Quando ler o livro “Só os Anjos Morrem Cedo”, deixe
a mente fluir despreocupadamente, sem nenhum pudor. Então poderá entender a catarse humana que é revelada
por Halcen. Um ser humano em fase terminal de vida, que não quer ir ao encontro da morte, sem antes confessar
a alguém os seus medos, desejos e toda aquela ansiedade que ainda é muito forte dentro de si. E, de
repente, vê surgir essa oportunidade quando o seu corpo é invadido por uma entidade desconhecida. Um ser
chamado Vortlan. Um guerreiro alienígena treinado para a batalha e puramente instintivo.
Vortlan também se surpreende ao perceber que caíra numa
engenhosa armadilha; sendo prisioneiro dentro do corpo de um ser alienígena e com uma missão quase
impossível. Por outro lado, via-se numa situação inusitada: era o hospedeiro do seu próprio hóspede!
E tudo aquilo que Halcen lhe transmitia numa fusão de energia, num ímpeto explosivo, também causava mal
estar e o fazia pensar a respeito. E a sua insatisfação não era menor.
Ele também possuía sentimentos aprisionados que nunca pudera
revelar a alguém, e não eram menos diferentes nem menos importantes do que os daquele terráqueo. As
vozes constantes dos Maharnóides lhe vinham sempre a mente ocupando completamente o seu pensamento:
“Vortlan... Vortlan... nós, os maharnóides, somos apenas os
lavradores do universo... apenas podamos para fortalecer as raízes das novas gerações... apenas
cultivamos as raças do cosmo...”
Eles haviam lhe preparado uma arapuca diabólica, e agora
tentavam dissuadi-lo a se entregar, já que não podiam prende-lo enquanto estivesse ali, dentro daquele
corpo. E as milhares de vozes dos Maharnóides, às vezes, se repetiam como num eco infinito, para depois
retornarem no mesmo tom conhecido.
“Este ser lhe passou todas as experiências que vivenciou
durante a sua vida. Tudo será absorvido junto com as suas memórias e preservado através de você. Mas em
outro mundo, em outro tempo, em outro lugar, em outro universo, como parte do crescimento e evolução de
outra raça. Por isso, quando a mente deste novo Ser vagar em sonhos e devaneios, ele terá a impressão
de já ter conhecido outros povos, viajado por lugares exóticos e estranhos... E quando esse Ser morrer,
suas lembranças, assim como suas experiências serão aglutinadas a outra... É desta maneira que milhares
de civilizações, raças, povos deste universo infindo são constituídos. Tudo segue um ciclo vital e
divino. Nada pode impedir esse processo. Nós somos apenas uma infinita parte de um Todo, que está
dentro de cada ser possuidor desta inteligência cósmica, portanto, quando um dia orar para os céus,
você não estará mais do que, numa súplica, querendo voltar às suas raízes e se tornar uno... Não fica
se questionando, pois quando menos perceber, descobrirá tudo e desvendará todo o mistério...”
E as vozes em uníssono foram sumindo num eco, quase num
sussurro. Os maharnóides não estavam mais ali, ou melhor, suas luzes de rosa metálico, agora se tornavam
brancas, intensas e irradiantes...
Vortlan gostaria de acreditar que fosse verdade, mas as
lembranças da fuga e destruição do seu planeta ainda eram recentes. E até o último instante, antes
de ser envolvido pela forte energia luminosa vinda dos maharnóides, seus pensamentos eram cortados
por imagens de Altÿon e da Terra. Eram os resquícios das memórias, restos das visões do passado...
“Se um dia suas lembranças se voltarem para um lugar
distante, seu peito se encher de solidão, seus olhos explodirem em lágrimas, e você chorar sem saber
a causa, pode ter certeza de que é a saudade de voltar para o seu mundo, que este Ser enclausurado no
seu corpo está sentindo...“
Vortlan agora sabia; tinha a mais absoluta certeza de que
tudo o que fizera desde o instante em que deixara Altÿon, fora planejado, organizado, feito de acordo
com o que estava já estabelecido em um plano divino. Erhu-Dhyn era perfeito em sua sabedoria e poderoso
na sua criação.
E o terráqueo Halcen, talvez estivesse bem próximo da
verdade. quando predisse: “E um único fim, não é mais do que o começo de alguma coisa, não é
mais do que o principio de uma nova realidade, não é mais do que uma reavaliação de todos os
princípios morais, religiosos e universais. Não é mais do que dizer acabou, terminou, finalizou...”
“Só os Anjos Morrem Cedo” de John Dekowes vasculha a
alma e os sentimentos humanos, sem nenhuma reserva. E, às vezes, levando o próprio leitor a se
questionar sobre o que está lendo: as emoções serão suas, de Halcen ou de Vortlan?
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