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Caça e caçador

A visão que o arqueiro teve da mulher que atormentou seus sonhos, o provocou e tentou matá-lo não podia ser mais diferente do que estava acostumado. A pedra da lua realmente dava resultado e quebrou o escudo de magia que a envolvia e que tanto sustentava seu poder. Passo após passo, respirando pausadamente, arco e flecha prontos, corda retesada, o arqueiro encontrou a bruxa caída no chão, chorando. Seus olhos de âmbar não pareciam mais tão poderosos nem seu aspecto era mais a imponente visão de antes. Era uma mulher derrotada no chão, olhando-o como se pedisse misericórdia, os longos cabelos castanhos esparramados pelas costas emoldurando seu rosto como um véu ondulado.

Um pouco abalado pela visão, o Windshadow baixou a guarda e a ponta da flecha começou a apontar para o chão. Era um erro, ele sabia, mas algo lhe dizia que Lisisca nada faria. A pedra da lua brilhava intensamente no chão e drenava os poderes mágicos da mulher ali caída ao seu lado. 

Windshadow recolocou a flecha na aljava, colocou o arco nas costas e puxou uma corda da cintura. Lisisca viu aquele homem de negro se aproximar e temeu ser morta ali mesmo, indefesa. Sentia o corpo fatigado e meio amortecido pela queda, suas forças mágicas drenadas como se seu sangue se esvaísse por ferimento. Mas tudo o que ele fez foi puxar seus punhos e amarrá-los com firmeza, em um complicado nó. Colocando-a em pé, pois não se sentia confortável em ver um inimigo derrotado e aos seus pés, sentiu o quanto seu corpo era ao mesmo tempo macio e firme, como frágil e delicado. Pele branca leitosa em um decote bonito de se ver.

_ Lisisca, a Loba. Eu a capturo por ordem do rei e devo levá-la a Wurth imediatamente.
Fechando os olhos bem apertados, temendo seu destino, Lisisca compreendeu que era hora do seu julgamento e lágrimas rolaram de seus olhos de âmbar pela primeira vez. Mais uma vez, a visão incomodou o arqueiro, que evitava ter sentimentos. No pescoço da bruxa, ele colocou a pedra da lua, que brilhou ainda mais intensamente ao tocar a pele branca da mulher. Foi preciso puxá-la para que se movesse. Lisisca parecia não ter mais domínio sob seu corpo agora que sua magia estava neutralizada pela misteriosa pedra da lua, dada pelas fadas ao arqueiro.

Pegando a montaria mais robusta do estábulo, os dois se puseram no caminho. Seriam cinco longos dias para sair da escuridão do bosque fechado, das cercanias da floresta até Wurth. Arqueiros são seres que não gostam de submeter animais nem montá-los. Seu trabalho era buscar rastros e cavalos atrapalhavam essa tarefa. Mas naquele momento, não tinham escolha. A peste estava vindo pelo mar em uma semana e nuvens negras tomavam o horizonte.

Windshadow sentia corpo moído depois da batalha com Lisisca. Combateu monstros de pedra, gigantes de fogo e granizo violento, além de um poderoso tornado. Viu mortos se levantarem e gnomos hipnotizados. Podia dizer que aquela tinha sido sua mais difícil tarefa até aquele dia. Montado no cavalo, ele olhava para trás para ver o estado de Lisisca, mas ela andava de cabeça baixa, olhando para os próprios passos, enquanto seus punhos permaneciam amarrados por uma corda presa em sua cela.

Desde a saída de seu mágico castelo em ruínas, que virou areia assim que passaram os portões, que Lisisca não dissera uma só palavra. Era puro silêncio e dor. Até nas paradas entre uma refeição e outra, ela não comia, nada bebia, nada falava. Não sabia se era jogo dela, mas começou a temer que ao final de cinco dias, ela não estaria mais viva. Seguindo por estradas secundárias e isoladas, eles conseguiram cortar boa parte do caminho e Windshadow acreditava poder chegar à Wurth em três dias. Já estava na companhia de Lisisca havia um dia e ela nada fizera. Estavam parados junto a um lago que espelhava a quente luz do sol. O cavalo pastava mais adiante e Windshadow colocou diante de Lisisca várias frutas cortadas, algumas nozes e sementes comestíveis. Mas ela não se movia.

