O inusitado caso Spencer
Capitulo um
Certo de que o calor daquele mês de outubro anunciava chuvas torrenciais, chuvas nada agradáveis quando encaradas por um homem solitário numa estrada barrenta, decidi que minha viagem deveria ser pausada. Atravessar o país em uma carruagem com meia dúzia de criados e poucas malas não é a mais segura nem a mais eficiente das viagens, mas visto que o legado de meu pai agora se limitava à dívidas, sendo, para deixar-nos em situação ainda mais desagradável, seus credores agiotas, eu deveria sair da cidade da maneira mais discreta possível. Não só para que minha saída não fosse frustrada, mas por que as mirradas economias que fiz com minhas poucas consultas de médico recém formado não permitiam extravagâncias.
Por isso os planos para minha viagem incluíam alguns dias de pernoite na casa de um amigo de infância que ficava entre minha, até então, atual moradia e a cidade portuária onde um navio me levaria para longe de uma vida perturbada que me consumia física e espiritualmente. Um amigo de infância. Infância vivida numa região do interior na qual grandes famílias viviam em grandes casas, isoladas pelas distâncias e densos bosques circunvizinhos a cada uma das mansões que salpicavam esse extenso pedaço de terra. Mesmo com o relativo isolamento era comum a reunião das crianças todos os domingos nas missas celebradas em uma pequena capela mais ao norte da nossa velha casa, casa que já não era nossa. Vendida por meu pai depois do triste acontecimento que deu fim a minha mãe e mais três criados. Mas é um caso que não cabe nesse relato.
De qualquer forma minha viagem seria impossível sem um velho amigo para me conceder abrigo em sua casa. Johanes, meu melhor amigo até os quinze anos, não relutou em abrir sua casa para mim quando recebeu uma carta alguns meses antes em que eu, na época já planejando minha fuga, pedia asilo em seu lar. Tamanha foi minha felicidade ao receber sua resposta positiva que me esqueci completamente que a casa Spencer, grande família de comerciantes, tinha mais do que um filho. Johanes tinha uma irmã, a jovem Joana. Seu gênio poderia ter me feito repensar a possibilidade de dormir na estrada.
Mas quando eu levantei acampamento e parti para a casa de meu amigo já era tarde. As regras de cortesia me impediam de anunciar minha chegada e depois não aparecer para o encontro. Preparativos seriam feitos, os móveis seriam limpos, um quarto para mim seria arrumado, roupas de cama limpa estendidas, a estrebaria seria aberta para a chegada de meus animais e alimento viria de longe para me servir e a meus criados. Tal esforço não poderia ser em vão, eu não queria, ainda mais agora em minhas duvidosas condições, criar inimizades. E lembro-me claramente de meus pensamentos amaldiçoando a formalidade cavalheiresca a que todos obedecíamos. Como diria minha avó, use o talher errado numa conferencia de estados e inicie uma guerra continental.
Já atado ao inevitável compromisso minha carruagem se dirigia à casa de meu amigo, Johanes Spencer. Enquanto me aproximava do grande portão rústico de madeira tosca mal trabalhada, que era o primeiro limite da propriedade de Spencer, comecei a puxar pela lembrança coisas a muito passadas. Não me recordo ao certo se o fiz para enganar o tédio da viagem mono rítmica ou para evitar gafes diante de tão cordial anfitrião.
Mas um fato é que tão logo as lembranças vieram minha atenção foi atraída para a bela Joana Spencer. Lembrava-me muito bem dela, e como esquecer? Sempre foi a menina mais bonita nas reuniões dominicais. E não por seus belos vestidos de seda rendada, ou pelos cabelos negros perfeitamente cacheados que emolduravam seu rosto e seus traços marcantes. O que mais me atraia era seu gênio. Uma jovem curiosa de olhos grandes e inquisidores. Apesar de sua curiosidade ter sido uma de suas maiores marcas, lembro-me que de todas as crianças ela era a única que cumpria religiosamente as tarefas dadas pelo pároco. Os demais enrolavam e despistavam, para depois ir brincar pelos bosques e pomares. Sua curiosidade não era científica. Os anos de faculdade e estudos de filosofia me mostraram, grosso modo, que uma pessoa pode ter fortes vínculos com o mundo material, o que era meu caso, e também poderia ter uma forte inclinação aos assuntos espirituais e sobrenaturais, o caso de Joana. Sua personalidade curiosa se revelava nas sessões de cultos que fazíamos todos os domingos. Ela sempre erguia o braço para fazer as mais diversas perguntas relacionadas à alma e aos mortos. De fato pouco ela perguntava sobre Deus. E essa curiosidade de menina se acentuou conforme cresceu.
