Zumbis
Os trilhos
Sâm sentou no chão segurando o choro de desespero e tristeza por Paulo, executado, abatido como um animal. A Fúria vasculhava o terminal em busca de qualquer coisa que servisse como moeda de troca, mas já não tinha muita coisa por ali. Pegaram algumas roupas das lojas e outras bugigangas, mas no final, não tiveram tanta sorte. Nem usar o rádio ela podia, pois os capangas da milícia poderiam ouvir.
Seu coração pulou descompassado com alguém mexendo na tranca da porta.
A Fúria
Paulo fazia sua usual ronda a passos demorados pelo corredor do mezanino da estação Barra Funda, vigiando a entrada sul do complexo. Sentia o estômago roncar. De seu ponto de vista, via Sâm fazendo o mesmo na entrada norte, andando de cabeça baixa, imersa em seus pensamentos. Fazia meia hora que Germano, Luciano e Fábio tinham deixado o terminal dirigindo três ônibus de viagem de volta ao prédio da polícia federal. Eles voltariam em uma hora para levar mais três e assim ficariam a tarde toda se tudo desse certo. Havia pressa para esvaziar o centro de refugiados do Pacaembu. Além da milícia que se aproximava, um núcleo de zumbis bastante relevante estava nas imediações. Germano fazia voos constantes de helicóptero pela área, mapeando as regiões perigosas e mandando construir barricadas.
Os três não usariam a picape que continuava estacionada lá embaixo, para o caso de Sâm e Paulo precisarem de uma saída estratégica. Muita coisa podia dar errado numa missão assim, apesar de terem feito saídas muito calmas nas últimas duas semanas. Os zumbis estavam confinados em corredores sem luz pela cidade, enquanto o corredor de segurança criado por Germano permanecia praticamente inviolável. Havia barricadas nas ruas que impediam a ação tanto de zumbis quanto de milicianos. Estes últimos eram o principal problema. Eles dominavam a região alta da Pompeia e eram uma dor de cabeça constante enquanto tentavam forçar passagem para a zona norte da cidade. A única ponte funcional que conectava a região montanhosa da ZN com o resto de São Paulo era a ponte da Freguesia do Ó, fortemente guardada pela guarda nacional.
Sem liberdade
Júlia passava os dias na cela da detenção. Tinha cama, banheiro e até uma televisão com um DVD. Nos canais abertos havia apenas o aviso de transmissão de emergência ativado. Fora isso, nada. À sua disposição tinha Minority Report, Alien e Madagascar. Ao menos servia para se distrair.
Uma moça chamada Sâmela sempre fazia a sua guarda. Um outro sujeito trazia comida e água três vezes ao dia. Mas sentia que eles não sabiam bem o que fazer com ela. Nem Júlia sabia o que fazer. A ficha lentamente caía de que um ano se passou desde a morte do Leo, em que esteve sozinha durante todo esse tempo, lutando para sobreviver e tentar manter tudo o que era dele consigo. Mas se alguma maneira sentia que esse tempo teria que ficar para trás em algum momento.
Sobrevivendo II
A rotina já estava tão bem cristalizada na cabeça de cada um, que Germano não precisava mais dizer nada. Munições verificadas, armas destravadas, silêncio absoluto e fala baixa. Eram as palavras de ordem. Todas as armas que carregavam tinham que estar engatilhadas e prontas para uso antes de saírem do prédio da Polícia Federal. Do lado de fora do terminal urbano, cada um deu uma última verificada nos arredores, e caminharam na direção das escadas que levavam ao mezanino da estação.
Num dia normal, a Barra Funda tinha um movimento constante de trens do metrô e da CPTM, ônibus fretados, municipais e ônibus de viagem, chegando e partindo. Lojas, lanchonetes, livraria, farmácia, uma lotérica, guichês de atendimento e venda de passagens, recarga de bilhete único, tudo isso compunham um emaranhado comércio e um vai e vém de passageiros e trabalhadores, que mantinham viva a estação.
Sobrevivendo
Em sete anos na Polícia Federal, Sâmela lembrava-se de poucas situações em que precisou andar tão armada e em tanta atenção pelas ruas e em missões. Na verdade, tinha passado a fazer trabalho burocrático depois de problemas com o estresse do trabalho. Mas um mundo tomado por mortos que andam e têm fome pela carne humana mudam tudo. Mudam o modo de encarar a vida em si. Mudam o modo como a morte é vista, já que ela é encontrada facilmente em todos os lugares.
Cada vez que saíam do prédio, sua adrenalina era despejada no sangue à velocidade da luz. Toda paramentada para uma missão potencialmente suicida, Sâmela já ignorava o peso do equipamento que tinha preso no corpo. Armas, munições, granadas e uma embalagem de Trident melancia já no fim. Ser mulher em um apocalipse era muito complicado. Sempre vinha um palhaço com aquela história de perpetuar a espécia. Tá bom! Ela meteria uma bala na cabeça antes de deixar qualquer babaca daqueles lhe encostar um dedo. Germano já tinha salvado sua pele duas vezes antes de colegas ensandecidos, com medo do dia seguinte.



