viam. Eram as prerrogativas da hierarquia que muitos não gostariam de abraçar.

Ross e o senador Lucius agarrado a ele deslizaram rapidamente em direção ao solo e foram seguidos por Jamal e o cônsul Otavius. O capitão ficou fitando o foguete como a máquina de seu juízo final.

Na USS Áries o comodoro Solano adentrou a ponte de comando mancando e usando uma bengala. O tenente Tagushi se levanta da cadeira e se propõe a ajuda-lo sendo grosseiramente repelido.

"Não preciso de ajuda. Estou bem".

"Senhor... O senhor deveria estar na enfermaria".

"Tem uma batalha ocorrendo lá embaixo e você quer me ver de pijamas ? Nada disso! Eu estou assumindo o comando a partir de agora".

"Senhor?" - Tagushi fica sem palavras.

"Alguma objeção tenente ?"

" Não senhor..."

"Então está dispensado. Volte para o seu posto ". - o comodoro se senta e começa a realizar um antigo sonho: capitanear uma nave estelar novamente.

"Sr. Akwe, algum sinal da equipe?" - pergunta o comodoro a um perplexo oficial de comunicações que por ora também acumulara o posto de ciências.

"Eu... vou... verificando senhor... estão todos vivos. Os sensores também registram que o foguete está irradiando muita energia. Parece que seu combustível está superaquecido. Poderá explodir a qualquer momento.".

"Qual a condição dos transportes, engenheiro?"

"Estão funcionais, mas ainda há muita interferência eletromagnética lá embaixo, senhor."

O comodoro fica pensativo por um momento e depois continua a argüir o engenheiro-chefe:

"Sr. Tagushi, o senhor concorda que a intensidade do feixe de transporte diminui à distância e que o inverso é verdadeiro? "

"Sim, senhor. Mas não compreendo onde o senhor quer chegar... Espere um pouco... Não me diga que... " - o engenheiro havia percebido o que se passava na cabeça do comodoro e não estava gostando nada do andamento daquela conversa pois sabia que surgiria algum ato de loucura que ele teria que orquestrar novamente e foi logo adiantando o seu veredicto - " Isto será uma loucura! Isto jamais foi tentado antes. Será preciso algum tempo para calcular as coordenadas, a velocidade, e todas as variantes e ... "

"O universo está cheio de loucos, sr. Tagushi. Nós somos apenas alguns deles. É possível fazê-lo ?"

Infelizmente o seu lado técnico se sobressaiu em relação ao seu emocional e teve que concordar que : "Em teoria é possível, senhor."

"Então fixe o feixe na equipe lá embaixo e direcione para a ala de carga.

Tentaremos transportá-los todos de uma vez. Sr.Shres e Sr. Benson vamos descer a toda velocidade de impulso em ângulo de 30 graus. Qual a distância mínima de segurança, Sr. Tagushi ?"

"Um momento... - o engenheiro parecia estar em um pesadelo mas mesmo assim consegue computar os dados que o comodoro pedia - mil metros em relação ao solo, nem mais nem menos para que consigamos arremeter a essa velocidade." "Muito bem, vocês ouviram o homem. Tracem o curso. Alerta vermelho. Acho que vamos sacudir um pouco!"

Akwe segura-se no console. O piloto e o navegador se entreolham como se desejassem um ao outro sorte e o tenente Tagushi leva a mão à testa para limpar o suor frio que escorre e reza para que seus cálculos estejam corretos.

Lá embaixo Julius resgata Ross, Lucius e Otavius. Jamal manda que sigam para o caminhão e acelerem o máximo que puderem em direção a saída da base.

Depois corre até a Dra. Andrews que estava carregando o comandante Bergman, com outros dois oficiais, em uma maca improvisada. Ao se encontrarem escutam um barulho ensurdecedor vindo do céu. Surge uma grande ventania e as nuvens se abrem como se fossem revelar alguma mensagem divina. O foguete explode. A onda de choque da explosão estava na iminência de pegá-los então, em seguida, eles sentem um grande brilho os envolvendo, um formigamento pelo corpo e uma sensação de que seus espíritos não mais tinham um corpo. Era uma sensação maravilhosa e, felizmente para eles, isto não era uma novidade. Ao abrirem os olhos viram-se na ala de carga da Aries junto com seus companheiros e o chão tremendo como se fosse um terremoto de oito pontos na escala Richter. E o capitão ? Onde estava o capitão ? Teria ele conseguido também ?

