Capítulo 1
- Complete a ligação.
Na tela, surgiu o rosto daquele que provavelmente era o líder dos renegados. Sua expressão era dura e extremamente confiante.
- Sou o comandante Jevl...
- Não me interessa quem seja você - cortou ele rispidamente - Irá entregar a sua nave a nós, ou mataremos cada um dos reféns na sua frente, a cada dois minutos.
Um garoto - devia ter no máximo seis anos de idade - foi arrastado até o lider, e posto de frente para a tela. Seus olhos estavam mareados. Sem dúvida estava apavorado.
- Este é o primeiro!
uma arma e disparou contra a cabeça da criança. O disparo atravessou o seu crânio e imediatamente o cauterizou. Seu corpo sem vida desabou no chão como um boneco de pano. A tripulação da ponte não conteve murmúrios de assombro.
Estou contando o tempo - disse ele, de forma desdenhosa.
virou-se de costas para a tela e, enquanto dirigia-se lentamente a sua cadeira, disse:
Travar torpedos fotônicos na nave seqüestrada. Disparo contínuo e seqüencial até a sua completa destruição.
Todos da ponte olharam para ele. Como se tivesse olhos nas costas reafirmou.
Imediatamente!
- Sim comandante.
- ESTÁ BLEFANDO! - gritou desesperado o líder renegado quando viu o armeiro digitar o comando. Os torpedos começaram a ser disparados ainda antes de Jevlack se sentar.
Na tela, via-se que ele - e todos os outros que estavam mais ao fundo - caíram ao chão, incapazes de se equilibrar com os impactos seguidos dos torpedos. Provavelmente em menos de um minuto, a USS Kosh seria destruída. Era uma mera nave de transporte de passageiros, sem armas e seus escudos eram basicamente de navegação.
Assim que se sentou, Jevlack acionou o comunicador.
- Todas as salas de transporte! Assim que os escudos da Kosh caírem, focalizem em todas as formas de vida a bordo e transportem-nas ao hangar. Todos os que portarem armas devem ser mantidos no feixe de teleporte até segunda ordem. Creio que terão dez segundos para isso antes que a nave seja destruída.
Era lógico que todos os operadores de transportes tivessem entrado em pânico nessa hora. Precisamente, 23 segundos após o comunicado, a USS Kosh deixou de existir.
"- Comandante! Conseguimos transportar noventa e seis pessoas. Dezessete estão no feixe por portarem armas."
A nave tinha noventa e sete passageiros, contando com a tripulação e os renegados. Descontando a criança morta, a missão fora um sucesso. Sendo balançados pelos disparos, os renegados ficaram totalmente sem ação para ameaçar os reféns.
"- O que devemos fazer agora?" - perguntou o chefe de transportes.
- Estou pensando - respondeu.
Todos na ponte olharam para ele. Já conheciam muito de seu comandante para imaginar - com muita certeza - de que se ele quisesse matar os renegados agora, o faria.
- Teleporte-os para as celas - disse depois de alguns minutos - Segurança! Desativem todos os dispositivos de conforto das celas, e quem me questionar sobre isso, será ejetado pessoalmente por mim no espaço.
Toda a tripulação voltou aos seus consoles. Obviamente, ninguém em juízo perfeito iria perguntar nada a ele.
A imagem foi congelada. O Almirante Neves levou a mão ao seu queixo e ficou coçando-o. Se ele também estivesse lá, não ousaria comentar nada com o então tenente comandante Jevlack, no comando de sua primeira nave estelar, a USS Danúbio.
Repassou a gravação novamente. Aquela havia sido a primeira vez - de que se tinha notícia - em que Jevlack demonstrou sua faceta prática, fria, calculista e apavorante. Ordenou que disparassem contra a nave seqüestrada apenas com os torpedos fotônicos, já antecipando que os impactos sucessivos iriam anular qualquer reação dos renegados, que estariam em pânico por verem a morte se aproximando, e que aquele comandante em especial não se incomodava com os reféns.
Mas foi um mero engodo - com certeza, os operadores de transporte jamais diriam isso - para deixar os renegados sem ação enquanto os escudos da nave eram baixados para permitir o teleporte de todos. Embora ele pudesse com certeza salvar a nave.
Isso foi levantado no inquérito que se seguiu, ao que ele retrucou "levante o rabo daí e vá decidir o que fazer quando assistir a uma criança ser assassinada na sua frente, pelo menos eu tenho consciência do que pode surgir em decorrência de meus atos. NÃO EXISTE 'SE' NO MEIO DE UMA DECISÃO, SÓ APÓS ELA TER SIDO FEITA."
Que sermão ele tinha dado no promotor, e disso ele se lembrava bem, pois ele estava lá, como um dos três oficiais que iriam decidir se ele seria levado a uma corte marcial ou não. No entanto, foi basicamente uma medida disciplinar, pois ele acabou sendo aclamado pela sua tripulação. E não seria boa política fazer algo contra ele e deixar duzentos oficiais, alferes, engenheiros, etc, espalhar por aí que um "herói" foi repreendido. Por falar nisso, o promotor acabou pedindo desligamento...
a ficha de Jevlack na tela: dezessete inquéritos e três cortes marciais; Perda de três naves; Oito repreensões por insubordinação; Quarenta e seis comendas; Quatro promotores afastados direta ou indiretamente após tê-lo interrogado.
. Um sorriso amarelo. Sem dúvida, ia acabar se tornando uma lenda, por isso queria ele atrás de uma mesa, mais especificamente no comando da área estratégica da frota.
O problema era: quem iria ser o lunático a tentar convence-lo a aceitar uma promoção? Certamente não seria ele. E ninguém também iria afasta-lo da Frota. Por mais complicações disciplinares e até algumas diplomáticas que ele causasse, seus resultados sempre foram de extrema utilidade para a Federação. O salvamento da nave Klingon Mhar - preservando a honra de seu comandante - foi de extrema valia para a aliança. Tanto que foram os generais klingons que exigiram que ele não devia ser "desonrado" em uma "encenação para crianças assistirem".
era muito respeitado entre os klingons. Talvez até demais.
que horas eram. As capitãs Tirvik e Donner já deviam ter partido para suas respectivas missões. Não podia protelar mais, tinha que encarar a fera e lhe dizer da forma mais educada possível que estaria "desempregado" pelos próximos três meses, e que enquanto isso poderia fazer um serviço não muito nobre para a Federação.
o seu comunicador.
Senhora Liol, informe ao capitão Jevlack para ele se apresentar em meu gabinete em... quinze minutos.
- Sim almirante." - respondeu sua ordenança.
minutos lhe dariam tempo de sobra para pensar em como proceder...
****
As ondas de água alaranjadas quebravam suavemente na costa, naquele belíssimo anoitecer coroado pela estrela azulada e pelo céu rosado. A estrela era azul pois era muito jovem - em termos astronômicos - "apenas" dois bilhões de anos de existência. Uma adolescente. Microrganismos similares a bactérias terrestres ficavam por toda a atmosfera, o que dava a coloração rosada durante o por do sol e amanhecer. O mar alaranjado era devido a outros microorganismos, muito similares a plantas unicelulares. Tudo compunha "O planeta dos amantes" como era chamado.
"- Capitão Jevlack, o almirante Neves solicita a sua presença em seu gabinete em quinze minutos."
Jevlack pressionou o seu comunicador.
- Estou a caminho.
Deu uma última olhada no ambiente. Inalou o aroma do mar, que lembrava suavemente um perfume.
- Computador! Encerrar programa.
Em instantes, tudo desapareceu. Jevlack se viu em uma sala de vinte por vinte metros, sem absolutamente nada, a não ser uma porta para sair.
Que aperfeiçoamento foi feito. Lembrava-se ainda da primeira versão do Holodeck, que tinha visto na USS Atlantis(*). Não havia calor, odores ou brisa. Agora, era uma simulação perfeita. Ótima para treinamento e relaxamento. Franziu o cenho, será que as pessoas daquele século ainda tinham aqueles "desejos secretos" de que se lembrava de seu tempo?
- DROGA!
Saiu da sala cabisbaixo. Esse ultimo pensamento disparou - novamente - uma centena de outros. Não sabia quase nada de "seu tempo". Mesmo o seu nome não era algo confiável.
Lembrava-se de Cochrane, um velho meio que tarado e gênio ao mesmo tempo. Foi ele quem o escolheu para pilotar a sua última criação, o "ALBATROZ". Que nome ridículo para uma nave!
Mas a maldita fez juz ao seu nome. Assim como os albatrozes fazem péssimas aterrissagens, por não controlar a sua aproximação, este pássaro de metal ficou literalmente sem freios! Acelerando continuamente até o limite de seus motores. Só parou quando os tripulantes - dos quais ele era o comandante - tentaram destruir o reator, o que causou a distorção temporal que os manteve vivos pelas décadas.
Nenhum dos seus conhecidos estava vivo - afinal, ele tinha conhecidos? - nenhuma lembrança de quando ou porque fizeram dele uma perfeita mescla de ser vivo tecnológico. "Tecno-orgânico" como disseram os cientistas que o trataram como cobaia.
Cumprimentou duas jovens cadetes que passaram por ele. Elas olharam para traz e trocaram comentários sobre aquele homem que chamava tanto a atenção devido a ter olhos vermelhos.
Os ouvidos de Jevlack - como sempre - captaram a conversa.
- Beverly, que gato! Eu adoraria servir como enfermeira na nave em que ele estivesse, você não?
- Talvez - retrucou a outra - mas sinto que ele é mais velho do que parece, além disso, já sou comprometida.
- Futura senhora Crusher - ambas riram jovialmente.
Sorriu. Ainda não se acostumara a ser objeto de referência do sexo oposto. Percebeu que estava em frente ao gabinete do almirante. Entrou e apresentou-se a ordenança. Esta disse para ele ficar a vontade que o almirante o receberia em breve.
Sentou-se na poltrona e ficou observando pela vidraça as naves que estavam na doca. O esqueleto da nova nave lhe chamava a atenção. De inicio, todos pensaram que seria a nova classe Galaxy, mas há algumas horas, em uma conversa no refeitório, soube que era na verdade uma nave experimental. Um monte de dispositivos novos a serem usados na Galaxy - e em outros modelos - seriam implementados nesta, para serem avaliados. Incluindo o holodeck. Havia um projeto de um novo motor de dobra, que não "feria" o continuum espaço como os atuais, um novo desenho de seção disco - ou seria melhor falar seção oval? - seria implementado. Novos conceitos de phasers também estavam no projeto.
Desviou o olhar para a sala. Tinha que parar um pouco com aquela mania de ficar sempre pensando em serviço. Era espaçosa. Uma planta - que ele nem imaginava de que planeta seria - ficava bem no centro, com cerca de um metro. O tapete cinza claro dava um ar de neutralidade, não contrastando com a mesa da ordenança - que tinha um vaso de flores, um console, um monitor e um comunicador. Um quadro na parede mostrava uma foto do SS-Nimitz, o porta-aviões da marinha americana do final do século XX. Nada mais além do sofá e de um sintetizador ao lado deste - obviamente para fornecer um cafezinho para as visitas.
Aparentemente ele agora estava subordinado ao almirante Neves. O comando passou a batata quente para outro. O que ele iria fazer? Dar-lhe o comando de uma nave de pesquisas? Não, já tinham lhe dito que seu perfil psicológico não se adequava a naves de pesquisas. Ele gostaria de ver esse perfil. Para alguma coisa ele devia servir, pois nunca foi cogitado expulsa-lo da frota.
- Capitão - disse a ordenança - o almirante irá recebe-lo agora.
Levantou-se e seguiu para a sala do almirante.
- Capitão Jevlack - disse ele estendendo a mão - prazer em conhece-lo.
- Mas já nos vimos antes - disse enquanto apertava a mão dele - no meu primeiro inquérito.
- Boa memória - disse ele, demonstrando um certo embaraço - sente-se.
Sentou-se em frente a ele. A mesa tinha apenas uma prancheta eletrônica - sem dúvida com a ficha dele - o monitor devia ser embutido, assim como o console. Havia também uma ampla janela nesta sala, mas ela mostrava o espaço, e mais abaixo o planeta Marte - devia ser um monitor - Uma de suas luas, Fobos estava visível mais a direita. Havia alguns quadros de pinturas impressionistas, a estante atrás do almirante tinha cento e vinte e um livros, todos títulos em vulcano e todos livros que ele já tinha lido. Havia também uma escultura holográfica de uma nave estelar - classe Miranda - provavelmente uma nave que o almirante havia comandado. Uma maquete de um cruzador klingon ao lado desta lhe chamou a atenção. Todas estas observações levaram algo em torno de quatro décimos de segundo.
- Capitão - começou ele - pelo que li em sua ficha, acredito que goste de ir direto ao ponto.
- Sim senhor, e pelo que sei de seus livros, o senhor deve ser muito prático. Todos tratam de definições de prioridade e filosofia de vida vulcana. Alguns foram escritos especificamente para humanos.
- Sim - confirmou ele um pouco surpreso - enfim, não temos nave para você comandar, pelo menos para os próximos três a cinco meses.
Ele levantou uma das sobrancelhas, exatamente como os vulcanos faziam.
- Então, por que me chamou? Podia dar um recado simplesmente.
O almirante sorriu. Mais pela sua imitação de vulcano do que pela pergunta.
- Há um projeto em que estamos trabalhando no momento. E acredito que o senhor seja a pessoa ideal para chefia-lo.
Jevlack olhou para ele. Se ele fosse começar a falar do departamento de Dissuasão - ele já tinha duas desagradáveis lembranças deste departamento - iria arrasta-lo para o holodeck, simular uma praia e enterra-lo até os tornozelos. DE CABEÇA PARA BAIXO!
Joana saiu do banho apenas com a toalha na cabeça. O chão gelado a fazia andar dando pulinhos, o que fazia os seus seios balançarem - e doerem - violentamente. Felizmente, a travessia até a sua cômoda era curta.
Massageou os seios levemente. As vezes achava que devia ter feito aquela cirurgia plástica que o seu médico tinha recomendado. Isso evitaria as dores nas costas devido ao esforço - pequeno mas constante - para mante-las eretas, o que empinava os "grandes melões" como seu namorado carinhosamente chamava - ela detestava isso!
Na verdade, eles não eram tão grandes assim, ela é que era do tipo mignon. O efeito final fazia os homens darem trombadas em mesas, por não estarem olhando para a frente.
Tirou a toalha e começou a se pentear. Não tinha muito tempo. Tinha menos de uma hora para se apresentar no hangar, onde deveria pegar o transporte e seguir para doca espacial de Utopia.
Pegou a braçadeira e a prendeu no pulso. Um dispositivo começou a se acionar assim que identificou sua pele. Ele estimulava a fabricação de melamina, a substância que deixava a pele bronzeada quando esta recebia raios ultravioleta. Nesse caso específico a regulagem a que estava submetido a deixaria quase mulata. Pegou outro dispositivo - parecido com uma lente de contato. Grudou no olho direito, depois de ouvir um bip, grudou no esquerdo. Depois de novamente soar um bip olhou-se no espelho. Seus olhos - antes verdes - voltaram a cor natural, castanhos escuros. Combinaria com a nova pele que vestiria - na verdade, já estava ficando bronzeada. Verificou a raiz de seus cabelos novamente, sim, ainda estavam pretos. Ficariam assim por alguns meses.
Abriu a gaveta e pegou seus - novos - documentos. Joana Ghender, antropóloga. Formada na academia da frota na data estelar 76572.8.
Pelo menos, seu primeiro nome era igual ao seu nome real, o que facilitava muito. Ficou de pé o observou todo o seu corpo. O bronzeamento avançava a olhos vistos, em mais dez minutos estaria totalmente na pele de sua nova personificação. Viu a aliança na mão esquerda. Quase se esquecera, desta vez, não seria casada. Tirou o anel e sorriu satisfeita ao ver que não havia marca dele no dedo.
Foi ao seu armário e pegou sua roupa. Ainda tinha mais vinte minutos. Gostaria de ver a cara de seu "namorado" quando descobrisse que nunca existiu uma Sienna Cobber.
O almirante olhava Jevlack andar desconcertado de um lado ao outro da sala. Súbito, ele parou e o encarou. Seus olhos vermelhos brilhavam com o reflexo da luz do teto neles, dando-lhe um aspecto feroz que o fez encolher involuntariamente.
Quando falou, foi em surtos, seguidos de pausas.
- Você quer... que eu comande uma nave... apenas para garantir a segurança... de um grupo de antropólogos e paleontólogos???
O rosto dele estava incrédulo
- Sim - respondeu de forma simples.
- Segurança contra o que? - inquiriu ele.
- Talvez nada, talvez tudo. O fato é que não temos nenhum comandante disponível que tenha experiência em locais muito afastados da Federação. Em um dos planetas classe "M" remapeados durante a cartografia do setor, foram descobertos fósseis incrivelmente similares aos nossos dinossauros, e outros quase idênticos ao homem de cró-magnom. Ambos foram datados como sendo tecnicamente da mesma idade. É natural que a ala científica da Federação esteja na ponta dos pés para botar uma equipe por lá.
Jevlack continuou olhando fixamente para o almirante. Isso já o estava constrangendo. Não adiantava tentar esconder o jogo. Pegou uma ficha de sua gaveta e deu a ele.
- Estas são as coordenadas do planeta.
Jevlack olhou, e no mesmo instante sua expressão indicava que compreendia o porque essa missão de alguns meses estava sendo dada a ele. O planeta em questão ficava um pouco adiante do final da fronteira klingon/romulana. Nenhum capitão aceitaria de bom grado ter de ficar entre aqueles povos. Como ele tinha um certo respeito dos klingons, era natural que fosse considerado ideal para a tarefa. Se pedisse ajuda, seria vergonhoso para os klingons recusarem.
- E depois? - perguntou ele.
- Depois - o almirante relaxou ao ver que ele aparentemente aceitara a idéia - você comandará a nova nave experimental que estamos desenvolvendo para testar as novas tecnologias. Creio que sua missão irá terminar quando estiverem configurando os seus decks. A exemplo do que fez com a USS Thunderbold, poderá dar alguns palpites.
- Posso fazer isso agora, em doze minutos. Basta me deixar acessar os projetos.
Franziu o cenho. Doze minutos? Isso ele queria ver. Acionou o seu monitor e carregou a configuração da nave classe UNIQUE - pois esta seria a única - para o seu terminal. Ofereceu o console a Jevlack e ficou observando.
Tudo o que viu foram borrões de suas mãos e dedos digitando o console. O incrível é que não ouvia o seus dedos tocarem a mesa, apenas o som de teclas sendo pressionadas. Pressionadas em um ritmo tão rápido que era contínuo, como um alarme disparado.
Onze minutos e quarenta e seis segundos depois, Jevlack encerrou suas sugestões. Um texto com mais de mil páginas.
- As datas previstas para a implantação de cada pedido também estão indicadas, bem como o nome que eu gostaria que esta nave fosse chamada.
O almirante ainda estava com os olhos arregalados.
- Não gostaria de fazer parte da equipe de designers da Frota?
- Prefiro o espaço - respondeu ele de forma muito distante - é mais compensador, e muito inconstante.
Uma pontada de saudade apertou o seu coração ao ouvir aquelas palavras.
- Sim - concordou - é muito mais compensador.
Sorriu para ele.
- Minha ordenança lhe fornecerá os detalhes, bem como o levará a sua nave temporária.
- Obrigado. Se me der licença, gostaria de conhecer esse calhambeque.
- O que?
- Expressão do século passado, mas acho que o termo "sucata" ainda é conhecido neste.
- A nave acabou de passar por uma revisão - argumentou.
- Não muda o fato de ter sessenta anos de uso - ele levantou a mão e agitou a ficha que tinha recebido dele - Conheço esta nave. E sei o que ela andou passando - piscou o olho. Entregou a ficha a ele e saiu da sala.
O almirante retornou a sua cadeira e sorriu de uma forma que quase ria. Foi como argumentar com um vulcano, convencer a um klingon e enganar um computador ao mesmo tempo. Olhou para o monitor e avançou rapidamente pelas páginas. Parava de vez em quando para avaliar o que estava descrito. Extremamente prático, funcional e com duplas funções. O desenho de certos dispositivos tanto serviam para pesquisas como para mapas táticos de combates. Outros serviam para análises espaciais e para estratégias. Provavelmente a Thunderbold tinha coisas similares, desde que foi lançada sob o comando de Jevlack foi a que melhor fazia cartografias e análises de sistemas, e em tempos recordes. Também era a que mais "caçava" encrencas com romulanos e outras infelicidades que cruzavam com o seu caminho. A última infelicidade a destruiu. Isso o lembrou de uma coisa!
Acionou o comunicador de sua mesa.
- Comodoro Roocher?
"- Sim almirante?"
- Aquela aposta ainda está em vigor?
"- Certamente!"
- Eu aposto que ele perde a nave três ou quatro meses depois de assumir o comando. Duas caixas.
"- Estou anotando. Por enquanto, você está sendo o mais pessimista"
- Eu sei - respondeu - depois falaremos mais no bar.
"- Entendido"
Não conseguia tirar o sorriso de maroto do rosto. Deu uma ultima olhada no monitor antes de desliga-lo, ficou curioso para saber qual o nome que ele queria que a nave tivesse.
- USS Brasília - murmurou - Então ele tinha uma ponta de nacionalismo. Fascinante!
(*) - Sim, é a USS Atlantis criada pela Silvia Costa e Lorna Dannan. Tenho licença para esse comentário. J.
Capítulo 2
Grayson chegou a sala de transportes ofegante. Estava atrasado! A Alferes que estava lá operando olhou surpresa para ele.
- Sou o auxiliar de Engenharia Greyson, devo me apresentar na USS Chagas.
Ela sorriu para ele.
- Então, diria que está na verdade muito adiantado. Não conhece a "doença" da Frota?
- Sim, eu conheço - disse com palavras rápidas, ainda tentando recuperar o fôlego - mas você não sabe qual o capitão que a irá comandar desta vez.
Ela o observou surpresa. Obviamente não fora informada disso. Uma vez que era tradição o capitão seguir para a sua nave em naves auxiliares, ela não o devia ter visto.
- Aguarde - disse ela - vou ver se tem alguém lá para coordenar o teleporte.
Ficou ereto. Forçou-se a respirar mais devagar. Pensou na nave em que iria servir.
A USS Chagas tinha uma frase conhecida por todos os integrantes da Frota Estelar. Chamavam-na - pelas costas - de USS "doença de" Chagas.
Não que a culpa fosse dela, aconteceu que quando de seu comissionamento, a tripulação selecionada não era a ideal, basicamente de calouros problemáticos. Foi como se devido a uma coincidência do destino, os formandos menos talentosos e com tendências de insubordinação e de não levar a sério a tarefa na Frota fossem todos reunidos para ela.
Indicar um comandante muito condescendente também foi uma péssima escolha. A gravação interna de sua primeira missão de pesquisas revelou o desastre para a disciplina militar da Frota: Discussões entre oficiais, o comandante não conseguindo se fazer respeitar, namoros durante o serviço, e o primeiro de um impressionante currículo de atrasos para cumprir a missão.
Mudaram parte da tripulação, mas já era tarde, o estigma estava formado. Ninguém que estivesse pensando em sua carreira iria querer servir nela, e todos os que nela serviram, acabaram ou ficando com serviços burocráticos ou saíram da Frota.
Desta forma, apenas as sobras ficavam para ser indicados para ela. Quando estava atracada em docas, as vezes seus aposentos de oficiais eram "alugados" como se fossem quartos de motel do século XX, em que cadetes enamorados aproveitavam o conforto dos mesmos.
Quando Greyson soube para onde fora indicado, pensou seriamente em abandonar a frota. No refeitório, teve de suportar as piadas de seus colegas. Até que eles mesmos disseram que seria melhor para o seu futuro, sair da Frota e procurar outra profissão.
Ficou convencido disso. No momento em que devia se apresentar, seguiu até o escritório central para solicitar sua dispensa! Melhor ficar com a mancha de "botar a mão onde não se deve" do que ser chamado de "tripulante da USS Chagas".
A atendente compreendeu a sua desilusão, mas quando estava para preparar a sua baixa, descobriu quem seria o novo capitão da nave. Assim que soube, foi correndo para o transporte.
Era uma chance de ouro! Mostrar a Jevlack que tinha potencial. Apesar de sua perigosa distração durante a missão de treinamento externo, ele tinha as melhores notas de sua turma. E não iria mais ficar paquerando ninguém fora de sua folga.
- Ninguém responde - disse ela - bom, vou transporta-lo daqui. Se achar alguém lá dentro, diga-lhes para da próxima vez acionaram o BEACOM. Facilita o meu trabalho.
Sorriu. Chegaria apenas cinco minutos atrasado. Posicionou-se no transporte e viu a alferes lhe mandar um beijo de despedida. Não apreciou muito isso, mas por enquanto, ainda teria de suportar ser considerado igual aos outros tripulantes daquela nave.
Viu-se sozinho na sala de transporte. As luzes estavam apagadas e os controles desligados. A nave iria receber os pesquisadores dentro de três horas e estava assim? Por que a Frota não a tinha descomissionado?
Pressionou o seu comunicador insígnia. Nenhum sinal. Aquela nave não tinha os novos sistemas. Foi apenas revisada, não atualizada. Foi até o painel de controle.
Ligou-o e fez um diagnóstico. "Sensores externos inoperantes" O comando também devia estar todo desligado. Viu um comunicador interno do lado, acionou-o.
- Comando!
Nenhum sinal de confirmação. A central de comunicação também devia estar desligada. SACO!
Seguiu em direção a porta e pouco antes de atravessa-la parou em sua frente. Avançou devagar, e ela se abriu automaticamente.
Pelo menos, alguma coisa está ligada por aqui. Seguiu pelo corredor - este estava com as luzes acessas - até encontrar um turboelevador. Entrou nele e solicitou para ir a ponte.
Já que aparentemente ele era o único na nave, iria deixa-la operacional para quando o capitão chegasse. Não queria ser incluído no sermão que ele faria caso descobrisse o que estava acontecendo.
Entrou na ponte e viu que a maioria dos sistemas estava desligada. Apenas luzes e alguns monitores de status operavam. Era uma ponte pequena, com a cadeira do comandante ao centro, um painel para o navegador, e outro para o oficial de comunicações ao lado deste. Não havia um console para armas - naves de pesquisas não deveriam precisar disso - o controle destas ficava junto com o do navegador. Um assento mais a direta indicava que havia mais um posto lá. Com certeza era usado para contatos e análises com os grupos avançados.
Bom, depois ele veria melhor os esquemas da nave, seguiu direto para o painel do navegador. Tinha que começar acionando os sensores externos. Ao passar pela cadeira do comandante parou estático e gelou! Tinha alguém sentado nela.
- Boa tarde - disse ele.
Reconheceu a voz. Era do capitão Jevlack. Ficou abobado, sem saber bem o que falar.
- C-capitão. Eu... me atrasei. Quer dizer, eu tinha que estar aqui há cinco minutos... o que quero dizer é que não sou o encarregado... bom....
Empertigou-se.
- Auxiliar de engenharia Greyson se apresentando senhor.
Estava trêmulo. O capitão se levantou e o mediu de cima a baixo, com aqueles olhos que se moviam tão rápido que era difícil ver a suas pupilas.
- Bem vindo a bordo, Greyson. Sei que seu atraso é pequeno, e que não é responsável por esse abandono. Eu me lembro de você. Estava na Starfleet. Acabou ficando com o apelido de "Mão Boba".
- Sim senhor - ficou corado - sou eu.
- Bem meu caro, eu não tolero apelidos depreciativos em minha nave. Estando em serviço ou não.
Saiu um pouco de sua pose de sentido e o observou surpreso. Logo em seguida, se endireitou.
- Siga para a engenharia e ligue o que deve ser ligado. Depois, desative os sistemas auto-limpantes e limite a auto análise apenas ao nível 4.
- Sim senhor! - Virou-se e seguiu para o turbo elevador, sem olhar para traz.
Estava sem fôlego. Não se lembrava de que o capitão podia ser tão imponente assim. Já estava com pena dos outros tripulantes.
Mas... por que desativar o sistema auto-limpante?
Quando surgiram na sala de transportes, ainda riam da cara que a alferes tinha feito quando lhe deram aquele tapinha no traseiro. Estavam ainda sob influência da bebida da noite anterior.
Armando estava um pouco menos grogue - na verdade, a ressaca já estava começando - puxou o amigo pelo braço, levando-o pelo corredor. Tinham que ir para a ponte e ligar tudo, antes da chegada do novo capitão. No caminho, Jefferson quis ir ao deck 3 para bater na porta dos aposentos reservados ao capitão. Queria saber se a festinha já tinha acabado.
- Já chega Jef - disse ele também rindo um pouco - vamos tentar escapar de um sermão desta vez.
- Esqueça isso - disse enquanto entravam no turboelevador - vai ser igual aos outros dois últimos. Ele dá um sermão, dá outro, fica fora do sério, pede dispensa e coisa e tal. E a gente continua aqui, neste buraco.
- É - concordou.
Parecia que a Frota considerava que mante-los na mesma nave era mais penoso que uma expulsão. Provavelmente estavam certos. Entraram na ponte e notaram que alguém estava sentado na cadeira de comando. Provavelmente devia ser o novo auxiliar de engenharia, já o que novo capitão deveria chegar quase na hora da nave partir.
- Começou bem rapaz - disse Jefferson sem nem olhar direito para ele - os comandantes desta nave não costumam ficar ai muito tempo, é melhor alguém esquentar mesmo esse banco, para variar. Mas acho melhor levantar o traseiro e ir a engenharia. Nosso amigo lá - apontou com o polegar - não quer levar uma bronca por deixar a nave as moscas desta vez.
- Por que eu deveria ir a engenharia?
O alarme de Armando disparou. Não era a voz de um cadete recém formado que ele tinha escutado, mas a de um homem maduro. Olhou para ele e tremeu. O uniforme era do comando. Ho-ho!
- Olha meu filho - Jefferson aparentemente não devia ter percebido o mesmo que ele - Esta nave só vai receber cinco pessoas que eu ainda não conheço, o auxiliar de engenharia, o capitão, e três cientistas. Você não está vestido como cientista, o capitão chegará mais tarde. Então, você só pode ser o "mão boba" - deu uma risada rápida.
- O Senhor Grayson já se encontra em seu posto, verificando o estado lastimável em que vocês deixaram esta nave.
Ai ai! Armando parou de ativar os sistemas de comunicações e endireitou o corpo, pronto para ficar em posição de sentido. Viu que Jefferson estava com a boca aberta, aparentemente pensando em uma desculpa qualquer.
- Capitão? - disse ele se virando e mostrando um grande sorriso - Desculpe por aquilo de traseiro. Nós não o esperávamos tão cedo!
O capitão se levantou e foi até o controle de navegação que Jefferson estava ligando. Levou sua mão ao console e digitou uma seqüência de comandos muito rápida.
- Em quinze minutos, os escudos da nave irão se erguer. O tripulante que não estiver dentro dela neste prazo, vai passar a missão inteira em uma cela dentro da estação. Se eu tiver que partir apenas com os três atuais, eu partirei.
Pressionou mais um comando e um cronômetro apareceu na tela, indicando 14:59s e decrescia segundo a segundo.
- Avise aos seus amigos, eu vou conversar com a segurança da estação e ir aos meus aposentos. Acho que estou com a primeira dor de cabeça de minha vida.
Saiu da sala lentamente. Armando não estava acreditando. Quinze minutos? Viu Jefferson mexer nos controles.
- Não sei como ele fez, mas não posso desfazer. Os escudos vão se levantar mesmo!
- Vamos chamar os outros - disse acionando o seu console - Controle da estação, Gina, por favor passe um recado rápido para o pessoal.
"- Favor seguir os procedimentos padrões de comunicação." - foi a resposta de Gina.
- Gina, não é hora de agir como burocrata! PRECISO FALAR COM ELES!
"- O senhor é um oficial de comunicações, seu capitão está interceptando esta conversa. Sugiro que aja de acordo com o seu posto."
Interceptando?!?
- Esse cara é bem diferente - disse Jefferson, também demonstrando surpresa.
- Tudo bem, tudo bem - ele estava começando a ficar assustado - Aqui é o subtenente Armando da USS Chagas para o controle da estação, solicito que.. que... - ele não sabia exatamente como proceder - avisem aos tripulantes... aos NOSSOS tripulantes que ainda se encontram na estação que devem se apresentar aos seus postos em - olhou para o cronômetro - treze minutos. Senão - sua voz afinou um pouco - serão presos.
"- Não foi tão difícil, foi? Sua mensagem será enviada. Fim de transmissão."
Olhou para Jefferson. Provavelmente o pessoal imaginaria que era algum tipo de brincadeira.
- Melhor nós irmos a sala de transporte e os trazermos a força.
- Não sei. Não acho que ele sairia com a nave sem tripulação.
Olhou em direção a porta do turboelevador que o capitão tinha usado há alguns minutos.
- Talvez não. Mas não estou a fim de descobrir.
Foi até o turboelevador, Jefferson o seguiu.
- Acho que ele só está fazendo pressão. Já tivemos linha duras antes. Já fomos postos a ferros. Não há muita diferença entre este e o último.
Olhou para ele.
- O ultimo não quis prender a tripulação antes da missão começar, e, até o momento, ele não blefou.
- Se ele prender o pessoal aqui durante a missão, terá problemas com comando da Frota.
A porta se abriu seguiram a passos rápidos para o transporte.
- Eu acho que ele não se incomoda nem um pouco com isso...
Entraram na sala e ao tentarem acionar os console, descobriram que ele estava bloqueado, código um. Apenas o capitão podia destravar a segurança.
- Tinha razão Wil - disse Jefferson para ele - ele não deve se incomodar. Aposto que vai ficar nos seus aposentos até o tempo se esgotar.
Arregalou os olhos.
- AI!
- O que foi? - perguntou.
- Ele foi para os seus aposentos, OS APOSENTOS DO CAPITÃO!
Jefferson levou a mão ao rosto e ficou balançando a cabeça ao mesmo tempo em que esfregava os olhos.
- Meu Deus! Desta vez seremos expulsos...
- Talvez dê tempo de chegarmos lá! Ele não deve ter ido direto, pois ia se comunicar com a estação antes de ir aos aposentos.
Ao saírem pela porta, ouviram um grande estrondo. Tinha vindo do deck acima deles. Entreolharam-se. Não podia ter sido o capitão, ou podia?
Marlene estava próxima ao clímax, Morjan sabia como acariciá-la, quando acaricia-la e de que forma devia proceder. Fora um bom aluno. E estar nos aposentos de um oficial da frota só aumentava o seu desejo.
Ela sabia que era um capricho, mas as mulheres tinham este direito. Viver perigosamente era algo difícil atualmente. Por isso, tinha que sentir a vida quebrando certas regras - desde é claro, que não fossem descobertos.
Sentiu que estava próximo. Abraçou o seu amante com força, para dizer que não devia se segurar mais.
Houve um violento estrondo que fez o leito vibrar - na verdade o deslocamento de ar foi tão poderoso que rachou o grande espelho da área de estar. Uma luz invadiu a penumbra do cômodo.
Completamente atordoados, ambos olharam em direção a luz. Havia uma silhueta lá, imponente. Mas havia um detalhe: Seus olhos. Eram dois holofotes vermelhos iluminando o rosto. Parecia um demônio.
Ficou paralisada. Nem ao menos conseguia gritar.
- Capitão - era a voz de Wil.
Uma outra silhueta parou ao lado da primeira. Era menor, mas o contorno era de Wilson. O interruptor foi acionado, iluminando o aposento. Pedaços da porta estavam por toda a parte. O impacto que ela sofreu foi tão grande que se despedaçou, tendo inclusive alguns pedaços incrustados na parede ao seu lado. Sentiu um arrepio.
- C-capitão.. permissão para falar...
O capitão olhou para ele. Não parecia estar com raiva, e sim sereno. Em nada lembrava o demônio de momentos antes.
- Arrume mais três alojamentos - disse ele - um para mim, e mais dois para eles. Em uma hora quero uma reunião com todos os oficiais que estiverem na nave, incluindo esses dois!
Saiu da sala, mas ainda completou no corredor.
- Que ninguém ouse reparar este aposento!
Wilson olhou para os pedaços da porta espalhados. Estava visivelmente incrédulo com aquilo. Ele olhou para ela.
- Acho melhor vocês pararem com isso e se vestirem. Já estamos bem encrencados.
Foi só ai que ela percebeu que estava nua e no ato. Morjan ainda estava saindo do estado estático que ficou.
- Nossos alojamentos? - perguntou ele saindo definitivamente do transe - Ele disse mesmo mais dois para eles?
- Parabéns - disse Wil dando de ombros - acho que foram convocados. Vou ver onde posso acomoda-los.
- Espere um pouco - disse Morjon saindo de baixo dela, o que lhe causou um certo desconforto.
Ele foi até a porta pegar Wil pelo braço e traze-lo de volta para dentro.
- Ele não pode fazer isso! - disse indignado.
- Quer discutir com ele? - Wil estendeu as mãos de forma a mostrar os pedaços da porta espalhados.
Ele olhou ao redor, ela pôde ver que estava um pouco trêmulo.
- Nós somos cadetes - disse - ainda nem fizemos nossa primeira prova! E ela é neta do almirante! - apontou em sua direção.
Wil a olhou. Sentiu vergonha nessa hora e puxou o cobertor para cobrir os seus seios expostos.
- Acho que isso será mais um motivo para que o almirante não tenha escolha. Ele é do tipo que anunciaria isso em todas as freqüências.
- Ninguém é tão prepotente - disse ela, entrando pela primeira vez na conversa.
- Acho que o termo "pré", não se aplica a ele - saiu pelo buraco onde antes ficava a porta.
Depois de algum tempo, Morjan se voltou e sentou a beira da cama, ao lado dela. Ficava balançando a cabeça levemente, provavelmente tentando entender o que estava acontecendo.
- Vou falar com o meu avô - disse ela acariciando os seus cabelos - vai dar tudo certo. Por mais que tenhamos quebrado as regras, ele não pode nos prender aqui.
Ele se virou para ela devagar.
- Marlene, seu avô pode te proteger, mas para mim acabou. Vou ser expulso. Vou deixar meu pai com a cara no chão. Ele ficou tão feliz quando entrei para a academia...
Começou a lacrimejar. Estava entrando em desespero. E não havia como conforta-lo. Ele tinha razão, sua carreira estava terminada.
- Acho que posso dobrar meu avô para isso - disse ternamente enquanto deva-lhe um beijo na face.
- Melhor nos vestirmos - disse se levantando - temos uma reunião em uma hora.
Ela olhou para ele enquanto pegava as suas roupas. Não podia escapar da sensação de que estava para entrar em um pesadelo...
Mas afinal, o que ele usou para fazer aquilo com a porta?
- Isso não é função de um guerreiro! Ser a babá de naves da federação.
Moedh sorveu o gaghi que balançava na boca feito macarrão, fazendo um estalo quando este foi engolido quase sem ser mastigado.
- Concordo - disse Thar - mas são ordens superiores. Além disso, o capitão desta nave é Jevlack. Ele tem o respeito de meu pai e o meu. Apesar de seus superiores o tratarem desta forma.
- Jevlack - disse entre os dentes enquanto pegava outro punhado com as mãos - não acredito que um humano possa merecer o respeito de um klingon!
- Os fatos não se incomodam com o que acreditamos - disse em tom de ironia.
- Pior para os fatos - enfiou o bocado na boca e o mastigou com gosto - ele não fez nada além do mínimo exigido de um aliado.
Pensou em impor sua autoridade, mas seria melhor - e mais disciplinar - que o próprio Jevlack demonstrasse que tipo de humano era.
- As situações irão determinar isso - disse meio ríspido - onde está Kansha?
- Da ultima vez, ela estava supervisionando a manutenção das armas. Clohim foi para lá faz algum tempo.
Levantou o lábio superior esquerdo, esboçando um semi sorriso de ironia.
- Acho que teremos uma boca a menos - disse ele gargalhando em seguida.
Moedh olhou em sua direção, o rosto sério.
- Ela já o recusou duas vezes. Não pode ser tão tolo para tentar mais uma.
- Mas ele é - disse Thar - é jovem, impetuoso. Acha que pode preencher os requisitos de qualquer fêmea.
- E não é assim com um guerreiro? - perguntou quase em tom de desafio.
Clohim era irmão de Moedh. Não seria muito bom para a honra de sua família descobrir que ele ainda agia como uma criança.
- São as fêmeas que decidem - respondeu de forma inquisidora - um guerreiro deve ponderar sobre a recusa. E não ignora-la. Clohim tem apenas potencial, mal completou o seu rito de passagem. Não houve tempo ainda de provar o seu valor a ela. Tudo o que ele tem são palavras, tudo o que pode mostrar é o que poderia fazer.
Moedh pegou a taça e bebeu de um só gole, colocou-a na mesa com força. Passou a língua entre os lábios para retirar o pouco líquido que lhe escapou.
- Ele não seria tolo para forçar um combate - disse depois de pensar um pouco.
- Mas foi só o que lhe sobrou - disse Thar se levantando - ele a deseja, e só pode tê-la agora se provar o seu valor. A menos que queira ser envergonhado em uma terceira recusa.
- Ele não o fará - disse com convicção.
Thar já estava saindo da sala quando ouviu estas palavras.
- Não? - disse ele se voltando - está certo disso?
- Estou! - respondeu fitando-o nos olhos.
- Muito bem - disse satisfeito - Esta disposto a uma aposta de honra?
Ele se levantou dando um soco violento na mesa.
- Se ele viver, quero ser transferido para outra nave, antes desse encontro!
Thar se aproximou, ficando a poucos milímetros de seu rosto.
- E se ele morrer - disse com firmeza - você irá servir nessa nave da Federação como imediato, obedecendo as ordens de um humano.
Moedh bufou por alguns segundos. Foi um desafio de honra e ele tinha aceito. A contra oferta não podia ser considerada superior a oferta.
- FEITO! - gritou dobrando o braço direito.
Thar saiu da sala sem olhar para traz, deixando os comentários dos outros tripulantes para Moedh ouvir. Claro que a aposta seria sobre a vida ou morte de Clohim, ele não teria chance caso quisesse ter Kancha por combate. Alguém virou muito rapidamente no corredor a sua frente e isso lhe chamou a atenção. Era Kansha.
Ela cruzou com ele no corredor, demonstrando o seu respeito - algo próximo a continência dos humanos - Reparou que saia sangue de seus lábios e que ela estava mancando um pouco.
- O que houve? - perguntou a ela.
Ela o olhou e sorriu levemente.
- Mostrei ao meu último pretendente que ele não me servia, definitivamente. Se me der licença...
- A vontade - disse ele.
Observou-a entrar no refeitório. Só iria a enfermaria depois de comer.
Deu uma sonora gargalhada quando ouviu o urro de frustração de Moedh.
Marlene olhava para o seu aposento. Seco, sem personalidade. Foi para a nave apenas com a roupa do corpo. Todos os seus pertences estavam no seu quarto da academia. E com certeza não teria autorização para pegar nada. Tentou falar com o seu avô, mas a comunicações estavam cortadas.
Enquanto estava sendo levada para ali, viu que havia um reboliço na nave. Tripulantes saiam apressados da sala de transporte - só havia uma - e iam acelerado - correndo mesmo, alguns até tropeçando - para os seus postos. O novo capitão estava a fim de encerrar com a maldição da nave. Os sistemas eram ligados as pressas, sem a verificação de rotina, e isso fazia alguns sistemas de gerenciamento os desligarem.
Demorou meia hora para vencer o tráfego pelos corredores e chegar ao aposento que Wil conseguira para ela. Agora esperava que a chamassem para a reunião com o capitão. O que ele pretendia com ela?
Alguém estava na porta, ela disse que podia entrar. Era Wil.
- Tome - disse ele lhe entregando um uniforme - vista-o. Estarei esperando do lado de fora.
Ela viu que era o uniforme de um alferes. Do comando!
- Mas o que?
- Não me pergunte! Está tudo um inferno por aqui. Doze pessoas não conseguiram chegar antes que os escudos se levantassem, estão presos na estação. Na última comunicação que fiz com eles para solicitar uma lista de tripulantes para preencher as vagas que agora temos, Gina me disse nas entrelinhas que todos lá fora sabem o que está acontecendo aqui. As janelas da doca estão cheias de curiosos. Vamos ser notícia na frota inteira! Portanto, por favor - seu rosto estava quase implorando - vista-se e vamos a essa reunião.
Ele saiu deixando-a sozinha e com muito medo do que ainda estava por vir. Vovô, socorro!
Vestiu-se em poucos minutos e seguiu com Wil até a sala de reuniões. Havia umas quinze pessoas na sala, Morjan estava lá, ao lado de onde estava o capitão. Sentaram-se nos dois assentos que ainda estavam vagos e ficaram olhando o capitão.
- Meninos e meninas - começou ele, em tom irônico - antes que eu comece com o sermão que sem dúvida estão esperando, quero dizer...
Ergueu a cabeça e seus olhos se desviaram para cima, a direita. Suas orelhas balançaram quase que imperceptivelmente, como se estivesse ouvindo algo.
- ...três coisas - prosseguiu.
- Primeira, nesta reunião vocês tem permissão para falar livremente - espalmou as duas mãos na mesa e olhou para todos que estavam sentados.
- Segunda - tirou as mãos e se virou de costas, avançando lentamente em direção a parede - estou pouco me lixando para o que tenham a dizer.
Jefferson desviou o olhar do capitão e deu uma olhada para os outros, como se tentando dizer "que novidade...".
- Terceira... - ouviu-se um ranger de metal, que fez todos olharem em direção a ele. Ele tinha acabado de forçar a abertura da porta de ligação entre a sala de reuniões a sala adjacente, apenas com as mãos!
Pela porta aberta viu cerca de cinco tripulantes no cômodo ao lado, olhando abobados para o capitão.
- ...não tolero que escutem a conversa dos outros! Dêem o fora daqui! - Fez um gesto com o polegar em direção porta que ficava no outro cômodo.
Eles saíram correndo. Um deles tropeçou de costas e caiu sentado no chão. Foi se arrastando para a porta. Seria cômico, se ela não estivesse tão impressionada com o que vira. Agora sabia o que tinha acontecido com a porta do aposento em que estava, uma hora antes.
O capitão se voltou para eles, não havia raiva em seu rosto, ele apenas estava inexpressivo. Isso não combinava com a seqüência de eventos.
- Vocês não são apenas a vergonha da frota - continuou ele - são o pesadelo desta! Já se perguntaram porque nunca foram expulsos?
Ninguém respondeu.
- Sabem a repercussão que teria caso a frota viesse a expulsar toda a tripulação de uma nave? Como ficaria a academia? Apenas os melhores podem entrar nela. É referencia para todos os planetas alinhados e aliados. Como explicar que uma tripulação inteira tenha escapado da seleção desta instituição?
Alguns abaixaram a cabeça, Jefferson foi um deles. Ela por sua vez começou a entender a forma de agir dele.
- Os doze tripulantes que estão presos na estação serão expulsos da frota. Isso já foi decidido, mas sou eu quem os está expulsando, não a frota. Antes de partirmos eles serão desligados. Quanto a vocês... Vocês irão invejá-los.
Os que estavam de cabeça baixa a levantaram. Olhos arregalados. Ela fechou os seus, esperava por aquilo.
