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- Como assim, você foi liberada para passar um mês de licença? Você acabou de assumir seu posto aqui.
- Motivos pessoais, capitão.
- Eu deveria ter sido ao menos consultado...
- Tive autorização do meu setor...
Summers não respondeu a isso. Ambos sabiam que interferir com os assuntos da Seção 31 estava fora do alcance do capitão.
- Estou partindo hoje mesmo.
- Você tem um mês, Ridenow. Nem um microssegundo a mais. Dispensada.
Saiu como um furacão da sala, quase derrubando dois oficiais que passavam pelo corredor.
- Ei, Ridenow, olha por onde...
Fingiu que não ouvira e continuou o seu caminho. Ouviu os dois conversarem.
- O que deu na darkovana?
- Sei lá, deve ter brigado com o capitão. Você sabe o que dizem das ruivas...
Ambos riram, e Callista apertou o passo. Sentiu-se corar, envergonhada pelos pensamentos que captara da mente deles. “Isso é absurdo. Eu sou uma Guardiã jurada, como eles atrevem-se a sequer pensar que eu seria capaz de...”Lembrou-se que não estava mais em Cottman IV – ou Darkover, como era chamado pelos nativos. Estava na USS Bishop, uma nave da Federação, entre cegos mentais, que não faziam a menor idéia do que era uma guardiã ou de seu juramento. Além do mais, ela mesma havia desistido em parte de receber o tratamento de Guardiã ao deixar sua Torre e juntar-se à Federação. Isso há oito anos atrás.
E ontem recebera uma mensagem urgente de seu pai, Piero Ridenow, lorde Serrais e representante de Darkover junto à Federação. Deveria largar o que estivesse fazendo e voltar para casa o mais rápido possível.
Ficava imaginando. Seu pai não há contatava desde sua formatura na Academia. Um embaixador deveria se envolver o menos possível com a Inteligência. O que ele poderia querer com ela?
****
A viagem fora tranqüila. Ao desembarcar do pequeno transporte no espaçoporto de Darkover – o estranho campo magnético do planeta impedia o teletransporte – fora avisada que seu pai estava na sala do representante da Federação. Anunciou-se e entrou.
Estacou surpresa. Ao lado de seu pai, vestido com a cores de Serrais, verde e prata, estava o atual representante da Federação. Peter Haldan. Piero Hallyane era como ele apresentava-se quando agia infiltrado em Darkover. Agente da Inteligência, sua missão era descobrir o máximo que pudesse sobre o planeta, já que os governantes não permitiam nenhum tipo de contato sem ser com eles.
E foi sob esse disfarce que ele surgira, ferido mortalmente, na Torre de Arillin, onde Callista estava sendo treinada como Guardiã, para substituir Leonie de Arillin, a mais poderosa telepata surgida nos últimos dois séculos em Cottman IV.
Ela insistira para que tratassem dele, apesar da aristocrática Leonie não apreciar a idéia de um impuro em sua Torre. Cuidara do ferimento, e velara seu sono agitado. O estranho a fascinara, mesmo sem ela saber que era de outro mundo. Quando ele convalescia, conversaram sobre muitas coisas, e Callista o levara para conhecer os arredores da Torre e a pequena cidade de Arillin. Ele a chamara de “bela”, que era a tradução para o cahuenga do seu nome, e ela sentira-se em brasas.
Apaixonara-se por ele. Como poderia ter evitado? Mas Leonie descobrira a identidade de seu hóspede. E também os sentimentos de sua sub-Guardiã. Avisou o Conselho e um grande incidente formou-se. No final, tudo resolveu-se graças a intervenção do pai de Callista e sua esposa, uma oficial da Frota. Ela superou a paixão, em grande parte devido à raiva de Leonie.
Nunca mais o vira, e não conseguiu disfarçar sua surpresa.
- Piero?
O homem no uniforme da Federação sorriu de leve.
- Callie, bela. Há quanto tempo.
O pai de Callista deu um longo pigarro, e Peter Haldane – ela teria que acostumar-se com esse nome – assumiu sua postura de oficial da Frota.