_ Você precisa comer.

Nenhuma reação. Respirando fundo, sabendo que tinha que ser insistente, ele pegou metade de uma noz e segurou seu queixo para fazê-la abrir a boca. Temendo algum tipo de violência ela se esquivou violentamente, seus olhos mostrando ira. Windshadow ergueu as mãos em sinal de paz e mostrou o que tinha na mão, era apenas meia noz.

_ Não pode ficar sem comer ou beber nada.
_ E por que você se importa?
Taí, boa pergunta. O arqueiro relaxou os ombros por um instante, pensando na pergunta.
_ É a minha missão. Agora coma.

Contrariada, mas sentindo o estômago cobrar pela comida, ela comeu tudo. Depois tomou bastante água e acabou dormindo na relva macia sob um grande salgueiro. Windshadow afiava o gume de sua espada, sua arma secundária, enquanto a observava em silêncio. Estava mesmo cansada. Seus olhos se moviam rápido, agitados no mundo dos sonhos. Aquela que o causou sonhos embaraçosos durante as madrugadas no bosque agora sonharia com o que?

Fatigado pela missão longa em que se metera, Windshadow acabou dormindo encostado ao casco nodoso do salgueiro em algum momento da noite. Não lembrava-se porque, mas acordou sobressaltado na manhã seguinte, vendo que Lisisca não mais estava ao seu lado na relva. Pôs-se de pé o mais rápido que conseguiu, porém o barulho de água o alertou. Um pouco mais adiante, na beira do lago, oculta pelo mato alto, a bruxa tentava lavar o rosto sujo de fuligem e de poeira da estrada. Seus pulsos estavam amarrados ainda, mas ela conseguira limpar a sujeira. Ela o viu ali parado mais acima, seu gibão negro de tachas piscando ao sol da manhã, olhos negros curiosos e um porte de guerreiro que há muito não via. Fingindo que não o vira, ela continuou lavando seu rosto, molhou o pescoço e ajeitou os cabelos o melhor que pode.

Prosseguiram viagem. Silêncio e o casco do cavalo, mas quem ia montado no animal era Lisisca. No final da tarde uma chuva poderosa os fez parar. Uma gruta serviu de abrigo durante a noite, aquecida por uma fogueira providencial feita pelo arqueiro. Ajeitando-se o melhor que pode, ele se encostou enrolado em sua grossa capa enquanto observava a chuva cair. Lisisca estava deitada um pouco mais afastada mas quando a observou, viu que tremia. Era um outono frio naqueles dias. Assim que ele respirou e o ar condensou diante de sua face foi que percebeu o frio cortante que fazia lá dentro, mesmo com uma fogueira fornecendo calor. Em silêncio, Windshadow se aproximou e a abraçou com cuidado, temendo que retaliasse. Mas ela permaneceu quieta em seu lugar, os punhos amarrados juntos do rosto. O arqueiro a envolveu com seus braços e com a capa grande cobriu os dois, enquanto a chuva caía lá fora.

Pela manhã, Lisisca acordou com uma gostosa sensação de calor e segurança como nunca sentira. Estava aquecida, aconchegada e chegou a esquecer por um momento que estava amarrada e era prisioneira de um intrigante arqueiro solitário. Os arqueiros eram temidos por todo o reino. Eram os soldados que mais custavam aos reinos e eram aqueles mais difíceis de matar. Por isso um arqueiro mercenário causava tanto terror por onde passava. Significava que caçavam alguém. Foi então que ela percebeu a situação em que estava. O arqueiro a envolvia em um abraço firme, porém gostoso. Suas pernas estavam entrelaçadas nas dele e ele respirava pesadamente em sua orelha. Estava coberta por sua capa negra quente e se tentasse se mexer, ele acordaria. Sentindo o coração acelerar, Lisisca não sabia o que fazer. Quando tentou se mover para olhar seu rosto, ele fungou pesadamente e a juntou mais para seu corpo.
_ Vai a algum lugar? – ele perguntou ainda de olhos fechados.
_ O que está fazendo? – ela sussurrou.
_ Você estava com frio… Durma.

