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INFORMAÇÕES    
Autor: Roberto Kiss.
Título: Primeira Diretriz
Publicação: 25/09/2006.
Publicação Original: 20/08/2000.
Categoria: Jornada nas Estrelas.
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JORNADA NAS ESTRELAS      
Primeira Diretriz.
Por: Roberto Kiss.

Imagem de Roberto Kiss.
Imagem de Roberto Kiss. Novela com trinta e quatro capítulos. Aguarde a página carregar.

Capítulo 1

Não há destino para seres vivos, não na concepção pura desta palavra. Mas, para qualquer objeto que esteja vagando pelo espaço, sendo movimentado e direcionado apenas pelas forças gravitacionais, sim.

No local em que um dia será batizado pelos seus colonizadores como T'hiram, Uma nebulosa composta por várias partículas está para se tornar um sistema planetário, com duas Estrelas, conforme o destino galáctico determinou.

Curiosamente, a que será a menor, já se ativou, lançando com o seu vento solar as partículas ao seu redor - em sua maioria de gelo - a distância. Estas partículas um dia irão causar mirabolantes espetáculos, condensados e aglutinados na forma de cometas, mas ainda é preciso esperar mais três bilhões de anos até que exista um olho para ver.

A estrela maior também já iniciou a sua ignição, mas, devido ao seu tamanho bem maior que a sua irmã, a luz e calor gerados pela sua fornalha nuclear ainda mal pode ser percebida. Suas reações internas a fazem se expandir, como ocorre com sua companheira, e, em breve - talvez umas míseras décadas - sua luz começará a iluminar as gotas minúsculas de material aglutinado que se tornarão os dezessete planetas deste sistema. Sete da estrela menor e dez da maior.

No meio deste berçário estelar, um objeto estranho começa a entrar em órbita mais afastada - na região em que ficarão as partículas varridas pelas estrelas - Quase chegou a ser um mero satélite de um planeta que estava se formando nas vizinhanças, mas a explosão de uma supernova o lançou em outra direção. Seu destino parece claro agora. Orbitando esta região, as partículas de gelo se aglutinarão ao seu redor, mascarando sua verdadeira essência, fazendo-o parecer e agir como um cometa.

Um bilhão de anos depois, ambas as estrelas estavam funcionando a pleno vapor, seus planetas estavam totalmente definidos e ainda recebiam as sementes que, caindo no planeta certo, deixariam o material necessário a formação da vida. Foi nesse mesmo período que a órbita do nosso agora cometa finalmente acumulou as perturbações necessárias dos três planetas gigantes e da estrela menor para iniciar a sua viagem magnífica!

Sua primeira passagem ao redor da estrela maior foi tão distante, que praticamente nada do seu diâmetro de oitenta quilômetros se alterou. Nem chegou a passar próximo de nenhum planeta, sendo que, devido a isso, pouco de sua órbita seria alterada na próxima passagem.

Quatrocentos mil anos depois, fez sua segunda translação. Desta vez, passou muito próximo da estrela menor, formando a maior cauda de cometa que já tinha surgido no universo, mas, como já foi dito, não havia olhos para ver.

Mais trezentos mil anos e ele fez uma nova investida. Desta vez, passou próximo a três planetas, todos já em franca formação. Os quatro menores próximos a estrela maior já eram claramente planetas que teriam composição de rocha, sendo que dois deles seriam um dia da classe M.

Foi preciso esperar seiscentos mil anos para que ele visitasse os planetas de novo. Um corpo passando próximo ao sistema alterou sua orbita, quando ele estava no seu ponto mais afastado. Ela ficou tão alongada que seu período de visitas que estava ficando cada vez mais freqüente, sofreu um grande atraso. Desta vez, ele passou a menos de cem mil quilômetros do quarto planeta. Sua nova órbita o faria visitar este planeta muitas vezes depois. Primeiro, a cada vinte mil anos, até chegar a ser de apenas seiscentos anos.

A cada passagem, o planeta mais e mais se alterava. Primeiro, sua coloração avermelhada, causada por rochas em estado líquido desapareceu. Depois, havia muitas nuvens cobrindo-o, escondendo de olhares curiosos, o milagre da criação que estava acontecendo nele.

Lentamente, o planeta revelava o seu destino. Agora, já era azul, com nuvens de chuva e oxigênio em abundância. Mas em sua penúltima passagem pelo planeta tudo estava diferente! Monóxido de carbono e radiação eram encontrados em sua atmosfera. O planeta foi colonizado por seres humanos, e estes humanos ainda iriam causar uma guerra que quase os aniquilaria.

Desde que a supernova o arremessou para este sistema, seu destino estava traçado. Agora, em sua última viagem em direção a estrela maior, o asteróide que estava usando roupas de cometa iria finalmente cumpri-lo. Colidir com o quarto planeta do sistema T'hiram.

Tirvik estava com a cara colada na janela do transporte. Olhava com grande ansiedade para todas as naves que estavam na doca, tentando imaginar qual delas ela iria comandar. Seus olhos brilhavam, e seu sorriso mostrando os seus dentes a faziam parecer como uma adolescente que está para sair com o seu primeiro namorado.

Ela não notava que o operador do transporte estava achando a sua postura muito... peculiar, para não dizer totalmente fora do normal!

- Pensei que só os machos vulcanos sofressem de Pon Farr.

Tirvik desgrudou da janela - ouviu-se um estalo quando suas mãos saíram do vidro - e olhou para a sua amiga e outrora capitã. Fez uma careta.

- Lisa, você já sabe qual é a sua nave. Já viu o registro, imagem e até já repassou a tripulação da ponte. Se não tivesse, aposto que estaria aqui disputando lugar comigo. É claro que estou excitada! O que esperava?

Lisa riu. Na verdade, estava achando mais divertido o desconforto que o operador do transporte estava sentindo, ao ouvir duas jovens capitãs conversando daquela forma.

- Mas o que você esta fazendo é inútil! Nem sabe se sua nave esta aqui na doca ou se chegará depois.

- Pensei que eu era a representante da raça prática aqui - disse contendo um riso.

- Melhor então os vulcanos mudarem de porta voz.

- O.k.! Reconheço que é difícil para mim conter minhas emoções. E no momento não quero!

Voltou a grudar na janela, observando as naves. Tinha várias. Incluindo um esqueleto inicial de uma nova classe, a Galaxy. Pela forma, seria uma nave imensa.

- Se lhe interessar, eu sei quais são as três naves que vão sair daqui nas próximas duas semanas...

Tirvik olhou para Lisa. Seu rosto demonstrava uma mistura de surpresa e raiva. Se ela sabia, por que não contou?

- Quais?

- Lamento. São dados confidenciais.

- Você já tem alguma prótese facial? - perguntou fechando o punho.

- Esta bem! É uma Ambassador, que vai ser a minha nave, uma Constelation e uma Miranda.

- Espero que seja a Constelation.

- Difícil saber. Você ficará quase um mês para analisar a ficha de serviço de seus oficiais e treinar no simulador para se adaptar a ponte de sua nave. Ou seja, não será nenhuma destas.

Tirvik pulou em cima dela e começou a lhe fazer cócegas.

- Tá bom! Desculpa... foi brincadeira.

Vendo que ela não estava disposta a parar, também começou a lhe fazer cócegas. Como se fossem duas irmãs brincando.

Para o operador do transporte, aquelas duas eram realmente peculiares.

****

Lisa saiu do transporte junto com Tirvik - ela ainda sentia um certo enjôo pelas cócegas - e seguiram juntas pelo corredor. Pelo menos, até a metade do caminho, ambas iriam na mesma direção.

- Tem tido notícias de Jevlack? - perguntou a Tirvik.

- Pelo que soube, ele ainda está fugindo do almirantado.

Realmente a frota queria deixa-lo de fora do comando de uma nave. Mas sabia que ele não seria dobrado. Andaram mais um pouco e chegaram ao destino de Lisa. Uma sala de reuniões onde lhe informariam dos detalhes da sua nave e tripulação, bem como o caráter inicial de sua primeira missão de três anos.

Abraçaram-se durante a despedida. Acabaram se tornando muito amigas durante aquela missão de treinamento que as levou a uma outra galáxia. Principalmente depois, durante o período em que aguardavam a escolha de suas naves para serem comandadas, aproveitaram a folga e andaram se divertindo em algumas estações não muito recomendadas pelo alto comando da frota para os seus oficiais, pois serviam cerveja romulana ilegal nos mesmos. Uma bebida deliciosa, pena ter a característica de causar amnésia.

Tirvik ainda queria saber onde diabos tinha arrumado aquela tatuagem - bom, pelo menos, parecia ser uma.

Olhou Tirvik seguir pelo corredor até ela desaparecer na curva. Sabia que provavelmente iriam se passar anos antes que se vissem de novo. Quase deu uma risada. Veio a sua mente o comentário que Jevlack fizera sobre os novos uniformes da frota. "As mulheres vão ficar bem mais elegantes assim, especialmente Tirvik".

Agora que viu Tirvik andando com o novo uniforme, entendeu o que ele quis dizer com "elegantes". Se bem que ela própria não devia estar muito atrás. Olhou-se no espelho que ficava ao lado da porta, posto lá sem dúvida para este objetivo - verificar o visual antes de uma reunião - e realmente o uniforme delineava bem as curvas femininas. Quem teria sido o desenhista?

Entrou na sala e cumprimentou o almirante Neves.

- Boa tarde capitã - ele cumprimentou de volta - acredito que esteja ansiosa para partir.

- Sim, mas eu sei que minha partida será em seis horas. Além disso, preciso conhecer bem o objetivo de minha missão.

- Certamente - ele sorriu - Capitã! Fico feliz em lhe informar que sua missão será de caráter exploratório.

Seus olhos se iluminaram. Naquele instante achou que seu rosto estava igual ao de Tirvik, quando estavam no transporte. Exploratório! Iria pesquisar novos mundos e estabelecer novos contatos. Era a nata das missões da frota, a qual todos os capitães e comandantes de naves sempre tentavam obter.

Claro que haveriam missões incômodas e até irritantes - como mapear nuvens de gás e certos assuntos diplomáticos - no meio da principal. Mas ela seria uma das poucas selecionadas para ir aonde ninguém esteve antes.

- Pode fechar a boca agora.

Ficou vermelha e muito envergonhada. E fechou a boca também.

- Desculpe.

- É compreensível. Você não esperava que a sua primeira missão tivesse este caráter. Ocorre que sua tripulação é de primeiríssima linha, e seria um desperdício não aproveita-la desde já.

Primeiríssima linha. Na verdade, era basicamente a mesma tripulação que trouxe a Starfleet de volta. Devido ao entrosamento que acabou surgindo, a frota decidiu mante-los juntos em mais uma missão. Companheirismo é um ponto de muito peso para missões exploratórias. Ela devia ter imaginado isso quando viu a relação de oficiais.

- Sua primeira tarefa é coletar dados de um sistema planetário recém descoberto pela USS Rosevelt, e fazer observações passivas do quarto planeta. Ele é habitado e foi decidido que o primeiro contato com esta cultura é proibido. Depois disso, deverá seguir o trajeto da sonda CGS-2251-305, fazendo um detalhamento maior dos sistemas que ela identificou.

Lisa pegou a prancheta e deu uma rápida lida no resumo. Haviam catorze sistemas, sendo que em dois deles haviam planetas classe M. Era serviço de sobra para os três anos. A análise deveria ser total. Tanto das estrelas como dos planetas. Haviam algumas nebulosas que poderiam ser analisadas, mas não eram prioridade. No total , eram dezesseis setores. Só para ela.

- Quer ver sua nave agora?

- Macaco gosta de banana?

- Como?

- Desculpe, é uma expressão de um amigo meu, sim, claro que quero ver a nave. Na verdade, já quero entrar nela.

- Então, me acompanhe. Há sim, o nome de sua nave é USS Xanth.

Como é que Jevlack consegue descobrir estas coisas? Pensou Lisa consigo ao perceber que o nome da nave era o mesmo que ele tinha dito quando se encontraram há uma semana.

O Scout desligou o motor de linearidade espacial e entrou na atmosfera do planeta. Depois de quinze minutos literalmente fritando na reentrada, o ar ao redor ficou denso o suficiente para que suas asas equilibrassem a nave.

Aproveitando a sua altura, direcionou-se para a sua base - o observatório Them'bim - uma verdadeira cidade científica no meio do local mais inóspito do planeta. Era cercado por um mar muito raso e de águas cristalinas - podia-se ver as dunas de areia no fundo. Infelizmente, o motivo da água ser assim era uma cicatriz deixada pela última guerra. Somente há quinze anos foi possível reintroduzir algumas espécies aquáticas de volta àquele ambiente.

Quando estava próximo - cerca de algun s quilômetros - ficou dando uma razante pela superfície. Podia-se ver claramente as dunas de areia pretas no meio das brancas e amareladas. Tudo conseqüência da poluição que estavam combatendo desde os últimos cem anos.

Entrou na cidade científica e pousou no hangar. Sua missão foi um completo sucesso. Conseguira trazer amostras da atmosfera do terceiro planeta da estrela menor de seu sistema.

Os últimos duzentos anos tinham sido muito difíceis para os habitantes de T'hiram Dorl - filho de T'hiram . Depois da guerra global que quase os levou a extinção, os sobreviventes se depararam com um mundo quase morto. Mais da metade deles cometeu suicídio. A outra metade ficou meio século invejando a outra já morta.

Graças a um líder forte e carismático, muitas coisas mudaram em sua cultura. A começar com fronteiras e base monetária. Ambas deixaram de existir. Lógico que não foi de uma hora para outra, e nem foi muito fácil se adaptar a uma cultura que prezava o trabalho unificado a troco apenas de ver o resultado bem feito. Mas, contra toda e qualquer expectativa, foi conseguido.

O atual líder estava montando duas frentes de objetivos:

Primeira: Recuperar o meio ambiente deles, serviço para quase meio milênio

Segunda: Explorar o seu sistema, em especial o terceiro planeta de T'hiram Marthk - Mulher de T'hiram - que parecia ter condições de suportar a vida como a deles.

Por mais precisos que fossem os seus telescópios, foi só quando reativaram os antigos Scout que sobraram da guerra global que puderam efetivamente fazer análises conclusivas e em primeira mão do planeta.

Até o momento, todas elas foram promissoras. Parecia realmente existir uma cobertura vegetal no planeta, assim como água em abundância. Mas ainda era preciso verificar que formas de vida poderiam ter se desenvolvido por lá, bem como descobrir se poderiam desenvolver vacinas para imuniza-los contra as prováveis doenças de lá. De qualquer forma, era um projeto para séculos.

Eles tinham seis destas naves em operação. Havia um projeto de construção de uma estação espacial que ficaria em órbita, de onde seriam construídas naves mais apropriadas para a exploração do sistema. Os cientistas acreditavam que se desenvolvessem uma poderosa fonte de energia, poderiam fazer com que o motor de linearidade espacial fizesse suas naves viajarem além da velocidade da luz. Atualmente alcançavam um quinto desta.

Até lá, mais naves do padrão Scout - sem as armas nucleares que carregavam outrora - estavam em construção. Das seis atualmente em operação, duas eram destinadas a explorar o terceiro planeta de T'hiram Marthk, que já tinha sido batizado de Hunfer Dorl - gêmeo do filho.

Das outras quatro, uma estava estudando a nuvem de partículas na periferia do sistema binário - de onde vinham os cometas - outra fazia mapeamento de asteróides que poderiam um dia vir a colidir contra o planeta, mais uma estava fazendo estudos na estrela T'hiram Marthk, e o ultimo foi destinado a acompanhar de perto a evolução de um novo cometa - o maior que já tinham detectado em toda a sua história - com cerca de setenta quilômetros de diâmetro.

No momento, este cometa estava passando pela estrela menor do sistema, e já dava um incrível espetáculo - sua cauda alcançava a órbita do segundo planeta da estrela menor, sendo possível ve-la até mesmo a olho nu, durante as primeiras horas do anoitecer - naquela época do ano, as duas estrelas ficavam quase que alinhadas do ponto de vista do planeta.

Cálculos demonstraram que o cometa iria em direção a estrela maior depois. E que iria passar até próximo ao planeta deles - nada que pudesse dar um susto, seria entre vinte e quarenta milhões de quilômetros - O Scout enviado para estuda-lo iria determinar sua massa com exatidão, e então o cálculo seria bem mais preciso.

Com muito cuidado, a esfera contendo a amostra de atmosfera foi posta em um tanque. Logo depois todo o ar deste tanque foi retirado, para evitar qualquer contaminação.

Todos os funcionários que retiraram a esfera e a colocaram no tanque rezaram em agradecimento a T'hiram. O deus cujo nome foi dado a estrela deles. É claro que todos sabiam que a estrela era um corpo celeste como muitos outros, mas a religião era poderosa. Esse era o motivo do planeta ter sido declarado como contato proibido pela frota. Existia uma lenda entre eles de que um dia T'hiram iria mandar seus anjos para defende-los de uma grande nuvem que iria ameaçar extinguir toda a vida de seu mundo. A frota não queria que eles fossem confundidos com estes supostos anjos.

Curiosamente, cometas formam uma grande nuvem quando se aproximam de uma estrela...

****

Capítulo 2

-Atenção!

Lisa saiu do transporte e entrou em sua nave, os oficiais estavam lá para recebe-la. Era uma tradição receber o capitão da nave assim. Depois de alguns minutos de apresentações, ela seguiu para o seu gabinete, checar todas as ordens antes da partida, dentro de algumas horas.

Um gabinete! Agora ela tinha um gabinete! Assim como na Thunderbold, a Xanth possuía um gabinete ligado a ponte. Totalmente vazio, claro. Nada de detalhes como quadros, hologramas ou qualquer coisa. Isso cabia a ela personalizar.

Lisa abriu sua pequena mochila, pegou os poucos objetos pessoais - incluindo um quadro com suas comendas e medalhas de mérito recebidas em sua carreira meteórica. Pegou também dois hologramas. Um era de Júpiter, um planeta que ela realmente adorava. Pos na sua escrivaninha, do lado esquerdo. O outro era da USS Starfleet. Apesar de todas as desgraças que sofreu durante a ultima missão de treinamento, tinha boas lembranças da nave. Tornara-se efetivamente capitã e conseguira bons amigos, em especial Tirvik. Colocou o projetor deste em um suporte na parede, ao lado da janela de onde agora se viam as outras naves da doca.

Ficaram quase dois anos de molho, sem dúvida uma espécie de punição pela corte marcial que o comando foi obrigado a suspender. Os registros da Defiant eram por demais comprometedores, e, não fosse por ela ter entrado na interface dimensional, ninguém jamais saberia.

Bom, não era hora de pensar no passado. Ela estava no comando de uma nave, com uma missão de caráter exploratório e deveria partir em quatro horas. Os oficiais da ponte chegariam nesse período - a nave que os estava trazendo se atrasou. Já conhecia alguns - foram também seus comandados quando estava na Starfleet - outros, eram completos desconhecidos.

Viu suas fichas, é verdade. A maioria pediu para servir na Xanth - sem dúvida quando alguém percebeu a quantidade de antropólogos, geólogos e outros ogos mais que compunham sua tripulação, foi imaginado que a nave seria usada para exploração, e notícias assim se espalham.

Sentou-se em sua mesa pela primeira vez e observou a sala. Bem simples. Talvez um abajur clássico ali no canto direito e um sofá ao lado fornecesse um ambiente mais acolhedor. Um quadro logo acima do sofá também não seria mal.

Balançou a cabeça. Teria tempo para isso depois. Acionou o monitor de sua mesa - este não se levantava - e começou a repassar a tripulação da ponte - pela décima vez neste mês.

Primeiro Oficial: Gidja Lodxer - ainda não sei como se lê isso - hospedeira de um trill. Era a primeira vez que iria travar conhecimento com esta estranha raça - ou seria melhor dizer raças? - de simbiontes. Pelo que soube de comentários com outros capitães e oficiais, eram de agradável convívio, porém, assim como os vulcanos, era difícil uma aproximação mais intima.

Oficial de Ciências: Doller, Henry G. Nunca soube que havia um "G" no nome dele. Será que era de Geraldo? Bom, ela o conhecia muito bem, havia recebido um elogio do almirante Stohl, era mais do que suficiente para saber que era de extrema competência. Mais a perspectiva que ela teve em primeira mão.

Nesse instante ela se lembrou de que devia uma caixa de cervejas para ele, devido a um jogo - quando ia aprender a não fazer apostas depois de beber? - que perdera vergonhosamente.

Navegador: Oshiro, Lanker. Ele tinha sido navegador da Thunderbold. Ficou quase seis meses em tratamento para recuperar a lesão de sua coluna vertebral e fraturas no crânio. Queria perguntar a ele o que o levou a pedir para servir na nave, ao invés de esperar que Jevlack assumisse um novo comando.

Armeiro: Diana, Silik, uma vulcana... ?!?! O armeiro - que ela tinha visto há alguns dias - era um Klingon de nome Kirther. O que teria acontecido? Diana tinha o posto de alferes na Starfleet e Jevlack a usou como oficial de ciências e armeiro, aproveitando a sua assustadora polivalência. Mas pelo que soube, ela iria servir com Tirvik.

Bom, era mais uma coisa para perguntar.

Um sinal lhe chamou a atenção de que alguém desejava entrar.

- Entre! - falou.

A porta se abriu. Era a sua Imediato. Era bem bonita. Percebeu as manchas em sua testa e na parte lateral de seus olhos.

- Imediato Lodxer se apresentando, capitã.

- Seja bem vinda a bordo- respondeu.

- Obrigada. Alguns oficiais também já chegaram. Estão vendo os seus aposentos.

Ela posicionou-se em frente a mesa e prosseguiu.

- Também trago ordens adicionais - ela lhe entregou um chip de memória - do comando da frota.

Lisa pegou o chip e fez uma cara de estranheza.

- Obrigada - respondeu.

- Gostaria de já assumir minhas funções, se não se importa.

- Certamente. Verifique a nossa carga de equipamentos de pesquisas. Temos muito material para levar. Aproveite e se familiarize com a nave.

- Sim, capitã.

- Pode ir - disse com um sorriso.

Ela sorriu de volta e saiu da sala.

Pegou o chip e começou a le-lo. Deveria passar no sistema de Antares depois de ter pego todo o material que ainda estava faltando na estação 37 e, juntamente com o seu, quer dizer, sua primeira oficial e o oficial de ciências, descer até a instalação de pesquisa baseada no planeta, apresentar-se ao cientista chefe e este daria mais instruções. Fechou os olhos e meditou um pouco. Era incomum. A capitã, a imediato e o oficial de ciências? Justamente as maiores patentes da nave deveriam descer?

"Peculiar" diria Tirvik. Por falar nisso, a esta altura ela já devia ter descoberto qual seria a sua nave. Será que ainda estava pulando de alegria? Foi até a pequena janela - onde ao lado já estava funcionando o holograma da Starfleet e observou atentamente as naves. Não teve que procurar muito, só havia uma nave daquela classe na estação. Estava um pouco adiante de uma nave de pesquisas, a USS Chagas - mais conhecida pelo pessoal da frota de USS "doença de" Chagas, mas isso é uma outra estória. Viu um transporte saindo da área de carga, sem dúvida a nova capitã da nave tinha acabado de chegar.

Feliz aniversário, Tirvik.

****

Gidja chegou a área de carga da nave e iniciou a conferência dos equipamentos. Tinha recebido o seu simbionte há algumas semanas e ainda não se adaptara completamente. Sentia conflitos de pensamentos e de emoções. Todos os hospedeiros anteriores haviam sido machos, ela era a primeira fêmea da sua vida, e sensações antagônicas ainda eram muito fortes.

"Começando pela instalação modular de pesquisas. Sistemas de suporte de vida, checado; Controle de gravidade artificial, checado; Shuttle de serviço, checado."

Ambos os seres se esforçavam para se conciliar, mas era difícil. Concentraram-se no trabalho, na verdade, o trabalho foi pedido justamente para auxiliar a desviar a atenção do problema. As memórias de Lodxer eram muito intensas, assim como as suas paixões antigas, e as emoções de Gidja eram um pouco mais fracas, e normalmente eram suplantadas. Isso gerava o conflito. Não estava ocorrendo uma simbiose, e sim um parasitismo. Ambos reconheciam isso. E, se não se ajustassem, teriam de ser separados.

"Comunicador de emergência, checado; Gerador de energia, checado; sintetizadores checado"

Mas isso era algo ainda a ser descoberto. Para tentar se adaptar a sua nova situação - incluindo o fato dos pensamentos de ambos ainda serem semi-independentes - Lodxer induzia Gidza a se aproximar de homens, para tentar entender o que realmente significa ser uma fêmea. Gidza entendia que ele tentava se entregar a sua condição, mas ele tinha que entender, antes de tudo, o que ela achava atraente em um homem. Muitas situações cômicas e constrangedores surgiram disto.

"Captador de frequências, a retirar na estação espacial 62; Ambulatório móvel, checado;"

Mas já tinha ajudado muito. Lodxer já estava quase que completamente adaptado as sensações que o corpo de uma fêmea proporcionava - na verdade, percebeu que eram muito mais prazerosos que o corpo de um macho - mas ainda não conseguia conter seus impulsos adquiridos com os outros hospedeiros machos. Uma fêmea - especialmente uma trill - não deve sair por ai cantando homens. Se bem que alguns são muito promissores.

"Casulo de fuga.... Onde está?"

Olhou ao redor, não o encontrou. Foi até uma das paredes onde existia um terminal e verificou onde estava a carga. Após alguns comandos, descobriu que ela chegaria em uma hora, pois ainda estava sendo revisada.

Nisso, um alferes saiu de trás de algumas caixas com uma pasta na mão - também devia estar conferindo algumas cargas - passou por ela, a comprimentou e saiu da área de carga. Quando ele passou, teve dois pensamentos ao mesmo tempo, um foi de abraça-lo e ou outro foi o de sentir-se abraçada por ele. Mas nem ela, nem seu simbionte souberam quem teve um pensamento e quem teve o outro. Parece que estavam finalmente começando a se fundir.

"Antena de recepção - será que ele faz parte da tripulação? - checado..."

****

Seu coração batia forte...

- Ligar motores!

- Motores ligados capitã.

Era difícil controlar a respiração...

- A frente, um quinto de força.

- Sim capitã.

Mal disfarçava seu sorriso...

- Comportas se abrindo capitã.

Na tela, as comportas da estação espacial se abriam lentamente, para permitir que sua nave saísse.

- Tudo verde capitã.

Relaxou. Finalmente o comando de sua própria nave. E que surpresa ao descobrir que nave era.

- Capitã! Estamos sendo contatados pela USS Xanth.

- Na tela.

A capitã Donner surgiu na tela, sorrindo para ela.

- Então capitã? Como se sente partindo antes de mim?

Tirvik sorriu.

- Sua sacana! Sabia que eu ia comandar a Rocama! Passamos do lado dela e não me disse nada! Nem disse que eu já a ia comandar para pegar o resto da tripulação na estação 32.

- Foi o meu presente de aniversário. Eu não esqueci não.

O aniversário dela seria amanhã. E tinha sido um belo presente. A USS Rocama era uma das poucas naves classe Miranda que ainda operavam, e, em sua última reforma recebera uma gama de novos equipamentos impressionantes, sem contar com quatro lançadores de torpedos - dois a frente e dois a ré, seis bancos phasers e dois disruptores potentes. Claro que "oficialmente" era uma nave encarregada de suporte a bases da Federação, e os lançadores eram apenas para lançar satélites. Na prática, era uma nave muito poderosa, mais do que a própria Xanth, que Lisa estava comandando. Seu verdadeiro objetivo seria o de levar equipamentos secretos de uma base para outra.

- Obrigada pelo presente, e boa sorte com a sua missão. Eu terei de acompanhar e dar suporte para pesquisadores em Antares.

- Que curioso, devo passar por lá também.

- Nesse caso, até breve.

- Capitã - interrompeu o imediato Matias - já saímos da estação.

Olhou para a tela.

- Até breve, capitã.

- A gente se vê - respondeu Lisa - só espero que não seja com uma tatuagem nova...

Tirvik ficou corada quando a comunicação foi cortada.

- Curso 2-7-3 marco 4, dobra 1.

- Pronto senhora.

Tirvik olhou para a tela, que agora mostrava o planeta Marte.

- Acionar.

A USS Rocama, comandada pela capitã Tirvik, iniciou a sua missão de quatro meses em Antares.

****

Lisa voltou a sua mesa - tinha assistido a partida da Rocama pela janela do seu gabinete - e solicitou ao computador uma situação sobre a tripulação e equipamentos. Em alguns segundos, o relatório surgia na tela. Ainda faltavam uns poucos equipamentos, mas a tripulação da nave já estava toda lá.

Desviou os olhos do monitor e ficou olhando para a porta da sala. Os oficiais já deviam estar todos na ponte, checando os sistemas e se familiarizando - entenda-se alterando - os controles digitalizados dos consoles. Talvez fosse bom ir até lá, dar uma palavrinha com eles. Mas ainda tinha tempo para isso. Então, o que iria fazer agora? Já tinha revisto a tripulação, as características da nave depois de sua reforma, e um monte de outras coisas menores. Não havia tempo antes da partida de se reunir com os oficiais para discutir sobre como fariam a exploração dos sistemas indicados.

;Felizmente, a sua nave - ainda - não iria ter famílias entre a tripulação. Teriam de adiar a sua partida em vários meses para instalar os diversos itens necessários - bem como redesenhar alguns decks - para acomoda-los. Entre estes, dois holodecks, que já iriam, a partir de então, integrar todas as naves novas e as que iriam ser reformadas.

Famílias e crianças em naves de missões longas... Como Jevlack iria encarar isso? Um sorriso malicioso se formou em seus lábios. Ela gostaria de poder ver isso.

O Sorriso ficou amargo, ela voltou a pensar em sua ociosidade do momento. Teria que ficar quase duas horas sentada, esquentando a cadeira exatamente como fazia quando era imediato do comodoro Brent.

Por mais que as coisas mudem, elas sempre ficam iguais!

Depois de longas duas horas - e vários cochilos - chegou a hora. Ela saiu do gabinete e foi até a ponte. Olhou ao redor. Doller, Oshiro, Diana... Todos em seus postos.

- Senhor Oshiro, como seu antigo capitão diria - sorriu - vamos embora.

- Sim capitã.

Sem esperar comandos, Oshiro navegou a nave para fora da estação, seguindo o caminho feito pela USS Rocama menos de duas horas antes. Programou um curso vertical em relação ao eixo do sistema solar - para sair mais rapidamente da área de limite de velocidade - e, vinte minutos depois, seguiu em dobra 8 para a estação espacial 62, onde iria pegar mais alguns cienti s tas e equipamentos. Depois seguira para Antares, onde - quem tinha planejado aquilo? - chegaria cerca de vinte minutos depois da USS Rocama.

****

Desgor revia suas anotações sobre o cometa. Desde que ele fora descoberto - há cerca de um ano - tinha demonstrado que todas as teorias acerca da composição, tamanho, velocidade e massa que tinham formulado até hoje tinham, no mínimo, subestimado os limites destes astros tão intrigantes, e ao mesmo tempo tão belos.

Olhou para o monitor, que mostrava a imagem que o scout enviado para acompanha-lo estava transmitindo. Ele ainda estava muito distante, e levaria mais algumas semanas para ficar próximo o bastante para as centenas de testes a serem feitos. Nas mesas ao lado, estavam os controladores da nave. Checavam a estrutura, sistemas, velocidade, motores.... cada peça que compunha a nave estava sobre monitoramento.

Apesar de poder atingir um quinto da velocidade da luz, ninguém queria força-lo a este limite. Afinal, estas naves ficaram quase duzentos anos largadas em um bunker que milagrosamente foi poupado durante a grande guerra.

Desgor cresceu ouvindo sobre a "grande vergonha" de seu povo. De como o mundo que habitavam virou um purgatório depois do holocausto atômico. 40% da superfície do planeta ainda era inabitável devido as altas doses da radiação, mas finalmente ficara comprovada uma esperança, na ultima reunião do conselho de T'hiram. Retirando-se uma camada de trinta centímetros de terra, estes locais teriam novamente condições de abrigar plantas e animais. O problema era onde jogar toda a terra retirada.

A construção dos novos scout foram suspensas. Em seu lugar seriam construídas gigantescas naves de carga, que deveriam unicamente carregar essa terra retirada, coloca-la em um containner espacial e retornar ao planeta para outra carga. O containner, quando completamente cheio - seria arremessado de encontro a sua estrela. O projeto previa a construção de cerca de oitenta mil destas naves, para que o serviço pudesse ser feito em apenas vinte anos.

Em outras palavras, a pesquisa de Hunfer Dorl seria reduzida ao mínimo. Tudo o que poderiam fazer seria apenas usar estas naves - ainda com controle remoto - para obter mais dados. Uma delas - a que tinha chegado com amostra da atmosfera do planeta - estava sendo preparada para fazer pousos verticais. Queriam agora uma amostra do solo, bem como milhares de imagens que as suas cameras iriam tirar.

- Desgor - chamou o seu colega - verifique o espectrômetro, acho que alguma coisa está errada.

Digitou alguns comandos e uma análise espectróscópica do cometa surgiu. Compreendeu imediatamente o que o seu colega queria dizer. A quantidade de partículas de ferro chegava a quase 20%. Nunca um cometa teve tal índice. No entanto, isso explicaria o porque deste cometa em particular estar demonstrando ter muito mais massa do que deveria.

- Hafrkir - chamou entre os operadores da nave - direcione o espectrômetro para T'hiram Marthk.

Um dos operadores anuiu com a cabeça e pos-se a fazer os comandos. Cerca de cento e trinta minutos depois - o tempo que o comando por rádio demorou para chegar até a nave mais o tempo da transmissão chegar de volta ao planeta - o espectroscópio começou a mostrar as análises da estrela menor do sistema. Tudo perfeitamente normal.

- Ou o cometa realmente tem tudo isso de ferro, ou uma nuvem deste material está entre a nave e ele - disse ao seu colega que tinha atentado para o fato - Teremos certeza depois que o scout se aproximar mais.

Seu colega voltou as suas próprias análises. Desgor estava encarregado de calcular a órbita do cometa - que teimava em não seguir as contas feitas. No entanto, até o momento, os desvios tinham sido mínimos, e dentro da tolerância. Só que sempre foram constantemente - e em um perfeito padrão - acima do esperado. Só uma massa maior justificava os outros planetas não o terem desviado como se calculara. A certeza final viria depois que ele passasse pela estrela menor. No entanto, analisando todos os dados de um ano para cá, ele fez as contas ao contrário. Conhecendo a órbita que ele já tinha traçado, calculou que sua massa era o dobro da prevista pelo seu tamanho. Era um absurdo!

A despeito disso, calculou tudo novamente, com a nova massa prevista pelos cálculos, e... sua órbita ficara perfeita. No último ciclo, acompanhou a evolução do cometa comparando com duas fórmulas, a antiga, feita com o que se conhecia sobre a sua provável massa e uma nova, usando o dobro de massa. Na antiga, ele continuava com o desvio, na nova, seguia precisamente a órbita prevista.

Em dois meses, ele passaria pela estrela e o seu curso em direção a T'hiram ficaria totalmente desvendado. Pela nova órbita, ele passaria bem mais próximo do planeta. Se isto se confirmasse, ele queria lançar uma das novas sondas contra ele.

****

Capítulo 3

Lisa chegou aos seus aposentos - só agora tinha se dado conta que nem ao menos vira como eles eram - já deixando Gidja - não ia chama-la de Lod-sei-lá-o-que e passar vergonha - assumindo o comando pela primeira vez.

Espaçoso e confortável. Tinha inclusive uma sala de estar conjugada ao refeitório. Um sintetizador de última geração - esse já podia fazer muitos mais alimentos sem precisar enganar o paladar humano - um monitor ao fundo para comunicações - um capitão não tem sossego - e o banheiro. A vontade de tomar uma ducha era forte, mas se o fizesse agora, não teria tempo de descansar um pouco.

- Computador, gim com tônica.

"Não é recomendada a ingestão de bebidas alcoólicas durante o turno ativo."

Não é aconselhável... mas quem foi o infeliz que programou isso? A frota estava exagerando nesta busca de eficiência das tripulações.

- Capitães não tem turno fixo, faça essa bebida agora.

"- Será registrado essa quebra das recomendações."

A bebida se materializou. Ela pegou e, de raiva, bebeu metade de uma vez. Quebra das recomendações! Vão para o inferno. Sentou-se na cama e ficou matutando sobre como dar personalidade àquele alojamento. Olhou para a janela, onde as luzes das estrelas eram distorcidas pela viagem pelo espaço. A sala era ampla, mas faltava uma mesinha ao centro para dar mais charme - e para colocar alguma coisa para se beliscar também.

Deitou-se um pouco para relaxar, colocando o copo em um criado mudo ao lado - nem tinha notado ele, ficaria ótimo com um vaso de flores vivas. Ainda estavam em território da Federação e chegariam em Antares em poucas horas - tinham de passar na estação 37 e pegar mais alguns equipamentos - e ela queria estar descansada antes de ter uma primeira reunião com os oficiais da nave.

Aquela ordem de passar em Antares a estava intrigando. Lembrou-se das palavras de Jevlack de uma semana antes. "Agora que você é capitã, cuidado com ordens estranhas, especialmente se tiverem um timbre 'D' como logotipo. Todas as naves que saem de Utopia acabam mais cedo ou mais tarde recebendo ordens assim, e como a sua nave, quase teve um histórico desses, nunca se sabe...". Bom, aquela ordem era estranha, mas não havia nenhum logotipo diferente do que conhecia, e esperava nunca ver um timbre daqueles.

O "quase" que ele tinha mencionado a tinha intrigado na ocasião. Pesquisando um pouco, ficou sabendo que a Xanth "quase" foi batizada como USS Atlantis, NCC-1025A, para, a exemplo da Enterprise e umas poucas outras, dar prosseguimento a uma tradição - que só a Frota deveria saber exatamente que tradição - prosseguindo com o nome da nave que tinha misteriosamente desaparecido há mais de dez anos. Aquele "quase" dele teria algo com isso?

Fechou os olhos e tirou aquele pensamento da cabeça. Preferiu pensar na sua tripulação. Sua primeira oficial - a única ilustre totalmente desconhecida do comando - parecia ser competente. Devia ter visto o histórico dela, mas não houve tempo. Podia faze-lo agora, mas estava com muita preguiça.

Pegou o copo com a bebida ao lado e o terminou. O calor do líquido passou pela garganta e se espalhou rapidamente pelo corpo todo, deixando-a mais relaxada. Fez uma nota mental: "A primeira coisa a fazer é retirar essa programação sobre bebidas do computador".

A nave era muito boa, especialmente porque ainda não tinha famílias e nem crianças. Qual teria sido o real motivo disso? Seria a missão em T'hiram? Ou aquela ordem estranha para passar em Antares?

Resolveu tirar um cochilo. Não haveriam emergências pelos próximos dias. Sua tripulação possuía poucos novatos e não seria necessário se preocupar em treina-los. Os chefes de pessoal já deviam estar fazendo isso. Dormiu em poucos minutos.

****

Vinte minutos tinham se passado e ninguém tinha dito uma sílaba. Gidja achou estranho aqueles humanos "tagarelas" não estarem cochichando ou jogando conversa fora enquanto deixavam a nave viajar tranqüilamente pelo espaço.

- Comandante - disse Oshiro - há um grupo de asteróides no caminho.

- Desvie deles, e retorne ao curso.

- Sim comandante.

Observou Oshiro fazer a programação. Muito rápido e seguro. Tinha muita experiência, com certeza. A tenente Diana - promovida a tenente em apenas dois anos depois de se formar - estava estática no seu posto. Não esperaria outra coisa de uma vulcana. O oficial de ciências Doller era o único que estava realmente interessado em fazer algo. Ficava sempre analisando dados em seu console.

- Algo útil, senhor Doller? - perguntou para tentar quebrar o silêncio - me parece estar atarefado.

- Estou apenas verificando a melhor forma de digitalizar o meu console, comandante. Ainda não estou satisfeito.

Sorriu. Ainda estavam em fase de adaptação. Olhou para o posto de oficial de comunicações, que ainda se encontrava vago - a capitã iria escolher alguém para ele entre os cadetes na primeira reunião - imaginando se ainda seria necessário este posto nas novas naves. As comunicações estavam muito fáceis de operar agora, os sistemas faziam tudo ao apertar de um botão. Talvez fosse o caso de acumular este cargo com algum outro, talvez o de segurança. Bom, daria esta sugestão depois.

Recostou-se. Esse período inicial da missão seria bem chato. Só teriam alguma atividade depois que chegassem ao primeiro sistema a ser mapeado.

Depois de mais alguns minutos - as pessoas do comando já estavam começando a ficar sonolentas - um sinal começou a soar no painel de comunicações.

- Deixe comigo - disse Doller que estava mais próximo. Ele pegou o fone e recebeu a mensagem.

- Comandante - disse ele após alguns momentos - devemos nos apressar para chegar na estação 62.

- Por que?

- Parece que ela vai ficar fechada para manutenção em breve. Acho que vão fazer uma grande reforma nela.

- Podemos chegar em quinze minutos em dobra máxima, comandante.

- Muito bem - disse ela - execute.

A capitã não vai gostar muito de ter seu descanso abreviado.

****

O engenheiro Anderson analisou os dados dos motores em dobra máxima e sorriu satisfeito. A nave era muito mais eficiente que a Thunderbold - claro que um reator 23% mais potente, mais do que justificava isso. Sentia-se ótimo! Era bom estar de volta a ativa.

"Reunião com os Oficiais em cinco minutos" - informou a voz da capitã pelo sistema de comunicação.

Pegou a sua prancheta com a primeira avaliação da turma de engenharia e dos motores. Aquela nova geração de equipamentos era muito boa. Pediu para o seu auxiliar assumir a engenharia enquanto ia para a primeira reunião de oficiais da USS Xanth.

Seguiu pelo corredor devagar. Aproveitou e lançou algumas "iscas" com algumas das mulheres que encontrava no caminho. Não eram bem cantadas, apenas uma conversa suave, sem compromisso algum. Claro que se algo surgisse daquilo...

Chegou a sala de reuniões e viu que lá já estavam Oshiro e Diana. Não tinha visto nenhum dos dois desde que a Thunderbold foi destruída.

- Oi Anderson - disse Oshiro - soube que assumiu bem como engenheiro chefe.

Ele apertou a mão dele com entusiasmo.

- Faço o que posso, uma pena que minha promoção tenha sido pela morte de meu superior.

Oshiro anuiu. Sabia do que ele estava falando.

- Saudações, senhor Anderson - disse Diana.

- Saudações - disse ele.

Diana era uma vulcana pura. Já tinha conhecido outras antes, mas, por alguma razão desconhecida, sentia que devia esperar mais dela. Alguma coisa mais emotiva, não sabia. Ignorou seus pensamentos e sentou-se em uma das cadeiras vagas. A frente de cada cadeira haviam consoles com comandos reduzidos, para acionar hologramas e imagens no monitor. Pegou a sua prancheta e a conectou - como Diana e Oshiro já tinham feito com as suas - ao seu console.

Em pouco tempo, chegaram a capitã, a imediato, o chefe de segurança, o encarregado de antropologia - que assim como Doller também era encarregado dos departamentos de ciências - e o médico chefe, uma pessoa tão jovem quanto a capitã. Todos se sentaram e aguardaram a capitã começar a falar. Ela ligou o monitor da mesa e deu uma rápida lida nos resumos antes de começar.

- Bom - começou ela de forma casual - quase todos aqui se conhecem, provavelmente o antigo capitão de vocês deve ter algo a ver com isso.

Ela olhou para todos com um sorriso irônico no rosto. Anderson sentiu-se um pouco ruborizado.

- Não importa, ainda. Como a maioria já se conhece, parece que eu terei que me adaptar, e não o contrário. E vejo que a eficiência desta tripulação é mesmo boa. Todos os relatórios feitos, todos os sistemas checados e ajustados. Todos já estão fazendo uma segunda verificação de rotina, e ainda nem terminamos o primeiro turno.

Ela pressionou um comando e apareceu a lista da pauta da reunião.

- Bem, ficaremos aqui na estação por mais meia hora, enquanto carregamos um... Anderson, o que é esse projetor de holograma?

Ele esperava por aquela pergunta mais cedo ou mais tarde. Uma das coisas que tinha aprendido foi a se antecipar aos pedidos dos superiores. Acionou a sua prancheta e um holograma do projetor surgiu.

- Bem - começou ele - essencialmente ele projeta hologramas perfeitos, incluindo cores, textura e, solidez, até uma distância de cinqüenta metros. Foi desenvolvido para oferecer a pesquisadores e antropólogos uma perfeita camuflagem durante estudos de civilizações consideradas ainda impróprias para um primeiro contato.

- Solidez? - perguntou a capitã.

- Sim, assim como no holodeck. São campos magnéticos como os escudos de nossa nave, que dão aparência sólida ao toque. Alias, nossa nave já tem espaço para a instalação de dois holodecks. Já fiz uma pesquisa e poderemos instala-los em menos de dois meses.

- Holodecks - murmurou a capitã - sim, ouvi falar deles lá na estação. Fui convidada para ver um mas acabei me esquecendo.

- Se estamos carregando um projetor destes - interveio Diana - acredito que ele será usado em T'hiram.

- Sim - confirmou o encarregado de antropologia se pronunciando pela primeira vez - instalaremos uma base de observação no planeta. A última sondagem feita pela Federação revelou que os habitantes são muito tecnológicos, mas possuem uma religiosidade muito incomum. Foi por isso que foi declarado de contato proibido.

- Voltemos a nossa pauta - cortou a capitã, obviamente descontente pelo rumo que a conversa tomou - Senhor Anderson, seu relatório indica que a nave está perfeita, e que seu pessoal está além das expectativas. Mas, ainda assim, o senhor quer antecipar algumas mudanças.

- Sim capitã - disse ele desligando o holograma que tinha acionado antes - como já comentei, gostaria de iniciar a instalação dos holodecks e configurar um upgrade nos sistemas de motores de dobra. Isso manteria a minha equipe trabalhando, uma vez que, agora, tudo o que eles tem a fazer são verificações de rotina.

- O senhor quer fazer uma semi reforma na nave durante a missão? - perguntou a capitã desconfiada.

- Isso era comum na Thunderbold - respondeu ele.

- É verdade - confirmou Oshiro.

A capitã sorriu. Não era para menos. Não estava acostumada aos chefes de seções ficarem atualizando suas áreas, aguardando apenas a um sinal verde do comandante.

- Não estamos na Thunderbold, e nunca mais estaremos - disse ela secamente e de forma imperativa. Depois que deixarmos T'hiram, conversaremos a respeito, no entanto, pode ocupar o seu pessoal planejando o tempo deste upgrade de sistemas.

- Sim capitã - respondeu contendo um pouco o seu alívio, ao ver que a capitã estava mostrando que quem mandava lá era ela, e isso era bom.

Havia o receio de que ela acabasse virando apenas uma pessoa que ocupa um posto, e não alguém que trabalha nele. Isso devido a quase todos na nave serem mais experientes e acostumados a pressões que - todos imaginavam isso - ela só tinha experimentado uma vez até então. Ela demonstrou um tremendo potencial quando teve que assumir o comando da USS Starfleet, e o motivo deles estarem ali era para que esse potencial fosse desenvolvido da forma correta, com o amparo e confiança da tripulação.