- Por favor, tenente Ridenow, sente-se. Lorde de Serrais pediu para que a Seção 31 lhe desse uma licença pois precisava tratar de um assunto urgente e confidencial.
- Cale-se, Haldane. Eu continuo. Callista, filha. Leonie está morrendo. Você terá que voltar para Arillin.
Ela não podia acreditar no que ouvia. Arillin era um pesadelo distante, do qual ela lembrava-se com um temor vago e indistinto. Olhou de seu pai para Piero e dele para o seu pai.
- Mas...eu agora...sou oficial da Frota, não posso sair assim...
Peter abaixou os olhos.
- Na verdade...pode. Seu alistamento na Frota só foi aceito com a condição de que você pudesse ser dispensada imediatamente, caso preciso. Mesmo trabalhando na seção 31.
Segurou o choro. Olhou para o pai. Sabia que o que iria dizer iria magoá-lo profundamente, mas precisava dizer.
- Comodoro Haldane. Eu não concordo, não aceito dar baixa...e peço asilo à Federação.
- Com qual alegação, tenente?
- Perseguição religiosa, por me recusar a continuar...como sacerdotisa.
Não ousou encarar seu pai. O que ela estava dizendo era mentira. Uma Guardiã não era uma sacerdotisa, mas era o termo terranan mais próximo...e ela seria perseguida se recusasse ser Guardiã de Arillin. Mas iria continuar o mito do atraso supersticioso dos darkovanos.
- Tem certeza?
- Sim.
Haldane levantou-se.
- Computador. Gravar. Na data estelar XXXXXX, a Tenente Callista Syrtis Ridenow, comissionada na USS Bishop, pela seção 31, nativa de Cottman IV, pediu asilo ao Comodoro Peter Haldane, prelado da Federação em Cottman IV, sob alegação de perseguição religiosa. Caso o processo seja aprovado, ela perderá a cidadania darkovana, mantendo seus direitos na Federação. De acordo?
- Sim...
- Como testemunha, Piero Ridenow y Ridenow, Lorde do domínio de Serrais, membro do Conselho Comyn e representante desde frente a Federação. Fim da gravação.
O lorde Serrais estava enfurecido.
- Haldane, não foi isso...
- Combinamos que ela estaria liberada se ela quisesse. Não é esse o caso. Por favor, retire-se.
- Isso não irá ficar assim, Haldane. Ela é comyn, e uma virgem jurada. Não será sua barragana, nem que você queira... Nem mesmo se ela quiser. – e saiu, deixando Callista mortificada.
- Piero...Comodoro, desculpe, eu sei que você não me ajudou por...
- Por gostar de você? Callista, seu pai tem certa razão. Qualquer outra pessoa, eu não arriscaria um século de esforço diplomático. Mas você...você ficou do meu lado contra aquela velha bruxa. Ela que morra...eu não irei deixar que coloquem você no lugar dela, para envelhecer como um espectro...
Novamente, ela sentiu-se arder por dentro.
- Mas e agora, o que farei, comodoro Haldane?
- Primeiro, irá me chamar de Piero, como naquele inverno em Arillin. Depois irá almoçar comigo na Cidade Comercial. Aí sim estarei pronto a conversar sobre o seu futuro.
****
Era estranho passear nas ruas de Thendara com o uniforme da Federação. Mesmo que fosse apenas por breves instantes, nas ruas da Cidade Comercial, que, situada na sombra do espaçoporto, servia como uma barreira de proteção entre a Cidade Velha, dominada pelo antigo Castelo do Comyn, e o Posto Diplomático da Federação.
Mas as reações das pessoas a sua presença era a mesma de quando usava os trajes de uma dama do Comyn...ou mesmo de uma sub-Guardiã. O uniforme da Federação não ocultava os seus cabelos ruivos, marca da nobreza darkovana. E mesmo que aos poucos os habitantes do planeta houvessem se acostumado aos terranan ruivos, ela tinha o porte do Comyn, um jeito altivo de quem fora criada sabendo que iria ter poder um dia.
