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Autor: Carlos Abraham Duarte.
Título: Interlúdio em Naboo.
Publicação: 29/08/2006.
Categoria: Guerra nas Estrelas.
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GUERRA NAS ESTRELAS      
Interlúdio em Naboo.
Por: Carlos Abraham Duarte.

Imagem da Internet.

Imediatamente após o desfile da vitória na Capital, que encerrou Star Wars - Episode I - The Phantom Menace

De mãos dadas, Amidala e Anakin passeavam pelos jardins do palácio real de Theed, capital do planeta Naboo. Contemplavam as aves nas suas gaiolas douradas, os pavões andando na grama, o fosso no qual se contorciam répteis cativos, de espécies desconhecidas em nossa galáxia. Havia fontes de mármore dourado, esguichando, e sendas de cascalho vermelho serpenteando entre arbustos que não existem em nosso mundo, todos floridos e perfumados, e um sem-número de estátuas.

- Sabe, é bom estar com você novamente, segurar suas mãos. Isso me faz sentir bem - disse Anakin. O menino vestia os trajes de um neófito Padawan da Ordem Jedi - túnica cor de areia, calças e botas - , seu cabelo louro cortado bem curto, exceto pelo diminuto rabicho pendente da nuca.

- Eu sei. E também sinto prazer em estar com você, Annie. - disse Amidala. A jovem rainha havia removido a maquiagem branca do rosto que dava a ela uma aparência de boneca de porcelana, e trocado as vestes ostentosas por trajes mais singelos. Usava uma saia marrom-escura que se prolongava em pernas de calças largas semi-transparentes, de forma a que suas pernas, do meio das coxas para baixo, eram vistas através do tecido. A blusa era apertada e sem mangas, deixando os braços nus até os ombros. A pele macia era ligeiramente amorenada. Os cabelos, lisos e de uma tonalidade castanha acaramelada, desciam-lhe sobre os ombros graciosos.

- Tenho sentido sua falta nos três últimos dias. Você mal falou comigo desde que fui aceito para treinamento pelo Alto Conselho Jedi - disse Anakin, e havia um tom de recriminação em suas palavras.

Amidala olhou para o menino e sorriu com uma leve sombra de amargura.

- Sei que não tenho sido atenciosa para com você com você, Annie, e como isso deve tê-lo aborrecido. Desculpe-me por não ter podido falar com você antes, mas eu estava muito ocupada. Você compreende, não é?

- Sim, eu compreendo. As responsabilidades do governo. Agora que você voltou a ser “a rainha”... - ele parou e ponderou um momento. - Mas, tudo bem - replicou Anakin alegremente, tentando disfarçar seu desinteresse. - Contanto que não precise chamar você de “Sua Alteza Real” ou coisa parecida.

Amidala encarou-o e deu uma risada cristalina.

- Claro que não, Annie. Para você, continuo sendo Padmé, apenas Padmé. - Ela brindou-o com um sorriso divertido (ah, o sorriso de Padmé! Anakin achava-o deslumbrante). Então, ela inclinou-se para perto e falou em tom conspiratório. - Esse é meu verdadeiro nome, que recebi de meus pais. O nome que usava antes de ser eleita rainha. Significa “lótus” no idioma do meu povo.

Anakin retribuiu o sorriso, e seus olhos brilharam quando falou:

- Padmé, eu a admiro. Você é muito inteligente, forte e corajosa. Vi como lutou para defender seu povo das tropas invasoras da Federação Comercial. Você conseguiu reerguer um povo sofrido, motivá-los a lutar para reaver a liberdade, liderá-los até a vitória na guerra. Tive medo, não por mim, mas por você, que algo de mau lhe acontecesse e eu não pudesse protegê-la. Agora compreendo que você ama esse povo como uma mãe ama os filhos e seria capaz de dar a vida por eles. - Seu olhar era intenso quando fitou a moça. - Você será uma ótima rainha, a melhor que já tiveram. Posso sentir isso.

O rosto lindo de Padmé assumiu uma expressão de surpresa, por um instante, então ela sorriu discretamente. - Obrigada pela confiança. Farei o possível para não desapontá-lo. - Ela levou a mão ao rosto do menino, acariciou-o suavemente e disse, em tom carinhoso: - Mas e quanto a você, meu jovem e destemido Cavaleiro Jedi? Finalmente poderá realizar seus sonhos e você fez por merecê-lo. É o começo de uma vida inteiramente nova para você, entre a elite dos seres sapientes da Galáxia e no centro de tudo: Coruscant. Como se sente estando a um passo disso tudo?

O rosto infantil de Anakin se contraiu, com as sobrancelhas franzidas.

- Confuso...

- Por quê?