- Precisamos de alguém no painel de comunicações. Uma vez que o posto "Oficial de comunicações" está praticamente em extinção, alguém tem alguma sugestão?

- Eu acredito que seja mais prático acumular esta função com outra - disse a imediato - de cunho apropriado. Sugiro o chefe de segurança. Ele ficaria na ponte coordenando as comunicações da nave incluindo a segurança.

Anderson olhou o rosto do chefe de segurança, ele já o tinha visto na Thunderbold, mas não se lembrava de seu nome. Pela sua expressão, ele não devia ter sido consultado sobre essa possibilidade.

- Senhor Abramovich? - perguntou a capitã se dirigindo ao chefe de segurança.

- Bem - começou ele com uma voz forte de barítono, que não combinava em nada com a forma magra de seu corpo - creio que é uma questão de experimentarmos.

- Pois bem, já que Gidja deu a sugestão, eu a deixarei encarregada dos detalhes.

- Sim capitã - respondeu ela sorrindo.

Estranho, só agora estava notando que ela realmente era bonita.

- Senhor Lopez - ela se dirigiu ao chefe de antropologia - quer acrescentar algo antes de iniciarmos a discussão sobre a forma de procedermos em nossa missão especial em T'hiram?

- No momento não - respondeu - ainda não terminei de definir uma linha de ação para os departamentos de ciências da nave. Apenas quero ressaltar que esses departamentos são prioridade nessa missão exploratória.

Anderson não gostou da forma meio arrogante com que ele falou aquilo, Doller - o oficial de ciências, e, portando quem realmente mandava nestes departamentos - ficou controlado como um vulcano. Olhou para ele. Alto, uma pequena barriga - precisava faz e r um pouco de exercício - cabelos grisalhos e rugas ao redor dos olhos e na testa. Devia ter por volta de quarenta e cinco a cinqüenta anos. Tinhas traços sul americanos, mas seu sotaque era impecável. Não sabia se era mexicano ou de outro país latino.

- As prioridades serão definidas de acordo com a situação - disse Lodxer, aparentemente desconcertada pela capitã não ter dito nada.

- Sim comandante - disse ele.

Notou que Oshiro também não tinha gostado do señor Lopez.

- Então, todos os que não estarão diretamente envolvidos estão dispensados para o momento. Depois analisarei os seus relatórios, bem como essa montanha de pedidos para alterações. Mas já aviso que não vou permitir que esta nave se transforme em um canteiro de obras. Senhor Oshiro, depois que estivermos liberados, siga para Antares em dobra oito.

- Sim capitã.

Anderson pegou sua pranjeta e saiu, seguido de Oshiro e mais alguns outros, como o médico chefe. Depois se reuniriam na sala de recreações e conversariam mais tranqüilamente. Pelo horário estava chegando ao fim de seu turno. Achou melhor dar uma olhada na área de carga e verificar o funcionamento do projetor que já devia estar carregado.

****

Bertram era, antes de tudo, um incorrigível paquerador. Tinha acabado de conseguir um encontro logo mais com uma auxiliar de exobiologia assim que o turno acabasse.

Sendo um dos mais jovens oficiais médicos da frota, sentia-se a vontade na enfermaria, apesar de muitos de seus auxiliares serem pouca coisa mais jovem que ele.

Assim que deixou a reunião, retornou as suas culturas, para observar o andamento da reprodução daqueles microorganismos. Tinha começado a pesquisa antes de ser escalado para a Xanth, e a levou consigo a bordo. Qual não foi a sua surpresa ao descobrir que estavam todos mortos!

Inferno! Tinha se esquecido de desligar a luz que tinha usado para iluminar a cultura quando foi observa-la sobre o microscópio. Morreram devido ao calor gerado por ela. Três anos de pesquisa perdidos.

Sentia vontade de quebrar tudo ali. Mas era inútil. Podia começar tudo de novo, com as suas anotações seria fácil. Mas estava desanimado. Não era assim uma pesquisa essencial, mas podia chegar a algumas conclusões interessantes. Bom, melhor tirar isso da cabeça. Pegou as amostras agora inúteis e as jogou no desintegrador.

- Doutor o que houve?

Olhou para a enfermeira que o observava preocupada.

- Estou apenas me desfazendo de uma perda.

- Bom, tem um auxiliar de engenharia se queixando de dores nas costas.

Tinha começado. Era hora de ser médico e não pesquisador. Ainda achava que devia mudar de profissão, mas a chance de pesquisar clinicamente outras formas de vida ainda lhe chamava muito a atenção.

- Peça para ele entrar - disse com um suspiro.

Era um simples caso de desvio de coluna causado por postura incorreta ao carregar objetos pesados. Um relaxante muscular e duas horas de descanso curariam o problema. Claro que podia tirar a dor instantaneamente, mas acreditava em deixar o corpo curar a si mesmo.

Assim que dispensou o tripulante, ficou observando a prateleira com várias provetas vazias, ponderando se devia reiniciar sua pesquisa. Seu turno estava acabando, não era bom se atrasar em seu primeiro encontro naquela nave. Guardou todos os seus equipamentos e deixou o seu substituto em seu lugar. No dia seguinte iria ver a resposta da capitã sobre o checkup periódico entre a tripulação.

Fez uma rápida anotação em seu diário médico e olhou para a janela redonda, que mostrava o espaço. Agora via a estação se afastando. Já deviam ter pego os equipamentos finais e iriam prosseguir em sua missão.

Sentia-se só. Toda a sua família desaparecera misteriosamente em uma viagem rumo a uma colônia recém formada. Já fazia anos, mas a solidão persistia. Imaginava se algum dia descobriria o que tinha acontecido. Nenhuma nave enviada havia descoberto nada. A nave com mais de oito mil colonos simplesmente tinha se evaporado.

Não tinha posses, propriedades nem nada. Nem fotos ou outras lembranças, apenas sua memória. Limpou a sua mente e pensou no seu encontro logo mais. Pelo menos, por mais uma noite, poderia se esquecer do assunto.

Talvez...

****

- Nós três? - indagou Doller ao ouvir a capitã informar as ordens que a imediato tinha entregue antes da partida.

- Sim - confirmou ela - nós três. Ninguém mais.

Estavam apenas a capitã, o oficial de ciências e a imediato na sala agora, os outros já tinham sido dispensados.

- Parece uma daquelas ordens de cunho secreto - disse Gidja sem se aprofundar muito.

- Creio que não - tornou a capitã - não tinha o timbre correto para isso - ela sorriu.

- Um 'D' todo bonitinho? - perguntou sorrindo a imediato.

- Você conhece? - perguntou a capitã.

- Um outro hospedeiro conheceu - respondeu de forma casual.

- E o que é isso?

- Prefiro não comentar isso agora. Não me traz boas recordações.

Doller olhava de uma para outra. Parecia que sabiam o que falavam, só que ele não entendia nada.

- Se quiserem que eu saia, é só pedir.

Ambas riram.

- Desculpe Doller - disse Lisa - mas essa é a primeira vez que enfrento ordens secretas, e, confesso, não sei bem o que pensar. Como nossa imediata parece conhecer algo do assunto, acabei me esquecendo de você completamente. Gidja, estou lhe dando uma ordem. O que é esse 'D'? E algum dia podemos receber uma ordem assim?

A imediato ficou um pouco em silêncio.

- Esse 'D' é o símbolo de um departamento especial da Frota Estelar, e não, não acredito que um dia receberemos uma missão dele. A nave está repleta de tripulantes experientes, com exceção de seu comando, ou seja, nós. Não acredito que nos seria dada uma missão desse porte nesta situação. Parece-me que alguém mexeu os pauzinhos para que isso não fosse possível.

- Jevlack - murmurou a capitã - então foi por isso que ele jogou sua antiga tripulação aqui.

- Não conheço esse Jevlack - disse a imediato - mas se ele foi o responsável, então ele tirou das mãos deste departamento a melhor tripulação que podia existir atualmente para seus objetivos. E entregou na nossa mão, a nave que pode ser uma das mais eficientes da frota. Pelo que observei, eles gostam de agir por conta própria.

- Bom - disse a capitã, se recostando na cadeira - eu não gosto muito disso. Fica difícil coordenar tudo o que esta ocorrendo com todos querendo aperfeiçoar as suas áreas sem a visão do todo. Mas voltemos ao assunto. Em algumas horas, nós três teremos que descer em uma estação de pesquisas geológicas em Antares, onde receberemos instruções, instruções - frisou bem a palavra - adicionais. Isso não faz sentido e não gosto também.

- Bom capitã - começou Doller - é possível que queriam que façamos algo mais em T'hiram, além de deixar lá uma equipe camuflada de antropólogos para estudar aquela cultura, ou querem que façamos algum serviço científico para eles.

- Eu pensei nisso, mas não seria preciso ir a estação para isso. Além do mais, eles já terão uma nave só para eles, a USS Rocama. Não, há algo por trás disso.

- Talvez não - contrapôs Gidja - talvez queiram que façamos algo no caminho de nossa exploração, que exija algum tipo de sigilo, mas nada de missão secreta, e sim científica mesmo.

- Parece saber de alguma coisa - disse Doller estreitando os olhos.

Ele não a conhecia, e ela estava muito condescendente sobre essas ordens.

- E sei - disse ela sorrindo - A pesquisa em Antares é sobre as ruínas de uma civilização que foi encontrada lá, há uns sessenta anos.

- Não estou sabendo disso - espantou-se Doller.

- Ninguém sabe - ela sorriu - Antares fica muito próxima da Terra, é, como sabe, uma estrela em estágio final de sua existência, provavelmente englobou os planetas interiores durante a sua expansão. Mas uma das luas dos planetas mais afastados possuíam ruínas, ruínas que revelaram muita coisa, incluindo aspectos de muitas civilizações que existem hoje na área que a federação está localizada. A pesquisa exige sigilo, pois parece que há projetos de armas poderosas localizados.

- Como sabe disso?

- Meu simbionte existe há quatrocentos anos. Ele esteve lá em seu hospedeiro anterior.

- Por que não disse isso antes? - perguntou Lisa

- Não me ocorreu até agora. Não é fácil se lembrar de outras simbioses.

- Muito bem. Doller, creio que seu turno está encerrado, descanse um pouco. Gidja, já que você é quem tem mais informações sobre Antares, quero que compile um resumo sobre essa estrela até a nossa chegada, em quatro horas. A reunião está encerrada.

- Sim capitã - disseram ambos antes de se retirar.

****

Capítulo 4

Lopes olhava seriamente para o módulo de pesquisas que estava sendo cuidadosamente montado no hangar da nave. Seria teleportado inteiro para o local - que ainda seria escolhido - no planeta T'hiram. Em suas mãos, estava uma lista dos antropólogos que estavam baseados na nave, aos quais ele iria selecionar quatro para habitar aquele módulo pelos próximos anos.

Não era uma escolha fácil. Primeiro selecionou os mais experientes com idade máxima de quarenta anos, depois, filtrou os que poderiam sem problemas - com base em seu prontuário psiquiátrico - ficar em uma área restrita de vinte e cinco metros quadrados por no mínimo quatro anos. Ainda tinha seis candidatos. Tinha que tentar selecionar os já casados - para minimizar a sensação de isolamento - dentre eles. Já tinha dois, os outros não tinham nenhuma relação entre si. Aqueles dois poderiam ser os líderes, os outros poderiam ser substituídos a cada seis meses.

O módulo tinha três andares, o "térreo" era onde ficavam os alojamentos - apenas camas e um sintetizador, além dos equipamentos para higiene pessoal - o segundo tinha todos os equipamentos que necessitariam para fazer suas anotações e análises, no terceiro ficava o aparato para a camuflagem e poderosos captadores de sinais para perscrutar aquela civilização.

Na recente história de antropologia alienígena, esta seria a primeira vez que estariam "espiando" em um planeta com grande capacidade tecnológica. Nenhum outro planeta tinha sequer conhecimentos de eletricidade ou algo mais avançado que jogo de polias e engrenagens para multiplicar a força braçal.

Considerando o relato feito pela USS Rosevelt, era uma raça muito peculiar. Estavam se recuperando de um holocausto atômico e foi através de uma extrema posição religiosa que tinham sobrevivido até então. Não fosse uma das facetas dessa religião falar de anjos navegando pelo espaço, eles até teriam feito um primeiro contato.

Talvez o contato fosse possível - eles precisavam de muita ajuda naquele planeta - mas isso só seria conhecido depois de uma cuidadosa análise de sua cultura - o objetivo dessa missão. Na verdade, ele preferia que o primeiro contato fosse vetado definitivamente, e se seguisse a regra de esperar eles, por conta própria, iniciarem a exploração espacial fora de seu sistema. Queria acompanhar o esforço conjunto para recuperar o planeta.

Um satélite seria posto em um planeta afastado, onde ele e mais alguns cientistas ficariam para captar as transmissões do módulo e fazer análises mais acuradas dos dados coletados. Era uma solução extravagante, mas necessária para garantir que aquele povo não os descobrisse.

Os dois andares do módulo estavam prontos - não estavam um em cima do outro ainda, isso só seria feito com o teleporte - e agora os técnicos estavam começando a montar o terceiro. Viu Anderson sair de traz de alguns equipamentos, eram do projetor de hologramas. Ele devia estar fazendo uma verificação de rotina neste.

Abaixou sua prancheta e se lembrou da reunião. Aquela imediato! Quer dizer então que sua missão podia ficar em segundo plano? O único motivo da Xanth ter sido lançada com antecedência era justamente para a missão dele. Aquele planeta era a chance de sua vida. Poder estudar um povo a um passo de seu ingresso no espaço, que, assim como ocorreu com a Terra, está se recuperando de uma guerra global. Ninguém iria tirar isso dele, e ninguém iria interferir. Ele cuidaria disso pessoalmente.

****

Gidja terminou a seu lanche - uma salada de ervas dentro de um pedaço de pão - e ficou relaxando enquanto fazia a digestão. Estava a imaginar se fizera bem em comentar sobre o seu passado - ou melhor, o passado de seu simbionte - com a capitã. Bom, ela ia descobrir alguma coisa mais cedo ou mais tarde. Tinha outros problemas agora, especialmente porque aquele alferes bonitão de antes estava lá, a duas mesas de onde ela estava, conversando com alegria com seus colegas - duas moças e um rapaz.

Baixou os olhos. Uma das moças devia ser uma paquera ou namorada dele.

- Toc toc!

Ela olhou assustada na direção da voz. Era Oshiro.

- Que susto! - disse ela.

- Desculpe - seus olhos amendoados pareciam a de uma criança que percebeu ter feito uma gafe. Uma graça.

Ela não pode deixar de rir.

- Tudo bem. Quer se sentar?

- Pensei que não fosse convidar - disse ele - E lá vamos nós, em disparada rumo a mesa de uma bela dama!

Ela continuou rindo enquanto ele agia como se estivesse correndo e equilibrando precariamente duas cumbucas - ou seriam cuias? - em uma mão só. Sentou-se defronte a ela e num passe de mágica, surgiram dois palitos na sua mão direita. Com extrema maestria, ele começou a pegar uma grande porção de macarrão - era yaksoba, com certeza - de um dos potes.

Fazia de uma forma cômica, como se devorasse a comida. Após cerca de um minuto, metade da comida já tinha desaparecido. Ele levou os pauzinhos para o outro pote e fingiu que pegou alguma coisa viva lá.

- Tem que ser fresco, vê como ele tenta fugir?

Um pedaço finamente cortado de sashimi surgiu entre os palitos. Ele lhe ofereceu.

- É uma delícia!

- Não obrigada - disse sem conter o riso.

Ele o pôs na boca e mastigou com vontade, depois, engoliu e passou a mão na barriga.

- Gostoso!!! Nham!

- Você é sempre... divertido assim?

- Apenas quando estamos de folga, de serviço, em alerta vermelho e alerta amarelo. E quando nenhum dos anteriores ocorre - ele sorriu.

- Ou seja, sempre.

Ele ficou subitamente sério!

- Você me ofende! Acha que sou um palhaço nato - ele estava tão sério que ela acreditou que o tinha ofendido - quando estou dormindo não faço isso - sua cara se transformou novamente no sorriso.

- Maluco! - disse ela entrando na brincadeira.

- Para ingressar na frota, tem de ser. E a senhorita? Qual a sua desculpa? - ele ficou erguendo e abaixando as sobrancelhas por um longo tempo.

- Quer parar com a piadas? - disse ela ainda rindo - não consigo me concentrar.

- Desculpe - ele parou com a sessão de caricaturas. Pelo menos, por enquanto.

- Ufa! Bem, antes de receber meu simbionte, eu já tinha entrado para a frota. Já estava seguindo minha própria carreira.

- Já era imediato?

- Sim. Tinha acabado de ser promovida.

Ele abaixou os olhos um pouco. O rosto alegre ficou um pouco sério.

- Eu li um pouco sobre a sua raça. Sei que vivem uma vida dividida, e, uma vez que se unem a um simbionte, ficam com ele até a morte. Como é isso?

Ela pensou um pouco antes de responder.

- Na verdade, eu também não sei como dizer. Veja, eu compartilho minha vida com o meu hóspede há pouco tempo. E, bem, há algumas dificuldades iniciais nisso. Não somos "corpos" que os simbiontes "vestem". Temos emoções, determinações e personalidades próprias. Isso muitas vezes causa confusão no começo da simbiose. Claro que com o passar do tempo, há o assentamento de personalidades, de forma que nos tornamos um só.

- Para todos os efeitos, são uma única criatura.

- Sim. Vivemos, morremos, choramos, rimos, nos casamos. Tudo como um só.

- Interessante - disse ele distante - como eles se reproduzem?

- Vai ter que ler mais a respeito - disse ela sorrindo.

- Eu vou ler - desafiou ele.

Ela desviou o olhar por alguns instantes, observando a mesa e os potes de comida chinesa e japonesa destes.

- Bom, já sabe um pouco sobre mim, agora é a sua vez. Você é da região do Japão?

- Não exatamente - respondeu ele voltando a atacar a comida - Eu nasci no Laos, mas como meus pais se separaram, acabei sendo meio que posto de lado.

- Deve ter sido um infância triste - comentou ela solidária.

- Que nada, eu já tinha vinte anos quando aconteceu - olhou divertido para ela.

- Mas será que você sempre brinca?

Ele parou um pouco de comer.

- Desculpe - ele parecia estar sendo sincero agora - na verdade, devido a uma doença, minha mãe passou muito tempo internada. Vários anos, na verdade. Meu pai não tinha condições de cuidar de mim e eu fui criado pelos meus tios, que eram japoneses, pelo menos minha tia era. Mas a separação é verdade. Acho que depois de ficarem tanto tempo separados, se encontrando apenas nos fins de semana em um quarto no hospital, a paixão apagou-se de vez. Mas, como eu já estava bem crescidinho, encarei aquilo com uma certa naturalidade.

- Entendo - disse ela dois tons mais baixo que em uma conversação normal.

- Depois disso, comecei brincar com tudo, provavelmente para desviar a mente daquilo. Só que acho que me viciei nisso. E não paro mais.

Ele voltou a comer como um condenado. Ela limitou-se a sorrir e a balançar a cabeça de um lado para o outro. Depois de algum tempo voltou a olhar para o alferes na outra mesa. Imaginou-se nos braços dele. Ele acariciando seus cabelos, fazendo círculos nele...

- Ele está disponível - comentou.

Ela virou-se assustada.

- Sou tão transparente assim?

- Digamos... - ele sorriu de uma forma meio cruel - que sua boca estava eroticamente aberta enquanto o observava.

Ela ficou ruborizada.

- Ora, não se acanhe. Acho que é a primeira paixão que "vocês" encaram desde que se uniram, não?

- Bem, pondo desta forma, sim.

- Acho que não posso ajudar muito nisso, estou do lado errado da cerca. Mas converse com alguma amiga a respeito.

- No momento, ainda não tenho nenhuma a bordo.

- É, você é uma das poucas novatas nessa turma. Mas não se preocupe, somos como uma grande família.

- Percebi isso na reunião - ela olhou desconfiada para ele.

- Agora eu que pergunto se fomos tão transparentes assim.

- Vocês foram - agora foi a vez dela mostrar um sorriso malévolo.

- Bem - ele fez um bico com os lábios - teremos que pensar em outra coisa na próxima.

Ela viu as horas, sua folga estava acabando.

- Eu tenho que ir.

- Sem beijinho de despedida? - ele fez uma cara infantil e triste.

- Quer ser o primeiro a ser repreendido por mim? - perguntou ela séria.

- Eu ganho o beijinho assim?

- Não!

- Então, não quero.

Ela sorriu e saiu do refeitório. Durante o trajeto, percebeu que o alferes olhava para ela. Não pode evitar de se sentir envergonhada.

****

"Diário de bordo, data estelar 80789.4, a USS Xanth chegou ao sistema de Antares, uma gigante vermelha que já teve muitas semelhanças com o nosso Sol no passado, embora, no seu caso, ela termine sua existência em uma supernova. O oficial de ciências Doller, a Imediato Gidja, e eu mesma, nos teleportaremos para uma base situada em uma das luas daquele que é atualmente, o segundo planeta deste sistema. Como chegamos muito antes do esperado, devemos aguardar sermos contatados."

Lisa encerrou o diário e deu mais uma olhada na tela, podia ver que a USS Rocama ainda estava lá, orbitando a lua. Provavelmente Tirvik devia estar na estação, uma vez que não fizera nenhum contato. Voltou sua atenção para a sua prancheta eletrônica e deu uma nova lida no sumário que sua imediato tinha compilado.

Era muito interessante. Em 2192 uma nave de pesquisas que passava no sistema usou uma das luas do segundo planeta para aferir a calibragem de seus novos instrumentos, e, para surpresa geral, encontrou uma teia de túneis cerca de vinte quilômetros abaixo da superfície. Investigações posteriores revelaram que aquela lua era provavelmente um posto de pesquisas de uma raça hoje extinta.

Por questões de segurança, e por terem sido localizados muitos objetos de uso militar, declaram que a pesquisa no satélite seria altamente secreta, nada de abordagem arqueológica.

Ou seja: Muitos dos avanços da Federação provavelmente vieram dos achados nesta lua, o que a deixava mais curiosa: O que ela tinha a ver com isso? Olhou para a sua imediato, que acompanhava Doller em suas análises da grande lua. Levantou-se e a chamou.

- Gidja, por favor, venha ao meu gabinete.

Ela seguiu a capitã até a porta adjacente. Lisa se sentou a sua mesa - e se lembrou de que ainda não tinha obtido os apetrechos que queria para o gabinete.

- Sente-se - disse indicando o assento em frente a mesa.

Ela se sentou e ficou observando com curiosidade.

- Gidja - começou de uma forma meio insegura - quero que uma coisa fique bem clara: Eu sou a capitã desta nave, e cabe a mim responder pelo que cada membro da tripulação faz ou deixa de fazer. Pelo que pude apurar em sua ficha, em sua "outra vida", você com certeza deve ter feito parte de algum departamento secreto da Frota, pois há um registro Alpha 1 nela. Sei que deve manter silencio sobre certas coisas que viu ou fez, mas, não admitirei que omita algo que possa ser relevante para a segurança da nave ou da tripulação. Fui clara?

- Perfeitamente capitã.

Ela não demonstrava estar muito impressionada.

- Pois bem, você acredita que receberemos uma missão secreta de cunho unicamente científico, está correto?

- Sim senhora - limitou-se a dizer.

- Baseado em seu conhecimento, por que nós? Por que não a Rocama?

Ela sorriu.

- Provavelmente porque estaremos indo na direção certa, que deve ser um local ao qual a Rocama não pode ir sem chamar a atenção.

Chamar a atenção...

- A atenção de quem, propriamente?

- Capitã - começ o u ela com cuidado ao escolher as palavras - da mesma forma que a Frota possui departamentos de espionagem, outras potências também devem possuí-los. Espiões infiltrados na Federação em áreas políticas, científicas, sociais, etc. Eles ficam observando tudo o que é possível, e, no caso de algo estar fora de contexto, como uma nave designada para suporte para bases geológicas sem motivo aceitável sair de sua rota normal, seria imediatamente comunicado por estes espiões. Com certeza, naves camufladas - e me acredite, existem muitas que se mantém eternamente ocultas dentro de nosso território - iriam segui-la.

Lisa desviou o olhar de seu rosto e observou a sua mesa, pensando no que ela tinha dito.

- É provável que nós mesmos já estejamos sendo seguidos - prosseguiu ela - pois não deveríamos estar aqui em Antares.

- Isso já seria paranóia! - disse em um tom quase de descaso.

- Temos de ser paranóicos - Gidja esboçou um sorriso amarelo - temos de considerar que nossos oponentes tem em nosso meio, no mínimo a mesma estrutura que instalamos neles.

Lisa empertigou-se. A mesma estrutura...

- O Império Klingon, apesar de possuir uma aliança conosco, está sob estrita vigilância desde antes do incidente em Praxis. Na verdade, o departamento deles e o nosso, costumam fazer missões em conjunto do outro lado da fronteira Romulana.

- O.k.! Agradeço a sua sinceridade, mas confesso que já fiquei sabendo mais do que gostaria. Voltemos ao nosso caso. Essa missão que talvez tenhamos de executar, que riscos poderia incorrer para nós, além dos que eu já conheço?

- Capitã, acredito que já possua dados mais do suficientes para avaliar os riscos. Se uma nave nos seguir e perceber que estamos para obter alguma vantagem estratégica, o risco de sermos atacados de surpresa é muito real. Principalmente porque estaremos em território neutro.

Sim, ela tinha pensado nisso. E se preocupado muito. Estava preparada para situações de perigo, decorrentes de uma missão de exploração, mas não de uma missão assim. Talvez tivesse sido um pouco ingênua ao nunca cogitar que, ao comandar uma nave de exploração - que, estrito senso, era um cruzador de batalha - teria missões desagradáveis.

- Muito bem - disse lentamente, se conformando com a situação - acho que o fato de eu ter ficado antes em uma nave basicamente diplomática, me cegou para outras possibilidades. Vamos voltar para a ponte.

Ela anuiu, e a seguiu para fora do gabinete.

****

Seis horas depois, na sala de transporte da base de pesquisas geológicas situada na lua S2A2 do sistema Antares, três figuras se materializaram. Apesar de terem sido devidamente informados de que a gravidade do satélite era cerca de 20% superior a qual estavam acostumados, não puderam evitar de sentir um certo desequilíbrio.

- Sejam bem vindos - disse o operador de transporte.

- Obrigada - disse a capitã Donner - mas acho que deveria ter aceito a sugestão de vir com botas anti gravidade.

- Não se preocupem, vocês irão se acostumar com o excesso de peso em pouco tempo, se bem que não creio que fiquem o suficiente para isso.

Lisa olhou na direção da voz, e sorriu ao reconhecer Tirvik.

- Para você é fácil falar, tem uma constituição mais forte que a nossa - sorriu.

- Vantagem minha, venham, o chefe da estação está nos esperando.

Seguiram - cambaleando um pouco - Tirvik pelos corredores tunelados da base. Não parecia ser uma construção padrão da frota. Doller observava as paredes e aquele material era muito diferente do que conhecia. A iluminação também era estranha, parecia que vinha da parte de cima do túnel, mas não ofuscava a vista e realmente, não fosse pela sombra projetada, não seria capaz de determinar de onde vinha. Tocou a parede, e se surpreendeu ao notar que era morna. Provavelmente era ela quem mantinha a temperatura agradável da base.

Andou mais rápido para alcançar os outros - várias vezes, quase caiu ao chão - e, depois de exaustivos cem metros, chegaram a uma ampla sala com forma de aboboda. Ficou maravilhado! Da mesma forma que o túnel, a luz vinha de cima, mas não podia precisar a sua fonte, no centro, havia uma espécie de mesa circular, feita de pedra - ou um material muito similar - com uma cúpula de vidro, onde se via uma maquete de um tipo de cidade. Muitos outros túneis faziam ligação com esta sala.

Tirvik continuou andando, de forma que passaram ao lado da maquete. Ele deu uma boa olhada. Eram várias abóbodas ligadas por uma teia de cilindros - provavelmente a maquete de onde estavam. Mas era gigantesca, em uma avaliação, devia existir umas trezentas abóbodas, de vários tamanhos. Se aquela em que ele se encontrasse era do tamanho da maior destas, hum... qual seria o tamanho total daquele complexo? Talvez uns oito mil quilômetros quadrados. Decididamente aquilo não era construção da Federação. Seria daquela civilização extinta que Gidja tinha comentado?

Notou que havia uma textura diferente em algumas partes afastadas do centro. Sem brilho, como se indicassem inatividade ou algo inacabado. Olhou para frente e viu as três mulheres já entrando em um dos vários túneis.

- Queria saber aonde estou indo - murmurou.

Ele não percebeu, mas uma das pequenas abóbodas da maquete se iluminou subitamente. Era a que representava o seu destino final. Depois de andar mais cinco minutos - não é que Tirvik estava certa? Já estava se acostumando com a gravidade um pouco maior - chegaram ao destino. Uma pequena abóboda com uma mesa ao centro e um monte de equipamentos espalhados na circunferência desta. Só havia uma entrada para lá.

Um homem idoso, aparentando sessenta anos, se levantou da mesa para recebe-los.

- Lisa, este é o chefe Rollenberg, o encarregado de tudo isso aqui. Senhor Rollenberg, esta é a capitã Lisa Donner, da USS Xanth, que o senhor estava aguardando. O oficial de ciências Doller - indicou com a cabeça - e a imediato...

- Lodxer! - completou ele, com uma voz um pouco cansada, revelando uma idade maior que a aparente.

- Olá Roll. Acho que agora deve me considerar mais atraente - ela sorriu de forma sedutora.

Ele apenas riu um pouco. Então, ela realmente já tinha estado aqui, em seu hospedeiro anterior, e o encarregado com certeza o conhecia muito bem. Missões secretas, espionagem científica, quem sabe em o que mais ela já tinha se envolvido? E onde eles seriam envolvidos agora?

- Vejo que vocês já se conheciam - disse a capitã, omitindo que esta informação já era um conhecimento facilmente dedutível. Ao pensar nisso, cogitou que talvez estivesse conversando muito com Diana.

- Sim, bom, na verdade, eu conheci a antiga versão de Lodxer. Mas isso é um tempo que não retornará mais. Por favor, vamos para um local com mais espaço para conversarmos melhor.

Assim, a comitiva seguiu novamente pelo túnel. Doller notou que tanto o encarregado, como o operador de transportes, eram baixos e atarracados, provavelmente uma adaptação obtida ao viver naquele ambiente de gravidade consideravelmente maior.

Chegaram a mais uma aboboda, com uma mesa circular com espaço suficiente para oitenta pessoas se sentarem ao redor dela. A mesa era negra, mas não tinha nenhum brilho. Ao se sentar, um painel - só Deus sabe de onde tinha vindo - se iluminou bem a sua frente. O mesmo ocorreu com os outros ao se sentarem.

- Por favor, não mexam em nada - solicitou cordialmente o encarregado - eu explicarei o que for possível, mas já aviso que muitas de suas perguntas permanecerão sem resposta.

- Perfeitamente - respondeu a capitã de forma natural.

- Pois bem - começou ele - tudo o que eu vou contar aqui, deve ser mantido em sigilo absoluto. Mesmo o diário de bordo de sua nave, juntamente com os seus diários pessoais, não deverão conter nenhum registro disto. Na verdade, o diário de sua nave terá de ser modificado, mas falaremos nisso depois.

Percebeu que a capitã ficara desconfortável com aquela informação de "diário alterado".

- Este complexo, como já devem ter notado, não é criação da Federação, não sabemos quem o construiu, mas ele está operando sem nenhuma manutenção de nossa parte, por mais de cento e cinqüenta milhões de anos.

Doller deu um assobio.

- Como precisaram esta data? Se me permite perguntar.

- Bem - ele parecia feliz em contar aquilo - toda a área localizada até o momento, abrangia cerca de um sexto desta lua. Assim como a Terra, aqui também temos placas tectônicas, que sofrem de deriva continental. Depois que o complexo foi abandonado, essas placas, em sua lenta movimentação, o quebraram em vários pedaços. A parte central, sinto, está irremediavelmente destruída, a crosta em que ela se encontrava entrou debaixo de outra placa e com certeza foi esmagada e derretida na pressão e calor do manto do satélite. Calculando a velocidade com que estas placas se movimentam e a distância atual que os vários pedaços se encontram, chegamos a esse cálculo de tempo.

Lembrou-se da maquete e da cor diferenciada de várias partes desta, incluindo o centro. Talvez indicassem as partes que não mais podiam existir. Se fosse verdade, deveria existir alguma central para obter estes dados.

- Cada centímetro daqui se mantém por conta própria. Arrancamos com muito custo uma parte do teto de um dos túneis e, mesmo levando para uma estação de pesquisas a anos luz daqui, ela continuou funcionando e emitindo uma luz não ofuscante. Infelizmente, mesmo com décadas de pesquisa, descobrimos muito pouco. Não achamos nada que possa ser um computador, a não ser que aceitemos a teoria que tudo aqui faz parte de um. Na sala da maquete, se pensarmos em algum local, ele é indicado lá. Seja inferindo ou de forma especifica. Se quisermos saber a fonte de força daqui, toda a maquete se ilumina, se queremos conhecer a biblioteca ou coisa parecida, uma parte, que infelizmente não existe mais, também se ilumina. Claro que depois de algum tempo, tentamos descobrir que parte ainda existente poderia nos fornecer respostas.

Olhou para eles, pareciam estar muito interessados.

- Bem - ele fez um gesto abrangente com a mão direita - é aqui. Mas não conseguimos muita coisa. Acho que não sabemos ainda como perguntar. Mas há apenas umas poucas semanas, descobrimos algo bem interessante. Observem:

- Indique sondas enviadas na atual configuração da galáxia.

Por cima da mesa, milhares de pontos de luz se acenderam, como um holograma, mas de uma realidade absurda! Parecia que eram realmente estrelas. Pontos de cor azulada também surgiram, e setas apontavam para estes.

- Indique sondas que ainda existam. - completou ele.

Quase todos os pontos azuis sumiram, ficando apenas oito.

Doller notou duas coisas: aquele holograma estava em uma configuração que ele podia perceber muito bem, e que haviam dois pontos azuis em locais que lhe chamaram - e muito - a atenção.

- O sistema T'hiram e o adjacente - murmurou ele.

- Exato - exclamou Rollenberg - muito competente. Existem duas sondas exatamente na área em que vocês foram encarregados de explorar. Estas sondas ainda estão operando e possuem cerca de cento e cinqüenta milhões de anos de informações coletadas. Creio que agora já compreendem o porque de terem sido escolhidos para virem até aqui, e, principalmente, a necessidade de tanta segurança.

- Sim - disse a capitã - agora eu compreendo - ela se voltou para Gidja e sorriu quase que imperceptivelmente - compreendo muito bem.

- Bem, então estas são as suas instruções: Enquanto estiverem nos sistemas em questão, tentar localizar e obter estes satélites. Tomem - ele entregou um disco - aqui está a mais recente posição deles que obtivem os, bem como a aparência dos mesmos. Gostaria que deixassem o satélite de T'hiram apenas como missão secundária. Como já terão de fazer uma outra missão lá, é melhor não tentarem fazer coisas paralelas. Bom, é só isso.

- Falta o diário de bordo - lembrou a imediato.

- Sim - disse ele rindo - estou ficando velho, e ao contrário de você, não posso arrumar um corpo lindo como esse. Aqui - ele entregou outro disco - apenas transcreva o que está escrito aqui para o diário, nas datas estelares indicadas. Todo o resto que estiver registrado referente a este... encontro deve ser eliminado.

- E depois que obtivermos o satélite? - perguntou a capitã

- Não se preocupe - disse ele - mandaremos instruções adicionais. Apenas o localizem primeiro e depois transmitam em sinal codificado a descoberta.

- Entendido - disse a capitã.

- Bom, estou meio sem jeito para isso mas... dispensados.

Tirvik ficara em silêncio durante todo aquele tempo, na verdade, se ela não tivesse se levantado, nem perceberia que ela ainda estava lá. Qual seria a participação dela neste assunto?

****

Capítulo 5

Desgor andava pelas ruas da cidade científica, mal notando as construções circulares desta. Estava preocupado. Segundo recentes pesquisas climáticas, um Mart Kelar(*) estava se aproximando, bem na área em que a cidade estava localizada - seria a primeira desde que foi construída - e ele tinha muito o que fazer ainda. Uma solução simples seria transferir as fêmeas até que as condições voltassem ao normal, mas, segundo suas leis religiosas, é ofensa séria evitar intencionalmente a consagração divina para a continuação da raça.

Não era algo indesejável, ele queria um filho há muito tempo, mas questionava ter ocorrido justamente agora. O Scout iria estar na posição para obter dados do cometa justamente na noite para a qual ele tinha sido convocado. Só quatro dias depois ele poderia ve-los. Como seus colegas disseram, o cometa ainda estará lá depois que voltasse. Mas não era esse o seu temor.

Praticamente ninguém da cidade estaria fazendo outra coisa além de por as obrigações "naturais para a perpetuação da espécie" em dia, portanto, ninguém ficaria observando se o Scout estaria fazendo tudo certo ou não. Naqueles quatro dias, ele poderia muito bem colidir com o cometa, sem enviar nada de útil antes disso.

Havia uma outra saida, poderia simplesmente acelerar a nave e ela chegaria em metade do tempo. Era por isso, alias, que estava andando pelas ruas indo em direção ao prédio central. Seus colegas não fizeram objeção quanto a aceleração, mas solicitaram que ele fizesse o pedido ao encarregado da cidade.

Parou em frente a entrada e leu os escritos logo acima.

Sempre que lia aquilo, lembrava-se da "grande vergonha". Todo dia, ter de se lembrar que estavam lutando contra a extinção - que seus avós iniciaram - era muito depressivo. Entrou na construção com cerimônia e respeito - era a sede administrativa da cidade, mas também era um templo - e, cabisbaixo seguiu até o amplo salão. Apenas os ecos de seus passos eram ouvidos, reverberando nas paredes simples e nuas do edifício.

Ao chegar, ficou parado, esperando ser anunciado. Não teve de esperar muito, uma luz em uma porta distante se acendeu, e ele seguiu nesta direção.

Hetimer estava observando atentamente a representação gráfica do situação climática atual na tela de seu computador. As cores vermelhas indicavam as frentes quentes, as amareladas as frentes frias. As faixas rosadas eram onde estas frentes se encontravam, e, alí, em uma área livre e cercada por várias colisões destas frentes, estava a cidade científica.

- Só um momento, Desgor - disse ele, digitando alguma coisa.

Olhando os dedos dele pressionando as teclas, um pensamento de infância lhe retornou a mente. O fato de algumas pessoas - como ele - ainda possuírem cinco dedos em cada mão, ao passo que a maioria da população possuía normalmente quatro, ou, quando muito, um quinto dedo que se atrofiava e necessitava ser amputado.

- Muito bem - ele se voltou para ele - o que deseja?

Respirou fundo. Seria preciso uma longa conversa para justificar o seu pedido.

- Quero pedir uma mudança de cronograma.

****

Lopes estava impaciente na sala de transporte. Ficava andando ao redor, olhava os painéis, pedia café - a cada cinco minutos - ao sintetizador. Parecia que iria ter um colapso nervoso em breve.

"- Donner para Xanth, quatro para subir, acionar."

Quatro? Anderson estaria com eles?

O operador de transporte focalizou os sinais e iniciou o teleporte. Lopes jogou o seu copo de café fora e ajeitou a roupa. Nem bem a capitã surgiu - ou melhor, as capitãs, já que Tirvik era a quarta pessoa indicada - já a interpelou.

- Capitã, quero prestar um queixa formal para com o chefe de engenharia, o senhor Anderson, e também contra a senhora.

Ela olhou com surpresa para ele. Provavelmente fingindo não saber do que se tratava.

- Pode ser mais explícito? - perguntou ela erguendo ambas as sobrancelhas.

- Pois não - respondeu com um tom de extrema formalidade - O engenheiro Anderson relatou a senhora que o projetor de hologramas estava com um dos seus circuitos com defeito, e que, devido a isso, era prudente troca-lo. Um dos sistemas de perfuração de sondagem que a Rocama está levando para uma das bases, usa o mesmo tipo de circuito. Assim sendo, a senhora decidiu desviar-se um pouco do curso e vir até aqui, nos encontrarmos com a capitã Tirvik - olhou para ela - para obtermos esse circuito rapidamente de forma a não nos atrasarmos. Não questiono a sua decisão, mas confesso que me sinto ultrajado em não ter sido informado a respeito!

A capitã deu uma rápida olhada em Tirvik que estava mais atrás. Esta apenas ergueu um pouco as sobrancelhas, como se tivesse feito um sinal.

- Senhor Lopes - disse ela se virando novamente para ele - conversaremos sobre isso depois, no momento eu...

- Capitã... - interrompeu ele.

- NO MOMENTO - ela foi enérgica - tenho assuntos a tratar com a capitã Tirvik.

Ela saiu da sala seguida pelos outros, deixando-o em pé, fitando a porta automática com os olhos cheios de ódio. Aquilo não ia ficar assim.

Ficaram seis horas parados em órbita daquela lua. Depois, por puro acaso, quando foi procurar Anderson para inquiri-lo sobre as condições em que o projetor de hologramas se encontrava, soube por um dos auxiliares da manutenção, que ele estava na Rocama, procurando reparar um problema do projetor. Nenhum recado foi deixado para ele - ele tinha verificado antes - portanto, ele, o responsável direto pela missão, simplesmente fora ignorado.

Faria um relatório completo para a Frota, exigindo uma imediata retratação da parte dela por não seguir o protocolo. Sendo o único responsável pela missão de pesquisa em T'hiram, ao qual lutou e barganhou muito para conseguir apoio para faze-lo, foi um crime não ser informado.

Saiu da sala de transporte e seguiu para o seu escritório. Iria redigir a queixa imediatamente. Muitas pessoas em altos cargos da Frota lhe deviam favores, era hora de cobra-los. Ninguém iria interferir com a sua pesquisa. Sim, sua pesquisa! Ele a idealizou, ele a projetou, ele solicitou o desenvolvimento dos equipamentos necessários, ele quem conseguiu muitas inimizades com essa obsessão.

Por doze longos anos ele ficou inutilmente tentando convencer a divisão de pesquisas da Federação que observações antropológicas in loco eram definitivamente muito mais eficientes do que as análises frias feitas por um satélite, que apenas observava o âmbito geral e não captava os detalhes - como ritos de acasalamento, interações sociais, estrutura social - que os povos primitivos sem dúvida possuíam em alto grau de desenvolvimento e complexidade.

E ainda haviam aqueles imbecis que achavam que esse povos deviam ser deixados em paz, sem nenhum acompanhamento. Que tolice! A Federação tinha a obrigação de garantir que não fossem perturbados em seu desenvolvimento. Por isso, deviam observar e anotar tudo o que podiam, para registrar como eles evoluem, e se há um padrão universal nisto. Como enfrentavam situações difíceis - como fome, peste e desastres naturais - e como superavam, ou sucumbiam, a estas. As primeiras pesquisas revelaram que povos antes considerados de contato proibido, estavam na verdade, mais que aptos a faze-lo.

Agora, dez anos depois, não aceitaria nada que, por mais insignificante que fosse, causasse qualquer espécie de inconveniente a missão. A sua missão que, por motivos pessoais que no momento só ele conhecia, lhe era tão desejada!

****

- Vai logo me dizendo quais foram as ordens que andei dando sem saber!

Tirvik nem bem tinha entrado no alojamento de Lisa quando ela disparou aquela pergunta. Ela estava irritada, e com toda a razão. Interessante como sua perspicácia e capacidades de líder se elevavam quando ela se sentia assim. Desnecessário dizer que Gidja e Doller seguiram para os seus postos.

- Está tudo nesse diário de bordo nas suas mãos - disse calmamente apontando para o disco que ela ainda carregava.

Ela olhou para o disco e o jogou contra a parede. Felizmente, ele era projetado para suportar muitos tipos de impactos.

- Tirvik - ela apertou os lábios tentando se controlar.

Por um instante, parecia que tinha esquecido como articular as palavras, então, a surpresa.

"Em que lama eu acabei atolada?"

Sorriu. Era a primeira vez que recorria ao elo mental que compartilhavam. Aquele período em que andaram passeando pelas estrelas sem muita coisa para fazer a não ser se divertir, foi o bastante para um elo muito intimo acabar surgindo. Eram como que irmãs agora. Claro que Diana não compreendia isso muito bem, apesar de aceitar sem nenhum questionamento.

Convém ressaltar que o fato de Tirvik ser mais humana que vulcana, a incapacitava de manter uma sintonia de pensamentos, como ocorriam com os vulcanos puros e mestiços. Os pensamentos tinham de ser articulados serialmente, como se estivessem falando mesmo. Era algo bem eficiente para uma "humana com habilidades vulcanas", como a sua tia a chamava.

Não creio que seu alojamento esteja sob vigilância. "Respondeu" ela, enquanto tomava a liberdade de se sentar a mesinha para refeições.

"Fiquei muito paranóica nas últimas horas"

- Quer um café? - perguntou Lisa enquanto se sentava na sua frente, encarando-a fixamente.

- Sim, eu gostaria - respondeu sorrindo.

Até compreendo isso. Mas vai querer mesmo prosseguir com essa forma de comunicação?

- Computador, café sem açúcar e um capuccino.

"Até você me contar o que foi isso com Anderson"

Os copos se materializaram, Lisa pegou um seu café e entregou o capuccino a ela.

- Boa memória.

Pois bem, era preciso uma desculpa para a Xanth estar aqui. Oficialmente, Anderson descobriu um possível problema com o projetor, informou-a disso, e, após uma consulta com a Frota - que alias já está devidamente "registrada" - lhe informaram que minha nave possuía um circuito idêntico ao que era usado no projetor, e que seria mais rápido nos encontrarmos em Antares para obter a peça do que ir a uma estação e procurar um substituto. Tudo isso para o seu queridinho da sala de transportes não ser incomodado com atrasos.

- Que droga!

- Está falando do café? - tinha ficado em dúvida.

"Das duas coisas"

- Bom menina, é isso ai. Bem vinda a Frota Estelar. - levantou o seu capuccino, de forma a fazer um brinde.

Lisa fez uma careta e repetiu o gesto, com o seu café batendo no copo dela. Logo em seguida o bebeu.

"Onde está Anderson?"

Ela bebia enquanto "conversava"

Na minha nave, sendo devidamente instruído por Matias, que já sabe somente o que lhe interessa. Não se preocupe, ele já está acostumado com esse tipo de coisa e não irá comentar nada contigo.

"Não venha me dizer que isso era comum na Thunderbold, porque não agüento mais me falarem como eram as coisas por lá."

Ela riu bem alto.

Tudo bem, eu não digo.

"Ótimo, mas porque não falaram com o senhor todo poderoso Lopes?"

Não sei, mas pelo que percebi, ele é muito possessivo. Provavelmente seria um risco desnecessário envolve-lo nisto. Ele não tem que saber de nada, e quanto mais natural agir, no caso, essa irritação por ter sido deixado de lado, melhor.

Lisa terminou o seu café e olhou para ela.

- Não é você que vai ter que ouvir aquele chato pelas próximas semanas - ela estava tão irritada que nem percebeu estar falando com a boca, e não com a mente.

- Eu sei, mas você é a capitã. Mande ele calar a boca.

Ela levantou os olhos para o lado esquerdo, pensando profundamente na sugestão.