Muitos a olhavam com o respeito devido à casta superior. Mas outros olhavam com raiva para o seu uniforme. Ela podia ler os pensamentos tão claramente como se fossem expressos em voz alta. “Traidora, como ela pode?”. Tentou não dar atenção a isso e seguiu Peter que entrara no único hotel da Cidade.
Sentados a mesa, depois de uma farta refeição darkovana. Peter a olhava com interesse.
- Você não mudou nada, Callie.
Ela sorriu, observando-o. Tinha o mesmo rosto, e o mesmo sorriso. Os cabelos começavam a tornar-se brancos nas têmporas, e os olhos estavam cansados. Mas era o mesmo Piero.
- Nem você. Piero, eu realmente agradeço por ter comprado essa briga com meu pai e o Conselho Comyn. Espero que não prejudique ainda mais a sua carreira.
Tomando o último gole do seu café, o prelado sorriu.
- Não precisa se preocupar...Kadja cuida do seu pai, e ele cuida do Conselho. – Callista sorriu de volta. Sua madrasta, que ocupara o cargo de Peter antes deste, conseguira convencer seu pai a deixá-la juntar-se à Federação. Qualquer coisa depois disso seria simples. – Além do mais, eu precisava de qualquer maneira traze-la de volta à Darkover.
- O que aconteceu?
De repente, o prelado tornou-se esquivo. Olhava para os lados, enquanto chamava o atendente.
- Aqui não é o lugar, Callie. Reservei um quarto com abafadores telepáticos, onde poderemos conversar com segurança.
Sem entender nada, Callista o seguiu enquanto ele subia pelo elevador até o andar mais elevado. O Hotel era bem luxuoso, considerando onde estava. Mas a grande maioria dos seus clientes eram os próprios nobres darkovanos, em suas idas à principal cidade do planeta. No sexto andar, ficavam as suítes maiores. Callista olhou, admirada. Era como estar de volta ao Solar de Serrais. A decoração era ao estilo darkovano, com paredes de pedra e tapeçarias penduradas. Fogo crepitava na lareira, enquanto lá fora o sol vermelho aproximava-se do horizonte.
Ela deixou-se perder naquele brilho avermelhado. “Olho sangrento”, era como um antigo poeta das montanhas chamava o “sol”, ou melhor, a estrela “Cottman”. Uma de suas mais famosas poesias dizia “Olho sangrento/ que espia a terra avermelhada.../ Será por teu reflexo,/ ou do sangue nela derramado?”. Sentira tanta falta de casa. Do frio cortante, da luminosidade avermelhada do sol, das quatro pequenas luas no céu, as montanhas, do cheiro da kireseth e das árvores de resina, do som da rryl sendo tocada em um serão familiar ao pé da lareira, em uma noite fria de inverno no velho solar da família de seu pai.
Despertou do seu devaneio com a voz de Peter ao seu lado.
- Depois de ver o sol dessa cor, os outros ficam pálidos, como se não tivessem mais vida.
- Foi do que eu mais senti falta...Mas o que houve, Piero? O que aconteceu para você não poder me chamar diretamente? Aliás, porque chamar a mim em especial? As normas dizem para evitar...
- Usar membros da Inteligência em seu próprio planeta. Eu sei...Mas a regra não se aplica a Cottman IV. Em um planeta fechado, forasteiros não servem como espiões. Eu tive que nascer aqui, assim como Magda, para conseguir trabalhar infiltrado.
Peter fora criado em uma pequena aldeia, distante de Thendara, nos domínios da família Aldaran, inimiga do Comyn há séculos e que acolhera os terráqueos. Um pequeno grupo de pesquisadores estabeleceu residência em Caern Donn, entre eles os pais de Peter e os de sua ex-esposa, Magdalen Lorne.
- E como vai Margali? – disse, usando a forma darkovana do nome. – Aconteceu algo com ela? Afinal, ela é excelente espiã.
- Magda “pulou o muro”. Não é mais oficial da Frota, e antes que Kadja pudesse ordenar sua reintegração forçada, ela estabeleceu laços familiares no planeta.
Ante a cara de interrogação de Callista, completou.
