Sem liberdade
Júlia passava os dias na cela da detenção. Tinha cama, banheiro e até uma televisão com um DVD. Nos canais abertos havia apenas o aviso de transmissão de emergência ativado. Fora isso, nada. À sua disposição tinha Minority Report, Alien e Madagascar. Ao menos servia para se distrair.
Uma moça chamada Sâmela sempre fazia a sua guarda. Um outro sujeito trazia comida e água três vezes ao dia. Mas sentia que eles não sabiam bem o que fazer com ela. Nem Júlia sabia o que fazer. A ficha lentamente caía de que um ano se passou desde a morte do Leo, em que esteve sozinha durante todo esse tempo, lutando para sobreviver e tentar manter tudo o que era dele consigo. Mas se alguma maneira sentia que esse tempo teria que ficar para trás em algum momento.
Sobrevivendo II
A rotina já estava tão bem cristalizada na cabeça de cada um, que Germano não precisava mais dizer nada. Munições verificadas, armas destravadas, silêncio absoluto e fala baixa. Eram as palavras de ordem. Todas as armas que carregavam tinham que estar engatilhadas e prontas para uso antes de saírem do prédio da Polícia Federal. Do lado de fora do terminal urbano, cada um deu uma última verificada nos arredores, e caminharam na direção das escadas que levavam ao mezanino da estação.
Num dia normal, a Barra Funda tinha um movimento constante de trens do metrô e da CPTM, ônibus fretados, municipais e ônibus de viagem, chegando e partindo. Lojas, lanchonetes, livraria, farmácia, uma lotérica, guichês de atendimento e venda de passagens, recarga de bilhete único, tudo isso compunham um emaranhado comércio e um vai e vém de passageiros e trabalhadores, que mantinham viva a estação.
O inusitado caso Spencer
Capitulo um
Certo de que o calor daquele mês de outubro anunciava chuvas torrenciais, chuvas nada agradáveis quando encaradas por um homem solitário numa estrada barrenta, decidi que minha viagem deveria ser pausada. Atravessar o país em uma carruagem com meia dúzia de criados e poucas malas não é a mais segura nem a mais eficiente das viagens, mas visto que o legado de meu pai agora se limitava à dívidas, sendo, para deixar-nos em situação ainda mais desagradável, seus credores agiotas, eu deveria sair da cidade da maneira mais discreta possível. Não só para que minha saída não fosse frustrada, mas por que as mirradas economias que fiz com minhas poucas consultas de médico recém formado não permitiam extravagâncias.
Por isso os planos para minha viagem incluíam alguns dias de pernoite na casa de um amigo de infância que ficava entre minha, até então, atual moradia e a cidade portuária onde um navio me levaria para longe de uma vida perturbada que me consumia física e espiritualmente. Um amigo de infância. Infância vivida numa região do interior na qual grandes famílias viviam em grandes casas, isoladas pelas distâncias e densos bosques circunvizinhos a cada uma das mansões que salpicavam esse extenso pedaço de terra. Mesmo com o relativo isolamento era comum a reunião das crianças todos os domingos nas missas celebradas em uma pequena capela mais ao norte da nossa velha casa, casa que já não era nossa. Vendida por meu pai depois do triste acontecimento que deu fim a minha mãe e mais três criados. Mas é um caso que não cabe nesse relato.
Sobrevivendo
Em sete anos na Polícia Federal, Sâmela lembrava-se de poucas situações em que precisou andar tão armada e em tanta atenção pelas ruas e em missões. Na verdade, tinha passado a fazer trabalho burocrático depois de problemas com o estresse do trabalho. Mas um mundo tomado por mortos que andam e têm fome pela carne humana mudam tudo. Mudam o modo de encarar a vida em si. Mudam o modo como a morte é vista, já que ela é encontrada facilmente em todos os lugares.
Cada vez que saíam do prédio, sua adrenalina era despejada no sangue à velocidade da luz. Toda paramentada para uma missão potencialmente suicida, Sâmela já ignorava o peso do equipamento que tinha preso no corpo. Armas, munições, granadas e uma embalagem de Trident melancia já no fim. Ser mulher em um apocalipse era muito complicado. Sempre vinha um palhaço com aquela história de perpetuar a espécia. Tá bom! Ela meteria uma bala na cabeça antes de deixar qualquer babaca daqueles lhe encostar um dedo. Germano já tinha salvado sua pele duas vezes antes de colegas ensandecidos, com medo do dia seguinte.
A escuridão de Germano
Aquele era o último cigarro do maço, mas Germano queria afastar a fome. Tragou profundamente e soltou a fumaça devagar enquanto caminhava no terraço do prédio da Polícia Federal, na pista do heliponto, de onde tinha uma visão bastante privilegiada da cidade. Via focos de incêndio em bairros distantes, zumbis podres zanzando pelas ruas do outro lado do rio, barricadas montadas nas ruas próximas ao prédio.
Sentou calmamente em um degrau, recebendo a brisa fria da manhã e continuou tragando seu cigarro. Estava intrigado com a moça que quase matou com um tiro na cabeça dias antes. Ele a mantinha na detenção, mas a pouca pesquisa que conseguiu fazer o deixou ainda mais ressabiado. Todas as armas eram registradas. Mas algumas delas e o veículo no estacionamento estavam registrados no nome de Leonardo Fernandes Silva Leite, investigador da Polícia Civil atuando no GOE e desaparecido desde a evacuação da cidade. Leia o texto completo »