- Toda a minha vida, eu sonhei em conhecer novos mundos, me tornar um piloto de uma nave da Frota Galática e até me tornar um Jedi. Agora que entrei nessa nova vida sem chance de voltar atrás, me sinto inseguro. Não é que eu esteja arrependido, não; é que não me acostumei ainda com a mudança. De escravo a Jedi, uma virada e tanto!

- Você precisa de tempo, só isso. Quanto maior e mais rápida é a mudança, maior é o choque que ela causa. Aconteceu comigo também, há quatro anos galáticos - dois de Naboo.

- Você se refere à sua eleição para o trono de Naboo?

- Sim. Eu tinha então 12 anos e havia sido separada de minha família. Uma garota montanhesa, nascida e criada num vilarejo na Cordilheira Central, que se vê elevada ao cargo de princesa regente de Theed e, dois anos mais tarde, ao de rainha do planeta e da nação Naboo. Pode imaginar isso? É como se tudo o que você viveu antes fosse deixado para trás de uma porta que se fechasse para sempre. É duro de aceitar e, ao mesmo tempo, te dá uma sensação estranha de liberdade.

- É assim mesmo que estou me sentindo. Agora sou um aspirante à iniciação, um estudante em treinamento para me tornar um Cavaleiro da Ordem de Jedi. - Anakin inspirou profundamente e soltou devagar. - Não vai ser fácil!

- Você há de ser bem-sucedido, Annie - disse Padmé, incentivando-o. - Você é excepcionalmente forte com a Força e é bastante maduro e consciencioso para um garoto da sua idade.

- Obrigado - ele dirigiu um olhar terno e intenso à moça. - Você tem sido minha melhor amiga.

Ela tomou as mãos dele entre as suas. - Somos muito próximos, você e eu - ela disse baixinho. - Sempre gostei muito de você. Sempre gostarei.

Por um instante os olhares dos dois seres fundiram-se, e suas mãos congregaram-se numa unidade.

Ficaram um instante em silêncio e depois Anakin disse:

- Dentro em pouco, terei partido de Naboo, Padmé, e muitos anos se passarão antes que me seja permitido voltar aqui.

- E isso é algo que, no fundo, incomoda você - sugeriu Padmé.

Anakin assentiu. - Já duas pessoas que eu amava saíram da minha vida. Não gostaria que acontecesse a mesma coisa com você, não gostaria de perdê-la.

- Você não vai “me perder”, Annie. Existe hipercorreio entre Coruscant e Naboo. A Starnet, como você já sabe. Não há nada que o impeça de me escrever ou enviar uma hipermensagem, mesmo estando interno no Grande Templo de Jedi.

- Escreverei, Padmé. Você também me escreverá?

- Certamente, Annie. Não me esquecerei de você.

****

Calados, eles caminharam juntos pelo jardim real em sua amplidão e sua luz, por entre as árvores imensas com flores azuis e cor de ametista do tamanho de nossos girassóis terranos. Finalmente, passaram a olhar para o azul do céu - as faces contidas, as mãos unidas com força, o olhar sumido no vazio -, como se estivessem enxergando o que ficava acima e além dele, a eterna escuridão dos abismos interestelares.

Eles sentaram em bancos esculpidos de pórfiro em meio ao verde exuberante do jardim. O ímpeto das cachoeiras e o murmúrio das fontes formavam um distante som de fundo para o silêncio em derredor.

- É muito bonito - disse Anakin embevecido.

- É o meu mundo - disse Padmé solenemente, depois sorriu.

- Você acredita em destino? - perguntou Anakin de supetão.

- Por quê?

- Estava me lembrando de alguém que conheci em Mos Espa - respondeu Anakin pensativo. - Um velho piloto espacial de olhos cinzentos. Ele me disse que não ficaria surpreso se eu me tornasse algo mais que um escravo. Ele já havia pilotado caças espaciais, cruzadores e naves de primeira linha. As grandonas. Eu jurei que um dia me tornaria também piloto espacial da Frota da República, como ele, e pilotaria as grandes naves. Jurei fazer tudo o que ele fez e muito mais.

Padmé mergulhou seus olhos nos dele (“Que olhos lindos”, ele disse-lhe depois, verdadeiramente encantado; e ela respondeu-lhe, com um sorriso maroto: “Os seus olhos são mais bonitos do que os meus”).

Anakin levantou o queixo e disse com determinação: - Vou tornar-me um grande guerreiro, um grande e poderoso comandante de um exército espacial. Um dia, irei à guerra para defender a República. - Os olhos azuis chamejavam com um fogo de ambição e esperança. - Esse é o meu destino!

- Guerras não engrandecem ninguém, Annie. A guerra é uma estupidez, um mal desnecessário.