- Em duas horas iremos receber passageiros. Essa nave vai estar limpa, asseada, operacional e todos vão estar com os seus respectivos relatórios em minhas mãos antes disso! Ordenei ao auxiliar Grayson que desligasse o sistema auto-limpante e a auto análise está limitada ao nível 4! Portanto - vociferou entre dentes - vão fazer tudo na mão!
Quase todos ali abriram ou semi abriram a boca. Um rapaz com uniforme da engenharia remexeu-se desconfortável, devia ser Grayson.
- Mais duas coisas, antes de encerrar: Se alguém quiser pedir baixa, que o faça nos próximos dez minutos, só que com o que vocês fizeram hoje, essa baixa será via corte marcial - olhou diretamente para Marlene que ficou vermelha feito pimentão - para qualquer um que esteja na nave no momento.
Grayson empertigou-se, nem ele - que mais tarde soube não ter nada com aquilo - escapou.
- Para encerrar, senhor Jefferson, o senhor ensinará a senhorita Marlene a operar com o console de navegação, ela revezará o turno com o senhor, senhor Armando, o mesmo vale para o senhor com relação a Morjon. O turno de ambos começará do momento em que formos partir! Portanto, comecem agora!
Armando e Jefferson se entreolharam. Ela por sua vez ficou em pânico. Ele a escalou para ser navegadora? Ela nunca tinha se sentado frente a um console de comando. Meu Deus!
- Dispensados - virou-se e pôs as mãos as costas.
Todos ainda estavam olhando para ele, indecisos quanto ao que fazer.
- EU DISSE DISPENSADOS!
Foi uma correria! Em seis segundos, a sala ficou vazia. De costas, ninguém viu Jevlack sorrindo.
****
Capítulo 3
"AVISAMOS QUE O TRANSPORTE 26 PROVENIENTE DA TERRA SE ENCONTRA NO HANGAR, LEMBRAMOS QUE OS PASSAGEIROS QUE AGUARDAM EMBARQUE NÃO DEVEM ULTRAPASSAR A LINHA DE SEGURANÇA ATÉ QUE A MESMA SEJA DESLIGADA."
Joana saiu do transporte no meio de outros passageiros. A maioria deles eram de curiosos e de alguns alferes recém formados. Olhou os sinais de indicação, precisava ir ao setor de informações para saber aonde ir para embarcar na sua nave. Não foi difícil, o maior quadro que surgia logo na saída da área de desembarque apontava para onde ficava. Seguiu a direita, no meio de um monte de outras pessoas. Começou a se sentir um pouco mal, aquela cacofonia de pensamentos era incômoda de se bloquear.
Como esperado, o setor de informações estava lotado! Entrou na fila - felizmente avançava rapidamente - para um dos painéis de auto-atendimento. Em alguns minutos sua vez chegou, pôs a mão sobre o painel e sua identificação logo apareceu. Seu destino, hora de chegada, bem como um aviso de onde se encontrava naquele momento foi enviado para o controle de desembarque. Antes mesmo de retirar a mão, um mapa simples, porém detalhado, mostrava em que direção seguir.
Tocou no botão indicado "guia" e um cartão retangular foi emitido. Pegou o cartão e seguiu adiante pelo corredor. O cartão tinha um mapa do deck em que se encontrava e um ponto piscante - que indicava a sua posição. A seta que surgia na frente do ponto indicava para onde ir. Havia também um texto no alto do cartão, dizendo o destino: SALA DE TRANSPORTE 39.
Começou a sentir uma certa irritação enquanto caminhava pelo corredor. Alguns homens ficavam pensando coisas não muito educadas sobre as suas formas, em especial dos seus seios. Nessas horas ela odiava ser uma betazóide. Mas tinha de manter a elegância, e não deixar que alguém viesse a perceber isso. Foi muito trabalhoso para o departamento desenvolver um dispositivo que distorcesse seus pensamentos para outros seres com habilidades telepáticas não perceberem a sua origem, e mais trabalhoso ainda instalar em seu crânio um outro dispositivo que permitisse a decodificação - para poder ler a mente de outros, já que o distorcedor funcionava em ambos os lados - tanto para transmitir pensamentos, como para recebe-los. Infelizmente isso não permitia a comunicação direta entre mentes, coisa que seria útil em determinadas missões. No entanto, o dispositivo poderia ser desativado, nesse caso.
Havia alguns outros problemas. Vulcanos normalmente usam sua capacidade telepática durante contatos físicos, captando algumas emoções e pensamentos assim. O dispositivo bloqueava isso totalmente, dando a impressão dela não ser "real". Mas já tinha uma explicação pronta para caso algum vulcano estranhasse isso: Existem alguns humanos que realmente nasceram com as mentes "fechadas", de forma que o contato simples não permitia nenhuma espécie de comunhão. Além disso, sempre poderia afirmar que tinha treinado a sua mente para evitar que telepatas espionassem os seus pensamentos - e era verdade. Poder passar como humana tinha sido até o momento vantajoso em todas as suas missões, a de agora aparentemente seria a mais simples, apenas teria que fingir ser antropóloga enquanto sondasse a mente de um dos tripulantes da nave em que iria embarcar, a USS Chagas.
Mas só descobriria quem seria o "felizardo" após mais algumas instruções, que deveria receber já a bordo, de seu contato. Infelizmente ela não sabia quem seria ele ou ela, mas, sendo uma telepata, seria simples.
Chegou a sala de transportes e se conteve para não dar um sonoro tapa no alferes que de lá saia. Usar seus seios como travesseiro, que audácia! Humanos só pensavam nisso com relação ao sexo oposto? Não que seja algo ruim, mas, TODA A HORA? Isso era doença. Uma raça inteira de doentes, não era a toa que se espalhavam rapidamente pelo espaço.
- Com licença? - pediu a moça que estava na sala no momento.
Percebeu imediatamente a "medição" que as fêmeas humanas faziam entre si, comparando outra mulher com si mesma e avaliando o que a outra teria de especial. Claro que os seios e sua cor morena bronze logo veio a mente dela. Ela tinha ficado enciumada logo de início, invejando o seu corpo. Bom, ela não estava lá para nenhum concurso.
- Sou Joana Ghender, antropóloga - mostrou a sua identidade a ela - sou passageira da USS Chagas, gostaria de já embarcar, para me acomodar devidamente.
- Desculpe-me - disse ela - mas a USS Chagas está no momento impossibilitada de receber passageiros. Só será liberada na hora prevista para o embarque destes. Daqui a uns vinte minutos.
Ela tinha gostado de dizer isso. Queria que ficasse irritada com a situação, pois sentia que Joana era mais bonita. As vezes, as fêmeas humanas eram piores que os machos.
- Nesse caso, onde posso tomar uma bebida? - perguntou com um sorriso.
- Siga pelo corredor a direita, há uma sala de espera na primeira porta que encontrar.
- Obrigada.
Joana se virou e rebolou um pouco enquanto saia. Assim que a porta se fechou, conteve um risinho. Sua "saída elegante" tinha alcançado o seu objetivo, a alferes se sentiu muito irritada e constrangida por seus atrativos serem muito superiores aos dela. Bem feito!
No corredor, voltou a andar normalmente - a natureza já havia cuidado para que despertasse interesses nos homens, não precisava auxiliar - com mais quinze passos achou a porta e entrou. Já haviam duas pessoas lá, com bagagens encostadas ao lado do sofá, que ficava em um canto da parede. Uma grande janela mostrava o interior da doca, onde duas naves manobravam para a saída. No centro da sala havia um sintetizador. Um carpete cobria o chão. Fora a iluminação indireta, não havia mais nada lá. Apenas um local para aguardar embarque.
- Boa tarde - disse um dos homens - acredito que seja nossa companheira de pesquisas, a antropóloga Ghender.
- Me chame de Joana - disse com um sorriso.
- Como quiser - sorriu de volta.
Apesar dos cabelos grisalhos, era um senhor muito atraente. Devia estar na casa dos cinqüenta anos, olhos castanhos, rugas ao redor dos olhos - que demonstravam os anos solitários em diversas pesquisas - e, entre os cabelos brancos, muitos cabelos pretos se misturavam. Ele era paleontólogo, na verdade, um dos mais renomados da Federação, nem precisou de seus dotes para descobrir isso. Já tinha lido muito sobre José Guedes, sobre suas análises extremamente detalhistas - passavam-se de cinco a dez anos antes que publicasse conclusões sobre uma determinada pesquisa.
Sua mente acompanhava o seu renome. Mesmo agora, estava pensando nos seus atuais doze projetos. Todos do planeta Vulcano. A pré história deste planeta era - como normalmente dizem os seus habitantes - fascinante. Criaturas que fariam os dinossauros carnívoros da Terra parecerem um mero cachorrinho foram encontrados. Claro que nenhum teve as dimensões dos sáurios, mas sua provável selvageria sem dúvida os tornava superiores a estes.
Ficou de sobreaviso, a segunda pessoa que ali se encontrava remexendo em sua bagagem se levantou e ela viu que era um vulcano. O desgraçado com certeza iria querer cumprimenta-la estendendo a mão.
- Binacer? - chamou Guedes - por favor, cumprimente a nossa jovem colega.
Binacer fechou a sua mala e se levantou.
- Perdoe-me por meus modos, mas meu material de pesquisa necessitava ser vistoriado - ele estendeu o braço e fez a saudação Vulcana - Vida longa e próspera.
Bem, ele ainda não estava curioso sobre ela. Muito bom.
- Então senho... - Guedes observou a suas mãos - ..rita Joana, como se sente com a possibilidade de analisar um gênero humano contemporâneo de um sáurio?
- Na verdade, ainda estou cética quanto a isso - sondar a mente de dois arqueólogos durante outra missão, lhe deu respaldo mais do que suficiente para falar com segurança - As amostras em questão não foram devidamente acondicionadas antes de sofrerem a primeira análise. Além disso, demorou mais de sete anos até que alguém descobrisse que as tinham esquecido no depósito da estação e fizessem finalmente um trabalho razoavelmente decente. Alias, considero escalarem a mesma nave que as trouxeram da primeira vez para esta nova missão, quase que uma afronta ao corpo científico da Federação. Infelizmente, assim como da última vez, é a única disponível.
Guedes sorriu, ficou impressionado com ela. Até então a julgara muito jovem para a tarefa, agora, ficou mais satisfeito.
- Concordo plenamente com sua opinião - disse Binacer - É por isso que estou trazendo meu próprio laboratório - esticou o braço e apontou para um transporte estacionado ao lado de uma nave de pesquisas. Devia ser a USS Chagas - Tenho sérias ressalvas quanto a eficiência desta pesquisa, ainda que o novo capitão seja altamente qualificado para lidar com a tripulação da nave em questão.
- Novo capitão? - perguntou ela fingindo desconhecer esta informação, ela já tinha capitado isso de Guedes.
- Sim - respondeu - O capitão Jevlack, apesar de ter um histórico no mínimo questionável, jamais permitiu que sua tripulação, fosse qual fosse, agisse levianamente em uma missão. Recentemente ouvimos por comentários de alguns tripulantes da estação, que ele está no momento... "mostrando quem manda". Acredito que seja esse o motivo de não sermos teleportados para a nave ainda.
Sentia-se um pouco incomodada na presença de Binacer. Ele tinha uma capacidade telepática muito acurada, podia sentir a mente dele rodeando a sua, procurando por alguma partícula emotiva que escapasse casualmente. Com certeza já tinha reparado que não podia captar nada, ou seja, assim que possível, iria aproveitar uma brecha para efetuar algum tipo de contato físico. Achou prudente parar de sondar a mente de Guedes. Se houvesse um elo entre eles, Binacer iria perceber assim que ela fosse mais a fundo.
- Bom - disse ela - já que temos que esperar, computador! Um café quente sem açucar.
Uma xícara de café se materializou no sintetizador, ela prontamente o pegou.
- Estão servidos?
Guedes estendeu a sua mão. Ela não precisava ler sua mente para saber que ele faria isso.
****
Emil estava na fila para a entrega do relatório das condições gerais da área de engenharia da nave. Era o quarto desta. A sua frente estava o chefe de segurança, o chefe do laboratório de geologia e, conversando - melhor dizer ouvindo - com o capitão em seus - novos - aposentos, estava o chefe do laboratório de exobiologia.
Alguns minutos depois, ele saiu do quarto comentando para os outros da fila que os campos de concentração voltaram a ativa, e seguiu para o seu laboratório. O chefe de geologia entrou. Ficou alguns minutos e saiu. Não ia demorar muito. Já estava preferindo ter pedido baixa, ainda que isto implicasse em uma corte marcial.
Chegou a sua vez, respirou fundo e entrou. Entregou a prancheta eletrônica com o seu relatório a ele. Em um instante ele a leu, como o esperado - já tinha se espalhado pela nave a verdadeira natureza ciborgue do capitão.
- Apenas dentro das médias toleradas - respondeu ele pondo a prancheta de lado.
- Sim senhor - respondeu.
O que ele esperava? Era uma nave de pesquisas, não havia motivos para existir tanta eficiência na engenharia. Não estavam em nenhum cruzador.
- Conhece os projetos dos novos modelos de reatores de fusão? - perguntou ele.
- Sim - ele não vai pedir isso - atualizei-me enquanto estava na estação, antes... antes de perceber que fiquei mais tempo fora do que devia.
- Sua atualização incluiu os novos sistemas de injeção de plasma?
- Sim - não! Ele não ousaria pedir tal coisa.
Jevlack olhou para ele, com um semi sorriso.
- Notou que com exceção do reator, esta nave pode ter os novos sistemas instalados em algumas horas?
- Sim - ele vai pedir.
- Temos todo o material necessário para construir um novo reator, certo?
Ficou meio constrangido antes de responder.
- Sim, mas eu não creio que minha equipe tenha competência suficiente para isso.
- Eles terão - disse ele distante - ficará no momento com dois auxiliares, todos os outros serão transferidos temporariamente para a manutenção. Obtenha os dados necessários para a instalação de uma central de comunicações para ativarmos os comunicadores insígneas, crie um comunicador para cada tripulante, e projete os sensores necessários dentro da nave para localizar estes comunicadores. O projeto original veio da Thunderbold. Se ainda existir algum bloqueio nos arquivos, fale comigo, eu irei liberá-los. Dispensado. Mas... - sorriu - em uma semana, esta nave irá partir do sistema solar em dobra 8.
Saiu do quarto e ficou um pouco parado na porta. Dobra 8? Precisava beber alguma coisa. Felizmente, faltava poucos minutos para a sua folga. Seguiu direto para a área de lazer da nave. Depois, já sabia que teria um imenso trabalho pela frente.
Chegando na ampla sala, estranhou ter apenas uns poucos tripulantes. Depois percebeu que a maioria devia estar em seus aposentos dormindo. Limpar e lavar uma nave - ainda que pequena - no velho estilo do balde e esfregão esgotava qualquer um que não estivesse acostumado. Estava quase apostando que o capitão iria mandar fazer o mesmo do lado de fora.
Viu MacDoug bebendo alguma coisa - devia ser um suco qualquer - em uma mesa ao centro. Passou ao lado do sintetizador, pegou um simples scotty e sentou-se a mesma mesa.
- Oi MacDoug. Parece estar meio preocupado.
MacDoug olhou para ele. Ainda era muito jovem, mas seus cabelos loiros já estavam muito mudados para castanhos. Em mais um ou dois anos, os cabelos de sua adolescência desapareceriam para sempre.
- E estou - levou a mão direita para detrás da orelha e a coçou - não sou mais ordenança da ponte, agora sou da nave inteira.
Bebeu o que ainda tinha no copo de uma vez só - era vodca - e quase quebrou o copo quando o pôs de volta a mesa.
- Sabe o que é ter de passar por todas as alas e pegar assinaturas dos chefes nos relatórios? E ter de classificar e armazenar tudo no computador? E levar requisições e outros assuntos menores ao capitão? É UM SACO!
- Mas é algo a ser feito - tentou conforma-lo - todos aqui estão em uma pressão muito forte. O capitão está praticamente nos mandando reconstruir toda a nave. Vai querer instalar um novo reator - bebeu um pouco de seu scott - ou melhor, vai querer que nós o façamos. E em uma semana!
Ele o olhou nos olhos.
- Olha, até que instalar um reator não é difícil. As naves recebem reatores novos em menos tempo que isso.
- Mas já está tudo pronto! - defendeu-se - É só encaixar, ligar e testar. Bem - fez uma careta - na verdade, já está tudo projetado, o trabalho maior será da equipe de manutenção para sintetizar as peças.
MacDoug começou a rir.
- O que foi?
- Compreende que se fizerem isso, toda a sua equipe, incluindo você vão conhecer um reator por dentro e por fora? Não será simplesmente como ver uma tela com informações. Você saberá o que realmente são aqueles números e gráficos, e saberá exatamente onde atuar caso seja preciso.
Ficou pensativo. Era verdade. Teria conhecimento para esbanjar para os seus colegas quando estivesse em uma estação.
- Sim - concordou afinal - isso vai acabar acontecendo.
- Nada mais de consultar manuais, nada de usar os auto diagnósticos sem necessidade. Apenas acompanhar relatórios periódicos.
- E você também terá vantagens - disse a ele - Sendo ordenança da nave inteira, estará coletando e resumindo informações para todos. Conhecerá tudo o que ocorre em uma nave. Talvez mais até que o próprio capitão. Vai acabar se antecipando as necessidades dos chefes e encarregados.
MacDoug tomou a liberdade de pegar o copo de Emil e beber um pouco.
- Talvez - disse ele - mas isso não quer dizer que eu goste. Minha folga acabou.
Levantou-se e saiu da sala. No mesmo instante, mais dois tripulantes - cansados e esticando os ossos doloridos - entraram na sala. Bebeu o resto de sua bebida e saiu também. Estava começando a ficar interessado em construir o novo reator. Um reator para fornecer energia aos motores para eles atingirem a dobra 8. Pensando bem, como aquela nave era pequena, e sobraria energia para esbanjar a vontade, não seria impossível chegar a dobra 9...
Seguiu para os seus aposentos, queria obter mais informações sobre os aspectos técnicos do reator necessário, bem como acessar os dados para instalar entre a tripulação, os comunicadores ensígneas. O capitão não tinha dito para quem deveria entregar isso, mas iria cobra-lo. Provavelmente muito breve.
Marlene digitou as coordenadas, o curso e acionou o comando.
- E então? - perguntou a Jefferson.
- Acaba de colidir com a USS Doofus, que está bem ali - apontou com o dedo - exatamente no curso indicado - não viu uma nave deste tamanho no caminho? Além disso, eu não tinha ordenado para acionar ainda. Se não fosse uma simulação...
- Eu não sirvo para esse tipo de coisa - Bateu as duas mãos no painel - o que diabos o capitão quer de mim?
- Eu não sei - disse ele - mas eu devo dizer que você não está se esforçando. Não leve isso na brincadeira, pois o capitão vai te mandar tirar essa nave da estação em três horas, e a trava de comandos vai estar desligada. Vamos tentar de novo, lembre-se de verificar o que pode estar no caminho da rota solicitada e aguardar o comando para acionar.
Pensou em dizer que estava pouco se importando para o capitão, mas estava meio sem escolha. Seu avô não podia lhe tirar dessa - a não ser que ela quisesse ser expulsa da academia e nunca mais poder pisar em uma nave estelar. Curioso, se o capitão não a tivesse efetivado como alferes estaria a mercê da decisão da academia. Desta forma, cabia a ele decidir o que fazer com ela. Mas justo navegadora?
Levantou as mãos do painel logo depois de digitar as coordenadas. Programou o desvio da outra nave, e de mais duas depois desta. Só esperava ele falar "engatar".
- Curso 2-2-1 marco 3.
Que chatisse! Bom, desta vez ele não ia pega-la. Programou o curso e a correção.
- Quando eu especifico o curso você não o corrige, apenas avisa se existe algo no caminho - disse ele sorrindo.
- Eu só corrijo se o capitão mandar?
- Sim.
- Aposto que ele vai querer me testar.
- Provavelmente, engatar.
Tudo bem, ainda era um jogo, mas pelo menos estaria preparada para ele.
- Capitão, creio que extrapolou a sua autoridade ao requisitar dois cadetes como alferes. E isso não se deve ao fato de um deles ser minha neta - a expressão do almirante no monitor estava visivelmente irritada - ainda que eles tenham feito tal... infantilidade.
- Almirante - retrucou ele em tom de complacência - se deseja que eles sejam expulsos da academia é só pedir. Mas se eles não saírem daqui como alferes, não irão ter nenhuma carreira militar. Além disso, devo isso a mãe de Marlene. Ela morreu sob o meu comando, apesar da frota ter ocultado a situação em que isso ocorreu.
O rosto do almirante ficou amargo. A morte da filha ainda o assombrava, apesar de ter sido já há alguns anos.
- Muito bem - concordou afinal - informarei a academia, e também atualizarei os registros de sua nave.
O logotipo da Federação apareceu na tela, indicando que o sinal foi cortado. Acionou o comunicador de seu quarto solicitando o comando.
- Senhor Jefferson, como está a sua aluna?
"- Melhorando capitão, mas ainda acho que não é uma boa idéia."
- Está fazendo um protesto formal?
Houve uma certa demora na resposta.
"- Não senhor."
- Ótimo! Receba os nossos convidados. Já que um deles resolveu trazer o seu próprio laboratório, informe a estação que iremos recebe-los no hangar. Peça para fornecerem um transporte para eles. É só.
Desligou o comunicador e reviu os doze novos tripulantes que iria requisitar. Todos se encontravam na estação e todos estavam disponíveis. Ninguém poderia dar a desculpa de não poder ir. Fez a requisição automaticamente pelo computador de bordo informando que deveriam se apresentar em duas horas. Tinha alguns com quem pretendia conversar antes de partirem.
Achou que já era hora de personalizar o seu aposento. Especialmente o sintetizador...
Ficou com os braços cruzados durante todo o trajeto. Não propriamente pelo alferes que estava controlando o transporte vira e mexe tentar dar uma olhada nela, mas sim porque estava irritada. Queria ir para a nave rapidamente, via teleporte. Agora, dentro de um transporte, era bem possível que Binacer oferecesse a mão para auxiliar a sua saída.
Claro que era mais provável que Guedes fizesse isso, mas se havia um elo entre eles, daria no mesmo. Binacer perceberia que a sua mente era fechada.
Olhou pela janela para tentar se distrair um pouco. Podia ver já a nave de pesquisas. O hangar estava aberto e, aparentemente, a nave com o laboratório de Binacer já se encontrava lá dentro.
Conforme se aproximava da nave, captava pensamentos crescentes de apreensão. Sem dúvida vinham dos tripulantes desta, mas, apreensão do que? Também captava medo e respeito, misturados com um pouco de admiração.
A nave pousou poucos minutos depois. Assim que saiu - felizmente antes de haver tempo de algum dos dois se oferecerem para ajuda-la - sentiu com toda a força o que realmente estava dentro da nave.
Estavam ultrajados, amedrontados e quase em desespero, pelo menos era o situação inicial. Mas também captava satisfação com o trabalho realizado e, como antes, até admiração.
A nave estava limpa e brilhando - pelo menos no hangar. O sistema auto limpante não faria isso. Ou seja, aquela tripulação tida como a que ficava no limite da indisciplina para ser expulso da frota, lavara todo o hangar. Talvez toda a nave. Coisa que mesmo nos grandes cruzadores, só ocorria quando sofriam atualização de sistemas.
- Senhores... e senhorita, sou o subtenente Jefferson. Se me acompanharem eu os levarei até os seus aposentos.
Ele estava inseguro sobre como proceder. Era a primeira vez que recepcionava passageiros.
- Gostaria de supervisionar o desembarque de meu laboratório - disse Binacer.
- Sim... certamente. Vocês... quer dizer, o senhor a senhorita também preferem ficar?
Joana estava achando o seu embaraço divertido. Ele estava entre imaginar coisas com ela e atende-los cordialmente. O capitão estava mesmo impondo ordem ali. Em uma situação normal - como a nave era antes - ele já a estaria cantando.
- Eu prefiro ver os meus aposentos - disse ela.
- Ficarei com o meu colega - disse Guedes.
- Nesse caso, senhorita, se quiser me acompanhar...
- Mostre o caminho - disse sorrindo.
Seguiu-o pelo corredor e viu que este também estava limpo. Havia alguns tripulantes que deviam ser da manutenção inspecionando os comunicadores que ficavam na parede. Nenhum deles sequer olhou para ela.
Subiram pelo turboelevador em silêncio. Ele só pensava em deixa-la no seus aposentos e voltar urgentemente para a ponte, para terminar o treinamento da navegadora. Curioso, ele não era apaixonado por ela e ela também não tinha tantos dotes como Joana. Por que então querer se livrar logo dela?
Ele gentilmente a convidou a sair e seguiram lado a lado pelo corredor do deck. Cruzaram com mais alguns tripulantes no caminho.
De volta ao normal, pensou ao sentir na mente de um deles, a visão de seus seios nus. Porém, assim que passaram por ela, o pensamento desapareceu. Ele nem olhou para trás.
- É aqui - disse Jefferson.
A porta se abriu e ela entrou. Uma sala de tamanho razoável, um leito, uma janela ao lado da parede. E um sintetizador logo ao lado da porta. O banheiro parecia promissor, queria uma bela ducha. Em um canto da parede haviam dois consoles e monitores.
- O console da direita permite consultas ao banco de dados da nave, bem como acesso a central de dados da Frota. Dependendo de sua autorização, poderá até manter conversas particulares. O da esquerda é totalmente pessoal e apenas o capitão poderia acessar estes dados. Coisa que seria imediatamente registrada no diário de bordo.
Ele se aproximou do console da direita e o acionou, dando alguns comandos.
- Este é o esquema da nave. Com todos os laboratórios que ficam neste mesmo deck - explicou ele - tem alguma pergunta? - sorriu.
- Não - disse ela sorrindo de volta - quero apenas me despir e tomar uma ducha.
- Então vou deixa-la a vontade. Se precisar de alguma coisa, solicite no comunicador ao ordenança MacDoug.
Ele saiu do aposento e Joana sentou-se na cama, pensativa. Foi como se de-repente todos os padrões de beleza tivessem mudado. Mal notaram ela na nave. Jefferson depois de um impulso inicial a tratou educadamente e simplesmente abafou todo o resto. O mesmo com os poucos tripulantes que viu e sentiu. Olhou-se no espelho. Não, estava exatamente como antes.
Abriu a sua mente para fazer uma sondagem em tripulantes próximos, essa mudança de comportamento repentina não é normal. Pôde captar Jefferson já saindo do turboelevador na ponte, pensando no trabalho enorme que ainda tinha e na moça que fora carregada para o seu posto. Captou mais duas pessoas na mesma sala, Armando e Mojor. Ambos preocupados e entretidos no treinamento de comunicações. Alargando mais o raio de ação, percebeu que qualquer que fosse o tripulante que sentia, a preocupação em executar as suas tarefas era prioridade. Os chefes de laboratório estavam revisando e solicitando dados de atualização de equipamentos na estação, o mesmo para manutenção e engenharia. Nas enfermarias não havia ninguém. Nenhum médico a bordo. Sentiu a mente vulcana de Binacer e estreitou um pouco a sondagem, para evita-lo. Foi ai que sentiu algo bem diferente.
Era como a mente de um vulcano, mas de uma intensidade absoluta, apesar de raio de atuação extremamente estreito. Por isso não a sentiu logo de início. Era tão complexa e executava coordenação de pensamentos paralelos tão rápidos, que não conseguia entender nada do que captava.
Devia ser de uma raça que ainda não conhecia. Parou com a sondagem e, como tinha dito a Jefferson - despiu-se e foi tomar a sua merecida ducha.
"- Ordenança MacDoug, apresente-se ao hangar e guie os pesquisadores até seus aposentos quando estes o solicitarem."
Jevlack sorriu. Estava tudo como queria. O cheiro adocicado do leite cozinhando penetrava em suas narinas. Seus sensores nasais convertiam em impulsos compreendidos pelo seu cérebro. Era uma pena ele não ter um aquecedor entre suas próteses, evitaria de usar o phaser em intensidade baixa para esquentar o leite. Mas para obter o leite condensado valia a pena.
Levantou a cabeça e ficou olhando para o vazio. Depois de alguns instantes, Desligou o phaser e seguiu para o console pessoal de seu aposento. Sentou-se em frente a ele e aguardou. Alguns segundos depois ele começou a sinalizar.
"- Capitão? Mensagem particular para o senhor da USS Rocama" - disse Mojor, já efetuando a sua primeira tarefa.
- Transfira para os meus aposentos - respondeu ele.
A tela se iluminou e Tirvik apareceu sorrindo para ele.
- Oi! - disse ela de forma alegre - te deram uma nave compacta?
- Gracinha - disse ele sorrindo - espere eu terminar e vamos ver quem tem a nave melhor.
Ela riu.
- Só liguei para lhe fazer uma pergunta: Você tem alguma responsabilidade pelo fato de 30% de minha tripulação ser originalmente da Thunderbold?
- Talvez, se você me disser onde estão os outros 70%.
- Na Xanth - disse ela fazendo uma cara de desagrado. Acabei de me despedir de Lisa. Muito curioso, não?
- Talvez, mas eu não queria eles pulverizados pela frota, por isso garanti que ficassem nas suas naves.
- Para quando voltar a comandar um cruzador, eles voltem correndo? - perguntou ela.
- Vamos por assim: Ainda acho você impulsiva e Lisa inexperiente. Por isso eles estão ai. Mais alguma pergunta?
- Não - riu ela - você ainda fica bonito quando se irrita. Aguardarei notícias suas. - Mandou um beijo e desligou.
Sempre se preocupando com detalhes. Bom, em breve receberia os tripulantes novos. Era melhor acabar logo com a sua batida de côco para alimentar a sua estrutura molecular no sintetizador.
Acionou o seu phaser e disparou contra a caneca de leite.
****
Capítulo 4
Em uma operação rápida, os doze tripulantes solicitados foram teleportados a bordo, destes, quatro eram da área médica, os outros seriam meros auxiliares dos laboratórios.
Com exceção da médica chefe, nenhum deles ficou satisfeito em ser selecionado para servir ali. Só aceitaram porque, do contrário, teriam de sair da frota, pois seria registrado ato de insubordinação em seus prontuários. Ninguém gostou muito disso, mas ficou evidente que o novo capitão da nave - que tinha solicitado especificamente eles - possuía muita influencia.
O único consolo que tinham, era que talvez, finalmente, a vergonha da Frota seria apagada, e - se isso ocorresse - seriam participantes disto, o que era um ponto a favor.
Aderik - a médica chefe - seguiu para a sala de conferência da nave - o local onde eram expostos os resultados de análises efetuadas - para uma conversa particular solicitada pelo o capitão. Era uma vulcana relativamente jovem, mas já na sala de transporte causou certa estranheza. Ela sorriu ao se apresentar, de forma natural - evidentemente não planejada, como normalmente ocorre - fazendo todos pensarem que seria mestiça.
Mas não era. Era uma vulcana pura, de senso lógico muito apurado, embora fosse considerada pelos seus - no mínimo - não convencional. Ao entrar na sala, viu Jevlack, e percebeu que todos os comentários ao seu respeito eram verídicos. A mente dele era mais poderosa que qualquer outra que já tinha visto em sua vida. Extremamente fechada, extremamente complexa, extremamente funcional.
Ele a cumprimentou com a cabeça. Devia conhecer os vulcanos muito bem, pois foi direto ao assunto.
- Bem vinda a bordo. Já conversei com todos os chefes de departamentos, com exceção do departamento médico, pois não tinha nenhum a bordo. Quero que verifique sua área e compare com o que já existe de mais atual sendo usado na frota. Quero um relatório de tempo de atualização em - pensou um pouco - duas horas, incluindo o material necessário.
- Perfeitamente - respondeu ela.
- Também quero uma atualização do prontuário médico de todos a bordo, incluindo os passageiros em uma semana.
- O senhor inclusive?
Sua expressão ficou um pouco em dúvida, obviamente o capitão não tinha considerado ser incluso no "todos a bordo".
- Pensarei a respeito - disse deixando a questão no ar - dispensada.
Ela saiu da sala e já foi em direção a enfermaria. Seria muito instrutivo conseguir um exame completo no capitão, uma criatura meio homem, meio máquina. Mas tinha suas prioridades primeiro. Vinte minutos depois - ela já sabia exatamente o que queria, foi só verificar o que ainda não estava instalado na enfermaria - o ordenança da nave foi chamado para pegar o relatório solicitado para o capitão.
MacDoug estava irritado. Era o ordenança de todo mundo. Quanta burocracia existe em uma nave! Estava com mais de seiscentas requisições armazenadas em sua prancheta para serem aprovadas pelo capitão. E deveriam zarpar em menos de uma hora. Os depósitos da nave iriam ficar completamente cheios.
Antes de ir ao capitão, porém, resolveu ir ao seu aposento e verificar aquelas requisições. Estava curioso sobre elas.
Seus aposentos eram simples, uma cama em um cômodo separado, uma espécie de sala de estar em que ficava a mesa de refeições e três cadeiras, um sintetizador na parede mais afastada, e, naturalmente, o banheiro. Nada mais.
Notou então uma coisa. O sintetizador estava diferente - muito diferente. Não havia nenhum comando para indicar o que se queria pedir. Aquele era idêntico aos da estação. Incrível! Apenas algumas horas depois do capitão chegar e já tinham atualizado - ao menos naquele deck - alguns equipamentos de conforto. Devia ter sido usado o teleporte para isso, por isso ele ficou fora dos limites.
Será que já estava funcionando? Para aquele modelo de sintetizador funcionar, era preciso que o computador de bordo também estivesse atualizado, não seria uma operação muito simples. Mas se tiverem usado mesmo o teleporte para instalar aquilo ali - devia ter sido, ninguém entraria em seu aposento para faze-lo - podiam já ter feito o mesmo com o computador principal.
Bom, estava perdendo muito tempo com especulações, havia uma forma muito prática de descobrir a resposta.
- Computador, uma vodca.
"Qualquer bebida com teor alcóolico só será sintetizada após a saída da estação."
Que diabos?!
- Como assim?
"Qualquer bebida com teor alcóolico só será sintetizada após a saída da estação."
- Certo, certo, entendi. Quero saber o por que disto.
"Ordens do capitão."
Ele não quer ninguém tentando obter coragem antes da saída. Bom, até faz sentido. Pelo menos, não proibiu as bebidas em definitivo.
- Muito bem, um copo de leite quente, sem açúcar.
Observou o copo se materializar. Realmente estava tudo instalado e funcionando. Sentiu pena da turma de manutenção, deviam estar esgotados.
Pegou o leite e sentou-se a mesa. Felizmente, o leite sintetizado não tinha todos os componentes do original, apenas o suficiente para enganar o paladar humano. Do contrário, poderia ficar sonolento mais tarde. Tomou um gole e pôs o copo na mesa, pegando a prancheta em seguida.
Começou a ler as requisições. Eram praticamente todas de equipamentos mais modernos, ou projetos dos mesmos. Viu a solicitação de projetos para reatores de fusão, incluindo um que só seria usado - talvez - depois da próxima geração de naves estelares - ou seja, depois da Galaxy. Será que o engenheiro chefe estava pensando em usar pelo menos uma parte destes conceitos?
Os depósitos iriam realmente ficar cheios. Mas, no ritmo em que o capitão exigia as tarefas, talvez em no máximo duas semanas já estivesse tudo instalado. Afinal, era basicamente uma questão de tirar o equipamento velho, por o novo, testar e configurar. O complicado seria realmente a instalação dos cabos de força para eles.
Olhou para a frente, mas não observava nada em especial. Estava pensando. Todos estes equipamentos novos consomem no mínimo 30% menos de energia que os antigos. Com este ganho de força, a nave já poderia chegar tranqüilamente a dobra 7, sem nenhum stress em sua estrutura, já que haveria mais energia para manter os escudos de integridade funcionando.
Mesmo assim, o engenheiro estava avaliando a instalação do mais recente reator já desenvolvido, muito mais eficiente e confiável, além de novos geradores de escudos de integridade. Para que tanta capacidade? Aquilo era uma nave de pesquisas, nem armas tinha. O que o capitão pretende com tanta energia a disposição?
Voltou a ler as requisições, foi direto para a segurança. Sim, lá estava sendo solicitado o projeto de bancos phasers, e - ele não acreditava - de armas klingons? Arregalou os olhos. Um nave de pesquisas de sessenta anos sendo convertida para ter as capacidades de uma ave de rapina. E provavelmente, ser mais rápida.
Mas para que aquilo? Ele não parecia ser do tipo que faz as coisas apenas porque quer, motivado pelo seu ego. Em tudo que ele tinha feito até o momento, havia uma segunda intenção: Botar os tripulantes na linha, força-los com aquelas atualizações a conhecerem melhor os equipamentos e a nave...
Mas armas? Ele não as colocaria se não previsse uma necessária utilização destas. E, para isso, seria necessário treinar a tripulação em táticas de combate.
"- Atenção todos os tripulantes, é solicitado que, durante o seu período de folga, verifiquem o correto funcionamento das atualizações de itens de conforto de seus aposentos. Obrigado" - disse Mojor, em sua função de responsável pelas comunicações.
Sorriu, o dele já estava funcionando, embora não o tenha testado em horário de folga. Pegou o seu leite e bebeu mais um pouco - estava bem mais saboroso do que se lembrava, o novo sintetizador tinha mais aprimoramentos além de ser mais rápido e eficiente.
O apagamento automático da tela de sua prancheta para poupar energia lhe chamou a atenção. Acionou-a novamente e continuou a ler. Duas camas biomédicas para a enfermária, um aparato completo de phasers de mão para cada um dos tripulantes - por norma, isso não podia ser sintetizado ou fabricado dentro de uma nave, salvo em situação de batalha - seis caixas dos novos comunicadores ensígneas, esquemas para a instalação de uma nova central de comunicação integrada ao computador principal, sondas atmosféricas e oceânicas para análises mais acuradas de superfí...
"- Senhor MacDoug, o capitão solicita a sua presença em seus aposentos imediatamente."
Ele gelou! Ficara tempo demais lendo aquilo. Pegou a prancheta e saiu correndo, deixando o copo de leite um pouco acima da metade na mesa. Na verdade, ficou tão desesperado que por pouco não bateu na porta automática antes que esta tivesse tempo de se abrir.
- Isso é altamente irregular. Naves de pesquisas, em especial esta, não possuem necessidade de tanta energia assim, muito menos de armas.
O capitão Jevlack não se alterou nem um pouco na tela.
- Almirante, o senhor pediu para que eu executasse uma missão. Não vou entrar em uma possível área de conflito Romulana - Klingon sem estar preparado.
- Mas vocês já terão o suporte de uma ave de rapina Klingon - insistiu o almirante - o embaixador já me confirmou isso.
- É justamente por isso - sua voz estava muito fria agora - que quero estar preparado. Levar uma ave de rapina Klingon tão perto da fronteira Romulana, e, escoltando uma nave federada irá chamar a atenção deles. Sem dúvida enviarão uma nave para avaliar a situação. E, se elas se confrontarem... - deixou a ameaça incompleta.
Desistiu, nesse ponto ele tenha razão. A Frota não queria enviar nenhuma de suas naves pois todas elas - com exceção das de pesquisas - são consideradas cruzadores, aptas para o combate. A escolha de uma nave Klingon tinha o mérito da mesma passar despercebida - ela podia se camuflar.
- Muito bem, os projetos de armas da USS Pégasus(*) lhe serão enviados.
- Obrigado. Dou minha palavra que não tenho outro interesse além da segurança desta nave - respondeu ele antes de cortar o sinal.
Apertou os lábios enquanto olhava para a tela que agora mostrava apenas o logotipo da Federação. Jevlack conhecia muita coisa de política e táticas de espionagem, sem dúvida. Desconfiou que havia algo mais naquela simples questão de "enviar uma nave escolta por segurança", e queria garantir-se.
Recostou-se melhor na cadeira. Pelo que ele tinha avaliado das solicitações para a Chagas, Jevlack iria deixa-la tão ou mais poderosa quanto uma ave de rapina Klingon, e mais rápida também. Além disso, a atenção que ele estava chamando dentro da estação já tinha tirado qualquer possibilidade desta ser mais uma missão corriqueira de uma nave problemática.
Esse tiro vai sair pela culatra! Tinha dito o comodoro, e ele tinha razão. A tentativa de acabar com a carreira de Jevlack como capitão para obriga-lo a aceitar uma promoção, já estava fracassando. Na verdade, já devia ter fracassado. Os comentários da tripulação da estação já estavam indicando admiração por ele. Já haviam até alguns novos alferes solicitando para servirem na próxima nave dele, fosse qual fosse.
Pressionou o comunicador de sua mesa.
- Ligue-me com Rancer, diga que é sobre o projeto "provocação".
"- Sim almirante" - respondeu a ordenança.
Agora, ele pensava em cancelar tudo. Era melhor deixar aquela ser apenas uma simples missão científica normal, e não uma cobertura para uma falsa operação em conjunto com o Império Klingon. Jevlack sem dúvida iria interferir - intencionalmente ou não - deixando o projeto com resultado totalmente incontrolável. Na verdade, ele temia por sua neta.
"- Almirante, o comodoro Rancer está na linha."
Na tela, surgiu o rosto taciturno do comodoro. Natural de Alfa Centauri, ele tinha a fisionomia dos russos.
- Pois não almirante, sua ordenança me disse que deseja falar sobre o nosso projeto em conjunto.
- É sobre o seu projeto que fui ordenado a aceitar. Acredito que ele esteja ameaçado, e por isso, quero que a USS Chagas não mais seja usada para isso. Jevlack vai deixa-la armada, poderosa e muito capacitada, não irá fugir como planejamos.
- Armada? - ele não parecia acreditar nisso.
- Ele requisitou material suficiente para fazer a Pégasus parecer um nave de turismo. E vai conseguir instalar tudo isso. Ele planeja ficar uma semana na órbita de Plutão, instalando, treinando e deixando a nave e tripulação em primeira linha. Já tem gente querendo servir lá - disse com quase sarcasmo.
Rancer sorriu.
- Eu disse que se o pusesse na Chagas, ele a poria na linha. Mas não importa o que ele faça. Para o projeto, não faz diferença. De qualquer forma o objetivo é conseguido, com ou sem a destruição ou captura da Chagas. Mesmo que ele decida fugir, não faz diferença. Foi por isso que concordei com você o selecionando para comandar a nave. Desta vez, não há como ele atrapalhar.
- Minha neta está naquela nave - disse o almirante demonstrando sua preocupação - uma nave, que agora, provavelmente não vai fugir. Que tem uma tripulação que nunca enfrentou uma situação real de combate antes. Será destruída ou capturada.
- Então, tire-a de lá - disse simplesmente.
- Não há como fazer isso sem tirar o comando dele - ele estava irritado - e, se eu o fizer, a Chagas não partirá. Não terei mais ninguém para o posto pelas próximas semanas. Ele era o único disponível.
- Então barganhe - retrucou ele ficando sério - A Chagas tem de estar no setor estipulado em um mês. A nave Klingon já estará esperando por ela, e não pode ser contatada de volta. Já deixamos "vazar" a informação de que Jevlack estará comandando uma nave de pesquisas próxima a fronteira Romulana. As engrenagens estão girando, e não podem ser paradas.
- Vocês já levaram a minha filha - disse de forma tão dura quanto Rancer - não vão levar a minha neta também.
- Não está mais nas nossas mãos. No entanto, garanto que se Jevlack não partir naquela nave, a vida de sua neta também não estará segura fora dela. E todas as transmissões para com aquela nave serão monitoradas. Portanto, não interfira.
A tela se apagou, não dando chance dele retrucar. Ele ouviu direito? Ele realmente ameaçou a vida de sua neta?
Deu um murro na mesa, acionando comandos a esmo no console embutido. Estava frustrado. Ele podia ser o almirante encarregado do departamento geral de pesquisas e exploração da Frota, mas no momento era um mero peão nas mãos da divisão "S".
Conhecia o poder deles dentro da Frota, e não gostava disso. Eram quase que um governo separado, entranhado em quase todas as áreas desta. Aquilo não tinha sido uma ameaça, apenas a constatação de um fato. "Acidentes acontecem".
Deus, o que ele iria fazer? Sua neta - como a mãe desta antes - acabou sendo arrastada para algo que ninguém sabia ou se interessava em saber o resultado, pois, fosse qual fosse - segundo Rancer - eles conseguiam o que queriam. Uma nova guerra Klingon - Romulana.
No outro caso - aquele que levou a sua filha - Jevlack também estava envolvido. Só que ele descobriu - tarde demais para salva-la - o que realmente queriam. Ele "estragou tudo", como Rancer teria dito na época, segundo os seus contatos. Até então, ele não sabia do departamento de Dissuasão(**), e muito menos de um de seus braços mais temidos, a Divisão "S", responsável pela "sujeira" que, "as vezes" era necessária. Incluindo a "remoção" - assassinato - de inconvenientes.
Jevlack era um inconveniente para eles, já tinha descoberto isso. Mas esse inconveniente em particular era talvez o mais perigoso. Tinha informações demais sobre o departamento e suas "campanhas", de tal forma que ele sabia quem foi o responsável pelo que aconteceu em Praxis, forçando os Klingons a fazerem um acordo com a Federação. Pelo menos o Departamento acreditava.
Tentar "remove-lo" seria cometer suicídio. Seus amigos transmitiriam em canal aberto tudo o que ele acumulou, fazendo possivelmente a própria Federação desmoronar entre tantas intrigas e algumas ações que forjaram alianças com outros mundos. Esse foi o motivo de terem deixado ele em paz na última década.
Mas, agora que uma nova geração assumiu os pontos chave deste departamento, as coisas estavam mudando. Foi um pouco devagar. Uma missão sem sentido aqui, outra ali. Mas não puderam evitar que ele se tornasse um capitão com total controle sobre uma nave. Desde o incidente em que o capitão Mendonça, sob o comando da Thunderbold, morreu, e Jevlack assumiu sua posição, eles começaram a desencavar antigos dados, proteger outros e tentaram "tirar da reta" possíveis problemas, caso certas informações viessem a vazar.
Tudo inútil. Cada informação "eliminada" aparecia em locais muito "delicados", e nas piores situações. Uma delas simplesmente foi transmitida para um terminal em que ocorria uma conferência com o embaixador betazoide. Quase um escândalo. Como ele fazia ainda era um mistério, mas Jevlack conseguia pegar as informações eliminadas e coloca-las onde nunca poderiam aparecer. Assim, desistiram deste método.
Não poderiam se livrar dele assim, e não havia uma forma segura de "causar um acidente". Portanto, o jeito era deixa-lo em paz que ele os deixaria também.
Até ele aparecer com os registros da Defiant! Aquilo os deixou em pânico. Pior! Pelo menos umas mil pessoas sabiam que os registros foram encontrados, incluindo - atualmente - duas outras capitãs. Sem contar que os seus oficiais subalternos mais graduados deviam conhecer algo a respeito. E agora estas mil pessoas estavam um pouco espalhadas por ai... A maioria ainda se encontrava em duas naves, talvez, por isso que estavam sempre de olho nestas.
Não deixava de ser um fato inédito: Um departamento que quase sempre usou de chantagem, estava sendo chantageado. E não podia fazer muita coisa além de rezar para que Jevlack não resolvesse desaparecer e jogar tudo no ventilador. Por isso que estavam muito bonzinhos com ele, deixando-o reformar sua antiga nave, a Thunderbold, e agora, a futura USS Brasília.
