Em busca da Luz – 2 – A partida
Do alto da torre eu podia ouvir o cântico das iniciadas. Havia magia em cada tom, em cada sílaba pronunciada. Algumas músicas podiam até curar doenças. Outras evocavam poderes tão fortes quanto o tempo, e eram capazes de atravessar até as portas da morte.
Eu havia crescido ouvindo aquelas músicas. Minha mãe fora iniciada naquele templo, e desde então todos os corredores me eram familiares. O som dos passos, o aroma doce dos incensos, a aspereza das pedras nas paredes, tudo aquilo fazia parte de mim, e eu sabia que ia sentir muita falta de tudo.
Do alto da torre eu podia observar os campos de flores. Amarelas e brancas, se perdiam de vista. A lenda dizia que haviam sido plantadas pelos deuses no início dos tempos, e que ali era seu jardim. Por isso, a torre havia sido construída naquele local, no meio do jardim. Qual melhor lugar para se aprender e desenvolver magia?
Para cá eram trazidas as crianças e os jovens considerados estranhos pelas suas famílias. Chegavam assustados, vindo de um meio que os rejeitava. Só porque tinham dons, só porque eram especiais. Apenas alguns poucos vinham para estudar, sem nada ter de especial estes sempre tinham que se esforçar mais, mas quase sempre chegavam a fazer grandes trabalhos. A ausência de poderes especiais lhes dava uma proteção natural que os demais não tinham.
Ah, a brisa da manhã… O toque do vento sobre a pele, trazendo aromas do distante mar… No inverno o vento invertia seu sentido e eram os aromas das montanhas atrás da torre que chegavam.
E eu ia embora…
- Novamente perdido na torre… Não dormiu direito?
Eu conhecia bem aquela voz, que por anos e anos me perseguiu, obstinada pela minha educação.
- Velho Ahad, ainda aqui? Não tem mais nada a fazer no mundo dos mortos?
- Pois é, tantas tarefas e me mandaram continuar com você…
- Acho que você devia fazer uma reclamação formal – sorri.
O velho professor parou ao meu lado, debruçando-se sobre a amurada da torre.
- Aqui é mesmo lindo. Por isso você sempre foge para cá, quando há problemas.
- Funcionava, pois você não conseguia chegar aqui. Subir pelo lado de fora da torre nunca foi seu esporte preferido.
- É verdade. Mas como agora atravesso paredes, tudo ficou mais fácil.
- Estou morto de inveja.
- Péssima piada…
O sol já inundava a torre com os seus raios, projetando enorme sombra sobre os campos de flores.
- Não atrase mais sua partida – o tom de Ahad agora era grave – precisa encontrar seu destino, e ele não está aqui.
Quando criança, sonhava em encontrar uma linda jovem entre as iniciadas. Com ela iria ser muito feliz. Mas os anos se passaram e isto não aconteceu. E, para piorar, nenhum dos oráculos anunciava meu futuro como um dos magos da torre.
A torre branca não me aceitava ali, por algum motivo invisível que me escapava, e que ninguém sabia explicar.
- Parta hoje mesmo. Vá para o norte, até além das montanhas. É época de festas da magia, e você vai gostar de ver.
- Já esteve lá?
- Sim, várias vezes. É uma terra muito bela, de ótimas pessoas.
Olhei para o horizonte.
- É verdade que um dia tudo isso vai acabar?
- Sim. O mundo passa por ciclos, e uma grande época de ignorância está para chegar. Espero que você não a veja.
- Não há nada que possamos fazer?
- Faremos muita coisa. Nossa ordem permanecerá por séculos. Por vezes escondida, mas sobreviverá até que o mundo esteja pronto a nos aceitar de volta.
- Será uma época triste…
- Já aconteceu antes. Eu vi.
- Não vou atrapalhar mais, preciso ir.
- Sua mãe está te aguardando no Alto Conselho.
- Eu sei, preciso buscar meu material. Minha espada e meu cordão.
- Sim, está preparado.
Olhei mais uma vez para o horizonte. As flores, brancas e amarelas, oscilavam com o vento, como de me dessem adeus.
Uma última olhada naquele que havia sido o meu quarto por tanto tempo.