***

O templo de Júpiter, uma obra imponente, onde uma grande estátua do deus estava erguida sendo sustentada por doze colunas e que ficava no centro da cidade, estava cheio. As ruas e avenidas próximas estavam intransitáveis. A população se aglomerava e tentava chegar o mais perto possível para poder assistir a cerimônia de coroação que estava programada para ser realizada, com toda pompa, a céu aberto. Mesmo com a forte chuva que caía ninguém ia embora. A orquestra tentava entreter o povo que insatisfeito clamava pelo seu novo líder.

"CLAUDIUS, CLAUDIUS, CLAUDIUS !"

As trombetas e os clarins soaram. Os tambores ribombaram. Os pratos saudaram, enfim, a entrada do futuro imperador que vinha escoltado, lado a lado, por duas virgens de Vesta.

A cerimônia havia sido montada nas escadarias do templo debaixo de um toldo. Tudo com uma cobertura completa e ao vivo da TV Imperial.

Claudius Marcus, futuro Claudius César ergueu a mão direita em saudação e todos os presentes, quase que numa euforia histérica, responderam :

"AVE CLAUDIUS, AVE CESAR!"

Em seguida vieram os aplausos que duraram quase cinco minutos. O povo delirava e Claudius com ele. Saindo do seu torpor pela glória e fama, ele pediu silêncio e foi atendido quase de imediato. Caminhou até um parlatório construído para seu discurso, testou os microfones e quando ia começar a dizê-lo o silêncio é quebrado por um rugido vindo do céu. Parecia que o próprio Júpiter estava desaprovando aquela festa profana aos seus pés.

"Júpiter será traído..." - pensou Claudius nas palavras do antigo pitoniso Gaius Orsino.

Todos olharam para cima, alguns para os céus, outros para a estátua e outros olharam para se certificarem que algo não estivesse caindo sobre as suas cabeças. Mas nada aconteceu. Pelo menos não tão rápido quanto pensaram.

Novamente o silêncio se fez para ser mais uma vez quebrado com uma grande ventania. As pessoas mal conseguiam ficar em pé. Os guarda-chuvas voaram das mãos de seus donos para longe. O pânico começou a tomar conta de todos e a correria foi total. Muitas pessoas caíram e foram pisoteadas.

Claudius foi ao microfone para pedir calma e que voltassem para sua cerimônia mas ninguém lhe deu atenção. Até mesmo os músicos abandonaram seus instrumentos e procuravam algum lugar para se abrigarem. Estavam todos preocupados em se proteger da ira de Júpiter. Menos Claudius que vociferou contra a estátua acima dele :

"Não adianta ouviu? Eu sou o imperador. Eu serei o único Deus deles! Estais ouvindo ?"

Um raio apareceu e atingiu a base da grande estátua que já balançava devido à força do inesperado tufão.

"Júpiter será traído e cairá..." - as palavras de Gaius Orsino ecoavam nos ouvidos de Claudius que os tampava na esperança de que tudo aquilo que estava acontecendo parasse imediatamente. Enquanto a estátua ruía e caía sobre si derrubando as pilastras do templo, ficou parado, perplexo, visualizando a cena sem querer acreditar que tudo aquilo era real e estava realmente acontecendo no momento de seu máximo triunfo. Seu séquito o abandonara. Todos a sua volta fugiam desesperados do castigo divino.

"As colunas ruirão..."

Claudius Marcus teve tempo de pegar os louros que simbolizavam o seu poder máximo e se autocoroar nos seus segundos finais de vida.

Uma lágrima escorreu de seu rosto que, estranhamente, estva sereno. Suas últimas palavras foram:

"Drusilla..." - e sucumbiu a toneladas de mármore. Quando a ventania cessou e a poeira abaixou, um homem ,vestido com um manto negro que possuía um capuz cobrindo-lhe o rosto, se aproximou dos escombros amparado por dois jovens. Com uma bengala ele procurava pelo corpo do pretenso imperador.

