Suspense
A CRIATURA NO FUNDO DO POÇO
Dos tijolos de pedra não tive medo, quando me seguraram e inclinaram o meu pescoço em direção ao poço. Vi fileiras que se entrecruzavam descendo na escuridão do abismo, sumindo em algum ponto que eu mal pude distinguir por causa da aflição que me tomava no momento. Pude apenas perceber o mau cheiro que exalava do fundo das águas, por causa de uma mistura de sal e enxofre que ali haviam preparado, para banhar o meu corpo, e assim lavar meus atos e pecados na presença da Inquisição.
Houve um momento que eu não consegui suportar mais nenhum daqueles olhares que os acusadores disparavam contra mim; desejei de todo o meu ser que me jogassem logo nas profundezas daquele inferno, antes que me deixassem louco – como assim acho que eles queriam. Contudo disseram que eu tinha por direito a uma última oração, disseram assim que, obteria misericórdia divina e seria perdoado – após a morte eminente -, pela condescendência da Igreja. Mas apenas olhei para um dos lados e avistei um par de gentes que gritavam e zombavam chamando-me de demônio e criatura perversa, enquanto cuspiam e atiravam pedras. O bispo que se ostentava pomposo em sua voz eloqüente rogou em latim algumas preces, e emitiu algumas palavras em direção ao poço. Então eu vi quando olhou severo para aqueles que estavam com os rostos encapuzados, e ordenou que me jogassem.