- Tornou-se companheira livre de uma renunciante. Para não termos encrenca com lorde Hastur, aceitamos a sua renúncia à cidadania da Federação. Mas não chamei você aqui para falar dela. Temos problemas mais sérios do que a lealdade da minha ex-esposa. Temos indícios de que uma Torre está quebrando a Aliança.
Callista não podia acreditar no que estava ouvindo.
- Mas como....Arillin? Neskaya? Carcosa? Tramontana? A velha Torre do Castelo do Comyn? Isso é impossível.
- Não...não é nenhuma dessas. É a Torre de Dalereuth.
- Mais impossível ainda. Dalereuth está desativada desde o final da Era do Caos. Além do mais, pertence aos domínios do meu pai.
Foi só então que percebeu o porque de ter sido chamada por Peter Haldane. Teria que investigar a lealdade de seu próprio pai.
****
Dois dias depois de ter retornado a Darkover, Callista estava a meio caminho de Dalereuth, no meio da estrada que ligava a cidade costeira aos centros urbanos de Valeron e Thendara. Estava vestida novamente com roupas darkovanas, usando o cabelo preso de forma a não mostrar a nuca, e sentava-se de lado em seu cavalo. Como uma típica dama de uma camada média da população.
Piero havia insistido para que viajasse de liteira. Mas preferia ir a cavalo. Somente grandes damas e Guardiãs viajavam de liteira em época de paz, e estavam querendo passar o mais desapercebidos possível. Piero também estava vestido a darkovana, e para Callista era como se o tempo não houvesse passado.
- Já vejo a cidade daqui. Essa noite dormiremos em Valeron, Callie. Se mantivermos o ritmo, em mais dois dias chegaremos ao litoral...
Ela sorriu. Se não fosse a desagradável missão de espionar o próprio pai, era como estar de férias.
- Nem foi tão desagradável dormir estas noites ao luar...
Quando ela falou em luar, o rosto de seu companheiro anuviou-se.
- O que houve, Piero?
- Não acredito no que fiz...Hoje é o Festival das Quatro Luas, e não vamos estar em Thendara para o baile.
Idriel, Liriel, Mormallor e Kyrdis, as quatro luas de Darkover, dificilmente encontravam-se no céu. Quando isso ocorria, grandes festas aconteciam nos domínios. E um antigo ditado das montanhas dizia que tudo o que era feito debaixo das quatro luas seria perdoado.
- Eu não poderia ir, Piero. Sou proscrita agora, esqueceu? Seria expulsa se tentasse entrar no baile do Comyn.
- De mascara, quem a reconheceria?
- Meu pai, com certeza...e Leonie, a Dama de Arillin, se estivesse presente. Fui sua... – De repente, o mundo tornou-se acinzentado, e Piero sumiu. Na verdade, Piero agora olha espantado para uma Callista de olhos cerrados, ereta no cavalo. Vivera tempo o bastante em Darkover para saber o que significava. Ela estava no “mundo cinzento”, o estranho mundo astral dos telepatas darkovanos. Saiu da estrada, levando o cavalo de Callista devagar. Não se atrevia a tocá-la, com medo de a perturbar. Ficou em vigília, esperando por ela.
No mundo cinzento. Callista estava diante de uma construção que jamais esperava ver novamente. Arillin, a Torre Branca. Imponente, firme e sólida, a imagem da Torre no plano onde estava refletia os séculos e séculos da sua dominação sobre as demais torres no planeta. Sentiu o coração apertar-se. Era o lugar mais parecido com um lar que jamais tivera, e sempre iria sentir falta das antigas paredes de pedra.
Uma mulher alta, os cabelos ruivos começando a ficar grisalhos, as faces esmaecidas pela idade ainda indicando que havia sido muito bela, e olhos cinzentos que pareciam faiscar de raiva. A túnica ricamente bordada e tingida com o mais vívido escarlate a identificariam até mesmo se Callista não a tivesse adorado como mãe por quase oito anos. Leonora Hastur, Tenerestéis de Arillin. A mulher mais poderosa de Darkover.