"Vou pensar no caso"

Havia mais uma coisa que era comum na Thunderbold, mas ela não estava disposta a encarar a reação de sua amiga ao descobrir isso.

E ela iria descobrir isso. Provavelmente em poucas semanas.

"Diário de bordo, data estelar 80790.3: depois de obter o circuito necessário ao correto funcionamento do projetor de hologramas, a USS Xanth segue em seu curso rumo ao sistema T'hiram. Segundo as projeções de nosso chefe de engenharia, poderemos manter a dobra 8.5 sem problemas durante as sete semanas necessárias para chegar ao destino. Enquanto isso, o oficial de ciências Doller está reunindo todos os dados que temos atualmente sobre o planeta para melhor definirmos o nosso plano de ação para a instalação da base de vigilância antropológica."

Lisa encerrou o diário com raiva, mas tinha recebido ordens de mentir. O que será que seria encontrado naqueles satélites?

Aperta esse aqui, aperta ali, ver a cor que fica, apertar de novo, ver os números, mais aqui, mais ali...

- Curso traçado comandante - disse Oshiro

- Acionar.

Aperta esse aqui e pronto.

A Xanth seguia tranqüilamente após a primeira parada para verificação de rotina nos sistemas.

A capitã estava em seu gabinete com Doller, e Gidja estava sentada no comando. Estava muito curioso sobre ela. Uma "mulher" com impulsos masculinos. Muito interessante...

O motivo real de sua curiosidade era a grande habilidade e experiência que pareciam emergir de quando em quando. Na primeira reunião, botou Lopes no seu lugar, e de forma muito sutil. E, agora, uma semana viajand o pelas estrelas, já pudera reunir outros dados.

Cobrava muito bem a tripulação, inspecionava pontos críticos pessoalmente e exigia muito. Sabia como liberar sua superiora de tarefas menores para que ela se preocupasse apenas em comandar a nave.

Só não entendia o porque as vezes de fazer comunicações sigilosas, assumindo o posto - que ainda não fora efetivado por Abramovich - de comunicações e fazendo transmissões em código. Depois se reunia com a capitã e ficavam as vezes horas conversando. Normalmente, Doller acabava sendo chamado depois.

Já tinha visto coisas assim antes, mas não para aquele trio, que mal se conheciam. Certo, Doller e a capitã já se conheciam, mas Gidja era nova naquilo.

Sinal de navegação. Olhou para o console e tentou identificar. Parecia ser um eco nos sensores. Examinou de novo e sumiu. Pensou um pouco. lembrou-se das palavras que seu antigo capitão sempre falava: "Qualquer suspeita informe o seu superior, é função dele decidir, não sua".

- Comandante, captei por alguns instantes um eco nos sensores navegacionais. Mas já sumiu.

Olhou para ela. Estava coçando o queixo pensativa.

- Diminua para dobra 6. Diana, observe os sensores atentamente.

- Sim capitã - responderam ambos.

- Estamos em dobra 6 agora.

Viu Diana usando os sensores de forma frenética. Era muito boa. Tentava várias formas de análise ao mesmo tempo, de forma a ganhar tempo.

- Nada - respondeu ela - nenhum sinal, reflexo, ou eco em parte alguma.

Ele sabia o porque de se agir assim . Se o eco que tinha captado era de uma nave os seguindo, uma desaceleração daquelas faria a suposta nave se aproximar um pouco, de forma que outro sinal qualquer seria percebido.

- Muito bem, retorne a dobra 8. Diana, fique de olho nos sensores.

- Entendido.

Mas era preciso ter muita experiência para isso. É verdade que o simbionte dela lhe fornecia esta experiência, mas onde ele a tinha conseguido? Ele teria feito parte da frota antes? Comandado uma nave? Bom, qualquer que fosse a resposta, o tempo iria fornece-la.

****

O holograma da lua, com um monte de informações, estava imponente na mesa de Lisa. Doller falava como se estivesse discursando para um leigo - o que era ótimo para ela - mas ela não sabia bem aonde ele queria chegar.

- O satélite tem talvez o dobro da idade de nosso sistema solar de origem, coisa de oito a dez bilhões de anos. Tem mais massa, é verdade, cerca de 20%, mas mesmo assim, teve o dobro de tempo para se esfriar. Sua crosta é muito mais espessa que a do nosso planeta, por isso, apesar de ainda existir deriva continental, como Rollenberg disse, ela esta em velocidade muito menor do que a que seria necessária para a marca de cento e cinquenta milhões de anos. Uma crosta grossa segura e muito a movimentação das placas continentais. Terremotos poderosos devem surgir, se bem que desde que o satélite foi descoberto, nenhum terremoto foi registrado, mas muitos pontos de pressão estão lá, aguardando uma falha. As partes do complexo que estão separadas, já estão estáveis há muito tempo, sem sinal de rupturas nos últimos trezentos milhões de anos.

- Sim, sim - disse ela - mas o que isso quer dizer?

- Capitã - ele sorriu, percebendo que tinha se deixado levar - aquela construção está lá há muito mais que meros milhões de anos. Provavelmente é da ordem de bilhões de anos, acredito que três bilhões é uma idade aceitável.

Ela arregalou os olhos. Uma ruína de três bilhões de anos?

- Tem certeza disso?

- Tenho certeza que passa de um bilhão. Nessa época, a estrela ainda não tinha se expandido. Provavelmente houve outras construções nos supostos planetas interiores, "engolidos" pela estrela. Dados que obtive de outras luas e do último planeta indicam que o sistema era habitado há muito tempo. A expansão da estrela "soprou" muita coisa dos planetas absorvidos para fora, cobrindo os outros.

Por que teriam mentido para ela? Que diferença faria dizer que a base tinha alguns milhões de anos ou alguns bilhões? Gidja deveria saber.

- Falou isso com a imediato?

- Não. Como a senhora pediu, fiz a pesquisa em segredo, usando apenas o que os nossos sensores conseguiram. Ainda preciso iniciar a análise das rochas que teleportamos as escondidas.

- Não com Lopes aqui - disse ela friamente - não quero aquele megalomaníaco achando que estamos usando os sistemas dele para nossas curiosidades pessoais. Ele entraria em contato com a frota e teríamos perguntas incômodas para responder.

- Sem dúvida - concordou ele - Isso quer dizer, que não podemos fazer mais nada pelas próximas semanas...

Mais um mês para tentar satisfazer suas "curiosidades".

- Avise os oficiais que quero uma reunião mais tarde com eles, depois do turno. E "esqueça" de comentar com Lopes a respeito. Dispensado.

- Sim capitã - disse sorrindo.

Doller levantou-se e saiu, deixando a capitã pensando em suas dúvidas.

"Tirvik!"

Aguardou, mas, provavelmente ela não poderia manter uma comunicação a distância em que se encontravam. Estava por conta própria agora, e totalmente no escuro.

Fora encarregada de explorar alguns sistemas novos descobertos por sondas; O primeiro sistema tem interesse especial para a frota, tanto que será - até onde sabia, era a primeira vez que fariam isso - instalada uma base oculta para antropólogos estudarem os nativos.

Teve de adulterar o diário de bordo e a enfiaram em uma missão secreta demais. Tanto que nem ela sabe direito o motivo desta. E sua missão, pelo menos o que se dignaram a lhe dizer, era apenas tentar localizar uma sonda que está na região que deve explorar, que possui vários milhões de anos de informações coletadas. Talvez bilhões, segundo Doller.

- Senhor Anderson!

"- Sim Capitã?"

- Venha ao meu gabinete.

"- A caminho."

Não tinha comentado nada com ele desde que saíram do sistema Antares. Provavelmente não seria necessário, mas ela não iria trabalhar assim, deixando seus oficiais na completa escuridão.

****

Ser segurança em uma nave estelar era como ser um soldado aquartelado em uma base, sem nenhum perigo de guerra a vista. Normalmente não havia muito o que fazer, exceto manter-se em forma e treinar, treinar, treinar e treinar. Como chefe de segurança, era função de Leybh Abramovich fazer estes treinamentos e manter seus subordinados em forma.

Agora, tinha outra função, cuidar das comunicações da nave. Pelo menos era útil. Podia comandar a segurança deste posto. Mas era em grupos avançados que a segurança era realmente utilizada. Investigar ruínas, verificar o terreno e proteger os oficiais era função dele.

Mas a situação que teria de enfrentar em T'hiram era diferente. Tinha que cuidar não só da segurança dos cientistas, mas também evitar que os nativos os descobrissem. Faltava ainda um mês para chegarem ao planeta, e tinham que determinar como proceder antes de chegarem lá. E isso era algo ao qual não estava acostumado.

Pela sua avaliação, seria preciso primeiro lançar um satélite para determinar o melhor local para a instalação da base, um que agradasse ao petulante Lopes e a ele também. Deveria ser possível fazer a instalação sem que ninguém percebesse. E, ninguém poderia detectar a nave nas redondezas.

A base seria teleportada inteira para dentro do interior de alguma rocha, e, ao mesmo tempo, essa rocha seria levada para a nave. Depois de tudo pronto, enviariam o pessoal selecionado e ai sim, partiriam para um planeta mais distante para a segunda parte: Instalar uma base em orbita deste. Uma base pequena, mas com grandes avanços.

Desligou sua prancheta eletrônica e esfregou os olhos. Estava cansado de tanto ler, corrigir, ler de novo e repassar tudo novamente. E, provavelmente, na reunião que decidiria efetivamente qual o rumo a tomar, iriam alterar tudo.

Levantou-se e foi se lavar. Enquanto lavava o rosto, novamente se perguntou o porque de quase todos naquela nave possuírem um registro de segurança ALPHA1 em suas fichas. E, o mais curioso: Não havia a menor indicação de qual seria a missão que tinha levado aquele "carimbo".

Com exceção da imediato, todos tiveram uma situação em comum, uma missão de treinamento de cadetes. Devia ser de lá esse registro. Provavelmente acharam alguma coisa ou alguma coisa os achou. Bom, não era sua função descobrir. Não ainda.

A ficha de Lopes era a mais perturbadora. Era obcecado, e se achava muito importante. Não se incomodaria de arriscar a nave por seus caprichos. "Assistir a uma civilização se recuperar da quase extinção." Era a versão oficial. Mas sabia que ele queria outra coisa além disso. Só gostaria de saber o que era antes que fosse demasiado tarde.

Passou a mão na face e percebeu que a barba já estava bem crescida. Decidiu se barbear novamente. Era uma característica de sua família, suas unhas e pelos cresciam um pouco mais rápido do que seria considerado "média" humana.

Tinha nascido em Israel, mas ficou pouco tempo em seu país natal. Seus pais logo se mudaram para uma colônia nova que estava sendo implantada em um planeta mais afastado. Eram um dos poucos judeus que compunham a população.

Eles nunca deram uma explicação aceitável para deixarem a Terra, e ele nem teve tempo de inquiri-los direito, pois, quando tinha feito 16 anos, eles se separam. Ele tinha ficado com a sua mãe, e nunca mais viu o seu pai outra vez.

Mais uma história triste no meio de tantas outras na nave. Mas não foi bem assim. Foi ela quem insistiu para que ele entrasse na frota. E foi ela quem deu o apoio necessário para isso. Ficara orgulhosa quando se formou, e satisfeita ao saber que a sua primeira missão o deixaria muito tempo incomunicável. Ela queria que ele ficasse totalmente independente. Só alguns anos depois soube o porque: Ela iria para outra colônia, começar vida nova, e queria fazer isso sozinha.

Bom, era direito dela, mas podia ter conversado com ele antes. Se bem que, da forma que ele pensava na época, não a deixaria sozinha. Ela era muito sábia. Só esperava ter herdado uma fração desta sabedoria.

Viu o resultado de sua higiene no espelho e sorriu satisfeito. O rosto estava completamente liso. Tinha pensado em deixar crescer o bigode, mas não tinha certeza se queria fazer isso ou não. Era muito mais fácil raspar ele do que cuidar do mesmo.

Decidiu fazer uma verificação de rotina no seu pessoal. Ainda havia muito pouco a ser feito naquele momento, mas certos pontos da nave precisam ser guardados para evitar que algum dos cientistas entrassem no mesmo por engano e causassem algum inconveniente. Além disso, no dia seguinte iria finalmente assumir o posto de comunicações. Seria bom dar uma treinada antes.

****

(*)-Espécie de cio que ocorre com as fêmeas naturais de T'hiram. Nesse período, os machos são selecionados por elas para catalisar uma quase insustentável necessidade sexual. Similar ao Pon Farr dos machos vulcanos, exceto que são eventos ambientais que o disparam, e não um período de tempo fixo. Ele pode ocorrer entre um período de dois a quatorze anos, em qualquer região cujas condições ambientais se mostrarem propícias. Apesar de eventualmente não existirem problemas que impeçam uma relação sexual fora do período, as fêmeas ficam férteis unicamente durante o Mart Kelar.

****

Capítulo 6

Era impressionante! Nenhum de seus antigos contatos sabia absolutamente nada sobre esse Lopes. Alguém que era tão obsessivo, arrogante, impertinente e com um monte de gente que o detestava não possuía nenhum dossiê no departamento? Ridículo. Os registros deviam ter sido retirados. Mas porque?

Gidja desligou o console e esticou as costas que doíam muito. Estivera sentada tentando descobrir algo sujo sobre Lopes nas últimas quatro horas. E não tinha conseguido nada.

Bom, nada concreto, era verdade. Mas um de seus amigos - um amigo de sua outra vida, alias - disse que já tinha feito algum arquivamento sobre ele. Algo sobre ele ter tentado evitar que uma cápsula com plasma fosse recuperada antes que atingisse um planeta de contato proibido. Ele teria dito algo sobre "Todos estamos sujeitos a fatalidades. Não temos o direito de impedir que outros povos as enfrentem".

Se aquilo fosse verdade, então ele simplesmente queria observar outros povos mais atrasados como meras cobaias de laboratório. Tinha que haver algo sobre isso no departamento.

Mas não tinha. Ninguém achou absolutamente nada. Como se tudo sobre ele tivesse sido simplesmente retirado.

Queima de arquivo.

Estremeceu ao pensar nisso. Ela própria, ou melhor, o seu simbionte, também tinha sido considerado assim. O conhecimento acumulado de sua outra vida era muito... constrangedor para o departamento.

Felizmente, agora estava segura. Ao menos por enquanto. Se tentassem alguma coisa, muitas informações comprometedoras cairiam em potências hostis. Além disso, parece que eles estavam ocupados com outra pessoa, que consideram muito mais perigosa.

Desligou seu terminal e levantou-se. Ao olhar para a cama, considerou a possibilidade de não dormir sozinha desta vez. Depois de algumas semanas no espaço, já tinha feito algumas amizades. Talvez já seja a hora de relaxar um pouco.

Saiu de seu aposento com esse pensamento na cabeça e foi direto para a área recreativa. Foi uma hora péssima para procurar companhia. Tirando a tenente Diana, jogando xadrez tridimensional contra o computador, não havia ninguém ali.

- Saudações - disse ela ao ve-la.

- Eu diria boa tarde. Gosta de jogar isso sozinha?

- Não. Mas aprecio o jogo. Infelizmente nenhum tripulante parece interessado em aceitar o meu desafio. Costumam dizer que enfrentar um vulcano no xadrez é o mesmo que enfrentar um klingon desarmado - sorriu levemente ao dizer aquilo.

- Nesse caso, acho que vou desafia-la. Mesmo porque, não tem mais ninguém aqui.

- Devo considerar então que sou uma mera "sobra"?

Gidja sentou-se ao lado dela, de forma que ficassem frente a frente e o tabuleiro do xadrez ao lado das duas.

- Acho que você se diverte e muito ao comentar coisas que nos fazem ficar constrangidos. Gosta que os outros fiquem falando "desculpe, não foi o que quis dizer"?

- Gosto que eles sejam diretos e francos. Mas peço perdão pelo meu comentário. Foi apenas uma frase para tentar... descontrair um pouco. Vulcanos possuem muitas dificuldades de relacionar-se com raças basicamente emocionais. Sabemos que senso de humor é necessário para solidificar companheirismo, mas não sabemos como faze-lo.

- Vocês não sabem como faze-lo sem perder o estrito controle de suas emoções - disse enquanto arrumava as peças do tabuleiro - pode começar.

- Sim - disse ela fazendo o primeiro movimento - é verdade. Acredito que este seu conhecimento seja um dado acumulado de suas simbioses anteriores.

- Adivinhou - ela deu a resposta a jogada dela - ou melhor, sua dedução é correta, embora não tenha sido necessário muita lógica. Como está se relacionando com a tripulação?

- Muito bem - disse ela enquanto movia as peças do jogo - mas acredito que minha experiência em relações de caráter um pouco mais intimo ainda necessite de mais aprendizado.

Ambas pararam de conversar ao fazerem uma rápida seqüência de jogadas.

- Vai a luta menina. Ou vai me dizer que na academia nunca flertou logicamente com algum humano? Sei que vulcanos não são celibatos, mas prezam a intimidade e discrição. Com certeza alguém aqui pode ser apto.

por cinco minutos, ficaram concentradas no jogo. Gidja aparentemente fazendo jogadas sem sentido direto e Diana avaliando as possibilidades e tentando armar algum estratagema.

- O que acha do senhor Anderson? - inquiriu ela ao mesmo tempo em que ameaçava a rainha.

- Então você está interessada - sorriu ao defender a rainha e ameaçar o cavalo na mesma jogada - Bom, ele é jovem, impulsivo e não parece propenso a compromisso. O ideal para uma vulcana jovem como você interessada na carreira.

- Sabe muito sobre minha psicologia - ela deixou o rei vulnerável.

- Sei pela sua ficha que você é filha de uma concubina, portanto, livre para fazer o que bem entender. Alias, pode me dizer o porque de seu nome ser humano? - ela ignorou o rei e expôs o bispo e a torre.

- Sim - ela decidiu tomar a torre - minha mãe era a concubina de um embaixador vulcano. Ficou grávida durante um período em que não foi possível retornar a Vulcan. Depois que os assuntos diplomáticos foram resolvidos, ambos, minha mãe e meu pai genético foram escoltados a Vulcan por uma imediato da frota. Por questões de segurança que não chegaram a me informar - Gidja tinha feito mais exposições de suas peças chave, e ela tinha aproveitado - seja como for, eles se atrasaram e minha mãe entrou em trabalho de parto dentro de um transporte, sem possibilidades de comunicações. Houve complicação no parto. A imediato ajudou e salvou a vida de minha mãe e a minha. Xeque!

Gidja escapou do xeque e deixou a rainha exposta para ser tomada pelo cavalo.

- Bem - prosseguiu Diana - minha mãe já tinha decidido dar-me um nome humano, já que eu tinha sido concebida na Terra. A imediato que nos salvou era humana. Assim recebi o nome dela. Parece que ela se tornou capitã algum tempo depois. Xeque!

- Chegou a falar com esta oficial depois? - ela novamente escapou do xeque.

- Não, ela e sua nave foram dados como desaparecidos uns quinze anos depois. Minha prima disse que ela desapareceu quando estava se tornando muito famosa. Foram os primeiros a explorar o quadrante Delta quando foi possível. Xeque!

Gidja olhou fixamente para ela.

- O nome desta imediato seria Diana O'Conell?

- Sim - respondeu demonstrando não entender a atitude dela - você a conheceu?

- Conheci sim - olhou para o crono na parede - estamos atrasadas, a capitã vai nos chamar a atenção - ela salvou o rei do xeque e exclamou - Xeque Mate! Eu devia ter apostado alguma coisa.

Diana observou, com o rosto incrédulo, o tabuleiro. Não podia conceber não ter percebido a jogada dela.

- Parabéns - disse sorrindo levemente - em todos os sentidos.

- É o meu trabalho - disse sorrindo igualmente.

Saiu da sala seguida por Diana. Descobriu algo mais sobre ela, mas não exatamente o que esperava. Queria saber sobre o seu pai, que não tinha registro. A pergunta sobre o seu nome foi um mero pretexto. No entanto, o nome dela, Diana, acabou sendo a informação mais útil. E inesperada. Diana O'Conell, quem diria! E ainda fazendo as vezes de enfermeira. Que mundo pequeno.

****

Olhando pela sacada de seu cômodo, as luas estavam lindas. Para Desgor, elas sempre ficavam lindas quando as noites tinham cerca de duas horas. Pensou no Scout que já se encontrava em posição. Em algumas horas poderia lançar as sondas para iniciar a análise. Mas sua preocupação sobre isso estava em franca decadência. Aquela noite era especial, ele iria fundir sua essência com a da sua companheira, permanentemente.

Nunca conseguiram descobrir o que realmente isso significava, mas, de alguma forma, as percepções dos casais que se uniam durante um Mart Kelar eram compartilhadas. Talvez eles possuíssem algum tipo de capacidade telepática, mas nunca ficou comprovado. E eles realmente não se importavam muito com isso. A sensação nunca pôde ser descrita. Sentir, perceber, captar a essência de seu par era uma graça de cunho divino, de tal forma, que o ato sexual em si era apenas uma mera representação física do que ocorria em suas almas.

Talvez fosse isso o que motivava a esta raça ser tão fiel para com os seus pares. Nunca houve sequer um caso de ciúmes registrado, de sorte que crimes passionais - assim como o próprio conceito desta palavra - eram desconhecidos. Infelizmente, nunca foi o bastante para evitar as guerras por ideologias.

Mas as guerras - por enquanto - se foram. As sete sub-raças diferentes estavam agora unidas pelo bem comum - só T'hiram saberia por quanto tempo - e a união entre elas, deixou de ser considerada como "união involutiva". Uma forma muito interessante de mascarar o racismo, que pela lei de T'hiram era terminantemente proibido.

Sua companheira era uma N'kimth - povo do gelo - caracterizada por uma pele levemente azulada - ainda não se sabia o motivo dessa cor - e pupilas ovaladas, similar aos felinos do planeta, que, embora não soubessem, tinham sido deixados lá pelos colonizadores originais há uns sessenta mil anos. Sua raça era chamada de Mhu'thur - sem rumo - pois até estabelecerem uma nação, nunca tinham ficado mais de seis anos no mesmo local.

Havia ainda os Larsktton, outro povo semi nômade, que tinha uma excelente adaptação ao deserto, os Cfer, que tinham a pele muito lisa e macia, provável adaptação devido a obterem o seu sustento do mar, com as próprias mãos. Eram excelentes nadadores e também podiam prender a respiração por dezessete minutos. Poderiam se tornar seres aquáticos, caso continuassem isolados e mantendo essa forma de sustento.

Cada uma das sete sub raças se manteve fiel ao seu "nicho" habitacional até a eclosão da primeira guerra, entre os N'kimth e os Larkstton. Como eles, que viviam em habitats tão diferentes acabaram se encontrando, e qual o motivo gerador da guerra, é algo que ficou perdido no tempo. Mas essa guerra acabou tendo reflexos direta ou indiretamente nos outros grupos.

Apesar de todas as diferenças, havia uma coisa em comum com todos. T'hiram. O mesmo nome, as mesmas leis, e, basicamente, as mesmas lendas para todas essas sub-raças e as diversas culturas entranhadas nestas. Portanto, algum fundo de verdade tinha que existir nisso.

Mas foi difícil convencer a maioria de que todos eram filhos de T'hiram, cada qual achava que o seu grupo era o verdadeiro "agraciado" por ele. Talvez tenha sido esse o motivo da guerra de todos contra todos. Uma guerra que durou cento e cinquenta anos. Por causa dela, e da necessidade enorme de obter vantagem estratégica, todos os grupos tiveram um desenvolvimento brutal. Passaram de habitantes a modeladores do planeta, construindo cidades enormes, e assim modificando o ambiente natural.

Os Cfer criaram os motores de lineraridade espacial, cujo projeto logo foi roubado pelos outros. Naves muito rápidas saiam da atmosfera e soltavam bombas termonucleares no outro extremo do planeta em poucos minutos. A guerra total durou apenas sete horas - uma para cada sub raça - e teve um resultado que tinha sido alertado uma geração antes. Vencedores? Nenhum. Vencidos? Todos.

Sem meios de se sustentarem sozinhos, os grupos começaram a morrer simplesmente. Os recursos necessários para garantir a sobrevivência de todos estavam espalhados pelos sete territórios. Foi quando o líder surgiu - ainda se questiona, de qual grupo ele seria - usando o bom senso - e um monte de meios de envergonha-los - conseguiu unificar os sobreviventes na grande tarefa de "devolver o que foi tomado". No caso, devolver ao planeta o que tinham tomado dele, durante aquela insanidade. O ambiente.

Cem anos se passaram, e os resultados agora começam a aparecer. Os n'mletts - uma espécie de anfíbio similar ao golfinho terrestre - voltaram a freqüentar as praias, e - como antes - novamente brincam com as crianças. O Mart Kelar está - devagar - recuperando sua freqüência e ritmo. Este que ele estava participando seria o primeiro de sua vida, e estava muito atrasado - quase sessenta anos. Como quase todas as espécies do planeta também se reproduziam durante esse evento, a sua insconstância desde a guerra causou muitas extinções. Extinções de seres muito necessários, que mantinham equilibrado o ambiente em que viviam.

Savanas viraram florestas, eliminando, por conseqüência, os animais que não se adaptaram. Essas novas florestas mudaram o padrão climático global, modificando inclusive, as monções, fazendo outras florestas, milenares, virarem desertos. Não foi a toa que o Mart Kelar, um evento periódico climático, ficou raro.

Sentiu a presença dela atrás de si. Tinha ouvido muito sobre essa sensação, de "sentir" a presença do par. Mas não imaginava que seria assim, tão serena. Simplesmente se sentiu feliz, e, ele sabia que ela estava lá. Como... bom, como rezava o ditado, para certas coisas não existe nada para exemplifica-las.

Ele não se virou, porque não deveria. Ela ainda não estava completamente preparada - terráqueos chamariam isso de "estar no clima". Continuou a observar a bela noite estrelada, coroada pelas luas. Ao mesmo tempo, percebia o que ela sentia, sua preparação, sua calma, seu amor. Era estranho sentir tais coisas e saber que não estavam provindo de si mesmo. Como se houvesse duas almas dentro de si. Mais estranho ainda era captar o reflexo de suas sensações nela. Um eco de si mesmo.

Eles estavam ligados. Não sabia como, muito menos o porque disso apenas ser possível durante o Mart Kelar, mas estavam ligados. Sabia o que ela precisava, sabia como acalma-la, dar-lhe força para enfrentar as dificuldades da existência. E nem precisava dizer nada. Como as gerações anteriores podiam sentir tal coisa e cometer a loucura de entrar em guerra? Ela pertencia a uma outra sub raça, com um princípio de adaptação para habitar as estepes gélidas de seu mundo. E, ainda assim, no fundo da alma, na verdade na superfície desta, eram o mesmo povo.

Virou-se e seguiu em sua direção. Naquele instante, esqueceu todos os seus pensamentos, suas angústias, suas alegrias. Não lhe interessava o que o Scout estava fazendo, não lhe interessava o passado, muito menos o futuro. Só o presente importava. Só o momento. Abraçou-a e beijaram-se longa e gentilmente.

Do lado de fora, as luas continuavam sua movimentação milenar ao redor do planeta, mais uma vez, presenciando silenciosamente uma das mais estranhas e desejadas peculiaridades daquele mundo. O Mart Kelar.

****

Lopes entrou de forma imponente no gabinete da capitã. Sentou-se sem ser convidado e ficou observando-a. Um sorriso quase imperceptível estampava-lhe o rosto.

- Pois não capitã? O que deseja falar?

Sua voz era suave e compreensiva. Muito macia. Ele tinha contatado o comando da frota e, movendo seus pauzinhos, conseguiu que um almirante qualquer ligasse para a Xanth e desse uma repreensão na capitã, sendo que esta deveria se desculpar com ele depois.

- Pouca coisa na verdade. Mas, nenhuma delas será um pedido de desculpas.

O rosto de Lopes se desmanchou em uma expressão de surpresa.

- Exatamente. Você andou ligando para o comando da frota apenas para satisfazer um suposto arranhão em seu ego ridículo. Pois bem. Este é meu ultimato: Você vai sair desta sala, não poderá acessar nenhuma área desta nave, exceto os permitidos para visitantes, e, caso deseje usar sua influência para fazer alguém me chamar a atenção de novo, eu desisto do comando e esta nave volta para a doca para a escolha de um novo capitão. Isso causará um pequeno atraso de meses em seu projetinho.

- Isso é um ultrage! Não tolerarei...

- Ótimo - gritou ela ao mesmo tempo em que se punha de pé, o rosto duro e controlado - vou dar a ordem de meia volta agora mesmo.

- Não pode fazer isso - seus olhos faiscavam, sua boca estava torta de raiva.

- Sou a capitã aqui - disse Lisa lentamente - eu mando e desmando. Você é um passageiro. Claro, tem muita influencia em locais certos, mas se esqueceu que, no momento, esta influência é inútil. Você depende de mim - enfatizou - para poder começar sua missão no prazo que deseja. Portanto, vá fazer seu serviço que eu garanto que ficarei longe de você o mais rápido possível.

Ficou calado. Não esperava por aquilo. Não fosse pela sua necessidade de estar em T'hiram em menos de duas semanas, concordaria no ato em voltar com a nave para trocar o capitão. Ela tinha razão. Precisava dela.

- Muito bem capitã. Irei me recolher a minha insignificância, mas eu lhe aviso...

- Cale a boca e suma daqui, antes que eu o ponha na prisão por afrontar um oficial da frota.

Seu corpo inteiro tremia. Mas controlou-se. Não valia a pena desperdiçar energia naquele momento. Levantou-se e saiu do gabinete sem olhar para tras. Em um ponto, ela tinha razão. Ela era a comandante, não ele. Mas, quando estivesse em sua base. Ai sim, mostraria a ela o que era autoridade.

****

O prognóstico era razoável, em seis dias era possível reconfigurar a programação dos motores de dobra. No entanto, a implementação demoraria algumas incômodas horas. Ou seja: A capitã só iria permitir isso quando estivessem parados em algum sistema, positivamente sem necessidades de usar os motores de dobra. Pelas suas contas, isso seria em quase dois meses.

Ainda havia a questão do gerador de força para o projetor de hologramas. O que foi originalmente desenvolvido para a base revelou-se fraco. Sua equipe estava agora construindo um painel auxiliar para duplicar a carga de cristais dilitium. Também era preciso projetar um novo reator de conversão, para dar conta do consumo adicional de energia.

- Alferes Dana!

Uma moça jovem, com seus vinte e dois anos virou-se para ele

- Sim?

- Como está indo o novo reator?

Ela chamou alguns dados em seu console.

- Deve estar pronto para os primeiros testes em dois dias.

Sorriu um pouco. Ela era uma das novatas na tripulação. Depois de alguns dias viajando no espaço e apenas enfrentando rotina, já era hora de mostrar-lhe um pouco de pressão.

- Quero o primeiro teste feito em oito horas.

- Oito... - ela estava de olhos arregalados - Oito horas? Tem certeza?

- Pensando bem, faça em seis. Se não conseguir, a cogitação de sua promoção será adiada em quatro meses.

Ela engoliu em seco.

- Sim senhor.

Ela estava desolada. E, com certeza, muito irritada.

Coitada! Era uma alferes com futuro promissor, mas seguia muito o manual. Planejava demais as tarefas com antecedência - o que era excelente - mas nunca cogitava a necessidade de se adiantar ou enfrentar o risco de fracassar. Ele sabia que um teste feito sem os devidos cuidados poderia danificar o reator, mas também sabia que tinha tempo de sobra para construir outro.

Desviou a mente daquilo e pensou na conversa que tivera há algumas horas com a capitã. Ainda tinha que achar um jeito de passar o pacote que recebera de Matias a bordo da Rocama para ela, de forma que não houvesse nenhum, registro disto. O único local possível seria nos aposentos dela. Mas como faria para ir até lá se despertar suspeitas?

Sorriu. Podia simplesmente bater na porta e entrar, falar o que precisasse e sair. Simples. A questão era explicar por que não tinha feito isso nas últimas semanas.

Além disso, ela queria que ele examinasse melhor alguns dados que Doller lhe forneceria no início do dia seguinte e entregar o relatório diretamente a ela. Bom, aí estava o hora propícia.

Ainda havia outro detalhe. Havia um pequeno fragmento que Matias tinha lhe dado. Disse para analisar e informar a capitã Donner. Muitos pequenos pedaços de um grande quebra cabeças estavam sendo apresentados, mas não tinha a menor idéia de onde eles levariam.

"- Engenheiro Anderson?"

Ele pressionou o seu comunicador.

- Aqui é o engenheiro Anderson, prossiga senhor Oshiro.

"- Estamos para encerrar o turno, que tal nos encontrarmos na área recreativa cinco?"

Só havia um motivo para fazer esse tipo de chamada: "que tal nos encontrarmos...". Mas não esperava que o mesmo ocorresse na Xanth em tão pouco tempo.

- Certo, estarei lá.

Nem tinha reparado que seu turno estava no fim. Alias, nestas primeiras semanas, quase sempre estendia-o. Sem dúvida estava muito animado a trabalhar. Nova tecnologia, novos conceitos, reunião com os estagiários para passar a sua experiência...

Uma maravilha! Recostou-se melhor e desligou o monitor. Queria gazetear um pouco. Sendo engenheiro chefe, tinha esse direito. Olhou ao redor e viu que a alferes Dana falava com um grupo de estagiários. Devia estar dando novas ordens, em vista de seu prazo agora muito apertado.

Realmente, um futuro promissor. Não questionara suas ordens, apesar de não ter gostado delas. Numa situação crítica, deve-se fazer o que é possível, se for capaz de agir a tempo, torna-se um sobrevivente. Ele era um destes. Claro que sua antiga superiora, Jeena, tinha muito a ver com isso. Mas ela não era mais uma sobrevivente, tornou-se uma casualidade.

Tantas coisas ocorreram desde então. Participou de uma convenção de novas tecnologias de motores de dobra e reatores; Novos conceitos de aproveitamento da anti-matéira, testes de novas fontes de energia, e, o famigerado motor de transdobra, uma promessa que ainda precisava ser cumprida.

Tinha aproveitado e desenhado o seu próprio reator, mas por ser extravagante demais, seus esquemas foram apenas arquivados. Muitos elogios, é verdade, mas nada de por em prática. Ainda seria preciso uma cuidadosa análise das conseqüências de se montar um gerador de força a base de dilitium e trilitium, de tal forma que um amplificasse a força do outro, sem o risco de uma explosão fenomenal.

Seu antigo capitão tinha se interessado muito por aquilo...

Levantou-se e saiu da engenharia. Ainda faltava alguns minutos, mas estava ansioso. Queria saber qual seria o tema da "reunião secreta" que fariam.

****

Diana acompanhou Oshiro até a área recreativa. Não seria a primeira vez que participaria de uma "análise não solicitada". Quando esteve na Thunderbold, foi convidada para duas destas. Os oficiais da ponte se reuniam durante os períodos de folga e trocavam informações sobre assuntos que chamavam a curiosidade. Nesse caso, o assunto era Antares.

Quando chegaram àquela lua, ela captou estranhas leituras nos sensores. Comunicou a imediato e esta disse para ignora-los. Um fato peculiar. Oshiro também tinha captado algo com seus instrumentos, Anderson seguiu sem nenhum motivo aparente para a Rocama, e os oficiais principais da nave desceram para o satélite natural do segundo planeta.

Fatos não comuns para uma missão de rotina.

- Quer um sanduíche? - perguntou Oshiro enquanto gentilmente puxava a sua cadeira para que ela se sentasse.

- Prefiro algo que seja visualmente mais substancial - respondeu ao se sentar.

Apesar de qualquer coisa que se pedisse ao sintetizador, vir com todas as necessidades alimentares para o sustento - o que permitia que se comesse virtualmente qualquer coisa sem medo de problemas alimentares - Ela apreciava alimentos de aparência também nutritiva.

- Muito bem, vou pensar em alguma coisa.

Ele se afastou e seguiu para o sintetizador. Enquanto aguardava, viu Anderson entrar. Desde que o revira na primeira reunião, não pôde deixar de considera-lo mais atraente do que se lembrava. Quando o conheceu, imaginou a possibilidade de um flerte sem compromisso. Mas a oportunidade nunca tinha ocorrido, e ele provavelmente não tinha experiência alguma em socialização com vulcanos.

Mas experiência sempre pode ser adquirida...

Oshiro voltou com um sanduíche de alguma coisa já mordido e pôs um prato de vegetais picados a sua frente. Realmente, era substancial.

Anderson se juntou a eles e a comprimentou de forma simples: Um sorriso e um erguer de sobrancelhas. Ela apenas maneou a cabeça em resposta. Era estranho, mas, mesmo sutilmente ele agia de uma forma que parecia exigir uma resposta emocional sua. Humanos!

- Bem, qual é o assunto? E por que Doller não está aqui?

- Doller está ocupado fazendo um serviço para a capitã, assim como Gidja. Não conhecemos nem Bertram e muito menos Abramovich, do contrário, os teríamos convidado também.

Ele os observou de forma desconfiada.

- Só nós tres?

- Sim - respondeu Diana - eu e o senhor Oshiro conversamos sobre o que detectamos com os nossos instrumentos quando estávamos em Antares. O resultado foi muito incomodo.

- Incomodo quanto?

- Positivamente - respondeu Diana - detectamos emanações esporádicas de energia que podem advir de naves camufladas, além disso, parece que o nosso computador principal sofreu uma interface não autorizada. Os comandos, por mais de trinta minutos, se mostraram lentos. Mas nada indicava a causa, e nenhuma análise revelou nada.

- Além disso, Doller, Gidja, e a capitã estão agindo muito secretamente, como se estivessem em alguma missão particular - completou Oshiro.

- E o senhor - tornou Diana - esteve na USS Rocama, sem ordens da capitã, pelo menos, não oficialmente. Também é assunto de nosso conhecimento de que não havia nada de errado com o projetor de hologramas, salvo a real descoberta de que o gerador de energia não tem a capacidade necessária.

Anderson encostou-se no espaldar da cadeira e olhou para o teto.

- Vocês tem razão, algo incomum está acontecendo. Tudo o que eu fiz na Rocama foi passar o tempo batendo papo com Matias e... - ele hesitou - fui instruído a endossar a história de defeito no gerador, além de ter que entregar um pacote para a capitã, e examinar um fragmento que ele me deu, informando também o resultado a capitã.

- Que pacote? - perguntou Oshiro.

- Ainda está no meu alojamento. Não achei momento propício para entregar a ela sem que alguma gravação interna do sistema de segurança captasse isso. É algo totalmente P.F.(*)da Frota.

- Entendo - disse Diana lentamente - e quanto ao fragmento? Fez alguma análise?

- Ainda não - respondeu - preciso surrupiar um tricorder para isso.

- Não por isso - Diana retirou de sua cintura o seu tricorder. Ela podia ser o armeiro da nave, mas uma vez vulcana... - isso basta?

Ele olhou para ambos.

- Muito bem, vamos comer algo e depois vamos continuar nossa conversa nos meus aposentos.

Diana começou a comer seus vegetais, Oshiro já tinha acabado com o seu sanduíche e seguiu com Anderson para pegar mais.

(*)Abreviação de "Por Fora"

****

Capítulo 7

O Mart Kelar se fora. Desgor sentia-se muito bem. Olhou da sacada o nascer da estrela T'hiram, a oeste. A leste a outra estrela aproximava-se do horizonte. Olhou para a sua companheira dormindo tranquilamente na cama. Não queria perturba-la. Ela teria de ficar em repouso por dois dias, enquanto seu corpo se estruturava e se preparava para alimentar a nova vida dentro de si.

Sorriu de uma forma infantil. Imaginava como seria "sentir" a presença de sua filha - ele sabia que era menina - no ventre dela.

Deixou seu cômodo e seguiu tranquilamente para o observatório. O Scout já devia ter alcançado o cometa e enviado uma primeira sonda. Os resultados já deviam estar bastante acumulados.

Chegando a sala, todos os seus colegas olhavam para as suas respectivas telas e freneticamente faziam confirmações ou consultavam dados antigos. Alguma coisa estranha devia estar acontecendo. Apressou-se até ao seu terminal e observou.

A primeira coisa que o assustou foi a densidade do cometa, identica a da água congelada, a segunda, foi o período de rotação deste. 45 minutos. Um corpo formado por gelo girando a tal velocidade deveria se desmanchar. Não poderia ter uma gravidade suficiente para se manter. Observou a gravidade calculada. 0,93 g.

0,93 g? a mesma gravidade do seu planeta? Em um corpo com apenas 60 km de diâmetro? Que loucura seria aquela? Acionou os comandos e reviu passo a passo o que a sonda teria enviado. Ficou observando ao redor enquanto os computadores coletavam as informações. Todos os outros estavam fazendo coisas similares, o que significava que todos encontraram coisas estranhas, senão impossíveis.

A tela mostrava agora todos os dados da sonda enviada. Tudo um absurdo. Devido a rotação extremamente rápida do núcleo do cometa, a sonda, em forma de prego, sofreu um violento solavanco, o que provavelmente teria afetado os seus instrumentos. Mas não poderia ter afetado a todos para que dados incorretos ficassem em acordo entre si.

- Isso está errado! O cometa não pode possuir tal gravidade.

Todos o observavam. Sabiam que ele devia estar certo, mas todos os dados indicavam que o cometa tinha uma gravidade quase igual a deles, na superfície do planeta.

Mas além dos dados dos instrumentos, haviam outras evidências disto. A gelo de sua superfície era compacto, coisa impossível para um astro com tão pouca massa. Devia ter a constituição de flocos de neve.

Desgor sabia que todos os dados coletados, direta ou indiretamente indicavam que a gravidade do cometa era muito grande. Mas para ele possuir massa suficiente para tanto, esta devia estar incrivelmente compactada, coisa possível apenas se houvesse algum buraco negro por perto.

E, se ele tivesse mesmo essa massa impossível, ele também desviaria os planetas dos quais se aproximou em sua trajetória. Não, apesar de todas as evidências, sua massa não era aquela. A explicação deveria ser outra.

É possível possuir uma gravidade tão grande com tão pouca massa? Não. Então, como? A sonda enviada para a superfície do cometa poderia ter sido danificada, mas claro que o dano não causaria tal mal funcionamento dos sistemas. O correto seria enviar outra. Se os dados da segunda fossem iguais aos da primeira, então ai sim, algo estava muito errado.

Mas como faria para explicar o impossível?

- Desgor!

Ele virou na direção da voz. Era R'chert

- Eu sei, está tudo maluco. Vou enviar outra sonda.

- Não é isso - ele estava um pouco perturbado - recalculei a trajetória do cometa depois que ele passou pela estrela menor - ele começou a ofegar - venha dar uma olhada.

Levantou-se e seguiu lentamente até a mesa dele. Os outros o observavam atentamente.

- Não há mais nada entre o cometa e T'hiram para mudar sua trajetória. Por favor, diga que eu errei.

Ele olhou atentamente. Viu os cálculos, viu os dados coletados. Começou a usar o console dele para refazer as contas. Estavam certas. Fez uma projeção - os dados eram de dois dias atrás - para avaliar onde o cometa estaria agora se as contas estivessem certas. Acessou depois os observatórios e os doze telescópios que estavam em órbita para que se posicionassem para determinar uma triangulação da posição deste.

Por longos minutos, um a um, os telescópios e observatórios forneciam o resultado. Um a um, eles informaram que o cometa estava exatamente onde as contas o previram.

Assim que o último telescópio fez a sua confirmação tenebrosa, ele levantou a cabeça para o teto e fechou firmemente os olhos.

- "Uma grande nuvem anunciará o fim de seu mundo..." - murmurou, recitando o armagedon de seu culto.

- "...irão descobrir com antecedência, mas sozinhos, nada poderão fazer..." complementou R'chert.

Desgor olhou para ele. Ele estava com uma expressão meio desolada, como se antevisse algo inevitável.

- Cometas formam grandes nuvens - disse para si mesmo.

Neste ponto todos na sala olhavam atentamente para ambos. Não entendendo, ou melhor, tentando se esforçar para não entender. Mas já tinham adivinhado. O cometa, um astro que forma uma grande nuvem quando se aproxima de uma estrela, estava em curso de colisão contra o planeta.

O tricorder de Diana foi de estrema utilidade. Já sabia o que estava analisando, mas não podia acreditar. Teve de consultar seus arquivos confidências para confirmar o que viu. Diana e Oshiro estavam a mesa, trocando informações sobre os dados que os instrumentos captaram.

Finalmente, achou o arquivo que queria. Trabalhava freneticamente em seu console obtendo informações. Já tinha realmente analisado um material similar, ou melhor, idêntico.

Comparava cada dado analisado pelo tricorder com o que tinha arquivo. Tudo se encaixava plenamente. Claro, o tricorder tinha limites. Não podia verificar certas coisas - como absorção de energia - mas tudo o que tinha conseguido era idêntico ao um outro material que tinha tido o privilégio de conhecer. Logo depois de ter certeza de que era realmente a mesma estrutura, a mesma tecnologia, e, acima de tudo, a mesma composição, ficou muito apreensivo. Aquela amostra que Matias tinha lhe dado, possuía micro reatores internos que geravam uma energia enorme. Mas - assim como o outro material que tinha analisado - não havia como saber qual era a fonte de força e de onde ela vinha.

- Senhor Anderson? Conseguiu alguma coisa?

Virou-se para Diana, que olhava para ele de forma inexpressiva.

- Sim. Sei exatamente que material é este. Mas não faz muito sentido.

- E o que é? - Oshiro também parou de verificar os dados e olhava para ele.

Respirou fundo antes de dizer. Ia ser uma notícia meio difícil de explicar.

- É, até aonde pude analisar, idêntico ao núcleo das próteses do capitão Jevlack.

- Mas as próteses dele não são vulcanas? - Diana estava claramente intrigada.

Ele tinha prometido guardar segredo. Mas a situação em si tornou isto impossível. Não devia ter falado aquilo, mas podia ser um conhecimento importante para a segurança da nave.

- Eu prometi guardar segredo, mas como já falei demais, tudo o que posso complementar é que o capitão já possuía aquelas próteses desde antes de seu acidente que o fez ficar congelado no tempo até ser encontrado por aquela nave vulcana.

Ela ficou um pouco pensativa.

- Esta amostra tem mais de dois bilhões de anos, pelo que me lembro de sua análise inicial. Isso nos dá três hipóteses:

  • Primeira: As próteses do capitão Jevlack possuem esta idade, o que é impossível, visto que os seres humanos surgiram há muito pouco tempo;
  • Segunda: a civilização que criou isto se extinguiu nesta época, e alguém compreendeu e instalou as próteses com tal tecnologia no capitão.
  • Terceira: tal civilização não se extinguiu porém ficou estagnada tecnologicamente. E a utilizou nas próteses dele.

- Anderson - disse Oshiro entrando na conversa - por acaso você analisou a idade provável das próteses do capitão Jevlack?

- Sim - respondeu simplesmente.

- E qual foi o resultado? - Perguntou Diana visivelmente curiosa.

- Baseado nos nossos parâmetros de medida, Entre quinze e dezoito mil anos.

Oshiro soltou um assobio.

- Tem consciência das implicações desta informação? - perguntou Diana.

- Se tenho? Já as imaginava desde o dia em que fiz essa descoberta. A mais simples é que Jevlack talvez nunca tenha sido humano. O pior é que talvez nem ele imagine isto.

- Acredito que já tenhamos ido muito longe em nossas pesquisas. A capitã Donner necessita conhecer nossos resultados. - concluiu Diana.