Mas era uma situação que estava se desgastando. Mais cedo ou mais tarde, tentariam aproveitar a chance de se livrar dele. Talvez agora mesmo, nesta missão. Seria um grande golpe de sorte caso a Chagas fosse destruída.
Mas não com sua neta dentro desta. Será que havia uma forma de protege-la disto?
"Devo isso a mãe dela..."
Sim. Havia um jeito - ao menos de garantir a possibilidade - de segurança de sua neta. Teria que falar com Jevlack para isso. Mas eles estavam vigiando. Como poderia faze-lo sem que percebessem?
- Capitão na ponte - disse Jeferson assim que Jevlack saiu do turbo elevador.
- Pensei que era seu período de folga - disse ele ao ver Jeferson na ponte.
- E é - respondeu meio encabulado - mas achei prudente acompanhar a estreia dos novos tripulantes da ponte.
Ele deu um sorriso forçado.
- Ainda bem que já fiz o meu testamento.
Sentou-se a cadeira de comando e observou-os. Todos olhavam para ele.
- Acho que vocês deviam estar olhando para os seus painéis e aguardando ordens.
E assim foi. Cada um voltou a olhar o seu painel e aguardaram as ordens dele. Estavam tensos. Em especial Marlene. Ela iria navegar uma nave com mais de cem metros passando por três outras naves. E ainda tinha que ficar atenta a transportes e ao tráfego que existia fora da estação.
- Senhor Morjor, solicite permissão ao controle da estação para nossa partida.
- Sim capitão.
Jevlack olhou ao redor. Sentia o cheiro de algum produto de limpeza. A ponte estava totalmente impecável. Os painéis reluziam de forma que causavam um certo inconveniente nas vistas dos outros.
- Capitão - chamou Mojor - o controle de estação nos liberou. Mas disseram algo sobre não termos pressa para sair...
Sorriu. Deviam estar achando que por ser ele quem estava no comando da nave, iria exigir desde já a máxima competência.
- Senhoria Marlene...
Ela o observou com temor.
- Leve-nos até Plutão. Pode fazer o caminho que bem entender. Essa nave é toda sua.
Seus olhos ficaram arregalados. Ela não esperava receber tal liberdade. Na verdade, devia ter ficado apavorada.
Ela começou a digitar no painel de navegação. Reviu tudo com Jeferson dando silenciosa inspeção por cima de seu ombro. Deviam ter combinado, se algo estivesse errado, ele daria algum sinal ou falaria alguma coisa. Não que isso fizesse diferença para Jevlack. Ele apenas queria estar em Plutão em no máximo, seis horas. Em situação normal estariam lá em tres.
Ela acionou o comando final e a nave começou a se mover.
- Visão frontal na tela.
Atendendo a solicitação, a tela mostrou o interior da estação. Estavam passando ao lado da USS Constantinopla - coisa de cinqüenta metros - e seguiam em curso de colisão com a USS Marte.
Marlene fez mais alguns ajustes para desviarem desta e seguiram rumo a saída da estação. Mais dez minutos e estavam totalmente fora, e livre do aperto lá dentro. Ela programou o curso em dobra 1 para Plutão e acionou.
- Capitão - chamou Mojor sorrindo - o almirante mandou os seus parabéns para a sua navegadora.
Ele ficou um pouco pensativo, ao passo que Marlene ficou meio ruborizada.
- Senhorita Marlene, quando chegarmos a Plutão, pode conversar com o almirante. Assim ele terá o prazer de lhe dar os parabéns de uma forma mais pessoal.
- Obrigada senhor.
- Não encare isso como um prêmio - disse de forma séria.
Todos olharam com estranheza para ele. Ele continuou sério. Muito sério.
Em seu alojamento, Kancha observava suas cicatrizes. Aquele "garoto" tinha potencial. Se tivesse sido um pouco mais paciente... Mas isso não importava mais. Seu "pretendente" fracassou miseravelmente, e nunca mais iria ter outra oportunidade, a não ser que mortos pudessem cortejar alguém.
Sorriu com o pensamento. Mas o momento passou. Klingons vivem um dia por vez, um segundo após o outro. O passado era imutável e só o presente realmente interessava. E, no presente, ela tinha de descansar o corpo dolorido e cansado.
Mas não conseguia. Desde que soube que iriam escoltar uma nave de pesquisas da Federação, ficou excitada. Não pela missão, que era ridícula, mas sim porque já tinha ouvido muitas coisas sobre aquele capitão. Coisas mais do que suficientes para torna-lo apto a ser um bom pretendente.
Frio, calculista, nunca voltando atrás em uma decisão, e sempre enfrentando um combate de frente. Tirando o detalhe técnico da aparência humana - ele não podia ser um - ela o considerava ideal para ser o seu parceiro.
Um som muito baixo soou de suas roupas rasgadas que ela tinha largado em um canto. Praguejando, foi em sua direção e pegou um dispositivo - um mini comunicador - que ficava oculto por uma das pregas da roupa - que pareciam mais ser de enfeite. Pressionou um botão oculto e pos uma parte específica em sua orelha. Assumiu uma expressão rancorosa quando ouviu a mensagem secreta. Despedaçou os micro circuitos e jogou os pedaços a distância. Saiu de seu aposento e foi falar diretamente com o comandante. Furiosa!
Pelo caminho, os poucos camaradas que viu tiveram o bom senso de desviar-se. Sua cara não era amigável, e eles já deveriam saber o que tinha ocorrido com o suposto pretendente dela.
Chegando na ponte, sem nenhuma cerimônia dirigiu-se para o comandante Thar.
- Comandante! Porque retiraram minha patente?
Todos lá olharam para ela. O tom de sua voz era desafiador.
- Kansha - disse de forma seca - retorne ao seu aposento e aguarde lá. Senão terei de prende-la.
- O que?
Os braços dela tremiam. A qualquer instante iriam agarrar o pescoço dele.
- Se não obedecer agora, perderá a sua honra por desobediência, será levada de volta a Klin e morta por rebelião. Sem nenhuma chance de se defender. Se é o que deseja a sua casa, então me ataque agora.
Seus olhos arderam com o que antes seria um insulto. "Desobediência", não "insubordinação". Ele já sabia. Alguém fizera uma covarde traição contra ela. Não fosse pelos seus contatos no Império, só iria descobrir em algumas horas.
- Vá agora ou terei de prendê-la - insistiu ele.
- Eu irei - disse duramente - mas se não tiver respostas em...
- Você não tem nenhum direito de fazer qualquer solicitação, vá!
A palavra foi escolhida cuidadosamente. Se ele tivesse dito "exigência", ela já teria de ser punida por imbuir uma certa dose de ameaça ao comandante da nave. Sim, "comandante da nave" já que agora ela era uma civil ali. Ele estava - ao menos por enquanto - tentando deixa-la com uma certa liberdade para fazer algo, não deveria desperdiçar.
- Sim.
Mesmo sem ter dito "senhor" isso estava implícito. Mas ela não podia dize-lo agora. E isto a deixava profundamente frustrada.
Saiu da ponte devagar. Somente agora estava se dando conta do que realmente fizeram com ela. Todas as suas honras, méritos, louvores, respeito. TUDO FOI APAGADO! Era o mesmo que nunca ter nascido. Eliminar - e não rebaixar - a patente de um guerreiro ou guerreira klingon era o mesmo que praticamente matar a sua honra.
Ela estava muito abalada agora. Suas pernas tremiam conforme andava pelo corredor. Suas conquistas não existiam mais. Ela deixou de ser uma das patentes mais altas na nave - conquistada com sangue e honra - para se tornar uma intrusa. Era melhor que não a tivessem alertado. Seria melhor receber a notícia do comandante, ficar furiosa, ataca-lo, e então ser morta. Seria um fim honroso.
Talvez até fosse isso que - quem quer que fosse o responsável - tivesse planejado. Mas ela foi avisada, estava viva, e, enquanto vivesse, podia recuperar o que perdeu. Só gostaria de saber quem teria tanta influencia e se daria a tanto trabalho para destruí-la assim. Quem ela teria ofendido que poderia fazer isso?
Chegando ao corredor de seu alojamento, viu Moedh aguardando a sua porta. Então o maldito queria se gabar com a sua desonra, ou melhor, a completa falta de honra a qual foi submetida. Decidiu entrar sem nem lhe dirigir o olhar.
Ele bloqueou o seu caminho com o braço e exclamou:
- Pare!
Ela o fitou bem nos olhos, mostrando toda a raiva oculta por eles. Não disse nada. Não diria absolutamente nada, a menos que fosse ordenada. Era uma "intrusa" agora, sem nenhum direito ali dentro. Não podia nem mesmo afastar cortejadores incômodos.
- Eu não sei quem fez isso, mas se eu descobrir, eu juro que pessoalmente o matarei. Tudo o que você fez quando era uma tripulante não existe mais. Nem mesmo a morte de meu irmão. Não posso nem mesmo ficar satisfeito por ele ter morrido com os olhos abertos.
Ela continuou fitando-o, impassível.
- Mas, se você fizer algo e for condenada a morte agora, quando eu fizer minha vingança, também estarei vingando você. E isso - aproximou-se e disse em voz baixa - eu não posso tolerar. Não vingarei quem matou desnecessariamente meu irmão por ele ter sido imaturo.
Ele abaixou o braço e deu-lhe as costas. Se ela não fosse klingon, estaria chorando agora por mais essa ofensa. Ele tentaria se vingar antes dela! E, se ela morresse antes disso, seria sem nenhuma honra. Agora só faltava ela ser exilada.
Estas referências são das histórias de Lorna Dannan e Silvia Ventura.
(*) - Nave "fantoche" da Federação. Oficialmente é uma nave de pesquisas, mas na verdade ela é equivalente a uma Ave de Rapina Klingon. A USS Pégasus é criação original da série Star Trek. A questão "fantoche" é totalmente não canônica.
(**) - Departamento secreto da Federação. Na verdade, é a parte negra desta, responsável por intrigas, espionagem, etc. Criação de Lorna Dannan e Silvia Ventura.
Capítulo 5
Marlene olhava para aqueles sprays de reparos. Eram compostos de um tanque e uma ponta flexível para espalhar o conteúdo nas placas do revestimento externo da nave. Seu objetivo era o de calafetar e imprimir resistência a um reparo de alguma fissura até se chegar a uma doca espacial para um conserto mais permanente.
Levantou os olhos desconfiada para o capitão, que inspecionava aquilo. Duas horas depois de chegarem a Plutão, quase tudo foi desligado e toda a equipe de reparos começou a trabalhar no desenvolvimento de um novo reator, e, o capitão decidiu treinar de novo um bocado de tripulantes - todos menos ele próprio e os convidados.
Certo, ela precisava de um treino em gravidade zero. Já estava no hangar e vestida a caráter. Mas o que aqueles sprays tinham a ver com isso? Ela seria treinada com aquilo? Bem, Mojor também estava lá na mesma situação - e com a mesma roupa alaranjada.
- Tudo certo - disse Jevlack olhando para eles - Bem crianças, sabem que estão aqui para treinamento em gravidade zero, e eu não acredito que um bom treino seja apenas flutuar em uma câmara fazendo serviços simulados. Vocês vão lá fora e usar isso - mostrou as pontas para eles - no casco. Como se estivessem realmente reparando a nave. A cor é a mesma utilizada para escrever o nome da nave lá fora. Assim posso ver se fizeram um bom trabalho.
- Senhor - adiantou-se Mojor - isso não vai... modificar a estética da nave?
Ele sorriu.
- Você quer dizer deixar ela pixada? Não. Pois vocês vão fazer uma coisa específica com isso. Primeiro vão usar este tanque - mostrou um tanque que estava encostado na parede - que irá remover a.... "tinta" atual escrita na nave. Depois usarão esse aqui, da cor preta. Alguma pergunta?
Ela olhou para os tanques e para o capitão com uma certa surpresa e mal estar. Do tipo que sentia quando alguém lhe pregava uma peça.
- O senhor quer que nós apaguemos o nome da nave e o escrevamos novamente????
A pergunta foi com um certo sarcasmo. Ela não acreditava que ele iria mandar fazerem isso.
- Claro que não - respondeu ele.
Isso deixou ambos um pouco mais aliviados. Mojor chegou a suspirar de alívio.
- Vocês vão apagar o nome da nave e escrever o novo nome, o qual já solicitei para ser atualizado na frota. Uma forma de apagar de vez o que fizeram com o nome de um grande médico compatriota meu. Agora o nome desta nave é USS Carlos Chagas.
Ela abriu a boca de surpresa. Um outro nome? Como diabos ela conseguira escrever algo assim? Em gravidade zero? Sem orientação?
- O senhor Jeferson irá orientá-los quando estiverem prontos para escrever o novo nome. Por enquanto, peguem esse spray para remover o nome atual... e - arreganhou os dentes - ao trabalho.
Jevlack saiu do hangar deixando-os olhando um para o outro.
- Eu não acredito - disse Mojor pegando um dos sprays de remoção - não acredito mesmo.
- Ora - disse ela tentando ficar um pouco calma - pelo menos será um bom treinamento.
- Sério? Por acaso reparou que estamos no hangar e o nome está no seção disco? São mais de cem metros para se chegar até lá pelo lado de fora. Não pense que é fácil usando botas magnéticas.
- É mais fácil do que flutuarmos até lá. Vamos.
Seguiram para a comporta. Uma divisória se fechou e solicitaram que fizessem o teste de equipamentos. Depois o ar foi retirado e saíram rumo ao espaço negro.
Era incrível. Marlene olhou para "cima" e viu Plutão, com a sua névoa característica deste período de sua translação. Lembrou-se das palavras do seu professor quando ainda era criança. Plutão deixou de ser considerado planeta no começo do século XXI.
"- Vamos, não estamos aqui para apreciar a paisagem" disse Mojor pelo comunicador.
Deu uma última olhada e seguiu lentamente em direção a seção disco. Bem que poderiam ter encurtado caminho os transportando até lá.
Não era tão difícil. Bastava olhar para o casco e se tinha a impressão de andar normalmente - tirando, é claro, a eterna sensação de estar na crista de uma montanha russa, sempre lembrada pelo estômago. O remédio contra enjôo evitava uma complicação maior, mas a sensação era muito incômoda.
Em cerca de quinze minutos, chegaram ao local. Marlene olhou em direção a ponte. Viu Jeferson acenando para eles. Sorriu e acenou de volta.
"Vocês estão ai a serviço" - era a voz de Jeferson no comunicador - "podem começar a pintura."
Aquela era a parte fácil, apagar o nome antigo. Ambos acionaram os sprays e, com grande facilidade, a superfície com o nome antigo era transformada em pó e flutuava pelo espaço, como uma nuvem negra. Era um efeito estranho, quase como se houvesse atmosfera ali, mas sabiam que era apenas uma ilusão, e que reações químicas complexas estavam dando aquele efeito.
Sentia-se como uma criança com um brinquedo novo. Os esquemas do novo reator estavam na sua tela, e ele imaginava ele montado e operacional. Estava fascinado pela idéia. Pelas suas contas, a nave poderia chegar tranqüilamente a dobra 9 sem muito esforço - um recorde incrível para uma nave de pesquisa - no entanto, haveria um preço: Um grande consumo de energia, quase o dobro. Entretanto, mantendo a velocidade padrão de uma nave classe Oberth, haveria uma economia de 30%. Tal ganho compensaria a perda esperada. O ponto de equilíbrio seria a dobra 8.7. Mesmo assim, um verdadeiro corredor.
Reviu o projeto das armas. Quatro pulsares Klingons - como o capitão teria conseguido os esquemas? - além de dois phasers de potência dupla - na verdade, cada phaser era composto de um par de disparadores a milímetros um do outro, de forma que o feixe acabava ficando único - um a frente e um a ré, com angulo de giro de 220 graus.
Uma capacidade que os poria em pé de igualdade com qualquer cruzador médio. Mesmo uma classe Ambassador teria certas dificuldades para fazer o mesmo nível de ataque que os deles.
Potência de escudos triplicada - implementação total em mais vinte e oito horas - sensores 10% inferiores a de uma classe Ambassador, que era quatro vezes maior.
Comunicadores ensígnias operacionais, ala médica operacional, dispositivos de conforto, operacionais.
Deu um largo sorriso... aquela era a tripulação mais problemática e preguiçosa da frota? Que mudança! Bom, quem é que iria discutir alguma coisa com alguém que pode arrancar uma porta blindada? Claro que não era bem isso que os motivava. O capitão tinha uma imponência que assustava, mas que também inspirava muito respeito. Ele devia ter vindo para a Chagas há mais tempo.
Saiu de seu posto e foi acompanhar de perto a equipe de reparos moldando as partes do reator. Ele queria testar a tolerância do material pessoalmente.
Estava um verdadeiro babel de pessoas se movendo no meio da sala do reator. No centro, estava um espaço vazio, onde o novo reator seria montado. Algumas peças já estavam lá, os suportes dos cristais, sendo testados e calibrados.
Olhou para o "esqueleto" interno do reator. Nunca tinha visto como seria. Agora podia visualizar como era o funcionamento interno dele. Se soubesse disto antes, muitos problemas que teve no passado seriam de fácil resolução. Não precisaria pedir para o computador sugerir alguma coisa.
O computador! Ainda precisava terminar a instalação dele. Chamou cinco esgotados auxiliares e os instruiu a dar prosseguimento a programação e teste do computador principal. Eles apreciaram muito, pois era um serviço a ser feito sentado. No dia seguinte toda a parte externa ao reator - com exceção das armas - estaria concluída.
Aquela era a parte que o estava preocupando. O que será que eles diriam ao descobrir que estariam armando - e muito - aquela nave? Perguntas surgiriam - como surgiram na sua mente - nossa missão é perigosa? Teremos treinamento? Por que instalar estas armas?
Eles teriam treinamento sim! Tinha certeza disto. Provavelmente enquanto estavam terminando de calibrar o reator, haveriam dezenas de simulações de combate. Durante a viagem, também haveriam outras simulações e treinos. O capitão Jevlack não tinha dado um único ponto sem nó até então, e não tinha nenhuma razão para acreditar que o faria agora.
Achou que era melhor parar de divagar e seguiu para o painel principal, para iniciar os testes da estrutura do reator.
****
Joana deu uma grande saboreada em seu sorvete de chocolate. Uma grande invenção humana aquela, a taça de sorvete. Sentia-se revigorada com o gosto adocicado e gelado.
Estava sozinha no refeitório. Todos estavam trabalhando, e os que não estavam, simplesmente estavam desmaiados de cansaço em seus aposentos. Estava ficando preocupada. Não imaginava quem seria seu contato, e temia que haveria grandes dificuldades para que se encontrassem com aquela situação atual.
Haviam dois vulcanos na nave, Binacer e a médica chefe, de Binacer não tinha muitos receios. Não seria difícil escapar a provável curiosidade que ele em breve sentiria por ela. Mas da médica... Bem, ela parecia ser do tipo inquiridora. No momento ela estava ocupada fazendo testes médicos padrões na tripulação, mas não demoraria muito para que se encontrassem com mais freqüência. Esperava que o seu contato a livrasse deste inconveniente.
Pegou outra generosa colher de sorvete e a degustou lentamente. Andara sondando a mente de alguns tripulantes nas últimas horas, mas nada de excepcional foi achado. Ainda não sabia de quem era aquela mente poderosa que tinha sentido em sua primeira sondagem, mas sabia que não iria demorar muito para encontra-la.
Ao menos, teve de ficar grata pelo raio de ação daquela misteriosa mente ser muito estreito, do contrário, ela seria totalmente obliterada por ela.
Ouviu passos no corredor e olhou em direção a porta de ligação. Abriu sua mente para captar algum pensamento externo da pessoa em questão - qualquer informação sempre pode vir a ser útil. Pegou outra colher de sorvete e quase se engasgou com ela. Aquela mente de novo! Tão poderosa que começou a afetar seus próprios pensamentos. Rapidamente formou um escudo mental para se proteger.
Pela porta, uma pessoa alta e, aparentemente musculosa, passou rapidamente, seguindo pelo corredor. Pelo uniforme, era alguma patente elevada, não pôde ver muitos detalhes.
Ficou muito assustada. Da primeira vez que havia sentido aquela mente, estava muito distante para perceber o nível de atuação da mesma. Agora, a poucos metros de distância ela realmente percebeu o poder enorme dela. Não tinha palavras para descrever nem mesmo para si mesma. Havia sentido coisa similar com seres de energia muito poderosos, em uma de suas primeiras missões. Mas mesmo estes eram pálidas velas em comparação a esta.
Deixou o sorvete e a colher largados na mesa e seguiu para os seus aposentos. Havia uma criatura de poder quase impossível de se mensurar na frota. Tal fato deveria ser informado imediatamente aos seus superiores.
"...Jevlack é um bom capitão, apesar de uma independência que deixa certos departamentos irritados, cuide-se."
"Não se preocupe vovô, vou ficar bem."
A transmissão terminou. Era a quarta vez que Jevlack revia o mesmo trecho. Não tinha dúvidas. O almirante Neves usou este recurso para dar um recado a ele, principalmente pela transmissão aceitar sua autoridade de capitão para ve-la - coisa que raramente ocorria com comunicados de patentes elevadas, mesmo sendo uma conversa informal como aquela.
Só havia um departamento que se irritava com ele. Mas não conseguia imaginar o que eles poderiam querer com o envolvimento dele. Será que não tinham aprendido ainda que ele não joga pelas regras de ninguém?
- Engenheiro Carlos!
"- Sim capitão?"
- Tempo para implantação dos pulsares retráteis?
"- Dois dias senhor, e, com o novo reator, não teremos problemas de potência."
- Fico feliz que esteja apreciando suas tarefas. Podemos sair daqui a oito dias?
"- Sairemos em cinco! Em oito estaremos no ponto de encontro. Talvez seja mais rápido rebocarmos nossa escolta. Ganharemos mais de um mês para a pesquisa."
- Pensarei a respeito.
Desligou o comunicador e sorriu. Alguns dos chefes já estavam se empolgando com os novos desafios. Os comunicadores ensígnias já estavam operacionais, quase todos os equipamentos novos estavam instalados, e em apenas doze horas - certo, sua antiga tripulação faria o mesmo em nove, mas considerando o que tinha disponível, era excepcional. Decidiu ir até a ponte e verificar como estavam indo com a "pintura" da nave. Deviam estar no fim.
"- Não, não, não! É uma letra 'C'! Esta mancha ai parece uma cedilha. Use aquele removedor para tirar toda esta faixa de baixo e vamos fazer de novo."
- Vamos nada! Você está ai no conforto da ponte, eu que estou fazendo isto pela terceira vez - respondeu um irritado Mojor para Jeferson.
Pelo comunicador, o riso de Marlene veio alto e claro.
- Não comece você também!
- Ora, minha parte está perfeita, e já adiantei a letra "A". Você é que está na parte de baixo atrasando o serviço. Nem sei como conseguiu fazer o "USS".
- Eu também não - respondeu ele enquanto "pintava" novamente a parte de baixo da letra "C".
"- Perfeito! Mas não fique ai parado, ainda falta o resto do nome. Marlene, comece a parte de cima da letra 'R', Mojor, termine a letra 'A'. Estou iluminando o contorno agora."
Um laser de sondagem próxima - usado para análises de espectro de asteróides - foi projetado para a seção disco, formando o contorno da próxima letra. Devido a limitação do equipamento, e dele não ter sido projetado para formar desenhos, só podiam fazer uma letra por vez. Mas era muito eficiente, assim mesmo.
- Quando acabar, vou querer um banho daqueles - disse Marlene. Apesar da roupa manter uma temperatura constante, ela estava suando muito com o esforço complexo de coordenar os passos, a firmeza do pulso e ainda manter o spray na linha tênue indicada pelo laser.
"- O capitão disse que estarão dispensados pelo resto do dia, quando acabarem."
- E que horas são? - perguntou Mojor.
"- Já se passaram duas horas depois dos seus turnos. Lamento."
- Já imaginava algo assim. Pelo menos acho que agora pegamos o jeito. Acho que vamos acabar antes do jantar.
- Prefiro que acabemos antes de dormir - disse Marlene - meus braços já estão doendo e muito.
"- Menos conversa e mais trabalho ai, por favor"
- Oras, vê se não amola, e antes de comece dizendo que tem patente maior que a minha, meu turno já acabou, certo?
"- Certo Mojor, desculpe a brincadeira."
Continuaram com o trabalho.
- Capitão?
Jevlack olhou em direção a voz. Era de Binacer. Parou no meio do corredor e aguardou que ele o alcança-se.
- Sim? Posso ser útil?
- Capitão - disse ele inexpressivo - quando soube que o senhor seria o novo comandante da nave, fiquei um pouco aliviado, mas agora, confesso que temo pelo sucesso da missão. Teremos apenas duas semanas para análises, de acordo com o cronograma estipulado. Se, como fique sabendo, ficarmos em órbita de Plutão por uma semana, metade do nosso tempo disponível será desperdiçado. A menos, claro que sejamos rebocados por outra nave, mais veloz.
- Não se preocupe, o senhor terá mais de um mês para analisar criteriosamente o planeta inteiro. E ninguém irá nos rebocar. Se me der licença...
Virou-se e seguiu em direção a ponte. Um mês? Ficou curioso para saber como isso seria possível.
- Mas o que eu captei...
"- Não interessa. Atenha-se apenas a sua missão. E você teve ordens explícitas para não entrar em contato estando ainda no território da Federação. Devido ao sistema antigo desse console que está usando, não podemos apagar o registro da comunicação que fez agora. Torça para que o capitão não resolva acessa-lo. Se isto ocorrer, sua posição para com o departamento passará de 'útil' para 'possível risco'."
A comunicação encerrou-se. Joana ficou apavorada com a frase final. Alguém considerado como possível risco simplesmente era obrigada a sair do espaço da Federação ou então terminava sofrendo algum tipo de acidente. Isso quando não tinha uma doença súbita ou morria de "causas naturais".
Não conseguia entender. Tinha uma missão, mas não deveria entrar em contato de forma alguma com o departamento enquanto não estivesse além da fronteira, não importasse o tamanho da emergência. Certo, isto estava explícito quando tinha recebido a missão, mas não acreditava - especialmente depois de tudo o que já tinha feito por eles - que tal quebra das regras poderia implicar em sua eliminação.
Nem sabia ainda quem era o objetivo de sua missão! Como podia ser considerada um risco? Aquilo não era uma missão de rotina, tinha que haver algo muito importante e de extrema delicadeza por trás ou paralelo a esta.
Mas o fato é que não podia imaginar qual a importância de sondar a mente de um tripulante a bordo de uma nave de pesquisas que simplesmente iria ficar algumas semanas em espaço aberto. A não ser que fossem uma mera desculpa para uma ave de rapina Klingon estar no mesmo local para onde iam.
Isso faria sentido, mas não justificaria tamanha segurança ou receio. Com certeza, qualquer governo inimigo poderia imaginar o que uma ave de rapina estaria fazendo escoltando uma nave da Federação.
Foi até o seu console pessoal e escreveu um resumo da situação - em código, para que ninguém pudesse ler, claro que poderiam com o tempo, decodifica-lo, mas, mesmo com todos os computadores de duas bases espaciais, seriam precisos setecentos anos para isso. Não tinha que se preocupar.
Registrou sua desconfiança sobre a forma de agir do departamento. Aparentemente, sua missão era de pouca importância - possível risco para o departamento - frente a outra coisa que podia - ou não - estar ocorrendo por ali.
"- Senhorita Ghender? Aqui é a médica chefe."
Ficou intrigada, por que ela a chamaria?
- Estou ouvindo - respondeu, muito curiosa.
" - Senhorita Ghender, o capitão me ordenou a fazer um exame completo em toda a tripulação, incluindo os nossos passageiros. Gostaria de saber qual seria o horário mais satisfatório para que visse a enfermaria para o exame. E, infelizmente, a senhorita não possui a opção de recusar."
- Aguarde.
O que iria fazer? Um exame completo revelaria o dispositivo instalado em seu crânio. Que desculpa daria para a existência dele? Tinha meios de retira-lo, mas ficaria inconsciente por algum tempo logo depois disto. Sendo possível ser localizada por alguém antes de poder esconde-lo. Um outro problema seria que não poderia recoloca-lo novamente sozinha.
Tinha que dar uma resposta. Evitar o exame estava fora de questão - a senhorita não possui a opção de recusar - o que iria fazer?
"- Senhorita Ghender, informe-me quando checar o melhor dia e horário. Acredito que esteja atarefada no momento. Eu também tenho minha missão a cumprir no momento, assim como deve ter a sua."
Não acreditou no que tinha ouvido.
- Pode ser agora mesmo? - sua voz demonstrou uma certa surpresa.
"- Sim, estarei aguardando."
Joana nem desligou o console. Saiu do seu aposento e seguiu para a enfermaria.
****
Capítulo 6
- Capitão, não posso acreditar nisso. E quanto a nossa patrulha na fronteira?
- Desnecessária - respondeu Thar secamente - o único motivo de termos essa missão antes da principal era porque iria demorar quarenta dias para a nave de pesquisas da Frota chegar ao ponto de encontro. Agora eles irão chegar bem antes. Na verdade, já estamos atrasados. Leve a nave para lá agora! E não se esqueça do que deve fazer quando ela chegar.
Moedh sentiu-se como que um condenado. Sem dúvida Thar falava da aposta de honra que tinham feito ao qual perdera. Servir em uma nave de crianças. Receber ordens de crianças. Ter de ficar desarmado. Inaceitável! Mas sua honra exigia que obedecesse.
- Não necessito ser lembrado de meus deveres - disse em resposta.
- Mas necessita ser sempre lembrado das conseqüências de ações apressadas - contra argumentou o capitão.
Moedh saiu. Não queria entrar na questão em si. Estava muito preocupado com a questão de Kansha e da morte de seu irmão, agora considerado como "incidental". Muito desagradável. Esperava que seu pai ainda não tivesse sido informado.
Foi até a ponte, onde ordenou o novo curso, em dobra máxima. Como aquela nave de pesquisas faria para chegar tão rápido era algo que não podia imaginar. Teriam que ser muito rápidos, muito além do limite de segurança. Não era apenas uma questão de aumentar a sua potência, seria preciso reconfigurar toda a sua estrutura de escudos. Será que o tal capitão da frota que Thar respeitava era o responsável?
- Comandante, estamos captando mais sinais romulanos. E é outro código.
Estando na fronteira, eles sempre tentavam verificar as transmissões romulanas. Mas eles mudavam a codificação das mesmas com muita rapidez.
- Ignore. Não nos interessa mais.
Um dia, ele pretendia investir diretamente contra Romulus. O covarde ataque que fizeram em uma de suas bases ainda estava muito atravessado em sua garganta. Ainda não aceitava que não os estivessem combatendo. Talvez fosse verdade o comentário que faziam: A união com a Federação castrou a vontade de lutar dos Klingons. Mas a verdade era outra. Ainda não estavam totalmente recuperados quando isto tinha ocorrido, e a Federação não iria apoia-los em uma guerra tão equilibrada como aquela. Comenta-se que o único motivo dos Romulanos terem parado com os ataques foi devido a aliança feita. Cada lado apoiaria irrestritamente o outro a partir de então, não antes. Se eles tivessem feito um novo ataque, teriam de enfrentar dois impérios bem respeitáveis - ele odiava admitir, mas a Federação era poderosa - assim, fugiram.
Ele estava distraído. Um erro geralmente fatal para um comandante Klingon. Mal teve tempo de conter a faca que iria degola-lo. Passado o susto inicial, e maldizendo-se por sua baixa de guarda, percebeu que o seu agressor agora é quem tinha cometido o erro de se distrair - provavelmente não esperava que ele pudesse perceber o ataque - erro este que ele aproveitou. Aproveitou a força que ele exercia contra a seu pescoço e desviou a faca para a perna direita dele, cortando-a profundamente.
Ele conteve o grito - fato este que satisfez Moedh - mas com alguns tendões cortados, não pode manter o equilíbrio, caindo de lado no chão e soltando a faca. Moedh aguardou que ele abrisse os olhos e então enterrou a faca na testa dele, causando sua morte instantânea.
- Parabéns - disse ele para a casca vazia no chão.
Só então decidiu ver quem era, e não ficou nem um pouco surpreso. Era o seu subalterno imediato - como é de praxe em naves Klingons, pode-se apenas subir de posto com a morte do superior, normalmente pelas próprias mãos. Foi tolice dele tentar subir de posição agora. Devia ter esperado mais um pouco, e aprimorado mais suas habilidades.
- Joguem isto fora - disse se referindo o corpo no chão.
Moedh sentou-se na cadeira do capitão como se nada houvesse ocorrido. Era apenas rotina.
****
Jevlack apenas observava seus subordinados fazerem análises e análises de Plutão. Visando deixa-los prontos para executar a tarefa a eles incumbida - obter maiores informações sobre os fósseis achados - decidiu botar todos os que já tinham terminado com a sua parte da reforma da nave para treinar em analisar Plutão. Queria saber tudo o que fosse possível sobre a planeta. Desnecessário dizer que os registros já arquivos sobre ele estavam inacessíveis. Ninguém iria "colar" naquela prova.
Especialmente porque quem não tivesse um índice aproveitável voltaria para a doca de Utopia - via corte marcial.
Com todos os equipamentos modernos instalados - e com um incentivo daqueles - até o momento ninguém estava abaixo da marca excelente. E provavelmente ninguém iria ficar. Estava de pé na sala de conferência, assistindo ao fim da palestra dissertativa do chefe de exabiologia, afirmando que as formas de vida encontradas eram na verdade uma "poluição biológica" causada por dezenas de sondas enviadas muitas décadas atrás, que não foram devidamente esterilizadas. Todas eram variedades de bactérias terrestres, que além de conseguirem sobreviver no ambiente inóspito de Plutão, estavam evoluindo. Surgiram seres flagelados, e até algumas variedades interessantes de vírus. Mas nada pluricelular.
Talvez, no futuro longínquo, criaturas inteligentes evoluissem daquela "poluição". Talvez se questionassem de onde vieram. Talvez os seus "pais" desajeitados resolvessem auxilia-los, como... como quem? Estranho. Ultimamente estava tendo linhas de pensamento que pareciam advir de lembranças enterradas. Mas nunca se completavam. Desviou a mente daquilo e ficou apenas ouvindo até o fim da palestra.
- Muito bom - disse ele - todos estão de parabéns. Pelo menos provaram que são capazes de fazer o serviço. Agora gostaria que alguém me dissesse porque nenhuma destas análises foi feita no planeta para onde estamos indo. Por falar nisso, alguém também pode me informar qual é a classificação dele? Tudo o que sei é que é o segundo planeta da estrela NB2213.
Silencio. Jevlack olhou para o chão e balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Fico imaginando como foi que acharam aqueles fósseis.
- Foi o senhor Armando - disse uma das auxiliares de geologia - ele imaginou ter visto algo se mover a distância enquanto estávamos na superfície do planeta e foi correndo para ver o que era. Ele tropeçou em algo, e quando chegamos perto vimos que era um osso enorme.
Algumas risadas surgiram disto. Jevlack quase riu também, mas se conteve.
- Investigaram o que ele pode ter visto?
- Na verdade - ela começou a ficar um pouco encabulada - nós nos esquecemos daquilo completamente.
- Bom, pelo menos agora sei que não foi uma figura de linguagem o registros do diário de bordo. Dispensados. Senhores chefes de departamento, não se esqueçam de nossa última renião hoje antes de partirmos.
A sala ficou vazia. Tropeçaram numa das maiores descobertas científicas da década. E não souberam se aproveitar daquilo. Faltava um pouco de ambição naqueles tripulantes.
- Capitão?
Olhou em direção da voz. Era a médica chefe.
- Sim?
- Os resultados dos exames da tripulação - ela entregou os discos a ele - falta apenas o senhor.
- Sim, eu sei. Por acaso identificou algum betazóide entre os tripulantes?
- Não senhor. Por que pergunta, se me permite saber?
- Apenas algo que andei pressentindo - ela não precisava saber que ele podia identificar emissões telepáticas. Pena não poder determinar a origem.
- E quanto ao seu exame? Quando estaria disponível?
- A senhorita é insistente - sorriu - pelo que conheço de vulcanos pode até ser que esteja me paquerando.
- Se eu desejasse algo, eu falaria abertamente - comentou com uma certa entonação na voz.
Olhou para ela um pouco divertido com a situação de "donzela ofendida".
- Faltou dizer "algo que valha a pena". E só pode ter certeza disto após o exame.
- Com toda certeza senhor - agora foi ela quem sorriu - se me der licença, tem alguns engenheiros se queixando de dores musculares na enfermaria. E meus auxiliares estão todos no seu treinamento de atendimentos de emergência.
Ela se virou e caminhou lentamente para fora da sala. Ele conhecia muito bem aquela raça. A leve rebolada nos quadris que fez - praticamente imperceptível para quem não os conhecia profundamente - foi equivalente a quase pular no seu colo.
- Bem - disse para a sala agora vazia - já faz muito tempo que não faço um check-up de rotina. Sem contar outras coisas...
Quando finalmente chegou a porta do almirante, suspirou um pouco. Tinha esperado em órbita por horas. Foi chamado para ir a Romulus com extrema urgência, e, lá chegando, teve de esperar! Que falta de organização estavam tendo ultimamente.
Quando entrou, viu o almirante atrás de sua mesa, lendo alguns relatórios.
- Sente-se capitão, em breve falaremos.
Sentou-se a sua frente e aguardou. Ainda tinha de esperar isso. Para que tanta urgência afinal? Cruzou os braços e cuidou de não demonstrar sua irritação ou paciência. Afinal, na sua frente, estava aquele que todos os oficiais romulanos temiam. O Almirante Tomalock.
Era conhecido por suas campanhas vitoriosas, embora sempre atingissem objetivos civis. O governo ficava dividido quanto a isso. Por um lado expremia o clamor do povo em mostrar sua superioridade frente ao Universo, por outro havia o temor de dar ao inimigo uma chance de ter um objetivo terrível para se apegar, vingança!
Mas, para ele, isso não interessava. Continuava com suas campanhas e suas estratégias. E com aquela mania de não falar nem para os integrantes chave de uma missão qual o verdadeiro objetivo desta. Apenas dava as ordens e pronto.
- Sua ficha é muito expressiva - disse ele repentinamente - acredito que sua indicação seja aceitável.
Ele pôs a prancheta na mesa e olhou para ele.
- Capitão Nley, sabe por que está aqui?
- Não senhor!
- Ótimo - recostou-se na cadeira - irá partir com sua nave imediatamente. As coordenadas já foram transmitidas, só estão esperando que volte a bordo. Sua missão é simples. Deve ficar vigiando tudo o que estiver ocorrendo naquele sistema. Sabemos que uma nave de pesquisas da Federação irá fazer algumas análises por lá. Quando ela estiver se preparando para partir, ataque-a e tome dela todas as informações que tiver descoberto. Há também dois prisioneiros que seria bom que pudessem ser capturados. A informação já foi transmitida juntamente com as coordenadas. É só. Pode ir.
Nley se levantou de prontidão.
- E quanto aos outros prisioneiros?
- Não nos interessa - respondeu ele um pouco irritado - pode fazer com a tripulação o que bem entender.
- Sim senhor.
Em poucos minutos tinha retornado a sua nave e já estava partindo. Ficou satisfeito ao ver que as coordenadas eram em espaço aberto. Era algo muito simples. Naves de pesquisa possuem pouco armamento - isso quando o tinham - seria fácil.
Teria de esperar até saírem do território romulano para decodificar a outra transmissão, a que tinha os dados dos prisioneiros desejados. Normas militares... as vezes não as entendia muito bem.
- Sou uma mera alferes! E ainda estou aprendendo a como navegar a nave. Como espera que eu manipule armas? Isso é estupidez!
Marlene não se conteve. Sabia que estava saindo da linha, mas aquilo era demais.
- Está fazendo um protesto formal? - perguntou Jevlack lentamente.
- SIM! ESTOU! - disse Marlene. Ele podia mandar prende-la se quisesse, mas ela não iria compactuar com aquilo.
- Parabéns - disse ele sorrindo - é a primeira pessoa que tem coragem de dizer que posso estar cometendo um erro - olhou para os outros sentados ao redor da mesa - coisa que ninguém aqui teve zelo para fazer. Você tem razão. É errado po-la como armeiro na sua situação. Precisa de muito mais experiência para isso. Mas irá ser treinada para assumir este posto no caso de ser necessário.
Ficaram mudos, e até envergonhados. Sabiam das normas de se opor a ordens quando julgassem necessário, mas, tinham se acostumado tanto a "deixar levar" que simplesmente não reagiam mais a elas.
- Jefferson, você é quem está aqui há mais tempo. Acaba de ser promovido a imediato, e não pense que isto é uma benção. Porque não é. Armando, você assumirá o papel da segurança global. Como é uma nave de pesquisas, não há porque subdividir este departamento. Toda segurança, quer seja em análises em planetas ou experiências, quer seja sob ataque, está ao seu cargo. Tire as teias de aranha de seu console e se informe de quais as suas novas atribuições. Os outros já receberam suas ordens. Dispensados. Morjan, venha falar comigo depois de seu turno. Sua facilidade com as comunicações pode torna-lo apto a um cargo mais conceituado. É tudo. Jefferson, aproveite e assuma o comando. Quero que esta nave esteja a caminho do ponto de encontro assim que o engenheiro chefe informar que está tudo ok. E sim! Você fará o diário de bordo enquanto eu não reassumir a ponte. Afinal, é uma de suas novas atribuições.
Todos se levantaram. Jefferson parecia estar em choque, mas nada disse. Nos últimos cinco dias, tiveram uma reunião atrás da outra. Era enervante e as exigências do capitão deixava-os desesperados. Mas, naquele dia em especial, começaram a perceber a tremenda eficiência que estavam demonstrando. O capitão enviava constantemente relatórios de seus progressos para a Frota, e - coisa incrível - muitas naves que estavam para renovar tripulações, os estavam solicitando quando a missão terminasse.
Marlene ficou parada a beira da porta. Indecisa se devia sair ou não.
- Sim Marlene? Se quer dizer algo, diga.
Olhou para ele. A indecisão era muito evidente.
- Morjan estava vendo os registros sobre mim e descobriu uma coisa. Ele solicitou ao computador a ficha de Marlene. Quando o computador pediu maior especificação, ele solicitou a que estivesse sob o comando de Jevlack, e duas fichas apareceram. A minha e a da minha mãe. Na verdade, nunca tive acesso a ficha dela, mas agora, como integrante da Frota, eu tenho.
Ela se aproximou da mesa e olhou um pouco temerosa para ele.
- Ela estava sob o seu comando quando morreu. Vovô nunca me disse isso. Como ela morreu? Eu gostaria de saber, se possível.
- O que seu avô lhe disse?
- "Morta no cumprimento do dever". Só isso. Na ficha diz que morreu em um acidente. Mas não diz qual.
Jevlack a encarou, mantendo a mesma expressão tranqüila.
- Sua mãe era integrante de um grupo avançado - começou ele - infelizmente, devido a natureza da missão, não posso dizer a circunstância em que ela morreu, mas posso dizer que foi resultado de uma decisão minha.
Desviou o olhar para a mesa. Ainda sentia o peso daquela decisão tomada anos atrás.
- Já ouviu dizer que o posto de capitão é muito solitário?
- Sim - disse ela - ouvi alguns comentários na academia.
- Um capitão não pode se envolver pessoalmente com a sua tripulação. Isso pode afetar suas decisões. Ele tem que ver cada tripulante basicamente como uma peça menor em uma grande máquina. Se uma das peças apresenta um defeito, normalmente ou é reparada ou então, trocada. Se uma peça se quebra, coloca-se outra no lugar. Em raras vezes, uma peça sofre algo que ameaça a máquina inteira. - fez uma pausa, e voltou a olhar fixamente em seus olhos - eu, como capitão, tenho que decidir o que fazer com esta peça. Se puder isolá-la, ótimo. Se puder conserta-la, melhor ainda. Mas, se não puder fazer nada disso - abaixou os olhos, sem completar a frase.
- Pode ser mais explícito? - solicitou ela - Eu não quero algo que "parece ser" ou "é possível que". O que fez? - ela estava inquirindo agora, esquecendo totalmente de que ali, na sua frente, estava o seu superior.
- Dei uma ordem. Não foi uma ordem para matar o grupo avançado. Mas ela culminou com a morte deste - as pupilas de seus olhos subitamente se iluminaram - e eu tinha plena consciência de que isto iria acontecer.
Marlene ficou um pouco pensativa. Podia-se perceber que ela tinha sentido o impacto da notícia. Sua mãe tinha sido sacrificada. Era difícil saber qual seria a sua reação a seguir.
- Haviam outras escolhas?
- Sempre se encontram outras escolhas depois que se faz e executa uma - respondeu distante.
- Mas na hora em que tomou esta que acabou matando minha mãe - insistiu ela - você tinha considerado outras?
- Apenas uma - disse ele se levantando - destruir a minha nave e matar toda a tripulação. E havia uma boa chance de que eu sobrevivesse.
Levantou-se e foi em direção a porta. Chegando nesta, parou e se virou. Ela ainda estava na mesma posição, olhando para onde ele estava antes.
- Eu decidi deixar o grupo avançado ser sacrificado - disse ele - se foi um erro ou não, ninguém nunca conseguiu decidir. Nem mesmo o seu avô. Menos de uma hora depois, sacrifiquei minha própria nave.
Saiu da sala. Não precisava de seus ouvidos biônicos para saber que ela estava chorando baixinho.
- Ela sofreu? - perguntou ainda dentro da sala.
Jevlack parou no meio do corredor. Demorou quase um minuto para responder.
- Espero nunca descobrir essa resposta- disse ele. E seguiu para a ponte.
A médica chefe estava sozinha na enfermaria. Queria privacidade total para a tarefa que tencionava fazer. Pegou o disco isolinear que estivera escondido entre seus pertences e o inseriu no console principal da enfermaria. Ao executar o programa, foi solicitada uma senha e um texto chave para a decodificação. Ela forneceu ambos e o programa começou a decodificar a ficha que estava no disco.
- Senhorita Ghender?
"- Sim?"
- Pode vir até a enfermaria? Queria confirmar uma coisa sobre seu exame.
"- Estou a caminho."
Pouco antes de Joana chegar, o programa tinha terminado a codificação e agora solicitava outra senha. Quando ela entrou, não fez nenhum comentário, apenas digitou a senha que tinha memorizado das ordens que tinha recebido. Alguns minutos depois e todo o arquivo estava novamente legível.
Aderik retirou o disco e o entregou a Joana, que o escondeu por sob a sua túnica. Ela tinha gostado dos novos uniformes da federação e estava usando um equivalente, de cor verde. Sem patente, logicamente. Devido a ele ser muito justo, suas formas, que já eram generosas, receberam um realce extra, de forma que nem com o capitão "mandão" que tinham a tripulação masculina conseguia evitar alguma distração ocasional quando ela estava por perto. Jevlack chegou a dar uma ordem um tanto direta e que jogava a sutileza as favas: O próximo que tropeçar ou arrumar uma dor no pescoço durante o turno ativo na presença dela, passaria a missão inteira a ferros. Por mais incomum que fosse a ordem, o número de acidentes ficou reduzido a zero depois disso.
Ela também não recebeu mais nenhum convite para jantar depois disso. Virou uma espécie de exilada social. Parecia que o dito popular humano era a pura verdade: Tudo em excesso atrapalha.
- Ai está todo o histórico que necessita para cumprir sua tarefa - dissera a médica.
- Inclusive o objetivo?