Um leve solavanco e o meu cotovelo que estava apoiado na janela da carruagem, apoiando também meu antebraço que por sua vez apoiava minha cabeça como uma coluna, se chocou contra uma quina me tirando de minha meditação. Ao sair dos devaneios percebi o quão incrustadas essas memórias estavam em minha mente. Mal me recordava dos outros rapazes e moças, e até mesmo o próprio Johanes parecia um vulto em minha mente. Não me lembro de ter tido qualquer intimidade com Joana, mas sua imagem é tão forte em minha mente, de uma maneira quase surreal, que chego a crer que algumas delas são frutos de fantasias.
Sem mais tempo para divagar sobre isso eu decidi que era melhor fazer uma última análise de mim mesmo, para saber se estava apresentável. A poeira de estrada faria até o mais belo príncipe parecer um trabalhador braçal. Olhei minhas roupas e pareciam limpas, os cabelos estavam bem penteados e o hálito doce. Estava pronto para o encontro, mas algo dizia que minhas belas vestes não seriam o bastante para uma boa recepção.
Capitulo dois
Minha ansiedade era intensa e conforme a carruagem avançava eu ficava mais inquieto, olhava pela janela, mas a vista não me distraia e isso era estranho já que os belos bosques eram uma paisagem a ser contemplada. Quando finalmente saímos da estrada de terra e entramos em uma via cobertas por paralelepípedos de pedra, algo muito fino que apenas as mais importantes famílias tinham, eu comecei a me sentir como um animal engaiolado. Comecei a trocar de assentos constantemente, sentia que meus músculos queriam se descolar dos ossos e correr, para onde não sei, mas iriam para o lado oposto de minhas vísceras, que também se contorciam. Não sabia na hora, mas a ansiedade não era de alguém prestes a ver um grande amigo, mas de um animal enjaulado que sabe estar indo para o abate.
A confusão daqueles pensamentos e aquelas sensações contraditórias que sentia em meu corpo eram tão intensas que senti algo querendo sair do fundo de minha mente. Algo queria abrir caminho por entre meus pensamentos, algo queria vir à luz da consciência e por algum motivo esse sentimento abstrato e imaterial, eu nem sequer sabia nomeá-lo, era reprimido por mim. Ao mesmo tempo em que minha mente se inquietava querendo descobrir o que se passava e entender o que acontecia ela também queria manter nas sombras esse estranho pedaço de memória.
A carruagem sacolejava com violência e isso dificultava ainda mais o entendimento dos pensamentos que forçavam sua emersão em minha mente. Decidido que seria inútil tentar descobrir naquele momento o que seria eu olhei pela pequena janela para ver o quanto faltava. Coloquei a cabeça entre duas pequenas cortinas de seda, de cor escarlate, e olhei para frente, ainda não se via a mansão Spencer. Mas algo peculiar em relação aquela estrada revestida de pedras me deixou ainda mais inquieto. Por entre os paralelepípedos cresciam ervas daninhas de toda a sorte, muitas eram grandes o bastante para fazer parte da estrada parecer uma espécie de pasto. Sem dúvida, se alguma lembrança eu tinha daquela casa era de que a ordem, a limpeza e o aprumo eram leis.
Sentei-me novamente e divaguei sobre o que poderia ter acontecido. O velho Spencer vinha de uma linhagem muito nobre, família de comerciantes que tinham propriedades que iam da província a metrópole. Muito apegados às tradições. Talvez sua morte, me informada numa carta vinda de Johanes há alguns anos, possa ter posto fim ao legado da família, deixando seus dois filhos entregues ao descaso.
De qualquer forma me parecia óbvio que ninguém mais andava por aquela pequena estrada. Tal estado significava que nem cavalos nem outro animal qualquer passavam por aquela via, caso contrário o mato que crescia livremente agora teria sido pisoteado e tal aparência não seria percebida.
Por volta das quatro horas da tarde a carruagem parou em uma pequena praça em frente à grande mansão. O verão fazia os dias serem mais longos, por isso assim que desci pude contemplar a fachada branca da mansão divinamente iluminada pelos raios alaranjados do sol que banhavam toda a entrada. Logo que firmei meus pés a carruagem seguiu por uma pequena via lateral para a estrebaria. A fachada prendeu meu olhar por um instante e enquanto esticava minhas costas e minhas pernas a nostalgia da infância me tomou de surpresa.