- Callista Syrtis Ridenow, rikhii de Arillin, posso saber porque o teu pai disse que não virás até Arillin assumir o teu lugar?
- Porque é a verdade, vai tenerestéis. – Callista usou os termos e a entonação mais formais que conhecia. Foi quando reparou que usava os trajes de sua posição em Arillin, uma túnica azul com pequenos debruados em prata, a roupa de uma sub-Guardiã. A sua imagem mental ainda era reflexo dos anos enclausurada na Torre.
- Renegas assim o teu juramento e o teu treinamento? Filha do meu coração...- e a voz de Leonie suavizou-se. – irás me abandonar à porta da minha morte?
Callista entristeceu-se ao olhar pela última vez para a Guardiã. Sabia que, com a morte de Leonie, uma era estaria acabando em Darkover. Mas nada poderia fazer. Concentrou-se, e de repente a túnica azul tornou-se um uniforme de gala da Frota Estelar.
- Mãe, eu escolhi o meu caminho. E irei segui-lo, com ou sem a sua benção...
- Traidora do seu sangue!! Maldita grezalys das Cidades Secas!!! Não espere recompensa pela sua traição, maldita. Uma vez guardiã, sempre guardiã. Amaldiçoada você e qualquer um que a tocar. – o rosto de Leonie transfigurou-se e Callista soube que chegara o momento final para a Guardiã. Todos os telepatas em Darkover sentiriam os estertores finais da última das Guardiãs.
De repente, tudo acabara. Não estava mais na planície de Arilin, e sim no caminho para Valeron, com Piero. Sentia o seu corpo dormente e frio, e uma fome atroz a atingiu. O terranan a olhava preocupado.
- O que houve, Callie? De repente, todos os pássaros gritaram e depois houve um silêncio agudo...
Tremendo, ela tentou sorrir, enquanto Piero a tirava do cavalo. Não tinha retomado controle do seu corpo ainda.
- Leonie tinha sangue MacAran, de um antepassado não muito distante. Dizem as lendas que quando o MacAran morria, todos os animais da sua terra choravam de tristeza.
- Então...
- Sim. A Dama de Arilin está morta. E Darkover perdeu a sua última Guardiã. O que será das Torres agora?
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Já viam ao longe a Torre Azul, a torre de Dalereuth-sobre-o-mar. Estava desativada há muitos séculos, quando seu último guardião sucumbira à loucura e à ambição desmedida. Um Ridenow...como eu e como meu pai.” Daimian Ridenow aparecia nas lendas familiares, contadas ao redor da lareira nos longos e frios invernos no solar de Serrais, como um monstro desumano. Quando começou a surgir em Darkover a “Aliança” – um pacto pelo não-uso de armas de longo alcance e de laran nas guerras – Daimian recusara-se a deixar de produzir “fogo-aderente” e “pó-da-morte”. Fora preciso que as demais Torres se unissem contra ele e sua aliada, a Torre Negra, para que finalmente a paz chegasse aos Cem Reinos.
Eles haviam passado ao largo da pequena aldeia atacada pelo “pó-da-morte”. Casas vazias, e mesmo a distância puderam ver os cadáveres jogados no chão. Callista recusava-se a acreditar que seu pai pudesse ter tido participação naquilo. Não o homem que a criara, depois da morte de sua mãe. Que respeitara a sua decisão de juntar-se à Frota, apesar de relutante. Não ele.
- Estamos chegando, Callie. Afinal o que aconteceu com essa Torre?
- Ela foi uma das mais poderosas Torres de toda a Darkover. Mas quando chegou o fim da Era do Caos, os poderosos de todo o planeta começaram a perceber que as guerras usando as armas e os homens das Torres causavam danos demais, por vezes irreversíveis. O Guardião da Torre de Neskaya, Varzil, O Bom, começou a Aliança, que uniu todos os lordes e todas as Torres em um pacto de não utilizar armas de telepatia de espécie alguma em guerra. Todas as Torres...menos uma.
- Dalereuth.