- Pensei que já tivesse imaginado - ela parecia estar perplexa.
- Com todo o trabalho preparativo que tive de fazer para a análise antropológica da missão da nave, nem tive tempo de pensar nisso. Na verdade, depois do susto de alguns dias atrás com... - ela atentou para o sinal dela sobre os gravadores da sala - aquela pessoa que comentei, nem tive muito ensejo de "verificar" mais nada.
- Bom - disse ela - está tudo ai.
Joana se virou e seguiu para os seus aposentos. Ainda custava a aceitar que o seu contato era a médica chefe. Uma vulcana! Bom, o departamento tinha vulcanos nas suas fileiras. Mas ela tinha sido posta lá depois que o capitão tinha feito todo aquela cena na doca. Expulsando doze tripulantes. Provavelmente seu contato era um destes. Então conseguiram outro para substituir. Isso indicava que sua missão tinha importância.
Sentou-se em frente ao seu console pessoal e inseriu o disco. Levaria um certo tempo até ele ser carregado, mas seria rápido. Bom, descobriria que era seu alvo e o sondaria. Depois teria de continuar personificando uma antropóloga, e manter a boa impressão que causara em seus "colegas de profissão".
Praticamente não tivera contato com eles desde que embarcaram. Guedes e Binacer ficavam tão ocupados com seus preparativos que mal saiam dos alojamentos ou da nave auxiliar com os seus equipamentos que estava no hangar. Estavam analisando novamente os fósseis - apenas uma parte destes - que motivaram aquela missão. Queriam ter certeza dos resultados.
Fora convidada para participar, mas ela retrucara dizendo que tinha ainda muitos preparativos - o que era verdade - e que a datação em si não era uma tarefa que requeria sua supervisão direta, podendo ser deixada inteiramente ao cargo de suas mãos competentes. Guedes se sentira lisonjeado com o comentário.
O arquivo tinha sido carregado - a lentidão se devia aos protocolos de segurança - e uma ficha padrão da frota apareceu na tela:
Codinome.....: Coronel J.
Altura............: 1,82.
Peso...............: 130 quilos (devido a próteses biônicas).
Olhos.............: vermelhos.
Cabelos..........: Castanhos escuros.
Raça...............: Humana (teoricamente).
Cútis..............: Branca.
Idade..............: Aparenta ter 35 anos. Tecnicamente tem mais de 170 anos.
Posto..............: Capitão.
Nome atualmente utilizado: Jevlack.
Ficou boquiaberta ao ler aquilo. O Capitão Jevlack era o seu alvo. Mas, mais do que isso, o que a impressionou foi saber que ele era o coronel J. Um nome que, na guerra de Alfa Centaury era bem conhecido. Também foi o piloto que comandou a última nave de Zefram Cochrane. Seriam a mesma pessoa? Bem, tecnicamente tem mais de 170 anos. Com certeza devia ser. Era só ler o resto e descobriria, incluindo a questão "teoricamente humana".
****
Capítulo 7
- Navegador, trace curso para o planeta Ghiker, dobra 6.
- Sim, tene... comandante Jefferson - disse Marlene.
Jefferson a viu digitar as coordenadas. Ela estava muito mais segura agora, mas, desde que voltara da reunião parecia como que pensando em outra coisa. Bom, enquanto estivesse executando as suas tarefas de forma satisfatória, não iria dizer nada. Nossa! Nem ele acreditava no que tinha acabado de pensar. Imediato há quinze minutos e já estava agindo de acordo.
- Curso traçado comandante, mas gostaria de lembra-lo de que o capitão especificou dobra 8.
- Ha é.... é o costume. Dobra 8.
- Pronto comandante - ela sorriu.
Bom, era isso ai. Já tinha assumido o comando antes mas sentia que agora era bem diferente. Ia ser cobrado pelo que fizesse, esta era a diferença. Armando estava em seu alojamento conferindo suas novas tarefas. Morjan estava no seu novo posto - com a inclusão de armas, o posto de comunicações foi montado no lado direito da ponte, e o antigo foi convertido para o armeiro, que ainda não tinha sido selecionado - apenas olhando para o nada - não tinha muito o que fazer a não ser prestar atenção em transmissões. Na verdade, lembrou-se de que ele tinha algo para fazer.
- Senhor Morjan, informe a Frota de que estamos a caminho do.. espere! - pos a mão na testa - espere um pouco.
Pressionou o comunicador no assento do capitão e na mesma hora lembrou-se de que tinha um comunicador ensígnea. Estava começando a se sentir muito desajeitado.
- Engenharia, pelo informe anterior os motores estariam prontos há uma hora atrás. Gostaria que verificassem se está tudo certo.
"- Está tudo certo aqui senhor, fizemos uma revisão e checkup completo faz dez minutos."
- Certo, apenas confirmando. Desligo.
Olhou para a tela. Marlene estava com as mãos cruzadas sobre o peito. Como que impaciente.
- Acionar - disse ele.
- Não é melhor sairmos de órbita primeiro? - perguntou ela.
Só então ele reparou no quanto estava nervoso. Ele tinha sido navegador daquela nave por anos, e se esquecera de um detalhe ridículo como aquele. Pôs as duas mãos no rosto e disse.
- Certo, esqueci. Marlene, leve-nos até o planeta. Siga todos os procedimentos de praxe. Execute ao seu critério. Morjan avise ao comando da Frota que estamos partindo.
- Sim senhor - responderam ambos.
Marlene tirou a nave de órbita e a pos a caminho, Morjan avisou a Frota. Depois disso ambos ficaram em silêncio. Morjan ficava chaveando as frequências, e Marlene observava os sensores para efetuar qualquer correção de rota.
- Tempo estimado para entrar em território Klingon... duas semanas - informou Marlene.
- Ótimo - respondeu Jefferson.
"- Senhor Jefferson, percebi que partimos de Plutão. Espero que tenha se lembrado de fazer o registro no diário." - era o capitão.
- Ia fazer isso agora, senhor - disse quase se engasgando.
"Diário de Bordo, partimos de Plutão rumo ao ponto de encontro com a nossa nave escolta, no planeta Ghiker. Testaremos os limites dos novos equipamentos durante a viagem. Acho que é só."
Marlene se virou em sua direção.
- O que foi? O que errei agora?
- Bom, tirando o fato de não ter registrado a data estelar, e esse comentário de "acho que é só", nada.
- OPS! Como eu acerto isso?
- Não acerta - disse Morjan - depois que se fecha um registro, ele só pode ser alterado via códigos fornecidos pela Frota. Agora vai ficar assim.
- Eu vou dar uma volta - disse ele se levantando - preciso me acalmar um pouco.
- E quem assume a ponte? - perguntou Marlene sorrindo.
- Ora... quer dizer - olhou para eles. Dois alferes. Salvo uma situação extrema, não podia deixar nenhum deles assumir. Voltou a se sentar.
Pensou por alguns instantes. Queria tomar um café. Iria pedir um a Macdoug quando ele chegasse com a pranjeta para ser assinada.
"- Comandante, todos os gráficos estão indicando que o reator e os motores estão trabalhando com folga. Podemos começar os testes de limites quando quizer."
- Entendido - disse - mas eu prefiro esperar o capitão.
"- O capitão está na enfermaria, ficará lá pelas próximas horas. Está fazendo um exame completo."
Horas para se fazer um exame? Suspirou fundo. Estava com receio de dar a ordem. Como era diferente de antes. Antes apenas fazia as coisas sem se importar muito com o que ocorreria. Não iria ser problema dele mesmo...
- Muito bem - pressionou o comunicador - Atenção todos os tripulantes. Iremos fazer testes para aferir os limites dos motores e dos escudos de integridade. Fiquem atentos para qualquer eventualidade - ia desligar quando teve um lampejo - por segurança, o alerta amarelo será acionado. É tudo.
Olhou para o pequeno console a direita da cadeira. Sua mão pairou por alguns instantes sobre ele. Por fim, acionou o alerta amarelo. Imediatamente, as armas foram energizadas e muitos dispositivos não essenciais foram desativados para garantir energia de reserva.
- Navegador - hesitou um pouco - ponha a nave em aceleração constante.
- Sim senhor.
Ela acionou. Na tela, não se percebia nenhuma diferença significativa.
- Engenharia, me avisem assim que chegarmos perto de uma situação perigosa.
"- Entendido comandante."
Voltou a olhar para a tela. Agora havia uma diferença.
- Marlene, qual a velocidade?
- Dobra 8.5
Continuou olhando. Tudo absolutamente normal. Lembrou-se de uma vez, quando estavam em um planeta fora da Federação. Uma nave romulana apareceu e eles saíram correndo de lá. Chegaram a dobra 7.2 e a nave parecia que iria se despedaçar. Agora, nem a sentia tremer.
"- Comandante, estamos nos aproximando da linha amarela"
- Marlene, qual a nossa velocidade?
- Dobra 9.2 senhor.
Incrível! Já eram uma das naves mais rápidas da Federação! E apenas estavam chegando perto da linha amarela.
- Chegamos a dobra 9.43 senhor, não estamos avançando mais.
- Engenharia! Como estão as coisas ai?
"- Estamos no meio da linha amarela. Podemos manter assim por talvez uma ou duas horas. Não tenho como precisar ainda. Mas já notei alguns ajustes que podem melhorar um pouco a eficiência do motor."
Já notou alguns ajustes.... O engenheiro Emil, que normalmente respondia "não tenho a menor idéia" ou "estou esperando sugestão do computador" estava tão integrado ao cargo que agora já podia fazer operações complexas como aquela? Bom, por ele o teste estava encerrado. Dobra 9.4 (e alguma coisa) já era excepcional!
- Muito bem, volte para a dobra 8... NÃO! Vamos ficar em dobra 9.
- Sim senhor. Nesta velocidade, chegaremos o ponto de encontro em três dias.
Sorriu - finalmente relaxara um pouco - ainda iriam fazer uma parada para o treino no uso de armas, mas sem dúvida poderiam chegar no ponto de encontro muito antes do imaginado. Vai ser interessante brincar de corrida com os Klingons.
****
Macdoug olhava ao redor enquanto Emil fazia o relatório periódico da engenharia - antes, ninguém sequer sabia o que era isso - estava impressionado com a mudança. Durante aqueles dias em Plutão, ele ficara em treinamento de sobrevivência e primeiros socorros - todos acabaram sendo treinados em alguma coisa ou outra - e não tinha acompanhado nada do que foi feito. Depois iria falar com Armando, para obter o relatório e requisições da segurança.
O novo reator era impressionante - quase três vezes maior que o antigo - com duplo sistema de fusão de matéria e anti matéria. Essa era metade do verdadeiro segredo da nova potência da nave. A outra metade era dos injetores de plasma nas naceles. Três vezes o número normal. Aquela nave poderia chegar a dobra 9.9, se encontrassem uma forma dela suportar o stress, o que provavelmente não seria conseguido sem novas descobertas tecnológicas.
- Pronto - disse Emil entregando a pranjeta - também solicitei um teste mais decente. O que Jefferson fez foi ridículo.
Jefferson, imediato! Armando, chefe de segurança global. Que coisa. E eram subtenentes antes disto começar. O capitão queria bota-los para trabalhar e faze-los pagar pelos erros. Forma interessante de disciplinar alguém.
Mas já tinha dado certo com ele. Como alferes de toda a nave, não podia mais dizer que não tinha nada com isso não ter sido pedido, aquilo não ter sido solicitado... Era o responsável por toda medida protocolar desta. Muito enfadonho as vezes, mas possibilitava um conhecimento amplo de como uma nave operava, com cada um fazendo sua parte.
Saiu da engenharia e foi para a ponte. Lá chegando, viu Jefferson sentando na cadeira do capitão - aparentemente um pouco desconfortável. Bom, como o capitão não estava lá, ele teria de ler e aprovar - ou não - as solicitações.
- Senhor - falou um pouco pomposo ao entregar a pranjeta.
- Não venha tirar uma com a minha cara - replicou ele pegando a pranjeta a contragosto.
Marlene e Morjan trocaram olhares com ele, indicando que o novo imediato estava ainda aprendendo o que tinha de ser feito.
- Pode aproveitar e me trazer um café?
- Eu quero um chocolate - disse Marlene.
- Se é assim, eu quero um suco de laranja.
- Esperem um pouco - disse levantando as mãos - eu sou um ordenança, não um copeiro.
- Macdoug - disse Jefferson - não há nenhum sintetizador aqui e nenhum de nós pode no momento deixar o seu posto. Você é um ordenança, o que o torna uma espécie de secretário. Pode por favor trazer para nós?
- Certo - desistiu - um café, um chocolate e um suco de laranja. Eu já volto.
- Sem açúcar - disse Morjan pouco antes da porta do turboelevador chegar.
Voltou alguns minutos depois, com as bebidas em uma bandeja.
- Serviço de ponte - disse ele em tom de brincadeira.
Jefferson se levantou e pegou o seu café. Morjan fez o mesmo e pegou o chocolate de Marlene, que preferiu continuar observando os sensores. Estavam indo muito rápidos e ela não queria surpresas - o limite dos sensores não tinham sido ampliados.
- Já leu tudo?
- Sim, mas não vou autorizar esse teste que Emil solicitou. Acho melhor o capitão fazer isso.
- E onde ele está?
- Pelo que soube, na enfermaria.
- Não - disse Macdoug - eu passei lá antes da engenharia e não o vi, nem a médica chefe.
- Computador - Jefferson achou aquilo estranho - onde está o capitão Jevlack?
"O Capitão Jevlack se encontra em local reservado."
- Reservado?
- Acho que ele está no banheiro - disse Marlene rindo.
Jefferson ignorou o comentário.
- Especifique "local reservado".
"Local reservado: uma posição dentro ou fora da nave de determinado tripulante que não pode ser fornecido por ordens diretas."
- E quem deu estas ordens diretas?
"O Capitão Jevlack."
- Acho que ele quer privacidade - disse Morjan - provavelmente deve estar nos seus aposentos descansando. Alias, eu nunca o vi descansar desde que saímos da doca. Ele não dorme não?
- Pelo que ouvi de comentários, parece que ele não precisa disto.
- Se voce tivesse 68% de seu corpo composto por próteses, também não sentiria muito cansaço, Macdoug.
- Bom, então vou esperar ele aqui mesmo. Se eu sair, Emil vai ficar no meu pé, querendo saber se ele aprovou ou não o teste.
- A vontade - disse Jefferson retornando para o assento.
Jevlack adentrou a ponte e ficou observando. Jefferson no comando, Armando no console do armeiro, Morjan nas comunicações - aparentemente em contato com alguma base ao qual deviam estar próximos - Marlene muito atenta aos sensores e fazendo correções de rotina na rota, e, finalmente Macdoug, com a pranjeta na mão - que Jefferson devia estar com medo de assinar. Respirou fundo e tocou no ombro de Jefferson, indicando que iria assumir. Sentia-se muito reconfortado e preparado para enfrentar qualquer coisa.
- Capitão - chamou Macdoug quando o viu se sentando - onde estava?
Ante o olhar - nada amigável - de Jevlack, ele rapidamente tentou corrigir a sua falta de postura.
- Desculpe-me, é que estes registros já estão muito atrasados e o comandante Jefferson achou prudente não autorizar algumas solicitações da engenharia sem falar com o senhor. Fiquei as últimas três horas aguardando notícias suas.
- Quanto aonde eu estava - disse ele já bem complacente e satisfeito pelas desculpas - eu estava nos meus aposentos... exercitando um antiquíssimo método de relaxamento que todas as raças humanóides devem conhecer muito bem. Quanto ao comandante não ter assinado - olhou para Jefferson, que ficou pálido - deixe-me ver isso para saber se foi um ato prudente ou de fuga de responsabilidade.
Pegou a pranjeta e leu as solicitações, aparentemente ignorando a grande curiosidade que causou em todos quando comentou sobre o antiquíssimo método de relaxamento.
- Por que não achou prudente autorizar um teste das travas de segurança de sobrecarga das bobinas de injeção? - perguntou de forma brusca ao imediato.
- B-bem senhor, caso o teste seja mal sucedido, nossas bobinas se queimarão, deixando-nos sem meios de locomoção. Caso isto viesse a ocorrer, o senhor seria o responsável pelo fracasso da missão. Isso porque foi o senhor quem me promoveu e me deu o comando. Achei que um risco destes, deveria ser aceito apenas pelo senhor.
Jevlack continuou olhando fixamente para ele, sem se alterar.
- Gostei! - disse ele de repente, o que assustou Jefferson - fiz uma boa escolha.
Assinou a pranjeta e a entregou a Macdoug. Que rapidamente saiu da ponte. Depois, voltou a olhar para Jefferson, que, aparentemente estava mais aliviado.
- Infelizmente, apesar deste fato ser um registro muito proeminente em sua ficha, existe um outro que irá desabona-lo.
- Qual? - perguntou um pouco confuso.
- Porque o alerta amarelo ainda está acionado?
- Eu esqueci - ele ficou vermelho - estava tão nervoso na hora por estar no comando da nave que acabei cometendo alguns erros.
Jevlack balançou levemente a cabeça concordando.
- Compreendo isso e é tolerável na situação em questão. Mas não pode se repetir.
- Sim senhor, não se repetirá.
- Ótimo! Porque eu nunca rebaixo ninguém, apenas o expulso.
Ele sorriu de uma forma amarga.
- Atenção todos os tripulantes - disse Jevlack pressionando o seu comunicador - iremos fazer um teste real de stress na nave e na tripulação. Portanto, quero todos atentos as suas tarefas e responsabilidades. Solicito aos passageiros que, por favor, permaneçam em seus alojamentos. Iremos experimentar efeitos de turbulência. É tudo.
- Efeitos de turbulência? - Perguntou Armando.
- Não se preocupe, você entenderá.
Ele deu de ombros e voltou a prestar atenção no seu console.
"- Capitão?"
- Sim doutora? - respondeu ele um pouco surpreso com o chamado.
"- Antes que inicie os seus testes, gostaria que me desse permissão para entrar nos seus alojamentos. Acredito que eu tenha esquecido o meu tricorder lá."
Jevlack quase conseguiu ocultar a sua falta de jeito quando todos na ponte olharam para ele.
- Computador! Autorize a Médica Chefe a entrar nos meus aposentos uma única vez.
"Autorização concedida" - respondeu o computador.
- Capitão? Posso perguntar como uma vulcana poderia esquecer alguma coisa? Ainda mais nos seus alojamentos?
- Não. Não pode! - disse Jevlack com uma entonação de confidência, usando uma negação para confirmar algo. Sorriu logo em seguida.
- "Antiquíssimo método de relaxamento" - murmurou muito baixinho Armando para Marlene.
- Se ela acabou se esquecendo de algo, então eles devem ter "relaxado" muito! - respondeu Marlene no mesmo tom.
- Pelo menos não usei o quarto de outra pessoa - disse Jevlack de uma forma nada sutil - não se esqueçam de minha audição! E agora, já chega de falar de minha vida amorosa. Alferes Marlene! Vamos testar esta nave para valer. Dobra máxima! AGORA!
- Sim senhor - Marlene ficou um pouco magoada com o comentário dele, mas não podia contra argumentar.
- Jefferson, observe a velocidade da nave e me informe.
- Sim senhor - disse ele indo ao lado de Marlene - dobra 9.4; 9.42; 9.43; 9.44???? - Olhou para o capitão - quando fiz o teste o máximo foi 9.43!
Jevlack sorriu.
- Voce deve ter feito o teste com aceleração constante. O computador para de acelerar nesta situação mantendo os motores na metade da linha amarela.
- Há... não sabia disto. Dobra 9.5!
"- Engenharia a ponte! Estamos na marca vermelha!"
- Observe as bobinas. Se estiverem próximas de se queimarem, desligue os motores.
"- Sim senhor!"
- Deve ocorrer em dois ou três minutos - comentou para todos ali. Desnecessário dizer que ficaram um pouco impressionados
- Dobra 9.58! 9.59! 9.6! Meu Deus...
Começaram a sentir a nave vibrar. Os escudos de integridade atingiram o seu limite.
- Capitão! A energia dos laboratórios foi desativada - informou Morjan.
- É o sistema de compensação - explicou Jevlack - irá retirar energia de cada parte da nave para tentar mante-la íntegra.
- Dobra 9.65 - Jefferson estava visivelmente assustado. Uma nave pequena como aquela jamais tinha alcançado tal velocidade antes.
- Enfermaria desligada. Luzes da engenharia também. Todos os alojamentos estão sem força.
As luzes da ponte se apagaram. Logo, apenas os equipamentos responsáveis pela movimentação da nave estavam operacionais. Todo o resto foi desligado.
- Dobra 9.7!
- Capitão - chamou Marlene com urgência - os sensores não possuem alcance suficiente para eu fazer as correções de rota com segurança! Estamos mais rápidos do que...
Houve um violento tranco para a frente. A nave parou de acelerar e freou bruscamente.
- Dobra 8, 7, 4, 2, paramos.
Todos foram para trás quando a nave parou de se mover. As luzes se acenderam novamente.
- Engenharia! Situação das bobinas.
"- Poderemos nos mover de novo em vinte minutos capitão, isto é, se o quiser fazer com segurança"
- Sem promessas - disse ele - ALERTA VERMELHO!
O som da sirene ecoou por toda a nave, pegando a todos, sem exceção, de surpresa.
- Marlene, onde estamos?
- Um momento senhor... - ela executava os comandos com muita rapidez - estamos há dois parsec's da fronteira Klingon, no sistema Antrium. É totalmente desabitado.
- Senhor Armando - disse enquanto se levantava e ia em sua direção - qual a localização do asteróide mais próximo?
Ele hesitou um pouco, não entendendo o que ele queria, mas logo começou a procurar.
- Há um com um quilômetro e meio de diâmetro no curso 2-2-1 marco 0.
- Senhoria Marlene, siga este curso, impulsão máxima.
- Em rota de colisão com o asteróide?
- Exatamente. Acionar.
Ela também hesitou. Mais que Armando. Mas executou a ordem.
- Morjan, status da nave.
- Err... todos os decks reportaram que os sistemas principais não possuem nenhum dano. Houve apenas algumas quebras de pequenos objetos que estavam por sobre as mesas. Ninguém informou nada grave.
- Ótimo. Tempo para colisão com o asteróide? - perguntou se dirigindo a navegadora.
- Quatro minutos e doze segundos.
- Senhor Armando, é o tempo que tem para destruir este asteróide. Do contrário, morremos.
Ele ficou em choque!
- Mas...
- É UMA ORDEM!
Ele liberou os pulsares retráteis e travou a mira. Começou a disparar em seguida, mas, como aquele asteróide era composto de vários pedaços de rocha pequenos unidos apenas por uma força de gravidade muito fraca, só conseguia espalha-los um pouco. Ainda estavam em rota de colisão.
- Capitão, não posso destruí-lo!
- Alguma sugestão para evitar a nossa morte?
Ele o olhou incrédulo. Não podia acreditar.
- Mudar o curso.
- Fora de questão. Alguma outra idéia?
- Três minutos para o impacto - disse Marlene.
Podia-se ver a pressão que Armando estava sofrendo. Seus olhos estavam arregalados, ele tremia um pouco. O suor frio estava deixando sua roupa ensopada. Jevlack por outro lado parecia totalmente indiferente.
- A anti matéria! Se teleportarmos um pouco de forma que colida com o asteróide, a explosão de energia resultante deverá espalhar os pedaços de forma que escapemos.
Jevlack olhou para ele, expressando, pela primeira vez, perplexidade e admiração.
- Execute - disse enquanto voltava para o seu assento.
- Capitão, protesto formalmente quanto a sua forma de agir - disse Jefferson.
- Anotado. Amando, prossiga.
- Engenharia, ejete uma quantidade pequena de anti matéria, sala de transporte, focalize esta anti matéria e a teleporte para as coordenadas 2-2-7. E pelo amor de Deus, não me perguntem sobre isso.
Jevlack apenas aguardou. Não queria ver o pânico que já se formava nos rostos deles. Ainda tinham dois minutos antes do impacto. Súbito, um brilho na tela chamou-lhe a atenção. Quando observou, viu que a anti matéria tinha detonado, e a onda de choque de milhares de partículas estava movendo as rochas remanescentes para todas as direções. Mas nem todas. Algumas menores ainda estavam no órbita original.
- Preparar para impacto! - disse Jefferson pelo comunicador a todos na nave.
- Marlene, desvie a nave.
Ela tentou, mas acabaram colidindo com algumas pedras "pequenas", o que causou grandes solavancos. Jefferson caiu ao chão, Morjan, se agarrou no seu console e Marlene não conseguia controlar a nave. Armando tentava destruir outras pedras que podiam colidir contra eles. Em alguns minutos, tudo acabou.
- Relatório de danos senhor Morjan.
- Nenhum dano estrutural. Há alguns problemas no laboratório de geologia, parece que algumas contenções se quebraram e houve danos nos equipamentos. O resto dos decks ainda não informou.
- Jefferson, assuma o comando. Quando toda a nave estiver reparada, quero que todos os chefes de departamenta e oficiais venham a sala de conferência. Incluindo todos vocês aqui.
Ele se levantou e saiu, deixando todos um pouco preocupados com a sua sanidade.
****
Capítulo 8
Marlene entrou na sala de conferência junto com Morjan e Armando. Os outros já estavam lá. Todos estavam de pé, formando um semi-círculo. Jevlack estava no meio. Eles ficaram ao lado dos outros e aguardaram.
Ele estava com um olhar determinado, e claramente sem paciência. Deu uma olhada ao redor e começou.
- Bem, agora que todos estão aqui, tenho algumas coisas a dizer: Todos aqui devem achar que sou um pouco maluco, e tem toda a razão. Mas sou um maluco com objetivos. Por algum acaso vocês algum dia se preocuparam em imaginar como seria uma situação de batalha? Duvido muito. Bem, é isso o que ocorre. Pânico, medo, a nave balançando. E poucos aqui tentaram se manter em seus postos a todo custo. A vida da nave vai depender disto.
Fez uma pausa e aparentemente avaliou o efeito de suas palavras em todos ali. Em Marlene, atingiram fundo. Ela viu que estavam em perigo real, não era uma simulação. E todos acabaram percebendo isso. Nem sabiam o que estava ocorrendo.
- Conheço três maneiras de ensinar a uma criança que o fogo queima: Primeira, você fica horas e horas explicando o que é o fogo e o que ele faz. Repete isso por alguns dias e talvez ela aprenda. Segunda, você mostra para ela o que é o fogo e faz demonstrações. Ela provavelmente aprenderá mais rápido. A terceira é mais direta - fez uma rápida pausa - você simplesmente dá uma tocha acesa para ela. Garanto que este último é infalível.
- O senhor nos deu a tocha? - perguntou um dos presentes.
- Não - disse ele sorrindo - eu os joguei na fogueira mesmo. Agora vocês tem uma idéia de como é. Mas, ainda assim, não é o mesmo que enfrentar a situação. Quero todos vocês passando isto para os seus subordinados - disse ele seriamente - Não irei mais fazer isso. Da próxima vez que este alarme vermelho soar, será para valer. E quem não estiver disposto a matar para permanecer em seu posto, pode condenar todos nós. Dispensados. Morjan, você fica.
Eles começaram a sair. Marlene ficou um pouco parada olhando para Morjan. Desde que saíram da doca, não puderam ter um único momento íntimo. Nem mesmo um jantar. Quando a sala já estava ficando vazia, decidiu sair.
Os outros estavam comentando entre si o que ele tinha dito. Estavam meio impressionados e alguns estavam reconhecendo que se fosse realmente para valer - ela ainda duvidava que não pudesse classificar aquilo como real - estariam todos mortos.
Bom, seu turno tinha acabado e, pela primeira vez em dias, estava livre para fazer o que quisesse. Mas não sabia bem o que fazer. Decidiu ir ao refeitório. Talvez conseguisse ao menos uma conversa animada por lá.
Seguiu pelo corredor e notou que estava um pouco diferente. Havia uma espécie de friso a meia altura nas paredes. Observou melhor e viu que era na verdade um tipo de painel, talvez luminoso. Achou estranho aquilo.
- É parte do sistema de sensores internos.
Ficou assustada! Endireitou-se e procurou a origem da voz. Era de um dos passageiros. O humano, não o vulcano.
- Eu vi quando estavam instalando e perguntei, por isso é que sei. Sou o paleontólogo José Guedes, muito prazer.
Ele sorriu amavelmente e lhe estendeu a mão. Marlene a apertou rapidamente, já refeita do susto.
- Quando o capitão disse que ia testar o stress da nave e da tripulação não estava brincando - disse ele tentando puxar conversa.
- Confesso que não imaginava que ele faria um teste tão... preciso - respondeu ela, que estava disposta a conversar - mas devo reconhecer que atingiu o objetivo. Todos aqui ficarão mais atentos a suas obrigações.
Ele sorriu com o comentário. Os cabelos embranquecidos lhe davam um charme especial. E seu rosto, apesar de já anguloso, expressava sempre estar afável. Era como se lembrava de sei pai, que tinha morrido quando ainda era muito jovem.
- Está a serviço?
- Não, acabei de encerrar meu turno. Estava querendo comer alguma coisa.
- Bom, apesar de eu já estar muito "usado" para tanto, eu posso acompanha-la?
Ela riu. Um jeito interessante de iniciar um flerte. Mas como ele lembrava o seu pai, dificilmente haveria algo após o jantar. Além disso, ela estava mais do que disposta a "agarrar" Morjan naquela noite.
- Claro.
Seguiram juntos para o refeitório.
Binacer examinava metodicamente os seus equipamentos. Tinha ficado muito preocupado com eles depois dos solavancos violentos que a nave sofreu. Não tinha nada contra o capitão dar aos seus subordinados uma real amostra de como é estar em combate, mas preferia que ele tivesse feito isto depois que chegassem ao planeta para estudos. Evitaria de ter que checar tudo - pela terceira vez - para aferir se tudo estava em perfeitas condições.
Felizmente, nada foi danificado. Saiu de sua nave e a trancou. Apesar da nave ainda estar parada, tecnicamente estavam muito adiantados, coisa de duas semanas. Portanto, não poderia se queixar ao capitão sobre isso. Também não poderia falar nada sobre o risco de algum equipamento seu ter sido danificado, ele avisou que ocorreriam "efeitos de turbulência".
Por mais que não quisesse admitir, ele estava fazendo um excelente trabalho em deixar a tripulação no ponto ideal para apoiar a pesquisa.
Chegou ao aposento de Guedes e pressionou o intercom na porta. Nenhuma resposta. Concentrou-se um pouco e descobriu onde ele estava. Se não fosse vulcano, teria demonstrado alguma expressão de desagrado. Guedes deveria para de ser um "garanhão", apesar de quase sempre conseguir o feito. Decidiu retornar ao hangar e encerrar a pesquisa de datação.
- Capitão - Morjan estava desconfortável - eu sei que isto na verdade é praticamente uma promoção, mas... acho que não levo jeito para fazer a coordenação de pesquisas.
- Engana-se. É preciso uma boa comunicação para coordenar as pesquisas. Esta nave nunca teve alguém assim, por isso que as pesquisas levam tanto tempo. Ninguém sabe quando fazer as coisas. Armando irá associar as comunicações com a segurança. É algo que já esta ocorrendo em muitas naves da Frota. Amanhã cedo quero que vá até uma das salas de amostras de geologia e a tome para si. Fale com o chefe de manutenção e solicite tudo o que precisar para montar um escritório para isso.
- Sim senhor - disse suspirando - quando vai querer isto pronto?
- Quanto tempo acha que vai levar?
Pensou um pouco. Instalar consoles era rápido, uma reunião com os departamentos para saber quem fazia o que e como era feito iria demorar mais. Mas com isso saberia como moldar os programas.
- Acho que uns dois dias.
Esperou ouvir o capitão cortar o tempo, por isso tinha ampliado um pouco.
- Eu esperava em três, muito bem. Está dispensado.
Saiu da sala muito preocupado. Se o capitão tinha imaginado três dias, então ele deveria ter se esquecido de algo. Mas do que?
Percebeu que estava andando um pouco sem rumo pela nave - estava próximo ao pequeno hangar - e ficou pensando em para onde ir. Assim como Marlene, estava sem saber o que fazer agora que realmente tivera um folga.
- Computador, onde está a alferes Marlene?
"- A alferes Marlene se encontra no refeitório"
Seguiu para o refeitório. Passou por Binacer pelo caminho e o comprimentou. Andou mais alguns passos e súbito parou. Foi isso que tinha esquecido, de falar com os passageiros. Eles sem dúvida deveriam saber como se procede para uma análise global. Ao menos para fosseis.
Voltou um pouco atrás e chamou o cientista.
- Desculpe-me, mas, eu gostaria de uma ajuda. Seria possível?
Ele o olhou friamente antes de responder.
- Sim, estou sempre pronto a ajudar - disse de forma amável.
- Bem, eu fui promovido a um cargo que o capitão chamou de encarregado geral das pesquisas. Devo coordenar todas as pesquisas dos diferentes setores. Mas realmente não sei bem como começar. O senhor, como cientista, certamente saberia. Pode me informar alguma coisa?
Ele olhou para o lado e disse.
- O Senhor acaba de receber um cargo de extrema importância nesta nave. Tecnicamente, é agora o capitão de todos os laboratórios. O primeiro passo é saber o que cada um faz e como faz. Assim como o comando coordena todos as seções para executar uma missão, o senhor deve coordenar todos os setores de pesquisas para o mesmo fim.
Morjan começou a tremer.
- Algum problema?
- Sim, estou com medo. Eu literalmente serei o responsável pelo sucesso ou fracasso da missão. E não tenho a menor idéia de como faze-lo.
- Não é tão difícil como imagina. Venha comigo. Estou indo a minha nave com os meus equipamentos para terminar uma pesquisa. Uma demonstração prática da importância de análise geológica e biológica de um fóssil juntamente com um parecer da localização astronômica do mesmo lhe dará conhecimento suficiente de como proceder em seu novo cargo. Note que estou falando de três áreas científicas independentes entre sí, assim como aqui nesta nave temos vários laboratórios que trabalham em separado.
- Sim... eu percebi. Mas nunca imaginei que era preciso tudo isso para se analisar um fóssil.
- Isto é apenas para a datação. Para uma análise acurada, é preciso envolver outras ciências, incluindo a exobiologia.
Morjan repentinamente tinha se interessado muito por aquilo. Era fascinante ver o que se fazia nos bastidores para, em um relatório as vezes com menos de duas páginas, informar que tal coisa aconteceu em tal época devido a isto ou aquilo.
Seguira juntos até o hangar, e, pelas próximas três horas, eles não saíram de lá. Binacer ficou de certa forma satisfeito por ter um "aluno" para explanar como se faziam as coisas. Claro que ele tinha um outro interesse, o de que os recursos da nave - muito vastos se comparados ao seu pequeno equipamento - seriam plenamente usados na pesquisa.
- Computador, onde está o alferes Morjan?
"- Não há registro de um alferes de nome Morjan. Apenas do coordenador geral de pesquisas Morjan."
Coordenador? Mas...
- ONDE ELE ESTÁ?
"- O coordenador geral de pesquisas Morjan se encontra no hangar."
Saiu de seus aposentos muito nervosa e curiosa. Desde que "escapara" elegantemente de Guedes, estivera procurando por ele. E, como não o achava em parte alguma foi ficando mais e mais nervosa. Até que se lembrou de que o computador poderia localiza-lo.
Quando chegou no hangar, não o viu. Mas reparou que a nave auxiliar estava aberta e com luzes acesas. Foi investigar e viu Morjan e Binacer debruçados sobre um console. Aparentemente contemplando um monte de números.
- Viu o que eu disse? - falava emocionado Morjan - Não faria sentido estas partículas de chumbo a menos que ele se contaminasse com as mesmas. A rocha de onde foi escavado, a qual felizmente não foi totalmente removida - não possuía nada disto.
- Agora eu concordo plenamente com o senhor - disse Binacer - realmente a maneira como está impregnada no fóssil só poderia indicar uma contaminação posterior a morte da criatura ou então, foi realmente ingerida por ela. Analisar os pedaços de rocha não removidos foi uma excelente idéia. Dará um excelente oficial.
- Ainda sou um mero alferes. Não vai ocorrer tão cedo.
- O capitão já recebera minha recomendação ainda hoje - ambos se levantaram - acredito que agora o senhor já possui base mais do que suficiente para coordenar as pesquisas. Agora é melhor nos recolhermos. É importante um descanço satisfatório para enfrentar as tarefas do dia seguinte.
Quando estavam saindo reparam nela parada em frente a porta.
- Marlene - balbuciou Morjan - eu... me esqueci de você.
- Creio que esta conversa deva ser particular, se me derem licença.
Binacer fechou a nave e saiu do hangar. Marlene esperou por isso pacientemente.
- Me desculpe... eu recebi uma nova incumbência e mmhhh...
Não pode terminar a frase, os lábios de Marlene exigiram um beijo que não tinham há muito tempo. Talvez tempo demais. Morjan não entendeu bem aquilo, mas preferiu abraça-la e corresponder ao beijo de que deixar uma oportunidade daquelas de lado.
Depois de quase dois minutos, ele pode respirar um pouco. Marlene continuava abraçando-o, com a cabeça encostada em seu peito. Não queria saber o que ele estava fazendo lá, só queria se sentir feliz e confortada.
- Somos membros da Frota agora - disse ela em voz baixa - deixamos todos os nossos colegas para trás. Você já recebeu uma promoção e eu já posso navegar esta nave e usar as armas dela.
Ela afastou a cabeça e olhou para os seus olhos.
- Quando o capitão nos pegou, pensei que nossas vidas e carreiras seriam totalmente destruídas, mas agora, nós temos nossas carreiras. E eu estou com muita vontade de comemorar.
Morjan sorriu ternamente e afagou os seus cabelos.
- Bem - começou ele - e se nada disso tivesse ocorrido?
- Então - ela falava de forma alegre - eu iria querer um apoio seu.
Deram outro longo beijo se foram para os aposentos de Marlene. No caminho, passaram ao lado daquele cômodo que o capitão tinha arrebentado a porta. Como ele tinha ordenado, ninguém ousou repara-lo. Estava ainda exatamente como antes. Com certeza, ele tencionava deixar aquilo como um aviso. Embora achasse que agora ele não era mais necessário.
Ignoraram o local se seguiram para a comemoração particular. Mesmo porque, poderiam ser convocados a qualquer momento para atender uma emergência - eles eram os titulares da ponte - tinham que aproveitar qualquer tempo disponível.
A expressão do embaixador klingon demonstrava impaciência.
- Repita isto novamente, quero ter certeza do que estou ouvindo.
- Uma de nossas naves em trânsito no setor próximo a fronteira captou a USS Carlos Chagas em dobra 9.7. Vocês solicitaram uma nave escolta devido a fragilidade de suas naves de pesquisa. Uma nave que pode alcançar uma das mais altas velocidades já registradas não me parece poder ser classificada como frágil. Espero que a Federação não esteja nos querendo apenas para acobertar testes secretos de suas tecnologias.
- Foi o que eu ouvi. Bom embaixador, eu não sei como foi feito, mas lhe asseguro de que não estamos mantendo nada em segredo do seu governo. Este, com certeza deve ter sido um incidente isolado e totalmente excepcional. Que dificilmente se repetirá de novo.
O embaixador cortou a transmissão. Rancer afundou-se na cadeira. Não foi a toa que a federação pediu para que ele atendesse o embaixador. Toda aquela desculpa para usar uma nave Klingon tinha partido dele, portanto, ele tinha que se explicar. Pela primeira vez desde que o projeto provocação efetivamente começou a andar, ficou preocupado.
Uma nave de pesquisas atingindo uma dobra daquelas... O que mais Jevlack teria feito nela? Se aquela nave puder se defender sozinha, ai sim, o projeto irá fracassar. Não podia permitir aquilo. Teria de tomar providências adicionais para garantir que a nave klingon se confrontasse com a nave romulana.
- Senhorita Miller - disse pressionando o comunicador - chame o comandante Darker, imediatamente.
"- Sim comodoro"
Maldisse novamente o dia em que assumiu o posto. Soube sobre Jevlack e as coisas que tinha feito para minar e diminuir a força do departamento. E tinha avançado muito nisto. Hoje, a capacidade deste estava reduzida praticamente a metade. Muitas coisas foram abandonadas assim como algumas divisões. A divisão "S" continuava na ativa, mas pouca coisa fazia além de "apagar rastros" deixados por outras áreas.
Por duas vezes tentou se livrar dele, envolvendo-o em missões problemáticas e que causavam baixas - ele queria que ele fosse uma das baixas - e nas duas ele não só continuou vivo como acabou com as missões e o objetivo destas. Desta vez o seu envolvimento foi completamente ao acaso, e mesmo que não quisesse já tinha armado das suas para estragar tudo. Por isso estava correndo o extremo risco de envolver uma nave deles. Se falhasse, o departamento perderia mais um bocado de recursos. Tinha que selecionar bem quem deveria ir.
Danker era a melhor escolha. Além de já estar razoavelmente próximo do local, não tinha pudores em executar as ordens a risca. A questão era conseguir que isso ficasse totalmente desapercebido. Principalmente de alguém que, sob certas condições, pode ver naves camufladas.
"- Comodoro, o capitão Danker está na linha"
- Obrigado.
Pressionou o comando e o rosto duro e marcado de Danker apareceu na tela. Era muito mais marcado antes, com um cicatriz que passava pelo lado direito de sua testa, mas agora já tinha sido ajustado cosmeticamente com uma cirurgia. Mesmo assim, seu rosto mostrava que tinha cicatrizes, incluindo na alma.
- Comodoro. O que deseja.
Sempre indo direto ao ponto, nada de cumprimentos ou jovialidades.
- Quero que dê uma pausa em sua missão e siga para o setor 34-3-12. A estrela é a NB2213. Seu objetivo ocorrerá no segundo planeta. Uma nave de pesquisas da Federação irá fazer umas análises nele. Será escoltada por uma ave de rapina klingon. Provavelmente ela estará camuflada. Espera-se que uma nave romulana intercepte a nave de pesquisas.
- Entendo. Devo impedir que isto ocorra?
- Não! Deve garantir que a ave de rapina lute contra os romulanos. Se a nave de pesquisas interferir de alguma forma, ataque-a, deixando-a ocupada apenas o bastante para que a lute entre as outras duas comece.
Ele ficou em silêncio, os olhos voltados para baixo.
- Para atacar esta nave, terei de me revelar.
- Então faça o possível para evitar isso. Se não for possível, então a nave de pesquisas não deve retornar. Sem sobreviventes.
- Sim senhor. Mais alguma coisa?
- Por enquanto não. É tudo.
- Danker desliga.
Por mais capacitada que aquela nave esteja agora, não poderá enfrentar uma classe Excelcior. O grande problema era que quando Jevlack não tinha escolhas, ele fazia coisas totalmente impensáveis. Mas não podia arriscar que aquela missão fracassasse.
Marlene chegou a ponte radiante na manhã seguinte. Estavam indo em dobra 6 - Emil queria fazer alguns ajustes nos motores e pediu para manter aquela velocidade noite inteira para obter os dados necessários para isso - Morjan tinha ido falar com o chefe de manutenção sobre suas necessidades.
Tocou no ombro de quem estava fazendo a navegação - nunca o tinha visto antes - e assumiu o seu posto.
- Está muito feliz hoje - disse Armando, que tinha chegado um pouco antes e estava moldando o seu console para assumir também as comunicações. Aparentemente ele estava satisfeito em assumir sua antiga função, apesar de agora ser secundária.
Olhou para trás para ver o capitão - que provavelmente teria ficado lá a noite toda - antes de responder.
- Apenas andei experimentando uma - não pode conter um esboço de uma risada - antiquíssima técnica de relaxamento humanoide.
Jevlack nada demonstrou, mas ela notou que seus olhos se fixaram nos seus. Indecisa se ele tinha gostado ou não da brincadeira, achou melhor voltar ao seu dever. Olhou para os dados e viu que já estavam dentro do território klingon.
Por quase uma hora, nada excepcional ocorrera - salvo Macdoug trazendo café para eles - então, Emil chamou.
"- Capitão, terminei a coleta de dados. Obrigado pela paciência"
- Se não tiver valido a pena, eu te mostro como fico impaciente - respondeu ele em um tom casual - Senhorita Marlene, dobra 9. Acionar.
- Sim senhor.
Ela executou o comando e a nave disparou pelo espaço.
- Tempo estimado de chegada... 3 horas - informou ela.
- Muito bom. Bem, eu acredito que eles não estarão por lá. Estamos quase um mês adiantados. Senhor Armando, entre em contato com o Império Klingon e determine a posição aproximada da nave. Com certeza não vão fornece-la, mas pode descobrir de onde está vindo e traçar um curso de interceptação.
Sim capitão - disse Armando já fazendo a chamada.
Após uma conversa acalorada, Armando conseguiu o que precisava. Marlene observava ele avaliar o local onde a nave estaria agora.
- Capitão, eles provavelmente estão no setor 20-8-4.
- Chegamos lá em dezenove horas em dobra 9 - completou Marlene que fez uma rápida avaliação.
Jevlack a olhou com a cabeça um pouco de lado. Parecia como que encantado com a informação dada.
- Alferes há pouco mais de uma semana e já está fornecendo informações que imagina que possam ser úteis. Se continuar assim, em alguns meses já será promovida.
- Obrigada senhor - ela ficou ligeiramente corada.
- Bem, agora, considerando a velocidade máxima da nave deles, em quanto tempo chegaremos ao nosso destino?
- Um momento - ela iniciou os cálculos - se os encontrarmos no setor avaliado, levaremos dezesseis dias para chegar lá. Fica bem longe.
Ele balançou a cabeça aprovando a informação.
- Senhor Armando, informe o Império Klingon que tentaremos interceptar a nave, senhorita Marlene - ele sorriu - siga para lá em dobra 9.2 até a metade do caminho, depois, reduza para dobra 8.5. Não quero que eles saibam o que realmente podemos fazer agora. Iriam questionar a necessidade deles estarem como nossa escolta.
- Sim senhor.
Nenhum problema, nenhuma discussão, nenhuma forma disciplinar ou educativa... Uma excelente noite romântica... As vezes, a vida podia ser doce. Marlene relaxou na cadeira e observava calmamente os sensores.
****
Capítulo 9
Jefferson ouvia atentamente a doutora. Quando ela o tinha chamado logo de manhã cedo, tinha ficado um tanto preocupado. O que ela poderia querer? Será que ele estava doente e não sabia? Agora, ouvindo-a falar, não estava acreditando. Ele não estava realmente doente, mas tinha algumas lesões em suas células - lesão antigas - era esse o motivo de algumas dores ocasionais que sentia. Coisa que nenhum outro médico chegou a descobrir.
Mas o que o estava assustando foi a conclusão dela sobre a causa: Intoxicação antibiótica. Antibióticos raramente eram usados para se tratar doenças, salvo contágio com bactérias extra terrestres - estas ainda não estavam resistentes a eles - e ainda assim, somente quando outros meios seriam mais demorados ou falhavam. O que geralmente se fazia era um remédio preparado para atacar a estrutura de DNA dos germes.
- Doutora, ao que eu me lembre, eu nunca tomei um antibiótico de qualquer espécie na vida. Como posso ter sido intoxicado por eles?
