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Sobrevivendo II

A rotina já estava tão bem cristalizada na cabeça de cada um, que Germano não precisava mais dizer nada. Munições verificadas, armas destravadas, silêncio absoluto e fala baixa. Eram as palavras de ordem. Todas as armas que carregavam tinham que estar engatilhadas e prontas para uso antes de saírem do prédio da Polícia Federal. Do lado de fora do terminal urbano, cada um deu uma última verificada nos arredores, e caminharam na direção das escadas que levavam ao mezanino da estação.

Num dia normal, a Barra Funda tinha um movimento constante de trens do metrô e da CPTM, ônibus fretados, municipais e ônibus de viagem, chegando e partindo. Lojas, lanchonetes, livraria, farmácia, uma lotérica, guichês de atendimento e venda de passagens, recarga de bilhete único, tudo isso compunham um emaranhado comércio e um vai e vém de passageiros e trabalhadores, que mantinham viva a estação.

A ideia do governo era criar um corredor seguro de passagem de tropas e sobreviventes entre o estádio do Pacaembu, onde tinha um centro de refugiados sob guarda militar até o prédio da polícia federal, mas as milícias vinham fazendo um bom trabalho em recrutar jovens soldados para suas frentes de saques e violência. O que o governo ainda tinha em mãos era um efetivo reduzido em menos da metade, pois uma parte morreu ou se transformou e a outra desertou.

Cabia a Germano em tentar tornar esse corredor de segurança realidade. Ele mandou construir barricadas em toda as grandes avenidas e despachou equipes para vasculhar edifícios, casas e comércios. Mas mesmo assim tinham problemas. O hospital Sorocabana na Lapa tinha sido bombardeado quando o surto lá se tornou incontrolável, mas o hospital São Camilo era um foco de mortos-vivos.

Sâmela estourou outra bola de chiclete, enquanto sentia o dedo no gatilho do rifle de assalto com silenciador fornecidos pelo Exército e que era a melhor arma que tinham. Assim podiam abater os zumbis sem fazer muito barulho, o que era uma diferença entre vida e morte para cada um deles. Olhando para os colegas, enquanto eles vasculhavam os cantos do terminal urbano cimentado e abandonado, percebia que para eles era mais um dia, mais uma missão. Incrível como as pessoas acabam se habituando à tragédia de maneira tão insensível.

Um grupo de doze zumbis estava rodopiando no lugar, presos pela penumbra da laje da estação que suportava um jardim, agora um mato sem controle que crescia avidamente nos canteiros. Tiros rápidos e certeiros derrubaram todos eles, alguns ainda sem moviam, mas seus joelhos estavam estraçalhados por tiros e assim não podiam ficar em pé. Germano ainda rodou no lugar com o fuzil vendo se estavam sendo seguidos, enquanto os companheiros subiam rapidamente as escadas.

A plataforma de embarque do metrô, sempre apinhada num dia normal, estava abandonada. Mato crescia por entre os trilhos onde alguns ratos circulavam, enquanto o trem já enferrujando estava parado logo no começo da plataforma, forrada de papéis, folhas, mochilas, bolsas e roupas que ficaram da correria da evacuação. Sâmela pegava o metrô para ir para a faculdade naquela mesma plataforma antes de entrar para a polícia. Tempos distantes.

Lá em cima, eles saíram ao lado da delegacia do metropolitano, onde os casos ocorridos dentro da estação eram registrados e onde os famosos urubus (seguranças da estação que usavam roupas pretas, daí o nome), eram baseados. Muito pó e folhas secas se acumulavam pelo chão. A estação era aberta nas laterais e portanto estava à mercê das intempéries após tantos meses de abandono e falta de manutenção. As plantas se avolumavam no canteiro à direita da escada enquanto à esquerda era uma queda livre até os trilhos. Enquanto Paulo verificava os escritórios da delegacia, Fábio vasculhou os banheiros. O terminal rodoviário era do outro lado, passando os trilhos, uma caminhada não longa, mas que só tinha um caminho. Germano ia na frente, enquanto os companheiros verificavam espaços vazios e fechavam portas.

A grande rampa que atravessava a avenida e conduzia os passageiros para as catracas tinha uma barricada de sacos de areia e uma grande metralhadora de assalto estacionada nela. O cheiro forte denunciava, tinha zumbis ali. Sâmela estourou a cabeça de um que abriu a boca enegrida em sua direção. Ele tombou por trás dos sacos de areia. Uma segunda rampa de acesso estava também bloqueda e inacessível. Eles correram até o final do mezanino, onde ficavam as escadas e rampas para o terminal rodoviário. Enquanto Sâmela cuidava da passagem, Germano, Luciano e Fábio seguiram correndo até as plataformas lá embaixo. Ela guardava a rampa norte, Paulo guardava a rampa sul, ambas bloqueadas por barricadas.

Diversos ônibus de viagem estavam parados na plataforma, sujos e mal cuidados. Havia algumas malas pelo caminho, alguns corpos já bastante deteriorados estendidos, muita sujeira e poeira. Os pneus de alguns deles estavam murchando. Teriam que dirigir vários deles até a garagem da PF e lá fazer alguns reparos. Se não tivesse chave na ignição não tinha problema, eles tinham uma chave universal para isso, mas o problema era a bateria. Germano esperava que pudessem ligá-los sem mais problemas. Fábio e Luciano foram abrindo as portas para vasculhar o interior daqueles que pareciam ter mais condições de viajar. Enquanto isso, Germano seguiu pela plataforma e saiu na direção da avenida que passava pelo lado norte do terminal. A grade tinha sido derrubada. A ideia do delegado era ir até o posto de saúde que existia no final da calçada, já quase fora da Barra Funda. Remédios e vacinas eram essenciais, porém, durante meses o terminal esteve no escuro. O que quer que as geladeiras tivessem, já não prestavam mais.