Mas ele mesmo não seguiu seu próprio conselho. Ele acordou sentindo um desejo imenso de ter aquela bruxa para si. Dormiu sentindo o cheiro doce que vinha de seu pescoço e de seus cabelos e quando os sonhos lhe voltaram à cabeça, sentia que era uma boa hora de realizá-los, pois pareciam muito reais. Ele apalpou seus seios macios, puxou seu quadril para junto do seu, sentindo a surpresa da bruxa com o que acontecia.

Ele virou seu rosto para olhar aquele âmbar misterioso. Os lábios rosados estavam trêmulos. Lisisca virou o corpo completamente para poder ficar de frente para o arqueiro, que alisou sua cintura e suas costas e passou uma perna por entre as dela. Os dois se beijaram calorosamente sob a capa negra, enquanto uma chuva fina ainda caía lá fora. Seus sentidos, seus desejos, suas carícias se misturaram por entre bocas, braços e mãos. Windshadow sacou uma faca oculta na bota e cortou as cordas que amarravam os punhos delicados e ela alisou seu rosto, afagou seus cabelos enquanto o arqueiro erguia seu vestido. Ele arremeteu seu sexo vigoroso para dentro daquele corpo quente com um gemido, enquanto Lisisca arfava e o agarrava mais junto de seu corpo. Ele parecia ter ânsia, ter pressa em possuir seu corpo. Talvez amanhã fosse tarde demais.

Os dois se amaram mais duas vezes sob a capa negra. Quando a chuva deu uma estiada, ambos seguiram à cavalo pela estrada lamacenta, a capa protegendo os dois corpos cansados e satisfeitos. Ela sentia a respiração quente do arqueiro em sua orelha e tentava entender que tipo de domínio ele tinha sobre ela. A pedra da lua ainda brilhava intensamente, ela não tinha mais magia em seu corpo enquanto a pedra estivesse ali.

Foi então que uma escolta de Wurth os encontrou no caminho. Tinha ordens do rei para trazer a bruxa até seu encontro imediatamente. Mas Windshadow discordou. A missão era sua e ele a levaria pessoalmente até o rei. O capitão da guarda chiou, mas não rebateu. Ambos foram escoltados até a cidade de Wurth, enquanto a tormenta se descortinava no horizonte. A pestilência se aproximava.

O arqueiro tinha que entrar desarmado na sala do trono, onde o rei os aguardava. Windshadow entrou, segurando Lisisca pelo braço, mas trocavam um olhar poderoso. Ela de medo, ele de remorso. O rei os observou, mas suas atenções foram para a bruxa. Lisisca o observou com desprezo, mas permaneceu em silêncio.

_ Bom trabalho, mercenário. Seu pagamento o espera com o tesoureiro real.
_ Permissão para ficar na cidade até o final da pestilência, majestade – falou secamente.
_ Que seja. Então, nobre Lisisca, a Loba. Enfim nos encontramos. Você colocou a cidade em pânico e agora vai reverter sua maldade. Retire a magia dos livros e inicie os encantamentos para erguer o escudo sagrado sobre a cidade. Agora mesmo.

A bruxa permaneceu impassível. Continuava observando o rei sem nada dizer.

_ O que fez com ela? Ela ainda tem poderes?
_ Tem. A pedra da lua drena a energia mágica de quem a usa.
_ E então minha cara? Comece agora os procedimentos e quem sabe eu não a julgue por traição.

