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Sobrevivendo

Em sete anos na Polícia Federal, Sâmela lembrava-se de poucas situações em que precisou andar tão armada e em tanta atenção pelas ruas e em missões. Na verdade, tinha passado a fazer trabalho burocrático depois de problemas com o estresse do trabalho. Mas um mundo tomado por mortos que andam e têm fome pela carne humana mudam tudo. Mudam o modo de encarar a vida em si. Mudam o modo como a morte é vista, já que ela é encontrada facilmente em todos os lugares.

Cada vez que saíam do prédio, sua adrenalina era despejada no sangue à velocidade da luz. Toda paramentada para uma missão potencialmente suicida, Sâmela já ignorava o peso do equipamento que tinha preso no corpo. Armas, munições, granadas e uma embalagem de Trident melancia já no fim. Ser mulher em um apocalipse era muito complicado. Sempre vinha um palhaço com aquela história de perpetuar a espécia. Tá bom! Ela meteria uma bala na cabeça antes de deixar qualquer babaca daqueles lhe encostar um dedo. Germano já tinha salvado sua pele duas vezes antes de colegas ensandecidos, com medo do dia seguinte.

Medo era a palavra de ordem. Por mais armas que tivesse, por mais treinamento que tivesse, nada tinha preparado as autoridades para o potencial destrutivo de um apocalipse zumbi, ainda mais em São Paulo, com todo o seu caos contemporâneo orquestrado nas ruas diariamente. Se o homem sempre foi o lobo do homem, o fato de ter homens mortos agindo como caçadores era tão diferente do dia a dia? Sâmela achava que não. Era só mais um dia na cidade morta, mais uma saída para garantir a segurança, a diferença é que um zumbi não escolhe sua presa. Ele não é seletivo, ele rebaixa todos os seres humanos, ricos ou pobres, negros ou brancos, homens ou mulheres em sobreviventes. Apenas sobreviventes.

Germano dirigia a picape, Sâmela ia com ele na cabine, Paulo, Luciano e Fábio atrás, garantindo a passagem tranquila com suas miras bem treinadas. Mesmo calados, ela sabia que estavam todos nervosos. Cada saída era igual. A volta era normalmente diferente. Ou voltavam com suprimentos ou voltavam com corpos de colegas. Encontrar sobreviventes ocultos nas casas era cada vez mais raro, pois com o fim dos suprimentos, as pessoas vinham morrendo de fome.

Havia ainda energia elétrica em algumas partes da cidade. Uma tropa federal guarnecia a usina de Itaipú e garantia o fornecimento. Certas parte da cidade permaneciam no escuro enquanto outras brilhavam como uma supernova para manter os zumbis afastados, que tinham uma natural fotofobia por suas pupilas dilatadas.

O delegado andava encucado com a moça que quase matou no meio da marginal Tietê. A moça era visitada constantemente pela doutora Carla que lhe dava analgésicos e levava comida. Na verdade, ele não sabia o que fazer com ela, que já estava havia quase uma semana na detenção, pedindo para sair de lá. Ninguém gosta de ficar encarcerado, mas ela provavelmente estava no lugar mais seguro da cidade.

Até a Barra Funda o caminho estava parcialmente limpo. Eles tinham conseguido assegurar toda a região da Lapa de baixo até perto da ponte destruída do Piqueri e conseguia manter o mercado municipal do bairro com energia e funcionando. A guarda nacional ocupava o lugar, distribuindo o que havia de alimento ali, que já estava acabando. Também asseguraram os mercados da região, e era com isso que eles mantinham os níveis de comida e bens de higiene e limpeza.

Nem tudo eram flores. Milícias constantemente saqueavam os mercados que ainda restavam na área em que a energia ainda era fornecida. Germano sabia que era uma questão de tempo até a comida industrializada acabar e este tempo estava chegando. Havia membros da guarda nacional nos depósitos de grandes supermercados, indústrias alimentícias, granjas, açougues de grande porte, mas o problema era a distribuição.

A ideia de ir para a Barra Funda foi de Fábio. Havia um campo de refugiados isolado na serra da Mantiqueira com condições de receber pelo menos mil sobreviventes de São Paulo. Era pouco, mas eles já contavam com 9 mil e subindo. Mas para fazer isso, precisavam de ônibus, coisa que no terminal rodoviário da Barra Funda tinha de montes. A região, no entanto, era pra lá de movimentada na época pré-dia Z. E ainda era com a quantidade de mortos rodando por ali. Dois dias antes, Germano pediu ao governador que ligasse a energia da região. Assim, o terminal brilhou como um show de rock e afastou a maioria dos zumbis da área. Desde a evacuação mais de um ano atrás que os ônibus estavam lá parados, então deviam ter combustível e espaço suficiente para transportar se não todos de uma vez, aos poucos pelo menos.

O terminal da Barra Funda era um grande complexo metroviário e rodoviário. Tinha um movimentado terminal de ônibus municipais, além de ser a última estação da linha vermelha do metrô na zona oeste e uma linha de trem da CPTM. Era um eixo que direcionava os usuários para diferentes regiões da Grande São Paulo, agora um fóssil encravado numa região morta, com mato crescendo pelas fendas do asfalto. Os trens enferrujavam nos trilhos, as catracas estavam em silêncio.

Quando a picape parou, Sâmela viu alguns dos malditos perambulando sob a cobertura do terminal de ônibus municipais. Engatilhou a arma, estourou a bola do chiclete e abriu a porta. Hora de agir.

Sobre o Autor Sybylla °°:
Geógrafa, professora e blogueira. Escritora nas horas vagas. Curiosa em tempo integral.

4 Comentários para “Sobrevivendo”

  • Muito bom Sy!

    Já comecei a sentir falta da Júlia, e espero que ela esteja bem. Mas vamos ver o que a Sâmela vai fazer agora rsr

  • Não se preocupe, a Júlia vai voltar. :D

  • Como já comentei com você, adoro o fato de como o seu texto permite a criação de imagens mentais tão ricas e detalhadas. Consegui imaginar todo redor da Barra Funda em completo breu e e só a estação iluminada. Acredito que chegar lá deve ser quase um alívio após correr de um monte de zumbis.

    Aliás, ir de noite é suicídio! XD

    Um super abraço,

    tio .faso

  • tio.faso,

    assim vc me envaidece, vou começar a me achar! :P

    Obrigada, sei que você curte muito esse ambiente distópico.

    Ir na Barra Funda num dia normal é já uma atividade digamos… intensa, imagine num apocalipse zumbi!

    Bjão.

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