- Ainda não sei - respondeu ela - mas detectei o mesmo problema em mais vinte e três tripulantes. Pode ter sido alguma contaminação causada por alguma pesquisa mal isolada. Mas não encontrei registros de nenhuma pesquisa que envolvesse isto. Também não há explicação aceitável para apenas estas pessoas terem este quadro clínico. O capitão me incumbiu de tentar determinar o que pode ter ocorrido. Mas não tem porque se preocupar. Ninguém está correndo nenhum risco de vida. Tudo o que há são seqüelas de algo que aconteceu há muito tempo. Entre cinco e dez anos atras. Pode informar algo que tenha ocorrido neste período?
Jefferson não pôde evitar de rir.
- Doutora, nesse tempo, pelo menos uma vez por mês nós andamos tendo dores e mal estar. Mas sempre imaginamos que se devia ao excesso de... diversão nossa.
- Bebiam demais - disse ela simplesmente.
- Sim. Exatamente. Mas não em serviço. Bom, algumas vezes.
- Sua disciplina não está em questionamento. Apenas quero tentar encontrar algum ponto em comum para isto ter ocorrido.
- No momento, não imagino nenhum.
- Muito bem, irei preparar um composto para corrigir a lesão de suas células. Chamarei quando estiver pronto. O tratamento completo deve demorar alguns dias. Peça para o auxiliar Donson vir aqui. É o próximo que irei entrevistar.
Que mulher mais seca! Muito bonita, era verdade, mas muito fria e impessoal. Como foi que o capitão conseguiu leva-la aos finalmentes? E por várias horas? Bom, ele não seria o capitão de outra forma.
Achou melhor passar na engenharia antes de ir até a ponte. Seria útil agora conhecer o trabalho deles.
Ao chegar Emil apenas o cumprimentou e entregou um relatório.
- O que é isso?
- Oras - respondeu Emil com estranheza - é o relatório periódico da engenharia. Para acompanhar como está a evolução dos motores e demais dispositivos afins.
Ele olhou para o relatório e tornou a encara-lo.
- Você nunca fez isto antes.
- Antes eu não poderia ser considerado um engenheiro. Se me der licença, alguns dos meus auxiliares precisam ser incentivados a conhecer o trabalho deles como uma segunda natureza.
Emil deu-lhe as costas sorrindo e foi para o lado de um dos auxiliares que estava observando os dados de um console. Começou a conversar com ele e a apontar algumas coisas na tela. Jefferson não conseguia acreditar. Na verdade ele não queria admitir que as coisas tinham mudado. Ainda teimava de forma quase lunática que, assim que a missão acabasse e o capitão fosse comandar outra nave, tudo voltaria ao normal. Agora ele sabia que não. A época da "doença" de Chagas tinha acabado. Era hora dele também enterrar a sua parte e entrar de vez no seu papel de imediato.
Afinal, o que um imediato faz além de comandar a ponte quando o capitão se ausenta?
Fazia tempo que ela não ingeria nada alcoólico. Já tinha até se esquecido da sensação... O calor subindo pelo esôfago e dando um relaxamento suave. Joana repôs o copo de vodca na mesa e fechou os olhos, degustando aquele momento. Ficou alguns momentos assim e os abriu de novo. Quase gritou de susto. Alí, sentada a sua frente estava a médica chefe Alderik
- Perdoe-me se a assustei, mas preferi não incomoda-la. Parecia muito satisfeita.
- E estava - ela sorriu - faz tempo que não aprecio uma bebida. Bom, sua presença aqui deve indicar que já possui os dados. Como aqui não tem gravadores, podemos falar livremente.
- Não muito livremente - tornou ela muito cautelosa - os ouvidos do capitão estão muito mais sensíveis agora. De fato, quase todos os dados que você acessou da ficha dele estão desatualizados.
- Ele agora pode fazer mais do que está indicado lá? - ela ficou de boca aberta - Não dá para acreditar nisto. Quanto mais?
- Em termos, de oito a dez vezes mais. Aparentemente todas a suas características sofreram um tipo de desenvolvimento.
- Que ótimo! Ele fez uma reforma - ela bebeu mais um pouco do líquido, mas não foi para relaxar desta vez.
- Eu não diria isto - ela começou a demonstrar uma certa preocupação - imaginei uma possibilidade assim quando comecei a detectar as muitas diferenças encontradas, mas, então, percebi que não fazia sentido. Não era algo como uma simples troca de dispositivos, era mais como um desenvolvimento biológico. Como se as próteses dele fossem não só equivalentes mecânicos de órgãos vivos, mas sim um mecanismo realmente vivo.
- Metal vivo - murmurou Joana - era o que estava escrito na ficha. Mas isso seria impossível.
- Conhecemos formas de vida silicóides, e até energéticas. Por que não metálicas? - questionou a doutora.
Joana bebeu mais um pouco. Aquilo a estava deixando muito intrigada.
- Bom, pelo que vi da ficha dele, sua mente é totalmente fechada e de extremo poder. Tenha quase certeza que é ele quem eu estou captando ultimamente. Parece como uma estrela no mundo psíquico.
- Eu também posso senti-lo. Mas não foi só isso que mudou. Agora parece que ele aceita suas próteses, está bem a vontade com elas e as controla livremente. Pessoalmente não acredito que possamos juntas invadi-la.
- Juntas?!
- Você leu a ficha, é avaliado que somente uma tentativa mista entre um beazóide e um vulcano seria capaz de vencer as suas defesas.
- Não acho que preciso disto. Minhas capacidades foram muito ampliadas com o piscomaster implantado em mim. Além disso, você não pode fazer um elo comigo com ele ativo. Um brinde a tecnologia.
- Tecnologia conseguida com ele - completou ela secamente - O dispositivo em sua cabeça é o mais próximo que foi possível chegar a rede neural que ele possuí. E eu estou acreditando que não foi implantada nele, mas que ele já nasceu com ela.
- Está especulando - já estava ficando ridículo a preocupação dela - o fato real é: Tenho de sondar a mente dele. Se não conseguir, terei fracassado, mas, se conseguir, será mais um sucesso. Simples.
Alderik abaixou os olhos, como se sentisse pesar pela arrogância de Joana.
- Você não chegou a menos de dez metros dele. Não acha que está sendo muito confiante não?
- E você? - provavelmente devia ser um efeito da bebida ela estar ficando hostil - ainda que o tenha tocado, o que conseguiu? Sua capacidade telepática é muito limitada. A menos que tenha usado seus outros dotes naturais para conseguir algo - ela terminou a bebida e quase deixou o copo cair.
- Como?
Ela a olhou com um certo desprezo.
- Não pense que estou só esperando a hora certa para agir. Ando sondando a mente de muitos tripulantes para avaliar como é a personalidade dele. E pelo que andei captando, você teve certas intimidades com ele.
- Minha vida particular não vem ao caso - retrucou ela inexpressiva.
- Não vem ao caso? - disse baixinho entre dentes - transou com a nossa missão e diz que não vem ao caso? Claro, a menos que tenha sido apenas algo totalmente impessoal. O que não seria de se espantar vindo de uma vulcana.
Ela demorou um pouco para responder. Permaneceu com os olhos fechados como se estivesse se contendo.
- Relações sexuais nunca são impessoais para nenhum vulcano, mas, como vulcana, não permito que tal coisa interfira em meu julgamento profissional.
- Você fala disso como se fosse com outra pessoa - disse Joana balançando a cabeça - você se envolveu pessoalmente com ele! Isto é contra tudo o que eu aprendi nesta profissão.
- O que eu faço visa um objetivo - ela ainda falava de forma impessoal - neste caso, o objetivo era pessoal. E apreciei muito. Ele conhece os vulcanos muito bem, na verdade, pode até ser mais lógico que todos juntos. Mas prefere ser humanizado. Alguém capaz de tal feito não deve ser menosprezado. E muito menos subestimado. Eu senti sua mente. Conectei-me com ele, e não há meios de descrever o que captei. Tanto conhecimento, tanta frustração, tanta alegria... - olhou fixamente nos olhos dela - apesar dele não admitir isto, ele não é humano. Nem mesmo um mestiço. Não sei quem ou que ele é, mas não encare isto como um serviço normal.
- Sou apenas o seu contato - disse se levantou - me ofereci para ser também o seu apoio, mas, já que demonstra não confiar em meu profissionalismo, a deixarei prosseguir como bem entender.
Saiu deixando-a de boca aberta. Ela parecia estar como que preocupada. Não com ela, mas sim com Jevlack. Maneou a cabeça. Ela tinha se envolvido pessoalmente com o objetivo da missão. E era uma vulcana! Que coisa mais amadora....
Levantou-se e seguiu sem rumo pela nave. Estava muito irritada, e queria descontar em alguém. Qualquer um serviria. Cruzando por uma porta aberta viu Morjan conversando com alguns tripulantes da manutenção.
Ótimo, ia começar com estes mesmos. Começou a sondar profundamente a mente de Morjan Não algo superficial como tinha feito até então, o que apenas causava uma certa distração na vítima - o verdadeiro motivo de muitos terem tropeçado nas coisas - mas indo muito profundamente, acessando pensamentos íntimos.
Viu o quanto ele gostava de Marlene, e como estava contente e com medo ao mesmo tempo de sua nova posição. Tinha acabado de conseguir um cargo de coordenação e estava se esforçando - e muito - para fazer juz a confiança depositada.
Parou com a sondagem quando ele levou a mão a cabeça, demonstrando o quão longe ela tinha ido. Alguns segundos depois ele desmaiou.
Ela saiu apressada de lá, esperando não ser vista. Tinha sido infantilidade agir daquela forma.
"- Enviem uma equipe médica com urgência para a deck 3, sala doze".
Ela se apressou e entrou no turboelevador. Não queria cruzar com a equipe médica. Provavelmente ele iria ficar bem, apenas com um leve enxaqueca. - isto quando acordasse.
- Alferes Rinner, por que este chamado a enfermaria?
O tom de Jevlack estava totalmente diferente! O que chamou a atenção de todos na ponte.
"- O coordenador Morjan desmaiou senhor."
- Estou a caminho - disse se levantando - Armando, assuma. E procure por aquela nave assim que chegarmos.
- EU?!?! Assumir?
- Tem algum outro tenente comandante aqui?
- Desculpe - disse ele encabulado.
Jevlack foi para a enfermaria. Em uma situação de absoluta normalidade ele não admitia que algum tripulante sofresse qualquer tipo de acidente ou doença, indo sempre verificar a causa do mesmo. Sempre teve receio de pressiona-los demais, mas sabia que, até então, tinha dado tempo suficiente para se recuperarem. A menos que eles estivessem indo além dos limites. Mas, pelo relatório médico, isto ainda não deveria estar ocorrendo - foi este o motivo dele tê-lo ordenado a médica chefe, queria saber até onde poderia ir - a menos que a causa fosse outra. E era isto o que incomodava.
Quando chegou, viu Morjan desacordado na cama biomédica. Alderik e um auxiliar já o estavam examinando com destreza e objetividade. Haviam mais três tripulantes da manutenção ali - com quem Morjan deveria estar tratando na hora do ocorrido - observando um pouco assustados.
- O que aconteceu? - perguntou se dirigindo a eles.
- Não sabemos - respondeu um deles com o rosto espantado - ele estava dizendo como queria que ficasse o design da sala quando começou a falar coisas estranhas e então, desmaiou.
- Estranhas como?
- Bom... ele disse que achava que ficaria melhor se fizéssemos um painel com console imbuído de parede em uma mesa de escrivaninha. E então - ele estalou os dedos - ele caiu.
- Ele levou a mão na cabeça antes - disse um dos outros.
- Sim, foi isso mesmo.
Olhou de novo para o paciente descordado. As leituras do painel eram normais, exceto no cérebro, o que indicavam uma extrema tensão.
- Voltem aos seus afazeres - disse aos integrantes da manutenção - comecem a preparar o que ele pediu antes de ter desmaiado.
- Sim senhor - disseram eles saindo da enfermaria.
Jevlack continuou no mesmo local. Ele não tinha o hábito - salvo situações de emergência - de questionar o trabalho de médicos enquanto estes não indicassem que poderia faze-lo. Alderik coletou algumas amostras de sangue e pediu para um dos auxiliares executar um exame completo. Verificou o resultado da sondagem das conecções de suas sinápses e aferiu o resultado da análise global dos órgãos feito pelo outro auxiliar. Depois de mais alguns exames - e longas duas horas - ela aparentemente tinha encerrado e voltou-se para o capitão. Não parecia estar nem um pouco surpresa por ele ter permanecido como estátua em todo este tempo, o que não se podia dizer dos outros auxiliares.
- Tudo o que posso informar no momento - disse ela sendo objetiva como todos os vulcanos - é que ele está bem e não tem nada de grave, exceto uma tensão de esforço cerebral extrema. Algo muito raro de ocorrer.
- O exame feito nele há três dias indicou absoluta normalidade em seu nível de stress, e, depois de ontem, eu não pressionei mais ninguém no intuito de deixa-los se recuperarem do susto de quase morrer a toa. Na verdade, até promovi ele. Não faz sentido.
- Não - confirmou ela - não faz. Para seu cérebro ter chegado a este ponto, ele deveria ter enfrentado uma situação extrema de risco de vida, mas nenhum outro órgão demonstra qualquer coisa neste sentido. É quase... - ela hesitou - como se seu cérebro tivesse sido forçado a fazer algo muito complexo.
- Ele teria ficado apenas com dor de cabeça. Pelo que os que estavam com ele me disseram, parece ser sintoma de derrame. Há alguma outra coisa que possa causar este efeito?
- Sim, radiação, doenças patológicas, e algumas outras causas hereditárias, mas já descartei todas.
Jevlack olhou para o chão. Não estava gostando nem um pouco daquilo.
- Me chame quando ele acordar. Estarei em meus aposentos.
Alderik observou ele sair da enfermaria. Pôde sentir claramente o quanto ele estava desconfiado e raivoso. Muita raiva. Ele devia ter a mesma suspeita que ela, e sem dúvida estava indo investigar.
Para garantir o sucesso de sua missão, tinha de avisar Joana. Embora estivesse seriamente considerando a hipótese de fazer o oposto.
Morjan abriu os olhos e os piscou várias vezes para confirmar onde estava. Viu o rosto sorridente de Marlene e ela logo o beijou e lhe deu um abraço muito forte. Quando ela se afastou depois de alguns minutos assim - para ele foi depois de quase uma hora - ele percebeu onde estava. Na enfermaria!
- O que? Como...? O que aconteceu? - perguntou totalmente confuso.
- Esperava que você nos respondesse - disse Jefferson
- Eu?! Não... não faço idéia. A doutora não sabe?
Marlene olhou para Jefferson antes de responder.
- Tudo o que ela disse foi que você sofreu um stress terrível. O capitão chegou a achar que foi devido a dureza com que ele tratou a todos nós. Eu, pessoalmente, acho que foi a nossa festa de dois dias atrás.
- DOIS DIAS???
- Ops! - Marlene deu um risinho de vergonha - eu devia ter contado de forma mais suave.
- É isso aí meu caro, você ficou quase dois dias dormindo. Deixou todo mundo preocupado. Deve estar com as costas ardendo.
- Provavelmente não - era a voz da doutora vinda mais ao fundo - eu ministrei analgésicos e apliquei estimulação muscular para evitar isto.
Ambos, Marlene e Jefferson olharam na sua direção quando ela se pronunciou. Logo em seguida, se afastaram e a deixaram chegar perto para examiná-lo. Ela olhou os seus olhos e fez algumas perguntas. Fez uma coleta de sangue e observou o painel da cama biomédica. Depois se afastou um pouco em direção a sua mesa, pedindo para que ele ainda não se levantasse.
- Bom dia para você também - disse ele.
- São duas da madrugada, e eu não lhe cumprimentei.
- Deixa para lá. Chamar um vulcano de mal educado é puxar briga com um computador.
- Absolutamente certo - disse a doutora sorrindo levemente.
- O capitão vai gostar de saber que você está bem - disse Marlene - ele está trancado no seu aposento desde que você desmaiou.
- Trancado? - Morjan franziu o cenho - fazendo o que?
- Ninguém sabe - respondeu Jefferson - mas Armando, como chefe da segurança, e das comunicações, descobriu que muitas freqüências nossas estão sendo usadas, em um código que não está em nenhum dos manuais. Ele tentou descobrir a origem, e adivinhe de onde era?
- Do aposento do capitão? - arriscou ele.
- Exato! Ele está usando um monte de freqüências ao mesmo tempo. O pico foi ontem de manhã. Umas mil e quinhentas freqüências e canais ficaram ocupados no mesmo instante, mas foi só por alguns minutos. Deve estar colocando as fofocas em dia.
Mil e quinhentas? Impressionante! Mas, claro que não era para fazer fofoca, aquilo era uma brincadeira. Mas o que estaria fazendo? E usando um código totalmente desconhecido? Marlene, que parecia pensar o mesmo, explicou o que imaginavam.
- Achamos que ele está contatando seus conhecidos para tentar descobrir o que aconteceu com você. Até o momento, não achamos explicação alguma. Do que se lembra?
Concentrou-se um pouco. Lembrava-se de ter chamado o chefe de manutenção e solicitado ajuda para cumprir as ordens do capitão. Ele tinha dito para pegar três auxiliares e explicar o que queria a eles. Lembrava-se de estar explicando como queria que a sala fosse montada e quais departamentos deveriam ser monitorados automaticamente pelo console que iriam instalar. Daí para frente tudo ficava confuso. Parecia que milhares de lembranças tinham emergido ao mesmo tempo, sem razão alguma. Foi quase como se estivesse sonhando. Depois, acordou naquela cama. Contou tudo o que se lembrava a eles e ficou observando-os pensarem a respeito.
- Parece-me que você sofreu algo como uma disfunção cerebral - disse Jefferson.
- Talvez- disse Morjan ainda tentado entender o que tinha lhe acontecido - mas não sei se seria isto. A propósito. Se o capitão está nos seus aposentos, quem está comandando a nave?
- Relaxe - disse Marlene - nós temos suplentes, lembra? Jefferson também tem, assim como você. Acho que Jonas é quem ficará mais contente com a sua recuperação. Não suporta mais fazer dois turnos.
- Bom - disse a doutora se aproximando - não há nada que o impeça de reassumir suas funções. Estou lhe dando alta.
- Nesse caso, deixe eu sair daqui... - ele levou a mão a cabeça assim que se levantou.
- Algum problema? - perguntou Marlene preocupada.
- Uma leve enxaqueca - disse a médica - é plenamente normal, mas eu esperava que não ocorresse.
- Leve?! - exclamou Morjan - não quero saber o que você consideraria como crônica.
Ele se sentou na cama. A dor era muito incômoda. Alderik aplicou uma injeção subcutânea e, alguns segundos depois, a dor começou a aliviar. O que o possibilitou a se levantar com mais segurança.
- Vá dormir. Sugiro que use os indutores de sono. Seu relógio biológico está desregulado e é melhor aproveitar esta noite para acerta-lo - aconselhou a médica.
- Eu fico com você para ter certeza que de ficará bem - prontificou-se Marlene.
- Engraçado - disse ele - de repente, não estou muito interessado em acertar meu relógio.
Ela lhe deu um tapa um pouco forte nas costas.
- Nada disso! São ordens da médica. Amanhã tudo volta ao normal.
- Tudo bem, tudo bem - disse ele - mas ainda acho que é ruim desperdiçar o meu vigor atual.
Um beliscão na sua bochecha o fez mudar radicalmente de idéia. Foi com Marlene aos seus aposentos e - para sua própria surpresa - dormiu sem ajuda dos indutores.
Jevlack desligou o console e ficou olhando para a tela escura. Procurara com todos os seus contados, e em cada arquivo secreto que pôde invadir, qualquer referência possível sobre todos os tripulantes da nave.
Tudo um grande e redondo zero. Ninguém aparentava não ser quem dizia. Mas ele andava captando emanações telepáticas desde que saíram da doca, e não eram de vulcanos - a ordenação do contato é fundamentalmente distinta - deviam ser de um ou mais betazóides ou humanos com tal capacidade.
O exame médico não tinha revelado nada disto em ninguém, mas as emanações ainda continuavam. Pouco antes de Morjan ter desmaiado, tinha sentido uma grande emanação deste tipo. Não podia ser coincidência. Mas todos na nave - até o momento, ao menos - estavam livres de suspeitas. Portanto, tinham que vir de fora. Talvez de uma nave camuflada que os estivessem seguindo. É frustrante ser capaz de identificar praticamente qualquer forma de energia e não poder determinar a origem com precisão. Para que afinal serviria tal capacidade?
Pensou em ativar o seu - maldito - processador interno para tentar obter alguma informação mais direta, mas desistiu. Do jeito que ele agia - e da forma pouco paciente que ele estava - iria desliga-lo de novo em poucos segundos.
"- Capitão, o encarregado geral da coordenação de pesquisas já recebeu alta e se encontra descansando em seus aposentos" - informou a médica chefe.
- Obrigado - respondeu ele - Doutora, existe alguma forma de um telepata ter se ocultado dos exames que ministrou na tripulação?
Houve um silêncio considerável, que Jevlack interpretou como sendo ela avaliando as possibilidades.
"- É difícil responder. Sobre certas circunstâncias, sim, seria possível. Mas acredito ser altamente improvável. Já é a segunda vez que me pergunta sobre telepatas, senhor. Algum motivo especial para isto?"
- Sim, mas ainda é assunto confidencial.
"- Entendo. Deseja mais alguma coisa?"
Claro que sim! Que tal um - estou ficando viciado nesta frase - antiquíssimo método de relaxamento? Pensou, mas já era demasiado tarde para isso e aqueles infelizes ainda não tinham achado a nave klingon. Era melhor deixar para outra ocasião.
- Não doutora, boa noite.
"- Boa noite senhor, embora eu esperasse dormir bem mais tarde hoje."
Eu também. Se bem que ele só deveria sentir sono em mais umas três semanas.
****
Capítulo 10
Bem cedo no dia seguinte, Jevlack chegou a ponte. Armando ainda estava inutilmente tentado detectar a ave de rapina.
- Bom dia a todos - disse ele assumindo o seu lugar - e não! Não vou dizer o que fiquei fazendo em meus aposentos nestes últimos dias. Vamos voltar ao nosso trabalho. Senhor Armando, conseguiu achar nossa escolta?
- Não senhor - ele estava visivelmente desapontado - tentei tudo o que era possível, tudo o que consegui foram alguns espigões de radiação. Nada da nave.
- Bom, então acho que agora é a minha vez de tentar. Marlene estamos na área em que a nave deveria estar?
- De acordo com as informações que recebemos do governo klingon, sim.
- Armando, abrir freqüências de saudação.
- Freqüências abertas senhor.
- Aqui é o capitão Jevlack da USS Carlos Chagas chamando a nave Rhek'char. Quero parabeniza-los por terem demonstrado tanta habilidade e paciência em se manterem ocultos frente as nossas tentativas de localiza-los. - disse Jevlack na língua klingon.
Alguns segundos depois, uma ave de rapina surgiu na frente deles, assustando todos da ponte. Jevlack prudentemente evitou que o alerta vermelho fosse acionado com aquela surpresa.
- Eles estão nos contatando senhor - disse Armando.
- Viram? Era só bater na porta. Na tela.
O rosto - muito mal encarado - o capitão da nave klingon apareceu na tela. Era já um pouco idoso, devia ter passado da meia idade. Mas a determinação de seus olhos mostrava claramente que ainda tinha muitos anos de combate pela frente.
- Capitão Jevlack - disse ele lentamente - fico satisfeito com o reconhecimento de sua incapacidade em nos localizar, mas gostaria que me explicasse o que está fazendo tão adiantado em nossa data de encontro. E, como foi capaz de faze-lo.
Todos - menos o capitão - sentiram uma espécie de calafrio. As palavras dele pareciam conter uma espécie de ameaça velada. Mais tarde descobririam que aquela era a forma normal dos klingons falarem.
- Bom - disse Jevlack novamente na língua nativa deles - quando assumi esta nave, ganhei provavelmente a pior tripulação possível. A maneira que escolhi para doutrina-los foi força-los a atualizar quase todos os sistemas. Decidi por um reator de um grande cruzador no lugar do antigo, o que nos deu uma capacidade de dobra muito superior a original. Talvez eu tenha exagerado, mas gostei do resultado. O problema é o consumo de energia.
Na tela, o capitão klingon maneou a cabeça levemente concordando. Os que estavam na ponte não entenderam nada - nunca se preocuparam em conhecer outras línguas, contentando-se em usar o tradutor.
- Eu também gostaria de poder fazer o mesmo em minha nave, mas temos certos problemas protocolares para tanto. Capitão, antes de seguirmos com a missão, gostaria de conversar em particular com o senhor. Sobre um assunto honroso para mim.
- Armando - disse Jevlack se levantando - transfira para os meus aposentos. Jefferson, assuma.
Foi aos seus aposentos - devia ter pensado em montar um gabinete ao lado da ponte - e recebeu a transferência de sinal. Notou que Thar também tinha saído da ponte da nave dele.
- Você assustou meus meninos - disse Jevlack - bom ver que não perdeu a classe.
Ele soltou uma risada lenta, levemente grotesca.
- Ora capitão, achei que eles já deveriam estar acostumados. Confesso que estou impressionado com o que fez com eles. Eles instalaram este novo reator sozinhos?
- Sim, e algumas outras coisinhas... - sorriu de uma forma quase maliciosa.
- Armas... - disse ele casualmente - captamos dutos de energia cuja configuração é muito similar a que nós usamos.
- Beeeem... digamos que não gosto de sair por ai sem estar devidamente equipado.
- Vai nos dispensar como escolta?
- Claro que não. Isto causaria um grade reboliço diplomático. Além do mais, vamos estar em território aberto e bem próximos aos romulanos. E não quero deixar vocês se divertirem sozinhos.
Thar riu com muito gosto desta vez.
- É uma honra estarmos lado a lado de novo. Soube que perdeu mais uma nave. Foi da forma usual?
- Acho que vou ficar estigmatizado com isto - balançou a cabeça desgostoso de um lado para o outro - é, eu a sacrifiquei como as outras. E, como antes, fui a outra corte marcial. Vão acabar me dando um cartão vitalício para aquela sala. Pelo menos poderiam pinta-la de outra cor.
- É sua marca registrada. E as coisas nos arcabouços da Federação? Como estão?
- A mesma droga de sempre, alguns departamentos no meu pé e outros desesperados para que eu saia do pé deles. Depois da última encrenca que arrumei me jogaram para a área de exploração científica. Acho que querem me deixar o mais longe possível da sede. Mas qual é o assunto honroso que queria falar?
- Na verdade são dois. Um é um caso complexo, o outro uma mera aposta.
- Fale do que não vai me causar muitos problemas primeiro.
- Você já tem um primeiro oficial? - perguntou Thar mal contento outra risada.
Ai ai....
****
Kansha olhava para a roupa que lhe deram. Nenhuma comenda, nenhum símbolo. Uma mera roupa preta, feita de um material sintético de textura similar ao couro terráqueo. Estava na cela, pois tinha se recusado a ficar em um alojamento rotulado como "cedido". Pelo menos ali, podia manter sua determinação. Foi comunicada que em breve seria escoltada para fora da nave. Não sabia para onde a levariam. Provavelmente para uma colônia penal, onde passaria o fim de seus dias sendo uma mera prisioneira, fazendo trabalhos forçados.
Escoltada para fora... que forma estranha conseguiu para ainda ser tratada como guerreira klingon! Optou por ser uma prisioneira ao invés de uma intrusa - que qualquer klingon preferiria - e isto por si só já aumentou o respeito de seus antigos camaradas.
Mas o respeito é inútil sem a sua honra. Não tinha conseguido contatar seus amigos que lhe avisaram da traição que sofrera, tudo o que tinha foi ejetado no espaço assim que foi para a cela.
Ouviu passos se aproximando. Ficou de pé e encarou a abertura da porta da cela, selada por um campo de força. Dois seguranças apareceram. Um deles com algemas na mão esquerda.
Ela fixou um olhar feroz naquele que as carregava, mas, em seu íntimo, sabia que não poderia evitar aquela humilhação. Era uma prisioneira e seria tratada como tal até sair daquela nave. E prisioneiros klingons não são agraciados com o direito de se moverem entre prisões com as mãos livres.
Era uma forma interessante de manter a disciplina, nenhum klingon admite a idéia de morrer sem chance de defesa, de forma que nenhum prisioneiro - klingon - jamais tentou fugir assim. Embora ainda fiquem muito impressionados com outras raças que, sob as mesmas condições, se revoltam e até podem ser considerados como "mortos demonstrando coragem" porém, desonrados.
Ela já não tinha honra. Não faria diferença ser levada presa ou não. Não iria fazer absolutamente nada. Mas o protocolo militar exigia isto.
Eles desativaram o campo de força e um deles entrou - o que trazia as algemas - o outro ficou na porta, com a arma apontada para ela. Ainda era tratada como guerreira, isto a satisfez um pouco, pelo menos até o outro ir para trás dela e algemar suas mãos as costas. Por muito pouco ela não gritou de raiva.
Ele a empurrou rudemente de forma que quase caiu, e seguiram para a sala de transportes. Lá chegando, estava Moedh, posicionado sob um dos feixes. Ele desviou o olhar - ver aquela que matou seu irmão sem poder ficar satisfeito por ele ter morrido com olhos abertos já era ruim, mas ela estando presa como um animal deveria ser intolerável. Ela quase sentiu pena dele.
Foi empurrada até outro dos feixes de teleporte e os dois guardas klingons ficaram encostados na parede, ambos apontando as armas para ela. Depois de alguns momentos assim, ela achou estranho não ter sido teleportada ainda. A razão logo surgiu. O capitão Thar entrou na sala e olhou para ela. Ela fechou os olhos e empertigou-se, como se fosse ser executada.
- Kansha - disse ele naquela voz pausada - achei uma solução razoável para o seu caso. Ficará na nave da Federação até a missão terminar. Lá ao menos, terá mais liberdade para tentar descobrir uma forma de se recuperar. Mas lembre-se! É uma civil agora, porte-se como tal.
Ela estremeceu como se uma daggar estivesse sendo enfiada lentamente em sua barriga. Na verdade, ela preferia sentir a adaga do que ter ouvido aquelas palavras. Uma civil!
- Acionar - disse Moedh para o controlador do transporte.
Ela abriu os olhos em tempo de ver a oscilação causada pela transferência. Em um instante, o ambiente claro, limpo e confortável da nave da Federação invadiu os seus olhos. Sua pele sentiu o calor do ambiente e suas narinas captaram o odor nauseabundo de perfumes terráqueos misturado a uma de suas bebidas que provavelmente era sem gosto.
Em cima do controle do teleporte - da nave da Federação - havia um copo com um líquido quente e preto. Devia ser o que chamavam de café.
- Bem vindos a USS Carlos Chagas - disse um humano medíocre com roupa de oficial - sou o Imediato Jefferson, por favor me acompanhem, eu os levarei ao capitão.
Por favor?! Educação humana! Talvez eles apreciassem isto, mas para um klingon era ridículo. Moedh desceu da plataforma e ela - sem entender o porque de não haver guardas ali - o seguiu.
- Mas... !?! Ela é uma prisioneira?
A surpresa dele causou-lhe outra ferida em seu ego. Eles não sabiam disto? Além de ter de aturar seus antigos camaradas a observando tentando inutilmente ocultar a própria sensação de desgosto, agora teria de aturar o mesmo de humanos? Como os deuses devem se divertir com a humilhação alheia...
- Sim - grunhiu Moedh - e deve ser tratada como tal.
- Mas... o que... o que faço com ela?
- Ponha-a numa cela - desabafou impaciente.
Jefferson a olhou - que coisa irritante - fixamente. Esboçou algumas caretas e replicou.
- Não temos celas - disse em tom de desculpas - esta é uma nave de pesquisas.
Moedh ergueu a cabeça e relaxou os músculos dos ombros, como se suspirasse.
- Então - disse se esforçando para não gritar - leve-a até um aposento qualquer e a tranque lá. E... - olhou para ela - deixe-a algemada, por precaução - saiu da sala e ficou aguardando do lado de fora.
Ela rangeu os dentes quando ele a olhou. Sabia que ele iria dizer aquilo, mas não pôde se controlar.
- Certo... - ele olhou para o operador de transporte - Silva, chame alguém da segurança para deixa-la trancada em um aposento.
Saiu pela porta, o operador ficou apenas olhando para ela.
- E ponha um guarda na porta! - disse Jefferson entrando e saindo novamente.
Teve de ficar assim mais uns cinco minutos até alguém - desarmado - chegar e a acompanhar para um quarto. No caminho, viu um aposento com a porta arrombada. Devia ter sido algum artefato explosivo para ter feito aquilo, mas não havia manchas ou qualquer tipo de odor. O guarda a guiou para um quarto e mostrou-lhe as dependências - como esses humanos podem ter um império se só se preocupam com conforto?
- Deseja algo que eu possa fazer? - perguntou ele de uma forma indecisa. Era claro que eles nunca tiveram de tratar com prisioneiros antes.
- Uma morte honrosa seria bom - respondeu ela amargamente.
- Lamento - disse ele e saiu, trancando-a lá.
Ela olhou ao redor. Muito espaçoso, se comparado a um similar de uma nave klingon, e muito iluminado, de tal forma que a irritava.
- Computador? - disse em sua língua nativa.
O som indicou que o computador aguardava instruções. Foi uma surpresa ele estar apto a entender sua língua.
- Reduza a luz ambiente a 40%.
As luzes diminuiram bastante, deixando o local mais próximo de uma nave klingon. Ela se sentou na cama - estranhou muito a maciez desta - o olhou para o sintetizador. Estava com fome, mas seria difícil comer estando algemada. Pensou em se esforçar para se libertar e desistiu. Para onde iria? O que poderia fazer?
Deitou-se no chão frio e duro - igual a sua antiga cama - e tentou dormir um pouco. O capitão Jevlack agora decidirá o que fazer com ela. Esperava não sentir muita humilhação quando ele a visse naquele estado.
****
Jefferson se sentou na cadeira do comando e ficou olhando para a tela.
- Tudo bem? - perguntou Marlene - parece um pouco assustado.
Ele olhou para ela e demorou para responder.
- Temos uma prisioneira klingon aqui. Está em um dos aposentos, trancada e algemada.
Armando se virou e olhou para ele. Ele era o chefe de segurança. Ele deveria ter sido informado disto.
- Prisioneira? Aqui? Ninguém me disse nada!
- A mim também não. Nem ela gostou muito da situação.
"- Senhor Jefferson, siga para o nosso destino em dobra 8. A nave klingon irá nos acompanhar a distância. Armando... venha até a sala de conferências. "
- Bom, acho que agora você vai ser informado - disse Jefferson - Marlene, você ouviu o homem. Dobra 8.
Armando se levantou e desceu ao deck 3. Passou por uma porta com um guarda a postos do lado de fora. Devia ser onde a klingon estava. Pensou em entrar lá, mas depois mudou de idéia - ia entrar para o quê? Ver uma klingon de perto? - foi até a entrada da sala de conferências e se anunciou.
- Entre - disse a voz do capitão.
Armando entrou e viu o capitão e um klingon mais ou menos no centro da sala circular. Ambos de pé. Aproximou-se e fez uma espécie de continência ao "convidado" - tinha estudado o suficiente sobre a cultura klingon para saber que ele era um imediato e que se sentiria ofendido se não fosse tratado como tal. Ele retribuiu o gesto dele - o que indicou que ele agira acertadamente - e se dirigiu ao capitão.
- Tenente comandante Armando se apresentando, senhor.
Disse aquilo mais pela presença do klingon, do contrário, simplesmente perguntaria diretamente o que ele queria.
- Senhor Armando, sabe que temos um prisioneira klingon a bordo?
- Sim senhor, acabei de saber. E já estava me questionando por que não tinha sido informado a respeito.
- Eu ordenei que não o informassem - disse ele - infelizmente, eles vieram a bordo antes que eu pudesse ter avisado Jefferson, por isso aquela confusão na sala de transporte. - então se dirigiu ao klingon - Seu capitão não tinha me dito que ela estava na nave como uma prisioneira.
- Ele a considera muito - disse o klingon de forma muito seca - não é muito aceitável para nós vermos um de nossa raça ter de ser tratado assim. Ele não diria isto em uma transmissão. Não na situação em que isto ocorreu.
- Compreendo - disse o capitão pensativo - mas me deixou com um grande problema. O que farei com ela agora? Não posso deixar uma prisioneira livre por ai, por outro lado, não é aceitável pela Federação, muito menos pelos klingons, deixa-la algemada em um quarto em caráter permanente. Não posso pedir que ela jure pela sua honra de que não tentará fugir, pois sua honra foi apagada. É... estou vendo por que Thar não sabia o que fazer.
- Senhor? - Chamou Armando.
- Sim?
- Bom, eu tenho uma sugestão. E se alguém se responsabilizar pelas ações dela?
- Eu já tinha me prontificado para tanto quando ainda estávamos na Rhek'char - disse o klingon - mas ela se recusou. E até compreendo o porquê.
- Honra - disse Armando - burocraticamente eliminada, mas ela ainda a sente presente.
O klingon o encarou com o olhar fixo.
- Fez uma boa pesquisa sobre nós.
- Apenas da parte puramente militar - disse Armando um pouco encabulado por receber um "elogio" de um klingon - mesmo assim, ainda acho que foi superficial. Conheço sobre a honra dos klingons, mas não bem os fundamentos dela.
- Terei prazer em explicar em situação mais propícia.
Uma conversa meio ébria, pensou Armando. Bom, seria uma boa desculpa para beber em nome das boas relações culturais.
- Armando - interrompeu Jevlack - traga a klingon até aqui. Acho que esta conversa acaba de fornecer a solução. E traga uma arma também.
- Sim senhor - dirigiu-se então para o klingon - na atual situação, devo trata-la como tal?
Ele pensou um pouco.
- Sim, trate-a como klingon. Como uma prisioneira klingon.
Armando saiu da sala e seguiu para onde estava o guarda postado na porta. Confirmou com ele se era lá que a prisioneira estava e, depois que ele retornou com uma arma, entrou.
****
Kansha estava já cochilando quando sentiu um forte chute em suas costas.
- De pé! - disse alguém em um tom de comando muito intenso - agora!
Ela piscou um pouco os olhos, pensou se tratar de Moedh, mas era um pouco mais baixo. Fosse quem fosse, demonstrou sua impaciência e a agarrou pela roupa forçando-a a se levantar. Foi quando viu quem era. Um humano!
- O capitão quer ve-la - disse mostrando os dentes e um certo desprezo.
Ele a empurrou com força em direção a porta. Ela passou por ela e bateu o ombro direito na parede do corredor. Ainda confusa e imaginando se não estaria sonhando que um humano a tratasse como prisioneira klingon, sentiu ele agarrar seu cotovelo esquerdo e a puxar pelo corredor.
- Vamos! - disse ele da mesma forma rude. Quase como um klingon.
Andaram uns poucos passos e entraram em uma sala grande, circular, com vários consoles e painéis. Seu último ato foi empurra-la com mais força que antes, de forma que não pôde se equilibrar e caiu aos pés do capitão.
- Mais alguma coisa senhor? - perguntou aquele que a tinha trazido até ali. Pela sombra projetada no chão, parecia que ele tinha entregue alguma coisa ao capitão.
- Não senhor Armando, volte ao seu posto - respondeu o capitão. Sua voz tinha um timbre grave, mas era suave quando falava.
- Sim senhor.
Ouviu a porta se abrir e fechar, indicando a saída dele. Provavelmente era alguém da segurança bem melhor treinado que o último, isto se não fosse o próprio responsável por esta.
- Levanta-se, Kansha
Ela se levantou com uma certa dificuldade. Sentia-se mais confusa do que propriamente humilhada pela experiência. Viu Moedh ao lado e então encarou o capitão Jevlack. Era alto para os padrões humanos, mesmo para os dos klingons. Seus olhos - como já tinha ouvido falar - tinham íris vermelhas. Estava com as mãos nas costas, como que simplesmente tratando de algo casual. Naquele instante, sentiu um respeito grande por ele, embora não soubesse exatamente o porque. Talvez fosse por suas fantasias, alimentadas por anos, sobre ter um filho com uma criatura meio homem e meio máquina, com muitas vitórias e conquistas, ou talvez simplesmente pelo ar ameaçador que ele demonstrava agora. Especialmente com aqueles olhos que brilhavam com o reflexo da luz neles.
- O que devo fazer com você? - disse ele a encarando.
Ela nem entendeu a pergunta. Como assim? Era uma prisioneira. Devia ser tratada como tal.
- Sou uma prisioneira - respondeu se empertigando - no momento, sob seus cuidados.
- Não tenho celas aqui, nem nada que possa ser convertido para isto. Estamos em uma missão científica, e acabo de ganhar um novo imediato - olhou para Moedh - pelo menos durante a missão. Como prisioneira, não posso deixa-la livre, e como tal, não posso simplesmente restringi-la a um aposento. Quer ficar algemada por várias semanas?
Se existe algo que pode assustar um klingon, era aquilo. Ficar indefeso e sem honra. Ficou com medo da pergunta. Mas havia uma clara resposta a esta.
- É óbvio que não - disse duramente.
- A única maneira de retirar isto sem violar as leis de ninguém, é alguém se responsabilizar pelas suas ações. Mas o comandante Moedh me disse que você se recusa a acatar tal hipótese. Assim sendo. Irei lhe ofertar novamente. Ou aceita ter uma tutela, ou será executada imediatamente, assim como está.
Ele tirou as mãos das costas e uma arma foi apontada para a sua cabeça. Devia ter sido isto que aquele quem ele chamou de Armando tinha lhe entregue. Seu pavor quase a deixou em pânico. Morrer sem honra e presa como um animal, ou ter um responsável por ela. Jevlack conhecia muito bem os klingons, com certeza mais do que Armando.
- Escolha - inquiriu ele.
Ela fechou os olhos, e relaxou os músculos, como que desistindo.
- Aceito ter um responsável - disse lentamente e com uma voz lamuriosa.
Ela abaixou a cabeça, como faria caso fosse ser executada. Em uma coisa ela tinha acertado plenamente sobre Jevlack. Ele ia direto ao centro da questão. Ele não lhe deu escolha realmente. A partir de agora, alguém responderia pelo que fizesse, o que a tornava, na prática, uma inválida.
Ouviu um barulho de metal batendo no chão e viu que era a chave de suas algemas.
- Liberte-se - disse Jevlack - procure o imediato Jefferson e solicite gentilmente por um aposento. Selecionarei seu responsável mais tarde. Por hora, fique lá até segunda... - hesitou, como que para dar ênfase - ordem.
Ela saiu do torpor. Ordem? Olhou em sua direção, mas ele e Moedh já tinham saído. Ficou em transe. Se fosse ser tutelada não receberia ordens, salvo de seu tutor. Será...
Sentou-se no chão e pegou a chave. Ao menos lhe dera a satisfação de se libertar por sua própria conta. Realmente ele conhecia bem os klingons. Agora, só precisava recuperar sua honra e conseguir um filho com ele.
Não necessariamente nesta ordem...
****
Capítulo 11
Jefferson viu Armando entrando na ponte e reassumindo silenciosamente o seu posto. Ficou esperando por uma iniciativa dele, mas, como não ocorria, decidiu perguntar. Estava morto de curiosidade.
- Armando! O que aconteceu? Quem é a klingon? O que vamos fazer com ela? E o capitão, o que pensa de tudo isto? E o que o outro klingon faz aqui? É alguma espécie de guarda dela?
Armando se voltou devagar para ele, com a sobrancelha esquerda levantada. A típica forma de que iria escrachar com ele.
- A klingon era uma prisioneira na ave de rapina, perdeu sua patente e preferiu ser prisioneira a intrusa. Seu nome é Kansha. Não sei o que vamos fazer com ela, mas no momento é praticamente uma convidada. O capitão parece pouco a vontade com os acontecimentos. O outro klingon está aqui para ser o novo imediato, temporário, claro. Esqueci algo? - sorriu.
- É, acho que eu estava com muita curiosidade - desculpou-se - Novo imediato? Como assim?
- Acho que o capitão vai falar com você, mas não entendo muito isto também. - Armando voltou ao seu posto.
- O que quer dizer com perdeu a patente? - perguntou Marlene - E isto de preferir ser prisioneira a intrusa?
- Um guerreiro, ou neste caso, guerreira klingon, é um título militar. Só guerreiros possuem honra para manter. Os civis não tem isto, apesar de se esforçarem para conseguir. No caso dela, seria o equivalente nosso a um desligamento. Com uma diferença. Oficialmente falando, ela nunca foi uma guerreira, e tudo o que fez ou deixou de fazer simplesmente não existe mais. E naves guerreiras klingons não podem abrigar civis. Portanto, ela era um intrusa lá.
- E o que ela fez para sofrer isso - questionou Jefferson.
- Não sei, e duvido que ela própria desconfie. É algo muito raro de se ocorrer.
- Conhece muito sobre os klingons - comentou Marlene.
- Fui o melhor aluno de minha turma, quando estava na academia. Até que, no exame final, fiz a besteira de entrar clandestinamente no simulador na véspera para ter uma idéia do que iria enfrentar - ele parecia sentir um peso no peito - me pegaram. Depois de formado, fui condenado a servir na Chagas.
- O que não é nenhuma exceção a regra - completou Jefferson. Acho que, sem exceção, todos aqui fizeram alguma idiotice para a Frota nos destinar isto. Mesmo você e o Morjan se enquadram nisto.
- Vou ter de carregar isto pelo resto da vida? - comentou Marlene, voltando a observar os sensores. - Senhor! A ave de rapina sumiu dos sensores!
- Ela está camuflada - disse Armando - é a forma usual de agirem durante uma escolta. Só responderão se os contatarmos. Mas voltando a nossa conversa, fico pensando o que foi que o capitão teria feito para estar aqui.
- Acho que Greyson deve saber - disse Marlene.
- O novo auxiliar que recebemos antes de partirmos?
- Sim, o agora subtentente Grayson. Quando Morjan estava brincando de acessar os registros dos tripulantes, achou minha ficha e muitas outras. E notou que Tanto Grayson como o capitão estiveram envolvidos em uma missão de treinamento que terminou com a destruição da nave escolta - virou-se para ver Jefferson de frente - Grayson estava na nave de treinamento, e Jevlack comandava a nave escolta. O que será que realmente aconteceu?
Jefferson ficou pensativo. Da forma que o capitão agia, dificilmente teria perdido sua nave devido ao um erro. Alguma coisa deveria ter ocorrido naquela missão. E Grayson deveria saber de algo.
Alguém entrou na ponte, ao se virar para ver, Jefferson se assustou. Era aquela klingon, Kansha. Que diabos ela pensava que estava fazendo ali?
- Esta é uma área restrita - começou a dizer - devo pedir que se retire.
Ela não se alterou nem um pouco. De fato, parecia que nem o tinha ouvido falar.
- Seu capitão me ordenou a pedir com educação que me arrumasse um aposento - disse ela de uma forma seca.
Jefferson ficou um pouco transtornado com aquilo. Mas decidiu que aquela arrogante ali iria ter de pagar uma espécie de prenda pela audácia.
- Muito bem, então peça - disse fixando os olhos nela.
Pôde ver ela tremer um pouco - com certeza de raiva - achava mesmo que escaparia de obedecer corretamente àquelas ordens? Ainda mais considerando de quem elas partiram?
- Por.. Favor... solicito-lhe um aposento para mim.
- Certo. Vamos.