- Sim - concordou - talvez seja hora de avisa-la. Mas ainda seria bom entregar a ela o disco antes.

O sinal fez todos se virarem em direção a porta. Anderson disse "entre". A porta se abriu revelando a feição alta e estreia de Abramovich.

- Sim? - perguntou Oshiro de forma jocosa - estávamos no meio de nosso planejamento para um golpe de estado. - Sorriu.

- Pensei que estavam analisando o fragmento que Anderson trouxe - disse sorrindo - Volto mais tarde.

- O QUE? - Gritou Oshiro.

- Calma - Anderson tentou tranquiliza-lo - ele está do nosso lado.

- Como sabe?

- Matias me disse. Mas não pensei que ele já iria se revelar.

Diana e Oshiro se entreolharam. Esses pequenos mistérios surgindo já estavam ficando monótonos.

- Bom, não nos deixe nos suspence. Que história é essa de "nosso lado"?

Abramovich se sentou.

- Bem, assim como vocês, o capitão Jevlack já foi meu superior. Ele comandava a USS Danúbio na época. Eu era um alferes então.

Fez uma pausa para tomar fôlego. Um grande fôlego...

- Indo direto ao ponto, Jevlack acha que um dos departamentos da Frota, pode estar de olho em vocês. Em todos vocês. Ele não me disse bem o porque, mas teria algo a ver com os registros de uma nave dada como desaparecida que vocês recuperaram.

- A Defiant - murmurou Diana.

- Não sei, ele não me disse de que nave seria. Mas ele deu um jeito de eu e Diana virmos para cá - Diana o olhou interrogativamente - Eu, por conhecer algo deste departamento, já que a Danúbio encontrou o seu fim quando cruzou uma operação deste. E, Diana, simplesmente para que não viesse a ser requisitada por ele.

- Que departamento é esse?

- Eu não sei como é chamado, mas ele está envolvido em todo e qualquer serviço de inteligência da Frota, pois é responsabilidade dele obter informações. De qualquer potência que seja conhecida ou não pela frota. Possui naves "fantoches" que, quando não são usadas para missões de espionagem ou de cobertura, operam normalmente em missões padrões da Frota.

- Não me parece algo fora do comum - disse Diana - é até natural termos um departamento destes, mesmo com nossa política aberta pacifista.

- Infelizmente, ele possui muita autonomia. Além de simplesmente obter informações, ele também cuida para que outras não sejam conhecidas, mesmo que isto implique em... "remover" a origem da informação. Existem algumas que podem simplesmente dissolver a Federação, ou pior, gerar uma guerra interna.

Ficaram calados, digerindo as palavras dele.

- A política da Frota não é mais essa, mas, por conta dos podres do passado, esse departamento continua por ai, embora bem menos ativo que antes. Seu ápice foi na época em que os Klingons eram inimigos. Pelo que Jevlack me disse, havia uma operação em andamento em Praxis, na mesmo época em que ele foi destruído.

- Eles destruíram aquela lua? - perguntou Anderson.

- Provavelmente não - respondeu - Não intencionalmente, mas suspeita-se de que os espiões lá infiltrados mexeram onde não deviam, e então... cabum! Não que a verdade realmente importe, o que importa é o que o núcleo do departamento acredita. O comando da Frota não sabe dessa suspeita.

- Mas o que eles podem querer conosco? - interrompeu Anderson, querendo não levar aquela conversa adiante - Alias, por que acha que eles podem estar nos vigiando?

- Captaram algum sinal que poderia ser de naves camufladas?

Oshiro e Diana se entreolharam.

- Provavelmente são nossas. Veja bem, apesar do acordo feito com os Romulanos, a Federação, ou melhor, este departamento tem naves assim. Apenas para espionagem, mas as possui. Devem apenas nos observar por algum tempo e pronto. Mas com certeza, devem ter nos dado um teste. É o único motivo real de terem pedido para pararmos em Antares. Suas naves camufladas poderiam fazer qualquer serviço que fosse na surdina total.

- Um teste de lealdade? - inquiriu Diana.

- Provavelmente um teste de moral. Mas não pergunte que tipo de moral e muito menos que resultado esperam. É tudo o que sei, e tudo o que direi. Jevlack me pôs aqui, e isso vocês podem confirmar com ele.

- Tem algo que prove que é sincero? - perguntou Diana.

- Sim, o tricorder que Anderson deixou acionado para monitorar minha fisiologia. Ele pode não ser um tricorder médico, mas pode obter dados suficientes para uma avaliação.

Olharam para Anderson, que ficou um pouco ruborizado.

- Sim, ele está sendo sincero.

- Talvez seja melhor continuarmos isso amanhã - disse Diana - pelo menos teremos tempo de pensarmos nas suas informações.

- Concordo - disse Abramovich - mas sugiro que contemos tudo a capitã amanhã também. Ela não pode continuar ignorante neste assunto. E, se ainda acharem que sou suspeito, pode formar um elo mental comigo.

Sem dizer mais nada, todos saíram do aposento. Anderson tomou seu banho e foi dormir. O profissionalismo deles os impedia de ficar ruminando as informações - neste caso, até descabidas - que Abramovich tinha dito. A não ser o simples fato de Jevlack estar envolvido.

Na verdade, qual seria o tipo de envolvimento dele nisto?

****

Abriu os olhos e ficou olhando para o teto. Não queria se levantar. Certo! Era a segunda em comando e tinha que mostrar serviço. Mas estava cansada. Olhou para o lado. Ninguém.

Levantou-se e ficou sentada na cama. É isso o que se ganha por flertar com alguém do turno da madrugada. Ninguém para falar bom dia.

Gidja saiu da cama e foi dar uma olhada em suas mensagens. Talvez alguém tivesse descoberto algo mais sobre Lopes. Sentou-se frente ao terminal e verificou. Sim, haviam mensagens. Lopes estava entre a tripulação da USS Miracle, que foi sacrificada em função da primeira diretriz. Caiu em um planeta de contado proibido como um meteoro. Nenhum dado adicional ou oficial, como as outras suspeitas.

Que sujeitinho! Sempre envolvido em alguma complicação. No mínimo, era um pé frio daqueles.

Havia uma mensagem do alferes Lark. Pediu desculpas por ter saído cedo e perguntava se poderiam se encontrar de novo naquele dia. Negativo meu caro. Respondeu a mensagem dele e foi se arrumar. Uma aventura ocasional estava de bom tamanho, mas não queria nenhum envolvimento mais profundo.

Tomou uma ducha fria para despertar de vez e enxugou-se rapidamente. Pensou em deixar o cabelo mais curto, para facilitar a rotina matinal.

Estavam a apenas um dia do Sistema T'hiram. Já era hora de apertar o pessoal de pesquisas para enviar sondas para lá e averiguar a melhor forma de proceder.

Vestiu o seu uniforme e olhou-se no espelho. O cabelo ainda estava úmido. Talvez fosse melhor corta-lo mesmo. Respirou fundo. Teria que enfrentar Lopes hoje. Pessoa irritante aquela. Tinha uma crise de egocentrismo muito bem desenvolvida. Poderia ser até professor!

Após enxugar melhor o cabelo saiu rumo ao refeitório, ou bar panorâmico, como os tripulantes o chamavam. Poderia tomar o café da manhã lá mesmo em seus aposentos, mas, como primeira oficial da nave, era sua função ficar mais próxima dos tripulantes. A capitã sem dúvida iria direto para a ponte, após o desjejum.

Seguiu pelo corredor cumprimentando alguns tripulantes que já conhecia. Oshiro tinha razão. Após algumas semanas já fizera algumas amizades. Embora o seu posto acabasse sendo uma barreira para algo mais intimo.

Chegou ao refeitório e viu que devia ter acordado mais tarde do que nas outras vezes. Estava cheio de gente. Onde estava toda esta turma nos dias anteriores? Claro! Estavam de folga. Amanhã toda a nave finalmente começaria a trabalhar. Portanto, na véspera, os chefes de departamento devia ter convocado seus subordinados para deixar tudo pronto. Mas que mania de se antecipar aos superiores. Era função dela avisa-los disso.

Avançou lentamente procurando um local para se sentar. Eles pareciam bem animados, provavelmente porque finamente iriam trabalhar para valer, ao contrário do que já aconteceu desde o primeiro dia com a engenharia e manutenção.

Notou que algumas pessoas já estavam se levantando para sair. Ótimo. Foi até o sintetizador e ficou indecisa quanto ao que pedir.

- Bom dia minha jóia celestial, oriunda, provavelmente, dos mais belos sois da galáxia.

Nem era preciso reconhecer a voz. O estilo era inconfundível.

- Bom dia Oshiro - respondeu sem se virar - e não! Ainda não vai ganhar nenhum beijinho.

- Hooo.... - respondeu com aquela típica entonação infantil.

- Computador, um pão com queijo e um copo de água. 13 graus.

Pegou o seu lanche e finalmente se voltou para ver Oshiro de frente.

- Me acompanha?

- Mas ca-la-ro! - sorriu exultante - computador, o de sempre.

Olhou para o sintetizador enquanto ele materializava um copo de leite achocolatado e dois lanches de carne.

- "O de sempre?" - perguntou - mas que raios de comando é esse?

- Segredo - respondeu ainda com o sorriso no rosto - é uma programação apenas para o meu padrão de voz.

- Isso não é proibido? - perguntou desconfiada.

- Não, é apenas anti ético. Vamos?

Ela o seguiu para uma das mesas que tinha acabado de ficar vazia. De uma certa forma, era bom perceber que aquela equipe "topo de linha" tinha seus defeitos. Só por isso não iria tirar nenhum demérito dele.

****

Anderson entrou na sala principal do departamento de ciências e olhou ao redor. Em todas aquelas semanas desde que tinham começado a viagem, em nenhum instante tinha tido vontade de passar para fazer uma visita.

Reconheceu agora o seu erro. A antiga ampla sala mudou para uma espécie de escritório onde havia apenas um console, usado apara aferir os resultados de pesquisas que deviam estar ocorrendo em outros salas adjuntas.

A Sala era como uma hexágono cortado ao meio. Dela, uma porta dava para o corredor e outras três portas davam acesso aos laboratórios.

Geologia planetária, atmosférica e oceânica eram os laboratórios que davam acesso a sala. Os outros - como exoantropologia e exobiologia - estavam em outros decks, mais próximos dos departamentos que dele se utilizavam. O seu, por exemplo, cuidava de física quântica e nuclear.

Parou de admirar a simplicidade do local e percebeu que não havia ninguém ali. Onde Doller estava?

Resolveu sentar-se defronte ao console e verificar o que havia de pesquisas em andamento. Era mais prudente do que entrar em uma daquelas salas e atrapalhar uma pesquisa qualquer.

Foi fácil se adaptar aos comandos do console. Logo viu uma lista de todas as pesquisas em andamento, indicando inclusive as pesquisas "cruzadas", quando mais de uma área atuava na mesma questão.

Uma pesquisa entitulada "Enigma de Antares" lhe chamou a atenção. Não só pelo nome, que era bem sugestivo, mas sim porque ela envolvia todas as áreas de pesquisa planetária e energética.

A porta se abriu, e ele, rapidamente, limpou a tela.

- Anderson? - disse Doller sorrindo - chegou cedo, eu o esperava daqui a meia hora.

- "Na primeira hora do dia" - disse ele repetindo as palavras da capitã - e a primeira hora, que eu saiba, é as seis.

- Tem razão - ele estendeu o braço, ao que Anderson apertou com vigor - venha, preciso de seus conhecimentos de física.

Entraram na primeira porta a direita, a área de geologia. Mas o que física tem a ver com pedras? Um holograma da lua onde se localizava a base de Antares estava no centro da sala. Em uma forma iluminada, havia uma espécie de teia, ou melhor, várias teias espalhadas por sua superfície.

- Esta é a configuração da base de Antares - disse Doller - mas não é por isso que eu o chamei. Veja - ele lhe mostrou uma rocha - faça uma análise disto.

- Tudo bem - ele pegou o pequeno pedaço de rocha - alias, era muito parecido com o fragmento que Matias tinha lhe dado para analisar - e o colocou na bandeja própria para análises simples de estrutura e composição.

Ficou de boca aberta alguns momentos depois. Primeiro, porque o analisador simplesmente ficou louco e parou de funcionar, chegando inclusive a soltar fumaça, indicando uma queima extrema de seus componentes internos. O cheiro era inconfundível. As bobinas de indução eletromagnética deviam ter derretido.

O outro motivo para ter ficado de boca aberta foi a única resposta apresentada em um monitor que o dispositivo conseguiu analisar - antes de ser posto fora de combate - "RETROALIMENTAÇÃO".

Isso significava que a energia usada para as bobinas foi forçada de volta. Mas só havia uma forma daquilo ter acontecido. Uma inacreditável fonte de energia eletromagnética deveria ter ficado próxima a elas, forçando-as a gerar energia ao invés de recebe-la. Mas, até onde ele sabia, nada ali poderia ter feito isso.

Olhou para Doller.

- Já perdi mais de vinte analisadores estruturais assim. O chefe de manutenção quer me lançar no espaço. Preciso que alguém me diga de onde vem tanta energia para queimar tudo. Não pode ser desta rocha. Já a levei para análises espectrais e não foi detectada nenhuma emanação vinda dela.

Por isso ele tinha dito que precisava dos seus conhecimentos de física. Alguma coisa naquela rocha estava gerando um poderoso campo eletromagnético, mas nenhum outro instrumento podia detectar isso.

- Certo - disse ele pegando a rocha de novo e observando-a atentamente - de onde veio isso?

- Da base de Antares. Peguei do chão mais por curiosidade. Agora quero resolver esta charada de qualquer forma.

- Não garanto nada, mas fiquei muito interessado nisto. Já examinou com um tricorder manual?

- Não. Vou pegar um.

Doller seguiu para uma estante em uma parede próxima e pegou um dos muitos tricorders que lá estavam, levando-o de volta para ele. Anderson pegou o tricorder e se sentou a frente do analisador que ainda soltava fumaça.

- Pegue mais um, tive uma idéia.

Colocou aquele tricorder para receber dados espectográficos e eletromagnéticos. Assim que terminou, Doller já trouxe o outro tricorder. Ele se levantou e se afastou um pouco. Acionou o tricorder para fazer o mesmo tipo de leitura do analisador estrutural. Em menos de meio segundo, teve de solta-lo para não queimar a mão.

- Acho que teremos de montar uma oficina de reparos - disse Doller.

Nem se incomodou em ver tricorder fumegando no chão. Foi até o outro, que deixou ao lado da amostra e viu o resultado: Um campo eletromagnético além da escala deste foi emanado pela amostra de mineral. A conclusão era óbvia: Quando sujeito a um campo eletromagnético de intensidade razoável, aquele minério emanava uma espécie de eletromagnetismo reflexo, muito mais poderoso.

Considerando o campo magnético daquela lua, aquele pedacinho de pedra poderia fornecer energia para mais de dez naves estelares, bastando que estas apenas possuíssem bobinas configuradas para transformar este campo em energia. Curioso que só ocorria quando o campo era direcionado para ela.

- Por que eu não pensei nisso?

Anderson olhou para ele, com um sorriso de triunfo.

- Por que eu sou o engenheiro aqui. Energia é a minha área. Agora precisamos achar uma forma de descobrir como esta pedra pode fazer tal coisa. Vamos po-la no microscópio nuclear e analisa-la sob a influencia de uma campo eletromagnético apontado para ela.

Pegou o pedaço de rocha e seguiu junto com Doller para o microscópio. Já imaginavam que estragariam muitos equipamentos até obterem uma resposta razoável. Mas Anderson já imaginava algo. Alguma relação entre aquela rocha que podia gerar um poderoso campo eletromagnético, e a outra rocha, que possuía micro reatores em sua composição.

****

Aqueles micro demônios nunca se cansavam. Cinqüenta e três anos e nenhuma geração apresentou suscetibilidade a qualquer remédio que fosse descoberto. Impressionante.

Anotou em seus registros pessoais os novos testes e levou a cultura de volta a estufa. Aquela experiência tinha se iniciado desde que aqueles microorganismos tinham sido descobertos em uma das luas de Rigel III. Haviam culturas delas em dezenas de naves, estações de pesquisa e outros planetas aliados. Em nenhum destes, foi encontrada algo que quebrasse a sua resistência. Infelizmente também não foi identificada muita coisa que justificasse isso.

Totalmente inofensivos a outras formas de vida, eram simplesmente classificados como "enigma biológico". Bertram Sentou-se novamente em sua mesa e começou a fazer o relatório do seu departamento. Ele queria amostras de culturas do planeta T'hiram, para suas pesquisas. Apesar o risco de usar sondas para obter as mesmas, ele negou taxativamente a possibilidade de usar o teleporte para isso. Não queria as amostras filtradas por absolutamente nada.

Queria amostras de água, solo, das plantas e até - talvez - algum pequeno animal. Sabia que este último pedido seria negado, devido a "não intervenção" decretada e blá blá blá. Mas ele fez o seu pedido. Afinal, milagres aconteciam. As vezes.

Espreguiçou-se um pouco e ficou olhando a vigia de sua sala. As estrelas riscadas continuavam a passar por ela incessantemente, no mesmo ritmo. Pensou na alferes Tfyber, uma betazóide. Foi uma boa noite, especialmente porque ela não podia ler a sua mente. Que surpresa ela teve ao perceber isso.

"- Doutor Bertram"

- Na escuta imediato - mas será que não se tinha sossego?

"- Doutor, só queria insistir para me dispensar de meu exame médico agendado para hoje. Amanhã nossa missão começa efetivamente e eu gostaria de aproveitar todo o tempo possível hoje para verificar os preparativos."

- Negado - ele sorriu - a senhorita teve muito tempo para isso. É a única coisa realmente democrática que o Criador nos deu. O tempo é o mesmo para o preguiçoso, para o ativo, para o planejador e para o que corre atrás do prejuizo.

"- Então estou indo fazer o exame agora. E obrigada por me fazer passar vergonha na frente da capitã."

- Não há de que. E informe a capitã para que ela não se esqueça de que seu exame está agendado para as 14:00. Antes da reunião com os oficiais - disse ele desligando.

Levantou-se e pegou o seu equipamento. Exames de Trills exigem certa delicadeza, em especial na área de conjunção de mentes. Mas ele sabia o que fazer. Alguns minutos depois, Gidja entrou.

- Obrigada - disse ela - a capitã disse que estará aqui no horário e que não permitirá que você a constranja como fez comigo.

- Lamento, mas você esta na posição ideal para isso. Deite-se. É apenas um exame de rotina, vai levar menos de meia hora.

- Espero que sim - disse ela enquanto se deitava - não quero deixar essa tripulação tomando suas próprias decisões sem vistoria minha. Afinal, eu que vou ser responsabilizada.

- Não se preocupe, todos já devem estar com os relatórios e sugestões prontos para apresentar a senhorita, mas, provavelmente, já estão implementando os preparativos. Incluindo eu mesmo.

Acionou os sensores e começou a gravar o exame. Deu atenção especial a conexão neural das duas mentes, para aferir o sincronismo delas.

- Há quanto tempo se uniram?

- Faz alguns meses. Por que pergunta?

- Bom, ainda existe uma pequena falha de sincronismo entre ambas as mentes, mas não é uma questão física. Ele ocorre nas regiões de controle emocional.

Percebeu que ela ficou um pouco desconfortável.

- Não se preocupe, acho que em mais algumas semanas isso deve estar resolvido.

- Obrigada doutor, mas...

- Isso vai ficar em segredo, e, além do mais, não deve causar nenhuma perturbação em suas atribuições de comando.

Ela ficou quieta. Em mais meia hora, o exame foi completado. Ele a dispensou e prometeu novamente não comentar aquele pequeno problema com ninguém.

Quando ela saiu, ele reviu os resultados do exame, para confirmar o que tinha detectado logo de início. Gidja não era uma simples Trill. Era uma mestiça. Pelo menos 20% de sua estrutura genética era estranha a composição natural desta raça. Estava analisando de onde poderia ser esta parte estranha.

A rigor, isso não era um problema, já que os simbiontes podem se unir a qualquer forma humanoide, só que algo havia acontecido com este. Talvez uma complicação durante a operação, ou algo decorrente de algum acidente.

O curioso é que nem ela, nem o simbionte pareciam notar esta situação.

NOTA: As medidas de hora, gravidade, etc de T'hiram estão convertidas para os padrões terrestres.

****

Capítulo 8

Lisa já tinha lido o relatório de Anderson e Doller. Estava sozinha no seu gabinete. Anderson voltou para a engenharia e Doller estava agora trabalhando em analises do sistema de T'hiram, sua estrutura e suas particularidades. Ele tinha se encantado com um cometa gigante que estava lá.

Era um resultado muito impressionante. Aquela amostra de rocha possuía sistemas super miniaturizados para captação de ondas eletromagnéticas e sua posterior ampliação de volta ao ponto de origem. No entanto, parece que o único motivo de "devolver" o campo ampliado era por não existir um ponto de escape para a energia gerada.

Também não foi possível descobrir como aquilo funcionava, e nem como era possível faze-lo. Os instrumentos de análise não tinham capacidade para descobrir isto. Alias, todo o laboratório estava em reparos.

Mas não era com isso que estava preocupada, mas sim com um disco que Anderson tinha lhe dado, junto com um bilhete dizendo "pode me dar sermão depois, mas não tive como entregar antes".

Olhava para o disco e pensava se devia vê-lo agora ou nos seus alojamentos. Na verdade, questionava se devia mesmo vê-lo.

- Para o inferno!

Colocou o disco no seu console e começou a ler as informações. Não havia nada de excepcional nelas, o que a deixou muito curiosa. Era apenas uma lista de pessoas da frota. Almirantes, capitães, alferes, cientistas...

Ao final, havia apenas uma recomendação: "Chamar estas pessoas para obter informações, eles já sabem de você e serão plenamente prestativas."

Mas o que significava aquilo?

- Computador, informe a localização da USS Rocama.

"A posição da USS Rocama no momento é confidencial."

Mais essa agora. O que aconteceu com aquela Frota que ela conhecia? Que se interessava em pesquisar novos mundos e civilizações? Tudo o que acontecia era ou confidencial, ou além dos limites. Será que um daqueles nomes poderia responder alguma coisa?

Ela já estava farta daquela seqüência de eventos. Segredos para cá e para lá. Levantou-se e foi para o comando. Queria aproveitar e relaxar em sua cadeira. Pelo menos, no dia seguinte, Lopes estaria fora dali, e iriam finalmente seguir rumo ao satélite de Rollemberg.

Oshiro saiu do assento - Gidja ainda estava fazendo o exame? - e ela sentou-se.

- Senhor Doller, já tem dados para a instalação do posto de observaçao?

- Creio que sim capitã, mas ainda não achei uma forma muito prática de nos aproximarmos sem sermos detectados. Há quatro naves pequenas se movimentando naquele sistema. Além disso, já identifiquei mais de doze satélites telescópios. Na minha opinião, não deve demorar muito até que eles comecem a explorar o espaço por conta própria.

Então, por que a definição de contato proibido? Mais um mistério, que ela nem queira discutir.

- Descubra uma forma segura antes da reunião de hoje. Na verdade, quero todos os preparativos prontos antes da reunião de hoje.

- Estarão prontos em mais duas horas, capitã.

Ela devia ter imaginado que eles já estavam se adiantando. Já estava se considerando mais como uma peça decorativa ali.

****

Não podia deixar de evitar. Estava pensando em Diana. Anderson refez pela sétima vez a análise do gráfico do reator. E, pela sétima vez, desviara a sua mente e se flagrou pensando nela.

Era estranho. Desde que a vira novamente, ele começou a se flagrar pensando nela nas horas mais inoportunas. No dia anterior isso não o incomodou, mesmo ela estando próxima a ele. Foi até um alívio, na verdade.

Por que? O que ela tinha que o incomodava tanto? Era bonita, mas, como toda vulcana, essa beleza deveria ser para "demonstrar que não possuía doenças e gozava de boa saúde". Maneira muito seca para dizer que não tinha genes defeituosos para espalhar pela sua prole.

Mas "sentia" que havia algo mais nela. Será que tinha se apaixonado como um adolescente? E logo com quem? Uma representante de uma raça para quem o orgasmo é apenas um indicativo físico de um ato feito com sucesso.

Seria assim mesmo? Nunca soube muito sobre a intimidade de vulcanos, exceto que eles a prezavam e a exigiam muito. Na academia, teve que aprender que ninguém adentra um cômodo de um vulcano, salvo estrito convite para tanto. Também não deveriam toca-los no sentido a demonstrar solidariedade, a menos que estes o tocassem antes, ou que fossem íntimos destes - entenda-se "amigo". Para isso nunca soube o porque - ele tinha faltado na aula que o explicava - mas nos seus idos de alferes, quase teve seu braço arrancado por um movimento involuntário de um vulcano, ao qual tinha acabado de assistir a morte de um parente próximo.

Ele não tinha demonstrado absolutamente nada. Não por fora. Depois daquilo, ele pediu desculpas e retirou-se para meditar. Anderson nunca mais tocou um vulcano desde então.

Mas queria tocar em Diana, afagar-lhe o rosto, seu cabelo. Queria sentir a maciez e aspereza deste. Queria observar os seus olhos, ver os desenhos únicos das suas íris. Queria passar o indicador pelo seu queixo suave. Queria...

Balançou a cabeça com força. Sempre se interessou mais pelo corpo das mulheres, e não por detalhes assim. Nunca teve - até hoje - interesse em ser muito romântico ou de extrema suavidade para com nenhuma. Mas para com alguém que corta qualquer emoção interna, ele se sentia assim.

Começou a achar que estava meio doente, talvez um pouco obsessivo. Tinha de se controlar. Se não conseguisse...

Pela oitava vez, Anderson refez a análise do gráfico do reator...

****

- Senhor Lopes, eu confio totalmente que seus equipamentos estarão preparados quando forem necessários, no entanto, temos certas prioridades agora. Precisamos determinar a melhor forma de nos aproximarmos sem que nos detectem.

- Como? – Ele parecia atônito – como acha que eles podem nos detectar? É um mundo de contato proibido! Não possuem tecnologia para tanto.

Gidja conteve o riso de escárnio. Então aquele grande cientista possuía informações que subestimavam a real capacidade do planeta. Ia ser bem divertido deixa-lo com a cara no chão.

- Creio que suas informações estão incompletas – disse calmamente – eles não só podem nos detectar como possuem naves que, aparentemente, estão utilizando o conceito de dobra espacial para se moverem. Captamos quatro destas naves no sistema, muitos satélites telescópicos e fontes de energia bem avançadas. De fato, pela nossa primeira análise, eles podem muito bem chegar a explorar o sistema vizinho em poucos anos.

- Aquelas malditas sondas – rosnou ele em voz baixa – eu disse que as sondas não dariam um quadro real da cultura de um povo, eu disse!

- Senhor? – ela não estava entendendo o que ele estava reclamando.

- Nada – replicou rudemente – só um desabafo sobre a forma pouco confiável que foi usada para obter os dados que temos, ou melhor, que eu tinha. Então não há como nos aproximarmos sem sermos detectados?

- Talvez – respondeu ela – podemos sair de dobra logo atrás da maior lua do planeta, de forma que ela nos proteja de seus mecanismos de observação espacial. Mas teremos dificuldades para teleportarmos algo para a superfície assim. O senhor Doller está pesquisando a respeito.

- Pois diga ao senhor Doller – ele claramente frisou um certo desacato ao mencionar o seu nome – que eu exijo que ele encontre uma solução que não cause atrasos em nosso apertado cronograma.

Ele deu-lhe as costas e seguiu para o hangar, para inspecionar os seus equipamentos. Por incrível que parecesse, ele era pior quando estava errado do que quando tinha razão. Que vontade tinha sentido de triturar aquele sujeito! Na sua simbiose anterior, teria feito isso sem pensar duas vezes. Mas agora, sendo uma fêmea e, acima de tudo, tendo o cargo que tinha, estava impedida de faze-lo. Tinha que engolir coisas como aquela.

Decidiu dar um pulo nos seus aposentos e fazer uma pesquisa completa sobre o que a Frota tinha sobre ele. Aquele comentário sobre as sondas estava lhe perturbando um pouco. A quem ele tinha dito que as "sondas não dariam um quadro real da cultura de um povo"?

****

- Sistemas conferidos senhor.

- Obrigado alferes, pode lançar.

Doller observou a sonda ser colocada no tubo de exaustão, e, momentos depois, ser lançada. Aquela era a terceira que ele lançava. Não acreditava que fosse necessário lançar mais alguma. Elas dariam todas as respostas necessárias a respeito de como poderiam passar desapercebidos pelo povo que habitava o planeta a ser "bisbilhotado".

Esta sonda em especial era para analisar aquelas naves que tinha detectado. Pareciam que se moviam através de um campo de dobra. Se fosse mesmo, então eles eram mais avançados de que se tinha imaginado até então. Claro que, no caminho, ela passaria pelo gigantesco cometa que tinha lhe chamado a atenção. E, já que estava por perto mesmo, nada mais justo do que obter alguns dados.

O que as outras duas sondas tinham revelado era meio que assustador. Ele sabia que eles estavam se recuperando de um holocausto, mas não tinha concebido as reais dimensões do problema. O ecosistema daquele mundo estava na delicada situação de, ou se recuperar, ou de se extinguir completamente.

Eventos de extinção são comuns em todo o universo. No próprio planeta Terra, houve vários. Sejam por motivos geológicos, catástrofes naturais ou o desenvolvimento desenfreado de uma espécie – a que a humana tinha feito no final do século XX.

Em todos estes casos, é apenas a vida se adaptando. Se ajustando as novas realidades, sejam estas boas ou não. Apesar dele possuir algumas ressalvas quanto ao que é considerado conservação ambiental – ele preferia o termo equilíbrio ecológico – ainda considerava isto muito mais preferível a simples extração de recursos.

Mas ele estava divagando. Sua tarefa era a de encontrar uma forma de chegarem perto o bastante sem serem detectados, e de ficar em condições de executarem sua tarefa. O melhor seria deixar já a mini estação – onde ficariam Lopes e seu pessoal - em uma órbita atrás da estrela, disfarçando-a em um asteróide. O maior problema era como instalar o módulo de pesquisas. Teriam de estar próximos e com o caminho desobstruído para isso. Aquilo era quase que como uma tarefa de espionagem. E não deixava de ser verdade. Afinal, eles estavam espionando aquele mundo, em todos os sentidos em que se pode aplicar esta palavra.

Ainda achava esse arrogante conceito de "apadrinhar" culturas menos evoluídas uma afronta. Elas não tinham pedido a ajuda deles. Certo, era apenas observação sem nenhuma intervenção, mas houve muitos casos em que andaram interferindo. A piedade que se apodera de alguns antropólogos os força a fazer algo para auxiliar.

Esse era um grande debate de base ética. Ocorre até mesmo quando da observação da vida selvagem. O melhor mesmo seriam sondas robôs para fazerem o trabalho. Estas sim, apenas observariam.

"- Senhor Doller."

- Na escuta imediato.

"- Já teve algum progresso em seus trabalhos?"

- Afirmativo, menos na parte de instalar o módulo de pesquisas.

Ele ouviu uma espécie de suspiro da parte dela.

"- Muito bem, tente dar prioridade total a isto. Devo, a contragosto, lembra-lo de que é importantíssimo que o senhor tenha esta solução antes de amanhã a noite."

- Sim imediato, eu sei.

Nesse instante, na sua tela, apareceu uma mensagem confidêncial. "Se não achar um jeito, nós dois vamos ter que ficar ouvindo Lopes reclamar".

Ele apertou os lábios e enviou uma resposta, dizendo que faria o possível para se livrarem daquela peste amanhã de qualquer jeito.

****

Diana olhava fixamente para a estrelas - a nave estava parada a uma distância razoável do sistema enquanto as sondas faziam o serviço de coleta de dados - e pensava freneticamente na reunião da noite anterior.

Abramovich disse que ela estava lá para garantir não ser requisitada por um departamento ligado a inteligência da Frota. Mas ela já tinha sido contatada e recusado a oferta há um ano atrás. Será que ainda estavam interessados nela?

Havia também os dados que tinha coletado em Antares. E além disso, a informação dada por sua prima a Anderson, por intermédio de Matias.

Sua prima devia saber o que estava acontecendo, mas, naquele momento, acreditava não ser muito prudente entrar em contato com ela. Aquela série de eventos eram o indicativo claro de que estavam no meio de várias missões que se intercalavam ou se sobrepunham, como se dois ou mais departamentos resolvessem aproveitar a Xanth para que esta fizesse algo na região que deveriam explorar.

Bom, um destes era a divisão de antropologia da Frota, ao qual estavam se preparando agora para realizar, o outro, segundo Abramovich, era uma espécie de teste de moral concebido por um departamento secreto. Isso tudo, no meio da missão normal, de explorar aqueles sistemas. Mas parecia que havia mais alguma coisa, claramente indicado por aquelas análises que Anderson tinha feito naquela amostra de material.

Ainda havia aquela ligação com Jevlack. Dispositivos de suas próteses foram encontrados na mesma amostra que Anderson analisou. Mas ainda faltava saber de onde tinha vindo aquela amostra e qual seria a real intenção de Tirvik ao te-la dado.

Respirou fundo e deu uma última olhada nas estrelas. Saiu da sala de observação e seguiu para a ponte. Tinha tarefas a realizar. Mais tarde ira se reunir novamente com os outros, para definir a linha de ação a ser seguida.

****

Desgor olhava para frente, vendo com detalhes o delineamento entre a superfície esférica do seu planeta contra o espaço negro. A sua direita, podia ver o cometa, o futuro carrasco de seu mundo.

Sempre quis fazer aquele passeio, embarcar em um Scout e simplesmente curtir a vista do espaço e do seu mundo, ao vivo e com os seus próprios olhos. Mas o motivo dele e do piloto estarem usando essa forma de transporte era para chegar o mais rápido possível a capital, para levar os dados que tinha. O líder tinha de decidir o que fazer, se é que havia algo a ser feito.

Seria uma viagem de setenta minutos, de um lado ao outro do globo. O único motivo para entrar em órbita, era para poder ir mais rápido, sem enfrentar o atrito da atmosfera.

Olhou para o lado esquerdo e viu a grande ilha Bert'gher. Foi nela que, segundo a mito, toda a raça deles teria surgido. Sempre foi considerada de acesso proibido e, mesmo na guerra, foi deixada em paz.

Se, como acreditava, a armagedon estava se realizando, então, finalmente velhos mitos poderiam ser esclarecidos.

- Prepare-se - disse o piloto.

A nave se moveu para entrar na atmosfera novamente. Como estava sem peso, não fosse pelo cinto ele teria batido a cabeça no teto. Mesmo com o aviso, não conseguiu evitar que os seus braços fossem jogados para cima.

Existem muitas vantagens em um ambiente com gravidade que nem ao menos são considerados no dia a dia...

****

Capítulo 9

Bertram consultava sua biblioteca de dados. Ainda buscava qualquer indício sobre de que raça poderia ser a parte genética da imediato que – ainda – lhe era desconhecida.

Um leigo pensaria que seria fácil, bastava mandar o computador localizar por comparação aproximada, qual a raça mais provável. Infelizmente o computador forneceu mais de trinta raças possíveis. Isto porque estes genes eram comuns a todas estas.

Mas não para um Trill.

Tudo o que ele poderia fazer agora, era comparar a posição física destes genes nos cromossomas e aferir a compatibilidade destes com cada uma das raças identificadas. Já tinha conseguido eliminar a raça humana e a dos vulcanos neste processo.

Pessoalmente, ele não tinha ficado muito feliz com isso. De todas as raças que integravam a Federação, os genes dos humanos e dos vulcanos eram os mais conhecidos e catalogados. Atualmente, os genes Klingons estavam sendo mapeados – graças ao acordo de cooperação firmado – quanto aos outros, ainda precisava esperar uma resposta com os dados necessários para a comparação.

Ele parou de prestar atenção ao monitor e sentou-se melhor na cadeira. Sua cabeça ficou ereta e, de repente, disse;

- Sim enfermeira?

Pôde sentir a surpresa dela.

- Doutor, um dia precisa me contar como faz isso – respondeu a sobressaltada enfermeira – é a capitã. Ela chegou para o exame médico. Está aguardando na ante-sala.

Ele se virou e olhou para ela de uma forma divertida.

- Diga para ela entrar, e, quanto a sua solicitação, talvez eu lhe diga esta noite, a luz de velas. Aceita?

- Fico encantada - disse sorrindo docemente – mas já tenho um compromisso. Talvez permanente – completou.

- As reviravoltas da vida! AS vezes, eu gostaria de estar nesta situação.

Ela nada disse, mas continuou sorrindo ao sair. A capitã entrou alguns segundos depois.

Ele já tinha desligado o monitor e estava pegando o equipamento para o exame. Um tricorder manual para sondagens um pouco mais detalhadas e uma prancheta para anotações rápidas.

- Bom doutor, estou aqui. Mas não pense que manter o cronograma de meus exames seja uma prioridade que eu pretenda respeitar.

Ele sorriu um pouco divertido. Para uma capitã tão jovem, era interessante notar que já desenvolvera o hábito de jamais demonstrar qualquer fraqueza a sua tripulação.

- Nesse caso – respondeu ele – melhor aproveitar e fazer logo um exame total.

- Isto vai demorar?

- Terminarei em pouco mais de quarenta minutos.

- Muito bem – disse ela um pouco mais relaxada – o que devo fazer?

- Primeiro, deite-se na cama biomédica.

Ela se aproximou da cama pelo lado direito e, espalmando ambas as mãos sobre ela, ergueu o seu corpo sobre elas e se deitou como se fosse uma ginasta olímpica.

- Por acaso a capitã está demonstrando como está bem de saúde?

- Não – respondeu mal contendo um riso – é que faz muito tempo que não posso relaxar ou fazer uma pirraça. Certos preços que tive de pagar para atingir a posição que ocupo ainda me fazem falta. Devia ver o que faço quando estou sozinha nos meus alojamentos.

- Enquanto não aparecer com nada quebrado, não faço nenhuma objeção.

Ela fechou a cara e ficou um pouco pensativa.

- Mas, se acontecer, ninguém ficará sabendo. Sua imagem de indestrutível não será abalada. Pode continuar se divertindo as escondidas.

- Pode ler pensamentos? – perguntou ela um pouco curiosa.

- Quando me convém – respondeu com um ar um tanto misterioso – ponha os braços ao longo do corpo, por favor.

Ela obedeceu, ainda o observando com uma certa curiosidade. Ele pegou o equipamento e o encaixou na cama, cobrindo todo o tórax dela.

- Isso é mesmo necessário?

- Para um exame total, sim. Como provavelmente a capitã só deverá aparecer aqui novamente daqui a um ano, se eu tiver sorte, claro, é melhor analisarmos logo tudo o que interessa. Incluindo predisposições genéticas.

Com uma quase careta no rosto, ela resignou-se. Não tinha mesmo nenhum argumento para evitar aquilo.

- Só uma coisinha, doutor.

- Sim capitã?

- Poderia parar de se referir a mim sempre como "a capitã"? Pode ser um pouco mais informal. Afinal, sua patente de tenente comandante permite isto.

- Bom, se está se sentindo incomodada, eu posso tentar. Mas há algum motivo especial para... você pedir isto?

- Quando você fala assim eu me sinto mais velha.

Ele riu daquilo.

- Certo, Lisa. Mas não espere que eu seja tão informal fora desta sala. Muito menos estando em serviço.

- Agradecida.

Ele acionou os comandos e observou os resultados. Pelo seu corpo, sua vida tinha sido muito tranqüila. Mas havia um conjunto de cicatrizes internas decorrentes de ferimentos que deveriam ter ocorrido ao mesmo tempo. Pela quantidade de órgãos atingidos, foi algo quase fatal. Ela inclusive possuía uma prótese cervical, para reatar conexões nervosas rompidas que deveriam impedi-la de mover as pernas. Curioso. Não havia menção disto em sua ficha médica.

- O que tem achado da tripulação até o momento? – perguntou Lisa em um tom casual.

- Todos em excelentes condições físicas. Porém, na grande maioria, inclusive na senhorita, notei que há um conjunto muito grande de ferimentos já cicatrizados. Basicamente todos de politraumatismo. E, pela análise da biópsia que andei fazendo, parece que ocorreram na mesma época – ele parou um pouco com o exame e olhou muito sério para ela – não tinha me ocorrido até então, mas a melhor explicação possível é que todos sofreram um acidente em conjunto. Incluindo você também.

- Os rumores eram verdadeiros – comentou ela também séria – você é um excelente médico. Sim, todos nós sofremos um acidente em conjunto há uns dois anos. Mas não posso lhe dar mais detalhes.

- Já tenho todos os detalhes que preciso – disse ele prosseguindo com o exame – Foi há dois anos, nesta época, boa parte desta tripulação, incluindo a ai a sua pessoa, estavam em treinamento na Starfleet. Os outros estavam na Thunderbold – interrompeu o exame e olhou para ela – e a Thunderbold era a sua nave escolta – completou sorrindo – Pelo que pude acessar sobre esta missão em particular, não achei nada que explicasse isto. E, na verdade, prefiro não saber.

- Obrigada, doutor.

Ele fez uma conexão remota com a prótese cervical dela e solicitou uma análise de status. Conforme as informações surgiam, ele fazia alguns movimentos com as sobrancelhas ou com os lábios. Ficou quase cinco minutos verificando aquilo.

- Doutor?

- Sim? – virou-se para ela tentando ocultar que estava muito concentrado nas informações.

- Me pareceu muito sério. O que achou?

- Há quanto tempo não faz um exame de rotina na sua prótese cervical?

- Minha o que? - Era evidente a surpresa dela.

- Sua... – ele não podia acreditar que ela não sabia daquilo – prótese cervical. Foi implantada em você há dois anos. Sem ela, estaria paralisada do pescoço para baixo.

- Eu... não sabia disto.

- Então – tornou ele voltando a olhar para os dados – devo presumir que nunca foi feito nenhum exame rotineiro. Você deve estar sentindo um certo cansaço quando fica muito tempo de pé. Estou correto?

Ela hesitou um pouco. Parecia que não tinha ouvido sua pergunta.

- Capitã?

- Desculpe, não prestei atenção. Acho que eu sei porque nunca fiquei sabendo deste implante. Naquele... incidente que causou as lesões nos tripulantes que o senhor constatou, as enfermarias estavam lotadas. Assim que acordei, voltei a assumir o meu posto. Naquela confusão toda devem ter se esquecido de registrar o que fizeram em mim.

- Não é o tipo de coisa fácil de se esquecer.

- Doutor, acredite. Do jeito que as coisas estavam, seria impossível registrar tudo, especialmente com quase toda a nave inoperante.

- Bom, eu irei registrar agora sobre isto em sua ficha, também não irei incomoda-la com perguntas a este respeito. Mas devo dizer que quem fez isto era um perito excepcional. E eu gostaria muito de falar com ele qualquer dia. O único motivo da senhorita estar viva se deve a habilidade e rapidez com a qual lhe operaram. Mas voltando ao assunto anterior, tem sentido cansaço quando fica muito tempo de pé?

- Sim, e as pernas doloridas também.

- Eu imaginava. Há um grande registro de músculos exageradamente tencionados. Terá de fazer terapias diárias para controlar seus músculos. Do contrário, terá lesões dramáticas nas suas pernas. Podendo inclusive deforma-las. Não há nada de grave ainda.

- De quanto tempo seriam estes exercícios diários? Eu tenho que vir a enfermaria para isso?

- Não. Posso instalar nos seus aposentos o equipamento necessário. Mas, infelizmente, mais alguém terá de saber sobre isto, pois não tenho como levar o equipamento sozinho. Quem na tripulação seria mais confiável para manter segredo?

- Anderson – respondeu quase sem pensar – é a melhor escolha.

- Falarei com ele depois, se a senhorita permitir, naturalmente.

- Estou benevolente hoje – disse ela sorrindo – mas não abuse disto.

- Acho que o fato de suas pernas poderem ficar deformadas teve muito a ver com sua benevolência.

- Lógico! – ela sorriu – tem mais alguma coisa que puseram em mim?

- Não – respondeu – mas há algumas partículas que parecem ser destroços em alguns pontos de seu corpo. É um problema apenas estético. Irei remove-los no fim do exame.

- Estéticos como?

- Podem causar manchas na pele – respondeu sorrindo.

- Doutor – era evidente que ela estava confiando bem mais nele agora – faça o seu trabalho. Pode ser que eu resolva manter meus exames de rotina, no fim das contas.

Por mais de uma hora, Bertram examinou e fez algumas correções estéticas no corpo da capitã. Ajustou algumas fraturas que tinham se recuperado de forma desigual e, algo que Lisa jamais soubera que um médico tenha detectado ao analisado, ele deu-lhe algumas dicas de como manter o elo mental que possuía dispensando menos esforço.

****

Do seu ponto de vista, as luas estavam se pondo no horizonte. O espetáculo era lindo! A floresta verdejante com suas flores azuis e amarelas indicavam que em poucos meses haveriam novos frutos, novas mudas, nova vida.

E mais nada.

H’irim era o lider daquele mundo, e, após vislumbrar uma chance de recuperar o planeta que estava em vias de extinção, recebera a informação de que algo do espaço estava se aproximando.

Uma grande nuvem.

Era um cometa gigantesco, podia-se ve-lo já durante o dia. Tinha acabado de passar pela estrela menor e agora seguia rumo a eles. Para o planeta, não era nada além de um grão de areia. Mas para seus habitantes, seria o fim de tudo.

"Uma grande nuvem irá anunciar o fim de seu mundo..."

A religião deles havia sido não só um impulsionador para se recuperarem, mas também uma forte ameaça a tudo. É verdade que os fanáticos estavam se contendo, guardando para si suas opiniões sobre o que era melhor visto por T’hiram em prol do bem maior. Manter a civilização viva. Mas se aquilo fosse verdade, eles não teriam mais nada para se preocupar.

Até que ponto os velhos escritos seriam realidade? Olhou para o pequeno felino que estava deitado ao lado da porta. Ainda era um mistério como aquela criatura teria evoluído ali. Nenhum fóssil que explicasse isto fora encontrado, muito menos a afeição que eles tinham para com os t’hirianos.

A resposta estaria em Bert'gher. Um local mítico do qual ninguém – salvo uma única exceção - jamais tinha retornado. Segundo fotos de satélite, nada crescia ali. Alguns povos tentaram usa-la como base na época da guerra, mas todas as divisões enviadas para instalarem os equipamentos foram dadas como perdidas.

Se aquele cometa era a realização do fim de tudo, então, em breve, ele teria de ir até lá. Mas, se fosse apenas um alarme falso, não seria prudente insultar as crenças de seu povo.

Apenas o seu antecessor tinha ido até lá e retornado em segurança. Ela nada contara do que tinha visto. Nunca tinha comentado nada, nem mesmo para ele.

Tudo o que disse a este respeito foi: "Você irá lá um dia, e terá de tomar uma dolorosa decisão." Passaram-se quarenta anos. E antes do fim deste ciclo, ele sabia que teria de ir até a ilha.

Alguém bateu a porta. Ele olhou na direção dela e esta se abriu.

- Senhor – disse o seu vassalo – Desgor está no palácio.

- Peça para que ele entre, e traga algo para comermos. Acho que vamos ter uma longa conversa.

- Imediatamente.