A entrada da casa, outrora imponente como um castelo, agora me parecia mais comum, sem dúvida ainda majestosa, mas não tinha aquele ar de magia que minha mente infantil projetara em sua estrutura. Um criado bem vestido e de muito boas maneiras se aproximou de mim e após uma gentil reverência me pediu para entrar “O senhor Johanes o aguarda em seu quarto” ele disse.
Capitulo três
Muito me estranhou meu amigo não ter vindo me receber, mas logo pude compreender o motivo. Quando cheguei a seu quarto e o vi entendi que sua constituição já nem lhe permitia sair para receber um velho conhecido. Ainda no batente da porta diante de um magnífico quarto mobiliado com móveis escuros de carvalho eu o vi deitado em sua cama. Diante de mim estava uma figura estranha, cadavérica de olhos fundos com olheiras escuras. Um homem muito magro com a fronte enrugada e veias azuis que lhe dominavam as feições. A pele recoberta de manchas avermelhadas e o rosto coberto por uma barba muito mal cuidada. Seus longos cabelos estavam emaranhados e por um momento quase questionei se esse era mesmo aquele velho Johanes que eu vi pela última vez a mais de dez anos. Como poderia um homem jovem estar em tal estado?
Minha hesitação em ir cumprimentar-lhe foi óbvia para meu anfitrião que logo quebrou o gelo dizendo com uma voz um tanto rouca, mas muito entusiasmada:
-Vamos meu caro! Venha cá me dizer um olá! Sei que pareço estar nas portas do inferno, mas o diabo sabe que não me verá tão cedo! Hahaha! Não se preocupe, o mal que me aflige não o afligirá, fui o único desgraçado dessas redondezas a cair deitado por tal enfermidade.
Meu amigo se esforçou um pouco e conseguiu de levantar de sua cama, passos trôpegos em minha direção e um grande sorriso no rosto. Logo percebi que de fato era o velho Johanes, e fui dar-lhe um abraço. A princípio ainda sentindo um pouco de repulsa por seu estado, mas logo que advertido por um médico que estava tudo bem minha mente descansou e pude relaxar.
Depois de cumprimentar Johanes e conversar sobre assuntos triviais, como minha viagem e o progresso que ele fizera nos negócios da família, eu me peguei pensando em Joana e tão logo o fiz toquei no assunto:
-Meu caro, não posso deixar de perguntar-lhe como vai sua bela irmã. Diga-me, ela ainda mora aqui?
A expressão de Johanes se transformou. A caveira que alegremente sorria para mim foi tomada por um profundo pesar, e me fez até questionar se a jovem estava sequer viva.
-Oh! Sim, minha irmã ainda mora aqui. E muito se alegrou ao saber que você vinha. Minha excitação ao saber de sua visita foi tão grande que me esqueci de mencioná-la em minha carta. Logo poderá vê-la.
-Mas por que parece tão abatido? – Perguntei a Johanes sem entender o que se passava.
-O médico diz que há indícios que ela contraiu o mesmo mal que eu. Não quero que ela, ainda tão jovem, definhe.
De fato seria uma triste perda se a Joana acabasse como o irmão. Depois de mais conversa eu percebi alguns sinais de fatiga em meu interlocutor e decidi dar-lhe um tempo de descanso.
Saí para os jardins da mansão. Belas roseiras me esperavam, plantas silvestres e grandes árvores frutíferas. Os jardins eram a parte favorita de minha mãe nesta casa quando vínhamos passar férias e desfrutar a companhia uns dos outros. Mas grande foi minha surpresa ao chegar aos fundos da mansão e ver uma triste cena. Os grandes canteiros agora estavam tomados pelo mato. As trepadeiras que subiam pelas paredes de trás da mansão dando uma linda coloração verde agora eram apenas pequenos galhos de cor amarelada e secos. As ervas selvagens tomavam conta de tudo e até mesmo as belas e viçosas árvores pareciam ter secado até a morte. Com um suspiro deixei os jardins. Ao voltar para o salão principal vi Joana em cima das escadas. Uma linda mulher, agora plenamente desenvolvida tinha uma beleza imponente que já era anunciada em sua adolescência, ao olhar para sua imagem o sangue em minhas veias congelou.
Capitulo quatro
No topo da escadaria principal em minha frente estava uma bela forma com um longo vestido branco rendado, cabelos presos em coque, faces levemente maquiadas e um sorriso triunfante no rosto. De fato uma expressão curiosa, como a de alguém que vence uma discussão ou vê um desafeto em necessidades.