Pergaminhos na bancada, algumas velas já gastas. Um grande baú com um monte de coisas que eu nem lembrava por que guardei. Nada disso seria mais necessário.
- Tomara que o próximo dono deste quarto encontre utilidade para isso.
Peguei minha espada. Estava um pouco cega pela falta de uso. Eu não era mal em seu manejo, mas acho que jamais seria um grande guerreiro. Eu havia dedicado a vida ao estudo de magia, e não sobra muito tempo para praticar com metal. Mesmo assim, eu a levaria, pois no pior dos casos amedrontaria alguém com menos habilidade que eu.
Encontrei meu cordão. Este sim, equipamento essencial para a viagem que iria empreender. Levei anos concentrando encantamentos sobre o cristal castanho que havia nele. Para qualquer salteador seria um penduricalho sem valor, mas para mim era a maior arma material que eu possuía, e a principal conexão com o mundo invisível.
Todo grande trabalho de magia é demorado. Envolve perseverança e paciência que muitas vezes não tive. Muitos magos possuíam três ou quatro amuletos poderosos, mas eu tinha um só. Na verdade nunca achei que iria precisar de verdade, pois vivíamos uma época de paz. Ou talvez fosse só onde morávamos, mas não importava. Quase nunca alguém viajava, e os viajantes que passavam por perto de nossas torres evitavam se aproximar, com medo de serem transformados em sapos ou ter seu caminho atravessado por alguma serpente amaldiçoada. Embora nada disso fosse verdade, servia para manter a nossa tranqüilidade.
Coloquei meus poucos pertences fora do quarto. Agora tinha minha última tarefa de magia a realizar. Deveria retirar todo e qualquer vestígio da minha energia daquele aposento. Isso era um procedimento comum quando mudávamos de lugar. Evitava que outra pessoa com um mínimo de habilidade pudesse saber nossa história e até mesmo alguns detalhes íntimos.
No centro do meu quarto abri os braços e absorvi toda a energia pessoal que havia espalhada. Cada energia que voltava para mim vinha com uma lembrança, um cheiro, um toque. Acabei descobrindo que ainda havia ainda alguns objetos que não eram meus, deixados por antigas namoradas. Uma peça de roupa sob um cobertor de carneiro, um pergaminho com algumas linhas mal-traçadas, uma pena, um anel com uma pedrinha azul. Acolhi tudo aquilo no fundo de minha alma: era minha história. Mas não ia levar nada material comigo.
Em poucos minutos não havia mais nada ali: o quarto estava limpo de qualquer vestígio de que alguém houvesse morado ali.
Embora não fizesse parte da prática básica, enchi o quarto de energia positiva, para que o próximo morador tivesse bons sentimentos ao entrar ali. Esse era meu presente de despedida, seja lá para quem for.
Saí do quarto e recolhi meus pertences. A espada, o cordão e um pequeno embrulho com algumas roupas de viagem. Uma sacola com algumas peças rituais e um outro embrulho menor com minhas roupas de iniciado. Ajeitei-os junto da melhor forma possível e fui em direção ao salão do Alto Conselho.
Pessoas andavam alegremente pelos corredores. Alguns preocupados, provavelmente por alguma prova a realizar ou um amor complicado. Ninguém sabia da minha partida, exceto os mais íntimos. Não eram incomuns essas partidas de magos, por isso eu passava quase desapercebido.
A decoração da torre do Alto Conselho era impecável. Não era por menos. Dezenas de aprendizes mantinham tudo limpo e organizado. Ali haviam peças trazidas de diversas partes do mundo. Tapeçarias e jarros vindos do Extremo Oriente, essências jamais encontradas em nossas terras, pinturas e desenhos de pessoas e animais que nunca conhecemos.
Além dessas peças havia outras, muito especiais. Um crânio de cristal, uma pedra de brilho estranho que mudava de cor de acordo com a luz do ambiente, uma pedra com gravações milenares, e vários outros.
Ouvíamos histórias sobre cada uma daquelas peças, mas acredito que metade tenha sido inventada. Há algumas tão improváveis que somente as crianças menores ainda acreditam. Aliás, tudo nessa sala me fascinava quanto eu era pequeno.
Atravessei a porta e fui até o salão principal.