Voltou a olhar para a janela. As luas já tinham sumido. Lamentava não ter constituído uma família quando teve a chance. Foi até a mesa redonda no centro do aposento e sentou-se. Acionou alguns comandos em um console imbuído e a mesa mostrou uma mapa do sistema de T’hiram, indicando a posição do planeta, do cometa e da rota de ambos se cruzando. Dali há oito meses.

Tinha recebido estas informações no dia anterior, e convocara o encarregado em pesquisar o cometa assim que os fatos foram confirmados por outros pesquisadores. Se alguém tinha alguma idéia do que poderia ser feito era Desgor. Isto, se algo pudesse ser feito.

- Senhor – disse Desgor assim que entrou – curvo...

Ele ergueu a mão.

- Esqueça o protocolo, não o chamei para uma visita. No momento, acredito que você tenha melhores condições do que eu para decidir qualquer coisa. Sente-se

Desgor sentou-se em sua frente e observou o mapa estelar na mesa.

- Faça um breve resumo teórico do que ocorrerá se o cometa não puder ser desviado.

Ele engoliu em seco. Olhou para o mapa por alguns instantes e, reunido coragem, começou o fatídico discurso.

- Primeiro, haverá uma explosão nunca registrada ou sequer imaginada. Será causada pela rápida expansão dos gases do cometa quando este começar a ser vaporizado na atmosfera. Quando o cometa atingir o solo, provavelmente ocorrerá uma segunda e muito maior explosão, com tal rapidez e com tal força que ambas parecerão ser uma única. Isso porque o cometa tem tamanho suficiente para perfurar a crosta e atingir o magma ainda estando relativamente intacto. De qualquer forma, a explosões em si abririam uma cratera com mais de oitocentos quilômetros de diâmetro.

"Depois disto, haveriam três ondas de destruição, uma sísmica, causada pelo movimento da crosta em decorrência do impacto. Os danos maiores desta onda ficarão localizados na região onde o cometa atingir-nos e no seu lado diametralmente oposto do planeta, onde as ondas sísmicas se unirão novamente em um só ponto."

"A segunda onda será causada pelo deslocamento do ar. Ele estará se movendo a quatro vezes a velocidade do som. Será letal num raio de mil e quinhentos quilômetros, depois disto, deverá perder sua força. Mas dará trinta e seis vezes a volta em torno do globo antes de se dissipar."

"Independentemente de onde caia o cometa, uma outra onda, de água surgirá. Se ele cair diretamente em um oceano, esta onda pode ter trinta quilômetros de altura..."

H’irim já estava suando frio fazia um tempo. Era exatamente como a profecia falava: "...o próprio solo se revoltará, dançando e se contorcendo, sofrendo de infinitas dores. O ar chicoteará a tudo e a todos com a força de montanhas desabando, o mar se erguera contra o solo..."

- Além disto, um impacto de tal proporção ativará muitas falhas e vulcões por todo o planeta. Jogando ainda mais poeira na atmosfera, fazendo com que a luz de nossas estrelas não atinjam a superfície por muitos anos. Não haverá mais colheitas. A fome acabará com muitos dos sobreviventes.

- Alguma chance de nossa raça sobreviver?

- Difícil responder – disse Desgor – eu acredito que após tudo isto, provavelmente haverão sobreviventes, mas se eles poderão se manter e se perpetuar é uma total incógnita.

- Quais são nossas opções?

- Podemos tentar desviar o cometa, mas não sei se temos o arsenal atômico necessário. Muitas armas estão enterradas há muito tempo, e provavelmente não devem funcionar mais. Além disso, só temos sete naves para lançar os de curto alcance.

- Acredita que possamos faze-lo?

- Não. Nossa única chance seria atingi-lo com tudo o que temos neste instante. Mas nossa melhor perspectiva é daqui a uns seis meses. É o tempo estimado para que os mísseis passam alcança-lo. E, neste ponto, o desvio que podem causar é tão insignificante que não faria muita diferença.

- Além disto, o que mais podemos fazer?

- Tentar construir um abrigo para alguns afortunados, que pudesse resistir ao que ocorrerá. Embora eu tenha ressalvas quanto a isso. Mesmo que hajam sobreviventes, as condições ambientais do planeta precisariam de mais trezentos anos para que um novo Mart Kelar pudesse ocorrer. Nossa raça estaria extinta. E o mesmo ocorrerá se tentarmos evacuar alguns para o planeta Hunfer Dorl. Se é que o planeta pode abrigar a nossa forma de vida.

- "...qualquer fuga ou solução encontrada apenas adiará o fim de sua raça por algumas parcas décadas..." – recitou H’irim amarguradamente.

- "...Tudo isto ocorrerá e já está escrito nas estrelas, mas não é garantia absoluta que tudo terminará." – Completou Desgor com o último parágrafo da profecia.

H’irim sorriu com aquilo. Sim, a própria profecia não afirmava que tudo acabaria, o problema era como interpretar aquilo.

- Vamos – disse ele se levantando.

- Aonde?

- A Bert'gher – respondeu ele muito sério.

- E se não voltarmos?

- Então, não teremos mais com o que nos preocupar.

Ambos saíram em direção ao Scout que trouxera Desgor. H’irim recusou-se a ouvir seus conselheiros, sobre como a notícia de sua viagem iria rapidamente se espalhar e causar ansiedade no planeta.

O Scout partiu menos de vinte minutos depois que tinha pousado. Mas H’irim teve a prudência de levar consigo a refeição que tinha solicitado momentos antes. Não queria ficar ouvindo seu vassalo pessoal falar sobre suas responsabilidades de manter sua saúde para o bem de seu povo. Com ou sem cometa.

****

Capítulo 10

"Capitã Lisa Donner, são dezessete horas e quarenta minutos."

Lisa abriu os olhos. Conseguira cochilar por quase duas horas. Realmente, a sugestão do doutor fora boa. Sentia-se bem mais disposta. De fato, já estava acordada antes mesmo do computador a chamar.

Levantou-se e tomou um rápido banho. Vinte minutos depois, estava em frente a porta da sala de reuniões. Fez um repasse mental de tudo o que iria ser discutido, reservou uma grande dose de paciência para com Lopes, e entrou.

Estavam todos ali, sentados em seus lugares e com suas pranchetas conectadas. Imaginou que teria toneladas de requisições e solicitações específicas. Mas o principal assunto que queria resolver ali era sobre a trabalho em T’hiram. Todo o resto poderia esperar.

- Boa tarde – começou, cuidando para não se dirigir a Lopes - Sei que temos muita coisa para discutirmos, mas, para o momento, eu quero começar, e já encerrar – agora dirigiu-se a ele – a forma de procedermos para efetuar nossa missão no sistema de T’hiram. Senhor Doller?

Doller acionou alguns comandos em sua prancheta enquanto Lisa se sentava. Um holograma do T’hiram, com as suas duas luas apareceu. Quando Lisa o olhou, ficou maravilhada! Até então, não tinha se dado ao trabalho de ver nada do seu objetivo. Só queria largar Lopes ali e ir embora. Agora, ao ver que belo mundo era, sentiu uma ponta de inveja. Bem que eles poderiam ficar por lá para dar um pouco de apoio.

- Observar este mundo, é, no momento, o coroamento de minha carreira – comentou Lopes, com um certo ar de religiosidade.

Lisa olhou melhor o holograma e suspirou silenciosamente. Aquela peste se sentia dono do planeta. Que ficasse com ele.

- Segundo minhas análises – começou Doller – sugiro instalarmos primeiro a base principal, que ficará em órbita. Se a disfarçarmos como se fosse um asteróide, eles não deverão detecta-la.

- Pode garantir isso plenamente? – inquiriu Lopes, como se fosse um leão avançando em uma presa desprevenida.

- Sim – disse ele muito sério – posso garantir isto plenamente. Só precisamos instalar a base dentro de um asteróide real, e eu até já o selecionei – pressionou mais alguns comandos – ele se encontra em órbita da estrela principal do sistema, Seu período de translação o torna perfeito. Ele segue a mesma órbita do planeta, e, como forma junto com o planeta e a estrela um triângulo equilátero, ele ficara estável e sempre a mesma distancia.(*)

Lopes olhou para a imagem e para o desenho do triângulo que aqueles três corpos formavam. Ele nada disse, mas Lisa podia sentir que ele ficou um pouco irritado.

- Prossiga, senhor Doller – disse Lisa, mal contendo o sorriso irônico.

- Nossa melhor forma de proceder, será usarmos a lua mais distante do planeta como escudo. Ela pode nos ocultar dos satélites por quase três rotações do planeta. Como poderemos instalar a base em oito horas, esse tempo é mais do que suficiente. Teremos plena abertura para usarmos os teleportes para isso, embora eu aconselhe o uso de sondas robôs, pois acredito que eles poderão detectar a energia dos teleportes se o usarmos por um período prolongado como este.

- Quanto tempo levaria usando as sondas? – Atacou novamente Lopes.

- Entre vinte a trinta horas. Plenamente dentro...

- Não! – Exclamou Lopes – não posso aceitar um atraso destes para o início da operação da base.

- E nós não podemos aceitar a possibilidade deles poderem perceber algo – disse Gidja, que deu uma rápida olhada na capitã para aferir se ela permitiria que prosseguisse. Seu leve manear de cabeça indicou que sim – usaremos as sondas. Se insistir neste ponto, então iremos solicitar que a Frota tome a decisão.

Lopes tremeu um pouco. Sabia qual seria a resposta caso o assunto fosse levado a eles. Não poderia explicar a importância de algumas horas, isto implicaria em revelar outras coisas. Relutantemente, acatou o argumento da imediato.

- Muito bem. Mas isto que vocês consideram como pequeno atraso ainda será terrível para a minha pesquisa.

Houve alguns instantes de silêncio devido àquele comentário, que parecia ser totalmente fora de propósito.

- Alguma sugestão quanto ao módulo de pesquisas? – perguntou Gidja, um pouco impaciente.

Doller olhou para ela e suspirou.

- Sim. Como eu disse, estando atrás da lua deles, poderemos ficar ocultos de seus dispositivos, mas, estaremos impossibilitados de usar os teleportes para a instalação do módulo. No entanto, podemos usar um satélite para rebater os feixes. Mas não é aconselhável transportar pessoas desta forma. Para isso será preciso usar uma nave auxiliar. As chances deles localizarem uma nave de tal porte no espaço é mínima.

Lopes parecia satisfeito.

- Também será preciso usarmos uma nave auxiliar para verificar local com instrumentos de curto alcance. Não me arriscaria a usar os sensores da nave no planeta para isso. Eles sem dúvida iriam detectar tal sondagem. Acredito que o módulo estaja instalado poucas horas depois da base.

Lopes balançou a cabeça quase que imperceptivelmente. Parecia que a análise de Doller era... tolerável.

- Infelizmente – todos olharam de soslaio para Lopes quando aquela palavra foi dita – não poderemos instalar o módulo onde tinha sido previamente especificado, pois não há como a nave auxiliar chegar no local sem ser vista. É muito próximo ao principal centro de pesquisas deles. A distância mínima seria de uns vinte quilômetros, e não os três inicialmente propostos.

- Inaceitável – disse ele firmemente – Isso tornaria impossível a parte mais importante da pesquisa. Na minha posição de papel chave nesta missão, eu ordeno...

- Coisa nenhuma – cortou a capitã de uma forma simples e polida – o senhor não está no comando desta nave, e nem nós estamos a sua plena disposição.

Lopes olhou espantado para ela, mas antes que pudesse falar algo, ela prosseguiu.

- A Frota não tinha nave alguma para dispor ao senhor, e, portanto, a titulo de cortesia, e por reconhecer a importância de sua pesquisa, fomos escalados para traze-lo e lhe dar todo o apoio possível. Mas eu solicito que o senhor note as palavras. Apoio possível. E se isto implica em violar a condição de contato proibido, então não é possível. Como capitã, devo evitar a todo custo que haja uma possibilidade de que tal ocorra.

- Minha pesquisa...

- Sua pesquisa está sujeita as leis de não intervenção da Frota Estelar – disse ela de uma forma tão imponente que impressionou a todos ali – e a declaração de contato proibido coloca o capitão desta nave, que, felizmente sou eu, como aquele que tem a palavra final e indiscutível neste assunto. Não importa a patente que o senhor convoque para me dar ordens, minha posição me obriga a tomar esta decisão.

- A senhora está usando o seu posto para me impor condições!

- É a minha função, caso não tenha sido devidamente informado – replicou calmamente – Este planeta foi declarado de contato proibido! – ela estava gostando de martelar naquele ponto - Se não for possível implantar o módulo sem sermos detectados, eu tenho a obrigação de cancelar a missão. E devo usar o meu posto para impor isto. E acredito que o senhor, mais do que qualquer um desta nave, deveria concordar com isto.

Ele abriu a boca ao mesmo tempo em que arregalava os olhos. Podia-se ver que ela o tinha o posto em xeque. Ela não sabia, mas tinha sido ela quem havia forçado a declarar o contato proibido, e agora esta mesma decisão poderia acabar com tudo o que tinha planejado.

- Amanhã – prosseguiu Lisa - enquanto estivermos cuidando da instalação da base no asteróide, enviaremos uma nave auxiliar para localizar o ponto mais próximo possível a localização que o senhor queria para o módulo. Se o local que escolhermos estiver aceitável, ótimo, do contrário, o módulo não será instalado. Esta é a minha decisão final sobre o assunto.

Lopes afrouxou o corpo, desistindo. Não havia como argumentar. Apenas balançou com a cabeça concordando.

- Excelente. Agora vamos aos outros assuntos.

Cada um dos oficiais discutiu suas solicitações e sugestões. Lopes, após aparentemente ficar em silencio por uma longa hora, pediu licença e saiu. Obviamente, as outras questões científicas da pesquisa em T’hiram não lhe interessavam.

A reunião acabou as vente e uma horas. Gidja estava com as costas doendo, mas a satisfação de ver Lopes ser posto em seu lugar, mais do que compensava isto.

Não estava com sono, decidiu ir até a área recreativa ver se conseguiria arrumar alguma companhia para a noite. Na verdade, queria provar a si mesma, que ter sido "abandonada" pela manhã não a tinha afetado.

Andava distraída pelo corredor. Ainda se sentia exultante com a reunião, como uma criança que tinha visto um colega de escola malvado e chato ter recebido um justo castigo. Se não fosse por isso, provavelmente sua atenção não teria sido chamada para uma sala com vigia para o espaço. Assim que passou por ela, estacou, e voltou para adentra-la. Sentiu um grande vontade de dar uma olhada nas estrelas.

Foi direto para a vigia quadrangular. Debruçou-se no beiral e olhou atentamente o brilho das duas estrelas de T’hiram. Eram Lindas.

A Xanth devia estar um pouco além da órbita do planeta imediatamente após T’hiram, por isso era fácil ver o brilho das estrelas. Se estivessem ao dobro da distância, elas não iriam se destacar com tanta intensidade das outras milhares que podia ver. Doller devia ter pedido para por a nave naquela posição para melhor fazer suas análises.

Viu o cometa, ou melhor, sua inacreditável cauda. Branca e azulada, era algo raro e de grande beleza. Com Lopes por lá, a pesquisa daquele astro estava praticamente esquecida. Mas, ao menos no aqui e agora, ela podia ver e apreciar a paisagem única.

De fato, naquele momento, ficou tão fascinada por ele que olhou na sala procurando o armário – uma sala vazia na nave com vista para as estrelas normalmente é um observatório, embora facilmente possa ser convertido para um alojamento. Como estava aberta, tinha de ter o status de observatório, e, portanto, haveria de ter um armário com binóculos por lá.

Abriu-o e pegou as lentes. Ajustou a gama de espectros para a fisiologia de sua raça e voltou para a vigia. Olhou para o cometa com eles a acertou a ampliação para o máximo.

Agora podia ver o cometa em sí, ou seja, o seu núcleo. Esférico, com poucas irregularidades – outro ponto peculiar – haviam manchas azuladas na sua superfície, o que talvez justificasse a cauda também com esta cor.

Afastou o foco lentamente para ter uma visão global. Notou algo a frente do cometa, parecia ser um tipo de nave. Focalizou ali e começou a ampliar a imagem para além do máximo – já estava no limite permitido com detalhes razoáveis, qualquer coisa acima disto aparece como quadrados coloridos – e teve a certeza de ser uma nave.

Os T’hirianos estavam estudando aquele cometa. Será que havia alguém a bordo. Se não fosse pela missão, talvez sugerisse a capitã para dar uma passada próxima para um cumprimento...

Ficou séria e extremamente preocupada. Se ela podia ver aquela nave com um equipamento limitado como aquele, a recíproca era verdadeira. Neste instante mesmo eles poderiam estar sendo vistos!

Se a nave estava estudando o cometa, não fazia diferença haver passageiros ou não. Ela sem dúvida tinha dispositivos óticos de grande ampliação. Com certeza maiores do que aquele binóculo. Como Doller não notou que isto poderia acontecer?

- Gidja para a ponte.

"Na escuta imediato".

- Leve-nos a uma distância de dois meses luz de onde nos encontramos, de forma a nos afastarmos do sistema T’hiram. Imediatamente!

"Afirmativo"

Alguns segundos depois, as estrelas subitamente sofreram uma espécie de tração. O cometa que antes estava após a segunda estrela do sistema, voltara mais atrás. Exatamente onde estava dois meses antes.

Foi um susto incômodo. Procurou a nave com os binóculos novamente, mas não pôde acha-la. Ficou satisfeita com isso. Mas seus interesses pra a noite teriam de esperar um pouco agora. Tinha de procurar a capitã e explicar o que tinha ocorrido.

Seria possível que Doller não tivesse percebido aquela nave por lá?

****

- Nada no aposento - informou Diana após cuidadosa análise com o tricorder.

Anderson, Oshiro, Diana e Abramovich, sentaram-se a mesa daquele alojamento ainda vago, para aquela reunião em particular. Depois das explicações de Abramovich sobre a "área obscura" da Frota na véspera, todos começaram a despertar certas paranóias.

- Meus caros – começou Abramovich – o que decidiram?

- Sobre? – questionou Oshiro.

- Sobre a conversa de ontem.

- Pessoalmente, não tive muito tempo disponível para pensar – disse Diana.

- Acho que ninguém teve – completou Anderson.

- Eu sei – Abromavich olhava para o tampo da mesa, como que cansado – e nem comentamos nada com a capitã.

- Comentar o que? – Anderson falava divertido – desculpe capitã, mas andamos fazendo algumas coisas por conta e... bem, veja só o que achamos.

- Não necessariamente com estas palavras, mas em essência, exatamente isto.

Ele olhou para Diana incrédulo.

- Muito bem, você fala então.

- Não creio que eu tenha a capacidade política para tanto.

- Independente de quem tenha – tomou a palavra novamente Abramovich – temos de decidir se iremos comentar algo com ela ou não.

Silêncio. Aparentemente, não sabiam bem o que fazer agora.

- Então? - perguntou Oshiro olhando para cada um ao redor da mesa - devemos faze-lo ou não?

- Ela é nossa capitã - respondeu o chefe de segurança - e não devemos deixa-la no escuro. Jevlack não gostaria disso.

- Como a capitã já disse, não estamos na Thunderbold - disse Anderson sem conter um sorriso.

- Mas somos os oficiais da nave, em quem a capitã precisa confiar - informou Diana, com seu olhar distante.

Ela não parecia estar prestando atenção na conversa, mas todos sabiam que ela, como vulcana, sabia exatamente o que estava ocorrendo ali.

- Afirmativa lógica - disse Anderson olhando para ela. Ele ainda achava que ela devia ser mais emotiva.

- Se juntarmos tudo, o que temos?

- Bem Oshiro - respondeu Abramovich - temos possíveis naves camufladas ou satélites de observação naquela Lua, uma fonte de força de poder inconcebível na base, um monte de dados gentilmente fornecidos por Tirvik, pelo intermédio de Matias, e um obcecado Lopes cutucando todos aqui. Parece que botaram a Xanth no meio de um monte de intrigas.

- E, provavelmente, essas intrigas não são de nossa conta e pouco podem nos afetar - complementou Oshiro.

- Com certeza - afirmou Diana - É do meu conhecimento que o senhor Doller andou fazendo análises daquela lua. Amostras de rocha foram retiradas via teleporte. Segundo minha investigação, essas amostras vieram de regiões com fraturas geológicas. Possivelmente muito antigas.

- Então, considerando que Doller esteve se reunindo muito com a capitã, é possível que eles mesmos estejam fazendo sua própria investigação. Sem solicitarem ou necessitarem de nossa ajuda - concluiu Anderson recostando-se no assento.

- Apenas as altas patentes desceram para o satélite, e o senhor Anderson foi convocado para a USS Rocama - disse Diana observando-o

- Eu já disse, me deram umas ordens secretas e aquele disco com aquelas informações, que sem dúvida foi um favor da capitã Tirvik. Já o entreguei. – Suspirou - É uma pena ela não ainda não conhecer essa nossa forma de agir.

- Então, teremos de criar essa oportunidade, e aproveitar para informar tudo o que possuímos - disse Abramovich.

- Que tal na próxima reunião? Vamos ter uma em dois dias. Acho que é a melhor momento - adiantou-se Oshiro.

- Concordo, mas temos de tirar os inconvenientes da sala - disse Diana.

- Maneira educada de se referir a Lopes - Anderson sorriu para ela.

- Estava apenas sendo lógica - respondeu olhando-o, mas dessa vez, seu olhar não estava distante.

Na verdade, parecia até levemente divertido. Seria aquilo o mais próximo que um vulcano chegaria de uma piada?

- É hora de decidirmos. Vamos contar tudo a ela na próxima reunião? - perguntou Anderson.

Todos concordaram com a cabeça. Era hora de tudo ser posto a mostra. E ele esperava que ela também comentasse sobre o que tinha naquele disco...

****

Desgor olhou ao redor com muita lentidão. Como não sabia se voltaria vivo, queria ver tudo o que pudesse em detalhes. Não estava propriamente com medo, mas sim com um pesar. Pesar de que talvez nunca mais pudesse estar com sua companheira, nunca abraçar sua filha que ainda iria nascer, nunca...

- Nós iremos voltar – disse H’irim – acredite em mim.

Desgor demonstrou concordar com a cabeça. O Scout começou a decolar. Não iria ficar esperando eles, pois poderia desaparecer. Coisa similar tinha ocorrido com o lider anterior. Desgor voltou a olhar ao redor. Apenas rochas e um terreno muito irregular. Podia-se ver as montanhas inatingíveis ao longe – poucos dos acidentes geográficos que tinham sido batizados na ilha, pois, como foi dito, ninguém havia voltado dela, salvo o lider anterior – e, a sua frente, o enorme deserto de sal.

Era só aquilo que se conhecia da ilha. Todos os que foram além deste ponto desapareceram. Todas as outras informações que possuíam, eram de fotos de satélites. Todas indicavam a mesma coisa: Uma ilha morta, sem vida alguma.

- Vamos andando.

- Como sabe aonde ir?

- Não sei – disse olhando em seus olhos – apenas vou seguir em direção as montanhas e ver se conseguimos chegar a algum lugar.

- Animador – comentou ele.

Puseram-se em marcha. A sua frente, o deserto branco, atras de si, apenas o penhasco que combatia o mar eternamente.

Sobre todos os aspectos, era uma ilha estranha. Não tinha praias, apenas penhascos a rodeando. Escala-los era praticamente impossível, pois, por algum estranho mistério na natureza, as ondas que rebentavam nestes sempre atingiam mais de sessenta metros de altura.

Durante o desenvolvimento de sua civilização – segundo eles acreditavam, cerca de duzentos mil anos – nenhum dos de sua raça havia posto o pé naquela ilha, até a criação das maquinas capazes de desafiar o céu.

O primeiro a conseguir o feito, fora Ghidder. Imagens foram tiradas para a posteridade deste evento histórico. Na época, os mitos e lendas estavam em franca decadência, face a rápida evolução tecnológica desencadeada pela guerra. Mas esta ainda não era tão global e intensa, o que permitia explorações como aquela.

Claro que cada povo queria mostrar que era superior aos outros. Chegar àquela ilha primeiro, era muito mais importante do que chegar a qualquer outro local.

Ghidder era um Cfer. Foi o primeiro a pisar alí. Foi o primeiro a desaparecer.

Houve outras tentativas depois daquela. Tentaram chegar ao centro da ilha voando mesmo. Os instrumentos ficavam loucos e rajadas de vento vindas do nada derrubavam todas as máquinas. Expedições foram formadas para tentar se chegar as montanhas.

Nenhuma conseguiu.

Com o advento da robótica, tentaram usar máquinas programadas para obter dados. Todas ficavam inoperantes após dois quilômetros seguindo o deserto de sal. O curioso é que as máquinas enviadas, nunca conseguiam encontrar o destino das que as precederam.

Quando a guerra ficou realmente incontrolável, surgiu o mito de que naquelas montanhas – agora já batizadas - havia uma cidade esquecida de um povo mais antigo e avançado que o deles, e que quem conseguisse chegar até lá, venceria a guerra.

Bom, ninguém que tentou se aventurar pelo deserto de sal deu qualquer notícia.

Quando o primeiro satélite espião havia sido lançado – também dos Cfer – a primeira coisa a ser fotografada foi a ilha. Estranhamente, o deserto de sal não era visto. Apenas um pedaço de rocha no meio do mar com manchas escuras.

Mesmo na atualidade, nenhum dado topográfico tinha sido obtido. Não se sabia a altura das montanhas – apenas o cálculo aproximado de quatorze quilômetros – não se sabia por que não se formava neve no topo destas, desconhecia-se a extensão do deserto de sal, e nenhuma explicação para a gama de anormalidades observadas fora feita de forma satisfatória.

Exceto, claro, a lenda.

Mas esta tinha sido tão deturpada com os séculos, que já não havia meios de se conhecer a história original. Só havia uma certeza, Bert’gher era mencionada na profecia do fim de T’hiram: "Na ilha da qual ninguém volta irão buscar respostas, e desta, uma esperança há de surgir..."

A ilha da qual ninguém volta... Para qualquer um dos habitantes do planeta, era evidente qual a ilha a que se referia aquilo. Mas não entendia qual seria bem esta esperança.

Olhou para trás. Já não podia mais ver o local onde pousaram. Pegou o seu localizador e, sem sentir nenhuma surpresa, viu que este não conseguia se orientar. Ele estava captando os sinais dos satélites de localização, mas não conseguia avaliar o ponto em que se encontrava. Pegou o seu rádio, mas estava mudo. Estavam completamente isolados agora, e já tinham avançado além do ponto que olhos tinham visto e voltado para contar a história.

Olhou para H’irim. Ficou impressionado. Ele parecia muito bem a vontade. Com se estivesse passeando em um parque, e não no local mais mortal e desconhecido do planeta.

Mais impressionante que isto era o fato de sentir exatamente o mesmo.

****

(*) Três corpos estão em equilíbrio quando tendem para um triângulo equilátero. Esta é uma das observações do "problema dos três corpos". Um complexo estudo feito sem nenhuma calculadora, porque ainda não tinham sido inventadas. Um exemplo – e prova prática da teoria – são um grupo de asteróides chamados Troianos que formam com Júpiter e com o Sol, um triângulo equilátero. Há ainda um outro grupo, que segue a frente do planeta.

****

Capítulo 11

Ele estava com sono, mal tinha saído da reunião com os outros e já tinha sido chamado pela capitã em caráter de emergência. Anderson checou e checou os sistemas, o registro de posição da nave, a gravação dos comandos, enfim, tudo aquilo que era possível. O que achou como resposta foi o impossível, a nave simplesmente se movera sozinha até aquela posição.

O computador havia recebido os comandos, mas eles não tinham vindo pelos consoles da ponte, nem de qualquer outro ponto. Mais assustador ainda, nenhum registro ou aviso foi emitido para qualquer local. Se a Imediato não tivesse dado uma olhada nas estrelas sem querer, ninguém iria perceber.

A posição da nave, antes da reunião, era de pelo menos quatro meses luz do sistema T’hiram. Pelo que pôde avaliar, ela se moveu para apenas quarenta minutos luz. O que quer que tivesse ocorrido, não foi acaso ou acidente. Foi premeditado.

Fez uma última revisão dos dados para ter certeza absoluta do que tinha visto – algo deste nível sem dúvida seria considerado como sabotagem – e seguiu para o gabinete da capitã.

Anunciou-se e entrou. A capitã estava atrás da sua mesa, bebendo algo que parecia ser alcoólico, Gidja, muito séria, estava sentada a sua frente. Ele sentou-se ao lado dela e aguardou ela solcitar o seu relatório.

- Muito bem senhor Anderson – ela parecia cansada – o que foi que aconteceu desta vez?

- Bem, ou aceitamos que o nosso computador ficou maluco e decidiu tomar decisões por conta própria, ou então, temos um sabotador a bordo.

O cansaço de seus olhos subitamente desapareceram.

- "Sabotador?"

- Sim capitã, é exatamente esta a palavra. A nave se moveu para a posição em que estava devido ao computador ter recebido instruções para tanto. Mas estas instruções não vieram de nenhum console, pelo menos, não há registro de onde elas possam ter vindo. Houve instruções adicionais claras dos painéis da ponte e da engenharia registrarem como se ainda estivéssemos no mesmo local.

Ela ficou pensativa. Olhava para a frente, para o nada. Pelo regulamento, deveriam entrar em estado de emergência e apurar imediatamente os fatos, deixando todo o resto de lado.

- Quem teria conhecimento suficiente para programar algo assim? – questionou Gidja.

- Quanto a conhecimento, eu mesmo, Diana, Oshiro e, talvez, Abramovich. Quanto a autoridade, vocês duas. No entanto, não há qualquer gravação da nave que registre algo a este respeito. O estranho é que a ordem foi efetuada enquanto estávamos na reunião. Algo assim não poderia ser pré-programado. Não haveria tempo suficiente para coletar os dados necessários. E mesmo que houvesse, e os registros automáticos tivessem sido alterados, haveria uma falha de sincronização neles. E isto não ocorreu.

- Ou seja, não poderia ter sido feito – comentou de forma distante a capitã.

- Não da forma que possamos conceber – completou Anderson.

- E quanto a segunda hipótese?

- Qual hipótese? - Olhou confuso para Gidja.

- A do computador ter tomado decisões por conta própria.

Esboçou uma careta com os lábios. Não seria admissível. Neste caso, outros comportamentos "estranhos" seriam notados.

- Improvável – respondeu.

- Controle de dominação? – inquiriu a capitã.

- Pensei nisto, haveria o registro de "console externo" nos sistemas.

- E se fosse uma solicitação através deste meio? – perguntou Gidja.

- Como assim? Alguém se conectaria conosco com o controle de dominação e diria ao computador, "Por favor, poderia vir até tal ponto, e não avise ninguém sobre isto"?

- Exatamente – afirmou sem dar atenção a forma jocosa com a qual ele tinha dito.

- Com todo respeito imediato, mas isto é...

- Possível ou não? – ela estava muito séria, de tal forma que ele repensou com prudência a respeito.

- Se acessarem o núcleo lógico de interpretação do computador diretamente, sim, poderia ser feito. Os objetos lógicos e as subrotinas executariam qualquer tipo de comando assim. Mas o controle de dominação não funciona desta forma. Ele não envia instruções interpretativas ao computador, e sim comandos de consoles.

- Há como verificar se ele recebeu algum tipo de instrução assim? – perguntou Lisa.

- Não sei, precisaria de um engenheiro de programação para me dizer como procurar tal coisa.

- Que tal perguntarmos ao próprio computador?

- "Computador, recebeu alguma instrução verbal para nos posicionar mais próximos do sistema de T’hiram e para não informar nada a respeito?" – solicitou Anderson sem muita vontade.

"Afirmativo"

Três pares de olhos se entreolharam, não acreditando na resposta.

- O que? – perguntou Anderson estupefato.

"Afirmativo, foram recebidas instruções claras e detalhadas para posicionar a nave há dois-ponto-zero-seis quilômetros do cometa atualmente ativo no sistema."

- Quem deu a ordem? – perguntou a capitã.

"Instruções solicitadas externamente"

- Especifique externamente.

"De fora da nave"

- Quem foi que solicitou?

"Solicitante não identificado."

Anderson olhou para a capitã. Como o computador atenderia uma ordem de alguém que não pode identificar?

- Computador – ele perguntou – por que acatou as instruções sem identificar o solicitante?

"O solicitante demonstrou ser confiável"

- De que forma? – adiantou-se Gidja antes que alguém esboçasse reação.

Silêncio.

- Computador?

"Aguardando comando verbal"

- Responda a questão da imediato Gidja.

"A fonte é confiável. A forma como tal foi determinado é desconhecida. Possível erro de sistema, necessária verificação global de todas as rotinas"

- Quanto tempo para fazer isto? – perguntou a capitã.

- Fora de uma doca? Uma semana.

- Então comece agora. Peça para o pessoal do turno iniciar os trabalhos. Amanhã você assume. Primeiro garanta que possamos prosseguir com a missão. Do contrário, iremos diretamente para a doca espacial mais próxima. Dispensado.

Ele achou estranho aquela ordem final dela. Foi quase como se quisesse que ele caísse fora para conversar a sós com Gidja. Considerando que fora ela quem suspeitou da "solicitação externa", talvez fosse verdade.

Saiu da sala e olhou para o pessoal da ponte. Eles pareciam bem curiosos. Seguiu até o turboelevador para engenharia. Ele já tinha suas ordens.

****

- Muito bem minha cara – começou Lisa com uma certa ameaça na voz – de onde tirou essa idéia, correta, de que nosso computador recebeu ordens?

- Quando Anderson comentou a forma como ocorreu, me lembrei de incidentes similares na Base Antares.

- Similares?

- Sim. As naves as vezes iam para determinada posição sem motivo lógico. Só depois de alguns anos é que descobrimos que os computadores daquela Base que encontramos naquela lua conseguiam se comunicar com os nossos. Aparentemente, eles nos consideravam como "tráfego interestelar", e davam instruções para nos posicionarmos adequadamente. Como se estivéssemos em uma rota comercial de naves.

A explicação dela era mais incrível do que o evento em si.

- Como conseguiam isto? E porque o mesmo ocorreu aqui?

- Enquanto fiquei por lá, isto nunca foi descoberto. Quanto a porque isto nos ocorreu, bem, lembre-se de que há um satélite aqui feito pela mesma raça que construiu aquela base. É bem possível que ele tenha detectado nosso computador e feito algum tipo de coordenação com ele. Ao menos, é a única explicação que tenho para o que aconteceu.

Ela maneou a cabeça levemente. Tinha esquecido do satélite completamente.

- Existe mais alguma coisa de que você se lembre que pode nos causar mais surpresas?

- Sim, nossos computadores podem entrar em uma interface e fazer uma gigantesca troca de informações. Mas não seremos avisados disto.

- Que tipo de informações? – ela ficou subitamente interessada.

- Realmente não sei. Ainda não tínhamos conseguido decodificar quando saí da base. Mas nosso computador também envia dados, praticamente tudo o que possui. A única indicação de que isto está ocorrendo é uma lentidão para executar comandos verbais.

- Qual o perigo que isto nos representa?

- Em sessenta anos, nunca houve qualquer perigo.

- Você quer dizer que ainda não houve perigo. Gidja, por enquanto, iremos executar a missão de acordo com o planejado, mas, se em qualquer instante, surgir uma surpresa, eu quero que tudo seja abortado.

- Sim capitã. Mas...

- Sim?

- Bom, a senhora já tem motivo de sobra para fazer isso. Poderia me explicar por que irá insistir?

- Até poderia – sorriu levemente – mas não quero. Dispensada. Vê se dorme um pouco.

- Sim capitã.

Observou Gidja sair do gabinete. E se voltou para o seu terminal. Não estava bem certa se deveria fazer aquilo, mas precisava de respostas. E muitas. Acionou o terminal e solicitou uma comunicação com o almirante Darless. Ele já era reformado fazia alguns anos, mas seu nome constava na lista do disco que Tirvik tinha lhe dado. Na verdade, para a missão em T’hiram ela tinha recomendado falar diretamente com ele.

Segundo o banco de dados, ele estava na estação espacial 332, com um atraso de comunicação de dez minutos. Enviou uma mensagem confidencial para ele, explicando um pouco de sua situação – não os detalhes – e perguntando se havia algum risco possível.

Voltou a sua mesa e analisou os relatórios dos chefes de pessoal. Cada departamento requisitou uma gama de amostras, incluindo seres vivos mais desenvolvidos. Não iria aprovar aquilo, mas as amostras de minerais seriam até pouco problemáticas de se conseguir.

Depois de quase uma hora analisando, aprovando alguns itens e rejeitando a maioria deles, o terminal sinalizou uma resposta.

Ela levantou a cabeça e ficou olhando para ele. Não esperava que fosse tão rápido. Foi até ele e abriu a mensagem também confidencial. Esperava uma pergunta do tipo "de que diabos você está falando?" mas o que leu a deixou pasma!

"Não há perigo algum para a sua nave ou seus tripulantes. Comande o computador para requisitar autorização sua quando for executar comandos de fontes confiáveis não identificadas que sempre saberá o que está ocorrendo. Se precisar de mais informações, espere dois dias ou entre em contato com Duzok, na estação solar 70. Estarei passeando com meus netos nas cavernas de Genebra IV. Almirante Darless."

Ele não só entendeu o que tinha pedido como provavelmente sabia exatamente o que estava acontecendo. Continuou olhando para o monitor sem reação por mais alguns minutos, até que, por fim, apagou a mensagem e retornou para a mesa.

Bem, finalmente tinha conseguido uma resposta. Na verdade duas: Se havia ameaça a sua nave e para que servia aquela lista de nomes.

Servia para obter informações não autorizadas da Frota. Em outras palavras, espionagem.

- Computador, envie mensagem para a USS Rocama: Capitã Tirvik, entrar em contato comigo assim que possível, Donner.

"Mensagem enviada."

O que Tirvik queria ao lhe dar aquela lista?

Levantou-se e olhou sobressaltada para a porta. O Blip havia tocado. Olhou para as horas. Onze da noite. Quem poderia ser?

- Entre – disse logo após se sentar novamente.

Bertram, carregando uma garrava, entrou no gabinete e sentou-se a sua frente. Pos a garrafa na mesa e mais dois copos. Era um whisky.

- Mas o que significa...

Ele ergueu a mão para ela indicando para que esperasse um pouco. Abriu a garrafa e encheu o primeiro copo. Enquanto o fazia, começou a falar.

- Tive um professor que me ensinou uma das tarefas mais estranhas e necessárias de um oficial médico a bordo de uma nave – ele terminou de encher um copo e passou para o outro – acalmar o capitão quando necessário, para que este possa tomar suas decisões de cabeça fria.

Terminou de encher o outro copo e colocou a garrafa na mesa. Pegou um dos copos e o ergueu, aguardando ela fazer o mesmo.

- Um professor lhe ensinou a embebedar o capitão? – ela sorriu irônicamente.

Ele dobrou a cabeça para o lado, mas não respondeu. Olhou desconfiada para a bebida. Meio a contragosto, a pegou e bateu no copo dele.

- E ao que estamos brindando?

- A sua primeira decisão arriscada neste comando.

- Como?!

Ele bebericou um pouco e olhou para ela divertida.

- Acredito que, antes de se tornar capitã, deve ter percebido que notícias se espalham pela nave.

- Eu sei mas... tão rápido assim?

- Esqueceu a tripulação que possuí? – ele sorriu – Quando a imediato ordenou que a nave fosse afastada, logo se espalho a informação de que haviamos nos movido de forma estranha. Facilmente confirmado quando viram o engenheiro chefe pesquisando e interrogando todos na engenharia.

- Bem, isso eu já esperava. Devem ter comentando muito isso nas áreas recreativas.

- Exato! – frisou – o melhor local para aferir a moral e o estado de espírito da tripulação é nas áreas recreativas, prestando atenção aos seus comentários, e aos seus temores.

Ela olhou para o copo e finalmente tomou um gole. Muito bom.

- Aprendeu isso com o seu professor também? – questionou já um pouco mais relaxada.

- Sem dúvida.

Ela bebeu mais um pouco e colocou o copo na mesa. Notou que o dele já se encontrava na metade.

- Como soube que eu gosto de bebidas?

- O computador me disse – ele quase riu – como sabe, existem regras que proíbem que se ingira bebidas alcoólicas durante o turno ativo. Caso alguém as quebre, isto fica registrado.

Ela se lembrou de que tinha feito isso logo no começo daquela missão. Ficou levemente corada.

- Me pegou – disse – eu fiz isto mesmo.

- Não se preocupe. Não vou fazer nenhum relatório a respeito.

- Por que exatamente está aqui? – seu rosto ficou sério.

- Capitã – ele abaixou os olhos por alguns instantes – Lisa, você tem uma tripulação fantástica. Muito experiente e que já passaram o diabo juntos muitas e muitas vezes. Eles sabem muito bem como o capitão da nave deve proceder. Enquanto ele faz o que esperam, isto é, dentro das qualidades que notaram neste, eles não tem nada a temer. Do contrário, ficam temerosos. Muitas vezes com razão.

Ela estreitou os olhos. Não estava entendendo bem o que ele queria dizer. Como assim não fazer o que eles esperavam?

- Seja mais específico – solicitou ainda mantendo a calma.

- Muito bem. Eu estava há pouco na área recreativa dois. Jogando conversa fora e perdendo feio para Diana no xadrez. Muita gente estava conversando em voz alta por lá.

Ele tomou outro gole, Lisa o imitou.

- Bem, claro que o assunto mais em evidência por lá havia sido a nossa posição tão próxima ao sistema. Muitos comentavam como aquilo poderia ter ocorrido. Outros comentavam que Anderson estava investigando a respeito. Naturalmente imaginavam algo muito errado acontecendo.

- Isso me soa muito natural – comentou ela.

- Sim, para mim também. A auxiliar de Anderson tinha chegado ali e comentou que iriam avaliar toda a programação do computador principal.

- E foi isso que os deixou preocupados?

- Longe disto! Era exatamente o que esperavam que você ordenasse. Temos poucos novatos a bordo, a grande maioria da tripulação sabe das causas prováveis para explicar o que tinha ocorrido. E praticamente todas giram em torno da confiabilidade do computador principal.

- Ainda não entendo doutor, o que quer exatamente me dizer?

- Há alguns momentos atrás, Gidja entrou na mesma sala e começou a jogar conversa fora também. Claro que a questionaram sobre a sua decisão, e, naturalmente ela foi muito evasiva quanto as respostas. Até o momento em que alguém da área geológica perguntou por quanto tempo a missão estaria suspensa.

Lisa pegou o copo e tomou um grande gole desta vez. Já estava imaginando o que viria a seguir.

- Ela disse que a missão não estava suspensa e que iria prosseguir normalmente.

- Foi isto que os assustou? O fato de estarmos possivelmente nos arriscando?

- Não – respondeu ele muito sério agora – o fato de que a sua capitã, que até o momento demonstrou uma faceta cautelosa no comando, ter subitamente mudado de postura.

Ele tinha razão. Sem dúvida eles já estavam habituados quanto a sua forma de agir. Sempre seguindo o regulamento e evitando correr algum risco desnecessário. Quando tinha decidido prosseguir com a missão, foi mais devido ao fato de que pelo menos a base principal poderia ser instalada sem problemas. Mas não tinha levado em conta a reação de seu pessoal para isso. Gidja mesmo a tinha questionado sobre aquilo, uma hora antes.

- Acha que devo voltar atrás?

- De maneira alguma – disse ele – isso pode causar mais temores. Aconselho a ir até o fim.

- Então porque veio?

- Primeiro, para convida-la para um drink, segundo, apenas para mante-la informada deste fato.

- Me parece que existe um terceiro motivo. – comentou ela.

- Bem, já que estou aqui, gostaria de um conselho.

- Sim?

- Conheci recentemente uma moça maravilhosa. Mas a patente dela á maior que a minha. Estou meio receoso.

- Receoso?

- Sim. Como acha que devo agir para convida-la para um jantar?

Ela pensou um pouco.

- Acho que deve ser sincero, e falar com ela fora do turno. Quando está pensando em convida-la para este jantar? Posso ajudar dispensado-a do turno.

- Logicamente, quando sairmos deste sistema. Vamos demorar um pouco até iniciarmos os trabalhos no próximo. Acredito que deva ser na segunda feira.

- Aceito – disse ela sorrindo – mas aviso que não sou fã de peixe.

Ele ficou com a boca aberta.

- Como?

- Acha que também não tenho alguns meios de saber algo que ocorre ao meu redor? Sei como andou olhando para mim ultimamente. Além disso, temos a mesma idade e ambos fomos promovidos muito cedo. Ninguém vai estranhar isto. Não será nenhum inconveniente ao meu posto, muito menos ao seu.

Ele ficou vermelho. Era divertido ver aquele grande "sabe-tudo" sem saber o que falar.

- Obrigado.

- Eu que agradeço a visita e o drink. Como soube que gosto de whisky?

- Tenho minhas fontes – respondeu com a mesma entonação que ela usou.

Fizeram mais um brinde, desta vez ao encontro da próxima segunda.

- Só uma pergunta - disse ela sorrindo - quem é esse professor tão sábio?

- Quem mais? O almirante Macoy...

****

Capítulo 12

Abramovich terminou de fazer a avaliação de rotina da nave auxiliar. Em algumas horas, iria partir com ela rumo ao planeta, para determinar o melhor local para instalar a base.

Sempre ficava animado ao pilotar aquele tipo de nave. Via as coisas in loco, sem uma tela ampliando-as. Podia sentir o movimento da nave, quando esta se inclinava, ou se aumentava a sua potência.

Mas não estava muito animado agora. Isso porque Lopes iria junto. Sentia uma grande vontade de deixa-lo por lá mesmo. Esse indivíduo em questão conseguiu ser antipático com toda a tripulação.

A partida ainda estava necessitando de confirmação, pois Anderson não tinha terminado a as análises sobre a segurança do computador principal da nave. Assim sendo, ele estava simplesmente ocupando o seu tempo com análises cartográficas feitas sobre o local a ser sobrevoado. Já tinham um plano de vôo bem definido, para escapar dos sistema de detecção do planeta.

"- Senhor Abramovich, sua presença está sendo solicitada no gabinete da capitã"

- Estou a caminho - respondeu saindo da nave e indo a passos um pouco rápidos para o turboelevador mais próximo. Poucos minutos depois, a capitã o estava recebendo.

- Bom dia capitã, o que deseja?

Ela desviou os olhos da prancheta que estava lendo e fez sinal para que ele tomasse o assento. Após ele ter se sentado, pôs a prancheta de lado e cruzou os braços, assumindo uma postura um tanto estranha, como que preocupada e desconfiada.

- Senhor Abramovich, o engenheiro Anderson terminou as análises principais do computador principal e informou que, ao menos para o momento, ele está confiável para prosseguirmos com a missão.

Ela fez uma pausa breve, e então continuou, quase que suspirando.

- Como sabe, sua missão em breve será de ir até o planeta e determinar o melhor local para a instalação do posto em terra. E, infelizmente, sou obrigada a, no interesse da missão, lembra-lo de duas coisas.

Ela fez outra pausa, maior desta vez.

- Estou ouvindo capitã - disse ele de forma amável, de forma a instiga-la a continuar.

- Primeira: Lembre-se de que sua função, como chefe de segurança, é garantir a integridade da nave, da tripulação e dos passageiros. Incluindo ai o senhor Lopes.