Não havia mais ninguém por perto, portanto não viram quando o misterioso homem se ajoelhou e, ao tatear o chão encontrou a mão de Claudius Marcus segurando os louros. O homem percebeu o que era e pegou o objeto para si.

Ergueu-se com a ajuda de seus guias e espalmou a mão para cima como que para verificar que a chuva havia realmente parado e então retirou o seu capuz.

Era Gaius Orsino que exibia suas órbitas vazias em triunfo por ter sobrevivido à mutilação a qual foi infligido. Ele respira fundo e baixa a cabeça como que demonstrando, apesar de tudo, pesar pelo fim de seu algoz; contudo em seguida sorri pois os deuses haviam lhe concedido o doce sabor da vingança. Com os louros de César ainda nas mãos desce a rua junto com os seus servos para nunca mais ser visto novamente.

O tufão sobre Roma fora provocado pela trajetória quase tangente da Aries com a superfície do planeta. A nave agora tentava se libertar da gravidade com toda a força de seu único propulsor.

Em todos os decks eram reportados incêndios. Os escudos estavam fraquejando e o pessoal da engenharia temia que o núcleo do reator de dilithium se rompesse com tamanha pressão.

Na tela principal as nuvens foram rapidamente substituídas pelo negrume do espaço. O comodoro por fim gritou:

"Parada total! Desligar alerta!" O pessoal da ponte começou a se recompor e tentar voltar aos seus postos mesmo estando ainda meio tontos.

"Controle de danos, Sr. Tagushi?"

"É ... temos incêndios nos decks 5, 6 e 8, mas já estão sendo controlados.

Muitos painéis na engenharia fritaram e precisamos recalibrar os cristais de dilithium do reator e não tivermos que trocá-los por novos. Força dos escudos em cinquenta e três por cento. A enfermaria reporta quatorze feridos. Não há baixas."

"E o grupo de descida ?"

"Estão todos aqui, senhor!"- confirma Tagushi aliviado.

"HURRÁ!" - todos gritaram, a exceção do comodoro, que era muito formal; do engenheiro-chefe, que se conteve; e do navegador andoriano que não entendia aquela explosão emocional sem sentido para ele.

Na plataforma de transporte do setor de cargas Goldman estava de costas para o seus homens quando se materializou e quase caiu quando a nave deu um tranco e parou. Ao se virar a primeira pessoa que vê era a Dra. Andrews que estava agachada e foi ajudada por ele a se por de pé.

"Essa foi por pouco."- comenta a doutora com o capitão.

"Nem me diga. Nunca estive tão perto de Deus antes. Como está o comandante Bergman?"

"Ficará fora de circulação por algum tempo. Precisará de um tímpano novo, uma cóclea artificial e andará com servo-motores pelo menos por uns dois meses. Vai sobreviver. E você, está bem ?"- pergunta a doutora quase demonstrando mais do que uma preocupação médica.

"Sim. E você ?"- devolve a pergunta em um tom mais terno do que o habitual. A Dra. Andrews já havia visto aquele olhar antes e não queria ser motivo de quebra de hierarquia. Estava a muito tempo sozinha e ter um homem charmoso e preocupado com o seu bem estar era algo que a fazia enrubescer.

"Melhor do que eles. Acho melhor ir até a enfermaria e cuidar dos feridos."

"É claro!" - o capitão acompanhou sua saída com os demais com o olhar até perceber que o tenente Jamal estava ao seu lado lhe oferecendo uma toalha.

"Senhor?" - falou o tenente quebrando uma espécie de encanto que desviava a mente do capitão.

"Sim?... Ah, obrigado. Vamos para a ponte." - e saíram em direção ao turboelevador.

Na ponte o tenente Akwe percebe que, apesar do alívio geral, os problemas não haviam acabado.

" Senhor, parece que temos companhia.." - informa ao comodoro.

"Como assim? Especifique."

"É um caça elasiano e está se preparando para atacar. ".

"Sr. Tagushi, levantar escudos. Condição alerta vermelho". - ordena Solano.

