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O FOSSO

I

Nas profundezas escuras havia,
Nada mais que o silêncio intenso.
Oculto nas toscas formas do fosso jazia,
Uma natureza estranha, um ser ungüento.

Ao lado da capela vazia,
Havia um fosso cinzento.
Nada mais ali existia,
E tudo vivia a sinfonia do vento.

Olhando atentamente para a abertura do fosso,
Além das profundezas escuras,
Sentia o ar ofegante da respiração;
A batida simétrica do coração;
O desejo de redenção da natureza oculta.

Seus olhos brilhavam como fogo,
Seu hálito, uma alma congelaria.
Seu pai era o medo de viver entre todos,
Sua mãe a dúvida se o amor entre todos existia.

II

Caminhando através do inesperado,
Diante do fosso escuro me deparei.
Onde todas as narrações anteriores relatam,
Os terríveis fatos que presenciei.

Temendo ver meu medo transmutar-se em carne,
Senti o peso do Pólo Ártico ofegar meu coração.
Segurei minha alma com preces sem nome,
Ocultei meu rosto entre as mãos.

Na agonia da espera
Sentindo o abraço fúnebre da morte,
Imaginava-me sucumbindo diante do fosso,
Cedendo perante qualquer existência de fé ou sorte.

Minha face humana desapareceria,
As lágrimas inundariam a convicção de meu olhar,
Meu sorriso amigo entre todos não existiria,
Apenas as lembranças esquecidas você iria encontrar.

III

Mas quando a luz após aurora,
Beijou os lábios macios da terra.
A escuridão cedeu a sua glória,
Retornando ao limbo das trevas.

As silhuetas tomaram formas,
As almas desencarnaram;
Nevoa transformou-se em orvalho;
Seus olhos vermelhos, verdes ficaram.

Sob a escama teceu a pele,
Sob o crânio, longos cabelos dourados,
Uma face moldou sua carranca,
Um sorriso lhe preencheu os lábios.

IV

Ao vê-la acuada no fosso,
Um brilho iluminou minha alma.
Fulminando meus desejos mais íntimos:
De ouvi-la entoar gemidos profundos,
Livrar-te da agonia do mundo,
Te-la e amar-la.

Mas ao primeiro toque na pele macia,
Notei que a escuridão ainda oscilava,
Sentimentos em seu coração não havia
E a perversidade lhe moldava.

Roguei pragas a sua face demoníaca,
Que ao sobro do vento se manifestava.
Como cinzas ao sopro sua beleza partia,
Aqui minha ilusão acabara.

Meu desprezo foi a sua passagem de ida,
Ao obscuro sub-mundo do fosso cinzento.
As lembranças que residem em minha mente,
São apenas velhas esperanças perdidas,
Esquecidas neste momento.

V

O fosso existe, ainda reside lá.
Cultuando velhas lembranças
Que sofri para deixar:
Ao sopro do vento,
Ao vazio das lembranças,
Aos velhos tormentos
e a morte da esperança.

 

Sobre o Autor Domenium:
Márcio Domenes ou propriamente “Domenium”, pseudônimo de assinatura, não é meramente um contista contemporâneo daquilo que comumente definimos como literatura fantástica. O autor apenas se utiliza de elementos surreais e lúdicos do universo irreal para narrar o que há de mais corrosivo, melancólico e solitário na alma humana: o fardo de suas desventuras e o escapismo ao mundo das ilusões. Pois tão dantescas quanto as criaturas de outros planetas e deuses adormecidos são os percalços da vida humana rumo a loucura do não existir na sociedade contemporânea. Sociedade que o autor considera fadada a loucura devido às relações humanas estarem sendo pautadas com os mesmos critérios das relações mercantilistas: custo/beneficio. Domenium considera a nossa sociedade inóspita para a vida em si e através de seus contos surreais, poéticos e filosóficos o autor narra às desventuras de seus personagens desajustados, fanáticos, míticos e solitários em períodos e épocas distintas, porém, confrontando-se com a mesma reflexão existencial. Podemos notar essas características em dois contos clássicos de sua cosmologia literária “A Estética do Diabo”, “Tempos ímpios de dor e cólera” e “Um Capricho Divino” Além de contista o autor é fotógrafo e estudante da sétima arte. Em seu site pessoal – Imemorável – podemos conferir além seus escritos literários, artigos sobre o universo das artes, cinema, cultura e entretenimento. IMEMORAVEL www.domenium.blogspot.com

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