- Lá vem você com esse pacifismo Naboo.

- A paz é um dever permanente pelo qual o homem deve trabalhar para mantê-la, enquanto viver - contrapôs a garota mais velha. - Ela é o fator que gera tudo o que há de mais nobre. Sou suficientemente Naboo para crer nisso.

- Mas você lutou na guerra contra os invasores.

- Lutei e lutaria novamente pela liberdade do meu povo, não pela simples emoção de uma batalha. Annie, uma guerra não é uma corrida de Pod.

Ele olhou para ela desafiante. - Uma causa justa, então? Tá bom. Libertar os escravos! Fazer justiça ao fraco, ao aflito e ao necessitado, salvá-los das mãos dos perversos. Não é uma causa justa e nobre? Não vale a pena lutar por ela?

- Está pensando no planeta onde nasceu, não está? - Padmé pôs a mão no ombro do garoto, com uma expressão grave. - Tatooine...

- Estou, sim. - Anakin mordeu os lábios. - Não posso me esquecer de onde vim, nem do que - ou quem - deixei para trás. Não quero esquecer! - É por isso que você quer ser um guerreiro. Para voltar ao seu planeta e libertar todos os escravos que lá se encontram - e especialmente a sua mãe, Shmi - concluiu a garota em voz baixa.

- E destruir os homens maus que os escravizaram! - Os olhos do garoto faiscavam. - Lembra-se do que me disse quando estávamos no pântano Gungan, antes da batalha? Você disse que, às vezes, não há escolha, a gente tem que lutar. Quem não se adapta, morre. Lembra?

****

Padmé assentiu, sorrindo tristemente. - Sim, eu me lembro. Você tem razão. Cresci acreditando que a paz fosse a única alternativa possível para a guerra. Mas agora sei que uma alternativa para a guerra também pode ser a escravidão. - Seu rosto se contraiu numa expressão de genuína repulsa. - Uma alternativa inaceitável para qualquer ser inteligente na Galáxia, cidadão da República ou não.

A face de Anakin se iluminou. - Eu sabia! Você também odeia a escravidão. - Ele dirigiu à moça um olhar caloroso. - Padmé, nós somos iguais.

A jovem viu-se obrigada a sorrir. O sorriso divertido que Anakin adorava.

- Você é um tipinho bem duro, Anakin Skywalker, que só tem de veludo o exterior... como o musgo na pedra - disse ela, dando uma piscadela amistosa para o garoto.

- E você, Padmé Naberrie, tem muita força e suavidade ao mesmo tempo... como a água - replicou Anakin, indicando uma abertura entre as árvores, através da qual se vislumbrava uma queda d’água e uma represa imensas que alimentavam uma série de lagos artificiais que se espalhavam pelo palácio.

Ele riu suavemente, deliciado, e Padmé também.

- Que bela dupla nós formamos, hein?

- Vê o que o espera, se ousar casar-se com uma rainha Naboo?

- Padmé, desde que te vi pela primeira vez eu senti que você era especial, não era apenas uma garota.

Ela aproximou-se dele e beijou-o com ternura na boca e na face, à maneira do povo de Naboo.

- Ah, querido, meu talentoso garotinho! - A voz de Padmé era clara e alegre. - Eu o conheço há tão pouco tempo e você já fez tanto por mim... Sei que parece lugar-comum, mas a verdade é que devo tudo a você: meu trono, meu mundo. Ganhando a corrida de Boonta Eve você nos livrou do exílio em Tatooine. Depois, ao fazer explodir a Nave Controladora de Dróides da Federação Comercial, você salvou a todos em Naboo. Se eu fosse Jedi, diria que encontrá-lo foi vontade da Força. - Fez uma pausa e olhou intensamente para o menino à sua frente que a observava esperançoso. - Ainda assim, entretanto, não foi por acaso que nos conhecemos. Não existem coincidências.

Jamais o esquecerei, Annie." Onde quer que você esteja, meu coração estará com você. Adoro você, meu pequeno.

- E eu adoro você, Padmé... Amidala - replicou Anakin com os olhos fixos na garota mais velha. Sentiu o sangue pulsar mais rápido. Hesitou um instante e, com determinação e com o pequeno queixo erguido, disse: - Repito mais uma vez, vou voltar e me casar com você um dia.

Amidala sorriu, o amável sorriso brincalhão, mas agora não havia divertimento nos lindos olhos castanhos. Pelo contrário, cintilavam de amor, um imenso amor.

Naquele momento o inteligente Anakin compreendeu que suas esperanças não seriam vãs...

FIM

STAR WARS é marca registrada da Lucasfilm Ltda.
Esta história é dedicada a Natalie Portman, o Grande Amor da minha vida.

****

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