Os trilhos
Sâm sentou no chão segurando o choro de desespero e tristeza por Paulo, executado, abatido como um animal. A Fúria vasculhava o terminal em busca de qualquer coisa que servisse como moeda de troca, mas já não tinha muita coisa por ali. Pegaram algumas roupas das lojas e outras bugigangas, mas no final, não tiveram tanta sorte. Nem usar o rádio ela podia, pois os capangas da milícia poderiam ouvir.
Seu coração pulou descompassado com alguém mexendo na tranca da porta.
_ Fechada!
Ouviu o homem gritar e seus passos se afastarem. Uma segunda vez alguém tentou sem sucesso e Sâm podia ouvir uma conversa indistinta ao longe. Após umas duas horas abaixada no chão sujo do banheiro, sentindo o suor verter da testa, com a arma engatilhada no colo, A Fúria deixou o lugar.
Tentando olhar pela fresta da porta, ela nada conseguia ver além do piso de granito do mezanino. Desvirando a tranca com cuidado para não fazer barulho e ainda rente ao chão, Sâmela espiou o lado de fora. Nada. Nenhum movimento. Sujeira e folhas pelos corredores, cadeiras e bancos. Dando passos difíceis por estar agachada, ela conseguiu sair do banheiro e se jogar rente à mureta, por onde observou as catracas da estação. As grades que trancavam a entrada do metrô estavam caídas, talvez quando a população entrou em pânico e tentou invadir o lugar. Mas fora isso, não havia movimento. Quando olhou para o lado de fora, reparou que tinha problemas. Estava escurecendo. E ficar à noite na rua não era nem um pouco seguro. Como se não bastassem os zumbis nas zonas de sombra, tinha muito marginal que conseguia se virar sozinho e matava quem aparecesse pela frente.
Quando tentou usar o rádio, ele apitou o sinal de bateria fraca. Era o que faltava…
_ Que merda… – ela murmurou.
Rodando no lugar sem saber exatamente o que fazer, Sâm respirou fundo, prendeu novamente o cabelo, pondo mechas irregulares no lugar e olhou ao seu redor. Se conseguisse correr pela avenida principal até o prédio da polícia federal talvez chegasse a tempo.
Um barulho repentino a assustou. Apontando o pesado fuzil para a fonte do som, ela nada viu. Pensou ter ouvido passos. Uma garrafa pet vazia saiu rolando de trás de um quiosque do Rei do Matte. Outro zumbi? Caminhando com cuidado, Sâm foi chegando perto. Mas não havia nada. Ao olhar no fundo do mezanino, viu o alojamento dos funcionários e seguranças, onde havia refeitório, vestiários e sala do supervisor. Achou estranho a porta balançar. O vento batia de norte para sul, não de leste para oeste. Ajeitando o fuzil no ombro e deixando o dedo no gatilho, ela caminhou até lá. Sabia que no fundo da estação existiam escadas de serviço que levavam aos trilhos. Saindo pelos trilhos, seu caminho seria mais fácil do que pela avenida. Contornando bancos, balcões e quiosques, ela olhou para o interior. A porta do fundo estava aberta, jogando um pouco de luz do dia lá dentro. Em breve, Germano acenderia as luzes.
Qual não foi sua surpresa quando uma sombra empurrou a porta e a derrubou com violência no chão. Um tiro disparado de susto parecia ter deixado a figura ainda mais descontrolada, que arrancou o fuzil de Sâm e o jogou deslizando pelo chão. Munido de um cassetete preto, o indivíduo começou a bater em Sâm com violência, mas ela se protegia com o braço. Prendendo um pé atrás do calcanhar do agressor, ela bateu em seu joelho com o pé livre e ele caiu gritando de dor por sobre o joelho bom. Antes mesmo do cassetete cair no chão, Sâm o pegou no ar e bateu em sua cabeça com força.
_ Pare! Pare, por favor… pare!
Foi então que ela percebeu que um zumbi não gritaria de dor nem falaria. Com a estação cada vez mais obscurecida, ela ligou a pequena lanterna presa em seu colete. O homem caído no chão, sem se barbear, vestido com um uniforme preto bastante puído era um dos seguranças da estação Barra Funda. Ele a atacou com seu cassetete de serviço, já que não podiam portar armas. Mas para todos os efeitos, ele tinha poder de políca nos limites da estação.
_ Você quer morrer, seu otário? – ela esbravejou, tendo que controlar o nível da voz.
_ Eu fiquei com medo que fosse a Fúra… – ele resmungou.
_ Tá sozinho?
_ Sim, desde que tudo começou.
_ E não pensou em ficar com a família? – ela o ajudou a se levantar.
_ … se eu tivesse – ele levou a mão à cabeça, que sangrava – Você é federal – ele disse com surpresa.
Sem nada dizer, Sâm pegou de volta seu fuzil e limpou o sangue no lábio. Colocou-o no seu lugar de costume e se aproximou dele, deixando a arma pronta.
_ O que aconteceu, por que está aqui?
_ A Fúria matou meu colega e eu fiquei pra trás. Tem alguma saída desse lugar que a gente possa…
Tiros, explosões, gritos. Tudo isso não muito distante dali os deixou em alerta.
_ O que foi isso? – o segurança se assustou.
_ Deve ser minha equipe… ou a Fúria – ela admitiu com relutância.
O ambiente estava mais escuro do que deveria. Germano já deveria ter acendido as luzes. O que ele pretendia.
_ Isso é ruim, esse escuro todo é ruim.
O segurança correu até a porta no final do corredor e de fato, estava bastante escuro do lado de fora. O corredor iluminado de segurança que o delegado tinha criado não estava acesso.
_ As linhas estão seguras?
_ O que? – ele a observou sem entender a pergunta.
_ A linha do trem está segura? Tem zumbis nela?
_ Deve ter… mas o que você vai fazer?
_ Tenho que voltar para o prédio – ela verificava munição, olhou todas as suas armas, enquanto o segurança imaginava se ela louca ou não.
A linha do metrô terminava na Barra Funda, mas a linha do trem ia sentido interior e passava muito perto do prédio da polícia federal. Se seguisse por ele, a Fúria não a veria e ela teria alguma vantagem. No entanto, se havia zumbis ali, ainda mais com aquele escuro, ela teria um problema sério. Olhando para o horizonte escurecido, vendo os contornos da serra sumirem na penumbra, ela sentiu o coração acelerar. Devia mesmo fazer aquilo? Mais barulhos de tiros e explosões se seguiram ao seu pensamento. Hora de agir.
_ Você vem?
_ Você é doida, é? Deve tá cheio de zumbis nos trens da CPTM, nos trilhos, no terminal Lapa…
_ Fique então.
Descendo as escadas rapidamente, Sâm colocou mais um chiclete na boca e começou a mastigar freneticamente enquanto corria pelo trilho. Trens enferrujavam nas plataformas, um cheiro pútrido vinha de algum lugar. Seria uma longa caminhada.
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Geógrafa, professora e blogueira. Escritora nas horas vagas. Curiosa em tempo integral. |