"Escudos levantados. Eficiência de sessenta por cento. Escudos dianteiros só agüentarão um tiro. A entrada na atmosfera do planeta os danificou muito.

Não sei se agüentaremos uma batalha agora".

"Abrir canal de comunicações".

"Canal aberto. Eles não respondem, senhor". - diz o oficial de comunicações.

A porta do turboelevador se abre e Solano fica feliz em passar o comando para o seu amigo.

"Por que estamos em alerta?" - pergunta Goldman tentando ficar a par da situação.

"Temos um caça elasiano 'a bombordo pronto para nos atacar". - repassa a informação o comodoro.

"É parece que o passeio de montanha russa virou um de trem fantasma". -comenta Goldman jocosamente - "Tente um canal , tenente".

"Já o fizemos, senhor. Eles não respondem".

"Passe a seguinte mensagem mesmo assim : Capitão da nave elasiana aqui é o capitão Goldman da USS Áries vocês estão violando espaço da federação.

Pedimos que se retirem imediatamente".

A resposta demora mas vem sob a forma de um ataque de uma rajada de phaser.

A nave balança. Os escudos caem um pouco, mas não há danos consideráveis.

O piloto Benson, que era também o artilheiro, espera pela ordem de contra-ataque. Goldman, exercendo sua total diplomacia, faz uma tentativa de diálogo.

"Nave elasiana seu ataque foi considerado um ato de agressão 'a Federação.

Estamos dando uma última chance para se retirar ou não teremos outra alternativa a não ser de eliminar a ameaça". - Goldman espera que seu agressor se manifeste. Um sinal é recebido e a tela principal é ligada.

"Prazer em revê-lo, capitão. Aqui é Tibor. Parece que estão com problemas. Espero ajuda-los... a virar sucata" - o velho pirata começa a gargalhar junto com a sua tripulação.

Capitão Tibor... O senhor parece que não está entendendo com quem está lidando. Não é apenas com uma nave. É com um representante de várias raças e culturas. Em nome delas é que eu peço: retire-se deste setor".

"Oh, capitão. Claro que sei com quem eu estou lidando. Com um grupo muito esperto de oficiais que tentaram tapear um velho capitão como eu. Em um determinado momento eu pensei : por que uma nave Klingon iria ficar repetindo a mesma ordem como se fosse um gravador quebrado. Então resolvi voltar e olha só o que encontrei..." - aponta para s sonda capturada atrás de si.

Jamal se sentia responsável por ter esquecido de reaver a sonda e o olhar de reprovação do capitão era tudo o que ele não queria ter visto. Goldman pede para desligar o áudio e discretamente fala com seu engenheiro-chefe. "Sr. Tagushi. Prepare o transporte da ala de carga mais uma vez e aguarde.

Qual a eficiência dos escudos agora ?" "Sim senhor . Setenta e cinco por cento, senhor". - o engenheiro acatou, mas ficou intrigado com a ordem. O que o capitão estaria planejando agora?

Akwe restabelece o áudio a pedidos.

"Capitão Tibor... - Goldman procura sorrir.- Compreenda que precisávamos de ganhar tempo para retirar meu pessoal do planeta com segurança. Agora pela sua própria segurança, e a de seus companheiros, dê meia volta e parta!" - Goldman pede para encerrar a transmissão.

O próximo movimento naquele jogo de xadrez seria da nave elasiana. Ela não se move por alguns minutos. Todos ficam tensos. Os escudos agora estavam em oitenta por cento. Escudos dianteiros ainda sob reparos. A nave elasiana começa a dar meia volta como solicitado.

"Sr. Benson preparar torpedos fotônicos". O artilheiro começa a travar o alvo. Solano se aproxima e ao pé do ouvido comenta preocupado:

"Eles estão indo embora, homem. Vai atirar neles pelas costas ?"

" Vamos apenas aguardar..." - de olho fixo na tela, Goldman vê quando a nave faz nova volta e em rota de colisão com a Áries começa a atirar. A nave da Federação balança novamente. Goldman dá uma nova ordem:

" Sr. Tagushi, travar feixe de transporte na nave inimiga e ativar. Sr. Benson mire na nave inimiga e atirar a vontade... agora!"