Levantou-se e pegou um dos últimos quartos vagos - estavam começando a ter gente demais na nave. Depois de deixa-la por lá, voltou para a ponte. Armando comentou algo sobre ele ter dado o primeiro passo para iniciar um flerte com uma klingon, que ele sumamente ignorou. Apesar de naquela roupa preta e justa ele ter ficada extremamente esguia, a testa enrugada e os dentes assustavam qualquer humano. A última coisa que desejava era ela ter qualquer interesse por ele.
Até o fim do turno, absolutamente nada mais tinha ocorrido. Apenas ficaram conversando e contando algumas piadas de vez em quando. Em nenhum instante, o capitão apareceu para comandar. Estavam começando a notar que o capitão só assumia o comando em situações em que havia a necessidade de decisões.
"Diário da missão, registro 1.258. Estamos há duas horas de nosso destino em dobra 8. Como de praxe, enviamos uma sonda para avaliar o setor de destino. Se os resultados forem aceitáveis, acionaremos a camuflagem e seguremos adiante, para cumprir a missão classificada D11-233-ABB3"
Danker encerrou o primeiro registro referente àquela missão extra. Pegou o seu copo de café quente e olhou as estrelas pela vigia. Estava em seus aposentos e, apesar de ser bem confortável, sempre se sentia incomodado lá.
- Entre! - disse ao ouvir o chamado da porta. Achava muito irritante aquele sinal de aviso.
- Capitão - disse o Imediato Cother - os resultados da sonda são satisfatórios. Nenhuma nave detectada.
Ele balançou levemente a cabeça aprovando a informação. Tomou um gole rápido de seu café antes de falar.
- Então prossiga. Quanto tempo até a nave de pesquisas chegar?
- Impreciso - respondeu ele um pouco hesitante - calculamos de quatro a oito semanas, caso seja a nave que acreditamos.
- Caso seja? - questionou - você não fez uma análise nas missões da Frota para determinar qual seria?
- Sim senhor. Há uma missão específica para este setor, que terá como escolta uma ave de rapina.
- Então só pode ser essa. Nosso objetivo é garantir que a nave Klingon entre em combate com a nave romulana. Que acredito já deva estar lá, apenas esperando. Por que a dúvida? Existe alguma outra nave que atende estas características?
- Não senhor, mas... - ele hesitou novamente.
Ele conhecia seu primeiro oficial fazia vários anos. Raramente se portava assim, somente quando descobria algum problema incômodo e não sabia como comunicar.
- Diga logo. Já enfrentamos tanta coisa que isso não pode ser tão problemático assim.
Voltou a olhar pela vigia, ignorando Cother. Agora observava o casco superior de sua nave. Sem registro, com uma fuselagem tão reforçada que as placas metálicas praticamente saltavam a vista. Uma nave da Federação com capacidade de camuflagem realmente não precisava e nem deveria ter um nome. Se, algum dia - isto ocorreria mais cedo ou mais tarde - alguém descobrisse isto, seria fácil falar que era uma nave provavelmente recuperada por piratas e adaptada com a camuflagem dos romulanos ou klingons. Nenhum dos tripulantes usava uniforme da Frota, e praticamente tudo que podia ser ligado a isto tinha sido retirado. Salvo alguns detalhes que deveriam ser destruídos caso o pior ocorresse.
- A nave em questão é a Carlos Chagas. Ficou em Plutão um tempo...
- "Carlos" Chagas? - olhou divertido para ele.
- Sim senhor, a "doença" de Chagas.
Danker riu. Era uma missão ridícula! Como poderia haver o temor daquela nave tentar enfrentar uma nave romulana?
- Nunca soube que o nome oficial era Carlos Chagas.
- E não era. Foi rebatizada pelo novo capitão. Ele também fez a tripulação reforma-la em Plutão. Ficaram quase uma semana atualizando sistemas e equipamentos.
- Só isso? - fez menção de beber mais um gole mas resolveu terminar sua frase - e quem foi o coitado escolhido para comanda-la agora?
- Jevlack - falou como se estivesse cuspindo.
O copo de café estava já em seus lábios quando ele ouviu a resposta. Por um instante, ficou parado, como que congelado no tempo. Mas só um instante. Logo em seguida, bebeu todo o café restante de um gole só e atirou o copo em cima da mesa, que se despedaçou com o impacto.
- COMO EU FUI BURRO! - gritou pondo-se de pé - Devia saber que não poderia ser algo tão ridículo como garantir o sucesso de uma pequena missão qualquer.
Sua boca estava semi-aberta, seus olhos faiscavam. Passava as mãos nos cabelos constantemente, extravasando sua raiva e preocupação.
- Fizeram mesmo a besteira de envolve-lo de novo em um assunto nosso? - perguntou dirigindo-se a Cother, embora fosse apenas uma pergunta retórica - que bando de imbecis temos no comando deste departamento!
- Tem mais!
- Há - disse com desprezo - o que mais além de termos de enfrentar esse, esse, essa coisa de novo?
- Andei obtendo informações sobre qual seria a missão, quer dizer, a missão do departamento neste caso. E achei duas. Uma é coordenada pela Divisão "S", a outra pela Divisão "C". E parece que nenhuma delas sabe que acabaram ficando paralelas.
- Lindo! A "S" deve ser a responsável por querer este combate entre klingons e romulanos, e a de Coleta está querendo o que?
A Divisão "C" era responsável por coleta de dados. Cuidava de obter toda e qualquer informação, sendo ela necessária ou não. Era ela quem se responsabilizava em fornecer dados para os agentes e para a coordenação geral do departamento. Assim como as outras, podia trabalhar independentemente.
- Estão pegando dados sobre Jevlack. Querem atualizar o registro dele. Mandaram a melhor agente para isso.
Cinthy ainda devia trabalhar no núcleo da divisão "C", só assim Cother conseguiria aquela informação tão facilmente.
- E agora, o grande chefe nos botou no meio disto. São três missões paralelas. Se Jevlack souber, vai fazer a festa. Pois bem, assim que a nave romulana der as caras, nós destruímos a Chagas, e Jevlack junto. Nada de dar chance dele colidir conosco, como fez com a Danúbio. E a Divisão "C" que se foda. Oficialmente, não sabemos de nada disto.
- Era o que eu ia sugerir, senhor - sorriu.
- Então, leve-nos para lá. Se conheço aquela máquina que finge ser homem, não teremos que esperar muito.
- Sim senhor.
Cother seguiu para a ponte. Danker pediu outro copo de café ao computador. A sensação de revanche era boa, mas, no intimo, temia ser feito de idiota novamente.
Kansha odiou aquela comida sintetizada, mas tinha de comer. Era ultrajante não sentir o gaghi se remexendo na boca. Apesar de ter o mesmo sabor, aquela característica tão especial era o que tornava o gaghi uma iguaria. Come-lo vivo.
Tinha arrancado aquela parte macia da cama e tentou criar uma roupa mais aceitável para usar, pelo menos com algumas costuras que lembrassem sua antiga roupa. Nada apreciável. A textura dos tecidos que ele fazia eram muito macias e suaves. Tinham a vantagem de poder se aderir ao corpo com facilidade, o que dava mais agilidade, mas eram muito frágeis. Optou por fazer uma jaqueta também preta com o material mas parecido com o que já estava usando. O resultado foi aceitável, embora longe de satisfatório.
O blip a porta chamou a sua atenção.
- Entre!
Uma vulcana com equipamento médico entrou. O que significava aquilo?
- O capitão quer um exame superficial - disse ela em uma voz suave e fria - levará uns poucos minutos.
Sem esperar por uma resposta, ela pegou o equipamento e, aproximando-se foi obtendo várias leituras. Passava com o aparelho a dois centímetros de seu corpo. Parava de vez em quando em alguns locais, como braços, costelas, no pescoço. Eram onde já haviam ocorrido ferimentos graves. Em cinco minutos, ela terminou. Guardou o equipamento e dirigiu-se a porta.
- Qual o motivo deste exame? - perguntou Kansha.
A vulcana se voltou já na porta.
- Normalmente, é usado para avaliar a condição física de alguém. Mas é mera rotina.
Quando ela foi sair, o capitão apareceu na porta. Ele a segurou pelo cotovelo e a disse para entrar novamente.
- Já escolheu o meu responsável? - perguntou com certo desprezo.
Ele levou a mão direita no seu pescoço e a pressionou como uma prensa hidráulica, com tal força que seus tímpanos quase se romperam com a pressão formada em seu crânio.
- Meta uma coisa na sua cabeça Kansha - disse ele sem demonstrar nenhuma emoção na voz - eu esperava uma missão tranqüila e sem nenhum tipo de problema de ordem de segurança ou diplomático. Você é apenas alguém que jogaram no meu colo, portanto, um pouco de respeito é exigido de sua parte.
Abriu a mão e por pouco ela não caiu no chão. Faltou muito pouco para ser morta por sufocamento. A médica vulcana por sua vez, olhou para o capitão de forma a desaprovar aquele ato.
- Agora quanto a sua pergunta, sim, eu já decidi. Estive conversando com o governo klingon, sobre o método que eles utilizam para selecionar tal pessoa. A única regra é nunca ter cometido crime algum e fazer parte de alguma organização militar. Doutora, o exame dela tem algo que a desaprove para o serviço?
- Não senhor.
- Então, eu a convoco como alferes e a nomeio como responsável pelos seus atos. Quando a missão terminar, você partirá junto com Moedh, mas será uma alferes da Frota, não uma civil klingon. Apresente-se amanhã ao senhor Armando. Ele demonstrou conhecer bem a sua cultura e cuidará para dar-lhe uma tarefa apropriada.
Ambos saíram da sala. Kansha ainda estava atordoada com tudo o que tinha ocorrido. Voltara a ser senhora de seu destino e recebera um flerte ao mesmo tempo.
- Ela gosta do senhor - disse Alderik assim que saíram do aposento - faltou ao respeito de propósito para incita-lo a mostrar seu posto.
- Eu sei - Jevlack sorriu.
Ela olhou para ele com certa perplexidade.
- E sabe que ao agir daquela forma, deu-lhe possibilidade de continuar a... sonda-lo?
- Você me lembra muito outra vulcana que conheci, dizendo mais do que realmente sabe, para verificar se digo algo que não quero dizer. De qualquer forma, ciúmes é algo ilógico.
Ele seguiu pelo corredor, deixando-a balançar levemente a cabeça. Qual era a expressão humana mesmo? "Idade do lobo".
"- Emil?"
- Sim Morjan, estou ouvindo.
"- Furacão a caminho, se prepare".
- Não se preocupe - sorriu - vou bater onde dói mais.
Alguns instantes depois, o "furacão" irrompera pela porta automática que dava acesso a engenharia. O Imediato Moedh.
- Quero o relatório da engenharia - exigiu, ainda antes que a porta automática fechasse.
- De novo? - perguntou Emil com um quase sorriso nos lábios - você já pegou um faz três horas.
- Muita coisa acontece em três horas. Impérios caem, alianças são rompidas, guerreiros morrem, vidas nasc....
Ficou mudo. Emil empurrou uma pranjeta com um novo relatório. Feito logo após ele ter pego o último.
- Se quiser mais um, volte em meia hora. Estará incluso o sistema de deflecção e a revisão final dos equipamentos do chefe de pesquisas - Emil considerava que "Coordenador Geral de Pesquisas" era um título muito extenso.
- Então reduza a extensão do campo de dobra para aumentar a eficácia dos motores.
- Posso fazer isso, mas não irá aumentar a eficácia. Na verdade, irá deturpar o campo. O projeto destes motores é diferente dos anteriores. Quanto maior o campo, mais fácil é mante-lo. Reduzi-lo irá exigir mais potência para mante-los estáveis. Mas se é sua ordem, o farei.
- Então - disse balançando levemente a cabeça - prossiga como achar conveniente. Mas eu preciso conhecer os limites desta tecnologia para executar o meu trabalho.
- Estava na primeira pranjeta que pegou. Nem chegou a le-la?
Moedh arregalou os olhos com a afronta dele. Mas não podia fazer nada contra quem estava cumprindo excepcionalmente o seu trabalho. Pegou a prancheta e saiu da engenharia. Com raiva e, acima de tudo, com vergonha.
Desde que assumira como imediato fazia alguns dias, enfrentava algo totalmente inédito. Todos, sem nenhuma exceção, antecipavam-se ao seus pedidos. Ou já o tinham feito, ou tinham feito e sabiam que não dava certo, ou deixavam-no envergonhado apontando falhas grotescas de sua parte. Como esta não leitura da forma de trabalhar dos motores. Ele havia imaginado que os motores trabalhavam como qualquer outra nave federada. Devia ter imaginado que aquela devia ter algo diferente, pois as naceles de naves científicas não brilham quando ativas, e as daquela estavam brilhando quando a tinha visto da primeira vez.
Tinha de admitir duas coisas: Primeiro, haviam realmente humanos que podiam ser comparados a klingons, ao menos em eficiência. Haviam aqueles que se equiparavam até em selvageria, isto quando não a ultrapassavam, mas eram raros, e, neste ponto, praticamente todas as raças tinham seus parcos representantes. Segundo, a missão de escoltar aquela nave era, como tinha imaginado a princípio, uma afronta. Tanto para os klingons quanto para os tripulantes de lá.
Eles simplesmente não precisavam de uma escolta, não com aqueles pulsares instalados - ele fez questão de verificar o projeto pessoalmente - que a deixava em pé de igualdade com qualquer ave de rapina, seja klingon ou romulana.
Procurou pelo capitão e, surpreso, viu Kansha no refeitório bebendo algo. Algo humano! E demonstrando apreciar muito.
- O que é isso? - perguntou surpreso e curioso.
- Armando me deu - ela sorriu para ele - chamam de suco de amora. Experimente!
Ele bebeu desconfiado e sentiu o gosto excepcional da bebida. Estava maravilhado com ela.
- Tem mais bebidas assim?
- Irei explorar mais tarde - disse ela - estou apenas esperando Armando voltar com os seguranças que estou incumbida de treinar.
- Não seja muito severa - disse ele - eles são muito frágeis.
- Ficaria surpreso com quanto um humano pode demonstrar vigor - disse ela rindo divertida. Em nada lembrava a klingon de alguns dias atrás. Parecia, no momento, muito satisfeita em fazer parte daquela nave. Claro que não usava o uniforme deles, apenas a roupa preta e uma espécie de casaco, com a ensígnea presa do lado direito.
- Bom - disse ele devolvendo o copo - onde está o capitão?
- Eu não sei, mas quando o encontrar, diga-lhe que estou muito satisfeita, e que gostaria de agradecer... pessoalmente pela chance que ele me deu.
Ele estreitou os olhos. Fêmeas! Sempre fêmeas.
Saiu do refeitório e caçou pelo capitão. E estava certo de que em breve, outra pessoa o estaria caçando.
E ele não gostaria de estar no lugar dele. Fêmeas klingons são muito obcecadas quando procuram por um par.
- E então?
Hoghy olhou para o seu comandante com um certo receio.
- Precisamos desligar a camuflagem para reparar o emissor danificado. Pelo menos umas duas horas.
Ele não gostou disto. Mas, ao menos, nenhuma nave foi achada lá. Tinham chegado ao destino e teriam que fazer uma longa espera até a nave da federação chegar.
Aquele sistema era muito peculiar, mas parecia totalmente desinteressante. Estava dentro de uma nebulosa originada por uma supernova ocorrida fazia vários milênios, de forma que tudo ao redor era avermelhado. Mesmo a estrela, amarela, brilhava com uma cor vinho impressionante.
0 Muito bem, faça o que tem de ser feito, mas fique de olho nos sensores. Não quero surpresas.
- Sim senhor.
Ficou olhando para a tela da ponte, as estrelas brilhando por detrás de nuvens vermelhas. Já tinha lido as ordens, incluindo as ordens mais confidências. Tinha apenas de esperar uma nave científica chegar, deixa-la estudar o que bem entendesse, e, quando fosse partir, aborda-la, pegar todos os registros, pegar dois prisioneiros e se livrar do resto. Os prisioneiros eram o capitão da nave, Jevlack e uma cientista, de nome Joana.
Tinha ouvido falar de um Jevlack, que tinha aparentemente invadido os arquivos de uma estação romulana fazia uns vinte anos. O império nunca conseguiu descobrir mais nada sobre isto. Talvez fosse por isto que o quisessem.
Mas não lhe interessava. Sua preocupação no momento, era com a sua nave. Apesar de ser uma versão aprimorada daquele primeiro modelo, ainda tinha, basicamente, os mesmos problemas. Usar os sistemas desenvolvidos em conjunto com os klingons - naquela breve aliança do passado - os diminuíram. Mas ainda não os eliminava de vez. A próxima geração de naves deveria cuidar disto.
- Senhor, estou captando sinais estranhos. Parecem ser ecos de nossos sensores.
- O padrão é idêntico ao nosso?
- Eu diria que sim.
- Então, ignore. Devem ser resultado desta nebulosa.
Ele não sabia que a menos de um quilômetro de distância estava uma nave federada com recursos roubados deles. Incluindo sensores. Eles os observavam atentamente...
****
Capítulo 12
Estavam próximos ao seu destino agora. Por longos quinze dias, seguiram em velocidade constante rumo ao planeta onde foram encontrados os fósseis. Chegariam em menos de quatro horas, e Morjan exercia sua função de coordenar as pesquisas. No momento, analisava os dados astronômicos coletados. O planeta estava imerso em uma nebulosa resultante de uma supernova ocorrida há cerca de sete milhões de anos. Havia tanta poeira por lá que era bem possível que a sua estrela acabasse se tornando outra supernova, de tanto absorver matéria.
O próprio planeta aumentava de massa em cerca de setenta toneladas/dia. Não que seja algo muito excepcional. O Planeta Terra recebe dez toneladas diárias de poeira cósmica.
Deixando os números de lado, ele já tinha um problema muito misterioso. A destruição daquela estrela próxima teria gerado tanta radiação, que teria esterilizado a superfície de qualquer planeta num raio de sessenta anos-luz. Ou seja: O planeta onde foram achados os fósseis, não deveria ter nada além de seres unicelulares. Começou a perceber como tais informações eram úteis para a analise correta.
Não havia muito mais a descobrir, ao menos no momento. O Sistema em si tinha uma idade aproximada de três bilhões de anos. Pediu para os laboratórios atmosféricos e de geologia para prepararem as sondas a enviar ao planeta, para fazer uma varredura inicial de sua composição. Ninguém desceria até se verificar isto.
Os convidados aguardavam na sala de conferências por mais dados. As primeiras informações estavam sugerindo que talvez estivessem no planeta errado, mas Jefferson e Armando, bem como os tripulantes que estavam na nave naquela época, foram categóricos em dizer que aquele era o planeta onde os fósseis foram achados. Era só localizar as prováveis ruínas do acampamento que deixaram lá. Desnecessário comentar o sermão que o capitão fez ao descobrir isto.
- Bom meus amigos - disse Guedes erguendo o seu suco de laranja de forma a fazer um brinde - conseguimos chegar aqui. Finalmente iremos descobrir se temos algumas respostas ou, como de costume, muito mais perguntas.
- Lamento não compartilhar de seu entusiasmo - disse Joana com a cara amarrada - mas, até o momento, parece que realmente esta missão vai ser um fiasco. Os dados iniciais indicam um planeta praticamente desértico, com água mínima apenas nos pólos, e nenhuma indicação de qualquer espécie de vegetação.
- Estes mesmos dados indicam que possui atmosfera respirável, o que significa que deve haver algo lá que seja capaz de mante-la. Provavelmente seres simples - disse Binacer.
- Sim - concordou ela - mas é este o ponto. A vida neste planeta foi praticamente extinta quando a supernova eclodiu. Apenas formas simples de vida sobreviveram e acho que não poderia haver desenvolvimento mais complexo em meros quatro milhões de anos.
- Calma meus caros - disse Guedes - ainda não estamos debatendo hipóteses. Teremos muito tempo para discutirmos depois. Vejam - apontou para o monitor no centro da mesa da sala - lançaram as sondas.
Trinta sondas foram lançadas de uma só vez. Aproveitando o impulso da nave, e devido a terem novos reatores para manter o campo de dobra por mais tempo, chegariam ao planeta duas horas antes deles. As sondas eram na verdade pequenos robos que em muito lembravam aqueles usados para reparos em naves, no começo da exploração do espaço pela Federação. Tinham duas pinças para colher amostras e coloca-las em um de seus pequenos compartimentos internos. Tinham apenas dois, um servia para análises superficiais, e, o outro, para transportar de volta para a nave. Este era inundado com argônio - um gás neutro para manter as características da amostra inalteradas - e logo em seguida deixado no vácuo.
Como não havia muito a fazer a não ser esperar, Joana resolveu dar uma volta. Cruzou com aquela klingon no corredor e não soube se sentia náuseas ou dava risada. Ela tinha a idéia fixa na cabeça de que Jevlack estava lhe fazendo sutilmente a corte. O motivo da sua reação era de que bem que podia ser verdade. Jevlack andava sendo muito duro para com ela, o que, para uma klingon, era sinal de interesse.
Continuou a andar pelo corredor quando uma porta se abriu e foi agarrada e jogada para dentro. Uma forte mão conteve o seu grito de medo e susto. Logo percebeu que era Alderik.
- Que susto! - disse quando ela retirou a mão - o que pensa que está fazendo?
- Você não respondeu aos meus chamados. Foi a forma mais prática que encontrei para uma conversa reservada, principalmente devido a urgência.
- Você disse que iria deixar tudo por minha conta, lembra? Não há nada a...
Ela estava saindo quando a médica agarrou seu braço esquerdo e a puxou de encontro a uma parede.
- Agora preste atenção - disse ela de uma forma que a assustou - aquele incidente com o senhor Morjan alertou o capitão sobre a sua presença. Ele me questionou sobre a possibilidade de haver alguém aqui com capacidades telepáticas. Aquele período em que ficou trancado no quarto foi, sem dúvida, para investigar sobre todos aqui da nave. Não deve ter achado nada, ainda.
- Foi só uma acidente - disse Joana - não era minha real intenção.
- Não importa qual era a sua intenção - ela a soltou - o fato é que se o capitão descobrir sobre nós, nossas vidas se acabam. E não estou falando do departamento querer se livrar de nós por nos tornarmos inconvenientes políticos, mas sim do próprio capitão decidir nos remover.
- Ele faria isto?
- Ele já fez antes - disse Alderik - não pense que ele segue as regras apenas por subordinação. Há vinte anos, quando ficou livre de nossos cientistas, o departamento decidiu vigia-lo. Nunca soubemos o que aconteceu com aqueles selecionados para isso. Portanto, seja mais criteriosa com as suas ações. Há propósito, o ciclo de sono dele está para eclodir, deverá dormir em um ou dois dias. Será a sua única chance concreta de conseguir algo. Mas se ele perceber - Joana podia jurar que havia um esboço de um sorriso nela - bem, você leu a ficha dele. Ele poderá literalmente fritar seus neurônios.
Saiu da sala deixando-a suando lá dentro. Ela realmente demonstrou satisfação com a possibilidade dele matá-la em um processo de auto defesa.
Kansha chegou a ponte e, de uma forma nada sutil, ficou ao lado do capitão encostando seu quadril esquerdo no ombro dele. Ninguém disse nada a respeito, nem Moedh, que lá estava observando a tela. Se o capitão nada fizera, quem iria se incomodar com isso?
Ela mostrava as sondas se aproximando do planeta, algumas já tinha entrado na atmosfera. Ela quase bocejou com aquilo. Ainda se fossem sondas de espionagem, talvez houvesse maior interesse. Sua opinião mudou quando foi mostrado a superfície deste por elas captada.
Era avermelhada como o resto do planeta, arenosa e rochosa. Ventos fortes podiam ser facilmente notados, movendo a areia com muita força. Um ambiente muito hostil sem dúvida. Algo que a agradou muito. Adoraria ser a encarregada de segurança do grupo que fosse ser enviado. Mas isso, claro, quem iria determinar era seu superior, Armando.
- Estamos recebendo os dados - disse Armando - estou transferindo para a coordenação geral de pesquisas.
Agora iriam ver se Morjan estava realmente preparado para aquele cargo. Era fascinante verificar que o trabalho que ele exercia, era praticamente o mesmo de uma nave capitania, coordenando um ataque em larga escala.
- Ai está - exclamou Armando - o nosso velho acampamento.
A tela mostrava tendas seriamente danificadas pela ação do vento. Foram afixadas em rocha, para melhor estabilidade e proteção. Mas depois de vários anos, o planeta se vingou do "lixo" deixado para trás. Apenas umas duas barracas estavam de pé, considerando que eram feitas de material muito resistente, o clima daquela região deveria ter períodos muito mais rigorosos.
- O que deixaram nestas barracas? - perguntou o capitão.
- Praticamente nada - respondeu Armando - apenas umas mesas que usamos para uma análise inicial dos fósseis.
- Bom, alguma coisa está crescendo na base delas. Vêem aquela coloração azulada do lado oposto em que o vento está batendo?
Todos olharam com atenção. A resolução foi ampliada e realmente, havia uma mancha azul escura do lado em que o vendo não batia. A sonda rapidamente se aproximou para fazer uma analise espectral. Compostos orgânicos! Eram uma espécie similar ao musgo, exceto que continham composição animal e vegetal, de tal forma que era difícil determinar que tipo de ser vivo era. A sonda coletou uma amostra para análise posterior.
Outra sonda coletava porções de areia na região do equador. Acabou obtendo as mesmas leituras orgânicas. Era evidente que aquela forma de vida estava espalhada por todo o planeta, logo abaixo do solo, onde o vento normalmente não o atingia. Também foi detectada emissão de oxigênio - como a fotossintese - mas ao invéz de utilizar o gás carbônico, ele usava o sulfeto de amônia. Agora era preciso determinar o que gerava o sulfeto de amônia para manter aquela atmosfera em equilíbrio.
- Chegaremos em trinta minutos senhor. Devemos já preparar o grupo avançado?
Jevlack olhou para Moedh - sua impulsividade ainda iria causar problemas - que aguardava as ordens.
- Não. Morjan está no comando da pesquisa. Neste ponto, não irei interferir com o julgamento dele.
Pelo cronograma, iriam primeiro avaliar a estrutura geológica e atmosférica, depois uma análise nas amostras de seres vivos coletados. Só então, após examinar toda e qualquer hostilidade que o planeta pudesse oferecer, seria decidido quem iria no grupo avançado. Isto se tal ocorresse.
Kansha saiu da ponte. Não poderia e nem queria ficar muito tempo por lá mesmo, apenas o suficiente para indicar ao capitão que estava interessada. Já sabia que ele andou tendo alguns encontros com a médica vulcana, e realmente não conseguia entender o porquê daquilo. Ele deveria ser mais criterioso com as suas escolhas.
****
A USS Carlos Chagas entrou em órbita do planeta a ser explorado, e, finalmente ele recebeu um nome: Crepúsculo. Isso devido ao seu céu sempre parecer estar no poente devido a grande quantidade de partículas vermelhas em sua atmosfera.
Algumas sondas retornavam com amostras, tanto de solo quanto de espécies nativas. A análise completa estaria disponível em dois ou três dias. Guedes e Binacer receberam a notícia com sentimentos ambíguos. Por um lado, queriam ir rapidamente a superfície fazer o seu trabalho, mas, por outro, sabiam o quão importante era aquela análise inicial. Mais tarde, ela demonstrou ser crucial para compreender a origem dos fósseis.
Alheio a tudo isto estava Jefferson. Ele revesava seu turno com Moedh e não gostava muito disto. Especialmente pelo seu turno ser o da noite. Não propriamente por dividir o seu recente comando com outro de igual posição, mas sim por seus encontros noturnos ficarem agora impossíveis. E era muito irritante ouvir os comentários das tripulantes sobre a virilidade que o klingon demonstrava ter.
Chegando ao refeitório, viu as pessoas jantando - para ele seria o café da manhã, já que tinha acordado há pouco tempo e iria começar o seu turno em meia hora. Pegou um copo de café puro e algumas torradas e procurou um local para se sentar. Foi quando viu Grayson.
- Com licença? - perguntou com uma educação um pouco acima da normal.
- Claro, senhor.
Sentou-se e começou a comer o seu café. Olhou para o uniforme dele e exclamou.
- Mas já é subtenente? Puxa, demorei seis anos para isso. E você, apenas seis dias.
Grayson apenas sorriu um pouco encabulado.
- Bom, o senhor foi promovido a imediato no mesmo período.
- Sim, graças ao nosso capitão sargentão - fez uma careta - acho que isto não combina. Bom, nosso capitão tem uma maneira interessante de cobrar resultados. Promove os subalternos a uma posição em que tem de responder por seus atos.
- Pessoalmente não estou surpreso. Ele delega muito, mas cobra muito também.
Jefferson comeu mais algumas torradas. Ofereceu algumas a Grayson, mas este recusou.
- Você já o conhecia antes, não?
- Por que pergunta? - Grayson estava um pouco desconfiado.
Jefferson se maldisse mentalmente. Estava literalmente sem prática em puxar o assunto para onde queria.
- Bem, lembro que quando o encontrei da primeira vez, o capitão disse que você já estava a bordo. Acho que deve ter chegado logo depois dele. Daí achei que já devia conhecer a fera de antemão.
Grayson olhou para o tampo da mesa, formando um quase bico com os lábios.
- Sim, eu o conhecia. Ou melhor, conhecia o renome dele.
- Eu vou direto ao ponto - disse Jefferson - estou com uma curiosidade infernal, e acho que você pode me responder. Jevlack está aqui pelo que aconteceu com a Thunderbold?
- Sim - disse ele simplesmente - acredito que sim.
- E o que aconteceu realmente? Não quero a versão oficial, essa eu já conheço. Quero saber o que verdadeiramente aconteceu.
- Pergunte a ele.
Jefferson terminou sua última torrada e tomava o último resto do café no copo. Baixou o copo vazio e olhou para ele.
- É algo tão confidencial assim? - disse em voz baixa.
- Talvez mais do que eu mesmo possa imaginar.
- Mac... pelo que vi do capitão, não acredito que ela tenha sofrido um acidente. Isto é uma desculpa muito esfarrapada. A Starfleet foi descomissionada logo após o incidente, e ela tinha acabado de ser reformada. Pegaram uma classe Constitution, a reformaram, puseram como nave de treinamento e, após a primeira turma a desativam de novo? Isto não faz muito sentido.
Grayson olhou divertido para ele. Como se estivesse a ponto de fazer uma brincadeira.
- Bem, se quer mesmo saber, atravessamos um portal que nos jogou em outra galáxia e no meio de uma guerra. Tomamos partido, e o capitão usou a Thunderbold para destruir uma poderosa nave dos oponentes. E, antes que eu me esqueça, também achamos a USS Defiant por lá. E os registros de diário de bordo desta diziam claramente que ela tinha ido ao espaço tholiano para explorar, pela terceira vez, uma fenda que levava a esta outra galáxia em que fomos parar por acidente. E trouxemos uma lembrança junto conosco. Uma mulher de lá. Já deve ter se formado na academia a esta altura. Agora, se me der licença...
Grayson se levantou e fez um gesto de adeus com a sua mão. Jefferson ficou com a boca aberta por alguns minutos, antes de começar a rir de forma descontrolada.
- Que imaginação - comentou após conter o surto de risadas.
Levantou-se e seguiu para fora do refeitório. Ainda dava pequenas risadas curdas, quando, na porta, ficou sério. Tinha acabado de se lembrar de rumores de uma mulher que tinha se formado na academia ser de uma outra galáxia...
Balançou a cabeça fortemente para esquecer o assunto. De repente, não queria mas saber se aquilo era verdade ou não.
Joana lia os relatórios das análises geológicas do planeta. Algumas movimentações de placas tectônicas já tinham sido descobertas. Uma mapa climático estava sendo montado, e a composição do solo estava ainda sob análise. Aparentemente, ocorrera uma falha nos exames. As sondas foram reenviadas para colher mais amostras.
Desligou o monitor e sentou-se em sua cama. Tinha ficado em seus aposentos desde o "aviso" de Alderik. Estava em dúvida se devia contatar o departamento ou não.
Uma dúvida tola na verdade. Depois da última vez, estava apavorada de ter de fazer isso. Sentia-se como que cercada. Seu contato a ameaçou, o departamento a ameaçou, e, agora, o próprio objetivo da missão seria uma ameaça em breve. Ela já tinha tentado sutilmente alguma sondagem, e recebeu um golpe tão forte que quase a fez perder a consciência.
Isso tinha sido há dez dias atrás. Muitas vezes, depois disto, tinha entrado em pânico quando o capitão passava próximo a ela, acreditando que alguém que pudesse refletir uma sondagem telepática poderia facilmente localizar o autor dela. Mas não... todas as vezes ele apenas a cumprimentou. Ele realmente não sabia que ela era uma betazóide.
Apesar dele agora poder controlar suas capacidades, provavelmente não as usava. Do contrário, bastaria analisar uma espectrográfia sua para descobrir sua verdadeira origem. Que coisa estranha... tantos recursos e não se incomodava em usa-los. Com exceção, naturalmente de sua força - aquele aposento ainda não tinha sido reparado.
Decidiu esquecer tudo isto. Já tinha tido missões complicadas antes, em que tudo e todos pareciam estar contra ela. Segundo Alderik, Jevlack em breve iria finalmente dormir - que outra criatura tinha um ciclo de sono de 17 horas a cada 43 dias? - e, então, saberia se era possível acessar seus segredos ou morrer tentando.
Saiu do aposento e seguiu até a sala de conferências. Morjan estava lá, conversando com Guedes e Binacer.
- Joana - chamou Guedes - venha, Morjan estava nos contando o atual plano de ação.
Ela seguiu e tomou um dos assentos da mesa circular.
- Já encontramos o sítio arqueológico - continuou ele - mas a área de exabiologia ainda quer fazer mais uns testes. Aparentemente o planeta pode vir a ser letal para nós.
- Letal? - perguntou Binacer visivelmente perplexo - um grupo avançado já esteve em sua superfície, e nada perigoso foi detectado.
- Sim - concordou Morjan - mas eles ficaram por apenas dois dias. Nossa pesquisa envolve no mínimo um mês. É possível que, a longo prazo, problemas venham a surgir. Alderik está examinando as amostras, devemos ter alguma informação adicional a qualquer momento. Em suma, é isto. É o planeta correto, é muito hostil, e, apesar de sua aparência, é de classe "M". Amanhã iremos determinar como será a exploração dele.
- Já enviaram sondas para os outros planetas deste sistema? - questionou Joana.
- Sim - respondeu sorrindo - e, nos outros quatro que não possuem atmosfera, encontramos grandes crateras. Muito grandes mesmo. Parece até que este sistema planetário foi bombardeado. Todos os estudos geológicos destes indicam que ocorreu há uns sete milhões de anos. Na verdade, deve ter ocorrido no mesmo milênio em que ocorreu a supernova. Ela está há apenas três anos-luz daqui, é bem possível que sejam destroços dos planetas que orbitavam a estrela agora morta.
- Não é uma especulação um pouco precipitada? - perguntou Guedes - Fazem poucas horas que o sistema está sob análise.
- Tenho certeza de que não - respondeu confiante - Mandei reexaminar as amostras geológicas do planeta por três vezes. Um sexto da superfície dele é mais antigo que todo este sistema, com cerca de oito bilhões de anos. Portanto, não pode ter se originado daqui. O resto dele tem três bilhões de anos, a mesma idade da estrela. Deve ter sido incrustado nele depois da supernova. Estamos agora verificando o ponto de "colagem" desta parte mais velha com o resto dele. Na verdade - pressionou um comando e um holograma do planeta surgiu - é esta parte branca dele.
- Uma colisão destas teria gerado tanto calor que teria matado qualquer ser vivo que porventura o habitasse - disse Joana - Talvez nem bactérias sobrevivessem.
- Exato - concordou Binacer - é muito estranho que criaturas complexas tenham surgido e desaparecido em apenas quatro milhões de anos. Já foram feitas algumas análises sobre condições climáticas do passado?
- Sim - respondeu Morjan - estamos começando agora. Estudamos uma camada de trinta milhões de anos e outra de quinze. Ambas extraídas próximos ao equador, na área que não compõe o pedaço que acreditamos ter se colidido com o planeta. Encontramos estratificações de rios e de grandes lagos. Talvez até sejam oceanos. Temos camadas mais antigas mas ainda estão em espera. Estamos usando o laboratórios do casco inferior para acelerar o processo. Teremos uma visão geológica completa em uma semana.
"- Senhor Morjan?"
- Na escuta, doutora.
Joana sentiu um arrepio ao ouvir aquela voz fria novamente.
"- Terminei as pesquisa sobre a exobiologia do planeta. Um grupo avançado poderá ser enviado, mas deverão ser vacinados. A estrutura do DNA dos espécimes coletados é invertida em relação a nossa. Exposição prolongada causará extrema intoxicação antibiótica e pode vir a ser fatal."
- Entendido, doutora. Um planeta de antibióticos. Quem diria?
- Pelo menos isto explica o lesão que a doutora encontrou nas células da tripulação - comentou Binacer - Devem todas advir da época em que estiveram no planeta.
Morjan balançou a cabeça, concordando. Um mistério resolvido, faltam uns quinhentos...
- Bem senhores - olhou para Joana - e senhorita, amanhã prepararemos a descida do grupo avançado. O senhor, certamente irá querer levar a sua nave com o laboratório, correto?
- Sim - respondeu Binacer - foi para isso que eu a trouxe.
- Bom, então irei acionar o pessoal de campo para preparar a outra nave com os equipamentos para o acampamento. Quando determinarmos o local para o início das escavações, começaremos.
Comentaram mais alguns detalhes, mas o planejamento final seria feito no dia seguinte. Joana saiu da sala quase duas horas depois - foram muitos detalhes a conversar - e só então percebeu que não estaria na nave quando Jevlack estivesse dormindo. Sua capacidade telepática era muito elevada, mas não poderia alcança-lo estando na superfície do planeta.
Que falta de sorte estava tendo. Tinha que achar uma forma de ficar mais alguns dias na nave, e só havia uma forma de consegui-lo. Engoliu seu orgulho, o seu medo, e seguiu cabisbaixa para a enfermaria.
****
Capítulo 13
Na sala de conferências, Jevlack leu o relatório preliminar do planeta, bem como suas conclusões também iniciais. Olhou para todos os presentes. Guedes, Binacer, Morjan, Jefferson, Kansha, Alderik e mais dois auxiliares, Ryegh e Doran. Todos os que iriam compor o grupo avançado, com exceção de Joana.
- Impressionante - disse se dirigindo a Morjan - a maior parte de planeta possuí três bilhões de anos, mas há uma larga camada com quase oito bilhões.
- Sim senhor - disse ele um pouco sem jeito - segundo dados coletados pelas sondas, uma parte do planeta foi um grande pedaço de rocha errante, com cerca de 10% da massa original do planeta. Colidiu com ele há pelo menos sete milhões de anos. Quase 60% da superfície do planeta foi derretida com o calor do impacto, em uma espessura de pelo menos três metros. Isto por si só, teria extinto praticamente qualquer forma de vida tida como superior que porventura existisse nele. O curioso é que os fósseis foram encontradas exatamente nesta área.
- Onde não poderiam realmente estar - comentou o capitão - sei muito bem o que acontece quando algo deste tamanho colide com um astro. Sua superfície vira praticamente lava. Bom, foi realmente um trabalho excelente, mas creio que podemos deixar as longas explicações para palestras futuras. Doutora, sobre a condição ambiental do planeta, qual a sua recomendação?
- Senhor - respondeu prontamente - as formas de vida simples encontradas no planeta possuem DNA invertido em relação ao nosso. Esta foi a causa de lesão das células que encontrei em alguns membros da tripulação. Todos estiveram no planeta por cerca de dois a três dias. Eu já imunizei todos os integrantes do grupo avançado, incluindo eu mesma, com uma dose de tan-gstder. Mas cada um de nós deverá receber doses adicionais a cada cinco dias. Infelizmente, a paleontóloga Joana mostrou-se alérgica ao tratamento. Está descansando em seus aposentos. Deverá poder se juntar a nós em alguns dias.
- Muito bem. Antes de eu libera-los para partirem, alguém teria mais alguma questão a comentar?
- Eu não entendo uma coisa - disse Jefferson tomando a palavra - as criaturas de lá são como antibióticos para nós. Bom, antibiótico é uma forma de remédio. Por que tamanha preocupação? Não bastaria uma desintoxicação?
- Sabe qual a única diferença real entre um remédio e um veneno? - perguntou Jevlack para ele.
- Na verdade, não.
- A dose. Mais alguma coisa?
- Não senhor - disse Jefferson um pouco encabulado com a aula. Nunca tinha imaginado isto.
- Então, estão liberados para partir. Kansha, você é a encarregada de segurança do grupo. Não permita que façam coisas arriscadas sem motivo, como sair em uma tempestade de areia. Morjan, você é o líder da parte científica da missão, e Jefferson é o líder do grupo. Não quero desavenças, a palavra final, na falta da minha, é dele. Alguém discorda?
Ninguém se manifestou.
- Ao trabalho - disse ele se levantando - e Jefferson, ouça todos os conselhos e sugestões que lhe fizerem. Um líder não é quem sabe mais, mas quem aprende a ouvir e decide pelo melhor.
Jefferson balançou a cabeça concordando e saiu junto com os outros. Finalmente aquela missão iria começar. E ele ficaria um pouco livre das tentativas de ser agarrado por Kansha. Não que ele não estivesse interessado, mas não tinha o hábito de agarrar tudo o que aparecesse pela frente, como um certo alferes da USS Pégasus fazia. Qual era mesmo o nome dele? Riker! Sim, era isso. Quase o tinha selecionado para integrar a sua tripulação, mas achou que já tinha pessoas com hábitos "saudáveis" demais.
Alderik entrou na nave de Binacer e, após as formalidades para serem lançados, a naves auxiliares - primeiro a que tinha o equipamento de apoio depois a deles - saiu para o espaço negro. Viu o planeta e novamente o considerou inóspito. Felizmente a área em que iriam começar as pesquisas estava muito amena. As condições climáticas iriam permanecer assim por mais alguns dias. Tempo suficiente para procurar ao redor de onde tinham achado os fósseis e conseguir algo que explicasse o grande mistério.
Em alguns minutos começaram a entrada na atmosfera. Uns poucos solavancos e estavam flutuando há cerca de dez quilômetros de altura. Seguiram por mais trinta minutos e rodearam o local escolhido para ao acampamento. Um platô rochoso com pouco mais de um metro de altura. O circularam várias vezes para confirmar a escolha e pousaram.
Assim que saiu da nave, sentiu o cheiro forte de óxido de enxofre. Isto confirmava que aqueles seres unicelulares usavam isto como alimento, ao contrário das plantas terrestres que usavam o gás carbônico. Expeliam oxigênio como resultado do processo, mas isso causou uma grande dúvida. O que usava o oxigênio e expelia óxido de enxofre? Alguma reação tinha de ocorrer, para manter a relação equilibrada. Claro, isto se não fosse algo ainda muito recente e não surgiram criaturas para completar aquele ciclo. Se este fosse o caso, aquelas formas de vida iriam sucumbir em não muitos séculos. Havia um vento constante, mais não causaria problemas.
Seguiu para a nave com os equipamentos de campo e começou a ajuda-los a descarrega-la. Iriam montar as barracas primeiro. Se tudo ocorresse conforme o cronograma, estariam com o acampamento montado com o sol a pino.
Quase uma hora depois, as barracas estavam montadas. Agora estavam carregando os equipamentos para ela. O vento se intensificou agora. Chegava a quase quarenta quilômetros. O calor também se elevava. Pegou uma caixa com o equipamento médico e o carregava a sua barraca, quando, aparentemente, viu algo se mover a distância.
Fixou o olhar naquela direção, mas não viu mais nada. O vento estava uivando agora, e colunas de areia branca e um pouco rosadas eram levantadas pelas fortes rajadas. Pela análise climática, ficaria assim por mais uma hora, piorando um pouco. Depois, voltaria a ficar mais ameno. Quando a noite chegasse, o vento ficaria forte novamente, agora soprando para o outro lado. Depois, no meio da noite, ficaria um deserto totalmente morto.
Voltou aos seus afazeres. Devia ter sido uma ilusão causada pelo vento. Entrou na barraca e começou a separar o equipamento.
Moedh olhava por cima do ombro de Armando os dados enviados pelo grupo avançado.
- Eles informam que tudo está bem. O acampamento estará completo em duas horas.
- Otimo - Jevlack fez um movimento repentino que deu a impressão de que ele quase desmaiou.
- Capitão? - disse Moedh vindo auxilia-lo - O senhor está bem?
- Sim - respondeu - é o meu ciclo de sono. Eu durmo a cada quarenta e três dias. Sem a mínima possibilidade de poder adiar. A menos que eu antecipe. E eu não fiz isso devido a uns incidentes que queria averiguar. Mas acabei não conseguindo nada.
Moedh estava realmente preocupado. Aprendera a respeitar aquele humano com partes mecânicas. E agora estava percebendo que havia um pouco mais nele do que aquilo. Ninguém tem tal ciclo de sono, muito menos esta característica, de não poder adia-lo.
- Não há nada que possa ser feito?
- Não. E creio que não é necessário. - seus olhos estavam expressando o sono que queria surgir - Tudo foi muito bem até aqui. Acho que finalmente tive uma missão de rotina para variar.
- É uma questão de opinião. Mas, se o senhor diz...
- Não posso discutir, nem esperar mais - ele balançou de novo - assuma o comando. Não acredito que algo ocorra nas próximas dezesseis ou dezessete horas.
- Sim senhor - disse Moedh com um certo respeito - não deixarei que o perturbem.
- Eu tinha medo disto - sorriu e saiu para o seu aposento. Se não deitasse logo iria apagar no corredor mesmo.
****
Joana recebeu o sinal do dispositivo que Alderik tinha deixado nos aposentos do capitão. Ele tinha se deitado há mais de uma hora. Devia estar dormindo. Era agora ou nunca.
Primeiro, entrou em contato mental com Alderik no planeta - seu comunicador podia transmitir ondas telepáticas - quando fez contato, aguardou ambas as mentes ficarem em sintonia. Ela comandaria toda a ação - ainda não entendia bem o por que dela ter concordado com aquilo. "Executo o meu trabalho, e rancor é ilógico" tinha dito quando lhe pediu ajuda para executar a tarefa. Provavelmente estava com medo de tudo falhar e ambas serem mortas. Embora não acreditasse muito nisso.
Alderik serviria apenas como base estável, um reforço a sua capacidade telepática ampliado pelo seu implante - não podiam fundir as mentes devido a isto - mas deveria ser o bastante para ao menos fazer uma investida.
Estavam sintonizadas! Relaxou profundamente. Sentiu cada um de seus sentidos ficarem inertes. Respirou lentamente e não moveu seus músculos. Mesmo o maxilar, o mais difícil de relaxar estava inerte. Estava pronta para a busca. Iniciou a sondagem, uma mente como aquela deveria ser fácil de detectar, e foi! Lá estava ela, um abismo negro psíquico, uma super nova no mundo abstrato da mente, a mente de Jevlack.
Iniciou sua aproximação com cuidado, as sondagens passivas anteriores foram muito claras ao demonstrar uma cerca quase que impenetrável rodeando-o. Quase, não absolutamente. Tinha que haver alguma brecha, pois ele estava mantendo um elo mental com alguém, possivelmente Tirvik, e não poderia faze-lo de uma mente fechada. Mas o próprio elo era estranho, como se fosse uma transmissão de status e não compartilhamento de mentes. Aproximou-se daquela esfera de pensamentos em particular e "observou" de fora.
