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A escuridão de Júlia

_ Ela vai ficar bem?

_ Eu não sei… Ela teve muita sorte de você ter errado.

_ Não era nela que eu mirava – disse irritado.

_ Sei… Foi bem difícil suturar a têmpora dela, então eu vou manter o sedativo, vou aplicar uns antibióticos e a gente vê.

_ Ok, obrigado.

_ E então, como ela está?

_ As pupilas estão normais, a febre baixou desde ontem, mas o lugar está bem quente e inchado ainda.

_ Acha que a visão dela vai ter problemas?

_ Não, esse vermelho é por causa do hematoma, mas acho que ela vai ficar bem.

_ Júlia? Consegue me ouvir?

_ Alguma mudança?

_ Ela tem resmungado muito nos últimos dias. Teve um pouco de febre ontem, mas está baixa agora.

_ Júlia? Pisca os olhos pra mim, querida?

_ Nada… – suspirou desanimado.

_ Ela levou um tiro de raspão na cabeça. Esperava o que? Que ela levante e saia correndo?

Muitos zunidos e pensamentos erráticos passavam por sua mente. A cabeça latejava como se tivesse levado uma pancada severa e seu próprio cérebro estivesse inchado. Ouvia comentários e conversas ao seu redor, sem saber exatamente o que significavam, via dois pontos de luz em suas vistas de vez em quando, ouvia chamarem seu nome, mas não conseguia responder. Sentia sede. Sentia fome. Já sentia quando desabou no asfalto. Ela era um zumbi? Será que era isso?

_ Júlia? Tá ouvindo? Mexe a mão se estiver?

As luzinhas voltaram nas suas vistas, mas desta vez ela conseguiu focalizar um rosto.

_ Ora, que coisa boa. Está me vendo?

_ …

_ Júlia? Quantos dedos têm aqui?

_ … do-dois…

_ Bom, muito bom. Meu nome é Carla, doutora Carla. Você está inconsciente há cinco dias.

_ E então?

Júlia conseguiu focalizar a visão na médica, vendo um rosto cansado, magro, mas ainda simpático de uma moça de cabelos castanhos, presos em um rabo de cavalo. Ao seu lado apareceu um homem alto, cabelos grisalhos cortados rende à cabeça e um rosto que apesar de meio rude, não era feio.

_ Ela parece estar voltando a si.

_ Júlia, sou o delegado Germano. Você está no prédio da Polícia Federal, na ponte do Piqueri. Está ouvindo?

_ Não cobre muito dela, delegado.

_ … estou ouvindo…

_ Eu queria acertar um daqueles malditos que estava atrás de você e te acertei de raspão, me desculpe.

_ Chega, deixa a moça descansar.

Os dois saíram de suas vistas e Júlia respirou fundo, buscando respostas no funda cabeça. Realmente, ela lembrava do estampido e de algo quente escorrendo de sua cabeça e descendo por seu pescoço. Depois disso foi apenas escuridão e vozes indistintas.

O sol esquentou seu rosto, despertando Júlia do sono. Se remexeu em uma cama desconfortável de molas e olhou ao redor. Era uma sala de escritório, janelas de vidro com cortinas abertas, uma bagunça de caixas de comida num canto e o delegado Germano sentado numa cadeira, limpando uma arma, que estava desmontada na mesa. Era um homem alto, ela podia ver, usava calças camufladas, coturnos e uma camiseta preta da PF.

_ Bom dia.

Sem lhe dirigir o olhar, ele continuava limpando a arma e montando-a rapidamente. Olhando na mesa, Júlia viu todas as suas armas, aquelas que eram de Leonardo. Aquela que o delegado limpava era a pistola de serviço de Leo.

_ O que você fazia no meio da marginal? – dessa vez ele a observou.

Sua vida parecia girar sempre em torno de uma. A explosão da ponte voltou à sua cabeça.

_ Onde… – limpou a garganta e firmou a voz – onde está meu carro?

_ Eu o guinchei pra garagem, lá embaixo. Mas você quase fundiu o motor, não sei se tem conserto.

Remexendo as pernas, sentindo-se rígida, como se seus membros fossem de borracha, Júlia conseguiu se sentar na cama improvisada. Levou a mão à cabeça e sentiu a dor profunda que vinha de sua têmpora.

_ Não respondeu minha pergunta. – ele disse, olhando pelo cano da arma que remontava.

_ Eu… queria ver se ainda tinha alguém vivo.

_ Então você achou.

_ Você disse que esse é o prédio da Polícia Federal?

_ Disse.

_ O que está acontecendo?

_ Onde conseguiu essas armas? Armamento pesado para uma moça.

_ Deixaram para mim – ela não gostou do tom do delegado.

_ Sei… o que aconteceu com o dono delas?

_ Ele morreu.

_ Você o matou? – continuava limpando a arma e interrogando.

_ Não interessa.

_ Ei – ele a olhou duramente – se dê por satisfeita de estar viva, pois gastei remédios e recursos com você que eu não tinha. Por mim, tinha te deixado no meio do asfalto, pois acredite, não sentiria nenhum remorso.

_ Devia ter deixado então.

Engatilhando a arma rapidamente e se pondo de pé mais rápido que podia acompanhar, Júlia o viu crescer diante de si com cara de poucos amigos. Ele então foi até a porta e a abriu.

_ Paulo, chega aqui.

Algum tempo depois, um jovem policial com rifle à tira colo entrou e a olhou um pouco confuso, enquanto Germano puxava fundo o ar.

_ Leve nossa amiga pra detenção.

Sem questionar e nada dizer, Paulo segurou em seu braço com força e a ergueu da cama. Com um olhar de incompreensão, Júlia não pode protestar e foi levada embora sob o olhar intenso de Germano.

Sobre o Autor Sybylla °°:
Geógrafa, professora e blogueira. Escritora nas horas vagas. Curiosa em tempo integral.

2 Comentários para “A escuridão de Júlia”

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