O arqueiro a observou sentindo o coração acelerar. Lisisca nada fez a não ser fungar e olhar para o lado, não se importando com a presença real à sua frente.

_ Eu temia isso – disse o rei, que olhou para seus guardas rapidamente.

Os guardas agiram rápido. Um deu um soco no rim do arqueiro, que o fez soltar o ar com violência. Outros dois seguraram seus braços enquanto um punhal era apontado para sua garganta. Assustando-se com a truculência, Lisisca chegou a dar um passo para frente para tentar impedir, um reflexo de quando tinha ainda seus poderes. Olhou com medo para os olhos negros do arqueiro, que parecia calmo, mas seu corpo estava tão tenso quanto a corda de seu arco.

_ Retire agora a magia negra dos livros e inicie o encantamento ou faço picadinho do arqueiro aqui e agora.

Por um momento, tudo o que ela via eram aqueles olhos negros esperando uma decisão sua. Não podia deixar que algo acontecesse a ele. Seu desespero transparecia. Ela o amava, era fato. Não podiam machucá-lo. Seu coração pulsava sem saber o que fazer.

_ Eu faço – Lisisca disse – Eu faço. Deixe-o ir, por favor.
_ Quando fizer, eu deixo.
_ Solte-o agora ou não faço nada.
_ Não está em posição de pedir nada, mulher!
_ E nem sua alteza. Quer que eu proteja sua cidade? Tire Windshadow dela agora mesmo, devolva a montaria e suas armas. Ou vou deixar sua cidade para a peste.

O rei olhou para os guardas, que arrastaram o arqueiro relutante da sala do trono. Os dois conseguiram um último olhar antes que a porta se fechasse. Jogado do lado de fora da porta secundária da muralha, o arqueiro observou a alta torre do rei. Seu coração batia acelerado. O que fariam com ela? O cavalo foi devolvido, bem como suas armas, mas ele não tinha chances de voltar para dentro e salvá-la.

Quando a onda de pestilência chegou, ele estava na beira da estrada do rei. Tinha tentado encontrar maneiras de entrar em Wurth, mas não conseguira. Odiava estar de mãos atadas. Odiava não saber o que se passava. A nuvem negra se aproximou voraz dos topos da cidade, mas uma luz branca pura e cintilante protegia o ataque maléfico e barrou pelas próximas horas a ação pestilenta da velha magia negra conjurada séculos antes. Lisisca estava agindo. Devem ter retirado a pedra da lua e seus poderes voltaram.

Foi então que uma luz intensa envolveu a cidade inteira, pura e reluzente. E se apagou, deixando um claro céu de outono e um vento frio que soprava do mar. A peste se fora. Mas e Lisisca? Sem se dar por vencido, Windshadow decidiu arrombar a porta por onde veio e entrar na torre dos alquemios a cavalo se preciso fosse. Tinha que tirar Lisisca de lá. Colocou-se a caminho da porta escondida nos fundos da cidade quando a viu ser aberta. Jogada em meio à brita e poeira da estrada, Lisisca caiu no chão sem forças para se levantar. Um besteiro numa seteira mais à cima fez mira nela, mas penas de ganso logo despontaram de seu peito quando a flecha de Windshadow se enterrou nele, furando sua cota de malha. Outro besteiro tentou fazer o mesmo, mas recebeu uma flecha no olho como retribuição. O arqueiro cavalgou e usou o dorso do animal para fazer um escudo protetor, já que este usava uma cota de malha especial para montarias. Lisisca ergueu a mão pedindo ajuda. Ele a agarrou e a colocou em seus braços, enquanto cavalgavam para longe. Ele chegou a ouvir alguns disparos de flecha, mas nenhum os acertou. Eles iriam para o sul. Para a segurança. Tendo um ao outro, nada mais importava.

*Publicado originalmente no blog Renda Preta.

Sobre o Autor Sybylla °°:
Geógrafa, professora e blogueira. Escritora nas horas vagas. Curiosa em tempo integral.

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