Como descreve-la em termos tridimensionais? Parecia um globo negro por não ser possível compreender nada dele e, ao mesmo tempo iluminando tudo com a sua força. Um globo onde incontáveis feixes de informações trafegavam continuamente. Uma espécie de farol emergia de tudo aquilo, um poderoso facho de "luz" - na verdade eram transmissões de pensamentos do elo mental - aparentemente atravessando os extratos de sua mente como se não existissem. Não conseguia visualizar a "origem" deste facho, parecia vir de toda parte. Bom, era a única estrada que talvez indicasse um caminho, assim, decidiu tentar entrar "cavalgando" este facho.
"Aproximou-se" com cuidado, observando as formas de pensamentos. Eram como anéis, diversos anéis um dentro do outro, passando por uma espécie de interface invisível e se transformando em um feixe compreensível de pensamentos. Desta distância podia finalmente entender algo. Ele estava mantendo um elo com alguém, mas quem seria? Tirvik era mais humana que vulcana, não poderia suportar tal força. Na verdade nenhum vulcano sozinho suportaria tal impacto sem ter sua personalidade totalmente obliterada. Mesmo que não conseguisse mais nada, esta informação por si só já era valiosa. Entrou no meio do facho.
Perdeu-se! Não sabia onde estava. Parecia estar sendo carregada por uma coluna de água com dimensões galácticas. Começou a entrar em desespero, iria perder sua mente ali. Sentiu sua essência ser esticada e contorcida naquele turbilhão de informações. Era jogada anos luz para um lado e para outro, em um tempo relativístico que não podia compreender. Parecia um relógio que marcava uma hora em milésimos de segundo e que marcava os segundos em milênios. Sua eternidade naquele estado eram meros suspiros de estrelas, acendendo-se e apagando ao seu próprio tempo.
Sua psique estava sendo destroçada ali. Demorou muitos infinitos para iniciar uma reação, aglutinar-se e expandir-se, na esperança de uma parte de si sair daquilo. Uma parte de seu it, qualquer que fosse que pudesse escapar daquela coluna, indicaria para onde fugir. Expandiu-se, na vã tentativa de ultrapassar o insondável. Não muito vã, diga-se claramente. Em um dos padrões de pensamento ela se viu livre, mas confusa. Onde estava?
Caia - ou subia? - atravessando - sendo atravessada - por extratos e camadas de várias mentes - não, apenas uma.
Não fazia sentido. Cada camada era incompleta, uma possuía emoções de raiva, memórias desconexas, outra possua emoções de amor, e nenhuma memória, outra tinha frustração, e um tormento de imagens alegres. Era a mente dele, de Jevlack. Montada em camadas uma dentro da outra, uma permeada por outra, uma concorrente com outra, uma isolada da outra, uma totalmente unida a outra. Não compreendia.
Sua mente não tinha extratos como as outras. Tinha esferas de pensamentos únicos e inúteis sem as outras. A compreensão veio em um estalo. Por isso ele ficou catatônico, por isso teve problemas com emoções. Sua mente era única, era tudo aquilo! Não haviam partes dela, não haviam coisas "enterradas", estava tudo ali, todas as esferas eram a sua mente. Por isso incursões anteriores falharam. Tentaram penetra-la por uma brecha, o correto seria engloba-la e tornar-se mais uma de suas camadas. Como aquele facho de pensamentos que a trouxera ali tinha feito.
Expandiu-se violentamente até se enquadrar em uma das esferas. Se estivesse errada, deixaria de existir - mas já estava quase nesta situação, agora - era tudo ou nada. O problema era que o nada era mais provável. Sentiu a interface começar contra a sua vontade. Estava sendo tragada por uma das esferas de pensamento dele. Consumida, unida, fundida. Uma parte insignificante do todo.
"Gritou" de loucura! Era muita coisa ao mesmo tempo. Assassina, amante, inocente. Não compreendia, sabia de tudo e não podia compreender nada. Uma luz surgiu, duas, três. Todas negras e apagadas, mas eram luz. De onde vinham? Um estalo, uma corrida, um sorriso, sorriso de criança. Sentiu-se estuprada no meio de tantas sensações incompreensíveis. Mas estava dentro de sua mente, não, era parte dela, era parte da mente dele e de mais alguém. Ambos poderosos, ambos em sincronia, ambos isolados de forma impossível. Ambos antagônicos, ambos idênticos. Quem eram eles?
Então, a nulidade. Nada, nem reações, visões, sensações, nada! Nem ela própria, mas ela estava ali, apesar de nada existir. Ouviu uma música. Bonita e estranha. Era uma referência para onde ir. Seguiu o "som" psíquico dela e entrou em um campo. Um belo campo. Mas, diferente dos sonhos de pessoas comuns, onde havia muita cor, este era incrivelmente real. A sua frente, abaixo dela, ao redor dela - era estranho não poder se situar, mas fazia sentido, pois agora fazia parte da mente dele - estavam duas pessoas. Uma estava sentada a sombra de uma árvore, com um rio correndo suavemente ao seu lado, a outra estava de pé, do seu lado direito, de olhos fechados e, talvez, esboçando um sorriso muito pequeno. Reconheceu-a imediatamente. Sarah McKenna, desaparecida junto com a USS Atlantis há alguns anos - como poderia saber disso? Nunca a tinha visto antes, muito menos ouvido falar desta nave - Era a mente dela com quem ele estava formando um elo? Se fosse, onde ela estava? Seria a mente de ambos tão poderosa para manter uma conexão a distância a qual deveriam se encontrar neste momento? Era mais uma valiosíssima informação para o departamento.
Ela estava usando o uniforme antigo da frota, posto de Imediato - não fazia sentido ela estava além do tempo, mas estava ali - Mas parecia como que oca, vazia. Era como que só a sua imagem estivesse ali, e que Jevlack estava apenas esperando ela chegar e "vestir" esse corpo. Se fosse verdade, talvez ela pudesse personifica-la, como fazia em outros sonhos. A questão era que estaria completamente a mercê a mente dele. Não era uma imagem criada por ela, e sim por ele. E tudo o que sentira até então a transformaria em uma mera marionete. Era melhor observar.
Milênios se passavam e nada mudava. A música era a mesma, a posição deles era a mesma, o vento calmo era o mesmo. Mas sentiu que aquela imagem, aquele sonho era um espécie de rolha para deter um pesadelo muito mais profundo. Pelo menos descobriu como sabia de coisas que na verdade não sabia. Era a interface que tinha feito com ele. Ela era parte dele, e esta parte podia obter informações, mas não sabia como nem quem as estava fornecendo. Em um lampejo de luz, ela percebeu que a "casca" de Sarah estava para se abrir e receber algo. Era a sua chance. Se alguém ia entrar lá, então Jevlack não iria comanda-la. Aproveitou e entrou naquela personificação de Sarah, deixando o verdadeiro ocupante do lado de fora.
- Bem vinda - disse ele, sem se mover.
Bom, o que devia dizer agora? Sentia alguém tentando tirá-la de lá. Mas era inútil. A "casca" estava fechada, e uma mente daquelas não permitiria que alguém criasse seu próprio personagem. Principalmente devido a distância e tempo que deveria estar - ainda não entendia a questão de estar em outro tempo, mas sabia que era assim - mas, voltando a seu problema, o que deveria dizer? O que uma vulcana mestiça diria? Ficou em silêncio.
Mas podia "ouvir". Pouco depois das boas vindas de Jevlack, ela sentiu algo diferente, uma espécie de comunhão. Era simples, mas de alta complexidade. Insignificante, mas tomava toda a sua essência, de tal forma que não podia se distinguir dele. Em um instante percebeu que a mente dele, de Jevlack, estava iniciando algo com a sua, com a sua mente, sua - por que não seria? - alma.
Sua relação para com ele mudou de forma radical. Sentia algo indiscritível! Sentiu uma relação para com ele de mãe, amante, filha, esposa, amiga. Algo mais como o que se sente quando um bebe nos olha e sorri alegre. Não era uma comunhão, era muito além do que essa palavra poderia expressar. Não podia chamar aquilo de elo! Na verdade, o conceito de "elo mental" seria uma extrema ofensa para indicar o que era essa relação.
Sentiu-se mal. Era uma intrusa ali, uma megera, uma ladra. Uma espiã. Qualquer coisa que ofendesse não podia dizer como ela se sentia. Aquele tipo de relação só podia ser comparada a relação betazoide mãe - filha. Mentes, pensamentos e confiança compartilhadas. E mesmo essa era incomparável com o que sentia agora. Chamar Jevlack e Sarah de meros "amantes" seria uma pálida indicação física para o que realmente eles tinham. Que inveja sentiu de Sarah! Ela, uma vulcana, uma mestiça que castrou as próprias emoções, tinha atingido o que pouquíssimos seres de raras raças privilegiadas podiam compreender: Compartilhar a própria alma! Irônico. Parte de essência dela - uma parte infinitesimal, é verdade - estava ali. Fazia parte de mente dele, e era essa essência que tentava tira-la da casca. Podia compreender isso agora.
Jevlack e Sarah eram como duas estrelas muito próximas, dançavam em torno de um centro comum e suas corolas solares torciam-se em direção uma da outra. Quaisquer outros elos que tivessem com outros seres, eram - a exemplo do que ocorre em um sistema binário - desviado para mais próximo deste centro. Eram mentes binárias, um sistema de mentes que deixaria todos as criaturas com capacidades telepáticas de universo morrendo de vergonha, e, ao mesmo tempo, cheios de admiração.
Começou a sentir outros elos agora, alguns de Jevlack - como Tirvik - outros sem dúvida eram de Sarah - seu irmão, Sarik? O impressionante era que Jevlack não tinha propriamente uma capacidade telepática, era algo latente, mas não - pelo menos ainda - controlado o suficiente para fazer um elo mental por conta própria. Tanto poder e tudo latente, como o lago de uma represa. E Sarah era a comporta para permitir a vazão das águas, comporta essa que Jevlack podia - Sarah lhe confiou até isso? - controlar. Deuses! Que tipo de criatura era ele? E a que nível a mente de Sarah poderia ter chegado estando ligada a ele?
Ele olhou para ela lentamente, de forma suave. Sentiu compulsão para sorrir, irresistível, e sorriu. Aquela casca tinha "memórias", memórias de muitas outros contatos, seria fácil. Quanta coisa teria para por em seu relatório, isso se o fizesse. Nesse instante, ela quis ficar em definitivo ali. queria expulsar Sarah e ficar em seu lugar, com aquelas sensações, aquela comunhão. Sentia que ali poderia descobrir - e não era de forma alguma algo petulante - o verdadeiro sentido e segredo da vida.
- Quem é você? - perguntou ele ainda com o rosto suave.
Sentiu medo. Ele percebeu que não era Sarah. Que arrogância achar que poderia engana-lo! Depois de tudo o que tinha sentido e percebido deveria logicamente supor que ele perceberia que algo estava diferente. Mas tinha algo a seu favor. Aquele corpo, aquela "casca" que ele permitia existir em sua mente era algo que ele não ousava violar. Um respeito grande a verdadeira dona desta. Portanto, enquanto estivesse lá, estaria segura, era só esperar ele acordar e simplesmente ela sairia de lá ilesa.
Se ele fosse uma criatura normal.
- Quem é você? - agora havia mais entonação, e seu rosto não parecia mais suave. A música que sempre ficara no mesmo ritmo sereno e suave, extremamente encantadora, estava agora saindo do compasso. Normalmente ela não perceberia isso, mas, estando ligada a ela atualmente, percebeu, e beirou ao pânico! O poder dele podia ser latente, mas ela estava na mente dele. E lá, ele poderia ter o controle total.
A pressão para que saísse da casca de Sarah estava muito maior - seria ele quem a estava fazendo? - podia sentir algo a puxando para fora, de forma que sua essência pressionasse as "paredes" internas daquele "corpo"
- QUEM É VOCÊ?
Sua "voz" era um estrondo, e toda a sua psique vibrou e tremeu ao "som" dela. A pressão era insuportável - deuses - sentiu-se sendo sugada para fora do corpo de Sarah. Sua essência foi espremida, fatiada e extraída de lá como o suco de uma fruta, sentiu que foi arrancada pelos "poros" da "pele" de Sarah. Viu-se do lado de fora, apenas um borrão de quem era, sua integridade estava seriamente abalada, mas mal pode se dar conta disso. Sentiu que não era mais parte da mente dele. Fora isolada, excluída. Como se sentiu só. Sozinha, uma pária ali dentro. Estava desejando a não existência, esperava que ele a destruísse completamente. Qualquer coisa seria melhor que passar o resto da vida sabendo o que nunca iria obter. Aquela comunhão que apenas ele e Sarah compartilhavam, e que, por uns meros ínfimos de milênios, ela teve uma parca amostra.
- Não sei quem é você - disse ele friamente - mas invadir a mente dos outros é o pior sacrilégio que pode existir. Vulcanos formam elos mentais, é preciso uma confiança mutua para isso. O que um vê o outro também vê. Eles compartilham e não sorvem pensamentos. Sarah forçou isso, mas se dispôs a pagar o preço de compartilhar. Você não passa de uma sangue suga. Saía daqui!
Os olhos dele ficaram negros. A visão de Sarah e Jevlack foi torcida como se ela tivesse sido disparada na velocidade da luz. Sentiu sua essência ser despedaçada e arremessada para todas as direções, como em uma explosão. Seu grito ecoou por centenas de milhares de mentes. Sentiu cada uma delas ricocheteando na sua. Cada ricochete era uma infinidade de torturas, estupros, amputações, pânico, medo, humilhação, todos os tipos de dor ao mesmo tempo, em milhares de locais, cada local era uma partícula ínfima de si. Cada partícula era completa para ser torturada e atormentada. Depois disso, ela ficou completamente pulverizada, anulada, apagada. Tecnicamente morta, mas íntegra dentro de si mesma.
Olhava para o teto do cômodo, mas não sabia bem o que via. Não pensava. Não sabia o que era pensar. Levantou-se e olhou para uma parede, havia um espelho ali. Sabia que era um espelho, mas não sabia o que via. Era como não ser mais quem era. Quem era ela? Levantou-se, e, este ato a deixou confusa. Como o fizera? Quem fizera isso? Por que o fizera? Era como não estar mas no próprio corpo, como se tudo o que fizesse e sentisse fossem, na verdade de outra pessoa.
Joana aproximou-se do espelho e não sabia de quem era o reflexo que via. Fechou os olhos, confusa. Abriu novamente. Uma estranha continuava lá, na sua frente. Lembrou-se da médica - o que é lembrar? Que médica? - que a tinha amparado na incursão - o que tinha feito? Por que?
Não havia ninguém ali. Estava só. Uma pária, excluída. De onde? Por quem? Onde estava? Estava com fome, estava com sede, estava cansada, como estava?
Sentou-se no chão, e, novamente uma monte de sensações normais transmitiram a sua mente a ação que fizera, e, de novo, foi como se as sentisse pela primeira vez.
Começava a compreender agora. Tinha sido tão destroçada, tinha sofrido tantas sensações incompreensíveis, que, quando retornara ao próprio corpo era incapaz de reconhece-lo. Sua própria consciência foi tão inundada de coisas novas que as antigas foram simplesmente obliteradas. Precisaria de tempo - além do tempo, transcendeu o tempo, viaja no tempo - para se recuperar. Precisava dormir, se concentrar, relaxar.
Tempo. Era essa a resposta! - qual a pergunta? - era isso o que ocorria na mente dele - de quem? - fora do tempo, em todo o tempo. Jevlack estava incompleto - quem é Jevlack? - e não sabe disso. Sarah desconfia - ainda está na Atlantis, a Atlantis está destruída, está sendo destruída - mas não compreendeu. Não fez parte integrante de sua mente como ela - parte de que? - ela sabe a resposta, mas precisa escrever, anotar, contar para alguém, onde está Alderik? - quem é?.
Vai ser como um sonho, se não anotar não se lembrará. Jevlack não é humano, não sabe disso - quem não sabe? - é muito antigo, raça extremamente antiga, raça extinta, último da raça. Jedis, Vorlons(*) - o que são? Quem são? - ciborgues, NÃO! Borgs! Todos inimigos, todos caçados até a extinção. Grande guerra, guerra no Universo, raça muito poderosa, deu-nos a energia infinita - para quem? - para todos, para ninguém, rompeu o Universo, dividiram o Universo, os primeiros - em que? - precisava anotar.
O que?
O que tinha de anotar?
Algo importante. Sobre o Universo. Sobre os primeiros, sobre os Jedis.
Sim, não. Estava esquecendo - o que devia lembrar? - muita coisa ao mesmo tempo, duas mentes, um corpo, uma alma. Existência fora do tempo.
Olhou ao redor procurando algo para escrever, mas não achou. Sentiu sono. Desabou no chão em poucos segundos. O esforço ao qual foi submetida agora cobrava o seu pagamento.
(*) Sim, são os Vorlons de Babylon 5, mas como Jevlack os conhece já é uma outra longa história.
****
Capítulo 14
Janus olhou friamente ao seu redor. Vênus, Marte e Netuno estavam despedaçados, carbonizados, mortos. Finalmente estava chegando ao final daquele conflito. Mas onde estava Júpiter?
Ampliou seus sensores. Era difícil capta-lo com tanta energia residual resultante de seu último ataque. Felizmente não havia atmosfera no satélite. Se estivessem no planeta, as ondas de choque resultantes na atmosfera causariam uma extinção global.
"DEFESA!"
Ele se voltou para ficar de frente a bola de energia que fora lançada. Ergueu as duas mãos e um escudo em forma de disco composto de grávitons e de energia se formou. A esfera de energia concentrada colidiu com este e uma bola explosiva de fogo, similar a uma labareda solar surgiu como resultado. Uma cratera com quase quatro quilômetros foi aberta. Mas uma para se juntar as milhares daquele corpo celestial.
Janus nada sofrera, mas os corpos dos outros foram consumidos no processo. Júpiter olhava para ele, incrédulo. Certamente não acreditava que o senhor do Olímpo não podia destrui-lo.
- Acabou Júpiter - disse ele, as palavras se propagando no vácuo como se estivessem em uma atmosfera, de uma forma que humanos seriam incapazes de conceber - a nossa época deve se encerrar agora.
Os olhos de Júpiter brilharam com uma cor vermelha, refletindo o seu ódio.
- Nós somos deuses! Merecemos a adoração dos mortais. Eles são a nossa cria, nós lhe demos a civilização.
- Primeiro - disse com um certo pesar - não somos deuses - ele fechou o punho de sua mão direita e energias inconcebíveis começaram a se acumular - segundo, somos tão mortais quanto eles, apenas vivemos mais - as energias crescentes formaram uma bola energética muito brilhante - terceiro, depois de alguns séculos vocês simplesmente esqueceram o que eram, e usaram os humanos como brinquedos. Eu disse o que ocorreria se não mudassem de postura. Ficaram tão arrogantes e com tantos sentimentos humanos que se auto limitaram a enfrentarem criaturas fracas. Os doze juntos não foram páreo para mim, apesar de todos sermos originalmente da mesma raça.
A bola de energia brilhava tanto como uma pequena estrela. Sua camada mais externa era azulada e tênue, surgindo depois algo similar a chama amarelada com interior vermelho. Mas no centro dela, era negra. Uma esfera negra gerada por uma concentração extraordinária de grávitons. Na verdade, era o detonador daquela arma.
- E você, deus da paz, se considera melhor?
- Eu nunca me interessei em saber se sou melhor ou pior, apenas observo e dou conselhos. Mas agora eles tem de ficar por conta própria. Adeus Júpiter.
Como se fosse um pugilista, Janus deu um potente soco no vazio, enviando a bola de energia para Júpiter. Em poucos microsegundos ele fez um escudo similar ao de Janus, mas não com a mesma eficiência. A bola energética varou o escudo e atingiu o seu peito em cheio. A surpresa em seu rosto ficou marcada em Janus por muitos séculos. Uma explosão muito superior a primeira ocorreu na superfície. A primeira cratera foi expandida em mais cento e oitenta quilômetros, formando montanhas diversas nas bordas, fixando aquela forma para sempre. No futuro, aquela cratera seria usada para construir uma das primeiras cidades humanas fora do seu planeta de origem.
Estava acabado. Ele era o último de sua raça naquele sistema, talvez na galáxia inteira. Isso, claro, se Apolo realmente estivesse morto. Olhou para o planeta azul ao qual aquele satélite orbitava. O povo daquela pequena esfera estava agora por conta própria. Ninguém mais iria interferir no seu desenvolvimento.
Um grande pesar se abateu sobre ele. Para garantir a liberdade que uma raça possui de se auto desenvolver - e até de se auto destruir - ele praticamente extinguira os últimos da sua. Não deixava de haver uma certa ironia nisto.
E, novamente, se amaldiçoou por ter tantas coisas herdados dos humanos com exceção da capacidade de chorar.
Jevlack levantou-se incrivelmente assustado. Seus olhos estavam arregalados. Se sua pele tivesse glândulas sudoríparas, ele estaria banhado em suor.
"Processador Central Acionado. Grande atividade glandular cerebral devido a estímulos abruptamente cortad...."
Acordei em pânico! Satisfeito? Que diabos de pesadelo foi este? Ou melhor... isto foi um pesadelo?
" Considerando o seu estado emocional, sim"
O que aconteceu com o pesadelo normal? Pessoas guerreando, se esquartejando, Os cogumelos atômicos? As crianças que eu via morrer e ficava indiferente?
"Indeterminado"
"Você não está ajudando muito."
"Melhor determinação possível: Lembranças de ações antigas e/ou formatadas em conotação confusa"
"Confusa? Foi muito coerente para mim. Júpiter, quem diabos é esse cara?"
"Divindade mitológica humana. Também chamado de Zeus. Vênus também era chamada de Afrodite, Marte de Ares, Hércules de Herac..."
Tá bom, já entendi. E quem era Janus?
"Você."
Gracinha! Não estou falando de meu nome original, mas se houve alguma "divindade" com este nome."
"Não há dados para fornecer resposta."
Então eu arrumo os dados.
- Computador, pesquise em mitologia terrestre. Palavra chave Janus. Há alguma divindade assim?
"Aguarde... Busca concluída. Jano, um dos antigos deuses de Roma, representado com duas faces opostas, encontrado nas moedas romanas mais antigas início do séc. III a.C. Jano era o deus das portas em latim Janua ou Janus, e, mais genericamente das passagens, como a de um ano para outro. O 1º mês do ano, Janeiro e o primeiro dia do mês eram consagrados a este deus. As portas de seu santuário, no Fórum ficavam abertas em tempos de guerra e fechadas em tempo de paz."
Abertas em tempo de Guerra e fechadas em tempo de paz. Isso faria sentido para um deus da paz
Jevlack não estava mais "ouvindo" aquela matraca interna. Estava pensando na informação do computador. Século III antes de Cristo.
- Computador, existe alguma imagem deste Jano?
"Afirmativo"
- Apresente na tela.
Uma imagem de uma moeda muito marcada pelas eras surgiu na tela.
"Muito fotogênico..."
Apesar de muito danificada, aquela imagem era muito parecida com ele. Será que ele tinha mais de dois mil anos?
Aí estão seus dados. Agora, que diabos foi tudo isso?
"Aparentemente, a incursão ao qual você foi submetido..."
Incursão?
"Sua mente foi invadida, não se lembra?"
Pensei que fazia parte do sonho.
Não fez. Na verdade, é até possível que esta invasão o tenha desencadeado. Sua mente foi sondada, e muitas áreas antes inacessíveis agora estão ativas. No entanto, não é possível um acesso coerente. Seu corpo ainda irá estruturar estas áreas para ficarem mais aceitáveis. Continuando com explanação anterior: Aparentemente, a incursão ao qual você foi submetido deve ter ativado áreas de memórias antes inertes, devido a lesão cerebral adquirida no seu acidente. Quem quer que tenha feito tal ato, entrou em interface com a estrutura de sua mente, tornando-se, por alguns momentos, parte dela. Foi através desta interface que estas áreas de memórias foram acessadas, tornando-as aptas a serem novamente compreendidas. O sonho pode ser a junção de uma ou mais destas áreas, ou ser de uma lembrança específica."
Quem entrou na minha mente?
"Indeterminado"
Só Sarah tem tal capacidade. Mas nossas mentes nunca entraram em uma interface.
"Você nunca permitiu. Temia que a identidade dela pudesse ser apagada"
Eu?
"Tenho acesso ao seu subconsciente. Conheço muitas de suas motivações. Incluindo..."
Não estou interessado. Conclusão final?
"Aparentemente, você é Janus, um deus referenciado mitologicamente, e exterminou os deuses do Olimpo, que, talvez, fossem como você. A tese de que possuí suas próteses muito antes sequer de ter embarcado na Albatroz recebeu um novo item a favor. E, complementando, devia ficar contente do mês Janeiro ser originário de seu nome."
Ainda tenho que agüentar isto. Desligue-se.
"Processador Central Desativado"
Sem discussão desta vez?
Levantou-se da cama e olhou mais uma vez para a imagem da moeda mostrada no monitor. Jano. Em latim Janus - seu nome verdadeiro - um deus praticamente esquecido, mas contemporâneo dos deuses do Olimpo. Júpiter - ou Zeus, como os romanos o chamavam - o chamou de deus da paz no seu sonho. Seria possível?
Bom, era um mistério para ser esclarecido um outro dia. Agora, estava mais interessado em saber quem poderia ter invadido sua mente, e que informações poderia ter obtido. Se foi feita uma interface, então esta pessoa teria acessado totalmente estas áreas de memória que foram reativadas. Verificou o horário e viu que tinha dormido por dezenove horas. Um tempo incomum dado o seu histórico.
Arrumou-se o mais rápido possível e seguiu para a ponte. Quem o viu passando pelo caminho, sentiu arrepios na espinha. Seu semblante estava frio e assustador, mas parecia que alguma coisa estava emanado dele, algo que assustava.
Quando chegou a ponte, Armando informou que o grupo já tinha encontrado o local das primeiras escavações e, aparentemente, tinham localizado mais um fóssil, há oito quilômetros de distância do ponto original.
Jevlack ignorou-o e chamou Moedh para uma conversa em um canto da ponte. Deu algumas instruções a ele em voz baixa por alguns minutos e, logo depois, Moedh saiu. Sentou-se na cadeira do comando e olhou a tela. Ela mostrava a imagem captada por uma das sondas, um gigantesco vale arenoso.
- Além de acharem outro fóssil, o que mais aconteceu enquanto estive... indisponível?
- A paleontóloga Ghender melhorou de sua reação adversa a vacina e se integrou ao grupo - respondeu Armando - mais nada.
- Muito bem, vamos fazer a nossa parte. Vamos explorar o anel de asteróides deste sistema, e confirmar se alguns deles realmente não são daqui. Alferes Marlene, siga para o maior agrupamento dos asteróides. E, Armando, informe ao grupo que estaremos um pouco afastados.
- Sim senhor - responderam ambos.
Eles notaram que o capitão estava muito mais frio depois do seu descanso.
Com maestria e calma, Ghedes varria a poeira daquilo que provavelmente era o osso do fêmur da criatura. Não iam liberta-lo totalmente da rocha agora, apenas ter uma idéia de onde os ossos estavam para então remover toda a camada junta. A limpeza seria feita com mais tranqüilidade no laboratório.
Mas já estava impressionado. Aquilo era provavelmente um kartoss, uma criatura nativa de Klin, de doze milhões de anos atrás. A exemplo dos outros fósseis, não fazia sentido estar alí. Não só eram de épocas diferentes, mas de planetas diferentes.
Pelo menos a análise geológica explicou o porque deles estarem bem preservados. Um vulcão - cujo cume hoje não existe mais - soterrou todos eles naquela época com cinzas. Não deixando nada para microorganismos consumirem. Ficaram tão bem envelopados na cinza que acabou sendo equivalente a estarem em uma cápsula do tempo.
Levantou-se e esticou as costas. Ficara curvado por horas. Olhou para o ceu avermelhado e viu no horizonte a nuvem de poeira da manhã. Era hora de se recolher a barraca e esperar a tempestade matutina passar. Eram regulares como um reglógio. Na metade do período da manhã até a metade do dia, depois algumas horas de calmaria e, então, uma nova tempestade de areia no fim da tarde.
Entrou no transporte - onde Kansha estava aguardando - e seguiram para o acampamento. Chegariam em alguns minutos.
- Satisfeito com os seus ossos? - perguntou ela, mais em tom de chacota do que de desprezo.
- Há minha cara... é lamentável que você não compreenda a importância de pesquisar o passado. As criaturas que já não existem mais.
- Para que? Se morreram, eram fracas, ou não se adaptaram. Por que estudar os fracassos?
Ele a olhou com uma certa surpresa. Até que ela conhecia um pouco de biologia.
- Pelo menos, descobriremos em que fracassaram e podemos cuidar para não fracassarmos também.
Ela grunhiu alguma resposta meio sem sentido. Alguns segundos depois, o transporte pousava ao lado do outro.
Assim que saiu, seguiu para a tenda central de pesquisas. Queria saber o que Binacer já teria descoberto com as amostras colhidas no início do dia. No caminho, percebeu que Joana estava na barraca de Alderik. Provavelmente sendo examinada para que fosse atestado de que estava bem. Iria conversar com ela mais tarde.
Ele não reparou que Kansha olhava fixamente o horizonte e farejava o ar.
- Foi incrível! Tantas imagens... tantas respostas... mas só me lembro das perguntas. Não me lembro de muita coisa depois que ele me expulsou.
Alderik olhava para Joana com um certo interesse. Aquele dispositivo em sua cabeça evitou que ela fosse morta pela retrocarga psíquica que Jevlack emitira, coisa que infelizmente ela não possuía. Evitaria de ter ficado inconsciente por horas. Voltou a fazer mais leituras no cérebro de Joana. Estava muito transtornada por não ter ficado nenhuma lesão nele.
- Eu sei - disse ela de forma casual - estava junto com você. Mas não tive a sua sorte. Também recebi a descarga dele, e desmaiei por algum tempo. Felizmente todos estavam dormindo e não perceberam nada.
- Dormindo?
- Você esteve na mente dele por cerca de doze horas - explicou - não deve ter reparado na passagem de tempo.
- Tempo é o que mais acontecia por lá - replicou ela olhando para Alderik fixamente - percebeu que ele mantém um elo mental com alguém do passado?
- Sim - respondeu simplesmente - uma imediato da USS Atlantis. Uma de nossas naves fantoches desaparecida. E não acredito que seja do passado.
- Como sabe disso? E porque não para de analisar minha cabeça? - ela já estava irritada com aquele tricorder zumbindo nas suas orelhas.
- Andei investigando esta manhã. Aproveitei para enviar tudo o que você descobriu para o departamento. Estávamos conectadas, lembra-se? . Sua missão está terminada. Temos que cuidar agora para retornarmos vivas. Antes que o capitão descubra quem foi que invadiu a sua mente. Creio que você se lembra do que ele lhe disse antes de expulsa-la de lá. Quanto a análise, apenas quero ter certeza de que não houve nenhuma lesão. Eu recebi apenas um impacto marginal, mas você recebeu a descarga inteira. Mas não estou achando nada de errado, o que considero uma lástima.
- Eu também não morro de amores por você, muito obrigada.
Joana saiu e foi até a tenda de pesquisas. Iria manter a sua personificação até saírem dali. Alderik guardou o tricorder e pegou o comunicador especial que tinha escondido por sob sua cintura e o acionou. Um teclado reduzido similar a um antigo taquigrafo era a única forma de se enviar uma mensagem.
Ela tinha confirmado o que se suspeitava. Quando Jevlack esteve na Atlantis, saiu de lá com um elo mental formado com Sarah. Não que agora fizesse muita diferença, Sarah estava desaparecida.
Mas não morta. A Atlantis desapareceu sem vestígios, mas o elo mental que Jevlack está mantendo não deixa dúvida de que há sobreviventes. Provavelmente Sarah está presa em algum tipo de interface dimensional, isso explicaria a estranha natureza daquele elo. Também mostrava que Jevlack era provavelmente da mesma raça que construiu a base Antares.
Digitou a informação com rapidez e a enviou. Na nave, um dispositivo receptor em seus aposentos captaria o sinal e o reenviaria até o departamento, usando os recursos da nave. Não tinha sido difícil instalar aquilo, mas sabia que em breve - talvez uns dois ou tres dias no máximo - o capitão iria descobrir aquilo. Devia estar revistando a nave inteira agora, buscando por equipamentos do departamento.
Sabia que ele fatalmente iria descobrir sobre Joana e sobre ela mesma. Mas já estava resignada com o que poderia ocorrer. Tinha assumido o cargo de comando da Divisão "C" fazia uns poucos meses, e tinha se decidido a resolver aquela questão sobre o que estava mudando no corpo de Jevlack - vários relatos dispersos demonstravam que ele estava diferente de antes - e aproveitar e descobrir se ele sabia o que tinha ocorrido com a Atlantis. Conseguira as duas coisas. Não fazia diferença ser descoberta agora. A informação tinha sido enviada. Pena que talvez não vivesse para comemorar.
Como os humanos diriam, eram os ossos do seu ofício.
Moedh entrou na sala de conferências e, ao centro desta, o capitão lia quatro monitores ao mesmo tempo, enviando informações em alta velocidade. Ainda se surpreendia com o que ele podia fazer, e ficava mais surpreso dele normalmente não usar seus outros recursos.
- Sim? - questionou ele sem desviar a atenção dos monitores.
- Nas últimas oito horas, o grupo avançado encontrou mais um fóssil, desta vez do planeta Betan. Estão começando a questionar outras possibilidades para isto. Querem que usemos os nossos sensores em órbita baixa para esquadrinhar a região. Kansha também informou que a atmosfera daquele planeta aparentemente está pregando peças no grupo. Parece que ocasionalmente eles percebem algo se movendo a distância, mas quando observam melhor, não encontram nada.
- Faremos isto há dois dias do fim da missão. Por enquanto, não quero ficar muito próximo daquele planeta. Talvez eu não me controle o bastante.
- Senhor?
- Esqueça. O que mais?
- Detectamos algumas monitorações. Provavelmente da nossa escolta camuflada. No entanto, captamos três grupos destas. Algo muito peculiar.
- Devem ser reflexos da nebulosa - replicou calmamente, ainda atento aos monitores - e quanto ao que pedi para fazer?
Moedh hesitou um pouco.
- Achei isto nos aposentos da médica chefe. Estava conectado as nossas transmissões.
Ele pôs uma caixa pequena, com algumas luzes piscando na mesa. Pela primeira vez desde que entrara, ele desviou o olhar dos monitores e olhou a pequena caixa. Pegou-a com a mão direita e seus olhos subitamente mudaram de cor. Ficaram levemente azulados. Na verdade, ele estava analisando uma centena de dados de sua visão espectral daquela caixa. Alguns segundos depois eles voltaram ao normal.
- Alguém mais sabe disto?
- Não senhor.
Ele esmagou a caixa com a mão e jogou os minúsculos pedaços como se fossem poeira.
- Então, ninguém deve saber.
Ele voltou a olhar os monitores. Acionou alguns comandos para eles retrocederem um pouco nos dados mostrados.
- Acesse o computador e localize todas as fichas que Alderik fez. Descubra se algo foi aparentemente modificado. Não que eu acredite nisto. Ela provavelmente é muito meticulosa. Mas talvez alguma pista acabe surgindo.
- O que devo procurar?
- Um telepata - disse ele friamente - provavelmente alguém do grupo avançado no planeta.
- Sim senhor.
Moedh saiu e ficou um pouco receoso. Jevlack não parecia ser do tipo vingativo. Estava mais para o tipo de pessoa que usa as coisas ao seu favor. Sabia que ele andava flertando com a médica chefe. Descobrir que alguém como ela poderia te-lo traído seria algo insuportável. Pelo menos para um klingon.
Daria sua honra para saber como ele resolveria o assunto.
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Capítulo 15
Por vinte e seis dias, o grupo avançado teve a incrível marca de ter localizado um fóssil por dia - aquelas sondas eram excepcionais quando sabiam que elementos químicos procurar - algo extremamente raro, seja em qualquer planeta. Mas praticamente todos eles eram de criaturas de outros mundos. Não podiam estar ali. Todas foram datadas como da mesma época, e todas foram soterradas por cinzas de um vulcão que estava ativo naquele período.
Algo havia trazido aquelas criaturas para lá. Disto todos - até mesmo Kansha - estavam ficando convencidos. O problema era como e por que. Um fato curioso era que todas as análises nos ossos das criaturas indicaram que elas sofreram de inanição, como se tivessem morrido de fome. Outra curiosidade, era que todos os fósseis foram encontrados de forma que formavam dois semi-círculos, distantes um do outro por cerca de trezentos quilômetros.
Usando os dados geológicos coletados, Morjan percebeu que ambos os semicírculos formavam um único círculo há tres milhões de anos. Ou seja, aparentemente todas as criaturas saíram de um ponto em comum dentro deste círculo. Atualizando os dados para a época atual, detectou qual o provável local onde estaria este ponto e estava agora pairando por cima dele.
Joana estava junto com ele - ela não teve muito o que fazer, já que sua área não estava sendo muito exigida, nenhum outro fóssil humanóide fora encontrado - de forma que estava mais fazendo companhia do que efetuando algum serviço.
- Bom - disse ele - aqui estamos.
- Vermelho, poeirento e seco, como todos os outros locais - comentou Kansha.
- Sim - interveio Joana, que já estava muito indisposta com ela - mas em todos os outros, achamos algo. Talvez aqui encontremos alguma explicação para a existência destas criaturas aqui.
- Curiosidade humana - resmungou ela - mais um item ridículo de sua raça.
- Já chega vocês duas - disse Morjan - se querem discutir, que o façam em outra ocasião.
- Sim senhor - disse Kansha. Afinal, ele era seu superior. Em termos, ao menos.
- E você, não mostre a língua para ela de novo. Mais cedo ou mais tarde ela vai considerar isto um ato de ofensa e não de infantilidade - complementou dirigindo-se a Joana.
- Certo - disse ela meio encabulada - vou me controlar.
- Ótimo.
Morjan pousou a nave auxiliar e foi até a área de carga. Kansha saiu e foi sondar as vizinhanças. Não procurava por inimigos - até o momento, não acharam nada por lá - mas sim por armadilhas do terreno. Eram comuns valas escondidas pela areia levantada pelo vento, de forma que muitos do grupo já tiveram seus tombos ocasionais, incluindo ai ela mesma.
Provavelmente eram estas valas que estavam dando a ilusão de que algo se movia a distância, mas ela não acreditava muito naquilo. Por várias vezes, teve a certeza de ver algo na linha do horizonte. Algo que os observava. Mas, fora os seus olhos, nenhum outro de seus sentidos percebera absolutamente nada.
Morjan já estava ignorando aquela sensação. Jefferson disse que o mesmo tinha ocorrido da última vez em que estiveram por lá. Abriu o compartimento de carga e entrou no pequeno laboratório de sensores.
Tinha sido montado lá para facilitar a localização dos fósseis e da área a escavar. Tinha sido tão eficiente até então que já se cogitava sugerir a criação de uma nave padrão para este tipo de pesquisa.
Acionou os comandos e viu a auto análise. Tudo perfeito. Pegou algumas caixas pequenas em forma de paralelepípedos e dividiu alguns com Joana. Ambos começaram o por as caixas no chão, de forma a formar um círculo em torno da nave, com um raio de vinte metros. Kansha ia na frente para verificar as valas ocultas - o vento estava fraco naquele horário, de forma que não havia muita necessidade desta checagem, mas era um função que ela teimava em fazer.
Depois de tudo pronto, voltaram para a nave e Morjan acionou o equipamento. As pequenas caixas começaram a emitir sinais de infra som, para fazer a solo vibrar em um freqüência espeçifica. O equipamento da nave captava o eco destas vibrações e traduzia em imagens. Era um tipo de eco radar muito sofisticado, com capacidade de sondar até seis quilômetros abaixo do solo.
Se não achassem nada, recolheriam tudo, iriam até outro ponto e começariam tudo de novo. Até aquele dia, encontravam o que procuravam na primeira tentativa.
Kansha voltou a olhar para o horizonte. Novamente vira algo suspeito. Desta vez, estava disposta a investigar.
- Eu já volto - disse ela sem nem esperar resposta.
Morjan se voltou a tempo de ve-la correndo. Olhou para onde se dirigia, mas não foi capaz de perceber nada. Ignorou aquilo e voltou a verificar o resultado da sondagem. Uma imagem começou a se formar. Era de algo cuja densidade era diferente das rochas daquela região. Estava há cerca de dois quilômetros deles, e enterrado uns cem metros abaixo do solo. Joana também percebeu e entrou para ver melhor.
- Deuses! - exclamou ela ao ver a forma que a imagem estava tomando.
- Kansha devia ver isto.
- Esqueça ela. Esta muito ocupada caçando fantasmas.
Olhou na direção ao qual ela seguiu e não viu nada. Começou a ficar preocupado. Acionou o seu comunicador insígnea.
****
Kansha corria desesperadamente. O que quer que estivesse perseguindo, não poderia ser uma ilusão. Várias vezes viu - o que parecia ser um vulto - se desviando de valas abertas pelo vento no caminho. Mas, fosse o que fosse, era mais rápido. Em poucos minutos, praticamente sumiu de vista.
Ela parou para tomar fôlego e olhou ao redor. Não viu nada de diferente. Uma mancha escura a distância marcava onde estava a nave auxiliar. A sua frente estava apenas o caminho pelo qual a sua "ilusão" seguiu. Olhou para o chão para procurar algum tipo de rastro, mas nada viu. Mesmo que houvessem pegadas, o sopro constante da areia as apagariam em poucos segundos.
Não tinha nada para provar que estivera perseguindo algo, salvo seu instinto. Estava odiando aquele planeta. Vigiar um monte de crianças desenterrando ossos velhos. E nem um desafio decente a vista. Salvo o que ela agora já estava realmente acreditando ser uma ilusão.
"Morjan para Kansha. Responda!"
- Kansha na escuta - disse entre uma respiração e outra - pode não acreditar em mim, mas tenho certeza de que era alguma coisa.
"Isso não importa. Se há algo, não nos fez nenhum mal, e neste caso somos invasores. Volte para cá. Achamos algo que vai interessa-la"
- Mais ossos?
"O que quer que seja, tem uns duzentos e cinqüenta metros, e acho que você está bem em cima dele"
Ela olhou para baixo e viu apenas a areia. Sentiu-se como uma tola pela sua ação. Voltou lentamente para a nave, sempre olhando para trás, na vã esperança de ver algo se movendo novamente.
Mas nada se moveu, com exceção da areia sob a ação do vento.
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"Diário de bordo, data estelar 75561.2. Estamos retornando para a órbita do planeta Crepúsculo, após encerrar a análise da superfície dos outros astros deste sistema. Confirmamos que todos sofreram impactos de meteoros cuja composição demonstra serem mais antigos que este sistema solar. Também encontramos vários asteróides com esta mesma composição. Faremos uma última varredura do planeta e seguiremos rumo ao quasar vizinho que sobrou da supernova que o originou. Iremos verificar se há algum corpo por lá com composição similar aos que encontramos aqui. Se isto for confirmado, então realmente teremos a prova conclusiva de que este sistema foi bombardeado por pedaços dos planetas que orbitavam a estrela hoje morta"
Jevlack olhou para o planeta mostrado na tela. Observou Marlene e viu como ela estava muito bem a vontade em seu posto. Sua mãe ficaria orgulhosa. Depois que a missão terminasse, talvez lhe contasse a forma pela qual ela tinha morrido.
Armando ficara muito folgado no último mês, de forma que ele e Moedh andaram trocando muitas informações culturais - e receitas de bebidas - neste tempo.
Moedh em breve retornaria a sua nave, e Kansha ficaria como sua nova batata quente. Mas não era muito difícil de resolver isto. Bastava retornar a capital Klingon, ir ao auto conselho e indica-la novamente ao cargo de guerreira. O seu status junto ao governo Klingon lhe permitia isto.
Claro que ela começaria do zero novamente, mas isto já não seria assunto dele. Não lhe interessava saber o porque de terem eliminado sua patente - com certeza, foi uma forma menos problemática de resolver algum escândalo - muito menos se ela iria recupera-la ou não.
Seu único problema que iria querer resolver era com Alderik e com o telepata que devia estar no planeta junto com ela. Enfrentar a Dissuasão era como jogar xadrez. As vezes se ganha, as vezes se perde. Andara ganhando muito ultimamente, e não estava muito preocupado em ter uma derrota agora.
Ele queria saber o que tinham conseguido obter dele. Pois, com certeza, sabiam de coisas que ele não sabia. Muitas áreas antes inacessíveis agora estão ativas. Fora a análise do seu computador interno. Estas áreas podem ter sido "lidas" pelo invasor. E ele queria saber o que estava escrito nelas. Ou então garantir que ninguém soubesse disto.
- Estamos em posição senhor - disse Marlene - Órbita padrão?
- Órbita baixa - disse ele - quase roçando na atmosfera.
Ela ficou um pouco intrigada com aquilo, mas obedeceu sem questionar.
- Algum motivo para isto, senhor? - perguntou Moedh.
- Sim, não gosto que me perguntem o óbvio. Da próxima vez vou pedir para pousar a nave - disse com um sorriso.
- Então terei que dizer que isto não é possível e blá, blá, blá. - retrucou Marlene, entrando na brincadeira.
- Não me tente - tornou o capitão olhando com uma cara de desafio.
- Depois que Morjan estiver aqui, e colocarmos nossos assuntos particulares em dia, quem sabe?
- Chega de brincar. Armando, contate o grupo avançado e pergunte qual a área que eles querem que nós chequemos com os sensores. Foi por isso que pedi a órbita baixa.
- Tinha até me esquecido - comentou Moedh.
Armando fez a comunicação e seus olhos ficaram arregalados. Moedh percebeu isto imediatamente.
- Algum problema senhor Armando?
- Eles... acharam uma nave enterrada no planeta. No mesmo extrato dos fósseis. Acreditam que pode ser a responsável por eles estarem lá.
Marlene olhou para ele, Moedh, por sua vez, olhou para o capitão.
- Onde?
- Latitude 26, 3',4''. Longitude -20,12',1''
- Esquadrinhe com os nossos sensores.
- Sim senhor.
Na tela, começou a aparecer a imagem da região. Uma sondagem penetrante revelou a forma da nave. Ela lembrava as arraias dos oceanos terrestres, mas sua frente estava aparentemente cortada. Visões longitudinais revelaram que a parte que estava embaixo estava muito dilacerada. Sondagens mais amplas revelaram um trilho abaixo da camada de rocha. Provavelmente causado por um pouso forçado.
Detalhes das sondagens revelaram detalhes de seu interior. Haviam equipamentos, salas que aparentemente eram laboratórios, e um outro fóssil humanóide.
- Transmita isto ao grupo avançado - disse o capitão - informe que se quiserem investigar o interior, isto será feito por uma sonda a ser teleportada. Moedh, tome já as devidas providencias para isto.
- Imediatamente senhor.
Moedh saiu da ponte. Ele tinha ficado muito animado com aquela descoberta.
- Nunca se sabe onde um tropeção pode nos levar - disse para Armando, lembrando-o de como tudo aquilo tinha começado, anos antes.
- Isto que é tropeçar em uma descoberta - comentou ele.