Ele fechou os olhos, ele sabia disto, mas não apreciou muito que a capitã o lembra-se do fato. Ele já tinha se resignado a ficar muito humilde na presença de Lopes durante as próximas horas. Não valia a pena ir a corte marcial pela satisfação de quebrar aquela cara. Bom, talvez...

- Segunda: Se Lopes começar a exigir coisas, tem ordens diretas para quebrar os dentes dele.

- O que????

Ela sorriu.

- Foi uma brincadeira. Apenas tente contornar a situação da melhor forma possível. Sei que ele irá sem dúvida tentar colocar este módulo onde queria originalmente, há três quilômetros do centro de pesquisas. Me diga uma coisa, seria muito arriscado esta instalação?

- Sim capitã - respondeu sem hesitar - seria. Na verdade, em minha opinião profissional, acredito que a instalação do módulo não deva ser feita.

- Opinião anotada - disse sorrindo - mas já é voto vencido. Eu quero Lopes fora daqui até a semana que vem.

- Sim senhora.

- Dispensado. Devemos nos posicionar em algumas horas. Quando começarmos a instalação da base no asteróide, vocês partem.

Ele se levantou e saiu do gabinete. Mas sentiu um pesar pelas "ordens" de quebrar os dentes de Lopes não serem para valer.

****

Doller revisou os seus dados. Estava um pouco nervoso por ser a primeira vez que entrava em ação para valer, ainda mais em uma ação um pouco delicada como aquela: Instalar uma base em um asteróide, ocultados por uma das luas do planeta.

Mas não era bem este o motivo de estar nervoso. Durante o "incidente" da véspera, os sensores da nave coletaram uma gama de informações sobre aquela sonda, ou melhor, aquela nave dos t'hirianos. Em especial, dados sobre a constituição de certos componentes internos, bem como a captação de uma leve distorção no espaço ao redor dela.

Tudo indicava a mesma coisa: Aquela nave funcionava com princípio de motores de dobra. Eles estavam a um passo de explorar o espaço, o que significava que eram muito mais avançados do que se poderia imaginar. E se os seus sistemas de detecção também tivessem avanços similares?

Ele não tinha como responder a esta pergunta, exceto que agora deveria agir como um espião em uma fronteira inimiga, e não como um pesquisador tomando o cuidado de não causar transtornos.

Quem teria sido o imbecil que classificou o planeta como contato proibido? Um povo com tal nível de conhecimento, mas com algum problema cultural que possa tornar o contato um risco expressivo, era apenas deixado em paz até começar a alcançar as estrelas. Na verdade era até um espécie de vergonha enviar observadores para isso.

Alguma coisa estava começando a não fazer muito sentido naquilo. Mas a capitã disse para seguir em frente, assim, apesar de seus temores, ele confirmou o inicio da operação para dentro de duas horas.

As equipes já estavam terminando de testar e configurar os vários componentes pré moldados da base. Seria uma operação simples, apesar de demorada.

Levantou-se um pouco e seguiu até a vigia de seu aposento. Ele gostava de poder, sempre que possível, efetuar seu serviço ali. Claro que como oficial de ciências, isto era algo raro de ocorrer. Era sempre exigido na ponte para opinar sobre literalmente qualquer coisa de estranho que aparecia. Talvez fosse melhor ter escolhido uma outra carreira.

Olhou para o espaço através da vigia e observou os pequenos pontos opacos. Quase sempre conseguia se acalmar assim.

Infelizmente, esta era umas das exceções...

****

Desgor olhava para o céu estrelado. Em alguns minutos iria amanhecer e eles se poriam novamente em marcha. Até aquele momento, nada de estranho tinha ocorrido, exceto, claro o fato de estarem isolados do resto do universo. Mas, fora isso, estava tudo bem.

Ele não estava com sono, e na verdade, mesmo que estivesse, não conseguiria dormir. Quem diria que o líder de todo um planeta, que mantinha a esperança e união de milhões, roncava daquele jeito? O destino tinha formas estranhas de mostrar que, os grandes homens da histórias era simplesmente aquilo... homens.

Será que os outros grandes nomes também roncavam?

Sorriu com o pensamento. Olhou para as montanhas inatingíveis e avaliou que ainda demorariam mais dois dias para chegar até lá.

Seus equipamentos já não funcionavam. Parecia que suas baterias estavam esgotadas. Teria achado estranho aquilo em qualquer local do globo, mas não ali.

Pelo menos aquilo corroborou para sua teoria. Havia uma explicação já antiga para justificar o que ocorria na ilha. Um poderoso campo magnético devia ser gerado nas montanhas no seu centro. Isto causaria todas as desorientações dos equipamentos verificadas nas últimas décadas. Mas não explicava muitas outras coisas.

- Bom dia.

Tinha se distraido tanto que nem reparou que o barulho tinha parado.

- Bom dia - respondeu ele - infelizmente, acho que não será possível lavar o rosto.

- Não se preocupe, me diga, eu ronquei muito?

- Bem... acho que metade do planeta deve ter dormito tranqüilamente.

Ele se levantou rindo da brincadeira e, após um rápido desjejum de suas rações, puseram-se novamente em marcha. Suas provisões iriam durar apenas cinco dias.

****

- Eu insisto em pelo menos, avaliarmos a situação no local.

- Senhor Lopes - respondeu um fatigado Abramovich - eu tenho minhas ordens. O limite do sobrevôo é de quarenta quilômetros de qualquer criatura inteligente localizada no planeta, ademais, esta missão de aferição do local de instalação do módulo é secundária, o principal objetivo é coletarmos as amostras autorizadas pela capitão da biologia e geologia do planeta.

Lopes simplesmente deu-lhe as costas e entrou na nave auxiliar.

- Comandante Gidja - disse ao pressionar o seu comunicador - solicito confirmação da posicão da nave.

"- Estamos ocultos pela lua do planeta. Seu tempo limite é de oito horas, por favor, atente para o horário."

- Entendido. Partiremos assim que formos liberados, desligo.

Entrou na nave auxiliar, e, assim que verificou os sistemas, a fechou. Juntamente com eles iria a alferes Dherna, uma andoriana que estava prestes a receber uma promoção. Sua preocupação em não cometer qualquer erro era tanta, que constantemente ela revia o que deveriam fazer e coletar.

- Tenha calma alferes - disse Abramovich - deixe para fazer isso quando pousarmos.

- Sim senhor - respondeu ela um pouco hesitante.

Felizmente, Lopes permanecia silencioso.

****

Oshiro observou atentamente para o cronômetro. A operação era considera de alto risco, avançar em direção ao planeta se ocultando por detrás de qualquer corpo celeste que estivesse no caminho.

No momento, estava aguardando atrás de um asteróide razoável - de uns setecentos metros – a abertura necessária para o avanço final, em que colocaria a nave atrás da lua do planeta.

Como havia o risco de poderem localizar o lampejo de sua entrada em dobra, tinha de esperar que algum corpo celeste se interpusesse no caminho seguido pelo luz do lampejo. Evidentemente, era algo quase que inútil, pois os t’hirianos possuíam vários satélites telescópios, de forma que nunca todos eles eram obliterados. Mas nada como tentar minimizar essa possibilidade.

Alguns minutos de prontidão e então, a luz verde acendeu em seu console. Ele efetuou o comando e, em poucos segundos, a USS Xanth "estacionava" atrás da lua mais afastada do planeta. Fez algumas correções para que a sua órbita ao redor da lua coincidisse com a translação desta, de forma que sempre ficassem ocultos.

- Capitã – disse assim que completou a tarefa – estamos em posição.

- Muito bem – respondeu ela – Senhor Doller, o comando da missão, no momento é seu.

- Eu agradeço.

Doller levantou-se e seguiu até a central de pesquisas. Iria iniciar e coordenar as operações de lá. Sem mais nada para fazer, Oshiro assumiu uma posição mais relaxada e ficou observando a tela. Algumas sondagens – todas passivas – já estavam sendo feitas na lua, e seus resultados eram apresentados nesta.

Uma coisa que lhe chamou a atenção era que a lua possuía um forte campo eletromagnético, algo incomum para um astro "pequeno" como aquele – algo próximo ao tamanho de Marte. Bem, isto deveria justificar a sua atmosfera. Seu campo magnético a protegia de ser "varrida" pelo vento solar(*).

Entretanto, apesar disto, não haviam sinais de formas de vida – pelo menos, nada detectado até o momento. O que não deixava de ser um pouco estranho. Bem, era um assunto para a área de pesquisas.

****

Doller sentou-se em frente a sua mesa e começou com os trabalhos. Primeiro, lançou uma sonda para analisar melhor o asteróide escolhido previamente para a instalação da base. Não temia surpresas de última hora, era apenas rotina. Ademais, se realmente fosse identificado algo que impedisse o seu uso, ele já possuía duas escolhas reservas de prontidão.

A sonda ficou em posição para a avaliação e, após longos trinta minutos, obteve toda a confirmação que desejava. Passou a informação para a área de geologia, que iria avaliar o melhor método de proceder para deixar o asteróide "oco", de forma a abrir espaço para a instalação da base.

A dificuldade principal era revestir as paredes da área interna do asteróide de forma a criar um ambiente vedado, implantando também uma comporta para abertura na eventualidade de ser necessário abandona-lo as pressas, devido a uma emergência de qualquer tipo. Fazer tal instalação com o teleporte havia sido considerado como de risco. Teriam de usar naves auxiliares para isso, como confirmado na última reunião, que tiveram na véspera.

Mais uma hora se passou até ser plenamente definido o plano de ação para a instalação. Uma nave auxiliar fora carregada com os equipamentos necessários e apenas aguardava liberação.

Doller verificou o plano de ação e o aprovou, liberando a saída da nave. Vinte minutos depois de ter partido, a outra nave auxiliar, que tinha partido logo após terem chegado a sua posição atrás da lua, informou que estavam efetuando a entrada na atmosfera do planeta, e que tudo seguia conforme o esperado.

Agora ele já podia ter um descanso. A nave só iniciaria os trabalhos em mais uma hora. Apesar de alcançar o asteróide em poucos minutos, seria preciso um tempo adicional até preparar o equipamento e começar a "escavação".

Informou a situação a capitã e ficou olhando para o seu monitor, esperando o desenrolar dos acontecimentos.

****

A entrada na atmosfera foi um pouco mais turbulenta do que esperava. Apesar de possuir uma gravidade ligeiramente inferior a da Terra, sua atmosfera era mais densa. Nada que não pudesse contornar com facilidade, mas não foi capaz de evitar alguns solavancos, fato infelizmente comentado por Lopes, com seu ar superior e irritante.

Estavam há trinta quilômetros de altura e desciam velozmente. Esperava não ser detectado pelos sistemas de radar dos nativos. Pelo scanner, estavam fora de qualquer cobertura destes.

Deixou a nave pairando em cerca de quatro metros do solo e solicitou a alferes que efetuasse uma busca por formas de vida humanóides. Depois de um longo tempo efetuando as análises, foi constatado que, pelo menos em um raio de oito quilômetros, estavam completamente isolados.

Satisfeito, moveu a nave até um local mais aberto e a pousou. Aguardou a checagem de rotina na atmosfera confirmar que era seguro sair e, só então autorizou o desembarque. A missão de coleta começara.

Lopes ficou dentro da nave, utilizando os recursos desta para captar as transmissões dos satélites de observação que a Federação havia deixado em órbita do planeta efetuar análises da região em que estavam.

Abramovich, por sua vez, tinha preocupações mais imediatas. Foi até o compartimento de carga da nave e pegou o primeiro containner com as caixas para acondicionar as amostras que iriam levar. Começou pelas mais fáceis, amostras de ar, solo da região em que estavam, algumas amostras vegetais, etc.

Aproveitou e coletou também diversos insetos que localizava com facilidade. Muito parecido com a Terra, aquele planeta. Uma hora depois, já estava efetuando o trabalho mais duro. Uma sonda penetrava profundamente no solo para obter um longo cilindro de amostragem, incluindo mais um metro de rocha sólida.

A alferes também ficara muito ocupada. Fazia medições barométricas e fotografava tudo o que via. Coletou vários tipos de frutos das árvores e até conseguiu pegar um pequeno roedor, que deveria deixar o doutor Bertram muito feliz.

Em mais duas horas, encheram totalmente os containners com as amostras. Em nenhum momento, Lopes saiu de dentro da nave. Quando Abramovich voltou para informar que agora iriam determinar o local da instalação do módulo, viu que ele estava - aparentemente sem sucesso – obter dados sobre uma ilha que estava sendo monitorada por uma das sondas da Federação encarregadas de observar aquele mundo. A expressão de fúria em seu rosto demonstrava isto claramente.

- Terminamos com a coleta – informou ele assim que tomou o assento – devemos efetuar a parte que lhe concerne na missão em mais alguns minutos.

Ele balançou a cabeça em afirmativa, mas era evidente que não estava interessado.

Assim que a alferes entrou – com um largo sorriso pela parte dela ter sido um sucesso – ele acionou os motores e seguiram em direção ao centro de pesquisas principal do planeta. Se ele se lembrava bem dos relatórios preliminares, os habitantes o chamavam de Cidade Científica.

Foi uma viagem rápida. A poucos metros do solo, seguiram em alta velocidade até a distância limite de vinte quilômetros. Abramovich olhou ao redor e com relativa facilidade identificou o local pré estipulado para o módulo. Mostrou a Lopes e ele, de forma desinteressada, aprovou.

Que estranho, parecia que agora ele não tinha mais nenhum interesse naquilo. O que será que ele não conseguiu daquela ilha que o deixou tão abatido?

Sem mais o que fazer, Abramovich começou a verificar os motores para efetuar a saída de órbita. Tal rotina era obrigatória, e, salvo emergência de evacuação, o não cumprimento dela poderia resultar em graves punições. Seria muito desconfortável ter alguma surpresa e não poder vencer a atração do planeta, ou pior, iniciar uma reentrada descontrolada, principalmente em um mundo de contato proibido.

Foi neste instante que os sensores detectaram três sinais avançando em sua direção.

****

Os jatos avançavam velozmente, em velocidade máxima, rumo ao local onde ocorreram os sinais esporádicos do que foi classificado como uma "presença desconhecida".

Já fazia muitos anos que tal não ocorria. Apesar do empenho global de viver em paz e recuperar o planeta, alguns poucos grupos extremistas ainda causavam problemas. Especialmente depois que localizaram alguns antigos bunkers, com armas e caças da antiga guerra.

O problema fora resolvido de uma forma bem direta: Diga onde querem ficar e não os incomodaremos. Eles disseram, e algumas regiões do planeta foram reservadas a eles. Satisfeitos, e até surpresos, eles basicamente usavam os equipamentos recuperados para patrulhas e raramente saíam do seu território.

Houve, logicamente, alguns casos daqueles que "queriam um pouquinho mais", coisa que era rapidamente resolvida com um ataque total, fulminante e até mesmo, imoral contra os perpetradores.

Era uma solução radical, mas a posição do líder era clara, ou coexistimos pacificamente, ou coexistimos pacificamente, nem que tenhamos que ficar sozinhos.

Os outros grupos entenderam a mensagem, e ficaram quietos em seu canto.

Agora, mais de dez anos depois, surgia novamente a indicação de "tráfego aéreo não autorizado". Todos os grupos disseram que seus aviões estavam fora do local, e todos consentiram em que o intruso – caso fosse isso – poderia ser imediatamente destruído. Assim sendo, a ordem de interceptar e destruir foi dada.

Os três caças já tinham chegado ao local do primeiro sinal, e agora seguiam rumo ao mais recente, um "fantasma" no radar global há cerca de vinte quilômetros da cidade científica.

Dada a importância estratégica e insubstituível desta, a autorização de usar poder letal já estava dada previamente. Se fosse alguém passeando em um avião caseiro, haveria um pedido de desculpas a família do pobre infeliz, bem como um pensão vitalícia para a mesma. Mas o objeto, fosse qual fosse, deveria ser eliminado.

Há dez quilômetros de distância do objeto, os analisadores começaram a esquematizar a forma do mesmo. Os pilotos reconheceram imediatamente que era algum tipo de veículo aéreo, mas a sua forma era muito diferente, em especial por não possuir asas para se sustentar.

Nenhum deles se incomodou com isto mais do que alguns instantes, todos armaram seus mísseis e os dispararam quase que imediatamente.

****

Abramovich abortou a verificação dos motores e acionou força máxima assim que o computador identificou que estavam sob ataque. Mas teve uma surpresa muito desagradável! Os mísseis eram mais rápidos que a nave auxiliar. Devido a estarem em uma atmosfera, ele tinha que manter uma velocidade máxima de oito vezes a velocidade do som, para evitar que a nave fosse vaporizada pelo atrito, mas os mísseis chegavam a dez vezes o som.

Ele só tinha alguns segundos para fazer algo, e fez: igualou a velocidade, apesar do aviso do computador e do protesto da fuselagem. Lopes ficou branco e a alferes encolheu-se e fechou os olhos, não acreditando que aquilo estava ocorrendo.

Só precisavam suportar a pressão por mais alguns segundos, pois em breve sairiam da atmosfera e poderiam ir mais rápido ainda. E foi exatamente o que fez, mas novamente houve uma surpresa: No espaço, os mísseis continuaram a persegui-los, alcançando uma velocidade impressionante, se considerado que eram de origem de um povo "menos tecnológico" que eles.

Felizmente – e com uma mistura de susto e alívio – os mísseis pararam de acelerar e seguiram a deriva, desviando-se deles. O combustível dos mesmos deveria ter se acabado.

- Maldição – tinha sido o único comentário de Lopes.

- Graças – comentou a alferes – pensei que perderia a vida logo quando ia ser promovida.

Abramovich concordou com a cabeça, mas estava concentrado na frase de Lopes. Ele sabia o porque dele ter dito isto. Eles não só foram detectados como fizeram, na sua fuga, algo que iria chamar muito a atenção das forças armadas do planeta. Dependendo do que ocorresse, a instalação do módulo – e até toda a pesquisa em si – poderia ser definitivamente cancelada.

Seguiu em velocidade máxima de volta para a Xanth. A capitã deveria decidir o que fazer agora.

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(*) O vento solar é muito mais poderoso do que se imagina, supõe-se que 2/3 da atmosfera de Marte tenha sido "arrancada" do planeta por ele. O Vento Solar atinge a atmosfera de Venus – que é praticamente do tamanho da Terra – com tal força, que isto gera uma "cauda de cometa" que chega até a órbita da Terra. Felizmente, como o nosso planeta possui um poderoso campo magnético, a nossa atmosfera é protegida de tal ataque. É um exemplo claro e eficaz de como um campo de força funcionaria.

****

Capítulo 13

- ..o corpo diplomático e científico da Federação debateu exaustivamente o assunto, e a decisão foi unânime, como nenhuma transmissão captada do planeta concluiu taxativamente que o incidente foi decorrido a visita de alienígenas, a senhora tem ordens de prosseguir com a missão normalmente. Almirante Neves desliga.

Lisa ficou observando silenciosamente o logotipo da Federação surgir em seu monitor. Ela sabia que Lopes tinha feito uma comunicação reservada a sede da Frota quase que ao mesmo tempo em que ela fazia a sua, pedindo uma posição oficial sobre o ocorrido.

Foi na verdade, mais uma questão de protocolo, pois a sua decisão já estava tomada, a missão iria parar ali e ponto.

Que ilusão! Agora tinha ordens específicas de continuar. Antes tivesse feito o que um capitão normalmente faria. Bom, não adiantava chorar agora. Mas uma coisa continuava a incomoda-la... como conseguiram detectar a nave? E aqueles mísseis? Não fosse pelo senso de espirito de Abramovich de efetuar aquela ação de extremo risco, eles teriam atingido a nave.

O asteróide estava quase pronto para que fosse iniciada a montagem da base, quanto ao módulo, os preparativos também estavam encerrados. Era só lançar um satélite para rebater os feixes de teleporte e pronto. O problema era levar a tripulação do mesmo até lá. O local estava sob forte patrulha aérea. Seria impossível leva-los até lá em uma nave auxiliar. Teriam que se expor por alguns segundos para teleportar a tripulação diretamente para ele.

O problema, era que, já que teriam de faze-lo, já não havia um impedimento real de instalar o módulo no local originalmente proposto. Fato que Lopes irá comentar em breve.

Incrível como um sonho se torna um pesadelo de uma forma quase imperceptível. Ela estava no comando de uma nave estelar, mas estava perdendo o controle da situação.

Chamou Lopes até o seu gabinete. Era melhor informa-lo logo da decisão da Federação e deixa-lo contente de uma vez.

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Gidja observava o trabalho de pré fabricação da base que seria instalada. No piso do hangar - o local de maior espaço que tinham na nave - estavam muitas peças pequenas, que se encaixavam entre si. Eram os componentes das paredes internas da base. De formato triangular e ovaladas, quando fossem encaixadas formariam um globo com cerca de oitenta metros de diâmetro.

Esta primeira leva estava quase pronta. Seriam usadas para montar a porta de evacuação de emergência da base. Em mais umas oitenta viagens, toda a estrutura básica da base estaria pronta, faltando apenas a instalação de seus decks e equipamentos.

Apesar de parecer que demoraria muito tempo, o cronograma estava até adiantado, sendo que o prognóstico inicial era a instalação total em cerca de três dias. Não seria um recorde, mas estaria bem próximo a isto.

Saiu de seu canto - gostava de ficar meio escondida observando os trabalhos da tripulação - e foi até um terminal que ficara milagrosamente vago no meio daquela loucura de pessoas trabalhando freneticamente. O depósito da nave auxiliar já estava quase cheio com a primeira leva, e a segunda já estava sendo preparada. Ao chegar, pediu uma visão geral dos esquemas da base. Estava curiosa para saber quais foram as especificações que Lopes tinha exigido.

Não chegou a ficar surpresa, mas achava que aquelas sondas de coleta eram totalmente desnecessárias a uma missão antropológica. O resto era relativamente normal, incluindo um teleporte próprio e um gerador de força bem potente, que seria gentilmente "doado" de uma das naves auxiliares.

Vendo que não era - que surpresa - necessária ali, retornou a ponte, para tentar se sentir mais útil. No caminho, cruzou com o engenheiro que tinha lhe faltado a dois encontros. Nada disseram, mas ela podia ter passado sem aquela lembrança por mais algum tempo.

Na ponte, viu que a capitã não estava e que - interessante - Diana tinha assumido o comando. Ela silenciosamente deixou a cadeira e retornou ao seu posto no tático.

Tomou o assento e observou a tela. Ainda não tinha dito nada a ninguém. Pessoalmente não estava disposta a conversar naquele instante, só queria, como todos, dar o fora daquele sistema e, finalmente começar com a missão principal da nave.

A tela apresentava a lua menor do planeta e alguns dados sobre ela. Nada de excepcional, apenas uma lua com pouca massa e pouco material ferroso, bem diferente da outra, mais distante a qual estavam usando como escudo. O ordenança chegou alguns minutos depois, dando-lhe a prancheta para assinar. Apenas registros burocráticos de rotina.

- Comandante - chamou Oshiro de seu posto sem desviar o olhar de seu console - estou captando uma nave idêntica àquela que estava próxima ao cometa se aproximando.

- Aproximando?

- Sim, creio que esta usando a gravidade do planeta e das luas para aumentar a sua velocidade para ser lançada com grande velocidade.

- Ela vai poder nos ver?

- Vai passar em uma órbita muito alta, acho difícil. Mas podemos bloquear suas comunicações quando estiver próxima.

- Muito bem - ela recostou-se melhor no assento - faça isso. Não vejo a hora de ir embora daqui.

Ninguém disse nada, mas o sentimento era compartilhado por todos.

****

Em seu gabinete, a capitã Lisa Donner efetuava um chamado para o gabinete do comodoro Hyes. Queria deixa-lo a par dos acontecimentos e relatar formalmente que estava em descordo com eles.

Sua ordenança apenas disse para aguardar. Ela o faria. Poderia receber uma repreensão por aquilo, mas, até o momento, não julgava que existiam motivos para tanto.

Aguardou realmente pouco tempo. Logo, o comodoro - uma pessoa bem jovem para o posto - aparecia na tela.

- Comodoro - começou ela - sou a capitã...

- Eu sei - disse ele erguendo o braço e falando de uma forma cansada, quase como se estivesse falando com uma criança mimada - sei quem é você e qual a sua missão. E também sei sobre o que vai querer falar.

Ela ouviu, sem ação, atônita e se sentindo uma amadora, o comodoro lhe falar sobre os aspectos práticos do comando de uma nave estelar.

****

A nave auxiliar estava mantendo uma distância fixa de vinte metros do asteróide. Lopes supervisionava com grande interesse a retirada do material interno deste para a instalação de sua base.

Tinha ficado muito satisfeito com o fato de que sua missão ainda continuava. Apenas lamentava que não tinha conseguido absolutamente nada sobre a ilha. Segundo as crendices dos habitantes do planeta, era um local proibido. Talvez fosse verdade. Nem a mais avançada tecnologia de que dispunha foi capaz sequer de obter dados topográficos.

Mas isso já não interessava. Pelas últimas informações captadas, o líder do planeta estava na ilha. Deveria ter alguma informação útil em breve.

Também estava satisfeito com a instalação do módulo onde queria. Nada como ter conhecidos influentes nos locais certos.

Manobrou a nave auxiliar para retornar a nave. Aproveitou e deu uma olhada no cometa - apesar da distância, era bem visível - e ficou imaginando como seria que eles iriam encarar a sua chegada.

Achou melhor não pensar naquilo. Já tinha muito para ocupar a sua mente. Precisava supervisionar a instalação do módulo bem como o transporte de seus ocupantes. Já os tinha escolhido e achava que iriam suportar a missão muito bem. Eram casados e acostumados a solidão. Uma boa escolha.

Ninguém de sua equipe - que ele tinha selecionado a dedo - continuaria na nave. Neste ponto, estava muito tranqüilo. Aquela capitã não iria descobrir nada sobre qual era realmente sua pesquisa. Não até que fosse tarde demais.

Solicitou permissão para pouso e foi rapidamente concedida. Manobrou a nave - não era nenhum ás - com relativa segurança e a deixou no hangar para que fosse vistoriada para o próximo lançamento. Seguiu diretamente para o seu alojamento e começou a guardar as suas coisas.

Pelo cronograma, a base estaria pronta em pouco tempo. O módulo seria instalado no fim da tarde, quando a área em que iriam instala-lo estivesse escura.

Queria que tudo fosse feito depressa, antes que Doller resolvesse pesquisar um pouco sobre as reais capacidades tecnológicas do planeta. Ficaria difícil manter a ordem de contato proibido se ele o fizesse.

Fechou as suas malas e olhou ao redor. Não, não tinha esquecido de nada. Pelo menos de nada importante. Saiu do aposento e seguiu até a sala de transporte de carga.

O operador estava lá, verificando as coordenadas e sondagens. Também aferia o correto funcionamento do satélite, encarregado de rebater os feixes de teleporte. Estava fazendo alguns testes enviando módulos cilíndricos e retornando-os.

Não lhe deu muita atenção e foi direto verificar os seu módulo. As três partes componentes dos mesmos estavam lá, lado a lado. Cada uma delas estava sendo verificada por um de sua equipe. O projetor de hologramas já estava instalado naquela que seria a parte superior. A parte inferior estava sendo verificada por um de seus inquilinos.

- Está tudo pronto. Só precisamos aguardar o sinal do senhor Doller - informou o operador do transporte.

Ele apenas concordou levemente com a cabeça e voltou a prestar atenção na checagem do módulo.

****

Talvez fosse melhor chama-las de montanhas inescaláveis. Ao chegar ao sopé destas, Desgor olhou para cima, para o topo e teve dores no pescoço. Como aquelas montanhas podiam ser tão íngremes desde a sua base? O ângulo - ali ao menos - era de quase sessenta graus. Eles não tinham equipamento de alpinismo suficiente para tal empreitada. Muito menos mantimentos.

- Sei o que deve estar pensando - disse H'irim - mas não vamos até o topo, apenas até um sopé que fica a menos de cem metros de altura.

Olhou novamente para cima. Não viu nada que se parecesse com um sopé. Um som chamou a sua atenção e viu que ele estava prendendo pregos na pedra com um martelo pneumático.

- Pode não parecer esportivo - ele sorriu - mas não viemos aqui para esporte.

- Sim - concordou - realmente não.

Para sua própria surpresa, tinha sido fácil efetuar a escalada daquela forma. Prendia-se um prego bem comprido, prendia-se a corda nele, subia-se um pouco e o processo se repetia.

Tedioso, mas em poucas horas chegaram ao sopé de que tinha falado. Olhou para baixo e, quase perdeu o equilíbrio. Não pela altura, mas devido ao deserto branco de sal simplesmente ter sumido. Via o mesmo que os satélites deviam ver. Apenas uma grande planície nua com praticamente nenhum relevo.

- Não se preocupe com isso - disse H'irim - tem muito mais surpresas.

- Já esteve aqui?

- Não - disse sorrindo - mas me forneceram uma boa descrição. Vamos, temos que achar duas grandes fendas que se cruzam naquela parede.

Olhou para onde ele tinha indicado. A parede era a continuação da montanha, muito mais íngreme que a base. Não estava muito longe. Em menos de quinze minutos - era estranho aquele sopé ser tão plano - chegaram a parede e começaram a procurar.

Haviam muitas rachaduras nesta, mas eram pequenas e raramente se cruzavam. Quando o faziam, não se propagavam para depois do encontro. Estava achando curioso o referencial que estavam usando. Deviam haver muitas fendas que deviam se cruzar.

Mas quando localizou a fenda, realmente admitiu que o referencial estava correto. Não eram exatamente fendas, eram aberturas enormes, do tamanho de duas pessoas, de tal forma que formavam a entrada de um tipo de caverna. H'irim olhou para o marco que procurava e, abrindo sua mochila, pegou uma lanterna.

- Vamos?

Não esperou sua resposta, ele seguiu adiante dentro da escuridão. Sem ter muita escolha, seguiu atrás. As paredes eram lisas e retas, como se tivessem sido cortadas por algum instrumento de alta precisão.

- O que sabe a respeito de onde estamos indo?

- Apenas que temos de chegar lá e descobrir sozinhos como entrar - ouviu a voz dele, que não quis se virar.

- Entrar? Aonde?

- Isso eu também não sei. Só sei que vamos andar muito. Muito mesmo.

Ficou em silêncio enquanto andavam. Notou que a forma da caverna agora era circular - um círculo perfeito, diga-se de passagem - e que não estava sentindo frio, apesar de provavelmente o calor de seus sois provavelmente nunca ter alcançado onde estavam.

****

- Entre - disse Lisa.

A porta de seu gabinete abriu-se e Gidja entrou.

- O módulo foi instalado - disse ela - a base deverá estar pronta em mais algumas horas. Doller está esperando um bom momento para posicionar a nave e transportar a tripulação para este. E aquela nave dos t'hirianos seguiu para longe do planeta. Não nos detectou.

Lisa ouviu e olhou para o seu monitor por mais alguns instantes, antes de perguntar.

- E Lopes?

- Está na base do asteróide, verificando a instalação dos equipamentos. Acho que ele só volta agora para pegar as suas coisas. Se bem que ele ainda vai participar da última reunião.

- Ótimo - disse ela, voltando a olhar para o monitor.

- Algo errado capitã? Quero dizer, está aqui já faz umas dezoito horas. E parece-me que está abatida.

Ela olhou para sua imediato com o rosto cansado, mas não a estava olhando realmente. Não estava fixando o olhar em nenhum local em especial. Estava pensando na pergunta dela.

- Abatida? - ela sorriu - não, estou apenas muito chateada. Digamos que acabei descobrindo algumas informações não muito agradáveis sobre a frota. Mas não quero falar sobre isso.

- Sobre a "parte secreta" desta?

- Não, nada a ver com o que você fazia antes. Apenas uma questão de certas patentes possuírem... como direi? Uma maneira nem um pouco polida de dizer que tudo aquilo que aprendi na academia não serve para nada no fim do mundo em que estamos.

- Acho que entendo - disse ela, e saiu em seguida.

Talvez entendesse. Lopes conseguira simplesmente passar por cima dela em seu comando. Era como se ele fosse o capitão e não ela. Podia estar contente por ele ir embora de vez e ficar no seu planetinha por décadas a fio. Mas ainda não aceitava muito bem que tudo o que queria fazer de acordo com o regulamento fora simplesmente ordenada a não faze-lo.

"Você não está em uma nave protocolar" - tinha dito o comodoro - "as regras da Frota existem para sabermos em que ponto devemos começar a pensar em conseqüências, e não para simplesmente pararmos. Não seguimos o livro a risca, simplesmente porque as coisas raramente se enquadram nele. Se acredita que não tem capacidade ou determinação suficiente para ir um pouco além dos limites, então deve reconsiderar a sua opção de comandar uma nave".

Sentia-se sem vontade para nada. Ele simplesmente lhe tinha tirado toda a alegria de ser uma capitã agora. Ir um pouco além dos limites... O que ela tinha feito quando comandou a Starfleet era para ter sido expulsa da Frota. Mas era uma situação diferente. Aqui, ela estava, querendo ou não, representando a Federação e, acima de tudo, o que ela mais pregava: A não interferência na cultura alheia.

Sabia que a Primeira Diretriz era um pouco vaga de propósito, pois não existem condições específicas para aplica-la. Mas neste caso ela tinha uma segunda referência: Planeta de Contato Proibido. Não era uma questão de ir um pouco além dos limites, mas de violar uma ordem estabelecida.

Chegou a argumentar tal coisa como o comodoro, mas ele simplesmente não deu a menor atenção. Chamou de "irrelevante para o assunto em questão".

Novamente voltou a prestar atenção no seu monitor. Ele mostrava a lista de nomes que Tirvik lhe dera. Procurava por um que pudesse lhe dar uma idéia do que podia realmente estar acontecendo. Mas nenhum daqueles nomes lhe era conhecido, salvo agora, o almirante Darless, mas este ainda estava passeando com os netos.

Tirvik não respondia aos seus chamados, portanto, só tinha uma pessoa a quem chamar que talvez pudesse lhe dar ao menos algumas dicas do que fazer.

(*)Pediu ao computador para tentar entrar em contato com a USS Chagas. Ficou um pouco surpresa ao descobrir que agora ela se chamava Carlos Chagas...

****

(*) Esta história ocorre ao mesmo tempo que Ossos do Ofício.

****

Capítulo 14

Não sabia se falava com delicadeza ou ia direto ao ponto. Lisa aparentava abatimento e cansaço na tela, especialmente pelo cabelo desarrumado e os olhos avermelhados e fundos. E o que tinha lhe contado deixava claro onde ela tinha se metido. Jevlack apenas baixou os olhos e sorriu involuntariamente.

- Lisa - começou ainda sem olhar para ela - este seu planeta pode ter sido classificado como contato proibido, mas, pelo que estou vendo, o motivo não foi para proteger a cultura de seus habitantes, e sim para evitar que naves da Federação pudessem fazer uma visita.

Olhou para o monitor e percebeu que ela estava confusa. O problema com os jovens capitães, era que ainda tinham muitos dos ideais inocentes que a maturidade cuida de esmagar. Lisa parecia ser um pouco mais inocente que a maioria.

- A Frota esta... usando a norma de contato proibido com outras intenções? - perguntou de uma forma um tanto surpresa.

- Exatamente - disse ele - sei que isso não se parece nada com o que aprendeu na academia, e nem mesmo com o que deve ter visto durante a sua carreira. As vezes, ao encontrar algo muito valioso em um mundo com as características semelhantes a este, na eminência de explorar o espaço, a Frota opta pelo contato proibido para que tal notícia não se espalhe, ao menos até que avaliem bem qual o real valor da descoberta. Mas não fique pensando que está havendo um aproveitamento parasitário. Um segundo motivo é para evitar que aqueles que não devem respeito as ordens da Frota resolvam ver o que pode ser tão valioso. E ai sim, causarem problemas graves.

- Isso - ela ainda não tinha se recuperado da informação - isso é...

- Calma! - ele ergueu o braço para enfatizar - se foi dada a ordem de contato proibido, é que realmente pode ocorrer algum problema cultural no caso de uma aproximação direta. Ninguém vai tentar pegar o que quer que esteja neste planeta a força. Nem mesmo as áreas mais mesquinhas da Federação. Neste ponto pode ficar tranqüila. Mas, também indica que vão tentar obter mais informações a respeito estando perfeitamente tranqüilos de que não serão perturbados. E acredito que esta equipe que você está deixando ai deva ser a responsável para tanto. Se fosse uma missão antropológica normal, vocês deviam ter dado o fora daí logo depois do incidente com a sua nave auxiliar. Ainda bem que Abramovich pensa rápido.

- Foi um dos que você cuidou para estar aqui - ela sorriu com certa reprovação - andei pesquisando.

- E parece que fiz bem.

- Sim - ela suspirou - então, não importa o que eu ache certo, devo simplesmente deixar Lopes fazer o que bem entender.

- Não - ele estava bem sério agora - nada disso. Quando estávamos naquela outra galáxia, você desobedeceu minhas ordens. E isto provavelmente salvou minha tripulação. Agiu como uma verdadeira capitã então. Volte a ser assim. Cautelosa, mas com aquela determinação que me inspirou a fazer o relatório a favor de sua promoção.

- Vou tentar - disse ela sem muito ânimo.

- Tentar não - ele ainda estava sério - faça!

Cortou a comunicação e ficou pensando sobre o que a Frota poderia estar querendo naquele planeta. Mas não ficou muito tempo assim. Tinha sua própria nave e missão para cuidar.

****

Enquanto andava pelo corredor rumo a sala onde teriam - se tudo desse certo - a última reunião com Lopes ainda na nave, Bertran não conseguia evitar de se sentir ansioso para o encontro que teria com a capitã dali a alguns dias, nem de deixar de pensar neste assunto.

Já tinha falado com seus colegas a este respeito, sobre como proceder. Sentia-se um adolescente. Bem, considerando que era a primeira vez que tinha convidado - embora achasse que fosse o oposto - uma capitã, não deixava de se sentir inseguro.

Chegou a porta e, pelo menos ali, sabia que teria distração suficiente para não pensar mais no assunto. Entrou diretamente e viu que quase todos já tinham chegado, incluindo a capitã.

Cumprimentou a todos e tomou o seu lugar. Poucos instantes depois chegou Anderson, e a reunião pode começar normalmente.

- Muito bem - começou a capitã - Lopes informou que não vai participar desta reunião, pois a considerou como "desnecessária" para suas prioridades. Nada de urras, por favor...

Ela olhou para todos com um leve sorriso. Com exceção de Diana, todos também sorriam um pouco.

- Pois bem, estamos para sair deste sistema e voltar a controlar a nave. Conhecendo vocês agora, acho que já devem ter se adiantado sobre o que vamos fazer no setor vizinho. Vou querer saber de tudo depois de seus relatórios sobre a geologia e biologia de T'hiram. Senhor Doller, pode começar.

- Bem capitã - disse Doller ajeitando-se na cadeira - fiz uma analise mais acurada sobre a geologia do planeta. Ele sem dúvida passou por uma guerra global com armas termonucleares, e, ainda existem muitas áreas inabitáveis em sua superfície. A tecnologia deles é muito avançada. Na verdade, avançada demais para um planeta classificado como contato proibido. Talvez...

- Qualquer coisa que tenha descoberto sobre isso - disse a capitã com firmeza - deve ser classificada como confidêncial. E nada de sugerir uma revisão sobre a classificação do planeta com base nelas, fui clara?

- Sim - disse Doller supreso - muito.

- Ótimo. Doutor Bertran, o que conseguiu das amostras que Abramovich colheu?

Ele pigarreou um pouco antes de falar. A posição firme que tinha assumido com Doller o tinha intimidado. Acionou alguns comandos e um holograma do roedor que tinha sido capturado no planeta surgiu.

- Esta criatura aqui é impressionante - disse ele mal ocultando sua ansiedade - possui todas as características dos roedores terrestres, mas não é um mamífero. É um monotremado. Ou seja, ele pões ovos. Esta em particular é uma fêmea, e possui dois ovos sendo incubados em um tipo de proto útero. A razão de eu estar chamando a atenção para esta criatura em particular é que, no momento, ainda não achamos nada no planeta que possa justificar sua existência. De fato, acredito que seja parente dos roedores do planeta Birmam VI. Possuem a mesma estrutura óssea, e a mesma forma de reprodução. Analises iniciais de DNA indicam uma afinidade muito estreita...

- Doutor?

- Sim capitã - respondeu um pouco surpreso.

- Sei que aprecia explicações sucintas, mas, para esta reunião, eu pediria que fosse diretamente as suas conclusões.

- Desculpe capitã - ele ficou vermelho de vergonha - eu costumo me empolgar. Bom, em resumo, pelas análises de DNA que fiz, esta criatura não pode ser nativa deste mundo. Tenho quase certeza de que foi importada para ele. Como e porque, não tenho realmente idéia. Mas ela é alienígena para os T'hirianos.

Houve um momento de silêncio. Ele sabia que este seria o efeito quando apresentasse seus resultados.

- Há mais uma coisa.

- Sim? - questionou a capitã.

- A análise dos sensores da nave auxiliar, sobre as criaturas que estavam na região em quq pousaram, indicam uma criatura do tipo felina. Sua estrutura é idêntica a dos felinos terrestres, embora existam também diferenças sutis. O mesmo ocorre com vegetação e algumas outras criaturas unicelulares. No entanto, existem também seres únicos, provavelmente nativos do próprio planeta.

- Alguma conclusão?

- Na verdade uma... talvez T'hiram seja como o planeta Birmam VI, uma colônia das hipotéticas naves que partiram do planeta Terra durante sua primeira grande civilização, há uns treze mil anos.

- Não acho que devemos registrar mitos e lendas no diário de bordo - disse Lisa lentamente - ao menos, não por enquanto.

- Eu concordo.

- Mais alguma coisa que queira acrescentar antes de passarmos para nossa próxima missão?

- Sim capitã - disse Diana - em seis horas, devemos agir para transportar os tripulantes do módulo de pesquisas para o planeta, e partir de uma vez. Fato este lembrado com veemência pelo senhor Lopes.

- Algo mais? Bem, então, vamos falar do sistema NHJ/66566. Iremos fazer algo neste sistema, além dos trabalhos de rotina. Doller e Gidja já estão informados sobre isto, e agora, estou participando o mesmo a vocês. Temos de encontrar um satélite. Não sabemos como é e nem onde se encontra, mas sabemos que está ali. Isso foi informado quando estivemos na base Antares. É uma missão um pouco fora do normal, mas não devemos ficar preocupados com ela. Lembrem-se apenas de que é algo sigiloso. Muito bem, o que já andaram adiantando sobre as pesquisas que iremos fazer lá?

- Bem capitã - começou Doller - na verdade, apenas estipulamos um protótipo do plano de ação, incluindo ai a localização do satélite. Já enviei uma sonda para este sistema em particular.

- Não foi localizado planetas classe "M" no sistema - comentou Diana - é um sistema binário de estrelas, como T'hiram, e, justamente devido a isto, não há planetas gigantes gasosos nele. Entretanto, podem haver formas de vida comuns a planetas de classe "K".

- Já é um grande avanço. Assim que sairmos de T'hiram, quero todos trabalhando no que iremos fazer neste sistema. Doller, use esta sonda que enviou para tentar localizar o satélite. Isso pode nos adiantar muito o serviço. Não creio que você seja necessário mais para algo a ser feito aqui. Se não houver mais nada, acho que a reunião pode ser encerrada.

- Capitã - chamou Anderson com um pouco de timidez.

- Sim?

- Bem capitã, acho que há algo que deveria saber. É sobre a base Antares.

Ela olhou interrogativamente para ele. Para Bertram, sua expressão parecia indicar que ela estava esperando alguma coisa bombastica.

****

Desgor acordou e, espreguiçando-se para diminuir a dor nas costas, acendeu a lanterna. Olhou ao redor e lá estava as coisas da mochila para dizer para qual lado seguir. Quando se dorme em uma caverna com forma de tubo e sem nenhum tipo de marco, é preciso encontrar uma forma de dizer para qual lado se deve ir quando acordar.

Acordou H'irim e juntos comeram as rações que possuíam.

- Há quanto tempo estamos andando? - perguntou Desgor.

- Creio que já faz um dia e meio - disse H'irim mastigando devagar - acho que em mais um dia chegaremos ao nosso destino.

Mastigou também lentamente. Precisavam manter as provisões para a volta, se houvesse uma volta.

- Confesso que isto não está sendo exatamente como eu esperava - disse - está mais para uma exploração do que para uma busca de respostas.

- Não deixa de ser - H'irim sorriu - afinal, somos mais dois da grande leva de curiosos que consegue chegar até aqui. E, por enquanto, só um desta leva retornou.

- Como sabe disto? Digo, como sabe que os outros também chegaram aqui?

- Viu algum esqueleto no caminho? Ou destroços das maquinas que aqui foram enviadas?

- Não... - respondeu hesitante - fiquei pensando sobre isso, mas realmente não me preocupei muito. Para mim, era uma viagem meio que sem volta.

H'irim sorriu. Como um pai faria para com um filho que não tivesse prestado atenção em uma aula.

- Então, onde eles podem estar? Vieram até aqui, e seguiram adiante. Mas não me pergunte sobre os mecanismos. Não tenho a menor idéia de onde possam estar.

- E os aparelhos aéreos?

- Muito menos - ele pegou mais um bocado do "café da manhã".

Era incrível como ele encarava aquilo com naturalidade. Estavam atualmente sem condições de retornar, não teriam provisões suficiente. E mesmo assim, ele agia como se estivessem fazendo um passeio no campo.

- Acho que devemos prosseguir - disse ele se levantando.

Pegaram suas coisas e continuaram seguindo túnel adentro. Desgor já não conseguia entender nada do que estava ocorrendo. Sentia-se como uma cobaia em um labirinto.

Ele não sabia o quanto estava certo.

****

- Capitã, sei que está nervosa, mas...

- NERVOSA? Vocês fazem sua própria investigação nas minhas costas e acham que estou "apenas" nervosa? E o primeiro que tocar no nome da Thunderbold sairá daqui a pontapés!

Anderson não pôde evitar de encolher um pouco em seu assento. Sabiam que ela não ia gostar ao descobrir que andaram tomando decisões pouco ortodoxas pelas suas costas, mas não imaginaram que ela teria um ataque de nervos.

- Muito bem - prosseguiu ela um pouco mais calma - vocês descobriram coisas interessantes, concordo. Em especial essa conexão com Jevlack. Tecnologia idêntica - meneou a cabeça levemente - nunca imaginaria isso. Mas, somando tudo isso, o que nós realmente temos? Uma missão de localizar um satélite. E nada do que vocês descobriram muda isso.

- Certo - continuou ela antes que alguém tomasse a palavra - esse satélite deve pertencer a uma raça agora extinta, talvez há bilhões de anos, e a tecnologia encontrada naquele fragmento que Tirvik lhe deu - olhou para Anderson - segue o mesmo esquema das próteses de Jevlack. Correto?

- Sim - respondeu Diana - em suma, está correto.

- Mesmo? - ela sorriu - então quem instalou isso em Jevlack? Não foi a Frota Estelar, tenho certeza.

- Talvez a raça não esteja de todo extinta - sugeriu Anderson.

- Talvez - ficou pensativa - ou talvez estejamos a ponto de cutucar algo que não nos diz respeito. Vocês todos estão proibidos de comentar isso com qualquer pessoa. E não quero nada no diário de ninguém. Embora ache que esta ordem é redundante. Dispensados! Antes que eu decida transferir todos daqui - completou baixinho.