Enquanto ela descia as escadas para falar comigo lembranças me vieram de nossa adolescência. Sim, nossa, já que me lembro de ter convivido com ela boa parte de tal período. Como relatei anteriormente não me lembro de ter tido qualquer tipo de intimidade com Joana, mas fato é que fomos próximos durante a adolescência. Todos os rapazes queriam sua atenção, mas apenas eu a conseguia. Talvez pelo fato de nunca a ter desejado.
E foi nessa época que Joana mudou de uma maneira não agradável. Sua curiosidade se acentuou e ela começou a faltar aos cultos e cerimônias para buscar respostas próprias. Não sei por qual razão eu a acompanhava.
Nossos pais eram omissos, talvez por não entenderem bem a situação, e por torcerem para que um casal se formasse e unisse as casas. As coisas são diferentes no interior, e nossas escapadas eram contempladas com a vista grossa dos adultos, lembrando que na época deveríamos estar entre treze e quatorze anos. Gostar-me-ia de relatar nesse momento a descoberta do amor e todas essas coisas que acontecem no início da adolescência. Mas o que tenho a dizer talvez seja ainda mais interessante do que isso.
Nessa época Joana se afeiçoou às literaturas góticas que seu pai guardava na biblioteca. Vários volumes que narravam histórias sombrias em porões e castelos medievais, nobres cavaleiros enfrentando o sobrenatural em nome de sua amada ou em nome da loucura que assolava constantemente os heróis de tais aventuras. E sempre que escapávamos nos escondíamos na biblioteca onde ela me mostrava toda sorte de livro que seu pai escondia de suas vistas, inutilmente já que a curiosidade de Joana não era facilmente enganada.
E essas leituras aguçaram ainda mais aquele espírito que começava a ficar obcecado com a morte e com os mortos. Não poucas vezes nos vimos andando pelo cemitério que ficava atrás da capela. Enquanto todas as crianças corriam para os grandes pomares, que no verão tinham um doce cheiro vindo das mais diversas frutas que amadureciam, nós ficávamos andando entre os túmulos. Joana muito divagava sobre o que acontecia depois da morte, e não tardou até que os livros a enfadaram e ela decidiu procurar algo mais para satisfazer sua curiosidade.
Não tenho plena recordação de onde Joana conseguiu seus novos livros, mas se não me engano vieram da pequena cidade de Aldershot onde seus pais a levavam regularmente. Estive lá uma vez também, fui com a família Spencer.
Mas não tive tempo de pensar naquela visita, mais tarde eu vou relatar já que nesse momento é imperativo dar seguimento aos acontecimentos. Joana desceu e parou em minha frente, ainda com seu ar triunfante que começava a me incomodar.
-Joana, faz mesmo um bo…
-Bom tempo, sim, você ficou dez anos fora. Divertiu-se? – Joana me interrompeu bruscamente
-Err… Sim, de certa forma, foi bom mudar de ares…
-Ah Claro! Como se fosse de sua livre e espontânea vontade deixar nosso belo refúgio…
-Não compreendo… – Disse virando um pouco o rosto como que para aguçar a audição
-Ah! – Joana parecia irritada – Falamos disso depois. De qualquer forma, vá descansar que logo daremos um passeio. Pelos velhos tempos, sabe?
Nem pude responder. A Jovem mulher saiu pela esquerda e foi para outro aposento mais afastado. Fiquei um tanto perturbado com aquele primeiro encontro, tinha preparado toda minha cortesia e até mesmo alguns assuntos caso o silêncio constrangedor dominasse o ambiente. Mas Joana parecia muito à vontade e dispensou qualquer cortesia agindo daquela maneira. Fiquei dividido, por um lado estava confuso com sua atitude, mas por outro aliviado por não ter que obedecer a regras de etiqueta já que ela não se importava com isso.
Essa confusão me acompanhou enquanto eu andava pela casa fazendo um ritmado e agradável som com a bengala que batia no soalho, não que eu a necessitasse, mas andar com aquele adereço me dava muito prazer. Um resquício dos velhos tempos eu dizia a mim mesmo. Andei bastante e quando o tédio começava a vencer a distração que o passei pela grande casa sobre magnífico e lustroso soalho eu decidi voltar aos meus aposentos.
Cruzei com uma criada em um dos longos e bem decorados corredores da mansão e gentilmente lhe perguntei onde eu iria dormir. Ela de forma muito educada fez uma reverência, atitude que, diga-se de passagem, não era comum em todas as casas, mas era uma exigência na mansão Spencer, e me respondeu que eu dormiria no quarto de hóspedes no segundo andar. Eu agradeci com um movimento de cabeça e segui batendo minha bengala fazendo um sonoro “toc toc”.




Não vejo a hora de ler o final.