- Sim, Dalereuth. A Torre era comandada por Damian, um homem jovem e ambicioso, que sabia que a importância de Dalereuth devia-se às armas que produzia e não queria deixar o poder escapar de suas mãos. Ele rebelou-se, com a ajuda de uma outra telepata muito poderosa, e foi preciso que todas as demais Torres se unissem contra ele para o derrotar. Muitos telepatas morreram nessa última batalha com laran.
Piero estava pensativo.
- Ele era Ridenow?
- Sim, era. Como Varzil também...desde então nunca mais um membro da família ascendeu ao posto de Guardião...Eu seria a primeira.
- Agora entendo a revolta de seu pai. Você deixou escapar uma grande chance para que ele aumentasse seu poder no Conselho.
Já haviam atravessado os portões da cidade. Callista deixou escapar um suspiro cansado.
- Se eu assumisse como Guardiã, estaria apenas adiando o inevitável. Há duas gerações que não nasce uma criança com capacidade telepática para ser uma Guardiã completa. O Comyn está morrendo...porque acha que entramos para a Federação? O que nos fazia diferentes está acabando. E temos que sobreviver sem isso.
- Tenho certeza que se pedissem aos cientistas...
De repente, a expressão dela se alterou.
- Você não entende, terranan. Pelo menos queremos sumir com dignidade. A hospedaria é ali.
****
Ela não falou mais nada depois da sua explosão ao chegarem na cidade, no dia anterior. Piero estava preocupado mas não disse nada. Sabia que havia coisas em Callista – e em todos os darkovanos – que jamais entenderia, apesar de ter nascido e se criado naquele estranho planeta. Agora, olhava a sua companheira, que contemplava a entrada da Torre, o sol refletindo reflexos avermelhados nos cabelos tingidos de preto, e pensava se isto não seria uma barreira intransponível que os separaria para sempre.
- Bem, Piero, acho que podemos entrar por aqui. Não há sinal de movimentação. Tem apenas um porém.
Ele sabia qual era o porém. Todas as Torres de Darkover eram protegidas por um dispositivo chamado “véu”, que só permitia a passagem de portadores de laran para o seu interior. Ele só passara pelo de Arillin porque a própria Leonie levantara o “véu”.
- Se ele estiver ativo...
- A sua teoria está provada e Dalereuth voltou a ser utilizada. Se não, só saberemos quando chegarmos no nível superior, onde fica a tela de matriz. Vamos.
Passaram pelo portão. Piero esperou ser instantaneamente jogado para trás, como acontecera quando tentara entrar em Arillin com o “véu” em funcionamento, mas nada aconteceu. Viu o rosto dela contrair-se de preocupação.
- O “véu” está inativo, mas sinto alguma coisa estranha. Teremos que subir até...
Não terminou a frase. De repente, estavam cara a cara com um estranho homem de túnica vermelha. Ele nada disse, apenas sorriu.
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De repente, foram transportados ao mundo cinzento.
- Quem é você? – Callista estava entre Piero, inconsciente, e o estranho, vestido com uma túnica vermelha. Ela estava usando novamente os seus trajes de sub-Guardiã, e empunhava a sua matriz como se fosse uma arma.
- Ora, não se ensinam mais boas maneiras em Arillin? Mais respeito com seus superiores, menininha. – ela sentiu o mundo a sua volta crescer, enquanto voltava a ser uma menininha de tranças, de olhos grandes e tristes. – Assim é melhor. Sou Daimian de Ridenow Y Ridenow, Tenerezu de Dalereuth-sobre-o-mar. E voltei para a minha Torre, retomar o meu trabalho.
Reunindo toda a coragem que possuía, para não começar a chorar desconsolada, a pequena Callista gritou.
- Mentira. Damian morreu há séculos, e não há mais Guardiões em Dalereuth desde então.
- Menina, menina. Claro que não. Uma tela de matriz só pode mudar de Guardião quando o anterior morre. Realmente não ensinam mais as coisas em Arillin...
- Você morreu. Todas as Torres se uniram contra você e a Dama Negra. O Guardião de Arillin...