Ficou olhando para a mesa, percebendo pelo canto do olho, as sombras dos oficiais saindo da sala. Certo, foi um bom serviço. Mas não tinha mandado eles o fazerem. Ela podia compreender um ou outro fazerem pesquisas por contra própria, para satisfação de curiosidades, mas todos eles o fazendo para um objetivo em comum? Isso já era desrespeito a sua autoridade.

Levantou os olhos e viu que Gidja ainda estava lá, em pé, observando-a fixamente.

- Quer acrescentar algo? - disse de forma meio rude, expressando a sua insatisfação.

- Sim. Eles fizeram isso por você. Compreendo que não é algo muito apreciável, para não dizer desgostoso descobrir que você não é insubstituível, ainda mais no seu primeiro comando. Mas deve concordar comigo que as informações por eles levantadas esclareceram algumas coisas, apesar de criaram muito mais perguntas.

- Gidja, eu concordo com você. Até acrescento que, neste momento, a maioria dos tripulantes se encontra ociosa, procurando algo para ocupar o tempo. Mas eles esbarraram em segredos extremamente bem guardados, sem que eu soubesse o que estavam fazendo. É isso que me irrita. É óbvio que a Frota deve saber desta ligação entre as próteses de Jevlack e a estrutura daquela base. Assim como já devem ter conseguido respostas para muitas das perguntas que surgiram na minha mente agora. Mas não era para sabermos, e agora compreendo os possíveis motivos disto. Alias, você já esteve naquela base, em outro hospedeiro. Deve saber muito mais que eu.

- É verdade - disse lentamente enquanto se sentava em um assento ao seu lado - já estive lá. Mas não pense que sabemos de muito mais coisas. Na verdade, seu pessoal descobriu em algumas semanas, na surdina, o que muitos técnicos da federação levaram anos para sequer cogitar. O que Anderson descobriu sobre os micro reatores, foi algo que nem era imaginado há uns dez anos. E quanto a Jevlack ter próteses usando a mesma tecnologia, nunca soube de nada disso. Mas Tirvik deve saber de mais alguma coisa, pois foi ela quem cedeu estas informações.

- Com certeza sabe. Mas tem medo de dizer diretamente. Acho que precisamos aceitar devagar o que vai surgir disto, e acho que não vou gostar nada.

- Concordo. Bom, temos uma missão de três anos para começar, e devemos faze-la em seis horas. Precisamos nos posicionar fora do sistema e esperar que Lopes nos informe que não somos mais necessários.

- Não deve ser muito difícil - disse Lisa se levantando.

- Ultimamente nada esta sendo fácil - contrapôs a imediato.

Lisa sabia que era verdade, mas ainda tinha esperança de que as coisas não podiam piorar mais. Pelo menos Lopes estava prestes a sumir de sua vida. E tomara que seja para sempre. Por falar nisso...

- Gidja - chamou quando já estavam na porta.

- Sim?

- Você já foi uma espiã, ou espião antes, certo?

- Espião - ela sorriu - sim.

- Ainda tem algum contato?

- Algum? - seu sorriso ficou muito mais amplo - acho que agora eles até teriam muito prazer em me fazer favores... Se é o que esta para me pedir.

- É exatamente isso. Quero que me passe o que já descobriu sobre Lopes em um disco. Discretamente.

Gidja a observou divertida.

- Acha que eu já andei investigando ele?

- Se não o fez, acaba de cair em meu conceito, e arrumou um baita trabalho, pois eu quero isso em uma hora.

Ela pos a mão no bolso e tirou um disco isolinear dele.

- Pronto - agitou o disco - posso folgar nos cinqüenta e nove minutos restantes?

- Não - disse Lisa pegando o disco e esboçando um sorriso meio que a contragosto - vá inspecionar a saída dos equipamentos que se referem a missão em T’hiram e, se Lopes fizer qualquer comentário sobre a posição chave dele, ponha-o no devido lugar.

- Será um prazer. A propósito. Não achei nada de concreto sobre Lopes. Registrei ai apenas os comentários que andei obtendo. Nenhum agradável.

Saíram da sala e cada qual seguiu para os seus afazeres.

****

Não era bem o que esperava quando foi "emprestada" para a Base Antares. Estavam em sua sexta parada, e tudo o que tinham feito fora simplesmente levar material e suprimentos de uma base a outra. Algo bem chato, se levar em conta que a Base Antares está profundamente arraigada a departamentos secretos da Frota.

- Capitã - informou a navegadora - estamos liberados.

Tirvik nem mesmo mudou a sua postura na cadeira de comando. Estava enfiada nela, como se estivesse a um passo de tirar um cochilo - e realmente estava - pensando nas reviravoltas da vida. Tinha sob seu comando uma das mais poderosas naves da Frota, e para que a estavam usando? Como um simples cargueiro.

- Capitã?

- Eu ouvi, senhora Nile. Eu ouvi... Qual a nossa próxima parada?

- Devemos estar na Base Lilandra em doze dias. Podemos chegar em dez, se mantivermos a velocidade máxima.

Mais dez dias de monotonia. Nem podiam sequer fazer uma parada para descontrair um pouco. "Missão altamente confidêncial" como tinham lhe dito. Que missão mais chata. Não havia absolutamente nada de muito importante nas cargas que estiveram transportando. Nada sequer para chamar a atenção de uma ave de rapina ou piratas.

- Capitã? - chamou a navegador novamente.

- Está bem - disse enquanto se ajeitava melhor no assento - vamos sair daqui. Leve-nos ao nosso próximo alvo. Dobra máxima. E pode acionar.

- Sim senhora.

Observou sairem de órbita e entrarem em dobra. Pelo menos a Base Lilandra tinha uma estação - na verdade, uma doca - orbitando o planeta que estava sob análise. Poderiam ter algum divertimento por lá.

- Matias, vamos beber alguma coisa, Nile, assuma.

Matias, seu imediato, a seguiu para o observatório. A USS Rocama era - ao menos a seção disco - muito parecida com a Starfleet - não era para menos, seu projeto era baseado nas classes Constitution - de forma que tinha um observatório identico aos existentes nessa classe de naves. Ela pessoalmente gostou daquilo.

Durante as últimas semanas, e considerando que nada de anormal acontecia, raramente ela ou Matias ficavam no comando, salvo quando chegavam ao destino, para medidas protocolares. Entraram no observatório e sentaram-se a mesa. Matias pegou duas bebidas e pos um copo na sua frente. Beberam quase metade do conteúdo antes de começarem a falar.

- Acho que voce vai ganhar a aposta - disse ela, cabisbaixa.

- Parece que sim. Acho que a Rocama está mesmo para ser aposentada do seu serviço de patrulha. Nada em nossa rota sugere qualquer tipo de problema.

Ela olhou para as estrelas, através das grandes vigias da sala, e quase que deixou escapar um lágrima de angústia. Seu primeiro comando, em uma nave bem poderosa e de renome. Justamente quando resolvem dar outro tipo de serviço para ela.

- Mas ainda acho estranho estarmos com plena capacidade. Ainda temos phasers potentes, quatro disparadores de torpedo, e pulsares klingons modificados. Não posso aceitar que nos transformem em nave de carga mantendo tal capacidade. É um desperdício.

- Concordo - disse Matias após tomar mais um gole de sua bebida - acho que estão fazendo conosco o mesmo que fizeram com a Xanth, aproveitando nosso trajeto para fazer alguns favores. Notou que ao fim destas entregas, estaremos no limite do território da Federação? E bem ao lado do território Romulano?

- Sim, eu notei - desviou o olhar das estrelas e o encarou - quantas vezes Lisa tentou contato?

- Oito - respondeu ele - e, como ordenou, nos fizemos de mortos.

- Melhor assim - tomou um gole - ela precisa se virar sozinha.

- No meio da cova dos leões? É em T'hiram que eles estão. E com Lopes com eles.

- Bem - ela soltou uma risada - Jevlack já lhe contou como se faz para ensinar a uma criança que o fogo queima?

- Já - respondeu ele - e ainda me sinto chamuscado. E a senhora?

- Ainda queima - manteve ainda um sorriso, embora agora já estivesse um pouco amargo - Eu não gosto de fazer isso com ela, ainda mais sendo quase como uma irmã para mim. Mas ela ainda tem muito que aprender sobre como as coisas realmente funcionam na Frota. Na verdade, eu mesma sinto que algo esta meio estranho.

Matias demonstrou uma certa surpresa pelas suas palavras.

- Por que?

- Notou que um monte de naves que andaram começando suas missões ultimamente estão também, assim como nós e a Xanth, efetuando um monte de serviços do tipo, já que vocês vão para aquele lado, poderiam fazer isso aqui também?

- Não.

- Então, sugiro que seja mais curioso quanto ao que ocorre na Frota. Tem mais de seiscentas naves fazendo serviços pelo caminho. Como se fosse para dizer: Estamos presentes em nosso território. Não nos cutuquem.

- pretende chegar a algum lugar, especificamente?

- Sim - disse ela muito séria e com o olhar rígido - enquanto estávamos "de molho", indo um bar a outro, eu aproveitei e andei me informando com outros capitães e coordenadores de missões que encontrávamos. O espaço não é mais um local reservado aos militares. Tem muitas naves particulares por aí. Especialmente de grandes empresas ou comerciantes. Na parte mais próxima ao setor zero já está ficando com um trafego bem intenso. Pode até ser que expandam a área de limite de velocidade. Quando a fronteira Klingon caiu, um comércio muito intenso acabou surgindo em alguns pontos desta área. Tanto que até mesmo piratas estão ficando comuns por lá. Está havendo também um grande implemento na construção de naves estelares. Por enquanto, econtrei apenas uma resposta plausível: A Federação está perdendo o controle de seu território, e por isso está intensificando a presença de suas naves. As classe Excelcior estão sendo convertidas para patrulha, e muitos projetos estão sendo tirados da gaveta, como a classe Galaxy.

- E como isto nos afeta?

- Eu ainda não sei - ela terminou a sua bebida e baixou o copo lentamente na mesa - mas sei que a ameaça de perda de controle é real, e a Frota não vai permitir isso assim, tão cedo. Os comerciantes não possuem o conceito de Primeira Diretriz. A Frota vai tentar criar alguma regulamentação para mante-los sob controle. E esta intensificação de missões de naves deve fazer parte disto.

Matias continuou bebendo sua bebida, ponderando sobre as palavras da capitã.

****

Capítulo 15

- Acho que está satisfatório - disse Lopes olhando o projetor de hologramas em plena operação - como está a interceptação de comunicações deles?

- Funciona perfeitamente - respondeu um dos auxiliares que terminava de verificar os sistemas.

- Ótimo - ele estava contente - muito bom mesmo.

Acionou o seu comunicador e solicitou que fossem transportados até a sua base, que estava plenamente operacional no interior do asteróide.

A Base tinha doze decks. No primeiro, ficava o Centro de Comando, o equivalente a uma ponte de uma nave estelar. Logo abaixo, ficavam salas de reunião e de avaliação de análises. Os aposentos preenchiam quatro decks, e os restantes eram tomados pelo reator, sala de transporte e diversos equipamentos de pesquisas e análises. Curiosamente, não havia nada voltado para observações astronômicas. Lopes parecia não estar interessado nisto.

Foi até o Centro de Comando e observou os dados na mesa que tomava quase toda a área deste. Ao invés de possuir uma tela, havia uma mesa, onde geralmente mapas topográficos do planeta eram apresentados.

Os estudos sobre a cultura do planeta já se haviam iniciado, mesmo tendo se passado apenas uma hora desde a sua ativação completa. Sentou em sua cadeira e reviu os relatórios preliminares. Tudo estava de acordo com o que queria. Chamou o pessoal que ficaria no módulo de pesquisas e os instruiu a aguardar na sala de transportes. Queria verificar algumas coisas antes.

Fez um acesso no painel da mesa - depois de se certificar que ninguém estava olhando - e, após informar uma senha, um mapa tático - reduzido - surgiu bem na sua frente. Mostrava o cometa e o planeta, indicando o ponto em que se cruzariam. O local de impacto também estava disponível. Acessou este e ficou satisfeito. Bem no oceano. O planeta seria totalmente devastado se o cometa não fosse interceptado. Perfeito.

Apagou aquela informação da tela da mesa e seguiu até a sala de transportes. Lá chegando, encontrou os quatro antropólogos que comporiam a equipe do módulo. Explicou-lhes detalhadamente o objetivo da missão e a necessidade extrema do sucesso dela. Enfatizou que o serviço deles era comparável a de espionagem, sendo que, em hipótese alguma deveriam se misturar aos nativos, por mais necessário que pudesse ser. No caso de poderem ser descobertos, o módulo deveria ser destruído imediatamente.

Todos entenderam bem e reafirmaram que fariam o serviço a eles destinado. Logo depois, foram transportados para o módulo. Sorriu satisfeito quando eles desapareceram. Agora estava plenamente no comando, e sua palavra era lei. Deixou a sala de transporte e foi até os seus aposentos, efetuar sua primeira comunicação. Mas não para a divisão de pesquisas da Frota Estelar, e sim para uma das muitas áreas obscuras desta.

****

- Capitã, a base informa que está tudo bem, e que podemos partir.

- Ótimo - disse Lisa aliviada - dobra máxima, agora!

- Sim capitã - disse Oshiro sorrindo - também estou louco para deixar isto aqui para trás.

Lisa observou entrarem em dobra, e o sistema desaparecer já há muitos anos luz de distância. Acionou o seu comunicador.

- Senhor Doller, fez o que lhe pedi?

"- Sim capitã, poderá ver os resultados quando quiser."

- Obrigada - disse ela ficando mais a vontade.

Oshiro achou estranha aquela conversa, mas acabou preferindo não perguntar nada. Ficou observando os sistemas de navegação e sua eventual necessidade de correção de curso. Diana observava o seu painel com certo interesse. Na verdade, estava verificando muita coisa neste.

- Gidja, assuma, estarei em meus aposentos.

- Sim capitã - disse ela tomando o assento.

Lisa seguiu pelo turboelevador, mas não foi aos seus aposentos. Foi até a enfermaria, para esclarecer algo que tinha lhe chamado, e muito, a sua atenção durante a última reunião.

Entrou diretamente e viu o doutor Bertram sentado em sua cadeira olhando para o seu monitor. Sem dúvida acompanhava alguma pesquisa, visto que haviam provetas na mesa de análises.

- Sim capitã? - disse ele sem se mover - em que posse lhe ser útil?

- Tem olhos nas costas? - perguntou um pouco surpresa.

- Não - ele se virou para ela com um sorriso - mas tenho meus próprios segredos. Dizem que faz parte de meu charme.

- Talvez faça - disse enquanto se aproximava dele - mas não foi isso que me atraiu até aqui.

- Então - ele desligou o monitor e passou a prestar plena atenção nela - o que foi?

- Aquilo que você disse na reunião de hoje, sobre o planeta Birmam VI. A informação sobre ser uma colônia perdida é altamente confidencial. Como teve acesso a isto?

- Eu não sabia disto - ele ficou surpreso - realmente não sabia. Não invadi registros secretos de ninguém, posso garantir.

- Então, de onde tirou esta informação? - ela olhava fixamente para ele.

- Bem, na verdade, é uma pesquisa que realizo há muito tempo - ele olhou para alguns frascos de cultura que estavam na mesa analisadora - eu comecei antes mesmo de ser um cadete. É sobre as semelhanças quase impossíveis entre as diversas raças humanóides que já travamos contato. Não é concebível que tais raças possam possuir tantas semelhanças a nível genético, muito menos serem compatíveis entre si.

- A teoria de uma raça ancestral dando origem a todas estas não é novidade. Na verdade, pouca gente realmente duvida disto, o que falta mesmo são provas palpáveis.

- Sim - ela sentiu que ele estava para se empolgar novamente - e é por isso que andei pesquisando as formas de vidas simples destes planetas. Em especial os protozoários e bacilos do tipo meningococo. Bem, eu andei isolando culturas e aferindo o nível de modificações significativas que ocorriam nestas, inclusive misturando culturas de planetas diferentes. Simulando o que poderia ocorrer caso uma nave de colonos aportasse em um outro planeta. Eles, sem dúvida, levariam também microorganismos de seu mundo natal, e alguns destes, com certeza conseguiriam se estabelecer no novo lar. Claro que haveriam mudanças em suas estruturas depois de várias gerações. Era nisso que se baseava minha pesquisa, tentar determinar quantas gerações são necessárias para que mudanças significativas pudessem ser notadas.

Lisa já tinha se sentado próxima a ele e ouvia tudo atentamente. Tinha ficado mesmo interessada no que ele estava falando.

- Bem - prosseguia Bertram - antes de vir para a Xanth, eu comecei uma pesquisa bem controlada sobre isso. E andei obtendo todos os tipos de dados possíveis sobre as formas de vida unicelulares dos diversos mundos já catalogados. Um dos que mais me chamaram a atenção foi Birmam VI. Em especial sobre as amebas de lá praticamente idênticas as amebas terrestres. Também encontrei correlatos de animais do tipo monotremado descobertos neste planeta.

- Desculpe interromper, - disse a capitã um pouco culpada por fazer aquilo - mas, como chegou a conclusão de naves que partiram da Terra há treze mil anos?

- Primeiro, pelo mito de que uma civilização muita avançada do nosso planeta natal, tivesse sido destruída quando terminou a era glacial, sendo que antes disto, eles haviam enviado naves de colonos pelo espaço. Segundo, pela análise de criaturas unicelulares conservadas em gelo daquela época, cujos dados andei catalogando. Pelo que pude apurar, as amebas encontradas em Biormam VI possuem o nível de mudança que teria ocorrido em treze milênios. Mas minha teoria é basicamente um grande exercício de imaginação. Não sabia que tal assunto era confidencial. E confesso agora que não entendo o porque disto.

Lisa olhou para o chão, pensando em como lhe dizer que ainda haviam coisas que era melhor não vir a público, em especial pelo que poderia ocorrer com a população civil dos planetas envolvidos.

- Bertram, essa teoria está sendo estudada com seriedade por muitos departamentos da Frota, mas, assim como no século XX, o governo preferia deixar a população acreditar que havia uma conspiração para ocultar visitas de alienígenas, atualmente os governos que compõem a Federação querem que o mesmo ocorra com esta teoria. Preferem que acreditem que estamos escondendo provas a esse respeito do que falar que simplesmente não sabemos de nada concreto.

- Por que?

- Para que achem que existem poucos mistérios para nós. Para que continuem, embora seja uma forma um tanto estranha para isso, a confiar em nossa capacidade de manter as coisas em ordem.

- Não é uma forma um tanto ridícula para isso?

- Tem funcionado há trezentos anos. Por que mudar agora? Eu só quero que não fique comentando estas coisas por aí. Oficialmente, quem tenta tornar públicas estas teorias sem uma base forte, costuma perder toda a sua credibilidade.

- Eu... acho que entendi capitã, obrigado.

- Não estou falando para abandonar suas pesquisas, apenas para obter mais dados antes de comenta-las.

Ele concordou com a cabeça, mas ainda parecia um pouco abatido. Ela não podia censura-lo por isso.

- Ainda está de pé o jantar?

- Claro - ele subitamente mudou de humor - sem dúvida.

- Até lá então.

Lisa saiu da enfermaria e, agora sim, seguiu para os seus aposentos. Mas, mal chegou a porta deste, ouviu o chamado para se apresentar a ponte imediatamente. Meio irritada, seguiu para a ponte.

- O que aconteceu? - inquiriu assim que chegou.

- Nossos sistemas apresentaram algumas anomalias - dissera Gidja - nossos escudos subiram e caíram duas vezes, e o computador principal ficou fora do ar por alguns minutos.

Ela olhou para a sua imediato interrogativamente, esperando que ela entendesse o que queria que ela dissesse.

- Já vi coisas parecidas na Base Antares - disse ela, captando sua dúvida - mas não com tal intensidade.

- Aparentemente, está tudo normal agora, capitã - informou Diana em seu posto.

Lisa olhou para o chão e, após ponderar um pouco voltou a olhar para Gidja.

- Façam uma verificação total nos sistemas. Se tiverem de parar a nave para isso, podem faze-lo. Mas eu...

"- Capitã?"

- Sim Doller - respondeu ao chamado um pouco surpresa.

"- Poderia vir até ao laboratório dois por favor? É urgente."

- A caminho. Bem imediato, tem suas ordens.

- Sim capitã.

Lisa saiu da ponte, e seguiu até o laboratório. Parecia que seu momento de sossego já tinha passado.

- Doller? - chamou assim que entrou pela porta, cuidando de tranca-la novamente.

- Capitã, creio que sei o que ocorreu com os nossos sistemas.

- Estou ouvindo.

- Bem, como ordenou, deixei, secretamente uma sonda para captar as transmissões da base e do módulo de pesquisas que deixamos em T'hiram. Mas parece que outra coisa andou usando esse acesso. Acessando diretamente nossos sistemas por ele.

- "Outra coisa?"

- Sim, na verdade, creio que foi a mesma que controlou nosso computador principal há algum tempo. Examinei os comandos no computador principal e existem os mesmos tipos de registros que encontrei daquela vez. Eu diria que algo naquele sistema estava...

- Não precisa dizer mais nada - interrompeu ela - já entendi. É aquele satélite.

- Como?

- O satélite que está em T'hiram, lembra-se? Nos foi mostrado na Base Antares. Ele que acessou nosso computador.

- Mas... isso é...

- Eu sei o que está pensando. Mas garanto que você poderá estudar o outro satélite a vontade para resolver suas dúvidas. Continue com o seu serviço. Eu vou descansar um pouco.

Lisa estava saindo quando Doller perguntou.

- Como a senhora sabe disto?

- Vocês acham realmente que foram os únicos a ficar fazendo pesquisas as escondidas? - deu um sorriso - Se enganou.

Foi para o seu alojamento e pegou uma merecida bebida em seu sintetizador. Era bom saber de coisas que sua tripulação não sabia, para variar ao menos.

****

Desgor olhou a luz que surgiu no fim do túnel. Desde que a viram, apressaram o passo. Agora, já podia ver o fim daquela incrível jornada. Estavam parados bem diante da saída. Era uma espécie de grande salão, em forma de uma abóbada, com cerca de trezentos metros de diâmetro. Mas não estavam impressionados com o salão em si, e sim pelas centenas de ossos que estavam lá. Tinham descoberto o paradeiro dos desaparecidos.

Não conseguia entender por que eles tinham morrido ali. Que perigos haviam lá que poderiam ter feito tal coisa? Sentiu medo, e uma grande vontade de dar meia volta. H'irim contudo, entrou no salão antes que ele pudesse lhe falar de sua vontade.

- Senhor - disse ele apavorado - acho melhor não seguirmos adiante, essas ossadas...

- São de nossos antecessores - disse ele displicentemente - se quer voltar e ter apenas mais alguns meses de vida, a escolha é sua. Eu pessoalmente acreditei que você preferisse encontrar uma solução para salvar nosso mundo.

Ficou envergonhado ao ouvir aquilo. Estava com medo, mas ele tinha razão. Mesmo que conseguisse voltar, escapasse de morrer de fome, e encontrasse uma forma de ser resgatado, morreria quando o cometa chegasse. Já que estava condenado de qualquer forma, talvez fosse melhor arriscar a vida mais cedo agora. Entrou no salão e ouviu um som forte atrás de si. Quando se voltou, não encontrou o túnel de onde viera. Tinha sumido.

Ele apalpou a parede onde o túnel deveria estar mas não encontrou nada, nem mesmo uma fresta. Não conseguia entender como ele poderia ter sido fechado assim de forma tão perfeita. Pelo menos agora entendeu o que H'irim tinha dito. Quando chegassem ao fim do túnel, deveriam encontrar uma forma de tentar entrar. Todos aqueles, aos quais os restos mortais pertenciam, deveriam ter tentado o mesmo, e fracassaram. Por isso os ossos estavam todos lá. Não conseguiram sair.

Bem, ele estava no meio daquilo agora. Procurou por seu lider e este parecia mais interessado na arquitetura do local do que no fato de estarem presos, com quantidade limitada de ar e...

De onde o ar estaria vindo? Não podia aceitar que pudesse chegar até ali pela abertura - que agora estava fechada. Deu uma longa olhada ao redor e não encontrou nada que se parecesse com uma entrada ou fresta para ar.

- Acho que estamos com problemas - disse H'irim em voz alta para ele.

Ele estava há uns cem metros de distância, e o eco de sua voz era bem nítido. Desgor foi em sua direção, e, pelo caminho, observava os ossos que ali estavam. Pôde reconhecer alguns C'fer entre eles, devido a proeminências características deles em suas mandíbulas. Parecia que todos, sem exceção, tinham caído ao chão ou se deitado, antes de morrer. Pegou os seus equipamentos na mochila mas nenhum deles funcionava. Todos estavam inoperantes.

- Alguma dica? - perguntou quando chegou perto de seu lider.

- Além do que me foi dito, nada. Temos que descobrir como entrar. Apenas isto.

- Entrar aonde?

- Aonde queremos ir - disse olhando para ele - encontrar respostas para evitar nosso fim.

- Isso é um pesadelo! - exclamou Desgor bem alto, de forma que todo o salão vibrou com a sua voz - Ficamos dias andando em um túnel para chegarmos a um beco sem saída. Como uma planta carnívora de Thesttalima.

- Não vejo nenhum suco digestivo por aqui - disse H'irim para tranquiliza-lo.

- Bom, algo descarnou esses ossos - disse ele em resposta - inclusive retirando suas vestimentas. Só que...

Olhou para os ossos de novo. Se sucos digestivos tivessem feito aquilo, seriam em qrande quantidade, e certos apetrechos das vestimentas não poderiam ser dissolvidos. Mas lá haviam apenas ossos, nada mais.

H'irim sentou-se no chão, com as pernas cruzadas e olhava para o teto, pensando em alguma coisa. Sem demonstrar receio pela armadilha em que se encontravam.

- Talvez estejamos encarando isto da forma errada - disse ele - olhe o teto, e a junção desta abóbada com o piso. Tudo perfeito, sem rachaduras ou ondulações. Como feito por máquinas de alta precisão.

- Como o túnel - disse ele - perfeitamente liso. Tão liso que quando acordávamos, nem sabíamos de que lado viemos e para que lado tínhamos que ir.

- Exatamente - disse ele começando a sorrir - não parece um pouco estranho este detalhe?

- Como assim?

- Diga-me, de que lado nós entramos aqui?

Olhou ao redor. Não achou nada que pudesse ajuda-lo a descobrir aquilo.

- Não faço idéia - respondeu.

- Exatamente - disse ele - sabe, acho que a simples passagem pelo túnel era um teste, e esta abóbada aqui também é um teste.

- Teste?

- Sim - disse ele muito convincente - poderíamos ter ficado meses ou anos no túnel, se não soubéssemos que direção tomar. É muito extenso para se passar por ele sem precisar dormir, além disto, notou que quando acordávamos, não conseguíamos ter certeza da direção a seguir? Não fosse pelas mochilas, estaríamos lá ainda. Indo e vindo.

- É... concordo. Mas, e esta abóbada?

- Se ela não existisse, teríamos ido em frente, certo?

- Por que ido em frente?

"- ... em linha reta ao conhecimento..."

Era parte do mito da ilha, que falava que, quem quisesse descobrir seus segredos deveria seguir ao seu centro, em linha reta ao conhecimento.

- É... faz sentido. Mas para isso, teremos que saber onde saímos e como seguir em frente. E nenhum equipamento está funcionando.

- Não creio que precisemos. No túnel usamos um recurso simples, aqui, devemos fazer o mesmo. Mas antes - ele se levantou - temos que achar o ponto em que entramos, e para que ponto devemos seguir. Felizmente, eu tenho um trunfo na manga, mas no momento ele é inútil.

- que trunfo?

- Eu digo depois - ele piscou o olho - agora, vamos esquadrinhar essas paredes para achar o ponto em que entramos.

- E como vamos achar?

- Não me decepcione - ele balançou a cabeça - olhe para o chão. Deve haver marcas de pó nesta entrada. Afinal, ela estava aberta quando chegamos. E eu cuidei de jogar um pouco de areia de meu bolso assim que entrei aqui - deu um sorriso - mas não é esse meu trunfo. Vamos, vamos procurar.

Desgor olhou na junção da parede com o piso e ficou rodeando o salão. Ficou muito tempo naquilo, até que sentiu que tinha pisado em algo arenoso. Passou a mão pelo chão e sentiu a areia.

- Senhor! Achei!

H'irim correu em sua direção. Quando chegou, ele passou a mão no chão e sentiu a areia. Deu um largo sorriso.

- Agora eu preciso de você - disse ele - como podemos ter certeza de que passaremos pelo centro deste lugar até chegarmos do outro lado?

Desgor ficou pensando. Não seria assim tão fácil. O local era muito grande, e seria fácil se desviarem muitos metros quando chegassem ao outro lado. Tudo o que tinha era apenas duas mochilas com suprimentos e um monte de equipamentos agora inúteis.

- As cordas! Podemos traçar retas com as cordas para escaladas! Chegar ao centro vai ser fácil, basta ficar bem embaixo daquela marca na abóbada - apontou com o dedo. Depois, só precisamos esticar o resto da corda até o outro lado, e observar deste ponto se está uma linha reta ou não.

- Mãos a obra!

Pegaram as cordas e Desgor levou a sua ponta até o centro do salão, sendo que a outra era firmemente presa por H'irim. Ficou um pouco surpreso ao chegar ao centro aproximado deste. Havia uma marca ali, um círculo com cerca de dez centímetros da cor preta. Olhou para cima, estava exatamente embaixo do centro da abóbada. Parecia que a teoria de H'irim estava correta.

H'irim deixou a ponta que segurava presa na sua mochila, enquanto seguia em direção a Desgor. Pegou o resto da corda que estava com ele e a esticou para o outro lado do salão. Tiveram que fazer várias emendas na corda para isso. Quando chegou ao outro lado, teve uma surpresa. Também lá, haviam grãos de areia no chão. Desgor não acreditou naquilo, H'irim disse para não se preocupar.

Demoraram quase meia hora até terem certeza de que a corda estava em linha reta, passando pelo centro. Não era fácil fazer aquilo em uma área de trezentos metros. Depois que tiveram certeza de que seu "cabo guia" estava satisfatório, foram até onde H'irim tinha deixado sua mochila, e começaram a caminhar normalmente, em direção ao outro lado do salão.

- Não mude o passo quando estivermos perto da parede. Temos de agir como se este local não estivesse aqui, vamos direto para ela, esperando que ela desapareça.

- E se ela não desaparecer?

- Vamos ter uma boa dor de cabeça.

Foram andando e, apesar da hesitação que Desgor sentia, ele andou direto para a parede. Para sua surpresa - ou falta dela - a parede sumiu, e lá estava a continuação do túnel.

- Espere - disse H'irim o segurando. Olhe para trás.

Ele olhou, e viu que do outro lado um túnel também se abrira. E agora? Qual seria o túnel certo? Ambos os lados possuíam areia no chão.

- Fique aqui - disse H'irim seguindo um pouco adiante.

Ele se abaixou e pegou algo do chão.

- Este é o caminho errado - disse ele - este é o meu trunfo - ele mostrou uma pequena pedra na sua mão - andei deixando algumas pedras pelo caminho para ter certeza de que não estávamos voltando.

Ele jogou a pequena pedra no chão e voltou para onde ele estava.

- Bem pensado.

- Obrigado - ele sorriu - mas o mérito é de minha mãe. Ela me ensinou a explorar cavernas com poucos equipamentos. Vamos, é para lá o nosso destino.

Deram meia volta e seguiram para o outro túnel. Assim que entraram, sentiram este se fechar atrás deles. A sua frente, outra luz surgiu, bem próxima.

- Outro teste? - perguntou Desgor.

- Não - respondeu - não creio. Vamos.

Foram em direção a luz, e assim que chegaram, ficaram boquiabertos. Ali, a frente deles, estava uma caverna gigantesca - esta claramente natural - e a fonte de luz era uma construção enorme que brilhava suavemente. Nesta construção, havia um brilho mais forte, em forma de quadrado. Foram em sua direção e puderam perceber que aquilo não era uma luz, era um porta para o interior. Ambos entraram, e se maravilharam.

Estavam diante de um amplo corredor, bem iluminado, com consoles dando informações nas paredes.

- Onde estamos? - perguntou Desgor.

Um dos consoles começou a mostrar esquemas, e outro mostrava uma visão lateral de alguma coisa. Desgor chegou mais perto e viu que era uma nave. Também viu que a parte superior da nave era idêntica a construção que tinha visto do lado de fora. Olhou para o outro console. Eram esquemas, e alguns eram idênticos a da nave mostrada no outro.

Logo percebeu que todos os esquemas eram da nave. Mas também notou que aqueles consoles estavam respondendo a sua pergunta. De onde estavam. Olhou para H'irim e este estava tão impressionado quanto ele.

- Onde fica a ponte?

Os consoles mostraram outro esquema agora. Devia ser da ponte. Mas não indicavam como chegar lá.

- Acho que você devia ver isto!

Desgor olhou para onde H'irim apontava, para o chão. Uma seqüência de setas azuladas apareceram do nada, indicando um caminho a seguir. Muito prático. Chegou bem perto destas e observou atentamente. Não conseguia descobrir como podiam ficar iluminadas, não havia nada por lá que pudesse fazer aquilo. Tocou as setas com a mão e não sentiu nada.

- E agora?

- Vamos seguir nosso guia - disse H'irim - e tentar resolver esta charada.

Ambos seguiram as setas. Desgor sentia que teria outra longa caminhada pela frente.

****

Capítulo 16

Felizmente, não era seu turno quando tinham chegado ao seu destino. Anderson, deitado em sua cama - estrategicamente posta ao lado da vigia de seu aposento - viu a saída da nave em dobra, e, a sua frente, o sistema que marcava verdadeiramente o início de sua missão.

Cobriu a sua cabeça com as cobertas e tentou esticar um pouco mais o seu sono. Não estava muito disposto a levantar cedo, mesmo porque, estava sentindo sua cabeça girar um pouco. Não devia ter abusado muito da bebida, mas queria comemorar o fato de Lopes não estar mais com eles.

Virou-se para o outro lado e sentiu algo. Precisou de alguns instantes para perceber o que era. Um corpo, ou melhor, o corpo da moça com quem tinha festejado na véspera. Começou a sentir medo.

O medo não era infundado. Afinal, acordar com alguém ao seu lado, e nem fazer idéia do nome da pessoa, era algo muito imperdoável. Só havia um jeito de sair da breve situação constrangedora que iria surgir. Saiu da cama, lavou-se, vestiu-se, deixou um recado para a moça, e saiu do quarto rapidinho.

Seguiu para a enfermaria, para conseguir algo que o tirasse da semi ressaca que sentia. Teria chegado lá em poucos minutos, mas os corredores estavam conspirando para que ele, vez por outra, encontrasse uma parede pelo caminho. Semi ressaca? Na verdade, o problema era o sono, não embriagues. Logo, sua atenção começou a ficar mais acurada, e as paredes espertas o bastante para saírem da frente.

Finalmente, chegou na enfermaria. Deu uma olhada lá dentro e viu Bertram, como sempre, alias, analisando alguma coisa que era apresentada no monitor. Foi se aproximando sorrateriamente para lhe pregar uma peça. Ainda devia estar sentindo algum efeito da bebida para tanto.

- BUUU! - disse Bertram virando-se bruscamente na sua direção.

Involuntáriamente, seus músculos se contrairam, tornando indisfarçável o seu susto.

- Mas... como soube? Como você sempre sabe?

Bertram apenas sorriu e voltou para o seu monitor. Anderson, por sua vez, ficou sem entender, mas não se preocupou muito com aquilo. Era mais provável que ele tivesse visto seu reflexo pelo monitor. Afastou-se um pouco e puxou uma cadeira para sentar-se ao seu lado.

- Doutor, estou com um problema meio incômodo...

- Chama-se ressaca - disse ele sem desviar a atenção dos dados do monitor - e nem preciso de exames, seu bafo já deve ter dito tudo para metade das pessoas com quem se encontrou no caminho para cá. Deve passar no começo da tarde. Se quizer, posso recomendar uma dispensa, uma vez que só devemos precisar mesmo do nosso responsável engenheiro no começo da noite.

Fechou os olhos e ficou ruminando sobre o que ele tinha dito. Que mania de usar palavras difícies. Súbito, abriu os olhos e olhou um tanto assustado para ele.

- Parece que bebi tanto assim?

- Não precisa parecer - respondeu ele virando-se e o encarando de frente com um sorriso - todo mundo ouviu vocâ cantando ontem. E adoraram o refrão "Lopes fora, fora, fora...".

Começou a ficar corado. Parecia que se lembrava vagamente de ter feito alguma coisa um tanto ridícula, mas era mais como um tipo de sonho.

- Juro que não me lembro disto. Quer dizer, não consigo aceitar que possa ter feito isto.

Bertram apenas riu um pouco. Era uma situação um tanto inédita aquela. Percebeu que ele executou alguns comandos e novos dados aparecerem na sua tela.

- O que está analisando?

- Algo que me intriga desde que fiz uns exames na nossa imediato. Há propósito, como ela está?

- Como vou saber? Acabei de acordar e vim direto para cá.

Bertram novamente o encarou, desta vez, com uma expressão de assombro.

- Não vai me dizer que ela saiu antes que você acordasse e nem deixou uma mensagem.

Anderson olhou para o vazio, se esforçando para compreender o que ele estava falando. Como assim ela ter saído antes dele acordar? O que tinha a ver uma coisa com outra?

- Geralmente - continuou Bertram voltando-se novamente para o monitor - eu costumo dar um beijo de bom dia com que compartilhei a noite. Mas acho que cada um tem sua própria forma de agir. Uma quase namorada minha tinha mania de usar a ducha por horas antes...

- COMPARTILHAR A NOITE?!?!? - gritou Anderson, finalmente compreendendo o que ele estava falando.

Bertram novamente o encarou com os olhos arregalados.

- Não vai me dizer que você não se lembra disto. Bom, se ela saiu mesmo, e considerando o seu estado, não é de se estranhar que ainda não se recorde de muitas coisas. Ou seja, nem sabe se foi uma boa noite ou...

- Ela não saiu - balbuciou ele interrompendo o que Bertram falava - eu acordei, percebi que tinha alguém comigo e saí de fininho, pois não estava conseguindo lembrar quem era. Mas agora que você falou, havia manchas de trill na lateral de seu rosto e em seus ombros...

Os olhos de Bertram não estavam mais arregalados. Na verdade, ele estava se contendo para não cair na gargalhada.

- Você é impossível! - disse ele - inacreditável mesmo! Conseguiu pegar uma das mais desejadas mulherers da nave e nem sequer se lembra do que aconteceu. Acho que devo fazer um exame de sanidade mais detalhado em você.

Anderson não prestou atenção. Apenas estava preocupado com a impressão que teria deixado com Gidja. Como explicar que nem se lembrava do que tinham feito? Ou melhor? teriam feito alguma coisa? Se ele tinha bebido tanto, provavelmente deveria ter caído no sono assim que se deitou. Como ela estava do seu lado, deveria ter ocorrido o mesmo com ela.

- Ela também bebeu muito? - perguntou ele começando a sentir gotas de suor frio surgirem em sua testa.

- Dois copos - respondeu Bertram praticamente sem lhe dar muita atenção - Ela ficou impressionada com os seus galanteios e seus poemas. Na verdade, quase todas as tripulantes feminidas que estavam na sala ficaram maravilhadas, e juro que percebi algo que pode ser considerado como ciúmes vindos de Diana. Se até uma vulcana ficou um pouco caída por você, é porque realmente tem talento para a coisa. Precisa me ensinar um pouco disto qualquer dia destes. Especialmente aquela declamação feita ajoelhada à frente da imediato. Um excelente Romeu...

Poemas? Declamação? Romeu? Ai, ai, ai, ai, ai....

- Me ajude - disse Anderson deseperado agarrando Bertram pelos braços - pelo amor de Deus, me ajude!!! Eu não me lembro de nada disto!!! Tem alguma droga que possa me ajudar a lembrar???

Bertram o segurou - seu pescoço tinha estalado duas vezes com aquelas chacoalhadas - e o olhou com surpresa e até um pouco de medo.

- Err.. acho que não tem jeito não... O cérebro armazena informações em uma área de memória permanente durante o sono, mas como você não se lembra de praticamente nada, o teor alcoólico de seu corpo atrapalhou este processo. Estas memórias provavelmente estão perdidas.

Ele o soltou e ficou cabisbaixo na cadeira, balançando levemente a cabeça, custando a acreditar no que estava lhe acontecendo.

"- Engenheiro Anderson?"

Sentiu seu corpo gelar. Era a voz de Gidja. O que devia fazer agora?

- Não vai responder? - perguntou Bertram com um sorriso de ironia.

Tremendo, pressionou seu comunicador ensígnea.

- S-sim? Na escuta.

- Queria dizer que gostei da sua mensagem de bom dia - notou que a comunicação estava em canal fechado, apenas ele e Bertarm estavam ouvindo - E quero acrescentar que você realmente sabe como fazer uma mulher feliz. Precisamos repetir isso com mais frequência no futuro.

Ouviu o som de um beijo e a comunicação foi cortada. Então, ele não tinha caído no sono assim que chegou no quarto. Gidja aparentemente adorou a noite. E ele não se lembrava de absolutamente nada... Quanta crueldade do destino...

O sistema estelar, ainda "galantemente" chamado de NHJ/66566, recebeu a visita da USS Xanth com total indiferença. pelo menos era o que acreditava o oficial de ciências Doller, enquanto observava as primeiras análises espaciais que os sensores da nave estavam mostrando. Ele estava na ponte, vendo no seu monitor os dados iniciais. A imediato Gidja tinha assumido do posto da capitã e apenas olhava para a frente, em direção a grande tela da ponte. Mas não parecia que realmente estava prestando atenção na estrela amarelada que era apresentada.

- Comandante - chamou ele - peço permissão para lançar uma sonda no quinto planeta do sistema.

Efetuou mais alguns comandos para que os dados obtidos daquele planeta aparececem na tela, na eventualidade dela querer alguma justificativa para tanto. Era um planeta rochoso, que recebia muita rediação da estrela maior do sistema, a amarelada. A outra era já bem vermelha, e bem menor. Ficou aguardando por uma resposta por cerca de dois minutos e então olhou para a imediato. Sua postura era a mesma, e parecia quase que sorrir.

- Comandante? - disse em tom mais alto.

- O que? - disse ela surpresa - não estava prestando atenção.

Ela disfarçou uma quase risada de vergonha e pediu para que repetisse o que tinha dito. Parecia que a noite dela tinha sido excelente! Será que Anderson estava no mesmo estado? Após a autorização desta, ele contatou seus subordinados e estes logo lançaram quatro sondas. Iriam demorar um pouco até chegarem ao planeta, de forma que ele tinha tempo para analisar mais os dados coletados das estrelas daquele sistema binário. Era diferente do que estava acostumado a ver. Geralmente, estrelas binárias não possuem muitas diferênças entre si, apenas quando são bem antigas é que as diferenças surgem, ocasionadas pela forma de "envelhecimento" de cada estrela que compõe o sistema. Mas aquele era radical demais. Uma anã vermelha, provavelmente no fim de sua existência e uma pequena estrela amarela, pouco maior que o Sol terrestre, na metade de sua vida. Tal diferença não deveria ser justificada, a não ser que estas estrelas se formassem inicialmente a longa distância uma da outra, de forma a não terem exatamente os mesmos materias básicos.

Haviam poucos exemplos conhecidos desta possibilidade, na verdade, apenas seis. Com este sistema, eram agora sete. Nada mal para o começo de sua missão de três anos. Um sinal no alto da tela lhe chamou a atenção. As sondas tinham chegado ao planeta. Instruiu uma delas a orbitar o seu equador, outra ficou em um dos polos, as outras duas ficaram incumbidas de analisar o anel de asteróides que orbitava o planeta, que, provavelmente, iria se unir em um satélite natural em alguns milhões de anos.

- Quando poderemos nos ater a nossa missão secundária? - perguntou inexperadamente Gidja.

Ele virou-se em sua direção, pela primeira vez indeciso quanto ao que dizer. Mas rapidamente encontrou as palavras:

- Assim que ordenar - disse simplesmente. De fato, o único motivo de ainda não tentarem localizar o satélite que deveria estar naquele sistema, se devia a não ter recebido ordens para tanto.

- Neste caso - disse ela amavelmente - a ordem está dada.

- Sim, comandante - Doller se levantou e seguiu para sala de pesquisas astrofísicas. Faria uma varredura completa no sistema para tentar identificar onde estaria o antiquíssimo artefato que deveriam localizar ali.

Gidja por sua vez, voltou a fitar o vazio, esquecendo-se totalmente de onde estava.

Diana sentou-se em frente ao monitor da sala de astrofísica e acionou os comandos. Qualquer coisa metálica que tinha sido identificada pelos sensores estava indicada alí, mas era preciso alguém para fazer a tediosa tarefa de separar o que era um astetróide rochoso do que podia ser um satélite feito por uma raça extinta há milênios. Uma vulcana era, naturalmente, uma sábia escolha. Provavelmente tinha sido por isso que ele a tinha "convocado" para auxilia-lo naquela tarefa. Mas ela não compreendia muito bem o porquê de Anderson também estar por lá. Sua função era cuidar da engenharia, não efetuar trabalhos cansativos como aquele.

Além disso, parecia que ele estava um pouco perturbado com alguma coisa. Talvez algo que tivesse ocorrido durante a noite. Não era realmente da conta dela, e, apesar de tentar se convencer do contrário, ela realmente ficou como que... incomodada, por ele a ter ignorado completamente. Concentrou-se nos dados dos sensores, para desviar a consciência daquilo. Tudo o que podia localizar e identificar eram apenas formas rochosas.

- Diana?

Ela terminou de analisar os dados de mais um asteróide metálico antes de dirigir-se a ele.

- Sim, senhor Anderson?

- Err... vulcanos podem fazer fusões mentais, não?

- É evidente que vulcanos poussem tal capacidade. Está largamente documentado, e creio que é tema das primeiras aulas de ciências exabiólogas cursadas na Academia da Frota - respondeu Diana claramente "irritada" com a pergunta desnecessária.

- Desculpe. O que quero saber é se, durante uma fusão, seria possível... Não. Estou falando besteira, me desculpe.

Ela simplesmente voltou para sua tarefa. Realmente ele devia estar perturbado. Mas... porque ele iria comentar sobre a fusão de mentes vulcana? Passou para o próximo objeto metálico identificado, mas imediatamente o considerou como "erro de análise". Não podia ser um asteróide metálico sólido com quase quarenta quilômetros de diâmetro. Provavelmente os sensores sofreram algum tipo de flutuação, e não identificaram que aquele "asteróide" deveria ser, na verdade, um grande aglomerado de rochas. Isso explicaria sua forma cilíndrica perfeita. Passou imediatamente para o próximo objeto detectado e assim prosseguiu, nesta rotina, por mais de meia hora. Até Anderson a chamar novamente.

- Diana, você classificou algum asteróide como "erro de análise"?

- Sim - respondeu simplesmente.

- Bem, então é o erro mais coerente que já vi. Venha dar uma olhada.

A contragosto, ela se levantou e foi até o seu monitor. Os dados - que ela nem ao menos tinha se dado ao trabalho de observar - estavam na tela. Ficou muito impressionada com aquilo. A densidade do objeto era muito baixa, mas a sondagem indicava uma forte evidência metálica. Isso era totalmente incongruente com um asteróide metálico. A menos, que fosse oco.