A nave balança novamente mas agora devido ao efeito da explosão próxima da na vê elasiana que se esvai numa rápida, silenciosa, porém luminosa explosão.

" Sr. Tagushi ative tela de contensão na plataforma de transporte. Mandem grupo de segurança para ala de carga e prendam os nossos hóspedes. Eles ainda devem estar meio atordoados com o que aconteceu com eles. Controle de danos ?"

"Escudos em 40%. Todos os decks reportam que não houve avarias significativas, e meus batimentos cardíacos estão também voltando ao normal, senhor."

A espirituosidade do engenheiro-chefe contagiou a todos e ajudou a diminuir a tensão na ponte. Goldman pode então sentar e relaxar. Seus alunos devem ter gostado da aula.

" Manobra arriscada a sua. Muito bem!" - o comodoro o cumprimenta.

" Não tanto quanto a sua. Obrigado pelo resgate. Onde aprendeu a fazer aquilo?"

" Um pouco de experiência e desespero " - responde o comodoro. Os dois amigos sorriem para avaliar a tensão do último dia, mas a missão ainda não havia acabado.

***

Diário de bordo - Data Estelar 4060.5 :

" Depois de um merecido descanso, estamos ainda em órbita do planeta 892-IV Roma fazendo reparos e observando o desenrolar dos acontecimentos na sociedade romana. De acordo com as transmissões de TV o senador Lucius convenceu a população, com uma pequena ajuda nossa, da insanidade do cônsul Claudius Marcus quando exibe as imagens deles aprisionados no foguete.

Para concluir as acusações uma fita de áudio foi encontrada em um mini-gravador que estava no bolso do corpo do senador Cassius em seu último encontro com o cônsul Claudius. Aparentemente ela foi gravada secretamente para incriminar o ex-futuro imperador Na fita Claudius admitia que estava enriquecendo ilicitamente no governo e também admitia a existência de um povo alienígena que havia sido escravizado em troca de tecnologia. A morte do senador e de uma escrava de Claudius também foram gravadas. Tais revelações chegaram a imprensa antes que pudéssemos agir e abalaram toda a sociedade romana.

O povo, perplexo, não sabia mais no que acreditar. O cônsul Otavius foi reconduzido ao poder . Ele anunciou que extinguiria a escravidão e que modificaria o sistema político para que o povo tivesse maior participação. Além dos partidos dos democratas e aristocratas haveria o partido do povo.

As novidades não pararam por aí. Dentro de seis meses eleições diretas irão formar um novo senado e a assembléia popular; uma câmara baixa para resolver questões sociais. As mulheres poderão votar contudo não poderiam exercer cargos políticos. Pelo menos não por enquanto.

O sistema político adotado seria algo como o parlamentarismo tendo Otavius como presidente e Lucius como primeiro-ministro. Até agora eles são chapa única.

O velho Septimus concorreria novamente ao senado para garantir na redação da nova constituição o respeito à liberdade de credo. Os sobreviventes da Beagle pediram para continuarem no planeta já que o período de opressão havia terminado. Mesmo Lucília, com o pequeno Espartacus, reavaliou a sua posição, vislumbrando um futuro melhor para si e para seu filho. Respeitamos a decisão e os devolvemos à superfície.

Ainda teremos que realizar um último ato de nossa missão. Um grupo de descida, recrutado especialmente, fará o primeiro contato oficial e todos nós iremos com vestes que representam as diferentes crenças dos membros da Federação. A presença do alferes Shres também não será descartada. Sua pele azul e suas antenas certamente impressionarão e demonstrará a pluralidade da vida no universo.

Quero registrar comendas de bravura para todos que participaram das equipes de descida. Especialmente para o tenente Yuchenko e o alferes Johnson que deram suas vidas para que a missão fosse completada. Fim do registro".

A aparição dos oficiais da Áries se materializando no Fórum, praça central de Roma, foi algo que aquele povo jamais iria esquecer. Para dissipar quaisquer dúvidas sobre o depoimento do senador Lucius a Áries sobrevoou a cidade eclipsando o sol, por alguns segundos, com a sua seção disco. Foi uma imagem magnífica.