O cheiro denunciava o que ele encontraria e encontrou. Corpos amontoados em sacos pretos e mortalhas dentro do posto que estava revirado. O ar estava tão carregado com o ar pútrido que Germano conseguiu pôr para fora o meio pão com leite que comeu pela manhã. Quase escorregou no necrochorume que estava mais ou menos seco na calçada lisa. Fábio e Luciano se olharam com certa ironia no olhar. Nunca tinham visto Germano vomitar antes. Nunca o tinham visto demonstrar fraqueza nenhuma.

Sâmela enchia uma bola de chiclete e a estourava. Sempre fazia isso quando estava nervosa. Mesmo que achasse que não estava, mas estava. Se pegou olhando para as roupas em uma vitrine quebrada à sua frente. Estavam expostas e sujas pelo tempo, as máquinas de cartão ainda sobre o balcão.

Um barulho súbito chamou sua atenção e ela estendeu o rifle para frente, sentindo o coração disparar. Tinham sido passos?

_ Paulo, Sâmela, situação? – Germano perguntou pelo rádio.

_ Plataforma sul, tudo limpo – disse Paulo observando a fachada da universidade do outro lado da rua.

_ Plataforma norte – Sâmela estava tensa – tudo limpo.

Ela ouviu o barulho de novo. De longe, Paulo via sua movimentação.

_ Sâmela? – ele apertou o botão do rádio no colete.

_ Segue.

_ O que cê viu aí?

_ Não sei, ouvi um barulho.

_ Deve ser um cachorro perdido – sabia que ela se assustava à toa.

Passo após passo, ela seguiu em direção a um quiosque da Casa do Pão de Queijo que ficava na entrada dos guichês de venda de passagens rodoviárias. Podia sentir o suor escorrer da testa. O barulho ficava cada vez mais alto. E esse ela conhecia. Viu pés estendidos saindo de trás do balcão verde. Sangue escorria. Um som típico de mastigação subia no ar. Quando Sâmela apontou o rifle e mirou, era uma criança, uma menina. Cabelos emaranhados, olhos mortos e baços, boca cheia de sangue e carne. Sem conseguir reagir à cena, Sâmela abaixou o rifle e sentiu lágrimas virem aos olhos. Sua pequena Adriana tinha morrido em um hospital quando levou uma mordida no braço de uma professora logo nos piores dias da infecção. E curiosamente, apesar de Adriana ser mais nova, ambas se pareciam nas feições do rosto. Ela comia o que restou de um homem. O abdômen estava aberto e as tripas estavam todas roídas.

Dando passos para trás, sem saber como agir, esquecendo do dever, da arma, ela pensou que deveria se afastar, apenas se afastar do perigo. Mas era uma daquelas coisas desprovidas de alma, de caráter, de identidade, que poderia matar alguém. Pelo estado do corpo da menina, ela tinha se transformado recentemente. Um rugido conhecido se ergueu no ar. Sâmela podia ver sua sombra por trás do balcão, ocilando. Viu a sombra se tornar maior, ela estava se levantando.

_ Sâm? – Paulo perguntou pelo rádio ao vê-la estacar no lugar em que estava.

A menina apareceu banhada em sangue e apesar do primeiro tropeço, ela olhou fixamente para Sâmela e correu em sua direção. Sem conseguir pegar o fuzil para mirar, ambas foram ao chão. E foi então que tudo aconteceu ao mesmo tempo. Enquanto as duas iam ao chão, Paulo levou um susto, mas teve tempo de reagir. Apoiou um joelho no chão, posicionou a arma junto ao ombro e disparou. Sâmela sentiu um zupt! muito rápido zunir perto do seu rosto e a menina tombou ao seu lado.

A respiração estava rápida e Sâmela sentia o coração galopar no peito. Estava tremendo. Nunca tinha sofrido um ataque desses antes, sempre conseguiu evitar essas coisas muito bem.

_ Sâm… – Paulo a ajudou a se levantar, tendo surgido do nada – Fala comigo, cê tá bem?

_ …. hã?

_ Acorda, tá bem? Ela te mordeu?

_ Não – olhou para as mãos trêmulas, nada de marcas – Nada, estou bem.

_ Levanta.

Pouco jeitoso, ele segurou na alça que ficava nas costas do colete e a colocou de pé. As pernas estavam um pouco trêmulas, mas estava de pé. Paulo observava a criança. Entendia a falta de reação da colega. Crianças transformadas eram a pior parte. Sâmela nem queria olhar. Ele lançou um olhar compreensivo e sem esperar um agradecimento, voltou para sua posição.

Afastando-se do pequeno corpo que jazia agora morto definitivamente, Sâm puxou seu cantil que estava preso nas costas e tomou um gole de água. Sentia um gosto de ferro na boca, provavelmente, ela mordera a língua na hora do ataque… Ou será que…

Sobre o Autor Sybylla °°:
Geógrafa, professora e blogueira. Escritora nas horas vagas. Curiosa em tempo integral.

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