- O que acha? - perguntou Andersen a observando e com um quase sorriso nos lábios.

- Uma forte evidência - disse ela - cometi um erro ao pré-conceituar os dados obtidos.

- Vou pedir para que uma sonda seja lançada. Mesmo que realmente nosso amigo se revele um mero asteróide, ele, por si só, é muito interessante.

- Concordo - disse ela enquanto retornava ao seu assento.

Diana ficou preocupada. Por algum motivo que não podia conceber, fora negligente em suas tarefas. E Anderson, apesar de estar claramente longe de sua melhor condição, ao rever suas análises encontrara algo que podia ser o que procuravam. Teria que fazer uma meditação depois. Talvez a "doença dos humanos" finalmente a tivesse pego.

Cerca de duas horas depois, a sonda enviada tinha chegado ao asteróide suspeito. Anderson assobiou quando viu os primeiros resultados. Imediatamente avisou a capitã que o satélite que procuravam tinha sido encontrado.

Lisa ponderava em seus aposentos sobre a descoberta do satélite. Um corpo esférico de quarenta quilômetros de diâmetro com uma cobertura de rocha razoavelmente compacta, decorrente do mesmo possuir uma gravidade artificial similar a da lua em que ficava a Base Antares. Tal tamanho não podia ser simplesmente de um satélite. Estava muito mais para uma gigantesca cidade espacial.

Nenhuma raça conhecida tinha construído nada tão grande assim. E aquilo era apenas um satélite? Era difícil de acreditar. De qualquer forma, a descoberta já tinha sido comunicada as pessoas competentes, e, salvo qualquer ordem de última hora, iriam esquece-lo rapidamente e, finalmente estariam totalmente livres para executar sua missão de três anos. Embora ela já não estivesse acreditando muito nisto.

"Capitã Donner, comunicação do Almirante Neves com prioridade dois"

- Complete - disse ela sentando-se em frente ao monitor. Era apenas uma comunicação, com um tempo de retardo de seis minutos. Seria difícil mesmo manter uma conversa desta forma.

Na tela, surgiu o rosto do Almirante Neves, que, rapidamente foi direto ao assunto.

- Capitã, vocês tem ordens de examinar da forma mais completa possível o satélite que localizaram. Uma vez que o seu tamanho torna praticamente impossível que possamos traze-lo para uma área de pesquisas mais confortável, vocês terão de fazer isto no nosso lugar. Se possível, gostaríamos também que todos os dados acumulados que podem se encontrar no mesmo, fosse devidamente depositado nos bancos de memória de seu computador. Boa sorte. Almirante Neves desliga.

Lisa não ficou surpresa com aquela mudança de ordens. De uma certa forma, era algo bem vindo. Uma pesquisa completa sobre algo desconhecido. Mas achou estranho o idoso almirante jovial e alegre de que se lembrava quando tinha partido, estar agora, aparentemente, um pouco amargurado. Talvez estivesse recebendo ordens que também não gostava muito. Pediu uma bebida ao computador e se lembrou de que tinha um "encontro" naquela noite. Não tinha antecipado nada. O que iria vestir?

Achou melhor cuidar deste "sério e preemente problema" logo depois de passar a batata quente, quer dizer, as ordens para Gidja. Esta já teve sua noite de glória, agora, seria a sua vez.

Aquilo era enorme! Mesmo seguindo as setas azuladas no chão, parecia que andavam em círculos. Desgor olhava impressionado para tudo ao seu redor, tentanto desesperadamente compreender um pouco daquilo. Paineis que mostravam simbolos desconhecidos eram vistos por toda a parte. A altura do corrimão de algumas escadas e a posição de assentos que podia ver em algumas salas abertas indicavam que, fossem quais fossem as criaturas que tinham construído aquilo, eram bem mais altas que sua raça. Mas o que não fazia realmente sentido era o simples fato de tudo estar impecável, em perfeitas condições de uso.

H´irim, por sua vez, parecia como que letárgico. Não dissera nada desde que começaram a andar dentro da nave, e também não parecia interessado pelo que estava ao seu redor. Andava tão rapidamente para chegar ao fim da "trilha" que dava a impressão de que nada daquilo era novidade para ele. Por outro lado, provavelmente seu interesse maior era em encontrar uma forma de salvar o seu mundo. Isso talvez explicasse o seu aparente descaso com a situação.

Estavam há alguns dias andando pela nave. Dormiam apenas quando ficavam exaustos, e assim que acordavam iam novamente andando seguindo as setas. Logicamente, deveria haver uma forma mais rápida de se locomover dentro daquela estrutura, que ele já achava que devia ser alguma nave enterrada no solo. Mas todas as tentativas de obter indicação de tal coisa foram infrutíferas.

Perguntas pipocavam em sua mente. Aquela estrutura ou seus construtores seriam os responsáveis pelas suas lendas? Seria ela a responsável por ser impossível obter qualquer dado sobre a ilha, salvo com métodos geniais e convencionais? Podia ficar o resto da vida ali e talvez nunca descobrisse nenhuma resposta. Mas sua vida duraria apenas alguns meses caso o motivo de estarem ali não fosse exclarecido. Subitamente, naquele instante, ele imaginou que talvez, uma estrutura daquela tamanho pudesse conter algum dispositivo para desviar o cometa.

- Finalmente - exclamou H´irim.

A entonação de sua voz o atingiu como uma pedra, fazendo-o esquecer totalmente de suas perguntas. Ali, na frente de ambos, estava a entrada para um enorme salão circular, praticamente idêntico àquele em que tiveram de usar as cordas como guia para atravessar.

- Outro teste? - perguntou ele já um pouco desanimado.

- Não - disse H´irim com um sorriso - aqui teremos nossas respostas.

- Fala como se já soubesse disto.

- E sei - disse de forma misteriosa.

Queria perguntar mais alguma coisa, mas ele entrou no salão. A porta - ou o que quer que fosse - se fechou por detrás deles assim que entraram.

- Aqui é a ponte?

- Não - respondeu H´irim - aqui é onde podemos ter respostas. A ponte é onde poderemos fazer algo.

- Você disse que já sabia...

- Depois - disse ele de forma rude - temos um objetivo no momento.

Ele avançou mais um pouco, de forma a ficar no centro da sala, e falou com voz alta.

- Sou H´irim, o atual lider do povo deste planeta. Como meu antecessor antes de mim, aqui estou para pedir auxílio.

Uma luz - ou algo que aparentava isto - iluminou H´irim por alguns instantes. Logo depois, uma voz pôde ser ouvida.

"Sondagem confirma sua idêntidade. Informe sua solicitação."

- Um grande cometa irá colidir com meu planeta em breve. O que pode ser feito para salva-lo?

"Nada" - respondeu a voz imediatamente.

Ouvir aquilo o fez tremer. Seu mundo não poderia ser salvo? Sua filha morreira antes mesmo de nascer? Estavam definitivamente condenados?

- COMO?!?! - gritou ele - A tecnologia que vi aqui claramente indica que vocês são capazaes de possuirem algo que possa desviar o cometa.

Notou que H´irim o observava, mas ignorou isto.

- Somos apenas cobaias para vocês? Reles experi6encia de laboratório? Criaram aqueles testes apenas para não fornecer nada em retorno a quem passasse neles? Quem são vocês?

"Sou o computador da nave TAEHIRAM A nave de colonos que trouxe a primeira geração de sua raça para este mundo. Um grande fenômeno magmático ocorrido há milênios sepultou a nave debaixo desta montanha, aprisionando, em seu interior alguns tripulantes. Estes tripulantes me forneceram minha programação final: Acompanhar o desenvolvimento dos descendentes, auxilia-los quando preciso, e impedí-los de chegarem aqui a menos que demonstrassem evolução cultural o suficiente para tanto."

- Por que?

"Não há registros para fornecer uma resposta."

- Talvez - disse H´irim de uma forma paterna - porque na época em que a nave foi sepultada, os colonos tivessem sofrido alguma degeneração cultural.

Desgor olhou para o piso. Era uma revelação muito chocante para se aceitar assim tão facilmente. Mas explicava um monte de coisas. Em especial sua própria raça, e algumas outras espécies cujos fósseis antecessores nunca tinham sido localizidos.

- Ainda não respondeu porque não pode ajudar a evitar a destruição de meu povo.

"Não há energia suficiente na nave, nem mesmo em todo o planeta, para acionar as armas que poderiam deter o objeto por vocês descrito como cometa. Mesmo que houvesse, o acionamento destas na superfície deste causaria o mesmo efeito de destruição. Também não é possível enviar comando ao objeto descrito como cometa para que este mude sua rota."

- Então... estamos condenados. Não há nada que tenha alguma possibilidade de dar certo? - perguntou melancólicamente Desgor.

"A nave que esteve em seu sistema possui armamento suficiente para que a rota do objeto descrito como cometa tenha sua órbita desviada. Mas as chances de sucesso são inferiores a 20%."

- Nave?!?! - perguntaram H´irim e Desgor praticamente ao mesmo tempo.

"Afirmativo. Uma nave esteve em seu sistema e deixou pesquisadores que, obviamente, estão incumbidos de observa-los."

- E eles sabiam que o cometa iria nos atingir?

"Indeterminado. Algumas comunicações feitas sugerem que sim, outras, que não. Também é possível que apenas alguns dos tripulantes da nave soubessem do fato, e que outros o ignorassem."

- Podemos entrar em contato com eles?

"Negativo. Sua raça não possui tecnologia suficiente para enviar um sinal que alcance a nave agora."

- E quanto aos pesquisadores? - perguntou H´irim - eles podem monitorar nossas transmissões?

"Afirmativo. Eles, na verdado, já o estão fazendo há alguns dias"

- É isso - disse H´irim - vamos tentar chama-los e pedir por auxílio.

- Sim - concordou Desgor - é só o que podemos fazer. Não! Se você - dirigiu-se a "voz" - sabe que houve uma nave e que captou transmissões dela, então pode também se comunicar.

"Negativo. Os tripulantes sobreviventes que deixaram minha programação final destruíram todos os sistemas que possibilitariam tal comunicação."

- Por que?

"Não há registros para fornecer uma resposta."

Já era esperado. Desgor balançou sua cabeça de um lado para o outro lentamente.

"Ainda há outra possibilidade. Sua raça possui tecnologia suficiente para construír containners e transportar alguns dos seus para o planeta habitável que orbita a estrela companheira desta, que vocês chamam de T´hiram Marthk, utilizando suas naves que estão, atualmente, circndando alguns dos astros do seu sistema."

- O Mark Kellar ocorrerá neste planeta?

"Negativo. Mas pode ser simulado."

- Como?

"Não há registros para fornecer uma resposta."

- Então estamos condenados de qualquer forma.

"Existe tecnologia na nave que esteve no sistema para que tal informação possa ser descoberta."

- De qualquer forma, precisamos contata-los - disse H´irim - Há mais alguma informação que possa nos fornecer?

"Todas as informações pertinentes a sua solicitação inicial foram fornecidas."

- Vamos Desgor. Não há mais nada para nós aqui.

- Nossas rações irão acabar hoje.

- Pegaremos mais no caminho. Há um depósito perto da saída que iremos usar que possui algumas caixas com rações. Tem um gosto diferente e único, e é perfeitamente assimilável por nossos corpos.

Desgor começou a seguir seu lider para fora da sala. Nem iriam até a ponte, não havia sentido nisto. Conseguiram o que queriam. Só então percebeu que a informação sobre ter havido uma nave no seu sistema lhe despertou a memória sobre a lenda do fim de seu mundo.

- A lenda! - disse ele.

- Como?

- A lenda, a parte final dos enviados dos anjos.

H´irim aparentemente não estava entendendo o que ele queria dizer. Mas ele preferiu fazer a pergunta diretamente ao computador do que explicar.

- Esta nave que esteve no nosso sistema, tem algum nome?

"XANTH."

Ambos se entreolharam. Xanth era uma palavra de uma língua antiga - que era atribuída aos antigos - para indicar anjos ou seres angelicais.

- O que sabe sobre nossa lenda do fim do mundo?

"Não ha registros para fornecer uma reposta, mas, inferindo uma hipótese, esta lenda pode ser baseada nas palavras de um viajante temporal."

Nenhum dos dois disse mais nada. Saíram silenciosamente da sala e seguiram em direção - que H´irim aparentemente parecia conhecer muito bem - do onde poderiam pegar mais suprimentos para o retorno.

****

Capítulo 17

Bertran tinha saído cedo do seu turno. Queria preparar tudo para quando a capitã... ou melhor, para quando Lisa chegasse. Ainda se sentia como um adolescente, mas sua experiência adquirida com o tempo estava compensando. Agradecia a sua mãe por ter lhe dado o hábito de cuidar de uma pequena horta. O que diriam os outros tripulantes se soubessem que ele tinha sua própria plantação em seus aposentos? Claro que havia o aspecto científico também. Estudar como gerações de plantas se comportavam se reproduzindo por anos no espaço. Mas era muito prático, e, quando podia, sempre tinha comida caseira fresca. Para o jantar especial, tinha acabado com quase metade do sua - muito humilde - "plantação".

Mas iria valer a pena - se nao valesse, já tinha autorizado todos a chama-lo de "idiota" por estragar uma oportunidade como aquela. Não é todo dia que o objeto de nosso desejo convida-se para estar presente...

A porta! Seu coração acelerou. Deu uma última olhada na mesa. Nada de peixe, certo. Deu um riso incontido. Estava mesmo nervoso. foi rapidamente ao quarto olhar-se no espelho. Roupas casuais, mas elegantes. Claro que estar em uma nave estelar limitava bastante o romantismo que podia-se utlizar - fora a estrelas e nuvens de gás, naturalmente - mas ele tinha uma supresa especial. Se Anderson tivesse feito tudo certo, naturalmente.

Foi até a porta, ajeitou-se de forma a que não ficasse nenhuma ruga em sua roupa, e a abriu. Lisa estava lá, com um vestido longo vermelho vinho semi justo. Usava - talvez, ele não conseguia notar detalhes muito bem - saltos pequenos e uma cor rosa nos lábios quase que brilhante.

- Vai ficar de boca aberta ou me convida para entrar - disse ela sorrindo.

- D..desculpe - disse ele totalmente sem jeito - é que... quer dizer... bem, com uma beleza de Vênus destas, o que queria que eu fizesse?

- Obrigada - agora foi ela quem ficou sem jeito, sem dúvida devido a classificação endeusada que ele tinha mencionado.

- Por favor, entre.

Ela entrou lentamente. Ele fechou a porta, e, a um estilo quase esquecido do século XIX, puxou a cadeira gentilmente para que se sentasse. Ela agradeceu. Com o coração palpitando - um verdadeiro tambor - ele sentou-se a sua frente.

- Como pediu, nada de peixe. Apenas algumas verduras, um macarrão caseiro e meu purê secreto.

Ela observou as travessas a sua frente. Seus olhos estavam iluminados. Era evidente que ela estava impressionada com tudo.

- Linda dama, permita-me - ofereceu-se antes que ela esboçasse qualquer movimento. Colocou com maestria, uma porção de macarrão e de purê em seu prato. As verduras foram postas de forma a formarem um jardim ao redor do macarrão no centro. Ele fez o mesmo com seu próprio prato.

- Naturamente - prosseguiu ele - a bebida e por conta da casa.

Serviu um gim pouco alcóolico para sua convidada. Esta, permaneceu no silencio - mas com um sorriso de satisfação - que tinha se imposto desde que tinha entrado.

- Meu caro, você realmente está me impressionando - disse ela por fim, assim que ele terminou de despejar a bebida no copo.

- Estou me esforçando para isto - disse ele - descobri que gosta de massas, e também que gim é sua bebida predileta.

- Cortesia de quem? - inqueriu, com um sorriso de desconfiada.

- Acredite ou não, de quem você menos espera. Saúde?

Ele ergueu seu copo, aguardando que ela fizesse o mesmo. Aparentemente intrigada com a sua úlima frase, ela hesitou um pouco. Mas, pegou o copo e bateu levemente no dele, experimentando-o sem seguida.

- Delícia! - disse ela - levemente adocicado. Suas fontes são muito eficientes - disse ela com o seu sorriso, desta vez, um pouco mais insinuante.

- Eu os pago bem. Sempre os mantenho em forma.

- Imagino - disse ela enquanto decidia experimentar a criação culinária dele.

Pegou um bocado das verduras e levou a boca. Sua surpresa e satisfação foi imediata. Tanto, que logo em seguida pegou uma segunda garfada, e uma terceira, e então uma quarta. Só então notou que estava demonstrando uma certa gula.

- Desculpe - disse ela levando o gardanapo a boca para ocultar a comida que ainda estava em processo de mastigação - mas... isto está delicioso! Como fez o sintetizador criar algo tão saboroso assim?

- Não fiz - disse sorrindo - isso é mera obra da mãe natureza.

Ele apontou com a mão para uma área de seu aposento, que, geralmente, outros tripulantes utilizavam para o quarto, por ser a área mais espaçosa. Com um estalo de dedos, o ambiente ali foi iluminado, e a sua horta particular, agora claramente desfalcada, foi revelada.

- Mesmo o macarrão, foi feito do trigo que eu transformei em farinha.

Ela observava aquilo boquiaberta. Levantou-se e foi ver de perto. Ele permaneceu sentado, imaginando se ela iria agir como capitã e dar-lhe um sermão por utilizar os alojamentos para destinos "dúbios" ou elogia-lo pela iniciativa.

- Sabe - disse ela enquanto voltava para a cadeira para continuar com o jantar - geralmente eu procuro me manter reservada no primeiro encontro - então olhou fixamente para ele com os olhos transmitindo algo que ele não soube determinar muito bem o que poderia ser - mas não é via de regra.

Ela piscou o olho sorrateiramente e, sutilmente, enviou um beijinho. Ele não ouvia mais seu coração bater feito um tambor. Ela estava sentindo frio, e, de fato, havia algumas gotas de suor gelado descendo pelas suas costas. Como médico, ele tinha apenas dois diagnósticos: Ou tinha morrido, ou aquele "mero encontro inicial" ficaria totalmente fora de controle quando chegasse ao fim.

Felizmente, a parte médica dele sempre ficava na enfermaria quando saia do seu turno...

A frente da Xanth, um enorme asteróide esférico se apresentava, de forma imponente. Os dados dos sensores, agora a esta curta distância, confirmaram as suspeitas dos dados coletados pelas sondas. Aquilo era o satélite que procuravam. Rodeado por uma camada de rocha com cerca de oito quilômetros de espessura, estava um objeto artificialmente construído pora alguma inteligência ancestral, gigantesco para os seus padrões, e para o qual nada havia de similar em qualquer outra civilização que conheciam.

Doller olhava para os dados no console de seus aposentos. Apesar de seu turno já ter terminado, e de ter recebido ordens de "não trabalhar" da capitã, ele não podia se conter. Queria saber mais sobre aquilo. Aquela obra de arte de engenharia e tecnologia. Pelo que já tinha apurado, a cobertura de rocha, apesar de ser um disfarce excelente, não devia fazer parte do projeto original daquele engenho. Muito provavelmente é o resultado de milhões de anos - milhões mesmo, já tinha sido confirmado pelas análises geológicas - de poeira estelar sendo lentamente aglutinada ao redor do satélite, ocasionado pela atração gravitacional que este exercia, muito similar a do planeta Terra - ligeiramente superior, na verdade.

Com o tempo, camadas e camadas de poeira se comprimiram sob a ação desta gravidade, formando a composição de rocha sólida, mascarando a verdadeira origem do objeto que estava agora a frente da nave. O que assombrava Doller, era: Por que? Por que criar algo tão gigantesco apenas para coletar dados? De acordo com as sondas, o interior do mesmo, apesar de ser uma estrutura complexa, aparentava possuir poucos locais para abrigar uma tripulação. A maior parte do seu interior, era destinado a um tipo de gerador de energia - talvez - extremamente grande, e a bobinas de motores de dobra.

Esta era a parte mais assustadora de tudo. Aquelas bobinas de motores de dobra, eram, em essência, praticamente idênticas as de naves da Frota Estelar. Logicamente, bem mais aperfeiçoadas, mas com desenho e forma de operação virtualmente idênticas. Não fazia sentido. Outra coisa que não fazia sentido era o satélite não ter feito com a sua nave, o que o outro - de T´hiram - fez: Entrar em contato com o computador da nave e obter dados deste.

Fechou os olhos e encostou as costas no seu assento. Estivera sentado por horas, e suas costas estavam cobrando o justo preço por aquilo. Mas não foi pelo protesto delas que ele assumira esta posição, mas sim para pensar melhor no que tinha. Ou melhor, no que não tinha.

Não havia sinal de atividade no satélite - já não sabia se devia chama-lo assim - de tal forma que parecia inativo. Apesar disto, havia uma gravidade impossível - sem dúvida artificial - sendo emanada por ele. Tal gravidade atraía poeira estelar de forma a juntar uma sólida crosta ao seu redor. De fato, se o satélite estivesse em uma nebulosa planetária, sem dúvida iria formar um planeta, de tando absorver matéria. Mas como esta gravidade era gerada? Como aquela base em que ele esteve na estrela Antares pôde identificou que ali havia um satélite? Sem que, até o momento, nenhum tipo de sinal tenha sido captado? Bem, era verdade que, no sistema de T´hiram, apesar de haver um satélite lá, e apesar deste provavelmente ter entrado em contato com o computador da nave, nenhum sinal também foi captado.

Talvez a resposta pudesse ser obtida no dia seguinte, quando enviariam uma sonda para o interior do satélite. Até lá, teria apenas perguntas sem respostas.

Abriu os olhos, esfregou as costas, e mudou a consulta que fazia. Era hora de ver o que seu pessoal andou coletando do sistema que estavam incumbidos de mapear e iniciar uma análise um pouco mais detalhada. Quase ficou surpreso quando soube que fora detectada vida no sexto planeta. Microbiana, mas era vida. Bertran ficaria muito satisfeito de ter algo mais o que fazer além de ouvir as queixas rotineiras dos tripulantes.

Era verdade que, durante os primeiros dias, nada de excepcional seria detectado ou percebido. Ainda precisariam compreender um pouco melhor como a cultura de sete sub-raças havia se mesclado - ou não - no planeta. Mas, as últimas transmissões captadas, eram dedicadas, basicamente, a informar a eficiencia de fertilização ocorrida com o Mart Kellar recentemente ocorrido na cidade científica. Os operadores de campo, como os antropólogos que estavam na base no planeta eram chamados, acharam inicialmente que aquele tipo de transmissão era muito intirgante. Porém, conforme avançaram no conhecimendo da história do planeta - possível devido a interceptação de sinais de comunicação educativos, obviamente destinados a um tipo de escola - perceberam que aquilo era algo a ser comentado e comemorado. A última concepção havia ocorrido já há dez ciclos, ou seja, por dez translações do planeta - dez anos, por assim dizer - nenhuma criança havia nascido em toda a esfera. Algo que realmente poderia causar a extinção em massa de qualquer raça, caso o mesmo se repetisse com frequência. E parecia que iria se repetir.

Mas na última meia hora, as transmissões davam conta de que o líder do planeta havia entrado em contato, solicitando um transporte. Havia também um furor nos sistemas de comunicação - o equivalente a mídea - sobre o que poderia te-lo feito ir aonde "ninguém retorna". Nenhum dos antropólogos entendeu aquilo, mas repassaram a informação para Lopes, que, aparentemente, sorriu satisfeito na tela.

A uma enorme distância do planeta, dentro de um asteróide escavado para ser uma base, ou, sua fortaleza, como ele a chamava para si mesmo, Lopes relia com atenção cada transcrição das mensagens que tinham sido captadas e catalogadas pelos operadores de campo. De todas, apenas as que se referiam ao chamado do lider realmente eram úteis. Ele estava vivo! Iria retornar da ilha, e, talvez, sua maior descoberta pudesse, finalmente ocorrer.

Ele não se importava de poder ser um peão nas mãos do departamento. Dois de seus objetivos estavam agora ao seu alcance. O primeiro, observar livremente a extinção - ou a fuga desta - de uma raça; e, o segundo, a que realmente possibilitou que ele pudesse mandar e desmandar em tudo e todos, era um mero detalhe a ser "recolhido" depois que a poeira abaixasse. Ele realmente não se importava com aquilo, com a possibilidade de existir no planeta uma nave muito antiga, com tecnologia soberba. Só os registros que esta devia possuir lhe interessavam. A Dissuasão que fizesse o que bem entender desta nave. Se é que tal realmente existia, o que ele, apesar dos dados, ou melhor, da impossibilidade de obter dados da ilha, duvidava.

Não! Não estava realmente preocupado em "cumprir com sua parte do acordo". Tudo o que ele queria era apenas observar o seu planeta e o rumo que iria tomar. Exatamente tudo como ele desejava e queria.

Deu um largo sorriso. Estava há poucos dias livre da Xanth e da sua capitã e de seus asseclas, que, por vezes, tentaram tirar seu direto de estar ali. Seria o ápice de sua carreira, algo que seria invejado por muitos de seus colegas de profissão - que ele costumava se referir como idiotas de coração mole. Apesar de não ocorrer nenhuma comunicação no planeta, já deviam ter calculado qual a real trajetória do cometa. Era, também, a única explicação aceitável para que o líder deles tivesse partido para a ilha.

Brief correu desesperadamente pelas escadas da base, nem mesmo pensou em pegar o turboelevador interno. Chegou ao centro de comando e, ofegante chamou por Lopes.

- Comandante - disse ainda sem fôlego - o cometa...

- Calma homem - gritou Lopes, profundamente irritado por ser interrompido - deixe o relatório na mesa que irei ver mais tarde.

- Mas senhor, é de extrema urgência que...

- EU DISSE PARA DEIXAR O RELATÓRIO NA MESA!

- O cometa vai colidir contra o planeta! E pelo que pude apurar, não...

- JÁ CHEGA - Lopes estava furioso - ponha o relatório na mesa e saia! Antes que eu o expulse por insubordinação.

Todos os que estavam no comando olharam para ele. Estava vermelho, provavelmente pela raiva que estava sentindo. Mas não conseguiam compreender o porque dele, aparentemente não querer dar importância para aquele fato. Se um cometa daquele porte colide com um astro, não se espera que sobre muita coisa a nível de sobreviventes.

- Comandante - chamou um dos presentes - não seria...

- CALE-SE! Voltem aos seus afazeres!

Todos pularam de susto quando ele disse aquilo. Ainda olhavam atônitos. Ele pegou a prancheta com os dados coletados e retirou-se para os seus aposentos, sem dizer mais nada.

- Brief - chamou um dos presentes - como assim o cometa vai colidir contra o planeta?

Olhou um pouco assustado para ele, antes de responder.

- Eu acabei de decodificar algumas transmissões da cidade científica. Eles estão chamando todos os Scout de volta para carrega-los com armas nucleares. Vão tentar desvia-lo. Conferi a órbita do cometa e realmente verifiquei que ele irá colidir contra o planeta. Vai ser em uns oito meses. Só não entendo porque ele ficou tão nervoso com isso.

- Eu também não - respondeu seu colega - eu também não.

- Posso abrir os olhos?

- Ainda não!

Lisa estava achando muito divertido aquela "brincadeira" de surpresa. Bertran disse que iria leva-la a um lugar inesquecível - na nave? - e que, logicamente, como era surpresa, deveria ficar de olhos fechados. Ouviu alguns sons, como o toque de dedos em um painel de computador. Logo depois, uma porta se abriu. Pelo barulho, devia ser uma porta do compartimento de carga.

A área de carga? Pensou divertida. Talvez houvesse lá um projetor de hologramas, e este mostraria alguma paisagem. Sentiu ele a conduzindo - obvimente pela porta aberta - e, logo depois, a porta se fechou atrás de si. O que aconteceu depois a deixou atônita! Ouviu o som de água do mar quebrando em uma práia. Mais do que isso! Podia sentir o cheiro da marezia! Onde ele a tinha levado?

- Abra os olhos agora.

Ela abriu os olhos e, aturdida, quase caiu de joelhos. Ali, na sua frente, ou melhor, em toda a sua volta, havia uma praia. Ela estava em uma praia! A lua, a esquerda, estava cheia, deixando o ceu noturno levemente azulado. A linha do horizonte rebrilhava mansamente sob o luar. A distância, uma ilha podia ser vista. Podia sentir os seus sapatos afundarem na areia. De repente, deu um pulo de susto. Uma onda, mansamente, cobriu os seus pés.

- Meu... meu Deus! Como?!?

- Bem vinda ao holodeck - disse ele em um tom romântico - onde sonhos podem se realizar.

O holodeck! Claro! Mas... a Xanth não tinha um holodeck. Quer dizer, não tinha saído da doca com um instalado, tanto que Anderson tinha solicitado... mas... tão rápido?

- Como Anderson conseguiu? - disse ela maravilhada com a visão a sua frente - Ele só teve mesmo o tempo em que estávamos viajando rumo a T´hriam para isso...

- Já disse que sua tripulação é boa - comentou ele - e acho que você não tem outra escolha a não ser aceitar isto.

- Amanhã vou chamar a atenção de Anderson por não me manter a par de seus progressos. Aquilo é uma gaivota?

- Não - respondeu ele - é um grodler. Esta é uma praia do planeta Ventura, logo a outra lua irá surgir no horizonte.

Era lindo. A luz da lua na praia era incrivelmente real. O cheiro de marezia, o som. Só faltava mesmo as bebidas exóticas de Ventura para estar perfeito. Sentiu que Bertran pos a mão em sua cintura, de forma a abraçar. Quando se voltou para ele, na sua mão direita, estava um copo circular com um líquido azulado.

- Querbana? - perguntou.

- Sim - respondeou ele.

Querbana era uma bebida meio ritualistica de ventura. Quando oferecida em uma praia para alguém do sexo oposto, era equivalente a um "convite a tentativa". A tentativa poderia ser de qualquer coisa, desde negócios, até relações amorosas. Cabia a pessoa que recebia a oferta da bebida decidir a que tipo de "tentativa" se referia. Considerando o belo jantar, a comparação feita as deusas do Olimpo, e a estupenda praia com a qual ele a presenteou, não teve dúvidas quanto a qual tentativa iria promulgar.

Pegou a bebida, e, segurando-a, tocou-a com os lábios e levou a outra borda do copo para os lábios dele. Depois de sorver o líquido de gosto único, abaixou a mão, e, contra todas as regras de etiqueta do século XIX - que Bertran, uma a uma, respeitou - tascou-lhe um beijo com tal ímpeto que ambos foram ao chão.

Não havia dúvidas quanto a qual "tentativa" ela havia aceito, mas Bertran demoraria ainda seis anos para descobrir que ela estava de olho nele desde o primeiro dia em que o viu. O hábito de deixar os homens pensaram que conquistaram alguém, era algo que as mulheres ainda mantinham neste século e que iria continuar por mais mil anos.

Ou mais...

****

Capítulo 18

Como chefe de segurança, Abramovich insistiu em estar presente, apesar das afirmativas de Doller de que não haveria perigo algum dentro do satélite, uma vez que as sondas mostraram que tudo lá dentro estava desativado. As sondas já tinham dado o resultado preliminar do interior. Tudo absolutamente silencioso, sem atmosfera respirável - mas havia uma - e com fósseis de formas de vida unicelular que, aparentemente, foram os únicos habitantes daquela estrutura por milênios, até que, por fim, o ambiente não possuía mais recursos para manter tais criaturas vivas. Era por isso que Bertran gostaria também de estar presente, mas teve de se contentar em monitorar os sinais vitais do grupo avançado selecionado para ir ao seu interior. Doller, Abramovich, e mais dois auxiliares de engenharia. A capitã não queria o engenheiro chefe lá dentro. Alias, se pudesse encontrar um bom motivo, nem Doller e Abramovich teriam ido. Mas não pôde.

Na sala de transportes, eles revisaram os itens de segurança de seus trajes. Logo depois, a clara luminosidade da sala deu lugar a escuridão total. Logo, esta foi retalhada por feixes de luz advindos dos capacetes dos trajes espaciais. Abramovich olhou bem para o local em que estavam. A melhor descrição que vinha a sua mente para aquele lugar seria "um depósito". Mas não haviam caixas ou outro material que pudesse corroborar para sua descrição. Apenas uma grande área retangular totalmente vazia. Viu Doller se aproximar de uma parede e usar o seu tricorder. O zumbido irritante do aparelho indicava os seus pequenos mas eficientes sensores colhendo os dados do material de que esta se compunha.

- Idêntico as paredes da Base Antares - murmurou ele lentamente - parece que o satélite e aquela Base foram mesmo construídos pela mesma cultura.

- Bom - disse ele - essa cultura tinha algo parecido com um interruptor de luz? Está escuro demais aqui.

Tinha dito mais em tom de brincadeira, para tentar tirar da mente a estranha sensação que sentia. De repente, como se algum fantasma houvesse percebido sua solicitação, o local foi totalmente iluminado, fato acompanhado por murmúrios do grupo avançado.

"- Grupo avançado, tudo bem ai?"

Era a voz da capitã em seus comunicadores. Ela devia estar acompanhando, assim como toda a ponte, o que estavam fazendo, através da transmissão de imagens que seus trajes faziam.

- Sim capitã - respondeu - está tudo bem. Pelo menos, não teremos de usar os intensificadores de luz.

Em seguida, olhou fixamente para Doller, que estava ainda um pouco assombrado pelo que ocorrera.

- Totalmente desativado? - questionou.

Ele apenas sorriu levemente. Não devia estar esperando por aquilo. Dividiram-se em dois grupos para explorar melhor os corredores gigantescos do satélite. Sua missão era identificar um terminal de computador que pudesse permitir uma transferência dos dados coletados por este durante o período em que permaneceu ativo.

Oshiro observava a imagem transmitida para a grande tela da ponte. Não tinha, realmente, muita coisa a fazer, exceto observar o seu console e evitar de bocejar em serviço. Gidja, que deveria ter participado do grupo avançado, estava ao seu lado, também observando a tela. Ele podia perceber como ela devia estar um pouco chateada de ter recebido ordens de ficar a bordo.

Ele evitava de olha-la diretamente. Isso devido a alguns comentários em tom de sigilo que andara ouvindo no dia anterior. Ela e Anderson tinham decidido não prosseguir com o "caso" que metade da nave já sabia que tiveram. Isso se espalhou rápido, ainda mais que tinham conversado sobre isso em uma área recreativa, a vista de todos. Depois de alguns minutos, Anderson tinha se levantado e Gidja ficou sozinha. Logo alguns amigos dela se sentaram - incluindo ele próprio - e a interpelaram sobre a evolução do "casal incrível", como já tinham sido chamados.

Mas ela disse que tinha sido apenas uma aventura - uma excelente aventura, como fez questão de frisar - mas, que para a carreira de ambos, era melhor ficar por aquilo mesmo. Anderson pretendia deixar a Xanth e seguir carreira na divisão de desenvolvimento de motores da Frota, e ela pretendia se tornar capitã algum dia. Seria difícil para ambos manterem suas perspectivas no caso de iniciarem algum romance.

Apesar disto ter sido um tipo de desilusão para os outros, para ele, em particular, foi como um aviso. O que faria no lugar deles? Mesmo agora, o que ele pretendia fazer em sua carreira? E em sua vida? Ele quase tinha morrido quando estava na Thunderbold. Se tivesse, não deixaria herdeiros, apenas os pais que tinham se separado.

Talvez já fosse hora de parar de simplesmente deixar a vida carrega-lo e começar a tomar as rédeas desta. Bertran não estava fazendo isto? Ele sabia que ele e a capitã tinham tido um encontro a luz de velas na véspera - claro que o resto da nave também sabia disto - mas, o resto da nave não sabia que ela só retornara aos seus aposentos no começo da manhã. Tinham ficado no - agora conhecido - novo holodeck a noite inteira. O que Bertran teria dado em troca daquela oportunidade? O holodeck, apesar de já estar funcionando, só podia fazer poucas simulações. Não estava desenvolvido o suficiente para operar como se esperava, programando a situação e simplesmente entrando. Ele só podia fazer uma única simulação por enquanto. E devia ter sido aquela que Bertran e a capitã viram. Ele só iria ser liberado para a tripulação em mais umas duas semanas - ele já tinha verificado com o engenheiro chefe.

Só ele estava na contramão. Quando iria apresentar sua mãe a sua futura nora? Alias, quando iria conhecer a futura nora de sua mãe?

- Navegador, estamos nos afastando do satélite - disse Gidja.

Ele olhou assustado para os controles. Gidja não tinha dito em tom de comando ou reprimenda, apenas tinha feito um comentário. Só que ficou evidente que ele estava distraído. Algo grave em um comando de nave estelar. Ele viu os dados e ficou confuso. Olhou para a tela - que agora mostrava a imagem do satélite - e, positivamente, estavam se afastando deste. Tornou a olhar para o seu console.

- Não. Não estamos nos afastando - disse ele um pouco intrigado - estamos na mesma posição.

- O satélite é que esta se afastando - disse Diana ao seu lado - provavelmente está sendo atraído pela massa do planeta próximo. Nossa nave é muito pequena para sofrer a mesta atração.

- Então, compense Oshiro - disse capitã - não quero que nosso pessoal fique muito distante de nós.

Ele corrigiu a posição da nave, de forma a ficarem na mesma distancia relativa de antes. Voltou a observar a imagem da tela, que agora, novamente, mostrava as imagens captadas do grupo avançado. Aquela situação não era incomum, ele era quem não tinha observado o seu console para ter percebido aquilo. Era melhor deixar a questão sobre o que fazer com sua vida para mais tarde. No momento, haviam quatro vidas que poderiam depender de sua rapidez nos controles.

Os sinais vitais do grupo estavam sendo monitorados na enfermaria. Bertran os observava atentamente no seu console. Mas, realmente, não prestava atenção a estes. Os avisos automáticos iriam soar e chamar sua atenção para qualquer coisa fora do que seria considerado como "normal".

Ele preferia observar a coleta feita pelos sensores da forma de vida microbiana que havia no satélite. Era verdade que estavam todos extintos, mas havia uma boa chance de que algum deles pudesse ser "revivido". Já havia registros de micróbios que, após um período preso em âmbar por cerca de quarenta milhões de anos, voltaram a vida simplesmente adicionando-se água.

Com sua pesquisa interrompida, esta seria uma chance praticamente única de acessar formas de vida reconhecidamente mais antigas que as que já se tinha catalogado. A comparação da estrutura destas com as que já tinha feito em sua pesquisa, seria extremamente proveitosa. Tinham que pegar uma amostra destas. Ele queria ter ido junto para faze-lo, mas Lisa, em seu posto de capitã, negou seu pedido. Profissionalmente falando, ela tinha razão naquilo. Não era preciso sua presença apenas para coletar amostras, qualquer um do grupo poderia faze-lo. E sua presença não seria útil para o objetivo daquela incursão. O único motivo real para ele estar lá, seria apenas para satisfazer sua emoção de, pessoalmente, coletar as amostras.

Uma boa demonstração do quanto a capitã era profissional. Podia, em função da noite que compartilharam, ter permitido sua integração ao grupo avançado. Mas, como capitã, rejeitou aquilo. Estava gostando mais dela agora. Isso o lembrou que precisava agradecer a Anderson por ter preparado o holodeck para funcionar, apesar de ainda estar incompleto. Sorriu com aquilo. Na verdade, Anderson foi quem tinha oferecido um programa no holodeck em troca de uma forma de se lembrar do que tinha ocorrido durante a noite dele. Ele jurou guardar segredo do método que tinha usado, mas sabia que era uma questão de tempo até a tripulação descobrir o seu pequeno segredo. Talvez alguns vulcanos até já desconfiassem.

Lisa não ficara tão surpresa com esta revelação, mas ela quis saber até onde iam as suas habilidades. Felizmente, para ela e para o resto da tripulação, era muito limitada.

Concentrou-se nos dados dos sensores. Havia positivamente a indicação de bactérias do tipo espiralado. Solicitou a capita para que uma amostra fosse colhida. Esta informou que eles recolheriam seu "musgo" logo após terminarem de checar a área em que se encontravam.

Riu um pouco da forma como ela se referia aos micróbios, e resolveu continuar suas impressões sobre as formas de vida coletadas em T'hiram. Todas as criaturas estavam ainda no laboratório, e, as formas de vida pluricelular seriam devolvidas assim que houvesse uma chance. Mas ele não precisava sair da enfermaria para prosseguir com seus testes. Tivera o cuidado de extrair algumas células do roedor e deixa-las incubadas para que se multiplicassem. Um viva a clonagem! Podia criar quantas células quisesse, e fazer toda sorte de experimentos assim, sem causar qualquer dano ao animal em questão.

Estava curioso para decifrar todo o seu código genético. Os resultados iniciais davam conta que, aquela criatura compartilhava 90% de seu genoma com roedores terrestres, e 96% do mesmo com criaturas similares em Birmam VI. Se aquilo não era uma prova de, pelo menos, "estranha coincidência" ele não sabia mais o que poderia ser.

E, por falar em coincidências, o computador avisou que a pesquisa que estava sendo feita em cadeias de DNA estava completada. Era sobre a determinação de que raça deveria pertencer algumas das seqüências genéticas da imediato. Rapidamente foi conferir o resultado e ficou de boca aberta. A imediato Gidja tinha uma expressiva cadeia de DNA comum a raça Klingon. Aquilo era uma estranha novidade. Pensou um pouco a respeito do que deveria fazer com aquela informação. Armazenou-a em um arquivo codificado de forma que ninguém mais pudesse acessa-la. Falaria com a capitã depois. Não era algo que deveria despertar os interesses detetivescos de um médico.

O painel do monitoramento soou um aviso. Tinha ocorrido alguma mudança fisiológica com um dos integrantes do grupo avançado. Rapidamente foi conferir e viu que, provavelmente, se deveu a algum tipo de susto, pois já estava tudo voltando ao normal. Não pode deixar de matutar... O que teria assustado a andoriana?

Dherna, agora recém promovida, observava aqueles corredores lisos e monótonos com muito cuidado. Abramovich seguia na frente, inspecionando o caminho. Ela, por sua vez, tentava descobrir alguma coisa interessante sobre onde estavam. Fora não ter a menor idéia de onde vinha a luz que iluminava a tudo, não havia nada de excepcional para ver. O piso era perfeitamente liso e anti derrapante, o mesmo com as paredes e o teto. As leituras de atmosfera continuavam inalteradas, era totalmente tóxica para eles. Morreriam em poucos minutos, caso não estivessem com seus trajes. Fora isso, não havia nenhuma novidade. Tudo uma grande monotonia que já durava horas e horas.

Mesmo assim, sentia-se desconfortável. Sentia que estava sendo perscrutada de alguma forma. Suas antenas, apenas de confinadas ao traje, sinalizavam algo estranho. Não sabia definir o que era. Talvez o fato delas estarem confinadas estivesse perturbando seus sentidos. Mas ela não acreditava muito naquilo.

- Aqui - disse Abramovich - há uma porta.

Ela se aproximou e olhou onde ele tinha indicado. Havia uma delineação na parede, na forma de uma porta ou passagem bloqueada. Apontou o tricorder para o local e viu as leituras. Nada indicava que aquilo poderia ser removido ou que houvesse algo do outro lado.

- Acho que não - disse ela - talvez seja apenas um encaixe para alguma coisa, como um painel, que não se encontra mais aqui.

- Será mesmo? - ele não parecia concordar - nós andamos por um longo arco de círculo, contornando algo que deve ficar no centro. E não achamos nada além da passagem e do local onde chegamos. Exatamente o que as sondas indicaram. E o grupo de Doller está a apenas seis quilômetros de nós, e também não achou nada.

Ela encaixou o seu tricorder de volta a presilha de seu traje e ficou pensando. Realmente, não haviam achada nada até então, exceto um longo corredor sem absolutamente nada. As sondagens dos sensores indicaram que havia uns parcos compartimentos com atmosfera, e, todo o resto, apenas com vácuo. As sondas não tinham achado nada, por isso eles estavam ali.

- Bem, se é uma porta, como sugere que a abramos?

- Talvez da mesma forma que fizemos com que o lugar fosse iluminado.

- Pedir para que abra?

Ele sorriu para ela e olhou para a "porta".

- Abra - disse ele.

Seu coração deu um pulo! Sua pele azulada ficou subitamente mais escura, traduzindo a reação de surpresa de todo o seu corpo ao que tinha ocorrido. O vão da porta simplesmente se moveu de forma que uma abertura tinha surgido. Mas não foi um movimento do tipo mecânico. Era mais do tipo orgânico, como se um músculo tivesse se contraído. Pegou novamente o tricorder e efetuou nova série de leituras. Nada orgânico, salvo dos microorganismos extintos que lá estavam.

- Tudo bem? - perguntou ele visivelmente preocupado.

- Sim - respondeu - apenas que eu não esperava por tal coisa. Fiquei muito impressionada.

- Doller - disse ele pressionando o seu comunicador - achamos uma entrada. Em quanto tempo pode chegar onde estamos?

"- Estamos verificando algo parecido com um painel aqui. Se quiser prosseguir, esteja a vontade, mas, tome cuidado."

- Tomaremos - disse ele desligando.

Sem dizer mais nenhuma palavra eles entraram no recinto. Era gigantesco. Uma enorme abóboda, cujo extensão era, literalmente a perder de vista, dominava todo o local. Assim que terminaram de passar pela porta, tudo escureceu e, diante dos olhos de ambos, milhares de luzes apareceram. Logo, percebeu que aquelas luzes eram representações de estrelas. A sua direita, ela olhou e deu um grito de susto. A Xanth estava lá, também representada. Duas esferas brilhantes, uma amarelada e outra vermelha, eram facilmente visíveis. Era as estrelas daquele sistema.

Ela estava assombrada com a perfeita representação. Tanto que nem percebeu os chamados já preocupados da capitã, perguntando se estavam bem, muito menos que Abramovich estava falando com ela.

- O que? - disse assustada - desculpe, eu...

- Eu compreendo - disse ele - eu pedi para usar o tircorder.

Ela peou o tricorder e efetou uma coleta de dados. Sua surpresa continuou a aumentar. Por mais que ela tentasse, não conseguia obter nenhuma leitura do local em que estavam. Tudo o que este captava eram as radiações fracas das estrelas ali representadas. Apontou o aparelho para uma das estrelas do sistema, a amarelada, e obteve leituras que teria caso estivesse na Xanth, exatamente na posição em que deveriam se encontrar agora. Apontou para a Xanth e obteve leituras do seu casco, da torção gravitacional que seus motores causavam no espaço ao seu redor e, também alguns sinais de vida humana que haviam nesta.

Olhou ao redor, viu um um brilho que deveria ser de um planeta relativamente próximo. Apontou o tricorder para este e teve dados que indicavam que era um planeta tipo "K". Apontou o tricorder para Abramovich e teve leituras normais de um corpo humano. Voltou o aparelho para si mesma e aferiu as leituras corretas de seu corpo andoriano. Novamente, apontou o aparelho para as estrelas, e, novamente, recebeu as leituras que receberia de estrelas verdadeiras.

- Dherna?

Ela olhou para ele, os olhos arregalados. Na Xanth, Bertran estaria verificando, impressionado, o fluxo de adrenalida que estava se esplahando pelo sue corpo.

- Isto - tentou falar, mas não conseguia achar as palavras certas - isto tudo...

Ela desviou o olhar dele e moveu a cabeça lentamente, de forma a observar a majestosa cena a sua frente.