****
Foram enviadas três sondas para o interior da nave, mas todas acabaram tendo o mesmo problema. Entravam em pane e paravam de funcionar. Isto fez Jefferson decidir não enviar ninguém para o interior dela, apesar dos protestos de Guedes de Binacer. Não haviam garantias de que trajes espaciais pudessem protege-los do que quer que tivesse afetado as sondas.
Felizmente, antes de falharem, elas enviaram muitos dados interessantes. O mais elucidador foi do fóssil humanóide. Era idêntico ao outro localizado na superfície do planeta. A explicação era muito clara agora. Aquela nave estivera coletando espécimes por diversos planetas, e, por algum motivo, sofrera um acidente naquele. As criaturas capturadas saíram da nave destruída e morreram naquele planeta, de fome e provavelmente intoxicados pelas criaturas nativas. Um vulcão próximo teria entrado em erupção cobrindo os seus restos, preservando-os até que Jefferson teria tropeçado em um deles, que fora descoberto pela ação do vento.
Claro que agora teriam que descobrir que raça era aquela, que singrava o espaço tres milhões de anos antes de suas civilizações sequer existirem. Além disso, a sua forma humanóide estava corroborando para a antiga teoria de que todas as raças humanóides atuais são restos de colônias mais antigas.
Os poucos dados tecnológicos da nave que puderem ser detectados eram excepcionais. Eles aparentemente não usavam o conceito de dobra espacial, mas algo similar a um salto quântico. Pelo menos as bobinas que foram analisadas antes da sonda pifar indicavam que isto poderia ser feito.
O prazo da pesquisa estava se esgotando. Era hora de arrumar as coisas e voltar para a nave. A nave auxiliar iria levar de volta os equipamentos e alguns espécimes nativos. Não iriam usar o teleporte pois não queriam que o mesmo filtrasse algumas substâncias, o que poderia falsear o resultado final.
No fim de tudo, a missão fora um sucesso, e com uma outra a ser enviada, para explorar aquela nave que eles estavam deixando. Mesmo porque não tinham o equipamento necessário para pesquisa-la. A função da Chagas era basicamente de analise de superfície planetária, de forma que todos os seus equipamentos são voltados para isto. Estudo tecnológico estava fora de sua alçada.
Joana, Guedes, Alderik, Kansha e Morjan retornaram a Chagas na primeira nave auxiliar. O restante iria depois que terminassem de empacotar os outros fósseis. Trabalho bastante para algumas horas.
****
Joana olhou para a entrada do hangar da nave e relaxou. Finalmente sua missão estaria no fim. Não houve nada que indicasse que o capitão estava desconfiado dela em nenhum momento. Portanto, não tinha por que se preocupar agora, ao contrário do que Alderik tinha lhe confidenciado pouco antes de embarcar.
Assim que chegaram, notou que o capitão estava no hangar. Aí sim, ficou preocupada. Ele não teria motivo algum para estar lá. Decidiu ser a última a sair.
Assim que Alderik saiu, ele foi em direção dela. Joana ficou um pouco aliviada com aquilo.
- Doutora - disse ele friamente - quero conversar seriamente com a senhora...
Então ele a observou, e seus olhos mudaram de cor, ficando levemente azulados. Ela sabia o que aquilo significava. Ele a estava sondando. Ia entrar em pânico mas não houve tempo. Tudo ocorreu muito rápido.
- Pensando bem, eu falo com você depois.
Ele a agarrou pela lapela e começou a arrasta-la pelo hangar. Como se fosse um mero trapo. Todos ali olharam atônitos para aquilo, mas nada fizeram. Também, sem um phaser, provavelmente ninguém iria discutir com ele.
Ela tentava inutilmente se libertar. Era como se soltar de um raio trator. Ele a arrastou até a sala de conferências e a arremessou contra uma das cadeiras. O impulso foi tanto, que ela e a cadeira deslizaram até baterem fortemente contra uma parede. Quando abriu os olhos ele estava diante dela, debruçado sobre a cadeira. Seus olhos brilhavam - não era efeito de luz nenhuma, estavam brilhando mesmo! - seu rosto era incrivelmente impessoal. Era algo que ela nunca tinha enfrentado antes.
- O que você arrancou de mim? - vociferou ele.
- Eu...
Sua voz sumira. Estava paralisada de medo.
"Capitão" - era Moedh no comunicador - "me informaram de um incidente no hangar..."
- Não quero ser interrompido - vociferou em resposta - tire o grupo avançado do planeta e se prepare para partir.
Voltou sua atenção para ela.
- Você entrou na minha mente, acessou partes que eu nem sabia que existiam. Quero saber o que descobriu.
Aquilo a lembrou de algo. Algo que vagamente esteve em sua consciência após o incidente. Mas lhe fugiu novamente.
"Capitão, a médica chefe quer falar com o senhor"
- Já disse que não quero interrupções - berrou em resposta - estou ocupado pensando em como matar alguém aqui!
Agora sim, ela temeu pela sua vida. Tudo o que Alderik tinha lhe dito sobre os desaparecidos encarregados de vigia-lo veio a sua mente. Do jeito que ele estava, poderia muito bem mata-la.
- Vamos de novo, minha cara. Ou você me diz o que descobriu, ou cuidarei para que leve isto para o túmulo.
- E-e-eu...
"Capitão!"
- Mas que inferno! - aquilo estava começando a ficar ridículo - qualquer que seja o problema, se vire! Só me chame se os... sei lá. Romulanos aparecerem!
Voltou a se dirigir a ela, mas antes que pudesse falar, o alerta vermelho foi acionado.
"É justamente isto senhor"
- Isto o que?
"Os romulanos acabam de aparecer em nossa frente. Exigem falar com o senhor."
Ele olhou para a parede com uma expressão típica de quem sofreu alguma espécie de trote. Seus olhos não brilhavam mais.
- E eu nunca acreditei naquela expressão de que "tudo acontece comigo".
Agarrou ela pela lapela novamente e a arrastou para fora da sala. Acabaram dando de cara com Kansha, que aguardava do lado de fora da porta.
- Capitão? - começou ela.
- Tome - ele a empurrou para a Kansha - segure-a até eu resolver alguns problemas.
- E o que eu faço com ela?
- Sei lá... bata nela até suas mãos doerem - disse ele seguindo pelo corredor.
- O que? - perguntou Joana incrédula.
- Bem... já que é uma ordem - Kansha sorria muito prazerosamente.
- E você, tome vergonha na cara e se defenda - disse Jevlack pouco antes de entrar no turboelevador.
O primeiro golpe foi de Joana, uma joelhada certeira no rim de Kansha.
****
Capítulo 16
Quando chegou a ponte, viu que Aderik estava lá. Na tela, o comandante da nave romulana aparentava impaciência.
- Capitão... - começara ele.
- Só um minuto - cortou ele ríspidamente - Doutora, quero um resumo de tudo o que enviou ao seu departamento. Depois disto, considere-se presa. Moedh, cuide disso depois.
Todos acharam aquilo estranho. Uma nave romulana estava ali, ameaçando-os, e ele a estava ignorando?
- Capitão... - chamou novamente o romulano.
- Calma! Sua vez vai chegar - cortou ele novamente - Armando, informou a situação ao nosso grupo avançado?
- Ainda não, senhor - respondeu ele também estranhando aquilo.
- Capitão - o romulano já estava ficando sem jeito - devo insistir...
"Capitão!" - era o chefe de engenharia - "Joana e Kansha acabaram de entrar aqui lutando feito loucas! E não estamos conseguindo separa-las"
Alderik olhou para ele, muito curiosa.
- Ignore elas - respondeu Jevlack - Há propósito. Quem está ganhando?
"Bom, está meio difícil de dizer, mas eu apostaria na Klingon"
- Cuide para que não atrapalhem seu serviço. Quero plena potência e esteja preparado para ações de combate.
- Capitão - tornou a insistir o romulano - eu exijo...
- Dá para parar de me interromper? Não vê que estou com muitos problemas aqui? Aguarde a sua vez.
A expressão do romulano era cômica. Todos na ponte já estavam imaginando que o capitão estava preparando alguma coisa, e só estava atrasando a exigência que o romulano iria fazer - qualquer que fosse ela - apenas para ganhar um pouco de tempo.
- Moedh, quanto tempo até nossa escolta aparecer?
- De trinta a quarenta segundos - respondeu ele.
- Escolta? - perguntou o romulano.
- Não falei com você, pare de ser mal educado interrompendo a conversa dos outros.
- Mas...
- Já disse para esperar! Que saco! Moedh, avise a nave escolta para aguardar um pouco. Talvez possamos resolver isto na conversa. Não quero ficar envolvido em um incidente entre klingons e romulanos.
- Klingons? - perguntou o romulano.
Ante o olhar feroz de Jevlack, ele apenas se encolheu um pouco e pediu desculpas.
- Sim senhor - disse Moedh contrariado.
Ele seguiu para o console de Armando, para fazer a transmissão. Jevlack soltou o ar de forma a formar uma bufada e encarou o romulano.
- Bem, agora, o que diabos você quer?
- Eu... err... - ele ficou sem jeito por alguns instantes - eu exijo dois prisioneiros de sua nave.
- Por que?
- Bom, quer dizer... acreditamos que um dos seus tripulantes é um espião que cometeu crimes contra o meu governo. Exijo a sua entrega imediata, bem como a sua presença, como responsável por este crime.
- Uma desculpa interessante. Se tivesse dito isto logo de cara talvez eu até acreditasse.
- Você não deixou.
- Eu estava ocupado - respondeu casualmente - de qualquer forma, não posso entregar alguém só por que você afirma que ele é um espião. Terá que seguir os canais competentes para isso. - depois completou em voz baixa - Não acredito que eu disse isso.
- Não temos tempo para tais formalidades. Enviaremos um comunicado ao seu governo depois. Agora, eu exijo a sua presença e da espiã.
Jelvack olhou desconfiado para ele.
- Espiã?
- Sim!
- E quem seria esta espiã? - disse olhando em direção a Alderik
- Seu nome é Joana.
- Há é? - havia uma mistura de surpresa e comicidade em sua voz.
Pressionou o seu comunicador.
- Jevlack para Kansha. Responda imediatamente.
Houve algum tempo de silêncio.
- Jevlack para Kansha, pare o que está fazendo e responda.
"Capitão, ainda estou..."
Ela não pôde terminar a frase. Um baque surdo seguido por um grito abafado de dor a tinha interrompido.
"Ela perdeu mais um dente" - era a voz de Joana.
Logo em seguida foi ouvido um grunhido contido dela. Provavelmente Kansha tinha dado o troco. Jevlack desligou o comunicador e olhou um pouco sem jeito para o romulano.
- Bom, como deve ter percebido, ela está meio ocupada no momento. Volte daqui a meia hora, quando a briga tiver acabado.
O romulano estava claramente ultrajado.
- Capitão! Devo dizer que a sua é a mais indisciplinada e caótica nave que já tive a infelicidade de conhecer. Como seu governo pôde permitir que tal coisa ocorresse?
- Devia ter visto há uns dois meses atrás - ele não continha o sorriso - era muito pior.
- Isto não interessa! Quero você e Joana aqui imediatamente.
- Como deve ter reparado, Joana está indisponível no momento. Mas... - ele se aproximou do console de Armando - ... vamos fazer o seguinte. Vou abaixar os escudos da nave - começou a digitar uma seqüência de comandos no console - e você mesmo pode nos teleportar. Eu estou na ponte, quanto a Joana, basta procurar a única pessoa com fisiologia betazóide a bordo. É ela.
- Betazóide? - inquiriu surpreso o romulano.
- Parece que não te informaram direito. É uma betazóide. Deve estar próximo de uma klingon no momento. Ou mais provavelmente apanhando de uma. Tudo o que tem de fazer é acha-la e nos pegar. Satisfeito? - ele olhou para Armando e completou baixinho - claro que eles terão de baixar os escudos para isso.
Armando indicou com as sobrancelhas que entendera o plano dele. As armas estavam prontas, bastava um único comando para que elas fossem liberadas e disparassem.
- Mas eu não garanto que, caso faça isso, não hajam retaliações - completou ele enquanto retornava a sua cadeira.
Na tela, o romulano fez um sinal com a cabeça para alguém que devia estar a sua frente. Deviam estar procurando por Joana. Após aguardar um pouco, ele sorriu.
- Não tememos suas ameaças - disse ele triunfante - sua nave não possui armas e a nave klingon, caso exista, não poderá se posicionar a tempo de nos impedir. Seja bem vindo a minha nave, capitão...
Os escudos da nave romulana abaixaram, e Armando prontamente acionou o comando. Os escudos da Chagas foram erguidos ao mesmo tempo em que uma saraivada de pulsares eram disparados a queima roupa. Quatro destes atingiram a nave em cheio, os outros foram rechaçados pelos escudos dela que foram emergencialmente reerguidos.
Jevlack ia dizer algo triunfante, talvez do tipo "eu avisei" mas não conseguiu. Quando sua boca se abriu, houve um grande solavanco na ponte. Os alertas foram acionados e avisos de que a órbita decaia perigosamente surgiram no painel da navegadora. Todos caíram ao chão devido a surpresa do ocorrido.
- Alguém pode me dizer o que foi que aconteceu? - perguntou o capitão tentando se levantar.
- A nacele a estibordo foi seriamente atingida - disse Armando, que foi um dos primeiros a reassumir o posto - a ejeção do plasma nos impulsionou em uma reentrada na atmosfera - ele fez mais algumas análises com os sensores - capitão, fomos atingidos por um torpedo fotônico vindo de uma nave classe excelcior. E ela agora esta se... camuflando?
Jevlack olhou para Alderik. Mas esta parecia estar tão surpresa quanto todos os outros.
- Como foi que passou pelos escudos?
- Pelo que posso imaginar, devia estar regulado para a mesma freqüência deles - respondeu Armando tentando localizar onde a nave estava agora. Mas ela tinha sumido. Tudo o que achou foi a nave klingon indo de encontro a danificada nave romulana.
- Se era uma nave federada, podemos ter sido traídos. Podem ter conseguido os códigos de dominação da nave com a sede da Frota - urrou Moedh, claramente alienado pela suspeita de traição.
- Se fosse isso - disse Jevlack indo para o console de Marlene - teriam nos desligado também. Doutora, aquele dispositivo nos seus aposentos também transmitia os dados da nave?
- Sim - respondeu ela que preferiu ficar sentada no chão - transmitia tudo, incluindo os painéis da engenharia.
Jevlack decidiu trucidar aquela vulcana mais tarde. Se houvesse um mais tarde. Estavam muito abaixo da órbita mínima de segurança, e, sem os campos de dobra, o motor talvez não tivesse potência para tira-los daquela situação. Coisa que Marlene confirmou logo em seguida.
- Capitão, não podemos sair da reentrada. Só podemos reduzir um pouco a velocidade, mas sem chance de sairmos. Teremos de evacuar.
- Ainda há um jeito. Jefferson a treinou na manobra de escape?
- Sim - disse ela arregalando os olhos - mas, nesta nave?
- Ela é menor que as outras, e tem escudos tão fortes quanto. Mas antes de começarmos, teremos de mudar a sua freqüência. Quando perceberem o que tentaremos fazer, irão nos atacar de novo. Engenharia, mude a freqüência dos escudos. E faça rápido senão nos queimaremos.
Os escudos foram prontamente desligados para a mudança de freqüência. O casco da nave chegou em alguns segundos a mais de seiscentos graus. Felizmente, a operação naquele tipo de nave era muito rápida.
"Pronto senhor." - Respondeu o engenheiro chefe.
- Bem minha cara - disse a Marlene - tente nos tirar daqui.
Marlene configurou os escudos para que tivessem a forma de um cone e embicou a nave para baixo, em direção perpendicular ao solo. Os motores estavam em plena carga e a área atingida pelo torpedo começou a ranger em protesto as pressões aerodinâmicas que estavam se refletindo nela.
Era uma manobra de último recurso para naves que entravam em uma atmosfera sem chance ou potência para sair. Ir de encontro ao solo com toda a velocidade, configurando os escudos para imprimir a menor resistência ao ar possível, e, a alguns quilômetros da superfície mudar esta configuração para algo similar a asas aerodinâmicas, para que a sustentação proporcionadas por elas mais a força do impulso conseguida na descida rápida, fornecesse potência bastante para atingir a velocidade de escape do planeta. Daí o nome da manobra.
Há dois quilômetros do solo, a nave desviou de forma a tangência-lo. Um gigantesco estrondo sônico causou a abertura de uma vala de trezentos metros por oitenta quilômetros de extensão. Vala esta que a atmosfera do planeta levaria uma semana para apagar. Os escudos foram modificados para a forma de asas e o ar ionizado logo a iluminou. Parecia uma nave fantasma sobrevoando o planeta.
Era o bastante, tinham força suficiente para sair de órbita. O problema era que aquela nave que os atacou ainda deveria estar por lá, aguardando por eles.
- Não entendo por que não usaram os phasers - disse Moedh assim que percebeu que iriam escapar de colidir contra a superfície.
- Não querem danos que possam ser ligados a armas exclusivas de naves da Federação - respondeu Jevlack - enquanto puderem, irão usar apenas os torpedos. E talvez seja mais do que o suficiente. Como estão os danos?
- A estrutura da nacele está integra, mas estamos perdendo muito plasma por ela. Talvez seja melhor a desligarmos.
- Ficaremos mais lentos ainda se o fizermos. - Contrapôs Jevlack - Marlene, assim que sairmos de órbita, siga para o cinturão de asteróides. Teremos alguma chance de nos esquivarmos por lá.
- Sim senhor.
- Agora, alguém tem alguma idéia de como enfrentar uma nave quatro vezes maior que a nossa?
- É como Davi enfrentando Golias - comentou Armando - só que Davi tinha uma funda para ajuda-lo.
Jevlack olhou para ele surpreso. Era a segunda vez que ele tinha uma idéia mirabolante. Pressionou o seu comunicador.
- Engenharia, faça o que puder para desviar toda a força possível para o raio trator e para os escudos de integridade.
Dirigiu-se para Aramando.
- Assim que aquela nave aparecer de novo. Aponte os pulsares para ela. Vai atrapalhar um pouco a mira deles.
- Sim senhor. Mas, e se usarem os phasres?
- Eu diria que podemos agüentar isso por uns dez minutos. Precisamos de dois para nosso pequeno truque. Que, se der certo, vou batizar de Manobra Armando.
Danker observou incrédulo a USS Carlos Chagas executar com perfeição a manobra de escape. Não esperava que aquela velha nave pudesse ser capaz do feito. Os escudos que Jevlack devia ter instalado nela deviam ser idênticos aos seus. E em uma nave pequena como aquela, era muito fácil modificar a forma deles.
- Estão fora de alcance, senhor. Colocaram o planeta entre nós e eles nesta manobra.
- Contorne o planeta e os pegue pelo outro lado. Quero todas as armas prontas. Como estão as outras naves?
- Estão lutando. Nossa missão já foi cumprida. Não há um real motivo para continuarmos a perseguir Jevlack.
- Apenas por mais uns cinco minutos. Se não conseguirmos nada, vamos embora. E nada de usar phasres.
A nave excelcior descamuflou e seguiu em direção a Chagas. Era fácil de localiza-la. O plasma sendo ejetado de sua nacele danificada era como uma chama azulada naquele fundo vermelho.
- Eles estão indo para o cinturão de asteróides.
- Força máxima de impulso - comandou tentando manter a calma - dispare os torpedos com o enquadramento a 100%.
A nave começou a balançar um pouco. Os pulsares da Chagas estavam sendo usados contra eles. Os indicadores avisaram que não deveriam ignorar ou menosprezar aqueles tiros. Tinham a potência de um pulsar klingon.
- Evasiva!
A nave desviou um pouco para escapar da seqüência de tiros, o que prejudicou a mira.
- Vão entrar no cinturão.
- FOGO!
Oito torpedos fotônicos foram disparados. Seguiram em linha reta contra a Chagas, mas esta aproveitou a trajetória para deixar um asteróide razoável entre eles. Danker esmurrou o braço de sua cadeira de frustração ao ver os oito torpedos serem desperdiçados.
- Onde eles estão?
- Ainda atrás daquele asteróide, parados. Estão cercados pelo plasma, só posso detectar borrões de suas formas. Mas estão positivamente lá - respondeu o navegador.
- Vamos ao golpe de misericórdia. Siga em direção a eles e, assim que o asteróide estiver fora do caminho, dispare a vontade.
- Senhor! - chamou Cother - Foi em uma situação similar que o encurralamos quando ele tinha a Danúbio...
- Eu sei - disse ele sério - mas ele não pode entrar em dobra agora. Não vai cortar nossa dorsal ao meio como daquela vez.
- Acho que o senhor o está subestimando novamente. O único motivo para ele ficar estacionado atrás do asteróide é para armar uma emboscada.
Ele ponderou por alguns instantes. Ainda que ele disparasse com tudo contra eles, poderiam resistir por mais tempo. Tempo suficiente para destruí-los.
- Siga na direção deles. Se notarmos alguma coisa, nós simplesmente fugiremos.
De uma forma um tanto cautelosa, a nave aproximou-se do grande asteróide que encobria a pequena nave de pesquisas. Começou a contorna-lo de forma a estar com a mira na sua vítima pronta assim que o asteróide ficasse fora do cominho. A ansiedade de Danker estava crescendo. Ele realmente temia uma emboscada de Jevlack. Talvez fosse melhor dar o fora dali, sua missão já estava terminada mesmo. Mas queria dar um último tiro nele.
- Esteja pronto para uma fuga de emergência.
Cother anuiu com a cabeça. Sentou-se no console e preparou-se para uma fuga rápida.
Assim que a Chagas ficou visível, ele ficou surpreso. O plasma formava um círculo ao seu redor - o que mascarava a eficiência dos sensores - mas, visualmente podiam ver que ela estava girando por sobre o seu eixo, e parecia como que arrastando alguma coisa com o raio trator.
Danker percebeu o que era e o que ele iria fazer. A Chagas estava com o raio trator focado em um pequeno pedaço de rocha errante de uns trinta metros. A girava como se a mesma estivesse na ponta de uma vara - a vara no caso era o raio trator - para imprimir mais e mais velocidade. Quando fosse lançado teria uma energia cinética imensa! Muito maior do que os escudos poderiam suportar, já que eram projetados basicamente para conter energia, e não objetos em movimento. Gritou para saírem de lá, mas seus tripulantes não conseguiram reagir a tempo.
A Chagas lançou o "projétil" contra eles. Em menos de um segundo ele atingiu os escudos e os atravessou sem muitos problemas. Atingiu a seção de engenharia da nave atravessando-a também, ejetando grandes labaredas de faíscas e gases nas áreas abertas do casco.
Na ponte todos foram arremessados de encontro ao teto, tamanho o impacto refletido no restante da nave - mais pelas explosões de dutos de energia rompidos pelo meteorito do que pela colisão do mesmo - de forma que ficaram mais um tempo sem reação para se esquivar do próximo passo da Chagas.
Não demorou muito para Jevlack se aproveitar do pequeno momento em que ficaram indefesos. Seus quatro pulsares e - agora pela primeira vez, seu phaser de dupla potência - estavam sendo usados em plena carga. Os escudos da nave, que já tinham sido muito enfraquecidos quando o meteorito os atingiu, agora, frente a este ataque, caíram de vez. O casco reforçado foi impiedosamente atacado.
Alguns poucos segundos foram o bastante para que muitos danos, de moderados a graves, surgissem em vários pontos da nave. Finalmente, Danker conseguiu chegar até o comando e acionou a fuga imediata. Saíram em dobra relâmpago de lá, sem rumo definido, apenas uma fuga rápida por alguns segundos. A chagas não poderia alcança-los para terminar o serviço.
Danker olhou ao redor da ponte. Muitos circuitos queimados, mas nada grave - não ali - eles não miraram na ponte em nenhum instante. Olhou para o seu imediato que estava com aquela cara de que tinha lhe avisado.
- Status da nave? - ele ignorou-o.
- Muitos dutos de energia rompidos na seção de engenharia. Alguns danos moderados na estrutura e algumas fissuras no suporte das naceles. Há um leve dano nos motores de dobra. Não poderemos ir muito longe antes de repara-los. Estaremos fora de serviço por alguns dias. A Chagas deve poder vir atrás de nós em algumas horas.
- Não acho que ele venha a fazer isso. Ele sabe que teve sorte. Não irá abusar dela, como eu infantilmente fiz - confessou - vai deixar nossa questão para um outro dia.
- E, quando o fizer - disse Cother expressando um certo temor - não vai deixar a situação inacabada.
- Não... - olhou fixamente para ele - eu acho que não vai mesmo.
Jevlack olhou para o pessoal da ponte. Fora estarem levemente tontos, estavam todos bem, e comemorando muito aquela vitória. Ele pessoalmente não a considerava como tal. Na verdade, sua única vitória tinha sido a de sobreviver.
- Armando, pare de dançar e tente descobrir o que ocorreu com a nossa escolta e com a nave romulana. Moedh, leve Alderik aos seus aposentos e tranque-a por lá.
Moedh saiu com a doutora, ela mostrou-se muito indiferente ao fato de estar presa. Armando examinava os sensores tentando saber o que tinha ocorrido enquanto estiveram ocupados.
- Senhor - disse ele com um certo pesar - a nave romulana deve estar destruída, estou captando destroços suficientes para afirmar que seja ela. A nave klingon está a deriva, gravemente danificada.
- Marlene, siga para lá. Rápido!
- Sim senhor - disse ela.
- Não precisa mais ter pressa - disse Armando - ela acaba de explodir. Se alguém sobreviveu, deve ter sido teleportado para o planeta.
- Acho difícil eles a terem abandonado, ainda que tivessem a vitória garantida - comentou Jevlack. Vamos para o planeta recolher nosso pessoal, e, se alguém da nave klingon estiver lá, tanto melhor.
Ele saiu da ponte deixando Armando no comando. Queria resolver o seu assunto com Joana, que, agora, ganhara novos rumos. Encontrou a equipe de manutenção no corredor, já efetuando os reparos em alguns circuitos que passavam por este. Seria bom se o romulano pudesse vê-los agora. Mas isso já seria impossível. Na porta de acesso a engenharia, via ambas, Kansha e Joana extremamente exaustas ainda tentado matar uma a outra.
Ele se aproximou sem muita cerimonia e aplicou a golpe vulcano em ambas.
- Vamos considerar um empate - disse ele pouco antes delas desmaiarem.
Chamou um segurança próximo e pediu para que ambas fossem levadas a enfermaria. Iria cuidar delas depois. Naquele instante estava mais interessado enquanto tempo levaria para reparar a nave. Depois, entraria em contato com o almirante Neves para tentar descobrir que diabos fora toda aquela história. Então talvez tivesse algo para dobrar Alderik e Joana.
****
Capítulo 17
O comodoro Rancer lia o relatório de Danker. As naves romulana e klingon se enfrentaram, e, aparentemente, ambas tinham sido destruídas. Tinha conseguido o que queria. E ainda tinha um adicional. Como Jevlack não perdeu a nave, ele acabou ganhando aquela aposta no alto escalão. Sessenta caixas de cerveja romulana. Seriam cento e vinte, mas um outro apostador - ainda desconhecido - tinha feito o mesmo palpite. De que ele não perderia a nave de seu quarto comando. Como assim que ele voltasse, iria comandar a nova nave ainda em construção, não iria perder esta nave mesmo.
Ainda havia o bônus! Dados atualizados sobre ele e alguma coisa de sua psicologia. Finalmente ficou provado que era possível acessar sua mente. A possibilidade dele saber onde estava a Atlantis - nave que era como que uma vedete de seu antecessor - também era uma informação grata. Mais cedo ou mais tarde, ele iria até onde Sarah estava. Só queria saber o porque de não ter feito isto ainda. Talvez a sugestão de Alderik estivesse certa: Devia estar presa em algum tipo de efeito dimensional.
Teria muito o que comemorar. Não era todo dia que tudo saia como queria, e ainda conseguisse fazer Jevlack de marionete - embora, na verdade, esta última parte jamais tivesse ocorrido. Ele esperava que ele agora não resolvesse quebrar a linha e se livrar de Joana e de Alderik. Apesar dos rumores que se espalhavam pelo departamento, jamais ficou comprovado que ele matasse alguém por questões pessoais.
O problema seria se ele considerasse outros tipos de questões para faze-lo. Não que fossem insubstituíveis ou que isto afetasse o departamento de alguma forma. Ele apenas não queria perder uma - agora comprovada - eficiente chefe de divisão.
Quanto a Joana... era um mero bode expiatório que ainda poderia ser usado.
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Joana estava sentada de braços cruzados no aposento. Devido a força das circunstâncias, tinha de dividi-lo com Alderik - ela estava algemada a ela. Ainda bem que o cordão de aço era cumprido. Podia cruzar os braços sem ter de pedir licença a ela. Mas achava a situação por demais incômoda.
De consolo, tinha o fato de que Kansha ao menos a respeitava como lutadora - apesar de agora saber que o motivo de poder ter sobrevivido tanto era devido ao fato de ler a sua mente e antecipar os seus golpes - e que o capitão estava mais ocupado com negociações - discussão pura na verdade, dava para ouvir os gritos que eles davam na sala há dez metros de distância - com Moedh e Kansha, visando amenizar a situação ocorrida para não deflagar uma outra guerra entre klingons e romulanos.
Como nenhuma das duas naves - e tripulantes - sobreviveram, o diário da nave seria a única versão oficial do ocorrido. Daí o motivo de tanta discussão. Se bem que eles já estavam quietos fazia um bom tempo.
Ela havia tentado sondar alguns tripulantes, para tentar determinar o que estava reservado a ela, mas percebeu que não era capaz. Deviam ter feito alguma coisa com o seu dispositivo, para anular temporariamente - ela rezava por isso - suas capacidades telepáticas. Devia ter sido feito depois que Jevlack a pusera a nocaute.
Como estavam se movendo, podia apenas supor que estavam retornando para a sede da Frota. Mas o que ele iria fazer com elas? Entrega-las como traidoras ou espiãs? Levar toda a história a público para causar um monumental escândalo? Era difícil saber.
A porta se abriu e o capitão entrou. Muito calmo na verdade.
- Boa tarde meninas - disse ele muito gentilmente, quase brincando - tenho notícias ruins e péssimas para vocês. Se bem que acho que são só para você, Joana.
Ela ficou quieta. Estava cansada de ficar assustada.
- Que notícias? - questionou Alderik, que tinha ficado os últimos dias completamente em silêncio.
- A Dissuasão conseguiu tudo o que queria, e o pior é que fui obrigado a ajuda-la nisto.
- Realmente? Vai haver a guerra?
- Não seja ridícula, doutora. Sabe muito bem que este nunca foi o objetivo principal. Sá queriam garantir que o atual movimento de acordo entre klingons e romulanos fosse anulado com um confronto entre duas de suas naves. Ainda que eu afirmasse que os romulanos começaram, o corpo de elite dos embaixadores da Federação cuidariam para evitar uma guerra declarada. Mas graças a mim, não vão precisar utiliza-los. Kansha e Moedh concordaram em endossar a minha versão dos fatos.
- E o que Kansha vai lhe cobrar por este favor? - Alderik claramente esboçava um sorriso.
- Primeiro, não é da sua conta, segundo, já está pago. O barulho que devem ter ouvido foi nós dois tentando convencer a Moedh.
Ela viu que a doutora claramente ficou desgostosa. Ser trocada por uma klingon não devia ser lá muito aceitável para ela. Mas considerando tudo o que ela fez, até uma andoriana serviria. Com antenas e tudo.
- Posso saber como descobriu tudo isto? - perguntou Joana.
- Bem, para começo de conversa, os romulanos exigiram a sua presença na nave deles, sob acusação de espionagem. E o pior é que era um pretexto aceitável. Você estava aqui apenas como peão no jogo todo mocinha. Era o sacrifício do departamento. Pelo que andei cavando, deve ser por causa da arte que fez com o embaixador Andoriano. Sim, descobri como acessar os seus registros - olhou para Alderik - apesar da atual chefe da sua divisão aqui do lado ter conseguido evitar isto até há pouco tempo atrás.
Ela olhou para Alderik com os olhos arregalados. Uma mistura de irritação e surpresa confundia a sua alma. Aquela pessoa ali do seu lado era a sua superiora? A mesma que provavelmente a pos nesta missão?
- Entregando-a ou não, os klingons iriam atacar aquela nave romulana. Acontece que o nosso querido governo com certeza iria endossar a história de espiã. Apenas para dar aos romulanos o benefício de poderem se sentir ameaçados e de terem nos atacado em território neutro. Isso iria eximir a Federação de qualquer motivo para não retaliar. Também imagino que pessoas importantes no governo klingon sabiam disto. A patente de Kansha foi restaurada, sob alegação de "lamentável engano" - disse com puro desdém - muito curioso isto ter sido decidido após os eventos, mesmo que eles não pudessem saber quando isto ocorreria exatamente. Eu ainda não me comuniquei com ninguém oficialmente. É claro que alguém queria mante-la viva, e a melhor maneira seria arranjar para que fosse expulsa da nave klingon.
Joana não fitava nada da sala. Estava apenas pensando frenéticamente na situação. Realmente, não haviam motivos para acharem que ela poderia ler a mente do capitão. Talvez ele nem fosse ser o verdadeiro alvo inicial - apenas deviam ter aproveitado que ele estava por lá - poderia ser qualquer um. Alderik várias vezes a avisou para tomar cuidado com suas ações para não ser denunciada, inclusive falando da possível retaliação de Jevlack. Tudo para garantir que ela não fosse descoberta até os romulanos aparecerem. E tinha dado certo. Como fora tola!
- Parabéns capitão - disse Alderik - descobriu tudo isso deduzindo sobre os dados que deve ter andado coletando?
- Eu até poderia, mas no fim, o irmão de Thar acabou me dando as informações que costuraram as pontas soltas. Ele faz parte do alto conselho. De qualquer forma Joana, você vai acabar se dando mal. Eles vão querer deixa-la com os romulanos para aplacar a ofensa que irão sentir de tudo isto.
- E você vai deixar eu escapar de suas garras? - disse mais em tom de ironia.
- Não - disse ele friamente.
Ela sentiu um impacto violento em seu peito. Tinha sido a sua mão. Moveu-se muito depressa para perceber a tempo. Sentiu falta de ar e lutava para respirar. Seu peito ardia terrivelmente. Sentiu caimbras no corpo inteiro. Olhou para Alderik, mas ela apenas observava impassível ela sufocar. Foi então que percebeu que seu coração estava parado. Aquele golpe dele devia ter rompido os vasos sangüíneos. Ele a tinha matado.
Mais alguns segundos e tudo ficou escuro.
Alderik olhou Jevlack romper a algema de seu pulso direito com as mãos, libertando-a do cadaver de Joana.
- E o que vai fazer comigo? - perguntou calmamente.
- Nada - respondeu ele - você vai voltar ilesa e vai aumentar os cochichos e comentários ao meu respeito nos corredores do departamento.
Ele pressionou o seu comunicador.
- Moedh? Acionar.
O corpo de Joana fora teleportado. Jevlack apontou para a vigia e Alderik observou. Do lado de fora, o corpo dela estava flutuando no espaço.
- No diário de bordo, oficialmente ela terá sido sugada ao espaço quando fomos atacados pelos romulanos. Não me interessa se você vai endossar isto ou não. Será a desculpa dada ao governo deles por não termos a espiã. Saia daqui e fique em seus aposentos. Vou deixar você na mesma base klingon a qual Kansha e Moedh irão desembarcar. Se vire para voltar a sede.
- Só isso? Nenhuma outra retaliação?
- Acho que ouvir de Kansha o que nós andamos fazendo será retaliação suficiente. E avise a Rancer que ainda vou falar com ele.
Ela saiu da sala no mais absoluto silêncio.
****
Rancer olhava a champanhe sobre a sua mesa. Desde que chegara naquele dia tentara inutilmente descobrir quem a tinha deixado. O bilhete dizia que as vinte horas tudo seria esclarecido. Bom, era praticamente esta hora.
Seu monitor sinalizou. Alguém estava usando sua linha particular. Ao atender, quase ficou surpreso. Era Jevlack.
- Capitão? - ele estava muito sorridente - esta champanhe é obra sua?
- Claro - respondeu ele com o mesmo humor - não é sempre que agimos como parceiros.
Seu sorriso se desmanchou em perplexidade. Parceiros?
- Não entendi.
- Ora comodoro - ele levantou uma taça de champanhe - eu cuidei para que não precisasse usar seu pessoal para evitar a guerra entre klingons e romulanos, não foi?
- Sabia disto?
- Claro! Por que acha que deixei que ocorresse? Por que acha que permiti que a sua nave furtiva escapasse? Por que acha que me livrei de Joana? Ou por que o meu diário de bordo está registrado com tudo o que você queria que estivesse?
Rancer olhou para o lado. A única coisa que poderia esfriar o seu ânimo era aquilo. Ter conseguido o que queria por que Jevlack tinha permitido.
- A propósito, parabéns pelas caixas de cerveja. Se quiser, sei de um local onde pagam bem por elas.
- Sabe disto também?
- Quem você acha que foi o outro ganhador? - ele sorriu - um brinde.
Ele ergueu a taça em sua direção e a tomou. A ligação foi cortada logo depois.
Ficou afundado na cadeira, observando a garrafa de champanhe. Tinha perdido todo o interesse em comemorar sua vitória.
****
Jevlack saiu de seu aposento muito contráriado. Fora feito de palhaço, usado, enganado. Queria arrancar a cabeça de todos os responsáveis. Mas não podia. Apesar do que tinha dito a Rancer, nada tinha acontecido por conivência dele. Felizmente, propaganda é a alma de qualquer negócio. Enquanto ele acreditasse que só tinha conseguido o que queria por permissão dele, ainda manteria a sua reputação junto ao departamento.
Seguiu para o aposento que tinha arrebentado a porta no começo daquela história toda - agora já estava reparado - e entrou.
Joana estava deitada em uma biocama surripiada previamente da enfermaria. Antes mesmo daquela "encenação" para Alderik ver. Não uma encenação propriamente, ele realmente a tinha matado. Mas fora transportada a tempo para receber os cuidados para ser reanimada. - afinal, o cérebro humano agüenta três minutos sem oxigênio.
Greyson estava lá, terminando de checar as modificações que tinha feito no implante dela. Ele realmente tinha um futuro promissor. Cuidaria para que estivesse na sua próxima nave. Além deles, o único que sabia daquilo era Moedh e Kansha, que já não estavam mais a bordo.
- E então? - perguntou.
- Tudo certo - respondeu ele - vamos fazer um teste final. Tente acionar o dispositivo.
Jevlack concentrou-se, e um sinal surgiu no painel.
- Perfeito - disse Grayson - agora responde como se fosse parte de sua própria rede neural, e acho que na verdade era - olhou para ele - apenas estava um pouco mal instalada.
- Então acorde-a e saia. O assunto aqui ainda é pessoal.
- Sim senhor.
Ele acionou alguns comandos na mesa e saiu, trancando a porta.
Joana abriu os olhos e os piscou várias vezes. Então se levantou assustada. Ao ver Jevlack, ficou assombrada.
- Estou morta?
- Não mais, mas eu realmente te matei. Foi a forma mais prática de livrá-la de ser um trunfo nas mãos dos romulanos ou do departamento.
- Por que?
- Não é por piedade - disse ele friamente - você fez uma interface comigo, tornou-se uma extensão de mim. Acessou áreas que ainda não posso, e quero saber o que elas contém.
- Mas eu não me lembro disto.
- Mas vai se lembrar. Enquanto isso, estou arrumando uma nova identidade para você. Vai reparar que não é mais morena. Tirei o seu bracelete, que, caso não saiba, também tinha um dispositivo localizador e outro para injetar veneno em sua corrente sangüínea.
- Faz parte do meu serviço - disse ela encarando-o.
- Bom, indo direto ao ponto. Uma vez que Sarah está indisponível, e você quase rompeu o elo que mantenho com ela. Irá me ajudar quando for preciso.
- Quer que eu leia as mentes para você como fazia para o departamento?
- Não. Apenas será útil ter uma telepata por perto, especialmente quando posso liga-la e desliga-la. Deste jeito.
Ele se concentrou e ela levou as mãos contra as orelhas. De repente, tinha captado todos os pensamentos dos tripulantes a bordo. Era muita coisa para coordenar, de forma que estava sofrendo muito por não conseguir manter sua própria identidade no meio daquela loucura. Logo em seguida, tudo parou e ela não captou mais nada.
- Agora eu controlo seu implante, que, caso esteja curiosa, deve ter sido feito com análises de minha rede neural. Naquele primeiro contato que você forçou, ele a protegeu de meu ataque. Agora responde aos meus comandos.
- O que quer de mim?
- Apenas que fique por perto. E enquanto isso será uma humana comum. Pode ser que eu acabe precisando de seus dotes, mas não pretendo fazer disto um hábito.
- Por que eu iria acatar isto?
- Não me lembro ter lhe dado escolha. Não há como retirar seu implante. Ele se integrou a sua rede cerebral. Acho que aquela nossa interface teve algo a ver com isso. O departamento vai querer se livrar de você, caso eu simplesmente a deixe solta por ai. Posso também ativar seu implante ao máximo e passará o resto de seus dias em uma entidade para tratamento de alienados, ou ainda, posso simplesmente vende-la para alguns mercadores que apreciam muito fêmeas humanóides. Além disso, sou o único que pode protege-la de Sarah quando ela retornar. E acredite, ela vai voltar. E não vai gostar nada de saber no que você teve a ousadia de interferir.
Ela estremeceu ao pensar naquilo.
- Garante que pode me proteger?
- Garanto que ela não a matará e nem a deixará louca. Nada mais. Até lá, pode ser que todos morramos em uma situação qualquer e você não tenha de passar por isto.
- Nesse caso - ela engoliu em seco - acho que sou sua escrava.
- Não quero e nem preciso de escravas. Você será apenas minha ferramenta. Que irei usar quando me for necessário. Enquanto isso, terá a sua vida normalmente. Mas tenha em mente uma coisa: não há local desta galáxia agora que possa ir para se esconder de mim, e nem o contrário. Da mesma maneira que posso localiza-la, você também pode me localizar. Aprenderá a fazer isso com o tempo. Há propósito, vou garantir para que sua nova indentidade comece com o nome Joana.
Jevlack saiu da sala, deixando uma lamuriosa Joana chorando sobre como seu destino estava fora de seu controle.
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Vinte dias depois, a USS Carlos Chagas retornava a doca de Utopia. Faria algumas reformas de rotina - na verdade, a completa troca dos componentes internos da nacele danificada - e, brevemente, iria receber outra missão exploratória. Mas, desta vez, seria algo de primeira linha, e não sobras.
Sua tripulação seria praticamente nova, já que a antiga recebeu muitas indicações para outras naves, todas cruzadores ou exploradoras. Alguns iriam continuar com Jevlack, no seu novo comando, a USS Brasília. Entre eles, Jefferson e Armando. Alguns outros que no momento estavam na Rocama e na Xanth também pediram para servir sob suas ordens, mas precisavam da benção das respectivas capitãs das naves.
Apesar de seus protestos, Jevlack teve de aceitar que a USS Brasília teria famílias a bordo. Cuidarei para que você seja escolhido para informar a uma criança que seu pai sofreu uma fatalidade! Tinha dito ao almirante neves. Ele ficou muito amargurado com isso. Especialmente porque sabia que Jevlack acabaria fazendo aquilo, caso o pior ocorresse.
Uma certa Joana Muther seria a conselheira desta nave - solicitação explícita de Jevlack - coisa que apenas um certo comodoro estranhou - porque não achou nada sobre esta pessoa. Outra pessoa explicitamente solicitada foi alguém de nome Ignea, que tinha conseguido o posto de subtenente recentemente, em uma nave padrão de patrulhamento. Ele nunca explicou o porque destas solicitações, muito menos como tinha conseguido mover os pauzinhos para tanto. Mas o fato é que tinha conseguido.
Agora, ele olhava da ponte de sua bela nave - estava mesmo orgulhoso de terem feito tudo o que tinha pedido - a tela desta mostrando os seus esquemas internos. Ainda achava um exagero ter mais de oitocentas pessoas a bordo - mais da metade de famílias dos tripulantes - mas com uma nave de seiscentos e vinte metros não era algo tão estranho.
Joana tinha acabado de entrar. Tinha ido conhecer a nave e suas funções. A cor de sua pele agora era um pouco azulada, e seus seios antes fartos foram bem reduzidos - ela pessoalmente gostou desta parte, suas costas doíam bem menos - dava uma perfeita mestiça andoriana, claro que sem as antenas. Ninguém poderia perceber que era originalmente betazóide.
- Seu brinquedinho chegou - disse ela um pouco mal humorada - pronta para as instruções.
- Se continuar a se referir como um mero objeto, irei começar a trata-la assim.
- E já não é o que está fazendo? Qual é a diferença?
- Quer mesmo descobrir?
Ele a olhou fixamente, e ela captou em sua mente o grande vazio que estava na dele - eles tinham um elo agora, mas apenas de comunicação, muito longe de uma fusão.
- Não - disse ela - me desculpe.
- Viva a sua vida como quiser, não tenho nenhum capricho para ela.
- Depois de como me tratou quando descobriu quem eu era, pensei que iria passar o resto da vida me atormentando.
Ele desligou a tela e a olhou divertido.
- Mas eu já fiz isso. Não há como nos desconectar sem que um de nós morra. Enquanto ambos vivermos, sempre será lembrada de que está a um átomo de obter uma comunhão de profunda tranqüilidade, mas nunca poderá alcançar. Por que acha que sempre se sente solitária atualmente?
Seu corpo inteiro tremeu - de tristeza - havia imaginado que iria superar isto, mas, como ele disse, a cada instante seu subconsciente era lembrado disto. Apenas abaixou a cabeça.
- Talvez eu aprenda a viver com isso.
- Aprender não é aceitar - retrucou ele já se desinteressando em continuar com a conversa - quanto as suas "instruções" apenas faça o que uma conselheira faz. Cuidar da parte civil da nave.
- Manter os pirralhos longe de você?
- Quando você me conhecer melhor - disse ele sorrindo - vai perceber o tamanho da besteira que disse.
Jevlack seguiu para o turboelevador. Tinha algumas checagens a fazer em alguns equipamentos. A nave deveria partir em um mês.
- Afinal de contas - disse ela pouco antes que ele saísse - você acabou aceitando tudo o que aconteceu de uma forma muito tranqüila.
Ele se voltou e a olhou fixamente.
- Bom, eu sofri uma total derrota - confessou - fui sondado, atacado e usado como peão em um assunto de grande monta. Até eu conversar com alguns amigos do alto conselho klingon, eu não tinha a menor idéia do que realmente acontecia.
Ele abaixou um pouco os olhos mas continuou a sorrir.
- Mas - ele abriu os braços de forma a mostrar a nave - acabei tendo algum lucro. Incluindo o fato de que o departamento ainda me respeita - ela já sabia da artimanha que ele tinha feito, de faze-los acreditar que sabia de tudo.
- Tecnicamente um vencido, mas, para todos os efeitos, um vitorioso.
- Não se pode ganhar sempre, mas sempre se pode tirar algo da derrota. Nem que seja experiência - disse triunfante - são ossos deste ofício. Ele saiu da ponte. Agora ela estava começando a entender porque era tão respeitado em seu antigo departamento. Não era uma questão de vencer, mas de mostrar como se vence. Talvez sua nova vida não ficasse tão insuportável, afinal.
Talvez...
Não se pode vencer sempre, mas sempre se poe obter algo da derrota. Nem que seja experiência.
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FIM