Alguns membros privilegiados da sociedade se aproximaram para saudar e trocar presentes mas o que queriam mesmo era poder tocar naquelas pessoas (nós) que eram tão iguais a elas e que vieram de outros mundos. É claro que o navegador Shres causou o impacto esperado e nos minuto seguintes já estava confraternizando com os nativos. Se é que ficar afastando as mãos das pessoas de suas roupas e de suas antenas fosse algum tipo de confraternização.

" É uma festa maravilhosa. Um sonho que se torna realidade. Muito obrigada, capitão!" - agradece Lucília que em seguida pede ao seu filho que presenteie o capitão com um buquê de flores. Goldman aceita gentilmente o presente e agradece com humildade:

" Fizemos apenas nossa obrigação." - olhou em volta para procurar a doutora que estava brindando com Septimus e alguns senadores. Aproximou-se para participar da conversa.

" ... e esta é uma bebida de um lugar de onde venho chamada de conhaque e .."

" Está prescrevendo algum novo medicamento, doutora ? Novos pacientes? "

" Oh, olá capitão. Quer um pouco?"

"Não, obrigado. Já tenho a minha taça de vinho. A não ser que seja uma recomendação médica.'

" Não, tudo bem. O vinho também é medicinal. O povo daqui é muito hospitaleiro, lembram os italianos da Terra. " - diz a doutora enquanto pede licença aos seus anfitriões e se afasta junto com o capitão.

" Talvez eles sejam." - responde Goldman lembrando as teorias do tenente Marino.

" E agora, capitão? Para onde vamos?"

" A Frota pede que retornemos a Base Estelar 8 para deixar nossos prisioneiros. Eu passarei o comando para Bergman assim que ele se restabelecer e voltarei a dar aulas na Academia em São Francisco. O comodoro se aposentará e irá escrever suas memórias em Ibiza. Garanto que no futuro seja de leitura obrigatória na Academia. O restante da tripulação continuará na Áries até que solicitem transferência ou sejam transferidos pela Frota. E quanto à você?"

" Eu ? Sempre gostei de aventuras e esta foi espetacular. Mas temo que as próximas não serão tão divertidas."

" E por que?"

" Porque você não estará lá."

A declaração da doutora faz o capitão ficar desconcertado. Será que isso teria sido uma cantada? Para confirmar, aproximou o seu rosto do dela e sentiu que sua respiração estava forte. Ambos foram fechando os olhos e seus lábios pareciam cada vez mais próximos.

O clima foi quebrado com o tenente Marino se aproximando aos berros. Os dois se afastam assustados e um pouco embaraçados.

" Capitão! Estou píu contento! Meu pedido para estudar esta cultura foi aceito pela frota e devo ficar aqui pelos próximos seis meses como oservatore culturale, não é fantástico?"

" Parabéns, fico feliz por você". - Goldman repara que privacidade era algo que não teria quando o comodoro Solano se aproxima mancando e se apoiando numa elegante bengala.

" Congratulações, Josh. Parece que tudo terminou bem. De minha parte meu relatório inocentará Kirk de qualquer culpabilidade. Ele e seus oficiais estiveram aqui em condições muito difícieis e sua conduta procurou respeitar a primeira diretriz. É claro que Fitzpatrick não ficará muito feliz com isso."

"Acredito que sim. E quanto você?" - diz Goldman olhando para a perna ferida do colega.

" O quê, isto? Isto não é nada. Será algo para acrescentar ao meu charme e às páginas da minha biografia. Sem contar que as mulheres adoram soldados feridos na guerra."

Os oficiais gargalham com os comentários do comodoro. Goldman é chamado por Septimus para uma pequena cerimônia ecumênica debaixo de uma tenda devidamente preparada para a ocasião.

Naquele distante planeta Goldman, que se sentia um judeu errante, um ahasverus, não só reencontrava as sua fé, mas permitia que um planeta inteiro também o fizesse quando revelara que o criador espalhara sua semente pelo cosmo, onde havia espaço para deuses, divindades ou simplesmente para qualquer crença que se quisesse,pois o maior bem de um povo era valorizar o poder criador da vida e acreditar que esta se perpetuava em cada uma das estrelas vista no céu.

F I M

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