- Ian Mikhail foi um tolo. Sempre foi. Achou que me privando do meu corpo físico e lacrando o plano psíquico de Dalereuth fosse me manter longe para sempre. Foi uma simples questão de tempo, até que o lacre se desfizesse. E com estes terranan vagando por Darkover, não foi difícil me libertar sem que as medíocres Guardiãs desse tempo me percebessem. E agora, pequenina, vou ensinar-lhe como é um verdadeiro duelo de laran.
Piero e Dalereuth tornaram-se manchas indistintas na paisagem. Uma vasta campina estendia-se a perder de vista. O Sol – ou seu reflexo nesse mundo psíquico – brilhava com força. Daimian estava ainda mais ameaçador, empunhando uma grande espada que brilhava com luz azulada.
- Então, criança. Vai desistir? És realmente a traidora que Leonie disse? Vendida aos terranan?
Callista ainda estava como criança. Concentrou-se, usando todo o treinamento que tivera com Leonie e na Frota. Cresceu, tornando-se novamente a mulher imponente de cabelos ruivos que fora sempre a sua imagem no mundo cinzento. Mas algo estava diferente. Usava agora um uniforme da gala da Frota Estelar, decorado com as insígnias de uma Guardiã...e totalmente vermelho.
- Não, tenerezu de Dalereuth-sobre-o-mar, a torre amaldiçoada. Não trai meu povo e nem meu planeta. Quero o melhor para Darkover. E isto significa olhar para o futuro e esquecer o passado, que é representado por você e suas tentativas de fazer este mundo voltar ao Caos. – a matriz que carregava em sua mão transformou-se em uma adaga brilhante. – Eu irei impedi-lo, Daimian. É preciso um Ridenow para parar outro.
Ele apenas sorriu e avançou. As lâminas chocaram-se, lançando faíscas. Callista agüentou a pressão que ele fazia, tentando desarmá-la sem conseguir. Ele recuou, um pouco surpreso.
- Ora, então você não é de todo indefesa, criança. Mesmo assim, eu sou um Guardião. E não há telepata vivo capaz de me deter. – dizendo isso, fez um gesto com a mão, e a adaga de Callista desmanchou-se na brisa, sobrando apenas a matriz. Antes que ela pudesse pensar em reagir, fez outro gesto e a jogou longe. Caída, Callista sentia como se estivesse presa ao chão. Daimian aproximou-se, sorrindo.
- Não se preocupe...eu serei breve...
De repente, ela não estava mais a frente de Daimian. E sim em lugar que conhecia como sua própria casa. A impressão da majestosa Torre de Arillin.
- Bem-vinda, criança. – ela não reconhecia a voz, mas agradeceu assim mesmo. Quando conseguiu mexer a cabeça, viu um homem, aparentando ser bem mais velho que o Guardião de Dalereuth, vestido com a mesma túnica vermelha. Olhos bondosos que ao mesmo tempo brilhavam com um poder incontido.
- Quem é você?
O estranho estendeu a mão e Callista o acompanhou, enquanto caminhavam ao redor da Torre de Arillin.
- Meu nome, chyia, é Ian Mikhail Lindir Alton. Fui – ou sou, pois onde estamos o tempo não importa – o tenerezu de Arillin. E você estava enfrentando meu pior inimigo, alguém que eu achei que estivesse morto. Mas eu deveria imaginar que Daimian jamais descansaria.
Ela sentiu-se aliviada.
- Que bom que você está aqui...Assim, você pode lacrar Daimian novamente.
O Guardião sorriu tristemente.
- Não, criança. Não é tão fácil assim...Eu estou em outro plano temporal, e não posso lhe ajudar, sem deixar o meu tempo...para sempre.
- Então estamos perdidos?
- Há sempre uma solução, Callista. Você é uma Guardiã, foi treinada para isso e...
- Mas não há mais Guardiões fortes como na época de vocês! Eu não tenho capacidade para...
Ele a olhou, com seus imensos olhos violeta refulgindo no plano psíquico.
- Callista Syrtis Ridenow!!! O que faz um bom Guardião é o seu treinamento! Qualquer mecânico de matriz minimamente competente pode exercer o trabalho de um Guardião! Você foi treinada pela melhor Guardiã de seu tempo. Tem dentro de si a força para derrotar Daimian...eu a ajudarei, o máximo que puder, sem comprometer meu próprio plano temporal.
Estavam novamente na frente de Daimian Ridenow, que os olhou com fúria.
- Se não me engano, Ian, você deveria estar morto.
- Eu digo o mesmo, Damian.
Ela não conseguiu acompanhar os momentos seguintes. Uma sucessão de golpes em luz azul seguiu-se, cada um mais brilhante do que seu antecedente. Ian levava a melhor, até que Daimian conseguiu derrubar Ian Mikhail. O Guardião de Arillin gritou.
- Callista, faça o que deve fazer. É necessário um Ridenow para deter outro!
Ela teve frações de segundo para pensar no significado do alerta que Ian Mikhail gritara. Os Ridenow eram empatas, captavam e absorviam emoções...Absorver! Era isso!
Concentrou-se no ponto de luz azul que empunhava, que se tornava cada vez mais brilhante. Daimian, distraído preparando o golpe final em Ian, só reparou nela quando Callista gritou.
- Daimian Ridenow Y Ridenow, Guardião da Torre Amaldiçoada, Dalereuth-sobre-o-mar! É preciso um Ridenow para conter outro! Eu serei a sua prisão!!!!!!
Lançou a energia psíquica que acumulara em um jato de luz azul cegante, atingindo Daimian em cheio. O Guardião sequer soltou um grito, e o mundo cinzento se desfez.
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Epílogo
Estavam em Arillin. Segundo Cassilde, que era sub-Guardiã desde a ida de Callista para a Frota, apareceram ali do nada, no meio da Sala de Transmissão. Peter Haldane continuava desacordado, apesar de já estarem ali há uma semana. A monitora explicou que fora o choque de ser transportado para o mundo cinzento e de lá para Arillin sem preparo, mas que em breve ele estaria recuperado.
Callista passeava pelo jardim, caminhando ao lado de seu pai. Kadja Aori, a terranan que era a sua madrasta, simplesmente os observava de longe. Acabara de contar tudo o que acontecera, e Piero estava pensativo.
- Filha...eu...estou estupefato. Daimian Ridenow. Depois de tantos séculos...E agora ele está dentro de sua mente. O que você vai fazer?
- Vou partir, meu pai. Mesmo que não tivesse renunciado à cidadania darkovana, a minha presença no planeta tornou-se ameaçadora demais para Darkover. Ele pode libertar-se e conseguir o que almeja, e ainda não estamos preparados para enfrentá-lo.
- Algum dia estaremos?
- Tenho fé que sim, meu pai. Cassilde é sensata, melhor telepata do que eu. Em dois anos, estará lidando com a Torre melhor do Leonie. As demais Torres estão revendo suas restrições a filhos bastardos, assim mais telepatas poderão ser treinados...e pai...
- O que?
- Eu e Cassilde estivemos pensando...Poderíamos reutilizar Dalereuth... Transformá-la em uma Torre que estivesse livre para treinar todos os que possuíssem talentos psíquicos. Nobres, camponeses...até mesmo os terranan e os seus aliados. Entendendo melhor os poderes das outras raças telepatas, iremos entender melhor os nossos próprios dons.
Piero Ridenow olhou além de sua filha, para a mulher que escolhera para passar o final de sua vida. Ela era terranan, e mesmo assim tornara-se parte da vida dele. Talvez o que faltasse em Darkover fosse aceitar a diversidade da vida fora do seu pequeno sistema solar.
- Irei falar com Hastur na próxima reunião do Conselho, chyia. Vamos voltar para perto de Kadja e admirar o pôr-do-sol.
Por trás deles, o Sol, chamado de Cottman pelos terráqueos, começava a esconder-se atrás das escarpadas encostas das imensas montanhas darkovanas, tingindo o mundo com variados tons de vermelho. Callista soltou um suspiro. Seria uma longa caminhada, mas seu planeta – assim como o modo de vida que ela herdara do seu pai – iria sobreviver.
Fim.
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